Caro Jeff Bezos,


POR EDNEI PROCÓPIO | Publicado originalmente na Revista Biblioo | Edição 35 | Ano 4 | Nº 08 | Agosto de 2014 | Páginas 16 a 19

Revista Biblioo | Edição 35 | Ano 4 | Nº 08 | Agosto de 2014 | Páginas 16 a 19

Revista Biblioo | Edição 35 | Ano 4 | Nº 08 | Agosto de 2014 | Páginas 16 a 19

Meu nome é Ednei Procópio, sou editor especialista em livros digitais. Não é de hoje que tento acompanhar os passos da Amazon. Tanto nos países onde ela atua quanto no Brasil. Digo tento porque venho apenas observando e evitando ao máximo expressar em público minha opinião pessoal a respeito do tema Amazon. Até mesmo em meu último livro, me esforcei para manter certa imparcialidade com relação ao assunto. Embora confesse ser difícil escrever qualquer coisa sobre eBooks sem citá-la em exemplos.

É que em meu país, mesmo após um hiato de tempo desde uma Ditadura Militar, e uma consequente cultura da censura de ideias, ainda hoje enfrentamos resistências quando exercitamos nossa liberdade de expressão. Muitos canais de comunicação simplesmente fingem ser um espaço democrático de discussão para a aproximação de ideias sobre o mercado editorial. De fato, alguns atuam como formadores de “achismos”, algo como “deformadores de opinião”. Uma verdadeira “panelinha” de manipuladores.

Mas estas não são as únicas razões que me levaram a escrever diretamente ao senhor sem correr o risco de ser mal interpretado pelos párias. Outra razão que exponho para reforçar alguns argumentos meus é que do mesmo modo que o mercado editorial a meu ver erra em inúmeras interpretações, elucubrações e até especulações a respeito de sua companhia, a Amazon também erra feio no modo como conduz suas negociações com este mercado, digamos, desesperado.

“Desespero” seria o adjetivo mais assertivo para este mercado?

É claro que não se aprende apenas observando os erros dos outros. Aprende-se mais, na verdade, com os nossos próprios erros. Mas os desesperados vivem falando em nome da Amazon e temos de admitir que o mercado editorial está agora nas mãos daqueles chamados “novos players”. Embora suspeite que a Amazon não se encaixe nesta categoria, já que ela já não é tão nova assim.

A Amazon é do tempo em que nenhum pseudo-especialista da cadeia produtiva do livro acreditava que um dia a Internet poderia vender mais livros impressos que as livrarias físicas. A Amazon é do tempo em que os barões da mídia zombavam, quando aqui mesmo no Brasil, eu afirmava que o mercado estava correndo um sério risco de um dia atrair mais interesse, audiência, acesso e consumo dos livros digitais em comparação às edições impressas. Pois é, alguém visualizou esta [im]possibilidade. E aqui estamos nós.

Agora, todos têm algo a dizer a respeito do que há poucos anos eram claramente contra.

Segundo a pesquisa anual “Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro”, realizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas da Universidade de São Paulo [FIPE/USP], sob encomenda da Câmara Brasileira do Livro [CBL] e do Sindicato dos Editores de Livros [SNEL], as livrarias físicas ainda lideram os canais de vendas do mercado. Ou seja, permanecem como o principal canal de comercialização do setor editorial no Brasil. Mas poderíamos especular: até quando? Se a própria Amazon em breve pretende entregar os exemplares impressos com muito mais profissionalismo que muito lojista online local, que não tem lojas físicas?

Hoje, muitos editores reclamam porque só recebem da Amazon a ninharia de uns U$300 mensais da pela venda de seus eBooks. Mais uma vez, testemunho mercadores reclamando e desacreditando os eBooks, usando qualquer desculpa, desta vez a “mixaria” que recebem. E, observe que nem mesmo eles são capazes de investir em algo melhor que a própria Amazon já que comparam U$300 mensais à esmola, o que aqui chamamos de “dinheiro de pinga”.

Não são capazes de perceber ou não querem distinguir que a soma dos valores miseráveis que eles todos juntos julgam receber da sua pontocom, é na verdade, apenas a ponta de um iceberg que, no futuro, se uma negociação entre as partes não for realmente melhor conduzida, vai ser responsável por naufragar toda e qualquer possibilidade de ganho, até mesmo com os livros impressos.

Porque o que falta é o entendimento das partes.

Um indício desse cenário futuro é que, embora a venda de exemplares aqui no Brasil tenha crescido, segundo a pesquisa anual “Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro”, de 2013 para cá, caiu o preço médio constante do livro. Tanto quanto o eBook, as vendas online de exemplares impressos, podem ser, indiretamente, um dos prováveis responsáveis pela queda do preço médio do livro país.

Onde os senhores pensam que isso vai dar?

Caro Jeff, aquele velho legado de editores convictos já se foi. Morreu. Ou melhor, muitos ainda estão por aqui, tentando sobreviver, porém, a maioria morreu. Não no sentido espiritual, mas no sentido social e cultural mesmo. Existem ainda os que vivem da “grana”, usando um termo bem popular, de uma renda, para não usar o termo economia, gerada na maioria das vezes pelos cofres públicos. Poucos são os grandes conglomerados editoriais liderados por homens que conseguiram passar pela revolução digital, focando no mercado varejista, lograram transferir sua história e legado aos profissionais mais jovens, afinal não largam o osso, e mantiveram-se vivos frente a esse admirável mundo novo. De meu país, não posso lhe dar nenhum exemplo sem ser chamado à atenção de algum modo pelos censores de plantão — que distorcem tudo o que a gente diz.

Na última oportunidade que fiz menção a um determinado conglomerado editorial em meu blog, dizendo para tomarem cuidado com a Amazon, recebi uma ligação telefônica me censurando. Eles fingem compartilhar ideias, e convites sociais, mas na verdade são censores da pior espécie

Mas o senhor é um homem dos novos tempos, não vai me censurar por ser direto, não é? Mesmo porque o meu objetivo não é ser agressivo, e com humildade peço desculpas se assim for interpretado. O que eu realmente quero lhe dizer é que ainda há tempo do senhor voltar às origens transformando a Amazon em um fenômeno que pode fortalecer o nosso mercado e não acabar de vez com ele. O que penso realmente da Amazon é que ela, como instituição de visão, não deve deixar pairar este sentimento de que algo sem ética está sendo feito.

Parece-me que hoje, e me corrija, por gentileza, se eu estiver equivocado, players bilionários como a gigante pontocom que o senhor fundou, sempre encarou o mercado editorial como um território a ser colonizado, para ser economicamente explorado e depois descartado após o avanço de um novo estágio em seu real objetivo com novos territórios. Então eu pergunto: por qual preço a Amazon quer se tornar um gigante mundial das mídias?

Ao custo do sucateamento de uma indústria inteira?

Às vezes, players como a Amazon pareceram estar mais interessadas no tipo de consumidor que os eBooks poderiam atrair do que na exploração dos livros propriamente dito. É como se os eBooks fossem para elas uma espécie de isca para os consumidores modernos. Algo como “vamos dar a eles os eBooks de graça e vender a eles geladeiras ou televisores”.

Deste jeito, os senhores se assemelham aos espanhóis na época da busca pelo eldorado. Cuidado para não dar um tiro no próprio pé, Jeff. Imagine se a Amazon não estivesse envolvida com toda essa revolução digital, mas estivéssemos em outras épocas e ela eventualmente envolvida, por exemplo, com a revolução tipográfica ocorrida depois do aprimoramento da prensa de tipo móveis, liderada, o senhor sabe por quem. Se estivéssemos nos referindo a passagem dos livros manuscritos para a manufatura dos livros graficamente impressos, para nos servir de exemplo, e se uma Amazon da vida fosse a detentora da patente da máquina de tipos móveis, é provável que até a imprensa que tanto contribui para a distorção desta realidade não existisse.

