Autopublicação – uma “revolução” no mercado editorial?


Por Felipe Lindoso | Publicado originalmente em PublishNews | 23/07/2014

Certamente um dos fenômenos mais impactantes dos últimos anos na indústria editorial foi o desenvolvimento do mercado de e-books. Apesar de várias tentativas anteriores, esse mercado começou a existir de fato e a se desenvolver a partir do momento em que a Amazon lançou seu e-reader Kindle, em 2007.

O sucesso do Kindle se deveu, certamente, à pressão que a Amazon desenvolveu, nos meses prévios ao seu lançamento, para que as editoras disponibilizassem versões eletrônicas de seus títulos. A digitalização dos livros dos acervos editoriais não começou ali, entretanto. Há vários anos as editoras já vinham digitalizando os livros em função de dois fatores: a] facilidade de produção editorial. Era muito mais fácil e prático desenvolver a produção editorial a partir de arquivos eletrônicos, principalmente com o lançamento de softwares específicos para isso; 2] os sistemas de print-on-demand. Desde meados dos anos 1990 o mercado editorial dos EUA, principalmente, e também os europeus, já vinham usando os sistemas de POD para otimizar seus estoques e revitalizar o fundo de catálogo. A McGraw Hill foi pioneira nisso, e foi logo seguida pelas outras grandes indústrias.

O lançamento do Kindle e dos livros eletrônicos também deveram muito do sucesso à oferta de conteúdo com preços de capa substancialmente inferiores aos dos hard-covers, ou mesmo das edições de bolso, de capa mole e mais populares. A razão disso, evidentemente, era a eliminação dos custos de impressão e a substancial redução dos custos de logística. Para distribuir e-books, não era mais necessário ter caminhões atravessando o país, carregados de livros. Note-se, também, que o Kindle usa um formato específico. Na verdade, o que é particular é o tipo de DRM que a Amazon usa, que foi desenhado especificamente para facilitar o engajamento dos clientes dentro do seu ecossistema. O formato é o Mobi [que havia sido desenvolvido pela Palm e adquirido pela Amazon]. A empresa se recusou a usar o formato e-Pub, desenvolvido por um consórcio, o International Digital Publishing Forum e usado por todos os demais leitores.

Mas o tema que estou tratando aqui começa a tomar forma já nos aos 2000, quando surgem as primeiras plataformas de autopublicação. Em 2007 a Amazon lança o KDP – Kindle Direct Publish, que permite também que os autores publiquem em formato digital para venda direta na Amazon. Hoje, entretanto, existem talvez centenas de plataformas de autopublicação, algumas gigantescas como a Lulu.com nos EUA. O modelo se espalhou, e aqui mesmo no Brasil temos plataformas já com milhares de autores, como o Clube de Autores, a PerSe e mesmo editoras tradicionais que já se embrenharam no nicho, como a Saraiva e seu PubliqueSe. Não pretendo listar aqui, nem como exemplos, outros sites. Mas eles se multiplicam como fungos.

As duas questões que interessam aqui são:

– Isso é novidade?

– É uma revolução?

Novidade não é. A autopublicação tem uma longa história. O autor pagar para publicar, ou ele mesmo produzir sua obra é fenômeno antigo. A rigor, pode se dizer que a indústria editorial já tinha isso desde o começo. As gráficas se desenvolveram depois da invenção de Gutenberg, e publicavam as obras pagas pelos autores. O surgimento e o desenvolvimento das editoras, tal como entendemos hoje, foi um processo longo e complicado. Mesmo aqui no Brasil, por volta dos anos 1920, muitos autores fundamentais, como Oswald de Andrade, tiveram que pagar pela publicação de seus primeiros livros. E sempre existiram editoras-gráficas que produziam livros por conta dos autores. Nos EUA eram conhecidas como “Vanity Press”. Algumas daqui chegaram a ter bastante prestígio como a Massao Ohno. E a Scortecci continua aí, progredindo e trabalhando com equipamentos de impressão digital.

O segmento da autopublicação, até o advento do e-book, embora tivesse uma presença até significativa em número de títulos, era uma parte bem pequena do mercado editorial. Em alguns círculos, aliás, tinha certa conotação negativa, certamente estimulada pelas editoras constituídas. E, comparados com os de com hoje, os preços eram altos, e certamente não havia nada grátis. O conceito estava indissoluvelmente ligado a pagar para ser publicado. Além do mais, o problema da distribuição era insolúvel.

