O livro de papel resiste à avalanche digital


O armazém do gigante editorial Penguin Random House nos arredores de Barcelona despacha em média 1,5 milhão de livros de papel por mês. A Amazon, império das compras via Internet, mantém perto de Madri um estoque de 583.000 títulos de livros físicos, um número que não para de crescer. Com esses dados fica claro que o Farenheit 451 que anunciava a morte do papel como formato de leitura não aconteceu. Entretanto, tampouco se sustenta o contrário: que os e-books se tornaram irrelevantes e que os aparelhos de leitura digital também cairão no esquecimento, a exemplo do que aconteceu com os videocassetes.

O panorama descrito pelas cifras e pelos profissionais do setor é híbrido – um mundo onde convivem o formato clássico e o digital, com fenômenos importantes, ainda muito difíceis de captar pelas estatísticas, como a autoedição e os serviços de assinatura de e-books com tarifa fixa, e com um mercado digital imenso que inclui a América Latina e os Estados Unidos.

Não dá a impressão de que o livro digital irá acabar com o papel, que tem um piso”, resume José Pascal Marco Martínez, diretor-geral do livro no Ministério de Educação, Cultura e Esportes da Espanha. “Mas o livro digital continua crescendo”, prossegue. “A realidade é que não falei com ninguém sobre e-books na Feira de Frankfurt”, diz, por sua vez, Paula Canal, da Anagrama, uma das editoras espanholas com mais leitores fiéis. “Tive centenas de conversas sobre como são bonitas as capas da X e as edições da Y. Os editores jovens, brilhantes e promissores fazem os livros mais lindos, e não se preocupam com os e-books.” Javier Celaya, consultor, responsável pelo blog Dosdoce e autor de vários estudos sobre o livro digital, diverge. “Estamos a meio caminho. Como setor eu me preocuparia com o não crescimento da demanda digital, que será uma forma de crescer. São potenciais leitores que estão escapando por outras vias, como os aplicativos para celulares, os conteúdos abertos de alta qualidade e a autoedição.

Certamente, pela relação tão próxima que se estabelece com os livros, o debate entre digital e papel gera polêmicas inflamadas. O The New York Times publicou recentemente uma reportagem falando do “declínio” do livro digital, a qual foi respondida por outra matéria na revista Fortune que dizia mais ou menos o contrário. O fechamento da plataforma de livros por assinatura Oyster, em setembro, foi interpretado como outro sinal de decadência do que já foi considerado o futuro. Entretanto, tanto o Kindle Unlimited, da Amazon, como o 24Symbols – os outros dois Spotify dos livros – estão crescendo significativamente.

Embora faltem dados essenciais – a Amazon não revela o número de dispositivos Kindle vendidos nem o número de títulos autoeditados em sua plataforma, que não geram ISBN e, portanto, ficam fora das estatísticas – e seja difícil medir o impacto da pirataria, a pesquisa de Hábitos e Práticas Culturais da Espanha 2014-2015, publicada em setembro, revela que 59,9% dos espanhóis leem em papel, 17,7% em digital e 5,7% na Internet. Com relação à pesquisa anterior, de cinco anos atrás, o papel quase não variou [era 58,3%], mas quase triplicou a partir dos 6,5% que tinha na época.

Os dados do Ministério da Cultura espanhol revelam que, em 2014, a edição de livros em papel cresceu pela primeira vez em quatro anos, 3,7%, com 68.378 títulos, mas acumula uma queda de 29,5% nesse período. Neste ano, a edição de livros digitais caiu 1,9%, primeira vez que isso ocorre, passando a representar 22,3% do setor. Nos últimos quatro anos, o livro digital cresceu 13,9%, frente a uma queda de 14,1% no faturamento das livrarias no mesmo período. O faturamento com livros eletrônicos em 2014 representou 110 milhões de euros [458,8 milhões de reais, pelo câmbio atual], um aumento de 37,1% com relação ao ano anterior. A edição em outros suportes diferentes do papel já representa 10,8% do faturamento total na Espanha e em torno de 20% nos EUA.

Uma ampla pesquisa feita no setor editorial e divulgada na Feira de Frankfurt em 2008 antevia que em 2018 o livro digital superaria o livro físico. Ao comparar essa e outras previsões com os dados atuais, fica claro que o papel tem enorme capacidade de resistência, apesar da crise, mas também que o livro eletrônico cresce de forma constante. “Está funcionando menos do que esperávamos, mas estamos crescendo a um ritmo de dois dígitos, principalmente no mercado latino-americano e dos Estados Unidos”, diz Iría Álvarez, chefe de desenvolvimento digital e vendas digitais da Penguin Random House.
América Latina e EUA

Perguntado sobre uma possível desaceleração do livro eletrônico, Santos Palazzi, diretor de assuntos digitais da editorial Planeta, o outro gigante editorial espanhol, responde: “O e-book continua crescendo de forma sustentada. Observa-se certa desaceleração na Espanha, ao passo que as taxas de crescimento em novos modelos de negócios, como o empréstimo digital bibliotecário ou as plataformas por assinatura, superam 50%. Além disso, esperamos que em médio prazo as vendas na América Latina e EUA representem até 50% do faturamento total”.

Entretanto, as editorias pequenas continuam dependendo do papel, e algumas nem sequer editam livros eletrônicos. “O papel é a base do nosso negócio”, diz Luis Solano, da Libros del Asteroide, que edita todas as suas novidades nos dois formatos. A tranquilidade que a leitura em papel permite, a legibilidade desse suporte e a rede de livrarias protegidas pelo preço fixo são alguma das causas que ele cita para explicar a sobrevivência ao digital. Heloise Guerrier, da editorial de quadrinhos Astiberri, também argumenta que seus leitores continuam preferindo disparadamente o formato tradicional, embora a editora tenha recentemente lançado em seu site a venda de HQs digitais a preços muito inferiores ao papel. “Quem gosta de HQs e as lê não acho que compre digital. Mas, embora por enquanto seja algo marginal, não podemos ignorar”, diz Guerrier.

