Por editora, conta própria ou com a ajuda dos amigos: está fácil publicar um livro


Há cada vez mais opções para quem não faz questão de publicar um livro por uma editora tradicional

Conhecer o processo editorial deu serenidade para Vanessa C. Rodrigues, 31 anos, esperar. Foram 10 anos entre o início da escrita de Anunciação e seu lançamento agora.

No meio do caminho, surgiram algumas alternativas, como inscrever o original em prêmios como o do Sesc, porta de entrada para muitos autores estreantes. Mas o livro não tinha páginas suficientes para ser considerado um romance, conforme apresentado nos editais. Podia ter mexido nele, mas não. Com sua novela debaixo do braço, ela foi pesquisar quem estava aberto a novos autores. O livro acabou na Rocco e, embora não tenha sido contratado, aquela primeira leitura deu segurança para que ela continuasse tentando. E só encontrou portas fechadas. “Eu pensei em fazer autopublicação, mas era importante ter um selo, alguém apostando no livro. Se não tivesse dado certo agora, eu teria tentado mais, embora eu não seja conhecida”, conta.

Por um lugar ao sol. Biblioteca Nacional guarda todos os livros registrados

Por um lugar ao sol. Biblioteca Nacional guarda todos os livros registrados

Vanessa ainda não é conhecida; ela trabalha nos bastidores, como revisora e preparadora de livro, e seu nome aparece discreto na folha de rosto dessas obras. Mas ela tem um amigo escritor, André de Leones, que acreditava na novela, e ele tem uma agente literária, Marianna Teixeira. Ele pediu para a agente dar uma lida no Anunciação e ela gostou da obra. Por coincidência, a editora Oito e Meio estava atrás de uma nova autora e foi consultar Marianna. Pronto, Vanessa tinha uma editora. Ela não se viu diante de um contrato tradicional, mas tampouco teve de bancar parte da edição, como ocorreu [e isso é comum], com o Noturno e Cinza, volume de poemas de 2014. Mas se a primeira tiragem [de 80 exemplares] não se esgotasse num determinado período, ela teria de comprar os volumes. Deu tudo certo, a tiragem foi vendida e os novos pedidos – por ora, pelo site da editora – serão impressos sob demanda.

O pacote completo – edição, impressão, distribuição, divulgação – é geralmente oferecido pelas grandes casas e Carlos Andreazza, editor do Grupo Record, diz que não é impossível que estreantes ou aqueles que mandam seus originais para a editora sejam editados. Ele dá o exemplo de Marcos Bulcão. Seu livro O Filósofo Peregrino foi pinçado de uma lista de cerca de 20 originais recebidos mensalmente por correio e 30 por e-mail. “Ele chegou assim e foi publicado, mas é preciso ser franco: a melhor maneira de chegar a uma editora é ser recomendado por alguém”, comenta.

A Record tem lançado novos nomes, mas os números assustam. Pelas contas do editor, são cerca de 25 lançamentos de ficção nacional por ano de um total de mais de 400 títulos publicados por todos os selos. “Pensamos muito antes de publicar. Cada vez menos as livrarias acreditam em literatura brasileira, então o mercado impõe que sejamos conservadores.

Na Patuá, são cerca de 150 originais por mês. Mesmo editando muito, e só brasileiros, Eduardo Lacerda diz que não consegue ir além dos 10 lançamentos mensais. Uma outra opção entra as independentes é a temporada de originais da Grua. Mas será preciso esperar a terceira edição – em março, o editor Carlos Eduardo Magalhães anuncia os escolhidos entre os 240 trabalhos inscritos.

Desde 2010, decidimos não receber mais originais. A estrutura é muito pequena para uma recepção continuada”, explica. Mas, como um dos princípios é publicar literatura brasileira contemporânea, o concurso foi um bom meio termo. Dos 194 inscritos na primeira edição, quatro foram lançados.

Para além do mercado tradicional, o horizonte é mais democrático – e populoso. Criado em 2009, o Clube de Autores publicou 50 mil livros de brasileiros. Na verdade, eles mesmos publicaram as obras na plataforma em digital e/ou para impressão sob demanda. Dá para fazer isso sem gastar nada, mas quem quiser pode contratar revisores, capistas, etc, pelo site. O custo final varia de acordo com os serviços, mas Ricardo Almeida, um dos sócios, diz que ele pode custar entre 2 mil e R$ 3 mil. E é o autor que escolhe por quanto o livro será vendido. “Não tenho dúvidas de que o futuro está na autopublicação. E o futuro é justamente a quebra de intermediações. É deixar o público como responsável pela escolha dos livros que farão mais ou menos sucesso”, diz.

