Brasil pode ganhar mais uma empresa de Print on Demand em 2016


Bibliomanager, aliança de editores internacionais para criar uma plataforma de impressão por demanda, mira no Brasil

Alejandro Zenker [Solar Editores], Gustavo Vorobechick [Bibliografika] e Miguel Angel Sánchez Maza [Podiprint] na apresentação da Bibliomanager na Feira do Livro de Guadalajara | © Podiprint

Alejandro Zenker [Solar Editores], Gustavo Vorobechick [Bibliografika] e Miguel Angel Sánchez Maza [Podiprint] na apresentação da Bibliomanager na Feira do Livro de Guadalajara | © Podiprint

Em 2015, o mercado brasileiro assistiu a um renascer da Impressão sob demanda. O espaço deixado pela Singular, gráfica do grupo Ediouro que começou o negócio no Brasil, foi ocupado pela iSupply, que começou as suas operações em março, e pela BookPartners, que começou pilotos para início das operações de POD [da sigla em inglês Print on demand]. Durante a Feira do Livro de Guadalajara, que acabou no início desse mês, representantes da Bibliomanager, aliança internacional de editoras do México, Espanha, Argentina, Colômbia e Equador, anunciaram que vão investir em POD para atender a mercados da América Latina, incluindo o Brasil. A notícia foi dada pelo Publishing Perspectives. Ao veículo, Jaime Iván Hurtado, CEO da editora colombiana Hipertexto, uma das integrantes da Bibliomanager, disse: “em 2016, nós planejamos entrar no Chile, Peru e Bolívia e então, no Brasil. Nosso objetivo é também entrar no mercado hispânico dos EUA, que tem 54 milhões de falantes da língua espanhola. Esse é o nosso objetivo a médio prazo”. Atualmente, a Bibliomanager é composta, além da Hipertexto comandada por Iván, pela mexicana Solar Editores, a espanhola Podiprint, a argentina Bibliografika e equatoriana Megadocucentro.

Por Leonardo Neto e Monique Sampaio | PublishNews | 17/12/20

POD terá mais um player no Brasil


i-Supply inicia sua operação de impressão por demanda no dia 19/03

Logo depois de a BookPartners anunciar que está em vias de assinar contrato com a Ingram para instalar no Brasil uma planta de Impressão por demanda [POD, do inglês Press on Demand] no Brasil, a i-Supply  — distribuidora ligada à Digital Pages, empresa especializada em gestão digital de conteúdos — comunica que já tem data marcada para o início das operações de sua planta de POD no País. A empresa, capitaneada por Youssef Mourad, também fechou contrato com a Ingram e inicia as suas operações no dia 19 de março. De acordo com Youssef, a i-Supply já está imprimindo sob demanda em fase de testes com players do comércio eletrônico. A aposta, segundo Mourad, é no que classifica como hard to find, ou seja, títulos esgotados; e no Global Connect, serviço da Ingram que permite o acesso ao catálogo de mais de um milhão de títulos em outras línguas disponíveis para impressão sob demanda.

Ao ser questionado se há espaço para duas empresas fazendo POD no mercado brasileiro, Mourad, diz que a concorrência pode ser saudável e quem tiver o melhor workflow sairá na frente. “O workflow é a camada mais sensível nesse negócio”, disse ao PublishNews. Mourad evita falar em números, mas, de acordo com Eduardo Acácio, da BookPartners, a empresa deixou de faturar certa de R$ 6 milhões em 2014 por falta de exemplares de títulos esgotados. Isso dá a dimensão da possibilidade de “dinheiro na mesa” que a impressão por demanda tem no país. “A gente nada de braçadas na gestão de conteúdos digitais há quinze anos. Esse é o nosso grande diferencial”, observa o CEO da i-Supply. “A i-Supply não é só uma distribuidora, mas é também uma solução de software”, expõe. Para o executivo, esses diferenciais são fundamentais para a automação dos processos da impressão por demanda.