Meu amigo Márcio Souza há anos fez uma piada, dizendo que é mais fácil se livrar de um cadáver que de mil exemplares de um livro. O sujeito publicava seu título, recebia os mil exemplares [as tiragens em máquinas planas eram necessariamente maiores, por conta do custo básico de composição, diagramação, etc.], atochava tudo na sala da sua casa e saía com os exemplares debaixo do braço para dar de presente para amigos, conhecidos, quem pintasse pela frente. Distribuir mil exemplares é uma tarefa hercúlea. Os amigos começavam a trocar de calçada quando viam o indigitado autor no horizonte, e de longe diziam “Já tenho, você já me deu três exemplares de presente”.

Isso mudou.

Os programas de automáticos de editoração são fáceis de usar, e essas plataformas penduram os títulos nos servidores e os colocam no site. Sentadinhos à espera de compradores. As melhores e mais sofisticadas oferecem também a possibilidade de impressão sob demanda, tanto para o autor quanto para o eventualíssimo comprador, que pode optar por receber o exemplar impresso em vez de e-book.

É uma revolução?

Sinceramente, não acredito.

As razões são várias.

Primeiro, o fato é que certamente abriu um segmento de mercado para os editores que vendem, sob demanda, os mais variados serviços. Desde editar o texto – no sentido de corrigir, emendar, dar coerência e um mínimo de estrutura narrativa ao material entregue pelos pretensos autores, até a elaboração de capas, providências para registro na BN [os autores amadores acham isso fundamental, para evitar serem plagiados posteriormente…] e inscrição no ISBN. Quando algum exemplar é vendido no site, a comissão é cobrada.

Em segundo lugar, a ideia de que a distribuição [isto é, a venda] deixou de ser problema porque o livro está disponível na web revelou-se uma completa ilusão. Aliás, essa também foi um aprendizado para as editoras tradicionais.

Estar disponível não significa ser descoberto e lido. Muito pelo contrário. Com o crescimento geométrico do número de títulos, fica cada vez mais difícil que um título seja descoberto por seu possível leitor para além do círculo família e das amizades. E esses querem o livro de graça.

Na verdade, os custo de marketing, divulgação e “descobribilidade” [ainda não descobri, literalmente, uma palavra menos esdrúxula para o problema, e aceito sugestões], no âmbito das editoras tradicionais, hoje às vezes ultrapassam os custos agora inexistentes de impressão e logística. E essa é uma das razões pela qual há cada vez mais resistência por parte das editoras estabelecidas a diminuir ainda mais o preço dos e-books.

Certamente isso pode ser compensado,  pelo menos em parte, pelos autores autopublicados, por um intenso esforço de divulgação nas redes sociais. Mas, com certeza, a taxa de sucesso é baixíssima.

Essa questão da descobribilidade dos livros já provocou até um mercado “subprime” de resenhas picaretas. Os espaços para resenhas dos leitores começaram a ser ocupados por “resenhadores” profissionais, pagos por autores para elogiar seus livros. Quando o assunto foi divulgado, a Amazon colocou no seu sistema que só podia postar resenha alguém que houvesse comprado o livro. Parece que só aumentou o custo dos “resenhadores” profissionais, que passaram a incluir o preço da compra do livro no pacote de serviços…

A análise do DigitalBook World do novo programa da Amazon, o Kindle Unlimited, publicado no dia 21/7, diz que, dos 600 mil títulos disponíveis no programa, mais de 500 mil são do programa KDP. Ou seja, autopublicados. As plataformas Oyster e Scribd também incluem um número considerável desses títulos, mas as grandes editoras têm optado por elas em vez do programa amazonian.

Certamente, no meio dessa profusão, aparecem autores que fazem sucesso, e esses são os escolhidos como exemplos para atrair os demais. É o mesmo processo de “peneira” que acontece na edição tradicional.

Em conclusão, penso que esse fenômeno da autopublicação reflete, efetivamente, uma abertura de possibilidades com os e-books. Mas está muito, muito longe de ser qualquer tipo de revolução. Continua sendo, na verdade, um espaço para quem quer brincar de ser autor. Uma matéria recente publicada na Folha é exemplar: o bancário aposentado Toshio Katsurayama, de 71 anos, escreveu um livro sobre sua mãe. Escreveu, procurou várias editoras e não achou quem o publicasse. Contratou a consultoria “Tire Seu Livro da gaveta”, gastou cinco mil reais e realizou seu sonho de “brincar de ser escritor”. Toshio ficou feliz, e deixou também feliz o Cássio Barbosa, dono da consultoria e do Reino Editorial, que preparou a editoração e publicou o Toshio. Barbosa faz parte desse ainda pequeno mas crescente segmento de editores que presta serviços para os autores que querem ser auto-publicados, que não pagam mais pela impressão, mas pagam por esse tratamento de seus textos.