Nina Müller encontrou seu público – primeiro no Wattpad e agora no KDP, a plataforma gratuita de autopublicação da Amazon. Ela tem 7 livros [como Ardente Cativeiro da Fênix] à venda e no serviço de assinatura Kindle Unlimited. “Optei pela autopublicação por ser mais rentável do que a editora em que eu estava. Eu ouvia comentários sobre livros digitais e quis arriscar”, conta. Seus números: 8.200 de e-books vendidos e 2,5 mi de leituras.

Para quem tem o sonho de ver o livro na estante, promover uma noite de autógrafos, existe sempre a opção de fazer o livro com uma gráfica rápida, mas as decisões não são simples e é disso que depende o resultado: gramatura do papel, cola ou costura, A5 ou A4. Serviços como o do Clube acabam facilitando o processo. E ele não está sozinho.

Na Livrus, o escritor conta até com serviço de ghost writer e de gestão de carreira. Os pacotes começam em R$ 200, mas, segundo a publisher Chris Donizete, o gasto médio é de R$ 2.500 para livros de 96 a 128 páginas. Em três meses, ele está pronto.

No dia 30, às 15h30, a empresa anuncia, na Martins Fontes da Paulista, a parceira com o Catarse. “Percebemos que o valor era o que pesava mais na hora da publicação. Quando recebiam nossa proposta, ficavam satisfeitos, mas muitos não dispunham da quantia para a publicação.” Nesse sentido, a iniciativa se aproxima do Bookstart, plataforma de financiamento coletivo de projetos literários que também oferece serviços editoriais, comerciais e de eventos.

Por Maria Fernanda Rodrigues | Publicado originalmente em O Estado de S.Paulo | 23 Janeiro 2016, às 05h 00

Plataforma de autopublicação fecha os olhos para pirataria


Por Eduardo Melo | Publicado originalmente em eBookNews | 21/09/2015 | clique para acessar a matéria original

Esta semana, abri conta em uma plataforma muito conhecida de autores e leitores, a Wattpad. É uma mescla de rede social e plataforma de publicação, pela qual um autor pode escrever e publicar seus textos diretamente para os leitores. A empresa, capitalizada por vários fundos de risco, se definiu durante alguns anos como o “Youtube dos livros” – hoje afirma ter 40 milhões de usuários. A Wattpad aceita publicações em português, e o que você encontrará lá é surpreendente: uma pirataria de ebooks correndo totalmente solta.

Logo que comecei a navegar na Wattpad e abri a primeira categoria, Aventura, uma enxurrada de ebooks piratas, em português, surgiram na tela]. Dezenas deles. Edições de Harry Potter, Maze Runner, Jogos Vorazes, vários Percy Jackson, entre outros mais ou menos conhecidos do público jovem. Todos completos [no Wattpad o “autor” também pode publicar aos poucos, por capítulos].

Os leitores destas versões piratas, estariam dispostos a pagar pelos livros? Provavelmente não. Talvez pirateassem em outro lugar. Mas o viés, aqui, é outro. A Wattpad demonstra interesse em combater esta pirataria?

Autores e editoras se queixam há anos da pirataria na plataforma. Os problemas remontam a 2009, quando a empresa enfrentou críticas por hospedar ebooks pirateados. Na época, respondeu ter instalado um “filtro” para detectar e eliminar os piratas. Se para os conteúdos publicados em inglês existe algum filtro para eliminar as cópias piratas, o privilégio é negado às edições brasileiras. Divergente, de Veronica Roth, publicado no Brasil pela Rocco, está disponível no Wattpad desde 20 de julho, com mais de 1.800 leituras até agora, segundo a página da versão pirata. Ora, se a cópia pirata de um ebook conhecido permanece intocada durante meses, é sinal que nenhum filtro, ou qualquer funcionário da empresa, confere se o conteúdo publicado é legal ou não!

Os filtros automáticos, quando existem, são burlados pelos piratas de forma insidiosa. O pirata, para publicar um ebook, altera o título do livro, o nome da autora e a capa. O caso ocorreu ano passado, com a autora Jasinda Wilder. Ela soube da pirataria por intermédio de um leitor, que detectou a cópia e escreveu avisando. A autora conseguiu remover a cópia pirata do ebook My Dominant Alpha, após denunciar o usuário ao Wattpad. Apesar disso, a plataforma recusou fornecer dados do usuário pirata — alegou que precisava proteger a privacidade do usuário. Sobre isto, a designer Britt Imogen relatou uma situação, na época, que descreve como certos piratas são persistentes:

Wattpad não faz nada para ajudar a prevenir o plagiarismo, além de um tapa na mão. Um amigo meu foi virtualmente perseguido e plagiado por um único usuário. Toda vez que era pego, a pirata deleteva sua conta, abria uma nova, e começava tudo de novo. Após alguma pesquisa, nós descobrimos que a pirata tinha mais de 300 contas, nas quais ela copiava múltiplas histórias e shows de televisão. [traduzido do inglês]

O fato é que a negligência da Wattpad tem um efeito concreto: ela se torna beneficiária da pirataria. Afinal, é indiscutível que livros de qualidade atraem e fidelizam leitores. Nunca saberemos quantos usuários abriram uma conta só para poder acessar os ebooks pirateados, mas, a julgar pela profusão da oferta de títulos e dos leitores de cada obra, não foram poucos.

