Educadora aborda como as crianças interpretam os sentimentos em audiolivro


Maior plataforma de audiolivros da América Latina traz, a partir desta sexta-feira, a obra ‘Tenho Monstros na Barriga’, de Tonia Casarin

A maneira como as crianças interpretam os sentimentos interfere no modo como elas irão decodificar diversos acontecimentos que terão ao longo da vida. Saber lidar com estas emoções é importante para a formação de qualquer indivíduo, mas também é essencial para que as crianças obtenham maiores oportunidades de êxito pessoal, social e, até mesmo, acadêmico.

Para tratar deste assunto de forma leve e descontraída com os pequenos, a educadora Tonia Casarin lançou o livro ‘Tenho Monstros na Barriga’. A obra conta a história de Marcelo, um menino que sente “várias coisas” na barriga e não sabe o que significa. Quando descobre que são sentimentos, Marcelo resolve chamá-los de monstrinhos. Ao longo da história, o menino narra os seus sentimentos e mostra oito monstrinhos: Alegria, Tristeza, Raiva, Medo, Coragem, Curiosidade, Orgulho e Ciúmes. “O livro busca aumentar a consciência dos sentimentos, aproximando as crianças dos seus pais e professores, possibilitando brincar e estimular a imaginação das crianças”, diz a autora.

A novidade é que, a partir desta sexta-feira, 27/01, os monstrinhos aderiram à tecnologia e chegam aos consumidores no formato em áudio, que pode ser acessado por celulares e computadores, seja através do aplicativo Ubook ou pelo site da empresa [www.ubook.com]. “Em nossa versão em áudio, também incluímos um trabalho de sound design, que acrescenta trilha e efeitos sonoros para que a audição da criança seja ainda mais estimulada, favorecendo a imaginação e a interpretação da história narrada”,explica Marta Ramalhete, Gerente de Produção do Ubook.

É uma forma lúdica de interagir com as crianças para auxiliá-las a desenvolver a habilidade de identificar e gerenciar emoções, estabelecer relacionamentos saudáveis e contornar comportamentos destrutivos, isto é, qualquer ação que a pessoa realize em prejuízo de si mesma. Dessa forma, quando confrontadas com situações difíceis, no futuro, elas terão as ferramentas para buscar soluções por conta própria”, comenta Tonia, que também foi responsável pela narração do audiolivro.

Apresentar esta versão em audiolivros para as crianças é interessante também pois um dos pontos cruciais de uma boa comunicação é ensinar as crianças a ouvirem. E, é através do diálogo que elas saberão pedir ajuda e dizer o que desejam em situações difíceis, o que acaba contribuindo para a resolução de conflitos e auxilia, inclusive, em situações de bullying”, avalia Eduardo Albano, Diretor de Conteúdo do Ubook.

Os benefícios de uma boa educação emocional também podem ser refletidos no aprendizado escolar, porque, quem sabe lidar melhor com as emoções tem mais facilidade para planejar e estabelecer metas a longo prazo. “Trabalhar bem os sentimentos também estimula a aquisição de habilidades sociais tão importantes como a empatia, isto é, torna as crianças capazes de se colocarem no lugar do outro, reconhecer e aceitar suas diferenças físicas, culturais ou emocionais. As vantagens permanecem na vida adulta, implicando em vidas profissionais bem sucedidas, casamentos saudáveis e menos propensão à depressão e outras doenças”, complementa a educadora.

Um estudo americano com 300 mil crianças mostrou que aquelas que estavam inseridas em programas de desenvolvimento de habilidades emocionais apresentaram rendimento escolar de 11 a 17% superior do que as que não participaram. Outra pesquisa da Unesco na America Latina também aponta a importância do desenvolvimento emocional nas crianças: projeto que abrangeu 54 mil estudantes concluiu que quem convive harmoniosamente com os colegas pode atingir notas até 46% mais altas do que aqueles que habitam ambientes de conflito.

A autora/narradora

Tonia Casarin formou-se em Administração pela PUC-Rio, em 2007, e é mestre em Educação pelo Teachers College em Columbia University, em Nova York, Estados Unidos. Já atuou no setor público, como na prefeitura do Rio de Janeiro e no governo do Estado do Rio, e privado. É professora de pós-graduação do Instituto Singularidades de São Paulo, coach e consultora em Educação.

Apaixonada por crianças e pelas emoções, Tonia focou os seus estudos na inteligência emocional e social, e como desenvolvê-la em adultos, adolescentes e crianças. Em suas pesquisas, aprendeu que o primeiro passo para desenvolver as competências do século 21 é saber identificar os sentimentos. Nesse contexto, Tonia escreveu o livro “Tenho Monstros na Barriga”, uma ferramenta para as crianças aprenderem a identificar as próprias emoções.

Sobre o Ubook: Lançado no início de outubro de 2014, o Ubook é o primeiro serviço de assinatura de audiolivros por streaming do Brasil. Ele funciona como o Netflix para vídeos ou o Spotify para música: por um valor mensal, ou semanal, é possível ter acesso ilimitado a todo o catálogo através do aplicativo. A plataforma, que já conta com mais de 1,5 milhão de usuários cadastrados e possui mais de 10 mil títulos em seu catálogo, está disponível para Web, iOs, Android e Windows Phone. Para saber mais acesse: http://www.ubook.com

Serviço:

Título: “Tenho Monstros na Barriga”

Autora: Tonia Casarin

Editora: Independente

Tempo de áudio: 9 minutos

Narradora: Tonia Casarin

Sonorização: Fabrício Signorelli

Onde ouvir: Ubook [www.ubook.com]

O livro de papel resiste à avalanche digital


O armazém do gigante editorial Penguin Random House nos arredores de Barcelona despacha em média 1,5 milhão de livros de papel por mês. A Amazon, império das compras via Internet, mantém perto de Madri um estoque de 583.000 títulos de livros físicos, um número que não para de crescer. Com esses dados fica claro que o Farenheit 451 que anunciava a morte do papel como formato de leitura não aconteceu. Entretanto, tampouco se sustenta o contrário: que os e-books se tornaram irrelevantes e que os aparelhos de leitura digital também cairão no esquecimento, a exemplo do que aconteceu com os videocassetes.