A Amazon, se compararmos com uma postura do tipo “vamos dominar o mundo, afinal dinheiro nós temos”, iria querer ser o próprio escriba, seu próprio gráfico, seu próprio livreiro e quem sabe até seu próprio leitor. É como se a sua empresa, caro Jeff, se bastasse para manter toda uma cadeia em torno de si mesma, em seu próprio círculo de existência, sem a presença de mais nenhum outro personagem no contexto.

O mercado editorial espera mais da Amazon. Espera que a Amazon o surpreenda. Mas talvez a Amazon não possa dar ao mercado aquilo que ele gostaria, nem da forma como espera. Sem dúvida algumas iniciativas da Amazon para o mundo dos livros são louváveis: CreateSpace, The Audiobook Creation Exchange, Amazon Author Central, Kindle Unlimited, KDP Select, etc., etc. etc. Mas como é que o senhor deseja, por exemplo, que as editoras regionais sejam parceiras da Amazon, se seu conglomerado também mantém uma editora — que, em última análise, os mercadores aqui de meu país consideram um concorrente direto?

Eles não estão de todo errados. Vou tentar traduzir o que alguns deles pensam. Se a sua companhia mantém uma gráfica de Impressão Sob Demanda, o que faremos com as gráficas digitais que prestam serviços para as editoras e escritores de meu país? Se a sua companhia mantém uma livraria online, como os livreiros de nosso país sobreviverão? Se a sua companhia mantém uma rede social voltada aos livros, o que faremos com os projetos similares disponíveis em nossa rede local? Se a sua companhia mantém o serviço de uma biblioteca digital no modelo de empréstimos, o que faremos com as nossas iniciativas locais?

Enfim, a Amazon, com tantos tentáculos, quer ser a sua própria cadeia produtiva do livro? Resultando que a antiga cadeia, que também deveria ter sido compartilhada há tempo, não está gostando nada disso.

A Amazon não está se equivocando ao enveredar nesse caminho, Jeff?

Porque o final de todo Big Bang aguarda um Big Crunch. E eles farão de tudo para que Amazon seja deportada deste país. E não me refiro a questão da tecnologia do livro digital, destaque de sua pontocom que trouxe finalmente os eBooks à ordem do dia; eu me refiro ao modelo de negócios que a sua empresa está impondo para um mundo editorial que ainda está, por sua vez, se ajustando ao modelo de economia compartilhada. Ora local, ora comunitária, na maioria das vezes global.

Deve ser um modo dos americanos de pensar. Eu não sei. Porque, aqui em meu país, nosso governo está buscando alternativas de financiamento em parceria com outros países emergentes, um deles até mais rico que o país do senhor. Isto se chama compartilhar riquezas. Pois vai chegar um dia em que nós por aqui teremos que compartilhar água para o mundo. Barris de água indexarão a economia global. E se gente como o senhor fosse dono de nossas reservas, no futuro as pessoas teriam que baixar um aplicativo para ter acesso à água potável. Ou ainda mais provável, elas seriam obrigadas a comprar um Kindle H2O.

S. Eliot disse que “num país de fugitivos, aquele que anda na direção contrária parece estar fugindo”. Felizmente temos outros players na jogada. E felizmente meu país está aprendendo a duras penas com seus próprios erros. Já adquirimos bastante aprendizado quando subestimamos o potencial da Internet. Não estamos inovando, mas ao menos estamos renovando. Porque jovens empreendedores de meu país têm que todos os dias se esquivarem da doutrina dos velhos senhores feudais do mercado editorial que os atrapalham todo o tempo.

Como exercício de uma realidade paralela, pense nesta tecnologia hoje disponível para os livros como uma única e nova impressora capaz de produzir centenas de milhares de páginas por minuto. Imagine se o gênio Johannes Gutenberg fosse um empreendedor arrogante como muitos em meu país, que se assemelham aos que dirigem a Amazon, não colocasse a tecnologia de tipos móveis a disposição do mundo. A Europa, caro Jeff, não teria lindas oficinas prensando páginas para iluminar até a mente daqueles que um dia fundaram o seu país.

E hoje, ao nascer de uma nova era que influencia todas as empresas, o que os senhores pensam que estão fazendo? Saiba que os velhos senhores feudais daqui não entenderiam, mas o senhor sabe bem que esta minha carta não é uma queixa. O mercado editorial tradicional também errou. Errou de forma lastimável quando subestimou a tecnologia rudimentar que estava sendo desenvolvida pela indústria de tecnologia para os livros digitais.

O senhor se recorda quando a Amazon iniciou as vendas do eBookMan? A Franklin fabricava dicionários eletrônicos, lembra-se? Nossos párias aqui também foram um dia tão arrogantes quanto parece hoje sua organização porque naquela época não estavam nem aí para o eBookMan. Não se importavam nem para o Rocket eBook, para o SoftBook. GlassBook. Microsoft Reader. Palm Reader. Mobipocket. E, nossa, são tantos os projetos que antecederam o conceito de eBook até chegarmos ao Kindle!

Mas a Amazon não, ela estava lá, literalmente vendendo todas estas novidades, enquanto o mercado encarava o livro na era digital com desdém. O mercado editorial errou porque em vez de observar o potencial de ruptura tecnológica, mais de seu conceito, optou por observar apenas a superficialidade das diferenças ignóbeis ente o cheiro do papel e a suposta dificuldade de uso do digital pelos consumidores. Menosprezaram seu potencial e subestimaram a capacidade dos jovens leitores deslizar seus dedos por uma tela touchscreen que mais tarde ultrapassaria o papel em legibilidade, usabilidade e portabilidade.

Tem gente aqui, caro Jeff, que acha que a tecnologia touch foi inventada pela Apple. E que livro em HTML5 não passa de um site. Tem gente aqui pensando que foi a Amazon quem inventou o livro digital. Para algum deles, a Amazon é pioneira em tudo, menos em distorcer os números e a realidade deste mercado. E, por acharem que estavam acima do conhecimento compartilhado de décadas de trabalho nos laboratórios de Palo Alto, agora pagam uma conta cara por terem entregado seu maior capital, o livro, ao que consideram um de seus maiores concorrentes: a Amazon.

Agora eles apontam suas catapultas para a sua companhia

A meu ver é assim que o mercado enxerga a Amazon, caro Jeff: como uma concorrente. Um inimigo que deve ser morto. É claro que eles não admitem, mas torcem contra a Amazon. Querem crer, lá no fundo, que isto não vai dar em nada, lutam contra um inimigo oculto, mas consideram que é a Amazon que deve ser exterminada, banida. A Amazon é a ponta de um iceberg, mas o mercado editorial aponta seus binóculos para os chamados grandes players e não percebem que o futuro está nas mãos de uma massa de consumidores modernos que não só lêem os livros impressos. Que lêem os livros. Impressos, em áudio, interativos, digitais, eletrônicos, elétricos, impressos sob demanda, livro aplicativo, livro brinquedo. Enfim, eles lêem livros. E ainda hoje tem gente aqui perdendo tempo discutindo com o Governo o que é um livro.

Alguém já deve ter lhe informado que eles têm o Governo como seu maior cliente. E lá está também a Amazon se infiltrando, tal qual um agente duplo. Afinal, Jeff, de que lado a Amazon está? Porque, do ponto de vista de um mercado em decadência, a Amazon está apenas de seu próprio lado. Conversando com um amigo do mercado, ele disse que “ainda não sabe quem está do lado de quem, o mercado é uma confusão só”. Enquanto isso, a Amazon está atropelando, ela mesma, sua própria história. De tão gigante que se tornou, não consegue mais acompanhar seus próprios passos. Cresceu tanto que não consegue mais olhar para baixo e evitar pisotear naqueles que poderiam ser seus potenciais parceiros, por menores que sejam.