Escrevemos para a assessoria de imprensa da Wattpad, questionando se a empresa implementa alguma verificação nos títulos em português. Quando/se recebermos resposta, publicarei aqui. Enquanto isso, um sem número de leitores segue aproveitando vários ebooks “grátis”. A empresa enviou na quarta-feira, 23/09, uma resposta, confira aqui.

Por Eduardo Melo | Publicado originalmente em eBookNews | 21/09/2015 | Clique para acessar a matéria original

Amazon disputa com Wattpad os escritores de fanfic


O Wattpad tem seu lado sério como uma plataforma próspera de escrita original, com fluxo pequeno, mas constante de autores encontrando sucessos e conquistando as seis maiores editoras do mundo. O site já atraiu a atenção de 40 milhões de usuários ao redor do globo. Nenhuma surpresa que a Amazon decidiu querer um pedaço desse bolo. A varejista lançou recentemente sua própria plataforma de leitura social e escrita, a Kindle WriteOn, que atualmente funciona somente para convidados, ainda no etapa beta. Na primeira impressão, parece muito com o Wattpad. Mas o WriteOn está fazendo um jogo claro para escritores de ficção com ambições de publicar seus livros. Ele se intitula como um “laboratório de histórias”, no qual “você pode obter suporte e feedback durante todas as fases do processo criativo”. Enquanto os comentários dos leitores do Wattpad tendem a ser curtos e doces, os do WriteOn são críticas mais profundas. Com 150 milhões de contas, a Amazon espera que o WriteOn siga o mesmo sucesso do seu Kindle Direct Publishing Direct [KDP], plataforma para autores independentes, só que adicionando um elemento social a esse fenômeno editorial.

Por Victoria James | The Guardian | 18/12/2014

Livros publicados em rede social ganham páginas impressas


Autores revelados pelo Wattpad, rede social literária, atraem a atenção de editoras brasileiras

Nomes como Anna Todd, de ‘After’, chegam às livrarias do país após alcançarem até um bilhão de visualizações

RIO | Anna Todd era uma pós-adolescente recém-casada, que não sabia bem o que queria da vida. Ávida leitora, a americana descobriu numa rede social gratuita com foco em celulares e tablets a solução para o tédio atrás do balcão da loja em que trabalhava. Com o Wattpad, pegou gosto pelas histórias escritas pelos próprios usuários, publicadas em pequenos capítulos, geralmente semanais, formatadas para serem lidas em pequenas telas. Um belo dia, começou ela mesma a escrever e dali saiu uma fan fiction cujos personagens eram os integrantes da boy band One Direction transportados para uma universidade, com um leve toque erótico, formatado para adolescentes. De repente, boom. “After”, sua primeira trilogia, teve mais de um bilhão de visualizações e seis milhões de comentários no aplicativo, arrebanhando uma legião de fãs [outra de detratores] e, claro, chamando a atenção de grandes editoras do mundo todo e dos estúdios de cinema — a trama será adaptada pela Paramount.

No Brasil, “After” acaba de sair assim, com o título em inglês mesmo [a pedido das fãs de Anna], pelo selo Paralela, da Companhia das Letras. Chega às livrarias com 50 mil cópias, tiragem de best-seller, e a marca do Wattpad na capa. A versão impressa foi revisada, reformatada e ganhou trechos exclusivos, que apimentam a relação do protagonista [no papel, ele deixou de ser uma ficcionalização do cantor Harry Styles, rebatizado de Hardin Scott, como será no filme]. A segunda parte será lançada em janeiro, a terceira em fevereiro e a quarta em março, seguindo a estratégia do mercado internacional.

A americana Anna Todd, autora de 'After' | Foto: Divulgação

A americana Anna Todd, autora de ‘After’ | Foto: Divulgação

Mercado esse que está atento para absorver outros talentos surgidos na plataforma. A galesa Beth Reekles, que publicou “The kissing booth” na rede social quando tinha apenas 15 anos, entrou na lista de adolescentes mais influentes de 2013 da “Time”. Por aqui, já foram lançadas a paulistana Lilian Carmine [“Lost boys”, Leya], a sul-mato-grossense Camila Moreira [“O amor não tem leis”, Objetiva] e a americana Laurelin Paige [“Por você”, Rocco]. Em 2015, é a vez da carioca Nana Pauvolih [“A redenção do cafajeste”, Rocco], em fevereiro; da pernambucana Mila Wander [“O safado do 105”, Planeta], em março; e do inglês Taran Matharu [“The summoner”, ainda sem título em português, Galera Record], em maio. Os gêneros vão da ficção adolescente à ficção erótica, passando pela fantasia.