O panorama descrito pelas cifras e pelos profissionais do setor é híbrido – um mundo onde convivem o formato clássico e o digital, com fenômenos importantes, ainda muito difíceis de captar pelas estatísticas, como a autoedição e os serviços de assinatura de e-books com tarifa fixa, e com um mercado digital imenso que inclui a América Latina e os Estados Unidos.

Não dá a impressão de que o livro digital irá acabar com o papel, que tem um piso”, resume José Pascal Marco Martínez, diretor-geral do livro no Ministério de Educação, Cultura e Esportes da Espanha. “Mas o livro digital continua crescendo”, prossegue. “A realidade é que não falei com ninguém sobre e-books na Feira de Frankfurt”, diz, por sua vez, Paula Canal, da Anagrama, uma das editoras espanholas com mais leitores fiéis. “Tive centenas de conversas sobre como são bonitas as capas da X e as edições da Y. Os editores jovens, brilhantes e promissores fazem os livros mais lindos, e não se preocupam com os e-books.” Javier Celaya, consultor, responsável pelo blog Dosdoce e autor de vários estudos sobre o livro digital, diverge. “Estamos a meio caminho. Como setor eu me preocuparia com o não crescimento da demanda digital, que será uma forma de crescer. São potenciais leitores que estão escapando por outras vias, como os aplicativos para celulares, os conteúdos abertos de alta qualidade e a autoedição.

Certamente, pela relação tão próxima que se estabelece com os livros, o debate entre digital e papel gera polêmicas inflamadas. O The New York Times publicou recentemente uma reportagem falando do “declínio” do livro digital, a qual foi respondida por outra matéria na revista Fortune que dizia mais ou menos o contrário. O fechamento da plataforma de livros por assinatura Oyster, em setembro, foi interpretado como outro sinal de decadência do que já foi considerado o futuro. Entretanto, tanto o Kindle Unlimited, da Amazon, como o 24Symbols – os outros dois Spotify dos livros – estão crescendo significativamente.

Embora faltem dados essenciais – a Amazon não revela o número de dispositivos Kindle vendidos nem o número de títulos autoeditados em sua plataforma, que não geram ISBN e, portanto, ficam fora das estatísticas – e seja difícil medir o impacto da pirataria, a pesquisa de Hábitos e Práticas Culturais da Espanha 2014-2015, publicada em setembro, revela que 59,9% dos espanhóis leem em papel, 17,7% em digital e 5,7% na Internet. Com relação à pesquisa anterior, de cinco anos atrás, o papel quase não variou [era 58,3%], mas quase triplicou a partir dos 6,5% que tinha na época.

Os dados do Ministério da Cultura espanhol revelam que, em 2014, a edição de livros em papel cresceu pela primeira vez em quatro anos, 3,7%, com 68.378 títulos, mas acumula uma queda de 29,5% nesse período. Neste ano, a edição de livros digitais caiu 1,9%, primeira vez que isso ocorre, passando a representar 22,3% do setor. Nos últimos quatro anos, o livro digital cresceu 13,9%, frente a uma queda de 14,1% no faturamento das livrarias no mesmo período. O faturamento com livros eletrônicos em 2014 representou 110 milhões de euros [458,8 milhões de reais, pelo câmbio atual], um aumento de 37,1% com relação ao ano anterior. A edição em outros suportes diferentes do papel já representa 10,8% do faturamento total na Espanha e em torno de 20% nos EUA.

Uma ampla pesquisa feita no setor editorial e divulgada na Feira de Frankfurt em 2008 antevia que em 2018 o livro digital superaria o livro físico. Ao comparar essa e outras previsões com os dados atuais, fica claro que o papel tem enorme capacidade de resistência, apesar da crise, mas também que o livro eletrônico cresce de forma constante. “Está funcionando menos do que esperávamos, mas estamos crescendo a um ritmo de dois dígitos, principalmente no mercado latino-americano e dos Estados Unidos”, diz Iría Álvarez, chefe de desenvolvimento digital e vendas digitais da Penguin Random House.
América Latina e EUA

Perguntado sobre uma possível desaceleração do livro eletrônico, Santos Palazzi, diretor de assuntos digitais da editorial Planeta, o outro gigante editorial espanhol, responde: “O e-book continua crescendo de forma sustentada. Observa-se certa desaceleração na Espanha, ao passo que as taxas de crescimento em novos modelos de negócios, como o empréstimo digital bibliotecário ou as plataformas por assinatura, superam 50%. Além disso, esperamos que em médio prazo as vendas na América Latina e EUA representem até 50% do faturamento total”.

Entretanto, as editorias pequenas continuam dependendo do papel, e algumas nem sequer editam livros eletrônicos. “O papel é a base do nosso negócio”, diz Luis Solano, da Libros del Asteroide, que edita todas as suas novidades nos dois formatos. A tranquilidade que a leitura em papel permite, a legibilidade desse suporte e a rede de livrarias protegidas pelo preço fixo são alguma das causas que ele cita para explicar a sobrevivência ao digital. Heloise Guerrier, da editorial de quadrinhos Astiberri, também argumenta que seus leitores continuam preferindo disparadamente o formato tradicional, embora a editora tenha recentemente lançado em seu site a venda de HQs digitais a preços muito inferiores ao papel. “Quem gosta de HQs e as lê não acho que compre digital. Mas, embora por enquanto seja algo marginal, não podemos ignorar”, diz Guerrier.

O VHS foi morto pelo DVD, e é possível que esse formato seja substituído por plataformas como Netflix, iTunes e Yomvi [resta ver se acabarão com a televisão tradicional]. Mas o vídeo não matou o rádio, assim como o cinema e a televisão não acabaram com o teatro. Tudo indica que ainda haverá livros de papel por muito tempo. Entretanto, os livros digitais também têm um futuro seguro, um lugar nas novas bibliotecas do mundo.

Os ‘Spotify da leitura’

É um mercado são e sustentável, e acreditamos que continuará sendo assim”, afirma Koro Castellano, diretora do Kindle em espanhol. A Amazon não costuma divulgar muitos dados sobre seu negócio, e Castellano não revela cifras sobre a autoedição, que qualifica como “a mudança mais profunda que o livro digital promoveu”. Dos 25 livros mais vendidos no Kindle em 2014, 48% [12 títulos] eram autoeditados. Sobre a oferta do Kindle Unlimited, serviço com preço fixo mensal, ela tampouco revela cifras, mas garante que seu crescimento é muito expressivo.

