Dicas práticas para produção de ePub3


Por Josué de Oliveira | Publicado originalmente em COLOFÃO | 26 de agosto de 2015

Em meu último texto, chamei atenção para algumas questões de cunho teórico que precisam ser levadas em conta quando se trata de produzir em ePub3. Dando continuidade a esse mesmo assunto, gostaria de destacar aqui alguns outros tópicos, agora de caráter mais prático. Não será um texto com tutoriais, mas com dicas gerais, inclusive de fluxo de trabalho.

Antes, vale dizer que a mesma ressalva feita no primeiro texto vale também para este: o que tenho em mente são livros de texto, não layout fixo, assunto deveras mais complexo que ficará para outra ocasião.

1. Permanecendo no Sigil até o limite

O Sigil, editor de ePub gratuito e open source que todos nós amamos, ainda não dá suporte para o ePub3, de modo que, quando um e-book já está no novo formato, o programa não é capaz de editá-lo corretamente. É bom evitar até mesmo abrir um ePub3 no Sigil, pois o código do arquivo pode acabar alterado. No entanto, o Sigil permanece sendo um dos melhores recursos na produção como um todo de um ePub3, mesmo que não seja possível editar diretamente nele.

E isso porque você não precisa, logo de saída, já ter um ePub3. Uma vez que o Sigil é tão prático, o melhor é extrair dele todo o possível antes de deixá-lo.

A recomendação é a seguinte: trate seu e-book como um ePub2 tradicional nas etapas iniciais da produção. Você pode convertê-lo pelo InDesign ou outro método do seu agrado, realizar a adaptação do projeto, inserir fontes e imagens, deixar o arquivo pronto para a revisão e inserir as emendas apontadas, tudo exatamente como teria feito por padrão se o e-book não fosse ganhar uma versão avançada. Só então, quando essas etapas [inclusive correções de texto] estiverem concluídas, prossiga para a conversão para ePub3.

Essa organização tende a otimizar o tempo, pois, do contrário, seria necessário utilizar um editor de HTML desde o início, além de compactar diversas versões do mesmo arquivo para realizar testes nos aplicativos. Concentrando a produção no Sigil até que este não possa mais ajudar, tem-se um processo mais fluído.

No caso de um projeto amplo, em que um livro precisa ter também uma versão ePub2, essa recomendação é ainda mais enfática, afinal esse arquivo será de fato necessário.

2. Conversão

O Sigil pode ser utilizado inclusive para converter seu arquivo ePub2 para ePub3. Com alguns cliques — como falei no primeiro texto, essa parte não é nem de longe a mais difícil –, você usa o plugin ePub-itizer e obtém uma versão confiável do arquivo no qual já vinha trabalhando atualizada para o novo formato. É a partir desse momento que o Sigil não poderá mais ser usado para edição. Lembre-se: você tem um arquivo já bem-encaminhado, com imagens e fontes já inseridas, bem como emendas de texto. Tudo que é comum entre o ePub2 e o ePub3 já está feito. O que vem agora é que será particular desse último.

3. Compiladores e editores de HTML

De agora em diante, você terá de trabalhar com seu arquivo descompactado. Para descompactá-lo, você pode utilizar programas como o ePubPackePubZip/Unzip [os mesmos podem ser utilizados depois para compactar] ou até mesmo abrir o ePub pelo WinRar e arrastar os conteúdos para uma pasta separada. Para editar as páginas agora descompactadas, será necessário um editor de HTML, comoNotepad++TextWrangler. Lembre-se: agora as facilidades do Sigil acabaram. Se novos arquivos, como áudios e vídeos, forem inseridos, terão de ser manualmente. Isso significa inclusive declará-los no content.opf.

4. Uma palavra sobre áudios e vídeos

Áudios e vídeos podem ficar estocados na pasta Misc, padrão em ePubs, mas você também pode, para melhor se organizar, criar pastas específicas [uma pasta “Audio” e outra “Video”].

Já que estamos falando sobre áudios e vídeos, um toque sobre suporte. Como tantos outros recursos do ePub3, estes dois não funcionam em todas as plataformas. De todas, a Apple é a quem melhor suporte. Nas outras, há limitações. O app Android da Kobo, por exemplo, não roda áudios, embora os vídeos funcionem. O mesmo ocorre com a Amazon [que tem um formato próprio para livros avaçados, como destacado no texto anterior, mas que pode ser adaptado a partir do ePub3]. Na Google, os áudios e vídeos do ePub3 de teste que utilizei não abriram nem na plataforma iOS nem na Android.

O ideal é utilizar uma mensagem de fallback, que será visualizada caso o e-book seja aberto num ambiente de leitura que não suporta algum dos recursos, como apontado nesse texto.Basta inserir a mensagem dentro da linha de código que chama o áudio ou o vídeo.

