O calvário dos eBooks


Os livros digitais dão sinais de perda de fôlego nos países desenvolvidos e ainda não têm relevância nos negócios das editoras brasileiras

Em queda: as vendas do Kindle, lançado pela Amazon de Jeff Bezos, despencaram, segundo varejista inglês | Foto: Ben Margot

Em queda: as vendas do Kindle, lançado pela Amazon de Jeff Bezos, despencaram, segundo varejista inglês | Foto: Ben Margot

Poucos setores ficaram imunes ao avanço da tecnologia digital. A indústria fonográfica, por exemplo, foi a primeira a sentir os efeitos da digitalização, que levou as principais empresas da área quase à bancarrota no início dos anos 2000. A televisão sente os efeitos da internet, com o surgimento de um telespectador que quer assistir o que quer, na hora que desejar e no dispositivo que for mais conveniente. A Netflix é o grande expoente dessa nova era. Diante disso, muitos viram no Kindle, lançado em 2007, o começo do fim do livro impresso.

O aparelho da Amazon, de Jeff Bezos, tinha tudo para fazer para a indústria editorial o que o iPod fez para o setor musical. Ledo engano. Para surpresa geral, as editoras abraçaram os livros digitais [e-books]. E logo descobriram que a margem de lucro das versões digitalizadas era o dobro da tradicional, mesmo com um preço mais baixo. Era um sinal de que a transição, considerada inevitável, do livro de papel para o digital seria feita sem grandes solavancos. Só faltou combinar com o leitor. Nos países desenvolvidos, o livro digital começa a dar sinais da falta de fôlego.

Executivos da maior cadeia de livrarias da Inglaterra, a Waterstone, declarara ao jornal Financial Times que as vendas de Kindle simplesmente desapareceram. A perda de impulso já atingiu a Simon & Schuter, membro do “Big Five”, grupo dos cinco maiores conglomerados do mundo [Penguim Random House, Hachette, HarperCollins e Macmillan completam o time]. Subsidiária do grupo de mídia CBS, a S&S registrou queda nas vendas de 3,8%, para US$ 778 milhões. O lucro caiu 5,6%, para US$ 101 milhões. Uma razão para o ano ruim foi a redução no ritmo das vendas digitais.

A fatia diminuiu de 24,4% em 2013 para 23,2% no ano passado. Não se trata de casos isolados. A consultoria americana Gartner aponta que, em 2017, os e-readers como o Kindle venderão 10 milhões de unidades, número 50% menor do que as vendas do ano passado. Com a estagnação, a alternativa é ler e-books nos tablets, que também estão passando por um declínio de vendas, e smartphones. “São aparelhos que dispersam, oferecem opções demais de entretenimento e não são apropriados para a leitura longa”, afirma Eduardo Melo, fundador da consultoria de livros digitais Simplíssimo.

Por que aparelhos como o Kindle enfrentam esse calvário? O rechaço tem a ver com sua função única. O consumidor, ao que tudo indica, quer fazer mais tarefas com uma tela. Isso fez com que as principais empresas do segmento, como Amazon e Kobo, passassem a investir na produção de tablets. Se nos países ricos os e-books patinam, no Brasil, eles nunca deixaram o gueto editorial. Apenas 2% dos R$ 5,3 bilhões faturados com livro no Brasil vêm de ebooks, segundo levantamento da Fipe de 2013 [dado mais recente]. A Biblioteca Nacional, por exemplo, expediu 16.564 ISBNs [código de identificação dos livros] para e-books no ano passado, apenas 1% a mais que no ano anterior.

De 2012 para 2013, o crescimento havia sido de 10%. Diversas iniciativas voltadas para e-books foram abandonadas, como o selo Breve Companhia, da Companhia das Letras, empresa da Penguim Random House, que publicava obras inéditas direto na mídia digital. Ela foi descontinuada no fim do ano passado. “No momento, estamos repensando o enfoque”, diz Fabio Uehara, editor de e-books da empresa. “Temos outros lançamentos digitais previstos para este ano.” A fadiga também atinge o varejo. “Crescemos dois dígitos, mas esperava um crescimento muito maior”, afirma Sergio Herz, CEO da Livraria Cultura, que comercializa ebooks e e-readers da Kobo.

Apesar de ser muito novo, esse mercado já mostra certa saturação”. A japonesa Rakuten, dona da Kobo, ainda é otimista. A empresa aumentou sua aposta nos livros digitais ao comprar a distribuidora de e-books Overdrive por US$ 410 milhões, em março deste ano. Amazon, Saraiva e Livraria Cultura não fornecem dados de vendas no Brasil, mas quem acompanha o setor não vislumbra um grande apelo dos e-readers. “No Brasil a leitura acontece em smartphones”, afirma Tiago Ferro, fundador da E-Galáxia, plataforma de intermediação entre autores e profissionais do mercado editorial a fim de editar e publicar e-books.