A Amazon erra ao pensar que o mercado todo seria atraído por sua força gravitacional de poder, equivalente a uma espécie de buraco negro. E em vez de se tornar uma opção sustentável para aquele velho e retrógrado mercado, está se tornando um fardo pesado de se carregar. Mesmo com toda sua inovação, se assemelha aqueles conglomerados antigos que queriam ser de tudo ao mesmo tempo: produtora de conteúdo, editora, gráfica, livraria, caixa, empacotador, entregador etc.

A Amazon parece querer ser a constelação de uma estrela só

O senhor vai ter uma ideia melhor do que eu estou tentando dizer quando o Alibaba Group colocar suas ações à venda para o mercado americano. Mas o senhor pode aprender um pouquinho mais com seu conterrâneo, o Sr. Henry Ford. Recomendo que leia sobre a Fordlândia que Ford tentou prosperar aqui em nosso país. Por favor, baixe em seu Kindle a versão digital do livro — que é mais barata que a versão impressa, e o senhor não precisa aguardar aquele drone levar o pacote até a porta da sua casa —, conheça a cidade fantasma que o fordismo deixou de herança aqui pra gente.

Existe uma diferença básica entre o investimento que impulsiona a inovação e a grana que compra coisas prontas, Jeff. E enquanto sua companhia perde tempo se digladiando com velhos senhores feudais do mercado editorial, ela não percebe que está impedindo o trabalho das jovens empresas editoriais que poderiam elevar a segunda potência este mercado. A Amazon não está, honestamente, ajudando em nada. Fica perdendo tempo com os velhos e não percebe que está atrapalhando os jovens empreendedores.

Não bastasse a falta de criatividade de um determinado setor que enxerga a todos como concorrentes de si mesmos, fica todo o tempo copiando as ideias uns dos outros, temos que nos esforçar para compreender os planos de uma empresa, aqui vista mais estrangeira que global, e que age como se quisesse monopolizar o ar que respiramos. Que não sabe se foca em logística usando drones, smartphones que nos dizem o que devemos comprar — como se o consumidor fosse estúpido — ou se foca em venda de serviços de espaço em cloud computing.

Que tal a Amazon nos ajudar com o saneamento básico, Jeff? Também estamos precisando de um aplicativo que ensine os autores independentes a lerem os seus próprios textos, antes destes serem publicados no KDP, sem revisão, sem copydesk, sem ISBN, sem ao menos uma capa decente.

Para finalizar, confesso que os reais objetivos da Amazon, àqueles que eu considerava saber compreender por acompanhar este tema desde 1998, não condizem com a conduta de sua empresa neste momento. Neste ponto, sou obrigado a optar por toda esta generalidade excessiva nesta minha missiva, já que me causaria constrangimentos, não perante aos amigos do mercado que também buscam fundamentos como eu, mas junto àqueles que custam a aceitar uma opinião especializada como a minha.

A Amazon de ontem não é a mesma Amazon de hoje. Temos a Amazon antes e depois do Kindle. E eu não me refiro a inovação. A Amazon depois do Kindle assemelha-se a um cão correndo atrás do próprio rabo. Parecem bastante óbvios os planos dos senhores, mas suas ações estão refletindo uma conduta de distorção no mercado.

E o que nós, das chamadas startups, estamos fazendo? Simples: escalando aquela montanha que se move, com fé em nossos próprios feitos. Temos mais interesse em observar sobre os ombros dos gigantes. Afinal o que é que big players como a Amazon não estão enxergando. Algo que empresas como IBM, Kodak e Palm também não enxergaram. E o destino delas, caro Jeff, todos conhecem muito bem.

Lá do alto deve ser bonito! Mas afinal, o que é que o senhor vê daí de cima, caro Jeff?

Cordialmente,

Ednei Procópio

POR EDNEI PROCÓPIO | Publicado originalmente na Revista Biblioo | Edição 35 | Ano 4 | Nº 08 | Agosto de 2014 | Páginas 16 a 19

Aprendendo com o futuro dos livros


POR EDNEI PROCÓPIO

Figure CLXXXVIII in Le diverse et artificiose machine del Capitano Agostino Ramelli, an illustration of a bookwheel

Conforme venho prometendo neste blog há algum tempo, meu próximo livro, o terceiro sobre eBooks, será finalmente publicado. Já se encontra no prelo da Editora do Sesi e, se tudo continuar correndo bem, será lançado simultaneamente nos formatos digital e impresso durante a próxima edição da Fliporto.

Iniciei a escrita do livro no segundo semestre de 2012, exatamente no ano em que o Data Discman, o primeiro projeto relevante da empresa Sony Corporation na área de livros eletrônicos, completava duas décadas de vida. Uma vez, porém, que minhas pesquisas ainda careciam de algumas constatações, só consegui terminar o texto depois da última edição do Congresso Internacional CBL do Livro Digital.

É impressionante perceber que, quanto mais avançam as tecnologias que envolvem eBooks, em menor espaço de tempo as novidades são colocadas à prova pelo mercado. Levei, portanto, um ano para escrever e terminar o livro, e em apenas um ano muita coisa aconteceu. Imaginemos então tudo o que foi apresentado no período de duas décadas, onde o livro eletrônico saltou de um estrondoso fracasso comercial para uma nova e empolgante possibilidade de experiência para a leitura.

Insisto nesta mania de olhar para trás quando escrevo sobre eBooks porque o distanciamento me parece um dos poucos modos seguros de vislumbrar um futuro para os livros. Em 2002, por exemplo, as empresas desenvolvedoras dos e-readers da primeira geração Rocket eBook e SoftBook, respectivamente NuvoMedia e SoftBook Press, foram entregues a Gemstar, uma subsidiária da RCA que, por sua vez, vendera os dois projetos para a Google em 2012.

Mas e em 1992, qual era o cenário?

Mesmo com a atual velocidade com que aparecem as novidades tecnológicas, e antigas certezas são postas à prova, não consideraria como um caminho saudável transformar meu novo livro em um periódico. Ou seja, não consideraria transformar minha obra em uma edição corrente, atualizada constantemente como se fosse um jornal ou revista [mesmo em uma versão digital]. Não vejo como encarar um determinado título como algo realmente inacabado, que deve estar sempre sendo reescrito, em constante atualização como se fosse um blog. Preferi, ao contrário, contestar o presente, analisar o passado, para vislumbrar um futuro.

Descobri isto quando recebi a última revisão do texto original, que me alertava para o fato de que os números apresentados em meu livro já poderiam ser considerados defasados. A revisão me pôs em alerta. Como é que um determinado dado, registrado para futuras consultas, pode ser considerado defasado antes mesmo de ser publicado? Tive que deixar ainda mais claro para os futuros leitores da obra que, os números de mercado, apresentados no livro, refletiam um momento, um cenário, uma fotografia, enfim, um recorte de um período em que o mercado de eBooks parecia expandir-se por um novo caminho. Um caminho bem diferente daquele imaginado pela Sony duas décadas antes.

No início da década de 1990, a internet ainda era um projeto acadêmico e não havia se transformado no meio extraordinário de comunicação e exploração comercial como ela é hoje. A Sony lançava no mercado norte-americano, um dispositivo para a leitura de livro eletrônico chamado Data Discman. Uma espécie de percursor da primeira geração de e-readers que viria a seguir.

Por rodar livros em cima de uma mídia física, ou seja, pré-gravados em discos [protegidos como os antigos disquetes], o dispositivo fora desenvolvido totalmente para leitura no modo offline e o conteúdo podia ser pesquisado através de um teclado do tipo QWERTY [também físico, bastante parecido com o dos BlackBerrys].