Todos felizes.

Mas isso não é nenhuma revolução. Só ficou mais fácil cumprir a antiga máxima que rezava que todos na vida deveriam ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro. Mas ninguém fala incluía no ditado que o livro só existe mesmo se for lido e disser algo relevante para um público, mesmo que pequeno.

Por Felipe Lindoso | Publicado originalmente em PublishNews | 23/07/2014

Felipe Lindoso

Felipe Lindoso é jornalista, tradutor, editor e consultor de políticas públicas para o livro e leitura. Foi sócio da Editora Marco Zero, diretor da Câmara Brasileira do Livro e consultor do CERLALC – Centro Regional para o Livro na América Latina e Caribe, órgão da UNESCO. Publicou, em 2004, O Brasil pode ser um país de leitores? Política para a cultura, política para o livro, pela Summus Editorial. Mantêm o blogwww.oxisdoproblema.com.br

A coluna O X da questão traz reflexões sobre as peculiaridades e dificuldades da vida editorial nesse nosso país de dimensões continentais, sem bibliotecas e com uma rede de livrarias muito precária. Sob uma visão sociológica, este espaço analisa, entre outras coisas, as razões que impedem belos e substanciosos livros de chegarem às mãos dos leitores brasileiros na quantidade e preço que merecem.

Tá “craude” na prateleira


Por Julio Silveira | Publicado originalmente em PublishNews | 14/06/2012

Para se destacar da multidão, autores estão usando o poder das massas

A internet, com as ferramentas de publicação digital, resolveu [ou promete resolver] muitos dos problemas enfrentados por quem escreve. Primeiro, ela “furou” o bloqueio das editoras, permitindo a qualquer um publicar e distribuir um livro, não requerendo prática ou habilidade, por meio de um variado cardápio de autopublicação [Amazon, Smashwords, Lulu, Per Se etc]. Segundo, ela proveu um serviço muito mais eficiente e muito mais barato do que a divulgação tradicional [propaganda e publicidade]: as redes sociais. O problema que ela não resolveu — e que talvez tenha justamente agravado – é o da visibilidade. “A obscuridade é a maior ameaça aos autores e aos criadores”, disse Tim O’Reilly, diretor da editora que leva seu sobrenome, na vanguarda dos recursos digitais na publicação.

“Mais de 100 mil livros são publicados a cada ano [só nos EUA], com milhões de exemplares impressos, porém menos de 10 mil entre esses novos livros terão alguma venda significativa, e somente uns 100 mil livros impressos chegarão a uma livraria. […] O autor acha que conseguir ser publicado é a realização de um sonho, mas, para tantos, é só o começo de uma longa decepção.

Como não descobriram a fórmula para o “boca a boca”, a obscuridade continuará a ser um problema sem resposta. Mas uma ferramenta criada para atender outra necessidade está conseguindo “desobscurecer” alguns livros e autores: o crowdfunding. Basicamente, a “verba da multidão” é um sistema pelo qual se vendem cotas de um produto que ainda não foi lançado, em troca de “recompensas” que vão desde um “obrigado” até um jantar íntimo com o criador. É um esforço coletivo e social, conectando diretamente quem cria a quem consome a criação. Sites de Crowdfunding, como Kickstarter e, no Brasil, o Catarse, já vêm viabilizando livros, como este [que eu apoio e para o qual, a propósito, peço seu apoio]. O sistema já se sofisticou a ponto de existirem sites para levantar fundos exclusivamente para livros, como o Unbound, e ainda mais específicos, como o Crowdbooks, voltado a livros de fotografia. [Ou ainda o idealista Unglue, que quer levantar dinheiro para “alforriar” livros já publicados, isto é, pagar aos autores para trocar o copyright por licenças Creative Commons não comerciais].

O que os escritores mais espertos já notaram é que o Crowdfunding vai muito além do papel de financiador. O que se obtém ao fim de uma campanha é visibilidade. O processo de “viabilizar” o livro através de contribuições é semelhante a uma guerra de trincheiras. O autor vai alastrando seu projeto por sua rede de amigos virtuais, e daí para os amigos dos amigos, recorrendo a todas as armas da mídia social para engajar “apoiadores”. Quem compra um produto que corre o risco de não chegar a existir [se não atingir o valor mínimo] sente-se ainda mais compelido a promovê-lo em sua própria rede social. O processo é rizomático e o efeito é exponencial. Antes mesmo de o livro ser lançado, o público já ouviu falar [bem] dele.

