Bibliotecas digitais vão democratizar acesso aos livros


Confira um bate-papo com Galeno Amorim, criador do Plano Nacional do Livro e Leitura

Galeno Amorim

Galeno Amorim

Galeno Amorim iniciou-se no jornalismo aos 15 anos. Trabalhou por quase duas décadas no jornal O Estado de São Paulo e acumulou passagens por algumas das principais redes de televisão do país. Nesse período, também foi professor do curso de Jornalismo
em Ribeirão Preto [SP], sua cidade natal. Envolvido desde sempre com projetos de fomento à leitura, ele próprio é autor de 17 livros e já realizou mais de 800 palestras no Brasil e no exterior em que busca estimular o debate sobre políticas públicas voltadas para o livro e a leitura. Além disso, tem seu nome ligado à criação de diversas instituições que lidam diretamente com o tema.

Já presidiu organizações internacionais como o Centro Regional para o Fomento do Livro na América Latina e Caribe [Cerlalc], o único na área do livro e da leitura ligado à Unesco, com sede na Colômbia. Também integrou a equipe do Ministério da Cultura durante o governo Lula, quando, em parceria com o Ministério da Educação, criou o Plano Nacional do Livro e da Leitura [PNLL], e presidiu a Fundação Biblioteca Nacional [FBN]. Nesta entrevista, realizada após a sua palestra Dos tablets de argila aos eBooks: Uma revolução na palma da mão, na UFMG, ele fala de sua infância, do engajamento em projetos relacionados à leitura no Brasil e das bibliotecas digitais, formato que, em sua avaliação, veio para ficar.

O sr. é um profissional engajado em ações que buscam incentivar a leitura. Como esse envolvimento começou?

Começou como leitor. Sempre gostei de ler muito. Fui crescendo e comecei a perceber o papel que o livro pode ter na vida das pessoas. Um papel transformador, enquanto ferramenta poderosa para abrir mentes e promover a cidadania. Quando me dei conta, já estava organizando concursos e projetos de incentivo à leitura. De repente, fui convidado a implantar um programa em minha cidade, por meio do qual foram abertas 80 bibliotecas em três anos, que fizeram aumentar muito o índice de leitura. A partir daí, as coisas foram acontecendo.

Como era a sua relação com a leitura na infância?

Minha mãe era analfabeta e meu pai trabalhava na zona rural. O livro não era algo tão presente em casa. Fui criado por uma família na cidade de Sertãozinho. Eis que uma das filhas dessa família quis ser professora e começou a levar um ou outro livro para casa. Quando ela se casou e mudou de lá, conseguiu montar uma coleção de livros do Monteiro Lobato. Eu viajava quilômetros e quilômetros por dia para poder ler esses livros. Até que um dia descobri uma biblioteca, que abriu um cenário maravilhoso pra mim. Eu não me recordo o nome do primeiro livro que li, mas era uma obra que tratava do cangaço. Era sobre um menino que sonhava ser cangaceiro e, de repente, se dá conta da triste situação do lugar em que morava.

Fale um pouco mais sobre a Árvore de Livros. Como funciona?

A Árvore de Livros é uma biblioteca digital que empresta e-books. É uma espécie de Netflix dos livros. Ela está implantada em mais de 500, quase 600 cidades em todos os estados brasileiros. Nessa plataforma, o leitor pode ler em tablets, smartphones e notebooks mais de 14 mil livros de variados gêneros, exceto didáticos.

É uma oportunidade fantástica de facilitar o acesso à leitura. Uma biblioteca que nunca fecha. Como surgiu a ideia?

Eu passo a vida pensando que existem cerca de 140 mil escolas sem bibliotecas no Brasil. Então, sempre pensei em maneiras de atender às demandas, acreditando que a tecnologia vem para resolver um problema concreto.

O que o bibliotecário precisa fazer para lidar melhor com essas novas plataformas digitais?

Primeiramente, o bibliotecário e o estudante de Biblioteconomia devem se dar a oportunidade de conhecer essa possibilidade de leitura. Hoje, há uma quantidade expressiva de leitores que aderem a esse formato, além de um número significativo de jovens que estão prontos para começar a ler digitalmente. Se o bibliotecário não se apodera dessa ferramenta, ele terá dificuldades em fazer a mediação. Então, o primeiro passo é esse: conhecer, se informar e começar a ler digitalmente.