— Comecei a escrever fan fiction porque amava ler isso. Ser escritora era um sonho que eu nem sabia que tinha até começar. Quando publiquei o primeiro capítulo, nem fazia ideia de que alguém iria lê-lo, muito menos esperar que a coisa toda ficaria tão grande — conta Anna Todd, hoje com 25 anos, que escreveu “After” pelo diminuto teclado do celular pela facilidade de poder fazê-lo em qualquer lugar, e chegou às editoras tradicionais graças à equipe do Wattpad, que funcionou como um agente literário. — Quando vi as contas falsas nas redes sociais se comunicando como se fossem os personagens do livro pensei: “uau, os fãs realmente amam esses caras!”.

VERSÃO “BAUNILHA” DE “50 TONS”

A devoção dos fãs é fator essencial nessa onda. Graças ao empenho dos leitores em acompanhar as histórias, comentando e sugerindo modificações, os autores do Wattpad acabam ganhando edição gratuita, feita pelo principal alvo da indústria de best-sellers. A participação, por sua vez, faz com que os leitores se sintam responsáveis por aquela obra.

— De certa forma, estou surpresa por ver tantos fãs comprando um livro que já leram, mas eles sempre foram tão apaixonados pela história que me parece que querem ter uma peça sólida para poder pegar com as mãos — justifica Anna, que recebe, diariamente, uma enxurrada de vídeos e fotos dos fãs posando com o livro, uma versão “baunilha” de “50 tons de cinza”, como a própria autora define.

O escritor inglês Taran Matharu, autor de 'The summoner' | Foto: Divulgação

O escritor inglês Taran Matharu, autor de ‘The summoner’ | Foto: Divulgação

Acessível a qualquer pessoa com um computador [ou smartphone, ou tablet…] com conexão com a internet, o Wattpad é uma rede social como qualquer outra, reunindo autores com trajetórias diversas. Um dos mais aclamados é o inglês Taran Matharu, filho de um indiano e de uma brasileira. Bem diferente de Anna, que caiu nessa de paraquedas, o jovem de 23 anos sempre escreveu, mas guardava suas histórias para si. Quando começou a publicar “The summoner”, saga fantástica com elementos de “Harry Potter”, “Pókemon”, “O Senhor dos Anéis” e videogames como “Skyrim”, prometeu publicar um capítulo por dia e, no fim de um mês, já tinha cem mil leitores. No único dia em que resolveu tirar folga [era seu aniversário], levou bronca dos fãs. Isso o encorajou a dar passos maiores. Na época, Matharu estagiava no departamento de vendas digitais da Penguin Random House, uma das principais editoras do mundo.

— Perguntei para o meu então chefe quem eram os melhores agentes do Reino Unido. Mandei mensagem para seis deles pelo Facebook mostrando meus números no Wattpad e três horas depois um deles me ofereceu representação. O livro nem estava pronto quando fechamos o contrato — conta Matharu, arranhando o português, e frisando que, apesar da boa relação que mantém com o Wattpad, o aplicativo não intermediou sua publicação por editoras tradicionais. — Minha primeira oferta veio do Brasil, e meu livro foi para leilão em Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, Alemanha, além de ser vendido na Espanha, na França e na Polônia. Até agora, foram mais de cinco milhões de visualizações.

Para agradecer aos leitores pelo apoio, Matharu está publicando no Wattpad um adendo à sua trilogia, contando a história anterior à de seu primeiro livro.

A carioca Nana Pauvolih escrevia há 25 anos, mas só começou a tornar suas histórias públicas há três, quando ficou viciada em autopublicação. Professora de História e Filosofia, chegou a reduzir sua carga horária para se dedicar à escrita, publicando sua literatura erótica em blogs e grupos do Facebook.

CONEXÕES E CONCURSO

Nana começou a tirar uns trocados com a venda de e-books na Amazon, e chegou ao Wattpad em busca de mais visibilidade.

— No começo, não entendia os métodos de divulgação, mas a própria comunidade me ensinou as técnicas. Em menos de um mês, tive 700 mil acessos — explica Nana, que costuma remover os capítulos do Wattpad depois de um tempo para estimular a venda dos e-books. Mesmo assim, a série “Redenção” teve mais de um milhão de acessos na plataforma, e o terceiro livro ainda está na metade. Atualmente, ela está licenciada do magistério e se dedica apenas a escrever.

Para Allen Lau, CEO do Wattpad, o alcance dos autores em outras mídias é benéfico para todos, inclusive para a rede.