O VHS foi morto pelo DVD, e é possível que esse formato seja substituído por plataformas como Netflix, iTunes e Yomvi [resta ver se acabarão com a televisão tradicional]. Mas o vídeo não matou o rádio, assim como o cinema e a televisão não acabaram com o teatro. Tudo indica que ainda haverá livros de papel por muito tempo. Entretanto, os livros digitais também têm um futuro seguro, um lugar nas novas bibliotecas do mundo.

Os ‘Spotify da leitura’

É um mercado são e sustentável, e acreditamos que continuará sendo assim”, afirma Koro Castellano, diretora do Kindle em espanhol. A Amazon não costuma divulgar muitos dados sobre seu negócio, e Castellano não revela cifras sobre a autoedição, que qualifica como “a mudança mais profunda que o livro digital promoveu”. Dos 25 livros mais vendidos no Kindle em 2014, 48% [12 títulos] eram autoeditados. Sobre a oferta do Kindle Unlimited, serviço com preço fixo mensal, ela tampouco revela cifras, mas garante que seu crescimento é muito expressivo.

Álex Fernández, da 24Symbols, que oferece leituras ilimitadas a 8,99 euros [37,50 reais] por mês, afirma por sua vez que “o papel não está morrendo e, sobretudo, o digital não é uma ameaça, pois veremos como aprendem a conviver. Surgirão dois tipos de leitores, ou existirão gêneros que funcionarão melhor em um formato ou outro”. “Os modelos de assinatura já são parte do presente do negócio editorial, pelo número de plataformas que operam no mundo, porque é um tipo de serviço popular entre os consumidores de cultura [há os de música, filmes e séries, games, notícias, audiolivros, HQs…] e porque representam um novo canal de venda para as editoras e os autores. Uma nova oportunidade de negócio“, conclui.

Por Guillermo Altares | El País | 02/11/2015

​As tendências de venda dos eBooks e outra surpresa: jornais não estão nada mortos


POR MICHAEL CADER | Publicado originalmente pela PublishNews | 02/10/2015

Fundador do Publishers Lunch analisa matéria em que
o NYT decretou o ‘apocalipse do livro digital’ e conclui que a coisa não é bem assim

No outro dia ficamos sabendo que dá para pegar algo que não é novo, colocar na primeira página do NYT, e a coisa vira algo muito importante. Enquanto as pessoas que trabalham na indústria editorial provavelmente deram de ombros para a combinação de tendências bem-estabelecidas e interpretação seletiva – vendas de e-books de editoras tradicionais têm se mantido mais ou menos iguais há anos – começamos a ouvir parentes e amigos [que acharam que havia algo importante aqui] nos dando os parabéns. Agora “Os livros impressos não morreram” junta-se oficialmente ao panteão das piadinhas. Mas vamos esclarecer entre nós pelo menos alguns dos fatos, seguindo a ordem apresentada na matéria:

As Estatísticas: AAP

Sim, as vendas de e-books, como foi relatado por editores que fornecem dados mensais para a Association of American Publishers [AAP], caíram 10,5%, ou US$ 68 milhões, nos primeiros cinco meses de 2015. Isso foi informado em 1º de setembro, e as vendas de e-books caíram por cinco meses seguidos, por isso é um padrão contínuo em vez de um novo desenvolvimento. E a verdadeira mudança aconteceu há algum tempo. As taxas de crescimento do e-book caíram drasticamente no último trimestre de 2012 e o mercado para as editoras tradicionais, medido em dólares, tem se mais ou menos estável desde o início de 2013.

A tese do jornal de que “quem adotou os e-books está voltando para os impressos” deveria se basear em algum tipo de aumento nas vendas de impressos da AAP. Mas sabe qual categoria caiu mais de 10% no mesmo período? Vendas de livros de capa dura. O total de vendas de livros de capa dura, segundo a AAP, até maio 2015 caiu US$ 91 milhões – 11,25% – chegando a US$ 718 milhões. A queda dessas vendas de impressos foi maior em porcentagem e em dólares agregados. Você não saberia disso lendo aquela matéria.

Então, talvez o que os dados disponíveis estão nos dizendo é que os novos lançamentos não venderam bem na primeira parte de 2015, derrubando tanto os livros de capa dura quanto os e-books de forma semelhante. [Além disso, os relatórios de maio não incluem dois dos três principais títulos mais vendidos do ano, Vá, coloque um vigia e Grey].

Os números da Nielsen Bookscan ratificam que um dos maiores padrões para livros impressos até agora em 2015 é de vendas mais baixas de best-sellers. Até o final de maio, as vendas unitárias de impressos dos 200 maiores títulos caíram 15% em comparação com o mesmo período em 2014. Até a atual semana de vendas, os 200 maiores títulos ainda venderam 11,5% menos unidades do que no ano anterior.

Mais amplamente, para o mercado total de impressos, o que a Nielsen Bookscan mostra para 2015 é uma mudança na participação de mercado, em vez de um crescimento significativo. Os estratos de “varejo e clube”, que incluem livrarias físicas e on-line, tem um crescimento em vendas unitárias de 4%, enquanto o segmento de “vendas massivas e outros” viu um declínio das vendas de unidades de impressos de 9%. No total, até a semana atual de setembro, as vendas de impressos medidas pela Nielsen Bookscan cresceram 2% em unidades.

As estatísticas: unidades vs dólares

Quando você está falando sobre a indústria editorial – como geralmente estamos – dólares importa mais, e as estatísticas da AAP só medem dólares, não unidades.

Mas quando você está tentando dizer ao mundo sobre os hábitos dos leitores e a “popularidade” do e-book, quer olhar para unidades, não dólares. Unidades falam sobre os leitores e quantos e-books estão colocando em seus dispositivos, não dólares. Aqui, “os milhões de leitores que migraram para e-books baratos e abundantes autopublicados, que muitas vezes custam menos de um dólar”, certamente estão impulsionando para cima as vendas de e-books.