Na palestra de hoje, o sr. questiona o preparo de nossas escolas e bibliotecas frente à chegada dos livros digitais. Acredita que as nossas instituições de ensino estejam prontas para receber e trabalhar com os e-books?

Na verdade, de certa forma, o mundo ainda não estava preparado para receber os livros digitais. Não se trata apenas das escolas. Ninguém estava preparado. Agora é hora de correr atrás do tempo perdido. E aí eu me refiro às próprias bibliotecas, às universidades, aos gestores, aos governos e a todos os setores.

Como avalia o comportamento dos leitores no Brasil, principalmente os jovens, em relação às novas plataformas de leitura, como os e-readers?

Os jovens adoram quando colocados frente a frente com essas oportunidades de leitura digital. Eles têm uma reação altamente positiva. Eu tenho sentido isso com crianças e adolescentes de diversas classes sociais e regiões do Brasil. É algo que tem feito parte da rotina deles. Gerações que acordam e dormem com smartphones e que são muito aderentes a essas tecnologias.

Uma pesquisa feita recentemente pela Bookwire, especializada em distribuição de e-books, diz que as vendas de livros digitais na América Latina devem saltar de 1% para 10% a 15% do total de livros comercializados até 2020. Como as editoras devem
se comportar frente a essa previsão?

Essa pesquisa confirma uma tendência que nós já podemos observar no dia a dia. O mercado editorial está cada vez mais aberto para o digital. Editoras tradicionais que até um ano atrás não se abriam para o e-book – seja para vender ou emprestar – agora já fazem parte de projetos de empréstimos. Elas estão percebendo que algo está acontecendo. As vendas de livros digitais dessas editoras podem representar apenas 3% ou 4% do faturamento, mas há uma tendência a aumentar. E se elas não se prepararem agora, serão atropeladas pela história.

O sr. acredita que há alguma diferença na incorporação dos e-books por escolas públicas e privadas? Se existe, qual é?

Há escolas particulares com problemas e outras que são formidáveis. Há escolas públicas que estão utilizando maravilhosamente bem e aquelas com dificuldades em aderir. Isso significa que o digital depende muito do papel do mediador de leitura. O bibliotecário tem um papel muito mais nobre nesse processo que começa a acontecer agora.

Do ponto de vista pedagógico, quais as vantagens e desvantagens do uso dos e-books nas escolas brasileiras?

Eu não vejo desvantagens. As vantagens que eu vejo são redução de custos, universalidade do acesso e aumento da quantidade de livros disponíveis.

Quais devem ser as estratégias dos governos para que a leitura seja parte efetiva e importante no projeto pedagógico das escolas?

Os governos precisam apoiar projetos de implantação de bibliotecas digitais nas escolas, que devem ser acompanhados de workshops, seminários e atividades de formação dos educadores e bibliotecários, além de dar suporte às políticas de fomento à leitura, como clubes de leitura digital nas redes sociais.

Uma pesquisa realizada pela Fecomércio RJ, divulgada recentemente, mostrou que 70% dos brasileiros não leram nenhum livro em 2014. O que precisa ser feito para melhorar esse cenário?

Essa é uma das pesquisas. Tem outras. Eu não conheço seus critérios e amostras. Mas posso dizer com propriedade sobre a Retratos da Leitura no Brasil, que eu conheço e cuja metodologia ajudei a desenvolver. Essa pesquisa mostrou que há uma pequena redução do índice de leitura, mas também um aumento da população leitora. Ou seja, tem mais gente lendo, porém, há também outras mídias disputando a atenção dos leitores por meio de outras oportunidades de entretenimento e lazer cultural. Temos que criar novas ações para mudar esse cenário, e as políticas públicas têm muita relevância nisso.

O sr. acredita que os índices de leitura no Brasil estão relacionados à renda da população?

Sim. Estão ligados a dois fatores, na verdade: à escolaridade, principalmente, e à renda. Isso não quer dizer que quem tem mais renda lê mais. Quem tem mais recursos tem também maior acesso a bens culturais, como teatro, televisão com canais pagos e livros. À medida que aumenta a renda e a escolaridade, aumenta o índice de leitura. As possibilidades de acesso a esse universo cultural tornam-se muito mais amplas.

Crê que a tecnologia é capaz de democratizar o acesso à leitura?

Eu acredito que a tecnologia é uma grande oportunidade que a civilização moderna tem para ampliar o acesso à leitura. É uma possibilidade também de diminuir o fosso social e, ao mesmo tempo, promover inclusão tecnológica, contribuindo para o acesso à educação.