Há duas décadas, Sony lançava seu primeiro Electronic Book Player. Foto: Sony Data Discman modelo DD-1EX]

Há duas décadas, Sony lançava seu primeiro Electronic Book Player. Foto: modelo DD-1EX

De certo modo, o Data Discman era uma tentativa da Sony de repetir o sucesso do Walkman, dessa vez com livros. Mas ao contrário de seu predecessor, que tocava áudio que poderia ser encontrado aos montes em lojas especializadas [fora as fitas do tipo K7 que se tornaram bastante populares e podiam ser gravadas pelos próprios usuários], o Data Discman carecia de conteúdo.

Um Data Discman modelo padrão, como o DD-1EX, tinha uma tela de LCD de baixa resolução e em escala de cinza, como nos primeiros Palmtops, com baixo poder de processamento. Ao contrário dos Palms, trazia um drive de CD com a tecnologia e o padrão proprietários, que rodava enciclopédias, dicionários, além das obras literárias. Que não eram facilmente encontrados em livrarias, nem nos melhores magazines do ramo.

Como era de se esperar, o Data Discman teve pouco sucesso, principalmente fora do Japão [país sede da Sony]. Em vez disso, agendas eletrônicas do tipo Palm foram os dispositivos que ganharam popularidade e conquistaram o consumidor. Um pouco mais tarde, o Palm Reader foi a solução de aplicativo para a leitura dos livros nos devices portáteis daquele período que avançou até o lançamento do Sony Libriè para o mercado japonês.

Nada se cria, tudo se compartilha

Sony Data_Discman | Electronic Book Player modelo DD-8

Sony Data_Discman | Electronic Book Player modelo DD-8

Há semelhanças entre o Data Discman e o Palm. Há semelhanças entre o Palm e o BlackBerry. Há semelhanças entre o Rocket eBook e o Sony Reader lançado em 2005 no mercado americano. Mas o que geralmente é enxergado são apenas as diferenças entre esses equipamentos todos desenvolvidos dentro de um período que vai de 1990 a 2010.

A internet mudou muito desde aquelas duas décadas e, parte do conteúdo que existia naquela chamada web 1.0, de meados da década de 1990, praticamente já não existe mais. Se algum pesquisador buscar até os números referentes ao período que antecede o lançamento do Kindle, que inaugura a segunda geração de e-readers, terá que vasculhar bastante para encontrar alguma análise relevante.

É neste sentido que, nos meus dois primeiros livros, tentei contextualizar ao máximo os dados do mercado e cenários apresentados. Penso em um contexto futuro, usando históricos e cases de sucesso ou fracasso do passado para ampliar a visão do presente. E agora tento fazer isto novamente com minha nova obra porque eu sei que alguns pesquisadores precisarão de informações, analisadas e comentadas, para eventualmente até usar de comparação em seus trabalhos.

Por exemplo, algum profissional poderá futuramente se perguntar que porcentual representava a venda de eBooks no Brasil, em comparação com o mercado de livros impressos, quando big players como Kobo, Google e Amazon aportaram no país. Se ele fizer uma comparação com dados em um mesmo nível de apuração, usando os mesmos critérios de levantamento, poderá obter o percentual de crescimento mais próximo da realidade até o seu próprio período [mesmo que alguns players continuem ocasionalmente tentando manipular os números como tentam fazer hoje].

Agora, se a internet continuar impondo seu ritmo avassalador de criação, armazenamento e compartilhamento de informações, esta tarefa de pesquisa pode se tornar cada vez mais difícil de ser realizada. E obras contemporâneas, que mais do que registrar um período, contextualiza os números e cenários, pode ajudar profissionais a compreender o passado mas, principalmente, o futuro dos livros.

Foi assim que, por conta da velocidade com que novidades surgem, em formato de projetos, startups, apps, produtos, softwares, hardwares, plataformas, etc., fui obrigado a voltar ao básico neste meu novo livro. Procurei encontrar semelhanças entre as coisas aparentemente diferentes, e diferenças naquelas que nos são aparentemente semelhantes.

POR EDNEI PROCÓPIO

Quatro anos na revolução do e-book: coisas que sabemos e coisas que não sabemos


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 05/10/2011

Mike Shatzkin

Pensando no lançamento do primeiro Kindle no final de novembro de 2007, alguém poderia dizer [e vai] que a revolução da leitura eletrônica está chegando ao seu 4º aniversário. Já existiam outros aparelhos dedicados aos e-books antes, incluindo o Sony Reader – no mercado quando o Kindle chegou e ainda vivos, apesar de não ter muito sucesso – e os já falecidos Rocket Book e Softbook que tinham debutado e desaparecido alguns anos antes. E no começo dos anos 90 tínhamos o Sony Bookman, que mostrava apenas algumas poucas linhas de texto de cada vez e desapareceu sem deixar rastros. O formato de e-book que mais vendia antes do Kindle era o que se podia ler no Palm Pilot e o mercado em geral de e-books estava tão atrasado que qualquer investimento de uma editora em digitalização era feito por fé, não por evidências comerciais.

E muitas pessoas na indústria acreditavam que ler numa tela demoraria muitos anos para ser realidade, se algum dia chegasse a ser…

Agora, menos de quatro anos depois, estamos vivendo num mundo mudado, apesar de ainda não estar transformado. Mas isso pode acontecer muito em breve.

Como as vendas dos e-books nos EUA agora parecem já ter chegado aos 20% de rendimentos em algumas editoras [o que quer dizer que já está nesse patamar ou chegará muito em breve], há algumas coisas que podemos dizer que sabemos sobre como será o futuro, mas também há algumas outras coisas muito importantes que não sabemos ainda.

Nós sabemos que a maioria das pessoas vai se ajustar em pouco tempo à leitura de livros narrativos numa tela em vez do papel.

Nós sabemos que os pais vão entregar seus iPad, iPhone ou Nook Color para uma criança para que possa desfrutar os livros infantis nos aparelhos.

Nós não sabemos se livros adultos ilustrados serão igualmente bem aceitos por consumidores de livros em aparelhos digitais, apesar de que há cada vez mais aparelhos capazes de mostrar quase o mesmo que um editor mostra numa página impressa.

Nós não sabemos quanto os pais vão pagar por um e-book infantil ilustrado pequeno, mas parece que poderia ser muito menos do que estão dispostos a pagar pelo papel.

Nós sabemos que os consumidores vão pagar preços de formato paperback ou mais por e-books simples.

Nós não sabemos se os consumidores vão aceitar pagar preços mais altos para melhorias como vídeo, áudio ou software aos e-books.

Na verdade, nós não sabemos se os consumidores pagariam preços de paperback para e-books se o paperback não estivesse à venda em todos os lugares por um bom preço.

Nós sabemos que a popularidade do e-book, medida em vendas ou na porcentagem de rentabilidade das editoras, dobrou ou mais do que dobrou a cada ano desde 2007.

Nós sabemos que esta taxa de crescimento é matematicamente impossível de continuar por mais três anos [porque isso colocaria os e-books com 160% da rentabilidade das editoras!].

Nós sabemos, a partir dos anúncios sobre novos aparelhos e uma recente pesquisa da Harris prevendo um aumento na compra de aparelhos, que não há expectativa de uma queda na adoção dos e-books num futuro próximo.

Nós não sabemos se vamos encontrar uma barreira de resistência ou se talvez deveríamos chamar de “barreira da insistência” do papel, em algum nível, nas vendas dos próximos dois anos [no final dos quais os e-books seriam 80% dos rendimentos das editoras com as taxas de crescimento que vimos nos últimos quatro anos].

Nós sabemos que há um mercado grande e em desenvolvimento para e-books em inglês no mundo, já que a infraestrutura do e-book permite a construção desses mercados globais.

Nós não sabemos a rapidez com que esses mercados vão se desenvolver ou o tamanho que vão alcançar.

Nós sabemos que o número de livrarias sofreu uma forte redução em 2011 por causa da falência da Borders.