Há uma série de sinais, não totalmente medidos, de crescimento indeterminado dentro do ambiente Kindle da Amazon. Isso equilibra a visão de que o consumo/ ”popularidade” do e-book está em declínio real – mas, como observamos há um ano e meio, o crescimento em exclusividades da Amazon não contradiz completamente o padrão mais amplo de vendas relativamente estáveis de e-books, tampouco. [Em outras palavras, o NYT está errado, mas também estão as pessoas que insistem que o crescimento dos autopublicados e de livros publicados Amazon são suficientes para mudar radicalmente nossa compreensão da paisagem, especialmente em termos de dólares].

Em parte, isto é atribuível à nossa boa amiga Aritmética: se a Amazon tem 70% do mercado de e-books, e nós trabalhamos com os últimos números do Author Earnings mostrando que os livros autopublicados e os da Amazon representam 37% das vendas em dólares do Kindle durante setembro, até cerca de 26% em janeiro, isso significa que este segmento de crescimento “não mensurado” somou 11% dos 70%, ou 7,7% do total do mercado, e isso incluindo o difícil que é medir o Kindle Unlimited, que está incluído nessas conclusões. [DataGuy no Author Earnings está trabalhando com uma estimativa aproximada de que 1/3 da remuneração para os autores autopublicados na loja Kindle vem de pagamentos do Kindle Unlimited, em vez de vendas diretas ao consumidor]. Enquanto isso, o mercado tradicional medido diminuiu 10,4%.

Mas também, como veremos mais em outro momento, há muitos outros fatores que podem fazer com que a loja Kindle cresça, mesmo que o mercado de e-books nos EUA continue estável. Entre eles, a Amazon pode estar ganhando participação de outros atores [sabemos que as vendas de conteúdo para Nook caíram uma média de 20% já por vários trimestres]; mas também, a loja Kindle com sede nos EUA, na verdade, vende para clientes em todo o mundo, por isso os aumentos também refletem o crescimento das vendas em mercados fora do País. E há efeitos significativos, mas ainda não especificamente conhecido, do Kindle Unlimited – que está, certamente, levando a “leituras” de e-book que não são contadas, no mundo todo [o equivalente a muitos milhões de e-books lidos só no mês passado], mas também está influenciando merchandising e descoberta na loja Kindle ao distorcer suas listas de “mais vendidos”.

Equivalências falsas: o mercado de e-books e o mercado de livros impressos não são idênticos

Comparações diretas de vendas de e-books e vendas de impressos são um instrumento grosseiro na melhor das hipóteses. Todos sabemos que a publicação de livros gerais é formada por vários mercados, não um único. Se formos honestos, as editoras comerciais têm menosprezado o impacto dos e-books por anos [exceto ocasionalmente quando conversa com Wall Street]. Alguns tipos de livros – ficção de gênero e todos os tipos de best-sellers adultos e juvenis – mudaram para o digital muito mais do que outros tipos de livros – não-ficção geral, livros ilustrados, a maioria dos livros infantis. Então percentuais totais de mercado e valores em dólares não são muito reveladores sobre os complexos mercados de impressos e e-books que os editores estão gerenciando.

Nos termos mais gerais, com espaço para muita variação por editora e por lista, a divisão total poderia ser de 75% a 80% de impressos e 20% a 25% digital. Mas quando você olha para livros para adultos, os e-books representam 30% ou mais – e para livros infantis, significa apenas 11%, com todos os compradores adultos de livros juvenis incluídos, e é menor ainda quando tiramos totalmente os livros juvenis. Quando estreitamos o foco mais, para os lançamentos best-sellers, a lente muda completamente. Best-sellers de ficção podem ter uma média de algo ao redor de 2/3 de e-books e 1/3 de impressos, com best-sellers de não-ficção perto de uma divisão igual entre formatos. [Não são números precisos; a questão é que a popularidade e o impacto do digital variam muito dependendo de qual parte do mercado do “livro” você está interessado.] No lançamento de best-sellers é geralmente onde está a maior quantidade de dólares – assim como os maiores giros de estoque, e é quem mobiliza os leitores.

A noção de que o digital é ruim

O NYT fala sobre um potencial “apocalipse digital” e os amplos receios de que um aumento no digital seja per se ruim para a mídia. [“A popularidade em declínio dos e-books pode ser sinal de que o mercado editorial, embora não esteja imune à turbulência tecnológica, vai enfrentar a onda de tecnologia digital melhor do que outras formas de mídia, como música e televisão”]. É interessante que eles não mencionam jornais diretamente, mas achamos que estejam projetando.

Até agora, como já explicamos anteriormente, os e-books são a melhor coisa que aconteceu com os catálogos das editoras. Levaram as margens de lucro das grandes empresas a níveis que pareciam inatingíveis – através de uma combinação de redução de custos, devoluções e custos de inventário mais baixos, e talvez até royalties ainda mais baixos. A preocupação atual não é tanto que os e-books foram ruins para as editoras, mas que o grande lucro que eles trouxeram atingiu seu nível máximo e agora vai diminuir.

Nós já podemos ter passado o “Pico do lucro editorial” por causa do digital e esse lucro poderia agora estar em um declínio irreversível, o que é duplamente em desacordo com a matéria do NYT. Isso é o que as pessoas estão analisando em salas de reuniões, especialmente porque os digitais tendem a manter um teto sobre, ou derrubar, as vendas em comparação com o período anterior nas maiores editoras. Mas mesmo assim, a margem EBITDA da HarperCollins para o seu mais recente ano fiscal foi de 13,25%. A margem da Penguin Random House para o primeiro semestre deste ano – a metade mais tranquila – foi de 12%. Mesmo com o declínio das vendas – em parte devido a “vendas menores dos impressos” – no primeiro semestre de 2015 a margem OIBDA da Simon & Schuster chegou a 11,6%.

A assinatura de e-book fracassou e isso significa que o Digital está em declínio

Os serviços de assinatura de e-books… lutaram para transformar os amantes de livros em leitores digitais”, conta o NYT. Sim, pequenas startups com visões irreais como Oyster e Entitle fecharam. Mas os cortes no Scribd parecem ser devido à demanda – e a gestão dos custos para leitores que leem muito – não uma proposta fracassada. Mais importante, o maior varejista, a Amazon, tem o maior e mais bem-sucedido serviço de assinatura de e-books, então não vamos nos antecipar. [Outros serviços estabelecidos, como o Safari Online, também estão crescendo].