Em tempos de vasto fluxo de informações na internet, ainda há espaço para o livro como ferramenta de consulta?

Eu acredito que sim. Mas esse questionamento entre físico e digital não tem a menor relevância. O que importa mesmo é o conteúdo.

CRB-6 Informa | n. 1/2015

Brasil, eBooks, educação e tecnologia


Por Octavio Kulesz | Publicado originalmente em PublishNews | 17/09/2012

Non ducor, duco

Com seus 11 milhões de habitantes – 20 milhões, se incluirmos as cidades ao redor – e um PIB de mais de 300 bilhões de dólares, São Paulo representa o principal polo industrial e financeiro da América do Sul. Cerca de 6 milhões de automóveis transitam por sua gigantesca rede de estradas, avenidas, túneis, pontes e viadutos. Escapando do trânsito,incontáveis passageiros são transportados pelas diferentes linhas de metrô, enquanto no ar, um enxame de helicópteros aguarda o momento propício para descer no terraço de algum arranha-céu.

A cidade transmite uma intensidade extraordinária, é absolutamente multicultural e absorve tudo o que chega de fora – costumes, roupas, comidas e até palavras – com a mesma naturalidade que uma selva tropical assimila espécies novas. No entanto, tal facilidade não deveria criar nenhuma confusão: longe de adaptar-se passivamente às tendências da moda, São Paulo transforma todas a seu favor, o que talvez explique a máxima em latim que adorna sua bandeiranon ducor, duco – “não sou conduzido, conduzo”.

CONTEC: educação e tecnologia

Felizmente, a cidade conta com espaços de serenidade. O Parque Ibirapuera é um dos mais importantes de São Paulo: possui belíssimos lagos, fontes e árvores, assim como uma rica oferta cultural. No centro dele ergue-se o Auditório Ibirapuera, concebido há várias décadas pelo genial arquiteto Oscar Niemeyer e atualmente administrado pelo Instituto Itaú Cultural.

O Auditório destina-se geralmente a grandes espetáculos musicais, mas durante os dias 7 e 8 de agosto serviu de sede para o evento CONTEC, uma conferência internacional sobre educação e tecnologia organizada pela Feira do Livro de Frankfurt [FBF] – em especial por suas divisões LitCam e Frankfurt Academy –, que contou com o apoio de atores locais como PublishNewsAbeu, o Instituto Itaú Cultural, a Câmara Brasileira do Livro [CBL] e a Positivo, entre outros. Quase 700 pessoas, majoritariamente jovens, assistiram a debates atuais sobre a questão do analfabetismo, os planos de leitura do Estado brasileiro, as iniciativas de empresas locais e as incursões das empresas internacionais.

Pelo que se pôde ver, o Brasil se prepara para um grande salto tanto em educação quanto em tecnologia. Como deixou claro Karine Pansa – diretora da CBL – na abertura do evento, o Brasil ainda é um país desigual, mas a universalização da educação primária, o investimento em qualidade educativa e as novas tecnologias acabarão sendo fatores decisivos na consolidação de um mercado leitor. Para conseguir estes objetivos, o país “terá que aprender das nações que já deram esse salto”.

Um Estado poderoso

André Lázaro – que foi secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade durante a presidência de Lula da Silva – enumerou as conquistas e desafios dos planos nacionais de luta contra o analfabetismo, assim como a necessidade de trabalhar com força neste âmbito, a fim de conseguir uma democracia melhor. Como lembrou Lázaro, ainda persistem fortes diferenças entre o rico sudeste e o nordeste mais pobre, assim como entre as cidades e o campo.

Lúcia Couto – atual coordenadora geral de Ensino Elementar do Ministério da Educação – descreveu as diferentes ferramentas utilizadas pelo Estado para universalizar a alfabetização das crianças. O Brasil está discutindo atualmente os detalhes do Plano Nacional de Educação, que poderia elevar o investimento educativo a 10% do PIB nos próximos 10 anos.

Os esforços do setor público também vêm da área da cultura. Galeno Amorim – presidente da Fundação Biblioteca Nacional – expôs detalhes do Plano Nacional do Livro e da Leitura. Como apontou o presidente da FBN, o Ministério da Cultura designou quase 200 milhões de dólares a diversas iniciativas de fortalecimento das bibliotecas e de estímulo à leitura que serão realizadas até o final do ano.