Nós não sabemos se a rede de livrarias físicas remanescente, lideradas pela B&N e incluindo as independentes bem como o espaço em prateleira devotado a livros, receberão uma ajuda com a desaparição da Borders, dando às editoras alguma estabilidade temporária em sua rede de lojas, ou se a erosão do espaço em prateleira vai continuar [ou até acelerar].

Nós não sabemos o que a perda do merchandising em lojas físicas vai significar para a capacidade dos editores e autores de introduzirem novos talentos a leitores, ou até mesmo de apresentar um novo trabalho dos nomes já conhecidos.

Nós não sabemos se a descoberta e o merchandising melhorados funcionam com a aplicação de “escala” pelas editoras fora dos nichos verticais, seja por tópicos ou gêneros.

Nós sabemos que agentes e autores vão aceitar royalties nos e-books de 25% da receita líquida no cenário atual, onde 70% ou mais das vendas ainda são feitas em papel.

Nós não sabemos se as ameaças das opções de publicação alternativa forçarão esta taxa de royalties a subir se as vendas dos impressos caírem para 50% ou 30%.

Nós não sabemos se uma queda nas vendas de impressos, ficando entre 50% ou 30% do total, vai demorar muitos ou poucos anos.

Nós sabemos que o padrão Epub 3 e o HTML5 permitem recursos no estilo aplicativos nos e-books.

Nós não sabemos se esses recursos farão alguma diferença comercial para o texto linear que é o único tipo de e-book aprovado comercialmente.

Nós sabemos que marcas de criação de conteúdo que não são editoras de livros estão usando a relativa facilidade de publicação de e-books para distribuir seu próprio conteúdo no mercado de e-books.

Nós não sabemos se as editoras de livros vão desenvolver expertise na publicação de e-books que persuadirão outras marcas a usá-las para a publicação, da mesma forma que conseguiram no mundo do livro impresso, em vez de ignorá-las.

Como estou expressando minhas preocupações sobre o impacto da revolução do e-book nas editoras em geral, algo que estou fazendo com intensidade dramática desde a BEA em 2007, [uns seis meses antes do Kindle] é dizer que as editoras de livros gerais precisam começar a focar em seu público [o que significa escolher conteúdo para nichos verticais].

Hoje vou acrescentar outra sugestão urgente às editoras trade: reconsiderem seus compromissos para publicar livros ilustrados com qualquer prazo maior do que um ou dois anos e pensem em se manter com livros só de texto, a menos que tenham caminhos para chegar aos clientes para os livros que não passam por livrarias. Se terminarmos com um mercado com 80% de e-books em um futuro próximo, e é bem possível que isso aconteça, você vai querer ser dono do conteúdo que sabe que funciona [para o consumidor] naquele formato, não o que você não sabe que funciona fora do formato impresso.

Para os livros infantis, a chave é marca. Haverá demanda por Chapeuzinho vermelho, e Alice no país das maravilhas, por muitos anos, mas as equações de produtos e preços estão completamente indefinidas.

Tradução: Marcelo Barbão

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 05/10/2011

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].

Maior livreiro dos Estados Unidos faz discurso otimista e histórico


Por Carlo Carrenho | Especial para o PublishNews | 11/03/2011

Len Riggio

Na última quarta-feira, 9 de março, membros da Associação de Editores Americanos [Association of American Publishers] se reuniram no Yale Club de Nova York para mais uma convenção anual. Os trabalhos foram abertos com um discurso de Len Riggio, o presidente do conselho da Barnes & Noble, a maior rede de livrarias dos Estados Unidos.

É provável que a elite editorial ali presente esperasse um discurso sobre temas como a quebra da Borders, a queda das ações da Barnes & Noble ou a briga entre os acionistas da empresa por seu controle acionário. Nada disso. Riggio optou por exacerbar seu otimismo sobre o futuro de forma bastante convincente. Segundo o The Bookseller, “vários dos presentes consideraram o otimismo de Len Riggio contagiante”.

Ao analisar o passado do surgimento dos “mass market paperbacks” e das tentativas digitais da Barnes & Noble, encarar o presente como uma grande oportunidade para os livros no mundo digital e vislumbrar um futuro promissor para a indústria editorial, o executivo escolhido como Personalidade do Ano em 2010 pela Publishers Weekly fez história.

E o PublishNews traz aqui, em primeira mão, o discurso de Riggio traduzido na íntegra para nossos leitores. É uma leitura obrigatória para qualquer profissional do livro.

Discurso de Len Riggio, presidente do conselho da Barnes & Noble, lido na Reunião Anual da Associação de Editores Americanos, em Nova York, no dia 9 de março de 2011.

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Bom dia,

Muito obrigado por me convidarem a falar hoje, e obrigado, David, por sua gentil apresentação. Já faz 11 anos que falo para esse grupo e muita coisa aconteceu desde então.

Entre outras coisas fui indicado como ‘Pessoa do Ano’ pelo Publisher’s Weekly. Nunca pensei que ganhar uma luta interna numa corporação poderia me dar tanta fama. Se eles soubessem que eu ainda almoço na minha mesa!

Antes de entrar no assunto do meu discurso, gostaria de voltar alguns anos e relembrar meus mais de 50 anos como livreiro, porque acredito que isso dará o contexto para explicar a forma como vejo o futuro.

Primeiro, o óbvio: Adorei cada minuto em que trabalhei nessa indústria. Foi um privilégio, acima de tudo que poderia ter imaginado.

Tive sorte por conseguir desenvolver uma carreira que é totalmente consistente com meus valores pessoais. Para mim, e para todas as grandes pessoas que trabalham na Barnes & Noble, vender livros tem sido muito mais uma missão do que um negócio. Muitos de nós temos orgulho em dizer: fazemos um trabalho importante. Assim como todos nessa sala.

Minha paixão pelos livros começou no final dos anos 50, que coincidiu com a revolução do “paperback”, que por sua vez criou as indústrias de edição e venda em massa. Naquela época, paperback impressos somavam meros 100 mil títulos. [N. do T.: mass market paperback são livros em brochura com papel e produção econômicos vendidos em grande escala.]

Trabalhando numa livraria universitária enquanto estudava à noite, o preço acessível de livros permitiu que eu me tornasse um leitor voraz e isso abriu meus olhos para todo um novo universo de possibilidades. Como estudante, naquele momento e agora, minha ligação com todos aqueles que querem ler e aprender se tornou uma paixão de toda a vida. Uma paixão que também está ligada a meu trabalho fora da área de venda de livros.

Durante esse período, muitos editores expressaram preocupações sobre o crescimento das vendas de mass market paperbacks. Elitistas zombavam deste mercado e muitas livrarias na verdade se recusaram a vender os novos formatos. Na época, também, elas se recusavam a abrir de domingo, muito menos ter banheiros, lugares para se sentar e qualquer outra amenidade que poderia, realmente, fazer com que os leitores se sentissem confortáveis. Certamente os tempos mudaram.

Então, apesar do aumento das vendas de mass market paperbacks, e o crescimento da base de leitores ávidos, a sabedoria predominante era que os norte-americanos – especialmente a oeste do Rio Hudson – não queriam aprender ou não tinham inclinação a aprender. Eu não era o único a pensar diferente.

Meus agradecimentos, então, a gigantes dessa área como Ian Ballantine, Oscar Dystal e os caras legais da Penguin Books, entre outros, por me fornecerem a base do meu intelecto e as ferramentas do meu negócio. E também essa crença compartilhada: livros são a base de construção de uma sociedade civilizada. Nosso trabalho é torná-los amplamente disponíveis para todo cidadão. Na verdade, a genialidade dos pioneiros do mercado de massa está sendo validado hoje porque a combinação de preço baixo e fácil acesso dos livros digitais é o que leva à retomada das vendas mais uma vez. Alguém ainda acredita que as vendas de livros não são elásticas?