Não só parece estar tendo sucesso, mas também poderia ser responsável sozinho pela diferença nas vendas de e-books do ano. Nós não sabemos quanto o Kindle Unlimited tirou dos consumidores – mas sabemos que já pagou a editoras e autores independentes mais de US$ 80 milhões em 2015 [e lembre-se que as vendas de e-books diminuíram US$ 68 milhões até maio de 2015, segundo a AAP]. O que parece claro, e é provavelmente o maior desenvolvimento do ano passado no mercado de e-books, é que a Amazon está conseguindo alguns de seus principais clientes do Kindle em assinantes de livros digitais.

A surpreendente resistência dos livros impressos ajudou muitos livreiros.

Se estamos avaliando o impacto dos e-books no espaço de prateleira das livrarias, deveríamos olhar para toda o cenário mais amplo. Livrarias – em números, em metros quadrados e no espaço de prateleira – diminuíram. Desde o pico no ano fiscal de 2008, a Barnes & Noble fechou 78 superlivrarias, ou 11% de sua base. [Eles diminuíram 150 mil m² de espaço nas superlivrarias, ou 8,5%, e começaram a dedicar uma porção desconhecida do espaço das lojas para mercadoria que não são livros, de boutiques Nook ao departamento de brinquedos e jogos que está crescendo rapidamente.] A Borders faliu em 2011, fechando 489 superlivrarias e 126 lojas em shopping centers, com a Books-A-Million assumindo uns poucos locais. O desaparecimento dessas lojas da Borders foi um fator importante que ajudou – e está diretamente relacionado com o crescimento das – livrarias independentes.

Sim, todos amamos livrarias independentes, e o crescimento em lojas participantes da American Booksellers Association [ABA] é digno de comemoração. Mas dos 302 membros que a ABA conseguiu nos últimos cinco anos, 1/3 dos membros veio a partir da integração com a associação de livrarias infantis, e o número de membros ainda está bem abaixo do seu pico, na virada do milênio. [Nota: Nós estávamos errados sobre os membros das livrarias infantis. O número de membros cresceu em 102 no ano da fusão, mas a ABA contou que quase todos os membros das livrarias infantis já eram membros da ABA.] Também não temos bons dados sobre os metros quadrados das lojas que fazem parte da ABA, embora, pelo menos, algumas das lojas abertas mais recentemente eram pequenas. As independentes se beneficiaram claramente da grande redução nas redes de livrarias e na queda na venda de livros entre os grandes varejistas e se adaptaram ao que vende bem entre os impressos nas lojas físicas, mas isso é uma história de adaptação de mercado, e não de mudança.

Editoras, buscando capitalizar na mudança, estão investindo em sua infraestrutura e distribuição de livros impressos.

Sim, duas das menores editoras entre as gigantes estão expandindo seus depósitos – mas a Simon & Schuster e o Hachette Book Group citaram o crescimento no negócio de distribuição para outras editoras ao anunciar essas expansões.

E a expansão da Penguin Random House de suas instalações em Crawfordsville, Illinois no ano passado como observado no NYT esteve diretamente relacionada com o fechamento, ao mesmo tempo, de dois depósitos da Penguin, em Pittston e Kirkwood, algo que não é mencionado na história.

Também não foi mencionado a segunda maior editora de livros gerais, a HarperCollins, que está realizando um programa abrangente de fechamento de depósitos já faz algum tempo – eliminando os da Harper, Zondervan e Thomas Nelson e mudando para a Donnelly. Da mesma forma, a Sterling decidiu no início deste ano fechar seu centro de distribuição de 22 mil m² e passar para a Donnelly também. Então, aqui, também, a “reviravolta na história” não é exatamente como foi retratado.

POR MICHAEL CADER | Publicado originalmente pela PublishNews | Tradução Marcelo Barbão | 02/10/2015

Michael Cader é fundador da Publishers Lunch, newsletter diária que discute o mercado editorial norte-americano, e um dos melhores analistas da indústria do livro nos EUA. Para assinar o PL, clique aqui. Para conferir a versão original do artigo, clique aqui.

Fechamento da Oyster não tem nada a ver com a viabilidade da assinatura de eBooks


Não é que a assinatura fracassou, mas que um ator de negócios puramente de livros faliu

A notícia de que a empresa de assinaturas de e-books Oyster está jogando a toalha não foi realmente uma surpresa. O modelo de negócio que foram forçados a adotar pelas grandes editoras – pagar o preço total para cada uso de um livro com um gatilho de pagamento a bem menos que uma leitura completa enquanto, ao mesmo tempo, oferecendo aos consumidores uma assinatura mensal que não cobria a venda de um livro, muito menos dois – era inevitavelmente pouco lucrativa. A esperança deles era que iriam construir uma audiência grande o suficiente para que as editoras se tornassem dependentes, de alguma forma, deles [pelo menos da renda que produziriam] e concordariam com termos diferentes.

Seria um erro interpretar o fechamento da Oyster como uma clara evidência de que “assinaturas para e-books não funcionam”. Claro que isso pode funcionar. Safari tem sido um negócio bem-sucedido e lucrativo por quase duas décadas. A 24Symbols da Espanha está operando um serviço de assinatura de e-books, principalmente fora dos EUA e principalmente em outros idiomas além do inglês, há vários anos e exclusivamente com dinheiro de investidores. Scribd tem publicamente [e um pouco desastrosamente, na minha opinião] ajustado seu modelo de assinatura para acomodar o que eram segmentos pouco lucrativos em e-books de romance e audiobooks. Mas a inferência seria que para outros segmentos o modelo de negócios está funcionando bem. E também está o Kindle Unlimited da Amazon, que é sui generis porque eles controlam muitas partes, incluindo a decisão mais ou menos unilateral de quanto vão pagar pelo conteúdo.