Álex Fernández, da 24Symbols, que oferece leituras ilimitadas a 8,99 euros [37,50 reais] por mês, afirma por sua vez que “o papel não está morrendo e, sobretudo, o digital não é uma ameaça, pois veremos como aprendem a conviver. Surgirão dois tipos de leitores, ou existirão gêneros que funcionarão melhor em um formato ou outro”. “Os modelos de assinatura já são parte do presente do negócio editorial, pelo número de plataformas que operam no mundo, porque é um tipo de serviço popular entre os consumidores de cultura [há os de música, filmes e séries, games, notícias, audiolivros, HQs…] e porque representam um novo canal de venda para as editoras e os autores. Uma nova oportunidade de negócio“, conclui.

Por Guillermo Altares | El País | 02/11/2015

Sistema de assinaturas da Amazon para livros chega ao Reino Unido


Depois de ter estreado este modelo nos Estados Unidos, a Amazon lança agora no Reino Unido a sua versão ilimitada, através do pagamento de uma mensalidade.

O Kindle da Amazon é um dos aparelhos mais usados para a leitura de livros electrónicos Rui Gaudêncio

O Kindle da Amazon é um dos aparelhos mais usados para a leitura de livros electrónicos Rui Gaudêncio

A partir de agora, no Reino Unido também já se pode ter acesso a todo o catálogo da Amazon através do pagamento de uma mensalidade. O sistema é semelhante ao que já acontece na música [com o Spotify, por exemplo], nos filmes e nas séries televisivas [Netflix].

Foi em Julho que ficou disponível nos Estados Unidos a subscrição do Kindle Unlimited, que permite aos assinantes o acesso aos mais de 650 mil livros electrónicos, assim como aos mais de dois mil áudio-livros. Tipicamente, a Amazon lança os produtos e serviços no mercado norte-americano antes de os levar para outros países. Agora, este modelo de assinatura, cuja mensalidade custa 7,99 libras [cerca de dez euros], está também disponível no Reino Unido, não havendo ainda indicação de quando poderá chegar a outros países.

“Os nossos clientes dos Estados Unidos mostraram-nos o quanto gostaram da oportunidade de descobrir novos autores e novos géneros, e estamos encantados por oferecer a mesma liberdade aos nossos clientes no Reino Unido”, disse ao The Guardian Jorrit Van der Meulen, vice-presidente europeu da Amazon.

Para promover este novo serviço, a Amazon tem destacado exactamente a possibilidade de, com esta subscrição, se poder ler os grandes bestsellers, como ainda descobrir novos nomes da literatura.

O anúncio deste novo serviço, surgiu pouco depois da polémica entre a Amazon e o grupo editorial Hachette, depois de uma forte disputa contratual, cujos termos não foram até hoje divulgados. Por não conseguir chegar a acordo o grupo editorial, a Amazon dificultou o acesso aos títulos da Hachette, o que irritou muitos autores, despoletando diversas acções.

Agora, a Amazon defende-se, argumentando que com o sistema de assinatura contribuirá também para os autores. Este género de sistema já é frequente noutros tipos de conteúdo. O Spotify, por exemplo, é um dos conhecidos serviços de música que funciona num modelo de assinatura mensal. A própria Amazon já tinha um serviço de assinatura de vídeos.

À semelhança do que acontece no Spotify, em que os artistas recebem uma percentagem pequena de cada vez que as suas músicas forem ouvidas, também na Amazon, os autores serão pagos de cada vez que alguém ler mais de 10% dos seus livros através deste novo serviço. A quantia que recebem depende, no entanto, dos acordos entre as editoras e a Amazon.

Público | 24/09/2014, às 14h07

Quanto vale o livro por assinatura — para editoras, autores e leitores


Por Julio Silveira | Publicado originalmente em PublishNews | 27/03/2014

“Leva esse Felinni também. Ó, os quatro por dez reais”. Eu já tinha um Almodóvar e dois John Hughes na mão. Com o Felinni, cada DVD sairia por meros R$ 2,50. Mas, pensando bem… para quê? Era o último dia da locadora do bairro. E era a última locadora no bairro. Estava vendendo tudo, o acervo, os móveis, as prateleiras. O dono explicava a mais um cliente desconsolado. “É. Não dá mais. As pessoas não alugam mais. Agora elas ligam a tevê e botam o que querem ver. Now. Netflix. Vai ser assim agora”. O cliente comentou que, com a internet, nem comprava mais CDs. Aproveitei: “E livro hein? Será que vai ser assim também?” O dono deu de ombros. “É, daqui a pouco vai ser assim também com os livros”. Outra cliente concordou com um muxoxo. “É, até com os livros”.

O que pressentem os clientes na locadora é o que se sabe no Vale do Silício. Os livros, ou melhor, a literatura digital, caminham para um sistema de assinaturas. Os e-books tentaram se comportar como os livros tal qual conhecemos: mercadorias. Porém o lado “e” foi mais forte que o lado “book”, e ele acabou por seguir sua natureza, a internet, repudiando restrições de quantidade, acesso e [quase] de custo. O digital já permitiu que a música e o audiovisual passassem da fase sólida para a gasosa, isto é, os bens culturais deixaram de ser mercadorias que o cliente busca e leva para casa, e tornaram-se um serviço em permanente disposição, onde e quando e o quê o cliente desejar. No audio temos o Spotify. No visual temos a Netflix.

Nos últimos meses, pipocaram os candidatos a “Netflix” dos livros, lá fora e no Brasil. Uma boa arrancada, mas sem direção clara. O que representa o sistema de assinatura de livros — onde o cliente lê o quê e o quanto quiser por uma tarifa mensal — para leitores, editores e autores? Como isso “funciona” financeiramente — se é que funciona?

Os modelos de negócio ainda estão calcados nos livros-mercadoria e equiparam a web às livrarias e bibliotecas físicas. As “distribuidoras” dizem a editores que cada “leitura” equivalerá à receita da venda de um ebook. Alguns editores exigem que, enquanto um livro estiver “emprestado” a um assinante, não poderá ser lido por mais ninguém. Escritores querem seus “direitos autorais” contabilizados como um percentual de cada livro “emprestado”. Todos preferem ignorar que um texto digital não é um objeto estocável, e sim um arranjo eletrônico provisório infinitamente replicável. Dão respostas de ontem para perguntas de amanhã.

