Edição digital – outros lados de várias moedas


Por Felipe Lindoso | Publicado originalmente em PublishNews | 20/08/2013

Normalmente a edição digital está associada aos e-books e e-readers. Mas não é tão simples assim. Já mencionei que o uso de formatos digitais pelas editoras do segmento técnico-científico está próxima de comemorar seu vigésimo aniversário.

Na área dos tradicionais livros impressos, os processos gráficos passaram, nos últimos anos, por transformações igualmente grandes e significativas. Aliás, as transformações técnicas dos processos de impressão têm impactos diretos na quantidade e na qualidade dos livros tradicionais ofertados. A mais recente dessas transformações é a da impressão digital.

A eletrofotografia [reprodução por meios eletrostáticos de um original, foto ou texto], desenvolvida pela Xerox, no final nos anos 1950, foi onde tudo começou. Anos depois a Xerox fundou o PARC – Palo Alto Research Center, matriz de inúmeras inovações tecnológicas na área da reprodução [impressoras a jato de tinta e laser], e dos computadores pessoais.

A chamada “xerografia”, como ficou popularmente conhecida, com máquinas cada vez mais complexas, desembocou nos anos 1990 na DocuTech, uma máquina apresentada como a primeira “fábrica de livros”, que imprimia página por página um original, compaginava e apresentava na ponta o miolo do livro, pronto para ser encadernado. A DocuTech foi o primeiro sistema integrado de impressão sob demanda.

Muita água rolou por baixo dessa ponte, e a Xerox há muito deixou de ser quase monopólio de copiadoras e impressoras. Várias empresas entraram no mercado, seja nas impressoras domésticas, máquinas copiadoras ou impressoras de grande porte. Nos últimos anos, os processos de impressões sob demanda [POD, em inglês] vêm assumindo importância crescente. No mercado global de impressões, a impressão digital chega a apenas 4% do total de impressos produzidos, mas o crescimento é contínuo e rápido, segundo Maurício Ferreira, gerente do segmento Indigo & Inkjet Web Press da Hewlett Packard.

Semana passada, assisti como convidado a uma apresentação sobre impressão digital promovida pela HP. Foi um evento direcionado particularmente para o mercado de livros didáticos. Hoje há máquinas capazes de competir com rotativas offset, e com uma vantagem adicional: a capacidade de produzir livros praticamente individualizados. Ou seja, o conteúdo adaptado para um único consumidor/leitor/estudante.

Uma das apresentações mais interessantes do evento foi feita por Allen C. Schulz, que trabalhou 33 anos na McGraw-Hill, onde foi um dos principais arquitetos e desenvolvedores do segmento de livros personalizados, impressos sob demanda.

Acompanho as experiências da McGraw-Hill há vários anos. A empresa foi pioneira na adoção do POD, reduzindo drasticamente estoques. Segundo Schulz, foi também pioneira na produção de livros didáticos customizados, já nos anos 1980. O processo de composição e preparação de originais utilizava a linguagem Postscript, de difícil uso para os propósitos pretendidos.

No entanto, segundo Schulz, o processo valia a pena pela diminuição dos estoques [os livros eram produzidos em tiragens específicas para cada grupo de consumidores], e diminuição do mercado de livros escolares usados. O que aqui acontece de modo quase amador, com os colégios e faculdades fazendo feirinhas nas quais os alunos repassam para os colegas mais novos os livros usados no ano anterior, nos EUA já era um negócio estruturado, com empresas especializadas na compra dos usados, limpeza e recondicionamento e venda.

Nos anos 1990, passam a ser usadas pela McGraw-Hill as suítes Adobe Acrobat e Adobe Creative, de uso bem mais fácil, padronizando os processos. Nessa época também foram instituídas as primeiras bibliotecas digitais de conteúdo. Nessas bibliotecas, os conteúdos dos livros publicados pela McGraw-Hill podiam ser “fatiados” em capítulos, e os próprios professores montavam o conteúdo dos livros adotados. Era uma “pasta do professor” impressa, legalizada e vendida na livraria da universidade. Os próprios professores foram estimulados a produzir material digital que pudesse ser incorporado aos livros [licenciado e remunerado]. Os processos gráficos foram sendo desenvolvidos a partir de uma parceria da editora com a HP e gráficas.