A i-Supply foi fundada em 2011, tendo como uma de suas sócias-fundadoras a Digital Pages, que tem em sua cartela de clientes a Editora Abril, Folha de S. Paulo e Globo para quem oferece serviços de publicações digitais em múltiplos dispositivos. Há menos de um ano, a Future Way, holding que tem sob seu guarda-chuva a Digital Pages e a i-Supply, adquiriu o controle acionário da i-Supply, que, segundo Mourad, já nasceu na contramão das tradicionais, com a proposta de aliar a distribuição convencional à distribuição digital e, a partir de março, com tudo isso integrado à impressão por demanda. “Desde o seu primeiro dia, a i-Supply encarou a missão de reduzir drasticamente as perdas das editoras”, salienta o executivo.

Ao contrário do que fez em 2011, quando fechou com a Singular para a iniciar as operações de POD no Brasil, a Ingram não optou por contratos de exclusividade. Assim, há a possibilidade de as duas empresas operarem independentemente.

Por Leonardo Neto | PublishNews | 26/01/2015

Autopublicação – uma “revolução” no mercado editorial?


Por Felipe Lindoso | Publicado originalmente em PublishNews | 23/07/2014

Certamente um dos fenômenos mais impactantes dos últimos anos na indústria editorial foi o desenvolvimento do mercado de e-books. Apesar de várias tentativas anteriores, esse mercado começou a existir de fato e a se desenvolver a partir do momento em que a Amazon lançou seu e-reader Kindle, em 2007.

O sucesso do Kindle se deveu, certamente, à pressão que a Amazon desenvolveu, nos meses prévios ao seu lançamento, para que as editoras disponibilizassem versões eletrônicas de seus títulos. A digitalização dos livros dos acervos editoriais não começou ali, entretanto. Há vários anos as editoras já vinham digitalizando os livros em função de dois fatores: a] facilidade de produção editorial. Era muito mais fácil e prático desenvolver a produção editorial a partir de arquivos eletrônicos, principalmente com o lançamento de softwares específicos para isso; 2] os sistemas de print-on-demand. Desde meados dos anos 1990 o mercado editorial dos EUA, principalmente, e também os europeus, já vinham usando os sistemas de POD para otimizar seus estoques e revitalizar o fundo de catálogo. A McGraw Hill foi pioneira nisso, e foi logo seguida pelas outras grandes indústrias.

O lançamento do Kindle e dos livros eletrônicos também deveram muito do sucesso à oferta de conteúdo com preços de capa substancialmente inferiores aos dos hard-covers, ou mesmo das edições de bolso, de capa mole e mais populares. A razão disso, evidentemente, era a eliminação dos custos de impressão e a substancial redução dos custos de logística. Para distribuir e-books, não era mais necessário ter caminhões atravessando o país, carregados de livros. Note-se, também, que o Kindle usa um formato específico. Na verdade, o que é particular é o tipo de DRM que a Amazon usa, que foi desenhado especificamente para facilitar o engajamento dos clientes dentro do seu ecossistema. O formato é o Mobi [que havia sido desenvolvido pela Palm e adquirido pela Amazon]. A empresa se recusou a usar o formato e-Pub, desenvolvido por um consórcio, o International Digital Publishing Forum e usado por todos os demais leitores.

Mas o tema que estou tratando aqui começa a tomar forma já nos aos 2000, quando surgem as primeiras plataformas de autopublicação. Em 2007 a Amazon lança o KDP – Kindle Direct Publish, que permite também que os autores publiquem em formato digital para venda direta na Amazon. Hoje, entretanto, existem talvez centenas de plataformas de autopublicação, algumas gigantescas como a Lulu.com nos EUA. O modelo se espalhou, e aqui mesmo no Brasil temos plataformas já com milhares de autores, como o Clube de Autores, a PerSe e mesmo editoras tradicionais que já se embrenharam no nicho, como a Saraiva e seu PubliqueSe. Não pretendo listar aqui, nem como exemplos, outros sites. Mas eles se multiplicam como fungos.

As duas questões que interessam aqui são:

– Isso é novidade?

– É uma revolução?

Novidade não é. A autopublicação tem uma longa história. O autor pagar para publicar, ou ele mesmo produzir sua obra é fenômeno antigo. A rigor, pode se dizer que a indústria editorial já tinha isso desde o começo. As gráficas se desenvolveram depois da invenção de Gutenberg, e publicavam as obras pagas pelos autores. O surgimento e o desenvolvimento das editoras, tal como entendemos hoje, foi um processo longo e complicado. Mesmo aqui no Brasil, por volta dos anos 1920, muitos autores fundamentais, como Oswald de Andrade, tiveram que pagar pela publicação de seus primeiros livros. E sempre existiram editoras-gráficas que produziam livros por conta dos autores. Nos EUA eram conhecidas como “Vanity Press”. Algumas daqui chegaram a ter bastante prestígio como a Massao Ohno. E a Scortecci continua aí, progredindo e trabalhando com equipamentos de impressão digital.