ISTO É Dinheiro | Por João Varella | 07/04/2015, às 17:30

Cenário das livrarias de eBook vai ficando cada vez mais definido


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 24/11/2011

Mike Shatzkin

A semana que passo, todo ano, na Feira do Livro de Frankfurt, é sempre a mais estimulante do meu ano de trabalho. A concentração das melhores cabeças e das pessoas mais poderosas no mercado editorial parece me levar a novos níveis de compreensão sobre nosso mundo editorial global, principalmente nesta época de rápidas mudanças.

Também conversei com um executivo de desenvolvimento de negócios de uma das empresas de tecnologia que está convertendo livros impressos e PDFs para ePub. Ele me contou que seu negócio permanece robusto, mas está se espalhando ao redor do mundo, já que novos mercados estão descobrindo que precisam colocar sua propriedade intelectual em formato digital. Concordamos que quem vive da transição digital – e isso certamente me inclui, no momento [afinal, por que você está lendo este blog?] – ainda tem mais alguns anos pela frente antes de precisar pensar em como ganhar dinheiro com a nova realidade [se precisarmos continuar ganhando a vida quando a mudança chegar].

Com os novos acordos anunciados em Frankfurt pela Kobo com a loja inglesa WHSmith e a francesa Fnac, junto com o aumento de abertura de lojas da Apple e da Amazon, o futuro cenário das livrarias de e-book está ficando cada vez mais definido. Parece que teremos três concorrentes globais principais que estarão ativos em todos os mercados – podendo ser Amazon, Apple e Kobo – e mais, talvez, um concorrente local em cada mercado. A Barnes & Noble desempenhou esse papel local de forma muito bem-sucedida, até o momento, nos Estados Unidos; a Waterstone’s vai tentar o mesmo no Reino Unido a partir do ano que vem; há competição local na Alemanha; e certamente haverá em muitos outros países, quando a revolução do e-book chegar a suas praias. O Google, sendo o Google, não vai desaparecer, mas permanecerá um concorrente relativamente marginal, pelo menos até colocarem mais energia em sua solução e na promoção do que têm.

Os acordos da Kobo servem para deixar o jogo mais claro, mesmo não mudando a situação no momento. Um observador atento da cena digital parou no meu estande em Frankfurt para discutir o acordo WHSmith-Kobo comigo e se perguntava se esse era o melhor acordo para os dois lados. A Kobo não deveria ter tentado fazer um acordo com a Waterstone’s? É inteligente para a WHSmith fazer um acordo no qual vendem os aparelhos, mas que os conecta com a loja da Kobo?

Mas isso, claro, é a chave para o acordo. A economia do aparelho não funciona, a não ser que você possa vender os e-books que o acompanham [essa é a resposta para todos os gênios que pensam que a Barnes & Noble é meio burra por não implementar o lançamento internacional do Nook!]. Nem a WHSmith nem a Fnac são somente livrarias. Os livros são apenas uma linha de produtos nas lojas que vendem outras coisas e possuem uma identidade mais ampla. Ao vender um e-reader ligado a uma loja de e-books que também serve a seus clientes, eles agregam valor para o consumidor de livros durante a transição e aumentam sua própria “vida útil” como vendedores de livros. Eles reconhecem que construir e manter uma loja de e-book não é algo trivial e, frente a vários concorrentes globais, tampouco é algo que querem empreender a partir de sua posição como livraria específica de um país.

Ao se aliar à Kobo, tanto a WHSmith quanto a Fnac podem entrar no mercado com e-readers quase ao mesmo tempo em que a Amazon entra com o Kindle. E a WHSmith, ao lançar os produtos e a loja para o Natal de 2011, deve deixar a Waterstone’s preocupada por estar alguns meses atrasada e porque quase com certeza terá uma loja menos amigável para o consumidor do que a concorrente.

A Barnes & Noble alcançou um incrível sucesso estabelecendo-se em segundo lugar no mercado de e-books dos EUA, mas sua situação pode acabar sendo única. Primeiro de tudo, estão no maior mercado de e-books [por valor, apesar de que mercados mais pobres podem ultrapassá-los em termos de unidade em algum momento] que veremos em uma década ou mais. Segundo, é uma livraria muito séria que construiu fortes relacionamentos entre as editoras no mundo todo, já há vários anos. E, terceiro, a maneira como executaram o seu plano para o mundo digital foi quase perfeita. Mesmo com este precedente como exemplo, não há nenhuma garantia de que a Waterstone’s, ou qualquer outra, possa repetir em outro mercado o que eles fizeram nos EUA.