O sistema não é muito diferente da antiga prática de assinatura, onde as editoras coletavam assinantes que pré-compravam uma obra, viabilizando sua impressão — e criando expectativa no público leitor. Foi assim, por exemplo, que Ulisses de Joyce foi editado. [Quando a livreira Sylvia Beach mandou um folheto de pré-venda para Bernard Shaw, recebeu uma resposta desaforada: “se você acha que um velho irlandês gastaria 150 francos em um livro, você não conhece meus compatriotas”. Joyce, deliciado, mandou imprimir a resposta, mas acrescentou: “se você acha que um velho irlandês não gastou — anonimamente — 150 francos em um livro, você não conhece meus compatriotas”].

Fora do Crowdfunding, alguns serviços prometem aquele empurrãozinho que falta para o escritor tirar seu romance da gaveta, por meio da vitrine da comunidade leitora. É o caso do Wattpad, que se autointitula o “YouTube da escrita” e que captou este mês US$ 17 milhões com investidores. Seu único serviço oferecido é a possibilidade de colocar a obra à vista de leitores virtuais. Uma série de estímulos, como concursos, medalhas e resenhas em vídeo, é empregada para mobilizar a comunidade, e estatísticas de leitura fazem a alegria do escritor compulsivo obsessivo.

Contudo, sites como o Wattpad não permitem ainda ao escritor social a efetiva publicação de seu futuro best-seller. Esse hiato entre escrever socialmente e publicar talvez seja preenchido em breve pela Kobo. A loja de e-books que corre, com agilidade, por fora do confronto titânico Amazon e Apple, está para lançar uma plataforma de autopublicação, que promete não ser “só mais uma”. A ideia é “fazer da escrita um jogo”, e imbricar todo o processo de escrita, publicação e divulgação com as redes sociais, dando visibilidade e aumentando um pouco as chances de o livro não mofar nas estantes digitais.

Alguém precisa criar logo um site que integre exposição, financiamento e publicação, onde o escritor entre com o manuscrito — ou só uma ideia! — e saia com um livro bem divulgado e já rendendo — tudo por meio do crowdfunding. Aliás, acho que eu mesmo vou fazer esse site. E abrir um crowdfunding para custear o desenvolvimento. Quem aí quer uma cota?

Por Julio Silveira | Publicado originalmente em PublishNews | 14/06/2012

Julio Silveira é editor, formado em Administração, com extensão em Economia da Cultura. Foi cofundador da Casa da Palavra em 1996, gerente editorial da Agir/Nova Fronteira e publisher da Thomas Nelson. Desde julho de 2011, vem se dedicando à Ímã Editorial, explorando novos modelos de publicação propiciados pelo digital. Tem textos publicados em, entre outros, 10 livros que abalaram meu mundo e Paixão pelos livros[Casa da Palavra], O futuro do livro [Olhares, 2007] e LivroLivre [Ímã]. Coordena o fórum Autor 2.0, onde escritores e editores investigam as oportunidades e os riscos da publicação pós-digital.

A coluna LivroLivre aborda o impacto das novas tecnologias na indústria editorial e as novas formas de relacionamento entre seus componentes — autores, agentes, editores, livrarias e leitores. Ela é publicada quinzenalmente às quintas-feiras.

Uma bolha [de livros] prestes a estourar?


A autopublicação pode ser a redenção dos escritores — ou agravar uma situação já insustentável

Minha primeira euforia de autopublicação, disparada por uma nova e revolucionária tecnologia, foi há muito tempo. Muito tempo. Um colega chegou com uma novidade incrível: poderíamos criar nossos próprios adesivos! Bastava uma tesoura e um papel mágico chamado contact. Maravilhados com a liberdade de expressão, a turma [segunda série, se não me engano] passou a recortar, adesivar e colar tudo o que achasse de [vagamente] interessante nas revistas. Aventuras do Cebolinha, campanhas educativas com o Sugismundo e robôs do recém-lançado “Guerra nas estrelas” [sim, sou velho] ganhavam, pela mágica do contact, as capas dos cadernos, os estojos, as prateleiras, as roupas, as portas, as cadeiras, janelas, o braço, a testa… No frenesi autopublicador, valia todo lugar e qualquer assunto, o importante era a brincadeira e a liberdade. Até o ponto em que a sala de aula ficou forrada de pedaços de classificados, fragmentos de quadrinhos, anúncios imobiliários. E aí cansamos. Então alguém trouxe um ioiô, a nova febre se instalou e ninguém mais quis colar nada em lugar nenhum.