O segmento da autopublicação, até o advento do e-book, embora tivesse uma presença até significativa em número de títulos, era uma parte bem pequena do mercado editorial. Em alguns círculos, aliás, tinha certa conotação negativa, certamente estimulada pelas editoras constituídas. E, comparados com os de com hoje, os preços eram altos, e certamente não havia nada grátis. O conceito estava indissoluvelmente ligado a pagar para ser publicado. Além do mais, o problema da distribuição era insolúvel.

Meu amigo Márcio Souza há anos fez uma piada, dizendo que é mais fácil se livrar de um cadáver que de mil exemplares de um livro. O sujeito publicava seu título, recebia os mil exemplares [as tiragens em máquinas planas eram necessariamente maiores, por conta do custo básico de composição, diagramação, etc.], atochava tudo na sala da sua casa e saía com os exemplares debaixo do braço para dar de presente para amigos, conhecidos, quem pintasse pela frente. Distribuir mil exemplares é uma tarefa hercúlea. Os amigos começavam a trocar de calçada quando viam o indigitado autor no horizonte, e de longe diziam “Já tenho, você já me deu três exemplares de presente”.

Isso mudou.

Os programas de automáticos de editoração são fáceis de usar, e essas plataformas penduram os títulos nos servidores e os colocam no site. Sentadinhos à espera de compradores. As melhores e mais sofisticadas oferecem também a possibilidade de impressão sob demanda, tanto para o autor quanto para o eventualíssimo comprador, que pode optar por receber o exemplar impresso em vez de e-book.

É uma revolução?

Sinceramente, não acredito.

As razões são várias.

Primeiro, o fato é que certamente abriu um segmento de mercado para os editores que vendem, sob demanda, os mais variados serviços. Desde editar o texto – no sentido de corrigir, emendar, dar coerência e um mínimo de estrutura narrativa ao material entregue pelos pretensos autores, até a elaboração de capas, providências para registro na BN [os autores amadores acham isso fundamental, para evitar serem plagiados posteriormente…] e inscrição no ISBN. Quando algum exemplar é vendido no site, a comissão é cobrada.

Em segundo lugar, a ideia de que a distribuição [isto é, a venda] deixou de ser problema porque o livro está disponível na web revelou-se uma completa ilusão. Aliás, essa também foi um aprendizado para as editoras tradicionais.

Estar disponível não significa ser descoberto e lido. Muito pelo contrário. Com o crescimento geométrico do número de títulos, fica cada vez mais difícil que um título seja descoberto por seu possível leitor para além do círculo família e das amizades. E esses querem o livro de graça.

Na verdade, os custo de marketing, divulgação e “descobribilidade” [ainda não descobri, literalmente, uma palavra menos esdrúxula para o problema, e aceito sugestões], no âmbito das editoras tradicionais, hoje às vezes ultrapassam os custos agora inexistentes de impressão e logística. E essa é uma das razões pela qual há cada vez mais resistência por parte das editoras estabelecidas a diminuir ainda mais o preço dos e-books.

Certamente isso pode ser compensado,  pelo menos em parte, pelos autores autopublicados, por um intenso esforço de divulgação nas redes sociais. Mas, com certeza, a taxa de sucesso é baixíssima.

Essa questão da descobribilidade dos livros já provocou até um mercado “subprime” de resenhas picaretas. Os espaços para resenhas dos leitores começaram a ser ocupados por “resenhadores” profissionais, pagos por autores para elogiar seus livros. Quando o assunto foi divulgado, a Amazon colocou no seu sistema que só podia postar resenha alguém que houvesse comprado o livro. Parece que só aumentou o custo dos “resenhadores” profissionais, que passaram a incluir o preço da compra do livro no pacote de serviços…

A análise do DigitalBook World do novo programa da Amazon, o Kindle Unlimited, publicado no dia 21/7, diz que, dos 600 mil títulos disponíveis no programa, mais de 500 mil são do programa KDP. Ou seja, autopublicados. As plataformas Oyster e Scribd também incluem um número considerável desses títulos, mas as grandes editoras têm optado por elas em vez do programa amazonian.