A partir do início do novo século começaram a testar impressoras ink-jet para a produção dos livros. Mais importante ainda, a formatação do material passou a ser em XML, a matriz de praticamente todas as linguagens de formatação gráfica existentes hoje, permitindo uma flexibilidade anteriormente mais difícil.

A associação entre a McGraw-Hill e a HP se desenvolveu em outros segmentos. A editora decidiu transferir todos seus processos de produção e pré-impressão para a Índia. A medida, entretanto, se desenvolveu com uma política estrita de imposição de qualidade e preço. É um processo comum, na situação em que uma grande empresa alcança um tamanho capaz de impor condições estritas aos fornecedores. Ou seja, não é nem privilégio nem foi invenção da Amazon, e muitas outras empresas que alcançam esse nível de controle da produção sistematicamente impõem padrões e preços. Também não é privilégio das empresas. Um exemplo parecido é a que o FNDE impõe aos editores no fornecimento dos livros didáticos aqui.

A introdução da impressão digital, com sua grande flexibilidade, permite a elaboração de conteúdos que podem ser produzidos para atender especificações dirigidas até o consumidor individual. Conjuntos de livros para classes e cursos específicos já são rotina.

Mas a impressão digital provocou outras mudanças importantes. O ajuste da oferta à demanda, por exemplo. Anteriormente, os editores tinham que calcular [com base na sua experiência, cada vez mais sofisticada, é claro], qual deveria ser a tiragem de cada título. A impressão sob demanda deixa de lado essa exigência. Não apenas podem fabricar livros individualizados, como cada tiragem é ajustada perfeitamente à demanda. Portanto, há uma menor dependência na previsão de produção.

Outro aspecto importante é o da redução dos estoques. E a redução dos estoques aliada aos processos de impressão digital, produz outros dois efeitos de grande importância na economia da editora. O primeiro é a eliminação do “mercado secundário” dos livros usados. Porém, ainda mais importante, é o processo de “obsolescência programada” das edições. Na medida em que os livros são produzidos para cada classe [ou pelo menos para cada curso], e modificados facilmente de um ano para o outro com o uso desses enormes “bancos de dados”/bibliotecas digitais de conteúdo, além das notas e contribuições de professores, os livros usados por uma turma são inaproveitáveis para as turmas seguintes. O que, evidentemente, é ótimo para a editora, e péssimo do ponto de vista social. Não existe mais o reaproveitamento do livro usado.

Os processos de “montagem” de conteúdo e impressão em pequenas tiragens permitem também o desenvolvimento de mercado de nichos, ou o teste de conteúdos em nichos específicos e de modo controlado.

Finalmente, o desenvolvimento de facilidades locais para impressão digital proporcionou ainda outra economia em logística. Quanto mais próxima estiver a gráfica digital do consumidor final, menor será o custo de transporte. Recentemente as grandes transportadoras dos EUA tiveram que refazer cálculos de produtividade e ocupação com a proliferação dos armazéns da Amazon. Como o frete é cobrado por faixas de distância calculadas em um raio a partir do ponto de recolhimento, a produção localizada começa a afetar o uso do transporte terrestre.

Essas modificações no sistema de produção gráfica e editorial, decorrentes da introdução de sistemas digitais em uma extensão cada vez maior, ocorre, evidentemente, fora dos olhos do consumidor final. O livro tradicional, impresso, também se transforma com os avanços tecnológicos.