Brasil na vanguarda tecnológica

Se o setor público dá sinais de se mover com decisão, as empresas privadas não ficam atrás, embora sejam conscientes de que falta muito por fazer. Cláudio de Moura Castro – assessor do poderoso grupo Positivo – afirmou que apenas 18% dos universitários possuem o hábito da leitura e que um número significativo de alunos são, na verdade, analfabetos funcionais; de fato, em todo o Brasil existem tantas livrarias quanto na cidade de Paris.

O matemático José Luís Poli – do Programa de Alfabetização em Língua Materna [PALMA], desenvolvido pela empresa IES2 – confirmou o diagnóstico negativo a respeito dos milhões de analfabetos plenos e funcionais, mas se mostrou otimista sobre as soluções aportadas pelas novas tecnologias. PALMA funciona como um conjunto de aplicativos para celulares e oferece diferentes ferramentas de escrita e compreensão de textos. É importante lembrar que no Brasil existem mais de 250 milhões de celulares – o que equivale a uma penetração de 130% – dos quais ao redor de 54 milhões são 3G. Por outro lado, os fortes investimentos em infraestrutura 4G que se avizinham permitem supor que a telefonia móvel desempenhará um papel ainda mais vital na comunicação brasileira.

Brasil 2.0

As redes sociais constituem outro dos fatores decisivos no mundo da comunicação do Brasil. O país conta com mais de 55 milhões de contas de Facebook – segundo, depois dos EUA, no ranking global de usuários. A rede social Orkut, que no Brasil é administrada pela Google, perdeu sua liderança no final de 2011, mas ainda conta com uma considerável massa de seguidores. Em relação ao Twitter, o Brasil também segue os EUA no número total de usuários, sendo São Paulo a quarta cidade com maior número de tweets do mundo, só atrás de Jacarta, Tóquio e Londres. Durante a conferência CONTECa escritora carioca mais de 200.000 leitores que a seguem.

Os meios sociais do Brasil vão, inclusive, além do Facebook, Orkut ou Twitter. Já surgiram redes locais organizadas por núcleos de interesse, que mostram uma atividade notável. Na mesa que tive a oportunidade de moderar, Viviane Lordello deu algumas cifras do Skoob, a maior rede social de leitores do Brasil: uns 600.000 internautas trocam recomendações, notas e até livros físicos que são enviados por correio postal; estes usuários são de todo o território brasileiro, no entanto mais de 45% vive em São Paulo. Também é preciso destacar o trabalho realizado pela Copia, uma plataforma de conteúdos digitais dependente do grupo DCM dos EUA; Marcelo Gioia – CEO do Copia Brasil – enumerou durante a CONTEC os planos da empresa em nível local, especialmente depois de ter fechado uma aliança com o Submarino, a principal empresa de comércio eletrônico da América Latina: desta união de forças surgiu o Submarino Digital Club, uma rede social na qual os usuários podem compartilhar anotações assim como comprar e descarregar e-books.

Local e global. CONTEC 2013

A necessidade de estabelecer alianças locais foi em parte discutida durante a sessão “Visão panorâmica: olhando a bola de cristal”, na qual participaram Tânia Fontolan – do conglomerado brasileiro Abril Educação – e Hegel Braga – diretor da Wiley Brasil – sob a coordenação de Holger Volland. Fontolan começou explicando a forma como a Abril Educação vê o mercado educativo local nos próximos anos: crescimento dos conteúdos na nuvem; proliferação de tablets e celulares; aprendizagem baseada em videogames e conteúdo aberto. Braga, por seu lado, ofereceu detalhes sobre as ações da Wiley no Brasil: a empresa abriu um escritório próprio em São Paulo há poucos meses: dali espera desenvolver acordos com sócios locais e trazer tecnologia do exterior para ajustá-la ao cliente brasileiro. Tânia Fontolan concordou com a importância de trabalhar com alianças locais, embora tenha se mostrado cética a respeito da ideia de implantar soluções tecnológicas fechadas, pois em muitas ocasiões estas se mostraram simplesmente inadaptáveis.