Certamente, no meio dessa profusão, aparecem autores que fazem sucesso, e esses são os escolhidos como exemplos para atrair os demais. É o mesmo processo de “peneira” que acontece na edição tradicional.

Em conclusão, penso que esse fenômeno da autopublicação reflete, efetivamente, uma abertura de possibilidades com os e-books. Mas está muito, muito longe de ser qualquer tipo de revolução. Continua sendo, na verdade, um espaço para quem quer brincar de ser autor. Uma matéria recente publicada na Folha é exemplar: o bancário aposentado Toshio Katsurayama, de 71 anos, escreveu um livro sobre sua mãe. Escreveu, procurou várias editoras e não achou quem o publicasse. Contratou a consultoria “Tire Seu Livro da gaveta”, gastou cinco mil reais e realizou seu sonho de “brincar de ser escritor”. Toshio ficou feliz, e deixou também feliz o Cássio Barbosa, dono da consultoria e do Reino Editorial, que preparou a editoração e publicou o Toshio. Barbosa faz parte desse ainda pequeno mas crescente segmento de editores que presta serviços para os autores que querem ser auto-publicados, que não pagam mais pela impressão, mas pagam por esse tratamento de seus textos.

Todos felizes.

Mas isso não é nenhuma revolução. Só ficou mais fácil cumprir a antiga máxima que rezava que todos na vida deveriam ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro. Mas ninguém fala incluía no ditado que o livro só existe mesmo se for lido e disser algo relevante para um público, mesmo que pequeno.

Por Felipe Lindoso | Publicado originalmente em PublishNews | 23/07/2014

Felipe Lindoso

Felipe Lindoso é jornalista, tradutor, editor e consultor de políticas públicas para o livro e leitura. Foi sócio da Editora Marco Zero, diretor da Câmara Brasileira do Livro e consultor do CERLALC – Centro Regional para o Livro na América Latina e Caribe, órgão da UNESCO. Publicou, em 2004, O Brasil pode ser um país de leitores? Política para a cultura, política para o livro, pela Summus Editorial. Mantêm o blogwww.oxisdoproblema.com.br

A coluna O X da questão traz reflexões sobre as peculiaridades e dificuldades da vida editorial nesse nosso país de dimensões continentais, sem bibliotecas e com uma rede de livrarias muito precária. Sob uma visão sociológica, este espaço analisa, entre outras coisas, as razões que impedem belos e substanciosos livros de chegarem às mãos dos leitores brasileiros na quantidade e preço que merecem.

Edição digital – outros lados de várias moedas


Por Felipe Lindoso | Publicado originalmente em PublishNews | 20/08/2013

Normalmente a edição digital está associada aos e-books e e-readers. Mas não é tão simples assim. Já mencionei que o uso de formatos digitais pelas editoras do segmento técnico-científico está próxima de comemorar seu vigésimo aniversário.

Na área dos tradicionais livros impressos, os processos gráficos passaram, nos últimos anos, por transformações igualmente grandes e significativas. Aliás, as transformações técnicas dos processos de impressão têm impactos diretos na quantidade e na qualidade dos livros tradicionais ofertados. A mais recente dessas transformações é a da impressão digital.

A eletrofotografia [reprodução por meios eletrostáticos de um original, foto ou texto], desenvolvida pela Xerox, no final nos anos 1950, foi onde tudo começou. Anos depois a Xerox fundou o PARC – Palo Alto Research Center, matriz de inúmeras inovações tecnológicas na área da reprodução [impressoras a jato de tinta e laser], e dos computadores pessoais.

A chamada “xerografia”, como ficou popularmente conhecida, com máquinas cada vez mais complexas, desembocou nos anos 1990 na DocuTech, uma máquina apresentada como a primeira “fábrica de livros”, que imprimia página por página um original, compaginava e apresentava na ponta o miolo do livro, pronto para ser encadernado. A DocuTech foi o primeiro sistema integrado de impressão sob demanda.