— O Wattpad nasceu como um meio de dar às pessoas a chance de ler em qualquer lugar, bem como de permitir com que qualquer um compartilhasse conteúdo original. É um espaço em que escritores podem se expressar, testar ideias e se conectar com outros escritores e leitores — explica Lau. — Estamos orgulhosos de ter wattpadders reconhecidos dentro e fora da plataforma. Temos projetos que ajudam editores a conectar seus autores aos fãs, além de descobrir novos autores como o concurso que fizemos com a [editora] Harlequin, “So you think you can write” [“então você acha que pode escrever”, paródia de um reality show popular no Reino Unido].

Por Liv Brandão | Publicado originalmente em O Globo | 02/12/2014, às 10:44 | Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A.

Wattpad | um planeta online de escritores e leitores


Por Octavio Kulesz | Publicado originalmente em PublishNews | 07/11/2013

Com 20 milhões de escritores e leitores de todo o mundo, o Wattpad se converteu em uma plataforma muito importante. O site é utilizado tanto por autores conhecidos quanto por escritores novatos. Os editores, por seu lado, recorrem ao Wattpad para promover seu catálogo, compartilhar conteúdos exclusivos, oferecer livros em série e até abrir concursos a fim de atrair autores. Nesta ocasião conversamos com Allen Lau [co-fundador/CEO] e Ashleigh Gardner [Diretora de Conteúdo] sobre a literatura online e seu impacto no mundo editorial.

Quando você criou o Wattpad?

Allen Lau: Comecei a realizar protótipos para uma aplicação de leitura em 2002. Trabalhava com um Nokia da série 40 [o celular mais popular daquela época] para resolver um problema que eu mesmo enfrentava: dispunha de pouco tempo e desejava levar minhas leituras no telefone, para otimizar minha agenda. O sistema funcionava bem para mim, mas qualquer tentativa de massificá-lo teria sido muito prematuro: em uma tela tão pequena só se podia ler 5 linhas de texto.

Em 2006, o dispositivo mais popular não era mais o Nokia, mas o Motorola Razr. Sua tela era bem mais ampla e suas possibilidades técnicas, muito superiores, de modo que o mercado estava pronto. Um dia, enquanto avançava com o desenvolvimento do sistema, Ivan [também co-fundador do Wattpad] manda uma mensagem para mim: “Oi Allen, estou criando um novo produto, poderia me dar sua opinião?” Conhecia Ivan há bastante tempo; ele trabalhava em outra empresa fundada por mim alguns anos antes. Depois de ler a mensagem, clico no link e adivinhem o que vejo: um programa de leitura móvel, criado para telefones celulares. Ele não só tinha construído um aplicativo móvel: também tinha colocado em marcha um website no qual os usuários podiam subir e compartilhar conteúdo de um modo simples. Estes foram os dois pilares da empresa: a dimensão móvel e o fato de que o conteúdo é gerado pelos próprios usuários. Dois dias depois peguei um avião para me reunir com Ivan em Vancouver. A gente se encontrou no aeroporto e no pátio de comidas delineamos um plano de negócios em um guardanapo… assim foi como começamos.

Qual é sua formação?

Allen: Sou engenheiro, assim como Ivan. Nossa formação se localiza então mais do lado do produto.

Ashleigh, como foi sua trajetória?

Ashleigh Gardner: Sempre trabalhei em temas de tecnologia e edição. Comecei trabalhando na área editorial, na área de marketing online. Nisso estava quando saiu o Kindle, e como ninguém na empresa se ocupava dos e-books, o tema ficou sob minha responsabilidade, de modo que aprendi muito sobre os formatos e as diferentes lojas. Depois trabalhei na Kobo, apoiando editores de todo mundo em seus desenvolvimentos digitais. Tinha escutado Allen em diversas conferências; sempre ficava fascinada com o Wattpad e com a possibilidade de que qualquer usuário escrevesse e compartilhasse histórias sem se precupar com questões de formato ou padrões. De fato, qualquer um pode ler e escrever no Wattpad, servindo-se de um celular, um tablet ou um computador. De modo que me uni à empresa e hoje colaboro com escritores e editores que querem aprender mais sobre Wattpad e seus benefícios.

Que interesse o Wattpad pode ter para os editores?

Ashleigh: Os editores internacionais deveriam aproveitar a enorme audiência de Wattpad. Mais de 20 milhões de usuários visitam o site mês a mês. Chegam ao Wattpad para ler, encontrar novas histórias, conversar com outros leitores sobre o que estão lendo: isto configura uma comunidade realmente variada que é de grande interesse para os editores. Assim, ajudamos os editores na difusão de seus autores, de modo que estes possam interagir com nossa comunidade.