A pioneira Kindle Owners Lending Library [KOLL], da Amazon, segue a metáfora da biblioteca. O assinante só pode pegar um livro por vez. Quer ler outro? Devolva o primeiro. Por U$ 72 anuais, é como se o leitor comprasse 12 ebooks por U$ 6 cada [um desconto de 40% sobre o preço médio]. Cada livro “emprestado” rende ao editor como se ele tivesse sido vendido, mas somente aqueles que concordam com a exclusividade conseguem boas margens na Amazon. O autor, é de se supor, recebe seus royalties integrais a cada livro baixado.

Já com a Oyster — a mais parruda das candidatas a “Netflix dos Livros” — é para valer. Leia quantos livros você quiser ou conseguir, pagando uns U$ 10 por mês. Do lado das editoras, a Oyster promete pagar integralmente por aqueles títulos efetivamente lidos [mas não os folheados], como se tivessem sido vendidos. Em termos de plano de negócio, o modelo é o da churrascaria rodízio. Alguns clientes vão comer, literalmente, todo o lucro do processo, mas a média [dentro de uma grande amostragem] vai consumir menos do que custou a comida, gerando lucro. E, se o cardápio não varia, os custos são constantes e menores, por economia de escala. É só uma questão de manter as mesas cheias. O negócio atingirá o nirvana econômico quando contar com uma base extensa de assinantes gerando um fluxo constante de receita superior aos repasses às editoras: uma mais valia sobre o leitor pouco frequente no meio do big data. Em outras palavras: o restaurante cheio de gente que se entope com farofa antes de chegar a carne.

Voltando à Amazon e sua KOLL, há uma outra receita para editores, que dificilmente pode ser convertida em royalties para os autores — simplesmente porque é impossível atribuir a um título. As editoras que toparem exclusividade com o Kindle dividem um “Fundo Global”. Para calcular sua fatia nesse bolo — que para Março de 2014 é de R$ 2,8 milhões — divide-se a quantidade de empréstimos do catálogo da editora pelo total de empréstimos geral. Essa receita não se confunde com a receita pelo empréstimos de ebooks, que também é paga, e serve de base para o cálculo dos royalties de autores. No Brasil, a pioneira Nuvem de Livros opera de forma semelhante: as editoras recebem diretamente por cada livro “lido”, e também indiretamente, com uma participação da receita geral, calculada pela quantidade de livros em relação ao catálogo total. Nos dois casos, o recurso do bônus é uma forma de estimular editoras a embarcarem em uma modalidade radicalmente nova de comercialização. Dá para imaginar que, com o amadurecimento do mercado, esse chamariz perca atratividade.

Ainda assim, os editores estão hesitantes em entrar no Oyster, e elegeram para bois-de-piranha seus backlists, os títulos mais antigos que já não rendem muito. Algo parecido ocorre com a Netflix, com o catálogo baseado em filmes que já esgotaram a carreira no cinema e tevê. Mas a Netflix deu tão certo que já está produzindo seu conteúdo, e com sucesso. Quem sabe a Oyster, quando tiver uma base de milhões de assinantes, não terá porte para bancar livros “exclusivos” de grande apelo?

E se o sistema efetivamente vingar, o que isso representará para a indústria do livro?

No cenário do círculo vicioso, os livros serão banalizados. Aquela edição comentada traduzida do russo em quatro volumes “custa” [e “vale”] tanto quanto os sonetos do meu tio poetastro. Sem a percepção de valor inerente aos livros impressos, a literatura digital perde de vez a disputa com outras formas de entretenimento digital. Os editores venderão o estoque, a “3 por 10 real”.

Na melhor das hipóteses, temos o círculo virtuoso. O acesso instantâneo e fácil, livre das restrições de custo, vai estimular a descoberta e a formação de público leitor. Uma base maior de assinantes vai gerar um fluxo constante para editoras que, com a receita básica garantida e a extinção dos custos de impressão e frete, vão poder remunerar melhor os autores. Em pé de igualdade com outros bens de consumo digitais, música e audiovisual, os livros ganham novos públicos.

O argumento para esse cenário mais promissor é que a maior parte das vendas de livros trade, como os romances, se dá por impulso. O sujeito zanza pela loja e vai com a cara do livro no balcão. O que vai determinar a venda, na livraria, é o número que aparece ao escanear o código de barras. É o preço que define se ele levará o livro ou não, o exemplo clássico de demanda elástica. Pois imagine que não há mais essa barreira. No sistema de assinatura de livros, não custa nada folhear um livro, ele parece sair “de graça”. Rompe-se o elástico. O bovarismo é regra. Se tudo der certo, teremos mais gente descobrindo livros, maior público leitor, maior receita.

Seja qual for o futuro do livro e de seu indústria, assistir de camarote às destruições criativas que levam o mercado adiante não é uma opção. É a energia, cupidez e insensatez das startups tecnológicas que abrem novos caminhos, justamente porque são eles que não sabem o que é impossível. Infelizmente, os desafios comerciais são por vezes maiores que os desafios tecnológicos, posto que os mercados têm códigos mais complexos, como a cultura e o hábito. Eis o dilema do inovador: ser o melhor a atender ao mercado em suas demandas atuais, ou ser o primeiro a atender suas demandas futuras.

Ou continuar a ser a melhor locadora do bairro.

Por Julio Silveira | Publicado originalmente em PublishNews | 27/03/2014

Julio Silveira é editor, formado em Administração, com extensão em Economia da Cultura. Foi cofundador da Casa da Palavra em 1996, gerente editorial da Agir/Nova Fronteira e publisher da Thomas Nelson. Desde julho de 2011, vem se dedicando à Ímã Editorial, explorando novos modelos de publicação propiciados pelo digital. Tem textos publicados em, entre outros, 10 livros que abalaram meu mundo e Paixão pelos livros[Casa da Palavra], O futuro do livro [Olhares, 2007] e LivroLivre [Ímã]. Coordena o fórum Autor 2.0, onde escritores e editores investigam as oportunidades e os riscos da publicação pós-digital.

A coluna LivroLivre aborda o impacto das novas tecnologias na indústria editorial e as novas formas de relacionamento entre seus componentes — autores, agentes, editores, livrarias e leitores. Ela é publicada quinzenalmente às quintas-feiras.