Sábado passado, um amigo meu veio me mostrar o livro que ele havia “publicado” no Author, o software de edição para iPad acoplado à loja de livros da Apple. Exibiu-me deliciado as imagens rotativas, os vídeos interativos, as “páginas” autodiagramadas. Lindo. Pedi para ler com mais atenção e deparei-me com o famoso “Lorem ipsum dolor sit amet…”. O texto era cego, estava ali para ocupar espaço, somente. O “livro” [ou iBook] do meu amigo era um invólucro fascinante para um conteúdo inexistente.

Não quero aqui equiparar meu amigo a meninos de sete anos. Ele é um excelente profissional da multimídia, com muitos anos de experiência [e vai ler este artigo]. Eu compartilho plenamente sua empolgação frente às possibilidades de expressão e à liberdade conquistada com a publicação digital. Porém, por dever profissional [tanto para escrever esta coluna quanto para assegurar que eu, editor, terei uma profissão no futuro breve], tenho que refletir sobre as implicações dessa liberdade autopublicadora oferecida não só pelo sensual Author da Apple, quanto pela luxuosas opções gráficas do Lulu ou a presteza do SmashwordsPerseBookmaker, entre as dezenas de opções de autopublicação que pululam na web. E dessa reflexão vem a pergunta básica: haverá conteúdo — e leitores — suficientes para dar sentido a tantos livros?

O descompasso entre a oferta de livros e a demanda não é uma questão nova. Já o Eclesiastes advertia ao leitor para que não se angustiasse em ler tudo porque “se podem multiplicar os livros a não mais acabar” [12:12] — e olhe que a produção literária no século 5 a.C. se restringia a variações sobre a Torá. Mais tarde temos Balzac que, depois de falir como editor e tipógrafo, escreveu, apropriadamente, As ilusões perdidas [1837], e que assim retratou a resposta de um editor a um candidato a autor:

Se eu fosse dar conversa a todo escritor que põe na cabeça que eu devo ser seu editor, eu teria que fechar a loja, passaria meu tempo muito agradavelmente, mas a conversa me custaria muito. Ainda não sou rico o suficiente para ficar ouvindo todos os monólogos autocongratulatórios. Ninguém pode se prestar a isso, a não ser quando assiste tragédias gregas.

Mesmo com a resistência [ou, digamos, a triagem] exercida pelos editores antipáticos [os famigerados gatekeepers], a quantidade de livros já era avassaladora e, algumas décadas mais tarde, Eça de Queirós colocou assim seu espanto diante da enxurrada de livros recém-viabilizados pela Revolução Industrial:

Durante todo o ano não se interrompe, não cessa essa publicação fenomenal, essa vasta, ruidosa, inundante corrente de livros, alastrando-se, fazendo pouco a pouco, sobre a crosta da terra vegetal do globo, uma outra crosta, de papel impresso. […] Eu sei que estou aqui fazendo o papel ridículo[…] e balbuciando, com a boca aberta: — Jesus! tanto livro!” [Cartas da Inglaterra, 1874]

Já em nosso século, Gabriel Zaid sintetizou a questão no sombrio Livros demais!, demonstrando que o estoque de livros publicados apenas em um ano nos Estados Unidos bastaria para suprir a demanda por leitura no planeta inteiro, por décadas.

Convém ressaltar que Zaid publicou seu livro [mais um!] numa época em que ainda não se falava seriamente em e-books. Se já havia livros demais quando havia requisitos de capital, administração de estoque, frete etc., o que esperar de uma nova situação, em que não há restrições ou barreiras para quem quiser publicar? E quando gigantes como a Amazon e a Apple estão cortejando e estimulando os escritores de gaveta a se lançarem nas prateleiras?

O que vai acontecer quando a oferta de livros, que já excedia de longe a demanda, explodir com a autopublicação? A primeira consequência, se cumprirmos a lei da oferta e da procura, será a desvalorização. Quando se nota que a maioria dos e-books da lista dos mais vendidos da Amazon custa menos de um dólar [ou é gratuito], quanto valerá um e-book? “De graça é um preço caro demais para um e-book autopublicado” disse um editor tradicional inglês em recente debate onde se discutiu a relevância dos editores no futuro.