Jurgen Boos e Marifé Boix García – respectivamente diretor e vice-diretora da FBF – sublinharam seu compromisso de longo prazo com o Brasil e a América Latina, ao mesmo tempo em que anunciaram uma nova edição da CONTEC para junho de 2013, desta vez na forma de uma feira internacional de conteúdos e educativos e multimídia, com dias diferenciados para os profissionais e para o público. A FBF já conta com delegações de Nova Délhi, Moscou, Beijing e Nova York, e logo abrirá um escritório em São Paulo. Segundo Jurgen Boos, as redes e o know how da FBF podem ser de grande ajuda para a indústria editorial brasileira:

“O Brasil tem um mercado interno enorme, com quase 200 milhões de pessoas. No entanto, está muito focado no local, ainda carece de contatos internacionais e é aí onde acho que nós podemos desempenhar um papel importante. Gostaríamos também de trabalhar com as universidades brasileiras, porque considero que tudo que fizermos deverá ser local. Podemos trazer nossa experiência, mas são necessários profissionais do mercado local.”

eBooks na Bienal: um futuro entre o EPUB e a nuvem

No dia 9 de agosto, a uns 12 quilômetros do Parque Ibirapuera – no centro de exposições do Anhembi – foi inaugurada a 22ª Bienal do Livro de São Paulo, sob o lema “Os livros transformam o mundo, os livros transformam as pessoas”. A exposição durou 11 dias e foi visitada por mais de 750.000 pessoas, confirmando o dinamismo de uma indústria editorial que fatura quase 2,5 bilhões de dólares anuais.

Em comparação com os estandes de livros impressos, o espaço dedicado aos e-books era bastante limitado, o que acaba sendo coerente com a baixa faturação que apresenta o segmento digital: na verdade, os livros eletrônicos equivalem hoje a menos de 1% do total de ingressos da indústria editorial brasileira. Apesar disso, algumas tendências permitem antecipar um crescimento acelerado do novo mercado.

Como afirmamos antes, são numerosas as empresas estrangeiras que trabalham com aliados nativos para oferecer conteúdos digitais cada vez mais adaptados aos leitores locais. Graças ao lançamento de sua rede social de livros digitais – resultado do acordo com a Copia – o estande da Submarino foi um dos mais concorridos da Bienal.

Por outro lado, a considerável capacidade de investimento dos players autóctones possibilitou o surgimento de plataformas originais como Nuvem de Livros, desenvolvida pelo Grupo Gol, em associação com a operadoraVivo-Telefônica: durante a Bienal, os estudantes puderam se informar sobre as funcionalidades e custos desta plataforma na nuvem, que conta com 800.000 usuários e que por menos de 2 reais por semana oferece acesso a cerca de 6.500 títulos.

Da mesma forma, as editoras nacionais estão trabalhando ativamente na digitalização de seus catálogos, embora ainda haja muito a melhorar: segundo a especialista Camila Cabete, mais de 60% dos arquivos EPUB brasileiros apresentam erros de estruturação. De qualquer forma, a migração já começou: os títulos publicados em formato digital chegaram, em 2011, a 9% do total de obras registradas. Diversas editoras passaram à ofensiva comercial, em especial no terreno do livro científico: Atlas, GENEditora Saraiva e Grupo A uniram forças para oferecer seus títulos através do Minha Biblioteca, uma plataforma de conteúdo digital pensada para o mercado acadêmico.

Quem quer colocar [Kindle] um fogo [Fire] na Amazônia?

O dia 10 de agosto foi a data chave para os e-books durante a Bienal. Ao longo de toda essa jornada – “o dia D” – o público pôde escutar diferentes protagonistas da cena digital: Andrew Lowinger da Copia, Marie Pellen da OpenEdition, Jesse Potash da Pubslush, Júlio Silveira da Imã, Eduardo Melo da Simplíssimo, Marcílio Pousada da Livraria Saraiva e Russ Grandinetti da Amazon Kindle. Depois da primeira conferência, os organizadores foram obrigados a mudar o evento para uma sala maior, já que o número de participantes tinha superado as expectativas.