Scribd, o “Netflix dos livros”, e a segunda onda dos eBooks


Por Renata Honorato | Publicado originalmente e clipado à partir de Veja On Line | 15/02/2014

Criador e CEO do serviço de “aluguel” de livros digitais diz que “leitores devem se preocupar com o que ler, e não com o que comprar”

Trip Adler, CEO da Scribd - Jeff Chiu/AP

Trip Adler, CEO da Scribd – Jeff Chiu/AP

Os leitores devem se preocupar com o que ler, e não com o que comprar“, diz o americano Trip Adler, de 29 anos. Adler é cofundador e CEO do Scribd, plataforma criada para facilitar o compartilhamento de arquivos e que desde outubro de 2013 ganhou uma nova função: vender assinaturas de uma biblioteca digital. O usuário paga uma mensalidade 8,99 dólares [menos do que o preço de um livro, em geral] e ganha acesso ilimitado a um catálogo de, por ora, 100.000 e-books que podem ser acessados a qualquer momento, a partir do computador, do tablet, do smartphone. O serviço faz com os livros digitais o que o Netflix fez com vídeos e o Spotify com a música. Não há compra — nem da obra em papel, nem de sua versão virtual. Nos Estados Unidos, a nova maneira de consumir literatura ganha corpo. Por lá, o rival é o Oyster, lançado no ano passado. A gigante Amazon também tem algo parecido, mas menos em conta: por 79 dólares ao ano, é possível escolher uma obra por mês em um catálogo de 350.000 títulos. No Brasil, há pelo menos três iniciativas similares: Nuvem de Livros, Biblioteca Digital e Minha Biblioteca. O catálogo do Scribd ainda é relativamente modesto [nos Estados Unidos, a Amazon, oferece cerca de 2 milhões de e-books para venda]. O acervo se concentra em obras publicadas até 2012, ou seja, lançamentos mais recentes estão fora do alcance do assinante. Além disso, há muitas obras que já caíram em domínio público e,assim, já estão disponíveis em outros sites. Na entrevista a seguir, Adler diz que mantém negociações com editoras e autores, inclusive brasileiros, para oferecer mais títulos. Ele descreve ainda a reação ao novo modelo dos atores da indústria do livro — leitores, autores, editores e também a rival Amazon.

Como surgiu a ideia do modelo de assinatura de e-books?

Trabalhamos com um grande número de editoras há alguns anos e, a certa altura, começamos a discutir com elas um novo modelo de negócio. Estávamos em busca de mais leitores e, é claro, de mais receita. Foi assim que tivemos a ideia de apostar em um modelo de venda de assinaturas em lugar de venda de e-books. Chegamos à conclusão de que esse modelo poderia render dinheiro às editoras e funcionar como um negócio interessante para o Scribd.

Quantos assinantes esse serviço possui?

Não temos esses números ainda, porque o serviço é recente. Toda a plataforma Scribd possui 80 milhões de usuários. Lançamos o recurso de assinatura de conteúdos compartilhados por usuários no começo de 2013 e, desde então, registramos um crescimento de 60% ao mês. O catálogo de livros, contudo, só começou a ser oferecido em outubro do ano passado.

Qual é o perfil dos assinantes do serviço de assinatura de e-books?

Em geral, são pessoas que realmente gostam de ler. Gente interessada em conhecer novos livros de uma forma diferente, não importando o gênero. Oferecemos uma biblioteca digital: portanto, os leitores devem se preocupar com o que ler, e não com o que comprar. É muito mais divertido descobrir e experimentar novos livros por meio da plataforma.

Você acredita que esse é o modelo de consumo de livros do futuro?

Sim. Esse modelo de assinatura funciona para música, vídeos, jornais e revistas. Por que não funcionaria para livros? O usuário paga o valor de um e-book, mas tem acesso a um catálogo de milhares de livros. E toda vez que essas obras são lidas, o editor ganha dinheiro.

Qual é o modelo de negócio? Como autores e editores são remunerados?

Pagamos os autores e editoras toda vez que um e-book é lido. Ao invés de pagar pelo arquivo, como acontece na venda de livros digitais, nós pagamos por leitura.

E o que acontece quando um livro não é lido integralmente?

Depende muito do acordo fechado com as editoras. Em alguns casos, pagamos por página, em outros, há uma remuneração parcial. Tudo depende do tipo de acordo fechado.

Qual é a reação dos leitores ao modelo?

A nossa percepção é de que os usuários adoram o serviço. Eles podem usá-lo em diferentes plataformas. Oferecemos o Scribd, por exemplo, no formato de aplicativos na App Store e Google Play. Nessas lojas, a nossa avaliação média é de quatro ou cinco estrelas. Temos usuários muito engajados. Alguns leem, em média, 40 horas por semana. Claro que ainda é muito cedo, mas acho que o serviço se tornará muito popular em um prazo curto.

E a indústria do livro, incluindo editoras e autores, como vem reagindo?

Nosso relacionamento com os autores e editoras têm sido tranquilo até o momento. Fechamos uma grande parceria com uma das maiores editoras dos Estados Unidos, a HarperCollins, e outros contratos estão a caminho. No começo, todos ficaram apreensivos, tentando compreender o novo modelo de negócio, mas agora o conceito ganha força a cada semana. Temos mantido um contato intenso com editoras e autores. Conversamos o tempo todo com esse público a fim de escutar sugestões e implementar novas ideias. Somos muito abertos.

A Amazon parece ser uma rival óbvia do serviço. Qual a relação do Scribd com a gigante do varejo?

Lançamos um aplicativo para o Kindle Fire e o Kindle PaperWhite [dispositivos da Amazon], mas a Amazon não nos deixou colocá-lo à disposição dos leitores em sua loja de apps. Passamos, então, a oferecê-lo em nosso site.

Quando o Scribd chegará a outros países?

Nossa plataforma está disponível internacionalmente e já temos, inclusive, alguns assinantes brasileiros. Eu acredito que, ao oferecer mais conteúdo em português, nossa base de usuários brasileiros crescerá. Essa é, inclusive, uma estratégia interessante para conseguir mais assinantes no exterior.

Você tem planos de fechar parcerias com editoras brasileiras?

O Brasil é um mercado grande e temos recebido muitos pedidos de autores e editoras brasileiras interessados em incluir seus livros na plataforma. Nós temos cerca de 500 livros em português em nossa biblioteca e sabemos que para conquistar mais leitores no país será preciso aumentar a oferta de obras no idioma local.