Allen: Só gostaria de complementar: desses 20 milhões de visitantes, quase 70% vem de fora da América do Norte. Apesar de que nossa sede está na América do Norte, nossa audiência não está exclusivamente nessa região. Na verdade, é o oposto.

Vendo que o modelo gira em torno do aspecto móvel e do conteúdo gerado pelos usuários, pensei: “isto não é muito ocidental, não se ajusta à típica empresa do modelo Amazon”, em especial porque não surge do papel, mas foi algo radicalmente novo. Por isso considero que poderia funcionar muito bem em países que não passaram pela etapa Gutenberg. Vocês têm alguma reflexão sobre este ponto?

Allen: Sim, acho que é uma observação muito boa. Sentimos muito orgulho de ser uma empresa nativa digital. Surgimos da Internet e do móvel, mais que do impresso. Por esse motivo, todas as características que criamos, todos os serviços que oferecemos, todos os programas que realizamos com os editores, por exemplo, são concebidos em função da geração da Internet; só em uma segunda etapa são adaptados às gerações do livro impresso, e não ao contrário. Isso permite que pulemos toda uma etapa.

Com respeito ao conteúdo que os usuários sobem ao site, dispõem de cifras com referência aos idiomas mais utilizados?

Allen: Inglês é o primeiro, porque se trata do mínimo denominador comum e porque somos muito fortes em países anglofalantes [EUA, Canadá, Reino Unido, Austrália]. Depois disso, existem alguns idiomas que recebem muito tráfego: refiro-me especificamente ao tagalog [que se fala nas Filipinas], ao espanhol, ao turco, ao holandês, ao alemão, ao francês.

Como foi a experiência em países em desenvolvimento?

Allen: Posso destacar o caso das Filipinas porque viajei lá faz duas semanas. Nesse país contamos com uma base de usuários considerável. Uma em cada dez pessoas com acesso à Internet utiliza o Wattpad, o que dá uma pauta da popularidade da plataforma. Vale a pena observar que as Filipinas não constituem uma anomalia: somente menciono o caso como um exemplo mais. Estamos vendo a mesma tendência em países anglofalantes [claro], mas também em outros hispanofalantes. De modo que poderíamos replicar o que estamos fazendo nos EUA, Filipinas, Reino Unido e outros países, na América Latina, por exemplo.

Como trabalham com um modelo que não está ancorado no formato impresso, mas fazem dentro de uma indústria que certamente está, sentiram em algum momento que iam bastante contra a corrente?

Allen: Não estou convencido da contraposição entre digital e papel. Acho que ambos suportes podem coexistir muito bem. Não vou jogar fora todos meus livros impressos pelo simples fato de ter começado a ler em formato eletrônico, ou ao contrário, posso ler em papel, mas isso não significa que vou descartar o digital. Encontramos muitos usuários que leem sobre dispositivos eletrônicos, mas que, para determinados livros que querem colocar em suas bibliotecas, preferem a versão física.

Mas com relação ao conteúdo, suponho que muitos materiais do site são “nativos digitais”. Veem diferenças no modo em que estão escritos esses textos?

Ashleigh: Definitivamente. Bom, como explicava Allen, pensamos que não existe uma grande diferença entre impresso e digital, ou pelo menos não se trata de uma oposição excludente. A diferença mais interessante tem a ver com o que ocorre quando não existe um curador. Em geral, se algo é publicado, supõe-se que é porque alguém decidiu publicar. Quando essa condição é deixada de lado, surgem fenômenos fascinantes. Os textos escritos por adolescentes, por exemplo, jogam muita luz sobre o tipo de vida que os jovens de hoje vivem, e como é importante para eles a tecnologia. Em geral, este é um aspecto que se reflete menos no suporte papel.

Quais são as diferenças entre Wattpad e outras plataformas como Shanda [Cloudary] na China, por exemplo?

Allen: Suponho que uma grande diferença consiste que eles trabalham só em idioma chinês, enquanto que nós somos globais. Temos alguns textos em chinês, mas para dizer a verdade, a China constitui um mercado muito particular para as empresas de Internet. São poucas as empresas ocidentais que tiveram sucesso nesse país, por diversos motivos: da “grande muralha digital” até as diferenças culturais, passando pelo design do site ou aplicativo. Quando entramos em um website chinês, temos a impressão de ter chegado a uma discoteca: luzes e cores por todos os lados!

Para entrar no mercado chinês, é necessário contar com um produto praticamente diferenciado. De qualquer modo, deixando de lado a questão do idioma, a maneira em que Shanda monetiza os conteúdos é bastante interessante. Recorrem a diferentes modelos: até incorporam livros impressos. De fato, se converteram em editores e dispõem de um depósito de exemplares físicos. Isto é algo que tendemos a evitar; preferimos continuar como empresa nativa da Internet, o que não significa que vamos nos desligar do papel: para isso estabelecemos uma aliança com a Sourcebooks, por exemplo.