Mas, quem então poderia ter imaginado que toda uma livraria poderia existir no bolso de todo mundo?

Mas a sabedoria predominante continuou durante quase uns 30 anos até o começo da década de 90, quando alguns editores e a imprensa zombaram da noção de superlivrarias. Continuou ao passar pela revolução na venda de livros pela internet e também com o desenvolvimento de nosso primeiro e-reader, conhecido como Rocketbook. Na verdade, há 11 anos, quase nesse mesmo dia, eu falei para este grupo sobre a era digital de venda de livros que estava chegando. Aqui repito algumas coisas que disse:

“Se Marshall McLuhan estivesse vivo hoje, ele estaria pedindo que este grupo explorasse todas as infinitas possibilidades da nova aldeia global que visualizou: uma aldeia global excitante, pulsante que vai expandir – não encolher – o mundo no qual vivemos.

Empreendedores vão abundar nessa nova aldeia. Serão caracterizados – não pelo medo do negativo – mas pela convicção no positivo. Muitos estarão no negócio incrivelmente lucrativo de agregação de conteúdo. Alguns, infelizmente, não serão conhecidos como editores.

As anteriores divisões claras entre autor, editor, distribuidor, livreiro e leitor se tornarão ainda mais embaçadas. Alguns no canal de distribuição não conseguirão sobreviver.”

Como sempre, as escolhas devem ser feitas primeiro pelos editores. As decisões deles vão agitar o mercado com velocidade sem precedentes. As apostas nunca foram tão altas.

Naquele discurso também mencionei que tínhamos vendido 175 mil cópias por download da nova obra de Stephen King em oito horas. Ao comparar esse fenômeno à então queda de venda de paperbacks, vi possibilidades muito mais positivas para o futuro do que preocupações sobre as tendências atuais.

Quando fiz esse discurso tive medo de que minhas referências a McLuhan poderiam me deixar datado. Afinal, ele foi um guru dos 60 e 70. Mas, apesar de agora parecerem óbvias, suas previsões sobre convergência de mídia e tecnologia aconteceram. Na verdade, eu argumentaria que, com uma cada vez maior especificidade, mídia e tecnologia se tornaram intercambiáveis.

E há 11 anos, nessa conferência, chamei os editores a apoiarem o Rocketbook e-Reader, que infelizmente morreu porque estava muito à frente de seu tempo. Pensem no que poderia ter acontecido se todos nós tivéssemos dirigido a era digital em vez de sermos seguidores.

O problema como eu via então, e como vejo agora, é que muitos de nós veem venda e edição de livros como um jogo de soma zero. Todos estamos presos a uma visão darwiniana do pedaço de mercado: editores competindo por autores, livrarias competindo por clientes e títulos competindo pela atenção dos leitores. Temos sido muito lentos para perceber que mais editores e mais títulos e mais livrarias e mais formatos é igual a mais vendas. O tamanho do mercado pode se expandir para aqueles que possuem imaginação e visão. Mercados expandidos – como diz o axioma – vão levantar todos os barcos.

Mais à frente vou falar como o zero – da soma zero – pode se transformar em algo com dez dígitos. Outra, agora fica claro que eu estaria pregando para os convertidos.

Talvez a maior questão do dia não seja quão difícil será a subida dos e-books – todo mundo consegue ver para onde ela está indo – mas o que vai acontecer com as livrarias e, no final, com os editores?

Os editores podem existir sem livrarias? Eles serão substituídos por gigantes da tecnologia que substituirão os editores como agregadores de conteúdo? O menor espaço em prateleira resultará em menor demanda e, portanto, no fechamento da torneira que agora nutre todo nosso ecossistema?

Além de nosso mercado comercial, outra pergunta cresce e pede para ser respondida: até que ponto o conteúdo continuará a ser dividido em pequenos fragmentos e, portanto, causará uma queda significativa na leitura de livros? É possível ser letrado sem ler livros?

Agora, mais do que nunca, meramente prever o futuro a partir de uma poltrona não vai resolver nosso problema. Devemos, ao contrário, nos transformar nos agentes da mudança que moldam nosso futuro e ao fazer isso mostrar como será nosso mundo. Deixando a margem de lucro, nenhuma indústria incluindo a de tecnologia é mais importante para o avanço de nossa civilização. O trabalho que fazemos torna-se ainda mais importante porque, juntos, fornecemos os meios de navegação a um número ainda maior de possibilidades. Fazemos isso com um leitor de cada vez.

Primeiro, o importante: A Barnes & Noble obviamente tem muito a dizer sobre se as livrarias vão existir. Então podem contar que estamos totalmente comprometidos com o futuro de nossas lojas. Para todos nós que passamos a vida vendendo livros, um mundo sem livrarias não é um lugar no qual gostaríamos de viver. Isso não vai acontecer. Como sempre, temos a determinação e a visão para manter nossas livrarias fortalecidas e vamos nos adaptar a tudo que o novo mundo nos trouxer.

E não acho que estamos sozinhos aqui. Livrarias de menor formato e lojas especializadas estão indo bem e livreiros independentes se adaptarão como sempre. No entanto, uma questão ainda mais relevante para as editoras será aquela do varejo de massa, que já representa mais da metade das vendas de livros nos EUA. Com os livros digitais substituindo os mass market paperbacks a uma velocidade cada vez maior, estes terão uma clara redução de espaço de prateleira.

Portanto, não importa se vocês veem nossas lojas como incubadoras, showrooms, laboratórios ou portais. Nossas superlivrarias são muito importantes para essa indústria, sem falar para nós. Digo isso como cidadão também. Esses grandes empórios de livros ou piazzas da cultura norte-americana contemporânea como as chamo mostram quem somos como povo e representam um ideal de tudo que aspiramos.

Por falar nisso, nossas lojas agora são centrais para os grandes shopping centers, e não ficam mais no segundo nível perto da Sears, como antes. Podem ver com seus próprios olhos. A razão por terem conquistados essa posição dominante é que os donos de shoppings veem as conexões lucrativas entre leitores e os gastos de consumo, e eles também se tornaram dependentes do tráfego que criamos.

Segundo, nosso surgimento como um grande player digital vai permitir que continuemos a apoiar nossas lojas e, no final, fortalecê-las. Podem chamá-las de tijolo e cimento se preferirem, mas elas não são exatamente tábuas de argila. Na verdade, se olharem para nossas vendas de fim de ano, onde ultrapassamos quase todo varejista nos Estados Unidos, nossa venda de aparelhos digitais foi o carro-chefe. Durante as mesmas duas semanas que vendemos o maior número de aparelhos, os números comparáveis de venda de livros impressos foram os melhores em mais de três anos. E, acima das vendas de varejo e os lucros que elas geram, conseguimos seguir nossos clientes para casa em seus bolsos.

Assim, fomos capazes de gerar vendas diretas ou posteriores que é a essência de nossa estratégia. E muito mais ainda está por vir.

Em relação às nossas vendas de livros digitais, eu não poderia estar mais animado. Por exemplo, nossos clientes que possuem um Nook estão comprando 60% mais unidades de livros no total, e estão gastando uma média de 120% mais com a Barnes & Noble. E nosso catálogo digital é 40% menor do que queremos que seja em pouco tempo. Nossa fatia do mercado em relação a livros digitais está agora em 25%, que é algo incrível quando você percebe que começamos a trabalhar nele há apenas 15 meses.

O Nook Color, nosso aparelho premiado, aumentou nossa base no mercado digital. Os donos do Nook Color estão gastando mais ainda, comprando milhões de números de revistas, assinaturas – e logo terão acesso a nossa loja de apps baseada em Android, que um dia terá milhares de aplicativos. Muitos deles vão produzir rendimentos significativos para nós e, em todos os casos, ligar ainda os leitores com nossa marca e nossos serviços.