O que você acha do apelido que o Scribd ganhou: “Netflix dos livros”?

Eu não vejo problema. Trata-se de um modelo de negócio semelhante. Ele possui algumas características próprias, porque temos além dos livros um catálogo grande de documentos compartilhados por usuários. Mas acho “OK” nos comparem ao Netflix.

A nova indústria dos eBooks


ebook

A história do mercado editorial está prestes a ganhar um novo capítulo. Inspiradas em serviços como Netflix e Spotify, startups de tecnologia estão desenvolvendo plataformas que permitem aos leitores acessar uma infinidade de ebooks – quando e onde quiserem – em troca de uma assinatura mensal.

Mais que criar um novo padrão de consumo de conteúdo, essas empresas estão abrindo uma promissora fronteira de negócios para a indústria de livros. Elas pretendem vender informações sobre nossos hábitos de leitura para autores e editoras produzirem best-sellers.

Com base na análise de grandes volumes de dados, será possível responder a perguntas como: Quanto tempo as pessoas levam para ler um clássico de Machado de Assis? Pulamos capítulos para conhecer logo o assassino numa história de Agatha Christie? Qual passagem provoca o abandono de um título de Paulo Coelho? Retardamos a leitura do último volume de Harry Potter porque sabemos que não haverá sequência?

A nova indústria dos ebooks já conta com duas empresas – a  Scribd, baseada em São Francisco, e a Oyster, de Nova Iorque. Por uma mensalidade de cerca de 10 dólares, o assinante pode navegar numa biblioteca digital com mais de 100 mil obras e ler quantos ebooks desejar em diferentes dispositivos. Os serviços repassam parte desse valor para os publishers de acordo com a porcentagem de leitura de cada livro. No caso da Oyster, se mais de 10% da publicação for lida, a editora é remunerada.

Segundo uma reportagem do The New York Times, o estudo do comportamento dos leitores por essas startups ainda está em fase inicial. Mas alguns insights obtidos, e revelados por elas ao jornal, dão uma amostra do potencial da iniciativa. Num futuro próximo, será possível escrever um livro totalmente adaptado aos gostos do público.

Eis as principais descobertas das empresas: quanto mais longo for um livro de mistério, maiores serão as chances de ocorrer um salto para os capítulos finais. As pessoas leem até a última página mais biografias do que publicações sobre negócios. Os leitores são 25% mais propensos a terminar ebooks divididos em partes menores. A velocidade de leitura de livros eróticos é maior do que a de romances e títulos religiosos.

Embora seja uma mina de ouro, há várias dúvidas sobre os rumos que esse tipo de atividade deve tomar nos próximos anos. Uma delas passa pelo direito à privacidade. Apesar de prometer o anonimato, as políticas de uso desses serviços preveem a coleta, transferência, manipulação, armazenamento e divulgação de informações com o consentimento dos leitores. Estamos dispostos a nos expor sem ganhar nada em troca?

Existe também um forte questionamento sobre a perda do processo criativo dos autores. O alinhamento cego aos desejos do público poderia nos privar do surgimento de obras-primas da literatura. Abriremos mão da escrita intuitiva e emocional em nome de uma produção técnica, baseada em algoritmos?

Por fim, a subordinação dos publishers a essas plataformas é motivo de preocupação. Detentoras dos dados, elas ganhariam força para determinar quais livros seriam produzidos e o valor da comissão das editoras. O mundo literário quer se render a esse modelo disruptivo?

Até agora, as editoras estão divididas. HarperCollins e Smashwords já fecharam com Oyster e Scribd, mas Penguin Random House e Simon & Schuster estão longe de um acordo, diz o The New York Times.

Nesse cenário, Amazon e Barnes & Noble correm por fora. Hoje, as duas empresas coletam várias informações dos usuários de seus e-readers e mantêm a propriedade sobre elas, diferentemente do que as startups pretendem fazer.

Isso pode mudar em breve: a Amazon estaria planejando o lançamento de um serviço semelhante ao das concorrentes. Por um valor mensal, teríamos acesso a um gigantesco catálogo de livros – e as editoras receberiam relatórios sobre nossos hábitos de consumo.

A nova indústria dos ebooks mostra que ferramentas nos moldes da Netflix estarão em alta em 2014. Depois do cinema, da música e da literatura, o jornalismo deve surfar nessa onda. A assinatura pela consulta ilimitada a acervos de conteúdo e a venda de dados dos usuários serão fontes de receita alternativas para organizações de mídia na Internet.

Esse quadro representará uma enorme quebra de paradigma para empresas acostumadas a comercializar produtos individualmente. Poderemos assinar um pacote de revistas sobre esporte, economia, moda e política, por exemplo, pelo mesmo valor cobrado por apenas uma delas hoje. Um novo tipo de experiência, totalmente virtual, pautará as redações e a publicidade que veremos.

As oportunidades são animadoras para indústrias em luta pela sobrevivência no meio digital. Só ficará para trás quem não quiser enxergá-las.

PUBLICADO ORIGINALMENTE EM EXAME.com | 13/01/2014 | Imagem adaptada de melenita2012 [Flickr/Creative Commons]

Smashwords fecha parceria com Scribd


Sempre comparado a indústrias próximas como televisão e música, o mercado digital há tempos espera a expansão do “Netflix/Spotify para livros”, ou seja, modelo de leitura por assinatura. O Oyster, lançado este ano, foi o primeiro serviço que chamou um pouco mais a atenção, principalmente por contar com o catálogo da HarperCollins. E parece que tem futuro: a Perseus anunciou semana passada que seu catálogo também fará parte da biblioteca do Oyster. Outro grande passo do modelo por assinatura foi o acordo entre a gigante da autopublicação Smashwords e a Scribd. O catálogo gargantuesco de 225 mil e-books autopublicados da Smashwords farão parte da biblioteca da Scribd [por US$ 8,99 por mês].

Por Iona Teixeira Stevens | PublishNews | 23/12/2013

Google vai combater pirataria de eBooks


O Google está lançando novas atualizações no sistema de busca que irão reduzir bastante a quantidade de pirataria que aparece como resultado de uma consulta por um ebook ou uma determinada música, por exemplo. O novo mecanismo de procura irá filtrar os sites que possuem reclamações ativas no DMCA [Digital Millennium Copyright Act], e também sites piratas conhecidos. Google afirma que esta mudança tem a intenção de ajudar os usuários que estão em busca de distribuidores de conteúdo legítimo, como Apple, Amazon, Spotify e Google Books, e fazer com que seja mais difícil para o usuário casual encontrar um site pirata.