Muita água rolou por baixo dessa ponte, e a Xerox há muito deixou de ser quase monopólio de copiadoras e impressoras. Várias empresas entraram no mercado, seja nas impressoras domésticas, máquinas copiadoras ou impressoras de grande porte. Nos últimos anos, os processos de impressões sob demanda [POD, em inglês] vêm assumindo importância crescente. No mercado global de impressões, a impressão digital chega a apenas 4% do total de impressos produzidos, mas o crescimento é contínuo e rápido, segundo Maurício Ferreira, gerente do segmento Indigo & Inkjet Web Press da Hewlett Packard.

Semana passada, assisti como convidado a uma apresentação sobre impressão digital promovida pela HP. Foi um evento direcionado particularmente para o mercado de livros didáticos. Hoje há máquinas capazes de competir com rotativas offset, e com uma vantagem adicional: a capacidade de produzir livros praticamente individualizados. Ou seja, o conteúdo adaptado para um único consumidor/leitor/estudante.

Uma das apresentações mais interessantes do evento foi feita por Allen C. Schulz, que trabalhou 33 anos na McGraw-Hill, onde foi um dos principais arquitetos e desenvolvedores do segmento de livros personalizados, impressos sob demanda.

Acompanho as experiências da McGraw-Hill há vários anos. A empresa foi pioneira na adoção do POD, reduzindo drasticamente estoques. Segundo Schulz, foi também pioneira na produção de livros didáticos customizados, já nos anos 1980. O processo de composição e preparação de originais utilizava a linguagem Postscript, de difícil uso para os propósitos pretendidos.

No entanto, segundo Schulz, o processo valia a pena pela diminuição dos estoques [os livros eram produzidos em tiragens específicas para cada grupo de consumidores], e diminuição do mercado de livros escolares usados. O que aqui acontece de modo quase amador, com os colégios e faculdades fazendo feirinhas nas quais os alunos repassam para os colegas mais novos os livros usados no ano anterior, nos EUA já era um negócio estruturado, com empresas especializadas na compra dos usados, limpeza e recondicionamento e venda.

Nos anos 1990, passam a ser usadas pela McGraw-Hill as suítes Adobe Acrobat e Adobe Creative, de uso bem mais fácil, padronizando os processos. Nessa época também foram instituídas as primeiras bibliotecas digitais de conteúdo. Nessas bibliotecas, os conteúdos dos livros publicados pela McGraw-Hill podiam ser “fatiados” em capítulos, e os próprios professores montavam o conteúdo dos livros adotados. Era uma “pasta do professor” impressa, legalizada e vendida na livraria da universidade. Os próprios professores foram estimulados a produzir material digital que pudesse ser incorporado aos livros [licenciado e remunerado]. Os processos gráficos foram sendo desenvolvidos a partir de uma parceria da editora com a HP e gráficas.

A partir do início do novo século começaram a testar impressoras ink-jet para a produção dos livros. Mais importante ainda, a formatação do material passou a ser em XML, a matriz de praticamente todas as linguagens de formatação gráfica existentes hoje, permitindo uma flexibilidade anteriormente mais difícil.

A associação entre a McGraw-Hill e a HP se desenvolveu em outros segmentos. A editora decidiu transferir todos seus processos de produção e pré-impressão para a Índia. A medida, entretanto, se desenvolveu com uma política estrita de imposição de qualidade e preço. É um processo comum, na situação em que uma grande empresa alcança um tamanho capaz de impor condições estritas aos fornecedores. Ou seja, não é nem privilégio nem foi invenção da Amazon, e muitas outras empresas que alcançam esse nível de controle da produção sistematicamente impõem padrões e preços. Também não é privilégio das empresas. Um exemplo parecido é a que o FNDE impõe aos editores no fornecimento dos livros didáticos aqui.

A introdução da impressão digital, com sua grande flexibilidade, permite a elaboração de conteúdos que podem ser produzidos para atender especificações dirigidas até o consumidor individual. Conjuntos de livros para classes e cursos específicos já são rotina.

Mas a impressão digital provocou outras mudanças importantes. O ajuste da oferta à demanda, por exemplo. Anteriormente, os editores tinham que calcular [com base na sua experiência, cada vez mais sofisticada, é claro], qual deveria ser a tiragem de cada título. A impressão sob demanda deixa de lado essa exigência. Não apenas podem fabricar livros individualizados, como cada tiragem é ajustada perfeitamente à demanda. Portanto, há uma menor dependência na previsão de produção.