O que parecia óbvio para muitos de nós dede o começo, no entanto, era que uma oferta de assinatura para livros gerais não poderia funcionar no atual ambiente comercial. As Cinco Grandes editoras controlam a parte dos livros comerciais que qualquer serviço geral iria precisar. Todas essas editoras operam em termos de “agência”, o que torna extremamente difícil, se não impossível, que um serviço de assinaturas disponibilize esses livros a menos que a editora permita. Os termos que as editoras exigiam para participar nos serviços de assinaturas, que eram, aparentemente, o pagamento total pelo livro depois que uma certa porcentagem tenha sido “lida” por um assinante, combinada com um número limitado de títulos oferecido [não os lançamentos], faz com que a oferta de assinatura seja inerentemente pouco lucrativa.

As editoras veem as ofertas de assinatura como um negócio arriscado para livros que estão atualmente vendendo bem à la carte. Não só ameaçariam essas vendas, ameaçam transformar os leitores de compras à la carte em usuários de serviços de assinatura. Para as editoras, parece outra Amazon em potencial: um intermediário que controlaria os olhos dos leitores e com força cada vez maior para reescrever os contratos.

Então eles só participaram de uma forma limitada. A Penguin Random House [a maior e sozinha com metade dos livros mais comerciais] e o Hachette Book Group nem fizeram a experiência com os serviços de assinatura, apenas com a Amazon. HarperCollins, Simon & Schuster e, de forma menos extensa, a Macmillan, participaram de forma muito limitada. Múltiplas motivações levaram à participação que aconteceu. O principal estímulo, provavelmente, foi simplesmente enfrentar a Amazon. Ter clientes aninhados em qualquer lugar, exceto perto do monstro de Seattle, pode parecer uma boa ideia para a maioria das editoras. Mas deveria receber pelo menos parte desse dinheiro de investidores colocado em modelos de negócios com poucas chances de funcionar antes de terminar. E como as editoras é que decidem quais livros incluir, poderiam escolher títulos de catálogo que não estavam gerando muito dinheiro e que poderiam se beneficiar da “descobertabilidade” dentro do serviço de assinatura.

[Carolyn Reidy, a CEO da Simon & Schuster, deu essa dica em seu discurso na semana passada durante o BISG Annual Meeting onde mencionou especificamente o valor da descoberta que S&S viu acontecer nas plataformas de assinatura.]

Mas nem todos os serviços de assinatura eram iguais. O estabelecido Safari está em um nicho de mercado, servindo principalmente a clientes B2B em empresas de tecnologia. [Eles recentemente fizeram uma expansão na oferta porque trabalhadores da Boeing e da Microsoft não precisam apenas de livros sobre programação; também são pais e cozinheiros e jardineiros então não-ficção de interesse geral pode ter um apelo para eles. Mas essa não é a base do negócio da Safari e não estão tentando oferecer ficção.] O Scribd foi criado como um tipo de “YouTube para documentos” que o negócio de assinatura de e-books tanto construiu quanto aumentou. Para a Amazon, o Kindle Unlimited só deu a eles outra forma de fazer transações com o cliente do livro e outra saída para o conteúdo exclusivo de conteúdo para Kindle.

Só Oyster e outra start-up criada simultaneamente, Entitle [que tinha uma proposta que parecia mais um clube do livro do que um serviço de assinatura], estavam tentando transformar o fluxo de renda alternativa em um negócio independente. A Entitle faliu antes da Oyster. Librify, outra variação sobre o mesmo tema, foi comprada pelo Scribd.

Então o fracasso da Oyster é, na verdade, outra demonstração de uma “nova” realidade sobre a edição de livros, exceto que não é nova. A edição de livros — ea venda de livros — não são mais negócios independentes. Publicar e vender livros são funções, e podem ser complementares a outros negócios. E como adjuntos a outros negócios, não precisa realmente ser lucrativo para ser valioso. O que isso significa é que entidades tentando tornar os negócios lucrativo – ou pior, exigindo que seja lucrativo para sobreviver – começam com uma forte desvantagem competitiva.

A Amazon é grande mestre em tornar essa realidade bem óbvia. Lembramos que eles começaram como “loja de livros” e nada mais. Baseavam-se nos depósitos da Ingram no Oregon para permitir a existência de seu modelo de negócios, que era receber o pedido de um livro e aceitar pagamento, depois pegar esse livro da Ingram e enviar ao cliente, um pouco depois pagar a conta da Ingram. Esse modelo de fluxo de caixa positivo era tão brilhante que a Ingram poderia ter rapidamente permitido muitas cópias, e eles formaram uma divisão chamada Ingram Internet Support Services para fazer exatamente isso. Então a Amazon matou essa ideia ao cortar seus preços para o nível mais baixo possível e desencorajou outras pessoas a entrarem no jogo. Isso foi no final dos anos 1990.

Conseguiram fazer isso porque a comunidade financeira já tinha aceitado a estratégia da Amazon de usar livros para construir uma base de clientes e medir as perspectivas futuras dos negócios por LCV – o “lifetime customer value” das pessoas com quem faziam negócios. E ficou bastante claro rapidamente que podiam vender aos leitores de livros outras coisas, por isso vendas com baixa ou nenhuma margem era simplesmente uma tática de aquisição de clientes. Foi um jogo que a Barnes & Noble e a Borders não puderam disputar.

Agora as vendas de livros e e-books representam quase certamente apenas uma porcentagem de um dígito do total da renda da Amazon. Kindle Unlimited, como seus empreendimentos editoriais e ofertas de autopublicação, são pequenas partes de uma organização poderosa que possui muitas formas de ganhar com cada cliente que recrutam.

O Scribd não é tão poderoso quanto a Amazon, mas começaram com uma rede de criadores e consumidores de conteúdo. Isso deu a eles uma vantagem de marketing sobre a Oyster – nem todo cliente precisava ser adquirido a um custo alto já que muitos clientes potenciais já estavam “dentro da tenda”. Mas também deu a eles alguma estabilidade. Sobrancelhas foram levantadas recentemente quando o Scribd colocou os freios no empréstimo de romances e audiobooks. Mas ajustar o modelo de negócio para essas áreas verticais simultaneamente deixa aberto que o modelo na verdade está funcionando em outros nichos.