Ashleigh: Nós nos associamos com a Sourcebooks para que os autores interessados possam explorar o mercado de livros físicos, de um modo que seja proveitoso para todos. Assim, os livros que os usuários escrevem permanecem no Wattpad, ao mesmo tempo em que a Sourcebooks se ocupa de levá-los às livrarias e a novas audiências. Da mesma forma, Sourcebooks convida seus autores a usar nosso site, com o objetivo de conquistar novos públicos. Finalmente, a Sourcebooks patrocina nosso concurso de escrita.

Como vocês acham que os mercados internacionais, em especial os países em desenvolvimento, se comportarão nos próximos anos, no que diz respeito à literatura online e à edição digital?

Allen: Considero que, apesar de que os países não entraram na era digital de forma simultânea, os indicadores de tendência são iguais. Existe talvez uma defasagem de dois anos que logo vai diminuir para só um. Contudo, o ponto central não é a defasagem. A chave é a tendência: todos se comportam da mesma maneira. O que observamos no Wattpad é um padrão repetido. Alguns idiomas ou regiões podem decolar mais rápido, mas no que concerne aos mais lentos, o momento vai chegar… e está chegando. Quase todos os idiomas estão decolando. Assim, os usuários desses países [e da maior parte do planeta] poderiam encontrar conteúdo para ler no Wattpad. Nosso objetivo é poder trabalhar com editores dessas regiões do mesmo modo que estamos fazendo nos EUA e Reino Unido. Estabelecemos diversos tipos de alianças e, claro, gostaríamos de replicar este êxito em escala global.

Octavio Kulesz é o diretor da editora Teseo de Buenos Aires e da Alliance-Lab. Ele fará uma palestra naPublishers Launch Frankfurt Conference sobre o tópico de “O que você precisa saber sobre Edição Digital no Mundo em Desenvolvimento” às 13h do dia 8 de outubro, Hall 4.2, Room Dimension na Feira do Livro de Frankfurt.

Por Octavio Kulesz | Publicado originalmente em PublishNews | 07/11/2013

Octavio Kulesz

Octavio Kulesz é formado em Filosofia pela Universidade de Buenos Aires e atualmente dirige a Teseo, uma das principais editoras digitais acadêmicas da Argentina. Em 2010, criou a rede Digital Minds Network, junto com Ramy Habeeb [do Egito] e Arthur Attwell [da África do Sul], com o objetivo de estimular o surgimento de projetos eletrônicos em mercados emergentes. Em 2011, escreveu o renomado estudo La edición digital en los países en desarrollo, com apoio da Aliança Internacional de Editores Independentes e da Fundação Prince Claus.

Sua coluna Sul Digital busca apresentar um panorama dos principais avanços da edição eletrônica nos países em desenvolvimento. Tablets latino-americanos, leitura em celulares na África, revoluções de redes sociais no mundo árabe, titãs do hardware russos, softwares de última geração na Índia e colossos digitais chineses: a edição digital no Sul mostra um dinamismo tanto acelerado quanto surpreendente.

Tá “craude” na prateleira


Por Julio Silveira | Publicado originalmente em PublishNews | 14/06/2012

Para se destacar da multidão, autores estão usando o poder das massas

A internet, com as ferramentas de publicação digital, resolveu [ou promete resolver] muitos dos problemas enfrentados por quem escreve. Primeiro, ela “furou” o bloqueio das editoras, permitindo a qualquer um publicar e distribuir um livro, não requerendo prática ou habilidade, por meio de um variado cardápio de autopublicação [Amazon, Smashwords, Lulu, Per Se etc]. Segundo, ela proveu um serviço muito mais eficiente e muito mais barato do que a divulgação tradicional [propaganda e publicidade]: as redes sociais. O problema que ela não resolveu — e que talvez tenha justamente agravado – é o da visibilidade. “A obscuridade é a maior ameaça aos autores e aos criadores”, disse Tim O’Reilly, diretor da editora que leva seu sobrenome, na vanguarda dos recursos digitais na publicação.

“Mais de 100 mil livros são publicados a cada ano [só nos EUA], com milhões de exemplares impressos, porém menos de 10 mil entre esses novos livros terão alguma venda significativa, e somente uns 100 mil livros impressos chegarão a uma livraria. […] O autor acha que conseguir ser publicado é a realização de um sonho, mas, para tantos, é só o começo de uma longa decepção.