Quando chegou a vez de Russ Grandinetti, nem sequer a nova sala foi suficiente para conter os interessados, e um grande número de ouvintes ficou de fora. O executivo esclareceu logo no começo que não daria nenhuma data para o desembarque da Amazon no Brasil e se limitou a enumerar os pontos positivos do e-reader Kindle e o tablet Fire. Carlo Carrenho – diretor do PublishNews – coordenou o diálogo entre Grandinetti e o público, e no final lembrou uma frase de Jeff Bezos: “Quero ir à lua… e ao Brasil”, o que levou a uma pergunta que o público celebrou com gargalhadas: “Quando pensam em abrir essa filial lunar, então?” É que o lançamento da Amazon no Brasil já demorou muito – talvez um sinal de que as coisas não eram tão simples quanto pareciam. Às complexidades impostas somam-se obstáculos impensados: por exemplo, até muito pouco tempo, o domínio amazon.com.br era propriedade de uma empresa local; demorou 7 anos para a Amazon EUA conseguir um acordo com sua contraparte brasileira – porque não era simples para os norte-americanos alegarem seu direito sobre a marca, já que o rio Amazonas [“Amazon” em inglês] se encontra precisamente no Brasil. Em todo caso, a empresa de Seattle parece disposta a fazer o que for necessário para se estabelecer na América do Sul – desde adquirir empresas nativas até operar sob uma denominação diferente, entre outras alternativas.

Imediatamente depois da Amazon, chegou a vez da livraria Saraiva. Nesse momento, eram tantas as pessoas na sala que a situação se assemelhava mais a um show de rock do que a uma conversa sobre e-books. Marcílio Pousada lembrou a importância de contar com 102 lojas em todo o território brasileiro e de ser um dos principais vendedores de tablets e de livros a nível nacional. Vale a pena sublinhar que a Saraiva possui mais de 2 milhões de clientes ativos em sua divisão eletrônica. Graças a uma equipe de 60 pessoas dedicadas ao desenvolvimento digital, implementou seu próprio aplicativo de leitura e outras iniciativas pensadas especificamente em função do leitor local. Este potencial concorrente da Amazon oferece hoje em torno de 10.000 títulos em língua portuguesa e espera somar outros 5.000 até dezembro.

Quem manda no baile

No Brasil, confluem hoje forças muito poderosas, provenientes tanto do interior quanto do exterior. Como rios caudalosos que se interconectam, o setor público, as empresas locais e as empresas globais formaram um ecossistema rico e dinâmico. Este diagnóstico poderia ser aplicado a diferentes áreas da economia, por exemplo a de infraestrutura de transportes, tal como pôde ser visto nos recentes anúncios do governo para a construção de ferrovias e estradas.

No âmbito das publicações digitais, a sinergia entre os players públicos e privados, locais e globais, é especialmente clara. A envergadura dos atores envolvidos permite supor um crescimento acelerado tanto da oferta de conteúdos quanto dos ingressos econômicos. O país tem tudo para ganhar com o desembarque das multinacionais do e-book: as empresas brasileiras recebem uma forte transferência de tecnologia do exterior, ao mesmo tempo em que os consumidores nacionais têm acesso a plataformas e dispositivos de primeiro nível.

Apesar disso, também é preciso avisar que existe o perigo de uma saturação da oferta. Na verdade, muitos de meus interlocutores brasileiros estavam surpresos pelo otimismo excessivo manifestado pelas empresas internacionais, que acham que este mercado é um novo Eldorado, a ansiada fuga da crise econômica que afeta suas matrizes. E o certo é que – tal como sublinharam os criadores de políticas durante a conferência CONTEC– o Brasil continua enfrentando desafios cuja solução exigirá muito tempo e grande esforço.

De qualquer forma, apesar de todas as dificuldades, o país ganhou uma relevância ineludível e já dialoga de igual para igual com os titãs da indústria eletrônica global. E o Brasil – com seu ativo setor público, suas poderosas empresas e seu povo extraordinário – está decidido a conduzir o baile, não a ser conduzido.

Por Octavio Kulesz | Publicado originalmente em PublishNews | 17/09/2012

Octavio Kulesz é formado em Filosofia pela Universidade de Buenos Aires e atualmente dirige a Teseo, uma das

Octavio Kulesz

principais editoras digitais acadêmicas da Argentina. Em 2010, criou a rede Digital Minds Network, junto com Ramy Habeeb [do Egito] e Arthur Attwell [da África do Sul], com o objetivo de estimular o surgimento de projetos eletrônicos em mercados emergentes. Em 2011, escreveu o renomado estudo La edición digital en los países en desarrollo, com apoio da Aliança Internacional de Editores Independentes e da Fundação Prince Claus.

Sua coluna Sul Digital busca apresentar um panorama dos principais avanços da edição eletrônica nos países em desenvolvimento. Tablets latino-americanos, leitura em celulares na África, revoluções de redes sociais no mundo árabe, titãs do hardware russos, softwares de última geração na Índia e colossos digitais chineses: a edição digital no Sul mostra um dinamismo tanto acelerado quanto surpreendente.