Se for um jogo global e você tiver um concorrente global, assim como “todo um eco-sistema” que exige aparelhos ligados a uma livraria de conteúdo digital bem estocado e bem apresentado, podemos ver a briga sendo realizada pelos outros concorrentes tentando competir com Amazon, Apple e Kobo, seja Google, Copia, Sony, Blio da Baker & Taylor, ou os estreantes financiados em colaboração com as editoras: Anobii na Grã-Bretanha e Bookish nos EUA.

Se todo o resto for igual, posso ver um mercado global de e-books que, daqui a alguns anos, será 90-95% controlado por Amazon, Apple, Kobo e concorrentes locais em cada país, com o Google ficando com a maior parte do resto. O Google pode usar sua força nos títulos da cauda longa, porque descobrir conteúdo obscuro ou voltado para nichos poderia ser o seu forte; um editor universitário me contou em Frankfurt que já está vendo algum crescimento real em suas vendas no Google, algo que não ouvi de nenhum outro editor comercial ainda.

Mas muitas coisas podem não permanecer iguais. Uma fonte bem informada, da Digerati europeia, me contou que a Comissão de Competição Europeia pode proibir o modelo agência na União Europeia. Se isso acontecesse, seria uma grande ajuda para a Amazon. É irônico que o concorrente maior, mais forte e com mais dinheiro no mercado de vendas de e-books possa ganhar uma vantagem competitiva tão enorme dada por burocratas que ostensivamente querem estimular um mercado mais competitivo. As editoras podem ter suas dificuldades para compreender a transição digital, mas parece que as burocracias governamentais do mundo podem estar bem mais confusas do que as editoras.

Tradução: Marcelo Barbão

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 24/11/2011

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].

E-books da Hachette removidos de livrarias no Reino Unido


Os e-books da Hachette foram removidos dos sites da Waterstone’s, W H Smith, Tesco e do Book Depository depois de a editora informar que mudaria para o modelo de agência a partir de hoje [20]. No entanto, a Amazon.co.uk ainda está vendendo os títulos da Hachette, e aparentemente decidindo o preço.

Na sexta-feira o Bookseller informou que a editora planejava mudar para este modelo, onde ela dá o preço, e avisou os clientes de que o acordo incluiria Amazon e Apple. Outros varejistas não estão mais vendendo seus títulos, que aparecem como “fora de estoque” nos sites.

The Bookseller | 13/09/2010 | Graeme Neill

O livro eletrônico precisa custar menos


PRIMEIRO A BOA NOTÍCIA: chega nas próximas semanas ao mercado brasileiro a tabuleta leitora de livros Alfa, do Grupo Positivo. Ela se junta ao Cool-er, da editora Gato Sabido.

Com a economia que faz ao comprar um e-book, o cidadão tem de comprar 241 obras para quitar a tabuleta

Na Amazon americana os e-books já superaram as vendas de volumes de capa dura, e a rede inglesa Waterstone está perto da casa dos 100 mil livros eletrônicos vendidos mensalmente. No Brasil, como a oferta de tabuletas é incipiente, as vendas não chegam a mil por mês. Mesmo assim, deram-se os primeiros e importantes passos para absorver essa nova modalidade de acesso à cultura.

Agora a má notícia, quase péssima. Os preços estão salgados. O Alpha custará em torno de R$ 750,00 [US$ 416], o preço do Cool-er. Um ano depois da disseminação das tabuletas americanas, a comparação é humilhante. O Kindle, da Amazon, baixou para US$ 139, e os demais ficam um pouco acima disso. O iPad da Apple, que lê livros, funciona como um laptop e só falta fazer café, custa a partir de US$ 499. O futuro desse mercado está nas mãos dos editores e livreiros, na diferença entre o preço da edição eletrônica e o da prateleira. O “Joaquim Nabuco Essencial”, por exemplo, custa R$ 25,60 no papel e R$ 22,50 em bites.

Com os parcos R$ 3,10 economizados no Nabuco eletrônico, o cidadão terá que comprar 241 livros para quitar sua tabuleta. Admitindo-se que compre dois títulos por mês, serão dez anos.

Nos Estados Unidos, um cidadão compra uma tabuleta por cerca de US$ 150 e paga US$ 9,99 por um livro que custa US$ 15,37 no papel. Economiza US$ 5,38. Quita sua tabuleta na compra do 28º livro.

Nos dois casos deve-se levar em conta que as tabuletas dão acesso a milhares de obras gratuitas. Em inglês, passam do milhão; em português talvez não tenham chegado ao milhar. Como diria Olavo Bilac, esse é um problema da “última flor do Lácio […] a um tempo, esplendor e sepultura”.

No século 19 Pindorama foi o último país a acabar com a escravidão. No 20, um dos últimos a dar bônus de milhagem aos passageiros das companhias aéreas. No 21, poderia ser dos primeiros a disseminar o acesso a livros eletrônicos baratos. Até porque os donos de escravaria e as empresas que não bonificaram a patuleia foram à garra.

Folha de S. Paulo | 01/08/2010 | Elio Gaspari