Por Adriana Pires | Revolução eBook | 14/08/2012

Modelo de assinatura de eBooks: bom para nichos, não para o mercado em geral


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 31/07/2012 | Tradução: Marcelo Barbão

Mike Shatzkin

Outro novo negócio de venda de ebooks apareceu em nosso escritório este mês, divulgando uma proposta de assinatura. Falei ao empreendedor: “Sou cético sobre o modelo de assinatura para ebooks”, e ele respondeu, “Eu sei”.

Tivemos uma grande conversa, mas eu ainda estou cético. Quando falo isso, quero dizer que sou cético de que um modelo de assinatura oferecendo ebooks em geral possa funcionar.

Certamente, há uma lógica no modelo de assinaturas, especialmente para aqueles que pensam que o mercado editorial deveria aprender com outros mercados de conteúdo. A TV a cabo realmente começou com assinaturas e só mais tarde passou a pay-per-view, que é mais como o modelo de vendas de ebooks [mas não exatamente]. Temos Netflix para filmes e programas de TV, Audible para audiobooks e uma série de serviços para música, sendo que o mais bem-sucedido parece ser o Spotify.

Tenho uma assinatura do Spotify, apesar de não usá-la muito. Talvez seja besteira, mas gosto de pagar $119,88 dólares ao ano [que significa $9,99 por mês] para ter acesso a simplesmente qualquer música que eu poderia querer ouvir instantaneamente quando surge a necessidade [ou sugestão] para ouvi-la. [Spotify raramente me desaponta por não ter a música.] E isso apesar de que a maioria das minhas necessidades é satisfeita com as mais de 6.000 músicas que tenho no meu repositório do iTunes, das quais as 1.000 melhores estão no meu celular.

Spotify foi citado pelo empreendedor que conheci como uma motivação para começar seu negócio de assinatura de ebooks. Como ele corretamente apontou, “compartilhar uma playlist” com um amigo assinante do Spotify permite que ele imediatamente – sem custos ou fricção adicional – “consuma” aquela música. Compartilhar uma playlist no iTunes com alguém o leva a ter de fazer as compras e, além do dinheiro, é preciso tempo e [um considerável] esforço entre receber a playlist desfrutá-la.

Então, foi colocado que esta lógica deveria se aplicar a livros. Com várias exceções compreensíveis, não tenho certeza se pode ser assim, pelo menos no futuro próximo.

Tenho bem fresco um discurso em Washington sobre o que o Departamento de Justiça entende sobre o mercado editorial. A resposta, se resumida a uma única palavra, seria “granularidade”.

De acordo com a associação de produtores, os lançamentos de filmes nos EUA em 2007, 2008 e 2009, foram 609, 633 e 558 respectivamente. Os filmes estrangeiros, e talvez alguns filmes independentes, não foram contabilizados e podem ser adicionados àqueles números para avaliar o que está disponível, mas a magnitude é essa.

As Seis Grandes Editoras lançam em média mais de 3.500 títulos por ano cada. E há muito mais produção de títulos, além das Grandes Seis, do que há produção de filmes fora dos estúdios de Hollywood. Seria muito conservador estimar que haja 100.000 novos títulos produzidos profissionalmente por ano, voltados para o consumo. [Muito mais é publicado para uso profissional ou como textos de escola ou faculdade, além dos e-books autopublicados, que às vezes atingem o grande público, o que multiplicaria várias vezes este número.]

Lançamentos comerciais de música ficariam entre filmes e livros em número, mas muito mais perto dos filmes.

Esta é a resposta curta a por que a maioria das pessoas compartilha música e experiências de filmes com muito mais amigos e conhecidos do que livros. Também é a resposta curta para o motivo pelo qual pessoas fora da indústria editorial simplesmente não entendem; cada um destes livros é um empreendimento criativo e comercial separado, cada um com seu próprio contrato, seu próprio caminho de desenvolvimento e sua própria exigência de marketing.

[Também ajuda explicar por que muitas pessoas que usam bibliotecas para algumas leituras não as usam para todos os tipos de livros. Nenhuma biblioteca terá todos os livros que um sócio voraz gostaria de ler.]

Nos dias anteriores à Amazon.com e aos livros digitais, havia dois tipos de serviços de assinatura que funcionavam para os livros comerciais.

Clubes de livros ofereciam acordos de preço e curadoria [ajuda com a seleção], mas era o acordo de preços que realmente atraía os membros. Antes das livrarias em todos os lugares [algo que chegou nos anos 80], Book-of-Month Club e The Literary Guild tinham os livros com melhor perfil distribuídos a consumidores que teriam dificuldades em consegui-los [assim como aqueles com livrarias próximas que só queriam a conveniência da entrega pelo correio.] Com o crescimento das livrarias, os Clubes descobriram que “clubes de nichos” [ao redor de mistério, ficção científica ou assuntos como jardinagem] aparentemente eram mais lucrativos do que os grandes clubes de interesse geral. [“Aparentemente” é uma palavra bastante operativa, mas a explicação dela vai ter de esperar outro post.]

O outro conceito de assinatura que funcionou foi o de “séries”. O líder de mercado foi a Time-Life Books. Estes livros tratavam de um assunto em especial [II Guerra Mundial, por exemplo] e eram “empacotados” especificamente para a série, não estando disponíveis em lojas. A continuidade se baseava no interesse intenso sobre o assunto e na mentalidade de “coleção”. Alguém que havia começado a colecionar a série não queria ter buracos em sua coleção.

Ambos os modelos foram derrotados pela compra de livros online que, de repente, fez com que todos os livros estivessem disponíveis para entrega em domicílio, para qualquer pessoa, em qualquer lugar.

Em nichos específicos, os modelos de assinatura podem funcionar muito bem. O avô deles no lado digital é Safari Books Online, originalmente concebido e construído pela O’Reilly em parceira com a Pearson. Safari serve uma comunidade de programadores e possui uma grande coleção de livros instrutivos e de referência voltados para uso profissional. A maioria dos usuários está sempre consultando os livros, e não lendo-os direto. E gostam da ideia de dar uma olhada em vários livros para tratar um problema que estão enfrentando.