A mensagem central aqui é que a Barnes & Noble agora está usando sua posição como livraria para criar aparelhos que leem livros e outras ofertas para aumentar sua lucratividade e, portanto, sua sustentabilidade como livraria. Estamos fazendo isso para agradar nossos clientes, que aprovaram nosso conceito comprando milhões de aparelhos Nook em nossas lojas. Também estão fazendo muitos downloads de conteúdo, o que prova a ideia de que livrarias são incubadoras de nosso ecossistema. Vou repetir isso: Estão vindo às nossas lojas para ajudar a decidir o que comprar via download. Estão fazendo isso no ato. Alguns estão comprando livros impressos também.

Num minuto, gostaria de falar como as editoras podem, também, lucrar com o enorme potencial à nossa frente. Mas primeiro esse pensamento:

Em todos os anos que trabalhamos com editoras, nunca me senti tão confiante de que nossos interesses estavam tão claramente alinhados. Nem tinha visto esse nível de compromisso das editoras – em termos de capital gasto e inovação tecnológica – dirigida a garantir para todos nós uma posição dominante no mercado de conteúdo. Então preciso agradecer pelo que estão fazendo.

Apesar de acreditar na lei que afirma que linhas paralelas nunca se encontram, é bom ver que a distância entre elas diminuiu. Ótimo ver que as editoras passaram a entender que todas as livrarias completas – com isso quero dizer todas aquelas que vendem livros como principal produto – estão sendo vistas como críticas para o futuro de nossa indústria. Como disse antes, precisamos estar conscientes de que ao entrarmos no novo mundo, devemos também levar o velho junto.

Falando do nosso futuro, gostaria de oferecer meus pensamentos sobre a venda de livros digital e, mais importante, sobre conteúdo digital.

Primeiro, e eu quase sinto a necessidade de gritar isso, vejo o mercado digital como exponencialmente maior do que a maioria das pessoas. Como resultado, estou mais animado com o futuro da venda e edição de livros do que nunca. Essa indústria está crescendo mais rapidamente do que quase qualquer outra indústria ou setor cresceu nos últimos 30 anos. Mais rápido até do que a indústria da Internet em seu estágio comparável de desenvolvimento. Claramente, todos conseguem ver agora que não estamos simplesmente substituindo vendas de livros.

Mesmo se fizessem uma mera projeção linear de vendas de e-books em função dos aparelhos de leitura projetados a serem vendidos, teriam de concluir que nossa indústria está no limiar de um crescimento transformador. Mas eu acredito que as perspectivas são ainda maiores do que isso, então me deixem explicar o porquê.

Para começar, precisamos olhar para e-books no sentido mais geral como sendo conteúdo com copyright – o que significa conteúdo que pode ser vendido. Para começar, isso significa um catálogo de 20 milhões de e-books ou mais, sem que os livros “saiam de catálogo”. O nosso sempre foi um negócio de “cauda longa”, mas ela ficou ainda mais longa.

Com isso em mente, as editoras deveriam copiar a Google, em vez de temê-la. Quem é que pode proibi-los de aplicar sua marca a um número infinito de tesouros literários do mundo e outros trabalhos importantes, das últimas centenas de anos? Organizados, narrados e empacotados de forma apropriada, vocês poderiam adicionar milhares de e-books a seus catálogos com pouco ou nenhum custo. Muitos desses livros estão nas bibliotecas de seus escritórios.

A moral aqui é que enquanto a promessa essencial da internet é fazer com que toda a informação do mundo esteja disponível de graça [com um comercial], o mercado digital permite e facilita a propriedade do conteúdo. E enquanto o mundo da internet claramente acabou com intermediários entre edição e venda, o mundo digital nos dá mais força.

Outro pensamento: Quem disse que todos os livros são lidos do começo ao fim? E que eles precisam ser vendidos do começo ao fim? As revistas são lidas do começo ao fim? Alguém ainda compra um CD inteiro?

E a publicação de versões menores, capítulos de livros, biografias breves, ensaios, novelas e até somente um conto?

E pense no mercado para newsletter. Podemos ganhar um pedaço dele? Ou de compilações de dados e informações que você pode pegar de graça da internet e colocar a venda como publicações digitais. Tudo empacotado e com as marcas que temos.

Nosso próprio “SparkNotes”, por exemplo, é distribuído de graça on-line, mas vendemos vinte milhões de dólares por ano, em nossas lojas. É bastante para um jogo de soma zero. Existem lições que dá para aprender desta realidade contraintuitiva?

As razões é que acredito que o potencial de vocês e nosso é ilimitado, que é meramente uma função do fato de que o conteúdo é agora ilimitado. Portanto, agora mais do que nunca, os leitores exigem alguém para fornecer considerações editoriais e navegação para ajudar a racionalizar a variedade de conteúdo que pode ser utilizado. Quem melhor para fazer isso do que as editoras e livrarias que eles confiam?

Outra área que se pode atacar pode ser ainda mais explosiva do que tudo que já citei. Então comecem a pensar em suas publicações com cores, som e movimento. Quer dizer, com interatividade. Peço que olhem para o Nook Color e vejam o que fizemos com os livros infantis, colocando movimento neles. Garanto a vocês que se seus filhos ou netos virem um, nunca mais vão querer outra coisa.

Pensem também em revisitar o mundo das publicações coloridas, porque o que não era lucrativo no passado poderia se tornar bastante no futuro. Por que não pintar um pequeno número de cópias para financiar seus custos e vendê-los nos próximos 50 anos como edição digital? Confie em mim, a versão digital terá melhor resolução do que qualquer processo de impressão, e o livro em si será mais fácil de navegar. Finalmente, pensem nos livros cuja atualização pode ser vendida e a renda contínua que isso pode produzir.

Concluindo, estamos sentados na ponta de um iceberg cheio de conteúdo disponível. Ao mesmo tempo, os leitores estão vivendo o momento em que localizar conteúdo é como encontrar agulha num enorme palheiro.

Juntas essas duas propostas virtualmente garantem a existência de livrarias e editoras. Temos muito trabalho a fazer, juntos, para capturar esse incrível momento em nossa história.

Precisamos começar!

Por Carlo Carrenho | Especial para o PublishNews | 11/03/2011

Amazon, Apple, Barnes & Noble Alegrai-vos: e-Books agora US $ 1 bilhão


Em 2002, as vendas de livros eletrônicos estavam em reles 7.000 mil dólares. Os consumidores tiveram poucas maneiras convenientes para lê-los. Sony e-reader e dispositivos LCD como o robusto Rocket Book eram os únicos playres. O Kindle e o Nook eram uma visão distante para a Amazon e Barnes & Noble, e o iPad não passava de um sonho na mente de Steve Jobs.

Avançando para 2010: e-books estão destinados a passar vendas de US $ 1 bilhão.

De acordo com um relatório divulgado hoje pela Forrester Research, as vendas de livros digitais EUA dispararam 220% entre o total do ano passado de US $ 301 milhões, amparado por um enorme aumento de leitores eletrônicos para 10,3 milhões, ante 3,7 milhões em 2009. Além disso, a Forrester estima-vendas do livro e vai triplicar até 2015, e que mais de 29 milhões de e-leitores terão sido vendidos.

Com tais sinais positivos para a indústria, não é nenhuma maravilha livreiros e editores estão correndo para a era digital. Imprimir livros ainda compõem a grande maioria das receitas da indústria – cerca de US $ 23 bilhões em 2009. Mas esse número está em declínio, enquanto as vendas do e-book saltaram pontos percentuais, duplo e triplo dígitos a cada ano desde 2002.