Outro aspecto importante é o da redução dos estoques. E a redução dos estoques aliada aos processos de impressão digital, produz outros dois efeitos de grande importância na economia da editora. O primeiro é a eliminação do “mercado secundário” dos livros usados. Porém, ainda mais importante, é o processo de “obsolescência programada” das edições. Na medida em que os livros são produzidos para cada classe [ou pelo menos para cada curso], e modificados facilmente de um ano para o outro com o uso desses enormes “bancos de dados”/bibliotecas digitais de conteúdo, além das notas e contribuições de professores, os livros usados por uma turma são inaproveitáveis para as turmas seguintes. O que, evidentemente, é ótimo para a editora, e péssimo do ponto de vista social. Não existe mais o reaproveitamento do livro usado.

Os processos de “montagem” de conteúdo e impressão em pequenas tiragens permitem também o desenvolvimento de mercado de nichos, ou o teste de conteúdos em nichos específicos e de modo controlado.

Finalmente, o desenvolvimento de facilidades locais para impressão digital proporcionou ainda outra economia em logística. Quanto mais próxima estiver a gráfica digital do consumidor final, menor será o custo de transporte. Recentemente as grandes transportadoras dos EUA tiveram que refazer cálculos de produtividade e ocupação com a proliferação dos armazéns da Amazon. Como o frete é cobrado por faixas de distância calculadas em um raio a partir do ponto de recolhimento, a produção localizada começa a afetar o uso do transporte terrestre.

Essas modificações no sistema de produção gráfica e editorial, decorrentes da introdução de sistemas digitais em uma extensão cada vez maior, ocorre, evidentemente, fora dos olhos do consumidor final. O livro tradicional, impresso, também se transforma com os avanços tecnológicos.

Essas considerações aqui são feitas levando em conta o segmento dos livros didáticos [em todos os níveis de ensino, em maior ou menor grau]. No Brasil ainda estamos bem longe da sofisticação tecnológica dos EUA. Até porque, é bom não esquecer, o maior volume na produção de livros didáticos é o comprado pelos programas governamentais. Segundo informações da Abrelivros [dadas por Antonio Luiz Rios, vice-presidente da entidade no evento da HP], os programas governamentais absorvem 80% da produção, mas geram apenas 50% do faturamento das editoras do setor. Os 20% absorvidos pelo mercado geram a outra metade do faturamento, e essa faixa poderá ser melhor explorada com a sofisticação da produção de conteúdo.

Além do setor tradicional das editoras didáticas, os chamados sistemas de ensino também crescem [e quase todas as editoras também têm sistemas]. Nessa área pode haver um aumento consistente no uso desses processos digitais.

Algumas instituições de ensino superior já usam modelos parecidos. Há universidades particulares que, para alguns cursos, incluem no preço da anuidade o custo do material didático desenhado especialmente, entregue aos alunos. E a ABDR, em uma encabulada retirada da mania persecutória das reprografias, lançou a “Pasta do professor”, uma fórmula que era usada há quase trinta anos pela McGraw-Hill e outras editoras de livros técnico-científicos e universitários dos EUA.

O impacto da impressão sob demanda na área dos livros de interesse geral é outro capítulo, que tentarei abordar melhor em outra ocasião.

Por Felipe Lindoso | Publicado originalmente em PublishNews | 20/08/2013

Felipe Lindoso

Felipe Lindoso é jornalista, tradutor, editor e consultor de políticas públicas para o livro e leitura. Foi sócio da Editora Marco Zero, diretor da Câmara Brasileira do Livro e consultor do CERLALC – Centro Regional para o Livro na América Latina e Caribe, órgão da UNESCO. Publicou, em 2004, O Brasil pode ser um país de leitores? Política para a cultura, política para o livro, pela Summus Editorial. Mantêm o blogwww.oxisdoproblema.com.br

A coluna O X da questão traz reflexões sobre as peculiaridades e dificuldades da vida editorial nesse nosso país de dimensões continentais, sem bibliotecas e com uma rede de livrarias muito precária. Sob uma visão sociológica, este espaço analisa, entre outras coisas, as razões que impedem belos e substanciosos livros de chegarem às mãos dos leitores brasileiros na quantidade e preço que merecem.