Podemos ver isso acontecendo de uma forma muito mais limitada nas lojas Barnes & Noble, onde os livros estão sendo substituídos nas prateleiras por brinquedos e jogos. Mas não é provável que haja diversificação suficiente no longo prazo. Certamente a B&N não vai chegar ao mesmo patamar da Amazon, onde bem mais de nove de cada dez dólares vem de algo que não são os livros. E a Barnes & Noble não está nem perto da Amazon: onde o lucro das vendas de livros é incidental se eles trouxerem novos clientes e também mantiverem a lealdade.

A história sobre a Oyster, ainda incompleta por enquanto, é que boa parte de sua equipe de gerência está indo para a Google, que, na verdade, “comprou” a empresa para tê-los. O Google parece estar tentando eliminar a ideia de que compraram a Oyster, só contrataram a equipe da Oyster. Obviamente, o Google se encaixa na descrição de uma empresa com muitos outros interesses nos quais os livros podem ser uma parte. No começo, tudo se resumia a buscas. Agora tudo tem a ver com o ecossistema Android e venda de mídia no geral. Um negócio de assinatura de e-books, ou até um negócio de assinatura de conteúdo, poderia fazer sentido no mundo do Google. Mas seria algo relativamente menor para eles. Meu palpite, e é só um palpite, é que eles estão pensando em algo mais do que um mero “serviço de assinatura de livros” e querem usar a equipe da Oyster nisso. Observadores mais inteligentes do que eu parecem acreditar que o pessoal que o Google recrutou vai fornecer conhecimento sobre a leitura móvel e a tecnologia de descoberta da Oyster. Claro, isso é informação essencial para o Google.

Da mesma forma, a Apple, que agora tem um serviço de assinatura para música, também poderia pensar em fazer um para livros – ou para toda a mídia – no iOS em algum momento. Eles não têm as vantagens da Amazon – uma grande quantidade de propriedade intelectual que controlam – mas seu negócio é criar um ecossistema no qual as pessoas entram e não querem sair. A assinatura de livros poderia aumentar isso.

Mas o ponto central que eu tiraria disso não é que a assinatura fracassou, mas que um ator de negócios puramente de livros faliu. Uma pergunta óbvia que provoca é quando vamos ver alguns sinais de sinergia entre Kobo e seus donos na Rakuten, que presumivelmente têm ambições mais ao estilo da Amazon, mas não parecem ter usado o negócio de e-book para ajudá-los a seguir nessa direção.

E o que é verdade nas livrarias também é verdade na publicação de livros, como observamos nesse espaço há algum tempo. Tanto a publicação quanto a venda de livros vão se tornar, cada vez mais, complementos a empreendimentos maiores e cada vez menos atividades isoladas às quais as empresas podem se dedicar para ter lucro.

O The New York Times publicou um artigo de primeira página afirmando essencialmente que a onda dos e-books acabou, pelo menos por enquanto, e que o negócio dos impressos parece estável. Isso é uma ótima notícia para editoras se a tendência for real. Infelizmente, alguns poucos pontos importantes foram ou suprimidos ou ignorados, e poderiam minar a narrativa.

Um é que, enquanto as editoras informam as vendas de e-books como porcentagem do total de vendas de livros com resultados regulares ou levemente em declínio, a Amazon afirma [e Russell Grandinetti foi citado no artigo] que as vendas de e-books deles está crescendo. Assumindo que tudo isso é verdade, é talvez a diferença da migração das vendas das editoras [cujas vendas seriam informadas pelas estatísticas da AAP] e passando para títulos independente mais baratos disponíveis somente através da Amazon [quais vendas não passam por ela?].

Outro é que as editoras estão aumentando os preços em e-books. Toda a resistência às vendas criada por preços mais altos resulta em vendas de impressos, ou parte disso faz com que o livro seja rejeitado por algo mais barato? Em outras palavras, poderia ser que as vendas totais de muitos títulos sejam menores do que as procuravam antes? [Pelo menos um agente me diz que é isso.]

E outra é que o ressurgimento das livrarias independentes ocorreu nos anos seguintes à falência da Border’s e a mudança para uma mistura de vários produtos na Barners & Noble. Vale a pena perguntar se as independentes são beneficiárias temporárias de uma súbita deficiência de espaço nas prateleiras ou se estamos realmente vendo não só um aumento na leitura de impressos, mas um renovado interesse dos leitores de livros em ir às livrarias para comprar um impresso. Essa pergunta não está colocada nesse post.

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 25/09/2015

Mike ShatzkinMike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Organiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro. Em sua coluna, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era tecnológica. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin

A experiência de leitura da Pelican Books


Por Joana De Conti | Publicado originalmente em Colofão | 15 de julho de 2015

Em maio de 2014, a Penguin Random House relançou o seu antigo selo Pelican, que em 1987 havia interrompido suas publicações após 47 anos de existência. Tal acontecimento – o surgimento de um novo selo ou coleção – é relativamente corriqueiro no mercado editorial e poderia passar despercebido até mesmo para as pessoas que trabalham na área, mas gerou bastante alvoroço ao apresentar um esforço duplo e inovador: ao mesmo tempo que o projeto gráfico era completamente repensado e modernizado, uma equipe criava uma experiência inédita de leitura digital. A repercussão em território nacional foi incipiente, comparada ao burburinho causado fora do Brasil pela proposta, então pretendo, com este post, explicar um pouco mais e tecer os merecidos elogios à Pelican Books.

O primeiro esforço, e aí já se evidencia o tratamento diferencial da Penguin ao criar a Pelican Books, fica evidente no fato de que a produção da versão impressa do selo foi diretamente influenciada pela sua versão digital. E vice-versa.

Os dois projetos foram pensados simultaneamente, de modo que a produção de uma versão não atrapalhasse ou se sobrepusesse à da outra. Assim, e para citar apenas um exemplo simples, as fontes tipográficas escolhidas teriam, necessariamente, que funcionar em todos os meios nos quais os livros seriam publicados: telas de computador, celular, folhas de papel, tablets etc. É possível saber um pouco mais sobre esse primeiro ponto aqui e aqui.