Amazon Kindle fez sua a peça central de seus negócios, e valeu a pena. Forrester afirma que 50% dos e-books no mês passado foram adquiridos através da loja do Kindle. Agora, Barnes & Noble espera que o Nook irá reviver os seus lucros. A empresa recentemente lançou o Nookcolor, e deu sinais de grande porte que está pensando em mudar radicalmente seu modelo de negócio para ter a “vantagem de obrigar oportunidades digitais.”

Com efeito, e-books ainda têm um espaço enorme para crescimento. Segundo a Forrester, apenas 7% dos adultos online nos os EUA que lêem livros lidos e-books. Esse número deverá dobrar em 2011.

POR AUSTIN CARR | Publicado originalmente em FastCompany | 8/11/2010

Biblioteca na palma da mão


Os primeiros livros feitos com tipos móveis renováveis, predecessores das publicações atuais, surgiram no século XV e semearam uma revolução. Transformaram a leitura em algo popular. Estaremos assistindo a uma nova revolução no conceito de livro? Na semana passada, a Amazon, a maior entre as livrarias on-line, lançou o Kindle, aparelho para ser usado na leitura de textos em formato digital. Não é o primeiro desse tipo de produto, chamado genericamente de e-reader. Mas tem um encanto especial: a conexão direta com a Amazon sem a intermediação de um computador. A livraria oferece 88.000 títulos para download. Há também uma seleção de jornais americanos e europeus, 250 blogs e a Wikipedia, a enciclopédia da web. Nenhum concorrente chega perto em número de publicações.

O conteúdo é baixado para o Kindle por telefonia celular, sem custo para o usuário. Já os livros e jornais precisam ser pagos. Um título recém-lançado sai por 9,99 dólares. Obras de catálogo são vendidas por menos de 1 dólar. Seja qual for o número de páginas da obra, o tempo de download não chega a ser um problema. O aparelho armazena em torno de 200 livros. O teclado permite consulta a textos arquivados e à Wikipedia. “O Kindle pode não substituir os livros, mas faz coisas que eles não fazem“, disse Jeff Bezos, dono da Amazon, no lançamento do produto. O Kindle não é barato – custa 399 dólares, o preço de um iPhone. Pesa 300 gramas. É ligeiramente mais grosso que um lápis e tem o formato aproximado de um livro-padrão. Ou seja, pode ser carregado numa pasta sem causar incômodo. O visor, com 15 centímetros na diagonal, usa tecnologia criada pela E-Ink, empresa que nasceu no Instituto de Tecnologia de Massachusetts [MIT]. A tela é constituída por cápsulas microscópicas, preenchidas por pigmentos pretos e brancos. Estes são ativados por uma corrente elétrica, formando as letras. Ao contrário dos computadores e dos celulares, quanto mais claro o ambiente, mais nítida fica a tela.

Os e-readers surgiram no fim dos anos 90. Nenhum deles emplacou. Pioneiros como o SoftBook e o Rocket eBook eram caros [500 dólares], pesados [1,5 quilo] e tímidos em termos tecnológicos [nem sonhavam com downloads por rede sem fio]. A Sony produziu duas versões de livros digitais entre 2004 e 2006: o Librié e o Reader. O primeiro naufragou. O segundo tem vendas modestas. Tornou-se um produto de nicho. Em 2006, surgiu o iLiad, da iRex Technologies. Era mais leve que os primogênitos, mas ainda assim pesado: quase 400 gramas. A oferta de amplo conteúdo permite à dupla Kindle-Amazon um sonho mais ambicioso: representar para o mercado editorial o que outra dupla, a Apple-iPod, significou para a indústria fonográfica – uma reviravolta monumental.

Fonte: Revista VEJA.com | 28/11/2007

O futuro do livro


E-books completam um ano e ainda provocam discussões se substituirão as obras impressas

The Rocket eBook

Há um ano foram lançados no mercado americano os primeiros livros eletrônicos. Desde então, viraram o centro da atenção de uma nova era composta de produtos digitais simples e práticos. A promessa é realmente tentadora: um único aparelho capaz de reunir a praticidade de um volume em papel com as facilidades de um computador portátil. Cada e-book, como é chamado nos Estados Unidos, armazena até dez obras ao mesmo tempo – e novos títulos podem ser acrescentados enquanto houver memória disponível. Enfim, um dos maiores sonhos de visionários do futuro chega perto da realidade.

A revolução tecnológica em curso é predominantemente da informação. Como também já foi no passado. Depois da invenção da escrita, há 5.000 anos na Mesopotâmia, os chineses criaram o livro escrito. No século XV, outra revolução ocorreria com a invenção da prensa de Gutenberg. As primeiras obras, porém, eram enormes. Só no século seguinte o livro pôde ser carregado debaixo do braço. O que um grupo de empresas está propondo agora é desvencilhar-se do turbilhão de informações preservadas em livros, enciclopédias e outros manuscritos. Hoje, muitas obras vivem na forma impressa e eletrônica, disponíveis em CD-ROM ou sites da internet. Mas a tela de um PC não permite uma leitura agradável por várias horas seguidas. Os e-books pretendem eliminar essa barreira. As primeiras duas opções, por enquanto à venda apenas nos Estados Unidos, têm oferecido soluções distintas.

O SoftBook [www.softbook.com] é o mais parecido com um livro de verdade. Pesa 1,4 quilo, vem com capa de couro e dispensa o computador. Ele se conecta à rede eletrônica de livros da empresa, o que pode ser uma alternativa aos milhões de pessoas que não têm ou não querem ter um PC. Com uma tela de cristal líquido de 24 centímetros, o aparelho mostra as letras dos textos em tamanhos variados e as páginas podem ser viradas ao toque de um botão. Marcações e anotações na margem podem ser feitas com a ajuda de uma caneta especial. O aparelho custa 599 dólares. Mas é apenas metade do caminho. É preciso ainda pagar pelos livros copiados eletronicamente. Os preços são variados: Alice no País das Maravilhas, o clássico de Lewis Carroll, custa 3,99 dólares; HyperWars, de Bruce Judson e Kate Kelly, 17,50 dólares.

Outra opção é o Rocket eBook, da NuvoMedia [www. nuvomedia.com]. Ele não possui um modem interno e, portanto, depende de um computador conectado à internet para copiar os títulos. Os livros digitais estão estocados num grande computador da livraria Barnes & Noble, uma das maiores dos Estados Unidos. Mais leve [meio quilo] e com tela menor [14 centímetros], o Rocket oferece mais opções de leitura. Pode-se copiar fontes do computador, ver o texto na horizontal ou na vertical e acomodá-lo numa posição confortável para canhotos. Possui também as opções de anotar e marcar passagens dos livros. Custa 499 dólares. O preço dos livros, estranhamente, é quase o mesmo das edições em papel. Bag of Bones, de Stephen King, por exemplo, sai por 22,40 dólares. A novidade do Rocket é que ele permite copiar sites e documentos criados no computador, desde que convertidos em HTML, o código padrão das páginas da internet.

Há um mês, editores internacionais se reuniram na BookExpo America, uma feira de novidades no mercado. A opinião geral é de que os e-books precisam primeiro cair no gosto do público para que as editoras comecem a investir mais seriamente. É natural. O escritor Sven Birkerts, autor de The Fate of Reading in an Electronic Age [O Destino da Leitura na Era Eletrônica], que discute a influência da tecnologia no mundo moderno, resumiu o efeito dos livros eletrônicos: “Palavras lidas de uma tela ou escritas para uma tela – palavras que aparecem e desaparecem e até podem ser removidas e recolocadas com um simples apertar de botão – podem nos afetar diferentemente de palavras imobilizadas no acessível espaço de uma página de um livro.” Por enquanto, nenhum desses aparelhos conseguiu competir com as obras impressas, que custam menos, nunca se apagam por problemas de bateria e são mais fáceis de ser lidas. Ainda é cedo para começar a esvaziar as prateleiras da biblioteca.

Revista Veja | 02/06/1999