Essas considerações aqui são feitas levando em conta o segmento dos livros didáticos [em todos os níveis de ensino, em maior ou menor grau]. No Brasil ainda estamos bem longe da sofisticação tecnológica dos EUA. Até porque, é bom não esquecer, o maior volume na produção de livros didáticos é o comprado pelos programas governamentais. Segundo informações da Abrelivros [dadas por Antonio Luiz Rios, vice-presidente da entidade no evento da HP], os programas governamentais absorvem 80% da produção, mas geram apenas 50% do faturamento das editoras do setor. Os 20% absorvidos pelo mercado geram a outra metade do faturamento, e essa faixa poderá ser melhor explorada com a sofisticação da produção de conteúdo.

Além do setor tradicional das editoras didáticas, os chamados sistemas de ensino também crescem [e quase todas as editoras também têm sistemas]. Nessa área pode haver um aumento consistente no uso desses processos digitais.

Algumas instituições de ensino superior já usam modelos parecidos. Há universidades particulares que, para alguns cursos, incluem no preço da anuidade o custo do material didático desenhado especialmente, entregue aos alunos. E a ABDR, em uma encabulada retirada da mania persecutória das reprografias, lançou a “Pasta do professor”, uma fórmula que era usada há quase trinta anos pela McGraw-Hill e outras editoras de livros técnico-científicos e universitários dos EUA.

O impacto da impressão sob demanda na área dos livros de interesse geral é outro capítulo, que tentarei abordar melhor em outra ocasião.

Por Felipe Lindoso | Publicado originalmente em PublishNews | 20/08/2013

Felipe Lindoso

Felipe Lindoso é jornalista, tradutor, editor e consultor de políticas públicas para o livro e leitura. Foi sócio da Editora Marco Zero, diretor da Câmara Brasileira do Livro e consultor do CERLALC – Centro Regional para o Livro na América Latina e Caribe, órgão da UNESCO. Publicou, em 2004, O Brasil pode ser um país de leitores? Política para a cultura, política para o livro, pela Summus Editorial. Mantêm o blogwww.oxisdoproblema.com.br

A coluna O X da questão traz reflexões sobre as peculiaridades e dificuldades da vida editorial nesse nosso país de dimensões continentais, sem bibliotecas e com uma rede de livrarias muito precária. Sob uma visão sociológica, este espaço analisa, entre outras coisas, as razões que impedem belos e substanciosos livros de chegarem às mãos dos leitores brasileiros na quantidade e preço que merecem.

Livros inteligentes


A medida que a humanidade evolui, tornam-se cada vez mais sérios os problemas gerados pela tecnologia obsoleta da palavra impressa. Só para dar um exemplo: apenas na área médica, são adicionados ao conhecimento mundial cerca de um milhão de palavras por hora, publicadas em mais de 6.000 livros novos por mês, e mais de 25.000 revistas e outros tipos de periódicos. A maior biblioteca médica do mundo [a National Library of Medicine, situada em Washington, nos EUA], tem em seu acervo mais de 650.000 livros médicos, e cerca de 20 milhões de artigos impressos. Para armazenar apenas os títulos e nomes de autores destas obras, é necessário um gigantesco arsenal de computadores, os maiores que são fabricados atualmente. E o pior é que, segundo o que a própria NLM admite, ela não chega a cobrir 50% de tudo que é publicado em Medicina, mundialmente !

O crescimento explosivo do conhecimento impresso gerou muitos problemas, mas o principal deles é que, se este ritmo continuar, acabaremos todos ignorantes… por excesso de saber. Torna-se cada vez mais difícil localizar o conhecimento desejado e manter-se em dia com a evolução do conhecimento, mesmo em áreas extremamente especializadas. O que fazer diante da débâcle do sistema que Herr Gutemberg iniciou, tão inocentemente, 400 anos atrás ?

Um desenvolvimento tecnológico previsto com muito otimismo foi a disseminação maciça dos meios eletrônicos de publicação, tais como redes de computadores, videotexto, videodiscos, etc. Mas porque a mídia eletrônica ainda não “decolou”, como merecia ? Evidentemente, porque o livro, a revista e o jornal oferecem ainda muitas vantagens, além de qualidades sensoriais e estéticas que dificilmente são reproduzidas eletronicamente. A impressão é um meio bastante econômico de armazenar e disseminar informação, ainda.