Este artigo, entretanto, irá focar no segundo esforço da equipe de designers da Penguin, chefiada pelo jovem Matthew Young, que idealizou e lançou a pelicanbooks.com, um espaço para a leitura online dos livros lançados pelo selo. Sem dúvida o grande diferencial do projeto está na maneira como o livro digital é pensado. Young, designer e ávido leitor de e-books, se sentia muito incomodado com os problemas que surgiam na visualização do texto quando se passava de um aparelho de leitura para outro. O título que era perfeitamente visualizado num e-reader se dividia em três linhas irregulares na telha do aparelho celular, como se pode ver na imagem abaixo.

Em um artigo publicado em novembro de 2014, Young afirma que desejava garantir ao leitor uma experiência de leitura agradável independente do tamanho ou da resolução da tela. Do mesmo modo, todos os elementos não-textuais – tabelas, gráficos, mapas etc. – deveriam ser tratados com a mesma importância que o texto. Como as imagens dos e-books de modo geral são extraídas dos arquivos impressos, normalmente imagens aparecem em preto e branco, mesmo que o leitor esteja usando um tablet capaz de renderizar milhões de cores. De acordo com Young [em tradução livre minha]: “Em contraste, se você lê um livro online na pelicanbooks.com, a experiência de leitura é única – desenhada especificamente para a Pelican e adaptada para aproveitar o máximo de cada livro individualmente. Mapas e diagramas são refeitos para a tela e optimizados para que sejam legíveis e facilmente entendidos em qualquer tamanho”.

Young era originalmente um designer de capas. Ele percebeu que, na maior parte dos casos, as capas dos e-books são apenas uma cópia das capas dos livros impressos. Porém, o leitor tem contato constante com a capa do seu livro impresso: a cada vez que vai ler ou ao olhar para o livro fechado em cima da sua mesinha de cabeceira. Na versão digital, a capa se torna apenas um thumbnailútil em termos comerciais, mas que, após o e-book ser adquirido, é apenas visualizado na prateleira virtual do seu aparelho de leitura, ao lado de diversos outros thumbnails. Young projetou as capas dos livros da Pelican para que elas fossem atraentes em quaisquer formatos. Além disso, a aparência das entradas de capítulos é diretamente inspirada na capa, de modo a haver um eco da capa ao longo de todas as partes do e-book, reforçando o estilo do selo e a sua marca.

Não será possível abordar aqui todas as singularidades dos livros da Pelican. Além dos artigos citados, eu recomendo imensamente a visita ao site do selo. Os primeiros capítulos dos livros já publicados estão disponíveis online, possibilitando uma degustação. Você só precisa comprar se quiser continuar a leitura.

Vale ressaltar que pelicanbooks.com não é um aplicativo nem um e-reader. Sua interface, bem como as inovações apresentadas pela proposta, são possíveis pois os livros serão sempre lidos em algum browser. Trata-se de um exemplo ímpar e louvável, que refresca nossas ideias acerca da miríade de possibilidades dos livros digitais e pode – ou melhor, deve – nos fazer refletir sobre o tratamento que damos a cada um dos muitos elementos que compõem os e-books produzidos diariamente por nós.

Por

Joana De Conti

Joana De Conti

| Publicado originalmente em Colofão | 15 de julho de 2015

Joana é formada em Ciências Sociais e mestre em Antropologia, mas abandonou a academia quando descobriu os livros digitais. Neófita no meio editorial, vai escrever aqui tanto sobre suas descobertas e aprendizados técnicos quanto sobre suas impressões acerca da relação entre o digital e o impresso dentro e fora das editoras. Joana trabalha atualmente no departamento de livros digitais da editora Rocco.

Trabalhar dados para saber para onde estão indo seus livros


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 28/01/2015 | Tradução Marcelo Barbão

No dia anterior à Digital Book World [que neste ano aconteceu na quinta-feira, dia 13 de janeiro], nós organizamos uma conferência sobre edição para jovens chamada Publishers Launch Kids. Como meu envolvimento com livros juvenis no meio século em que estou nesta indústria foi relativamente superficial, tivemos a sorte de ter recrutado nossa amiga, Lorraine Shanley, da Market Partners International, para ser a presidente da conferência e do programa. Ela me convidou para participar de uma sessão de perguntas no final do dia. Eu pude contribuir com uma “perspectiva nova” porque não tinha tanta carga de conhecimento, antes de ouvir todos os participantes.

Lorraine trouxe um tema importante: as editoras infantis estão encontrando novos fluxos de renda. A assinatura é uma delas. Conseguir dólares promocionais de grandes marcas é outra. Participaram algumas das novas editoras digitais que estão criando propriedade intelectual própria, transformando livros em direitos subsidiários, licenciando aquela PI para editoras de livros mais puras.

Fiquei feliz quando descobri que a audiência pareceu sentir que meus comentários na sessão final ajudavam a entender o que foi discutido no dia, então repito estas observações aqui e acrescento outras com a esperança de que poderá servir para vocês.

O primeiro ponto tem a ver com o consenso geral, bastante difundido e comentado, de que editar livros infantis é uma das melhores áreas na indústria, o que fez com que todas as Cinco Grandes expandissem margens e lucros. Mas quando os fatos são examinados um pouco mais de perto, fica claro que há limites reais para as conclusões que deveriam ser tiradas dos dados que levaram a esta crença.

A renda das editoras baseia-se nos códigos BISAC associados com cada livro publicado. O fenômeno dos últimos anos, voltando quase duas décadas até o lançamento do primeiro Harry Potter, é que há uma forte audiência adulta para livros rotulados como juvenis [e às vezes, como no caso de um livro chamado “Wonder” – ou o próprio Harry Potter – livros que são voltados para leitores ainda mais jovens].

Bem, os mestres das estatísticas da Nielsen Book deixaram claro como estas vendas podem ser distorcidas em sua apresentação, pois mostraram que 80% das vendas de romances juvenis são para os próprios adultos lerem! Como um dos desafios centrais que reconhecemos para a publicação juvenil é a forma de superar os filtros de professores e pais entre os livros e sua audiência, este dado faz parecer que a questão do filtro não é tão importante como poderíamos ter pensado. Ou, pelo menos, para uma boa parte da lista, não é o desafio de marketing mais relevante.