Exemplo:

<audio src=”../Audios/audio-exemplo.mp3”><p>Este conteúdo não pode ser visualizado nessa plataforma</p></audio>
Assim, a mensagem alertará o leitor de que ali há um certo conteúdo que não está sendo visualizado.

5. Testes

Para testes, recomendo priorizar o iBooks, onde o maior número de recursos funciona. Isso não exclui, naturalmente, a necessidade de testar em outras plataformas, mas, para testes rápidos, me parece a melhor opção. E agora não é mais necessário passar por um processo longo [como subir o arquivo para uma conta no Dropbox e depois abri-lo no iPad ou iPhone] para jogar o arquivo no aplicativo, já que as versões mais novas do sistema operacional contam com o iBooks para Mac.

6. Notas em pop-up na Apple

Um recurso interessante, que já abordei em outro texto de cunho mais técnico. Outras plataformas, como Kobo e Kindle, já geram a visualização de notas na forma de pop-ups em e-books tradicionais automaticamente, mas, no iBooks, é necessário fazer adaptações — um pouco complexas, é verdade complexas — no código para que o recurso funcione.

Mas pode ser interessante atentar para esse recurso na plataforma da Apple para utilizá-lo para outros fins, uma vez que, para essa plataforma, utiliza-se o <aside> para produzir as pop-ups. Essa serve para agrupar conteúdos relacionados ao principal, de modo que não é apenas nas notas que irá funcionar. Respostas para quizzes podem ficar escondidas até que um link seja acessado, por exemplo; ou, saindo um pouco da caixa, livros de ficção que se proponham interativos podem se valer dos pop-ups para escondem informações do leitor.

Esses foram alguns elementos que achei interessante destacar, muito com base na experiência que tive. Espero que possam ser úteis.

Até a próxima.

Josué de Oliveira

Josué de Oliveira

Por Josué de Oliveira | Publicado originalmente em COLOFÃO | 26 de agosto de 2015

Josué de Oliveira tem 24 anos e trabalha com e-books há pouco mais de três. Integra a equipe de digitais da editora Intrínseca, lidando diretamente com a produção dos mesmos, da conversão à finalização. É formado em Estudos de Mídia pela Universidade Federal Fluminense. Gosta de ler, escrever, ver filmes esquisitos e curte bandas que ninguém conhece. Tem alguns contos publicados em antologias e um romance policial que, segundo rumores, um dia ficará pronto.

Programas indies para edição, validação e testes de livros digitais


Normalmente, quando falamos em edição, validação e testes de livros digitais, falamos no Sigil, EpubCheck, Adobe Digital Editions e Readium. Para exportação: InDesign ou LibreOffice, — os mais radicais podem dizer Quark e/ou BlueGriffon Epub Edition –, certo?

Nada mais normal do que isso, afinal, são programas rotineiros no dia a dia dos desenvolvedores de e-books.
Hoje falarei brevemente sobre outras duas ferramentas não tão famosas quanto as citadas primariamente, todavia, muito interessantes tanto pelos diferentes funcionamentos quanto pelas possibilidades de serem usadas não apenas profissionalmente, mas também para estudo.

1. ePubChef

Trata-se de um projeto que tem a seguinte proposta: “acrescente os ingredientes na panela e ele cozinhará um ePub 3 para você” [impossível não lembrar do Fernando Tavares e suas analogias com comida].

Ele funciona via linha de comando a partir dos ingredientes que você adiciona às pastas dentro de uma estrutura pré-determinada, todavia, altamente customizável.

Esse caráter “customizável” do programa é extremamente útil para quem está interessado em estudar o formato e, de quebra, se estiver interessado em programação, você pode customizar o código da ferramenta em si, e não apenas os de seus arquivos. ;]

Após clonado o repositório, sua estrutura de diretórios é a seguinte:

Na pasta css você encontrará, bem, um CSS [bastante completo e cheio de comentários explicativos]. Nele, você poderá definir as diretrizes básicas do que espera do ePub a ser criado.

Se você estiver pensando em fazer alguns livros de uma mesma coleção, com valores similares, temos aí um bom começo: criar modelos de CSS.

Se você estiver pensando em fazer alguns livros de uma mesma coleção, com valores similares, temos aí um bom começo: criar modelos de CSS.

Mãos à massa: cook.py

Vá até a pasta [via terminal] e digite:

python cook.py mybook

Com esse comando ele criará os arquivos para o seu livro. Seguindo o exemplo da wiki usei o “mybook” [você é livre para escolher um nome mais criativo para o arquivo].

Você pode começar a editar e adicionar conteúdos, imagens, fontes na pasta mybook_raw e já preencher os metadados em mybook_recipe.yaml usando qualquer editor de textos simples [como o Bloco de Notas no Windows, por exemplo]. Nesse arquivo você ainda pode determinar a ordem, os nomes dos capítulos etc.