Há uma semana, Ewan Morrison alertou, no Guardian, que estamos diante de uma bolha especulativa, tão sorrateira e perigosa quanto a bolha imobiliária que estourou e pôs o mundo em recessão. Trata-se da “bolha da autopublicação”. Morrison, que já publicara o apocalíptico artigo Os livros estão mortos? Os escritores sobreviverão?, agora demonstra como a euforia autopublicadora tem paralelos notáveis com as bolhas especulativas. A mecânica é a mesma: em resumo, alguém começa a ganhar muito dinheiro de um modo ilusoriamente fácil, uma multidão segue atrás e cria-se um verdadeiro mercado para estimular esses novos integrantes [semelhantes àqueles que entram nas pirâmides financeiras para enriquecer… quem está no topo]. A euforia espalha-se como vírus, tudo cresce exponencialmente, até que para. E tudo rui. Pop!

A questão toda da autopublicação [selfpublishing] é que ela traz para o mercado ‘as pessoas que não estariam normalmente lá’. Da mesma forma como nos prometeram que poderíamos pagar boas casas com hipotecas baratas, agora eles [as empresas do digital, a Amazon, a Apple e a imprensa] nos dizem que podemos todos ser escritores, e fazer sucesso”.

Morrison ainda insinua onde está de fato o dinheiro que circula nessa história toda:

As pessoas que estão se autopublicando pela primeira vez estão também comprando seus primeiros iPads e Kindles, para entender a tecnologia. Elas podem estar dando seus livros de graça, mas estão gastando de mil a dois mil reais em aparelhos tecnológicos — mais até do que gastam em livros por ano”. E esse investimento em dinheiro não rende sequer retorno em literatura, já que o produto são “centenas de milhares de novos e-books para os quais praticamente não há leitores, porque terão visibilidade zero”.

Euforia [“liberdade ao escritor!”] e ansiedade [“os livros vão acabar!”] são comuns em fases de transição, como a que estamos presenciando. Quando não há ainda regras de funcionamento, vale tudo. Como dizem, “o ideograma chinês que representa crise também representa oportunidade”. Porém, assim como esse aforisma é simplesmente falso [pergunte a um chinês], talvez só nos venha a crise. Ou só as oportunidades. Talvez só venhamos a saber no longo prazo, quando o tempo tiver decantado o que fará sentido [econômico e cultural] publicar… e o que valerá a pena ler.

Por Julio Silveira | Publicado originalmente em PublishNews | 09/02/2012

Julio Silveira é editor, formado em Administração, com extensão em Economia da Cultura. Foi cofundador da Casa da Palavra em 1996, gerente editorial da Agir/Nova Fronteira e publisher da Thomas Nelson. Desde julho de 2011, vem se dedicando à Ímã Editorial, explorando novos modelos de publicação propiciados pelo digital. Tem textos publicados em, entre outro, “10 livros que abalaram meu mundo” e “Paixão pelos livros” [Casa da Palavra], “O Futuro do livro” [Olhares, 2007] e LivroLivre [Ímã]. Coordena o fórum Autor 2.0, onde escritores e editores investigam as oportunidades e os riscos da publicação pós-digital.

Autores independentes podem editar livros sem custos


Pensando em atender aos escritores que desejam publicar um livro, nasce o PerSe, portal de publicação para autores independentes. Através dele, é possível editar um livro totalmente sem custos, disponibilizá-lo para comercialização na livraria eletrônica do PerSe em e-book ou com impressão dos exemplares sob demanda. O processo é simples. O autor define as características físicas do livro, como formato, acabamento, papel de miolo e cores. Depois sobe o arquivo para o sistema do PerSe e cria a capa. Em seguida, define o preço de venda e estabelece quanto quer ganhar de royalties.

Os blogueiros também poderão diagramar e publicar livros. Denominada Blog2Book, essa ferramenta permite a diagramação dos conteúdos das plataformas Blogger/Blogspot e WordPress direto no sistema. Um dos primeiros livros já editados pelo PerSe é o da jornalista Lucia Faria, proprietária da Lucia Faria Inteligência em Comunicação. Com o título Meias verdades – Uma visão particular sobre a Comunicação Corporativa, o livro reúne 50 artigos sobre sua área de atuação.

Embora todo o processo seja gratuito, o portal oferece serviços especializados de Publicação e Marketing, caso o autor tenha interesse em adquirir. Entre eles, diagramação, revisão, fotos, divulgação, noite de autógrafos, entre outros.

PublishNews | 18/02/2011