Safari foi pioneiro no modelo de dividir a parte das editoras das taxas de assinatura através da métrica do uso. Quanto mais seu livro é visto, mas dinheiro você recebe do total. E como os usuários do Safari vão quase sempre encontrar as respostas que precisam dentro do serviço, deixar seus livros de fora significa que ele não será encontrado e usado. Como pelo menos uma parte do uso do Safari poderia levar à venda do livro em si [mesmo se isso não for muito frequente para a maioria dos livros], este elemento de descoberta é perdido junto com qualquer renda gerada se o livro não estiver incluído no banco de dados. Uma editora pode estar confiante de que não está perdendo muitas vendas se estiver dentro do Safari.

[O modelo que parece ser “tudo que você quiser por um preço único” para o comprador e do tipo “pague pelo uso” para o dono do conteúdo de uma forma ainda mais pura do que o Safari é o acordo oferecido pela Recorded Books e seu serviço de download digital para audiobooks para bibliotecas. Há outros modelos de assinatura no espaço da biblioteca; é uma distração tratá-los neste post, por isso não serão discutidos aqui.]

O’Reilly logo viu que seus livros, sozinhos, não seriam as melhores ofertas de assinatura, então abriram à participação de outros desde o início. Safari é excepcional em pelo menos três pontos: são maiores do que uma editora, são construídos sobre uma base de usuários profissionais, e geram valor principalmente através de trechos, não de leituras de cabo a rabo.

Mas se uma editora é forte num nicho, um serviço de assinatura pode funcionar para eles também: Baen Books [ficção científica] e Harlequin [romance] são duas editoras de nicho que venderam assinaturas com sucesso. [Na verdade, a Harlequin reconhece sub-nichos, segmentando ainda mais sua audiência para ter um alvo melhor.] A editora de ficção científica Angry Robot, da The Osprey, oferece assinaturas. eBooks por assinatura também são parte do modelo da Dzanc, que trabalha mais com livros literários [ficção e não-ficção; não são realmente de nichos, mais de “qualidade”] e será interessante se eles conseguirem fazer o paradigma de “qualidade” funcionar da mesma forma que “romance” e “ficção científica”.

Sourcebooks é uma editora geral, mas possui uma forte lista de romances. A editora está tentando estabelecer um clube e uma comunidade chamada “Discover a New Love” que opera de forma mais parecida com a velha BOMC: assinantes podem escolher um dos quatro títulos em promoção, além de conseguir outros benefícios de descontos em outros livros e a possibilidade de receber antes novos títulos.

Assinaturas são oferecidas na área de livros infantis também. A Disney Digital Books possui um sistema de assinatura mensal, assim como a Sesame Street eBooks. Nos dois casos, o modelo é de entrega baseada em browser em vez de downloads.

A F+W Media é uma editora que funciona em vários nichos verticais. Eles possuem duas grandes vantagens. Uma é simplesmente trabalharem de forma vertical. Possui público definido por seu interesse, o que é a chave para fazer uma oferta de assinatura funcionar no negócio de livros. A outra é que já foram editores de revistas e operadores de clubes de livros, então possuem experiência no contato direto com clientes e na administração destes relacionamentos. Também possuem vários nomes. E a F+W está administrando ofertas de assinaturas para muitas coisas além de ebooks.

A maioria das comunidades da F+W é de não-ficção [específica por assunto] e eles oferecem assinaturas para conteúdo em arte, redação, e design. Mas também estão se aventurando no mercado de romances agora e sua oferta Crimson Romance segue o modelo “tudo que você puder ler”. A Baen introduz o projeto de lançar uma novela em estágios para assinantes, como uma série.

E notamos recentemente que as conferências TED começaram a fazer ebooks [mais ou menos: só funciona em iOS] e um modelo de assinatura é parte do que pensam fazer também. Mais uma vez: num nicho. A app que permite ogerenciamento das assinaturas foi criada por The Atavist, que é outra tentativa de construir uma base para uma editora que se distingue por suas escolhas de conteúdo, como TED ou Dzanc, em vez de manter a divisão por consumidor já estabelecida [romance, ficção científica, ou um tópico como redação ou design.]

Vale a pena notar que há ofertas de assinaturas do tipo “buffet” e outras que são limitadas, mas que oferecem descontos quanto mais compras forem feitas. Essa variação existe em outras mídias também. Spotify é um preço único para tudo; Audible e Netflix medem seu uso e você pode pagar mais se consumir mais.

Há um forte padrão aqui para as ofertas de assinatura que estamos vendo.

Geralmente são feitas pelas editoras. [Safari não é uma editora, mas foi iniciada por editoras.] Isso significa que estão trabalhando com as margens das editoras [maiores do que as de um agregador]. Controlar o fluxo do produto significa que podem fazer bom uso da interação com sua audiência, aprendendo através de dados e conversas quais os próximos passos que deveriam dar. E, mais importante de tudo: do ponto de vista da oferta de um produto, estão focados.

É precisamente o oposto de Spotify, Netflix ou Audible que querem todas as canções, filmes, programas de TV ou audiobooks que puderem.

Então, que tal um modelo de ebooks mais geral?

Ainda não existe e não acho que vai acontecer num futuro próximo, apesar das ambições do meu recente visitante. Os desafios de montar a base de títulos são desencorajadores e, como espero que este post deixe claro, também é fornecer e demonstrar valor persuasivo.

Só consigo ver um player que poderia ser capaz de criar uma oferta de assinaturas mais gerais no médio prazo. [Adivinhem quem é.] Os “por quês” disso serão o tópico de um post futuro.

Uma coisa que é bastante certa é que quando existem muitas editoras oferecendo assinaturas em seus nichos [e algum dia isso vai acontecer], elas usarão algum serviço com base na Nuvem de um tipo ou de outro. Ninguém vai pedir ao departamento de TI que crie o software para trabalhar com isso.

Vou admitir que não programei nada específico sobre “assinaturas” no programa “Book Publishing in the Cloud” que estamos realizando no dia 26 de julho, mas se isso é o que algum participante quiser saber, terá uma grande oportunidade nas sessões de

“Conversas com Especialistas” para conseguir as respostas. Quase todos os palestrantes estarão disponíveis durante um tempo estruturado para conversas, assim como representantes das grandes empresas que estão patrocinando o evento.

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 31/07/2012 | Tradução: Marcelo Barbão

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].