Como não descobriram a fórmula para o “boca a boca”, a obscuridade continuará a ser um problema sem resposta. Mas uma ferramenta criada para atender outra necessidade está conseguindo “desobscurecer” alguns livros e autores: o crowdfunding. Basicamente, a “verba da multidão” é um sistema pelo qual se vendem cotas de um produto que ainda não foi lançado, em troca de “recompensas” que vão desde um “obrigado” até um jantar íntimo com o criador. É um esforço coletivo e social, conectando diretamente quem cria a quem consome a criação. Sites de Crowdfunding, como Kickstarter e, no Brasil, o Catarse, já vêm viabilizando livros, como este [que eu apoio e para o qual, a propósito, peço seu apoio]. O sistema já se sofisticou a ponto de existirem sites para levantar fundos exclusivamente para livros, como o Unbound, e ainda mais específicos, como o Crowdbooks, voltado a livros de fotografia. [Ou ainda o idealista Unglue, que quer levantar dinheiro para “alforriar” livros já publicados, isto é, pagar aos autores para trocar o copyright por licenças Creative Commons não comerciais].

O que os escritores mais espertos já notaram é que o Crowdfunding vai muito além do papel de financiador. O que se obtém ao fim de uma campanha é visibilidade. O processo de “viabilizar” o livro através de contribuições é semelhante a uma guerra de trincheiras. O autor vai alastrando seu projeto por sua rede de amigos virtuais, e daí para os amigos dos amigos, recorrendo a todas as armas da mídia social para engajar “apoiadores”. Quem compra um produto que corre o risco de não chegar a existir [se não atingir o valor mínimo] sente-se ainda mais compelido a promovê-lo em sua própria rede social. O processo é rizomático e o efeito é exponencial. Antes mesmo de o livro ser lançado, o público já ouviu falar [bem] dele.

O sistema não é muito diferente da antiga prática de assinatura, onde as editoras coletavam assinantes que pré-compravam uma obra, viabilizando sua impressão — e criando expectativa no público leitor. Foi assim, por exemplo, que Ulisses de Joyce foi editado. [Quando a livreira Sylvia Beach mandou um folheto de pré-venda para Bernard Shaw, recebeu uma resposta desaforada: “se você acha que um velho irlandês gastaria 150 francos em um livro, você não conhece meus compatriotas”. Joyce, deliciado, mandou imprimir a resposta, mas acrescentou: “se você acha que um velho irlandês não gastou — anonimamente — 150 francos em um livro, você não conhece meus compatriotas”].

Fora do Crowdfunding, alguns serviços prometem aquele empurrãozinho que falta para o escritor tirar seu romance da gaveta, por meio da vitrine da comunidade leitora. É o caso do Wattpad, que se autointitula o “YouTube da escrita” e que captou este mês US$ 17 milhões com investidores. Seu único serviço oferecido é a possibilidade de colocar a obra à vista de leitores virtuais. Uma série de estímulos, como concursos, medalhas e resenhas em vídeo, é empregada para mobilizar a comunidade, e estatísticas de leitura fazem a alegria do escritor compulsivo obsessivo.

Contudo, sites como o Wattpad não permitem ainda ao escritor social a efetiva publicação de seu futuro best-seller. Esse hiato entre escrever socialmente e publicar talvez seja preenchido em breve pela Kobo. A loja de e-books que corre, com agilidade, por fora do confronto titânico Amazon e Apple, está para lançar uma plataforma de autopublicação, que promete não ser “só mais uma”. A ideia é “fazer da escrita um jogo”, e imbricar todo o processo de escrita, publicação e divulgação com as redes sociais, dando visibilidade e aumentando um pouco as chances de o livro não mofar nas estantes digitais.

Alguém precisa criar logo um site que integre exposição, financiamento e publicação, onde o escritor entre com o manuscrito — ou só uma ideia! — e saia com um livro bem divulgado e já rendendo — tudo por meio do crowdfunding. Aliás, acho que eu mesmo vou fazer esse site. E abrir um crowdfunding para custear o desenvolvimento. Quem aí quer uma cota?

Por Julio Silveira | Publicado originalmente em PublishNews | 14/06/2012

Julio Silveira é editor, formado em Administração, com extensão em Economia da Cultura. Foi cofundador da Casa da Palavra em 1996, gerente editorial da Agir/Nova Fronteira e publisher da Thomas Nelson. Desde julho de 2011, vem se dedicando à Ímã Editorial, explorando novos modelos de publicação propiciados pelo digital. Tem textos publicados em, entre outros, 10 livros que abalaram meu mundo e Paixão pelos livros[Casa da Palavra], O futuro do livro [Olhares, 2007] e LivroLivre [Ímã]. Coordena o fórum Autor 2.0, onde escritores e editores investigam as oportunidades e os riscos da publicação pós-digital.

A coluna LivroLivre aborda o impacto das novas tecnologias na indústria editorial e as novas formas de relacionamento entre seus componentes — autores, agentes, editores, livrarias e leitores. Ela é publicada quinzenalmente às quintas-feiras.