Já os conteúdos você acrescenta nos arquivos TXT. Exemplos de uso [tabelas, itálicos etc.] podem ser encontrados nos arquivos do exemplo [em demo_raw]. A cada edição, basta rodar o comando outra vez, e o programa recriará o arquivo atualizado.

Na página do projeto você encontra o tutorial da instalação e os primeiros passos para uso. Se você tem algum domínio de inglês e está interessado em aprender a fazer um e-book de dentro para fora, o ePubChef é um excelente caminho.

2. jeboorker

O jeboorker é um editor de metadados com algumas funcionalidades bastante úteis.
Para começar, ele permite a edição de metadados não apenas de arquivos ePub, mas também de CBR, CBZ e PDF, desde que os mesmos não se encontrem protegidos por DRM.

Diferente do ePubChef, o desenvolvedor já disponibiliza os pacotes de instalação para as plataformas Windows, Linux e Mac, diretamente na página do projeto no GIT.

A interface dele é bem simples, mas realiza bem o que se dispõe a fazer: editar metadados.

Uma das funções de que mais gostei no jeboorker foi o fato de poder importar diretamente uma pasta inteira em vez de um arquivo por vez, além da possibilidade de editar múltiplos arquivos de uma só vez, acrescentando a todos dados comuns presentes em um dos livros, tais como autor, coleção etc.

Outra coisa legal no programa é poder editar o UUID [arquivos exportados pelo InDesign em alguns casos apresentam um erro de validação referente a isso que, até então, eu corrigia na unha, diretamente no OPF e no NCX].

Além dessas funções, o programa permite fazer download dos metadados do título na internet a partir de dois bancos de dados [um é o do Google] e também editar os já existentes diretamente no XML.

Por fim, o programa é bem leve e não apresentou travamentos ou “comportamentos inesperados” [como fazer bagunça nos arquivos, por exemplo].

Para conhecer outras ferramentas relativas a e-books, vale verificar a listinha do EPUB Zone neste link.

  1. Ainda assim, recomendo que, no uso de Linux, a instalação seja feita diretamente através de repositórios [se disponível na sua distro]. Dessa forma você garante que receberá as atualizações automaticamente sem precisar entrar na página e baixar o programa outra vez. Se você, como eu, usa um derivado do Archlinux, no meu caso, o Manjaro, tem no AUR. ;]
Antonio Hermida

Antonio Hermida

Por Antonio Hermida | Publicado originalmente em Colofão |  29 de abril de 2015

Antonio Hermida cursou Análise de Sistemas [UNESA], Letras – Português-Latim [UFF] e Letras – Português-Literaturas [UFF]. Começou a trabalhar com e-books em 2009, na editora Zahar e, em 2011, passou a atuar como Gerente de Produção para Livros Digitais na Simplíssimo Livros, onde também ministrava cursos [Produzindo E-Books com Software Livre] e prestava consultorias para criação de departamentos digitais em editoras e agências. Atualmente, coordena o departamento de Mídias Digitais da editora Cosac Naify e escreve mensalmente para o blog da editora. Entre outras coisas, é entusiasta de Open Source e tem Kurt Vonnegut como guru.

Treinamento Prático de Produção de Livros Digitais no Formato ePub3 com Adobe inDesign


Participe de um treinamento prático da Escola do Livro com Jean-Frédéric Pluvinage. O curso apresentará as técnicas e procedimentos para criar e converter seus conteúdos em livros digitais com interatividade, áudio, vídeo e animações, além de outros efeitos especiais no formato ePub3 utilizando o Indesign e recursos de pós-produção.

Jean-Frédéric Pluvinage é diretor da FoxTablet, editora especializada em revistas digitais para tablets. Formado em Design Gráfico pelo SENAC, e em jornalismo pelo CEUNSP. É coautor, junto com Ricardo Minoru, do livro Revistas Digitais para Ipad e outros tabletes, primeiro livro no Brasil e no mundo sobre esse tema. Também é autor do DVD Bem-vindo ao InDesign – uma introdução à diagramação, lançado pelo Grupo PhotoPro. O evento acontecerá na sede da Câmara Brasileira do Livro, R. Cristiano Viana, 91 – Pinheiros – São Paulo/SP. Os alunos deverão trazer seus notebooks com os aplicativos e recursos InDesign CS6 ou superior; Photoshop CS3 ou superior; Dreamweaver CS3 ou superior; Calibre; Sigil; Winzip e Adobe Digital Editions já instalados. Investimento: Associados CBL – R$ 600,00; associados de entidades congêneres, professores e estudantes – R$ 960,00; Não associados – R$ 1.200,00. Consulte sobre parcelamentoem 3 vezes no cartão de crédito. Mais informações do curso podem ser obtidas pelo e-mail escoladolivro@cbl.org.br ou pelo telefone [11] 3069-1300.

Quinta e sexta-feira, 20 e 21/3, das 10h às 18h.