O que precisa mudar, evidentemente, é a “embalagem” da informação eletrônica, ou a forma como ela é distribuída aos usuários. Uma das primeiras idéias sobre como seria o livro do futuro foi proposta há mais 20 anos, por Allan Kay, um cientista norte-americano da Xerox Corporation, que previu o aparecimento, por volta de 1990, do que ele chamou de Dynabook, ou livro dinâmico. O Dynabook seria um computador portátil, de baixo consumo de energia, com o tamanho e aspecto exato de um livro. Ao ser aberto, mostraria duas telas em forma de páginas, onde apareceriam textos e ilustrações, em cores, e com legibilidade perfeita, igual as de um livro impresso. Só que, na realidade, ele representaria milhares ou milhões de livros em um só. Pressionando uma tecla, ou encostando o dedo nas páginas, o leitor provocaria um “virar de páginas” eletrônico, permitindo avançar ou recuar no texto. Uma gigantesca capacidade interna de memória, e pequenos cartuchos removíveis de memória garantiriam uma biblioteca eletrônica inesgotável, à disposição do feliz possuidor de tal maravilha.

A tecnologia de gravação óptica permitiu que essa previsão já esteja se tornando realidade. Hoje é possível comprimir-se 500 milhões de caracteres em um disco de plástico metalizado de 8 cm de diâmetro. Isto dá para armazenar mais de 200 livros de 200 páginas cada um ! Estes discos, que utilizam a mesma tecnologia laser dos CDs de áudio permitem ainda armazenar ilustrações em cores, bem como sons em estéreo [que tal ler um livro sobre óperas de Puccini, no qual trechos de gravações originais de Caruso são tocadas para você pelo livro ?].

Recentemente a empresa japonesa Sony lançou mundialmente o DataDisc, um aparelho pouco maior do que um walkman, que tem uma tela de cristal líquido e um pequeno teclado. Inserindo-se um disquete laser no aparelho tem-se acesso ao texto completo a às ilustrações de um número muito grande de livros. Para ter uma idéia, juntamente com o aparelho, que custa cerca de US$ 500 no exterior, são fornecidos um disco contendo uma enciclopédia com 26 volumes, outro com um dicionário universal de tradução simultânea de 20 idiomas um para o outro, e um terceiro disco com uma enciclopédia de saúde e medicina. Entre as obras já disponíveis para o DataDisc, encontram-se uma edição da Bíblia, as obras completas de Shakespeare, e muitas outras. A forma de uso do DataDisc é exatamente igual à prevista para o Dynabook, com uma vantagem: existe um programa de busca, que permite especificar a palavra ou palavras que queremos achar no texto, em qualquer combinação. Após um tempo muito curto, o DataDisc localiza os trechos exatos do livro ou enciclopédia onde essas palavras podem ser encontradas, e os mostra na tela.

Vemos então que o Dynabook não só seria um livro eletrônico, mas também um livro inteligente. Com um pouco mais de tecnologia, ele poderá até “conversar”, “raciocinar” e “argumentar” com o seu leitor, tornando a aquisição do conhecimento uma coisa dinâmica e divertida. Aliás, este era o intuito original de Kay, ao propor o Dynabook: a revolução na sala de aula.

Quem sabe até que, nas bibliotecas do futuro, os livros poderão conversar entre si. Fantástico, não é mesmo ? É só imaginarmos que, se um livro for dotado de capacidade de aprender e armazenar novos conhecimentos, de forma autônoma, o seu dono poderá mandá-lo fazer periodicamente um “estágio” numa biblioteca de boa reputação, onde ele, lado a lado com livros mais especializados e “sabidos”, absorverá tudo o que for de futura utilidade para o seu dono…

Por Renato M.E. Sabbatini | Publicado originalmente em Jornal Correio Popular – Campinas | Copyright © 1992-1995 | 6/2/92