E isso levanta uma segunda questão. Está claro que a edição de livros juvenis, como todos os livros gerais, precisa separar muito bem os títulos e os ganhos atribuíveis que são apenas texto daqueles que não são. Há muito tempo defendemos esta perspecitva para a edição de livros adultos por causa da clara e consistente evidência de que livros apenas de texto podem ser portados para o digital e os outros livros, não. Claro, isso seria verdade independente da faixa etária dos livros. Mas, tirando as diferenças no desempenho baseado no formato, livros juvenis possuem uma divisão que também se baseia nas audiências.

Nas conversas daquele dia, nenhuma editora indicou que divide seu negócio desta forma. Quer dizer, mesmo se você aceitar que 80% das vendas de seus livros de texto juvenis são feitas por adultos para adultos, isso não facilita um novo cálculo de quanto de sua audiência total e vendas são para consumo de adultos ao contrário de ser para consumo juvenil, a menos que já tenha separado os livros juvenis e infantis do resto de sua produção. [Incluo os livros infantis porque conheço o livro “Wonder”, voltado para crianças de nove anos, mas excelente para todas as idades.]

Sem fazer esta distinção, uma boa análise de dados de venda para informar o marketing se torna quase impossível.

Há uma analogia aqui para uma dicotomia diferente. Já falamos durante anos neste blog que olhar esta divisão entre a venda de livros impressos e e-books por gênero ou categoria ou editora é muito menos significativa para análise ou decisões de negócios do que olhar para as vendas feitas online versus as feitas em livrarias. Obviamente, 100% das vendas de e-books são feitas online, mas esta é apenas uma parte da história. Como as editoras consideram a alocação de recursos do marketing e a equipe de vendas para onde os esforços promocionais devem ser focados, a distinção mais importante é como as pessoas compram do que a forma como elas leem.

E a diferença importante para editoras que olham para vendas a fim de entender como conseguir mais é quem compra e lê seus livros, não que nível de leitura eles, teoricamente, estão querendo.

Há algumas outras implicações desta combinação de livros com audiências reais. Uma é que pode ser possível, e talvez até provável, que as divisões infantis das Cinco Grandes estejam mais bem posicionadas para procurar estas audiências adultas do que uma editora somente infantil poderia estar. Inclusive os especialistas em marketing da divisão de adultos se envolvem no trabalho de livros que são publicados pelos editores de livros infantis.

Também vim ao Pub Launch Kids com uma velha ideia que a discussão naquele dia só reforçou. Não consigo entender por que cada uma das Cinco Grandes editoras não está operando seu próprio programa de assinaturas para juvenis: todos com livros graduados, de iniciantes a intermediários. Aqui está minha lógica: quase todo pai adoraria poder entregar um tablet ou celular a uma criança para que elas leiam e deixar que façam suas próprias “compras” de livros. Mas não querem que as crianças gastem dinheiro. A assinatura é uma resposta simples para isso.

Lorraine montou um ótimo painel de empresas na Launch Kids com ofertas de assinaturas: MeeGenius, Speakaboos e Smarty Pal. Todas estas empresas tinham mais a oferecer do que apenas assinaturas, incluindo enhancement [narrativas com leitura e áudio], curadoria e dados que podem ser úteis para pais e professores. Mas também tinham um número limitado de títulos [em todos os casos, menor do que qualquer uma das Cinco Grandes poderia distribuir] e um modelo comercial desafiado tanto pelo custo operacional da aquisição de conteúdo quanto pela necessidade de ter seu próprio lucro além do que a editora recebe [para dividir com o autor].

Enquanto isso, as Cinco Grandes possuem arquivos digitais de todos seus livros e a capacidade de promover um serviço de assinaturas para sua audiência-alvo simplesmente fazendo promoção nas capas dos livros impressos que eles vendem e dentro de seus e-books. Ao contrário de um serviço de assinatura feito por terceiros, elas poderiam viver com uma base de assinaturas pequena e em constante crescimento para manter o custo da baixa aquisição do assinante. Aprenderiam muito observando o comportamento de seus leitores. Poderiam descobrir que um assinante que olhou um livro de imagens 27 vezes poderia estar disposto a comprar uma cópia impressa, assim a atividade de assinatura também poderia gerar dicas de vendas.

E este tipo de inteligência poderia realmente levar a um novo fluxo de renda que foi bastante discutido na Launch Kids: livros personalizados.

Assinaturas dos donos de PI de livros juvenis para versões digitais de seu conteúdo também possuem outro grande mercado potencial: escolas. Todos os vendedores de assinaturas reconhecem isso. Qualquer editora que iniciasse um serviço de assinaturas teria que investir neste mercado também. Uma editora com quem discuti isso vê o mercado institucional como o primeiro a ser conquistado, mas concordou depois que conversamos que a capacidade de realizar uma estratégia de assinantes unitários, em vez de precisar de muitos deles para construir um negócio autônomo, fazia uma diferença real no lucro que estes assinantes únicos poderiam gerar e até que ponto o custo de aquisição poderia ser impulsionado.

Estive esperando ansioso que a Penguin Random House oferecesse seu conteúdo para escolas em forma de assinatura, o que poderia lhes dar uma enorme vantagem estrutural sobre todo o resto no mercado. Falo isso apesar de que a PRH sempre me respondeu [nos termos mais amáveis possíveis] que minha especulação sobre o que é melhor para eles não se enquadra no que eles mesmos pensam sobre o assunto.

Mas se fizessem isso, a resposta mais sensível das outras quatro grandes editoras seria uma oferta combinada às escolas, já que seria necessário que as quatro se juntassem para apresentar uma alternativa comparável. Ficamos pensando no que o Departamento de Justiça acharia disso.

Mike Shatzkin

Mike Shatzkin

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].

AudioAppBook para carros!


A Ford se associou à Penguin Random House para desenvolver e lançar um aplicativo ativado por voz que dará acesso a áudio livros de Roald Dahl. O aplicativo será compatível com o Syn AppLink, tecnologia embarcada em alguns carros da Ford que permite o acionamento de aplicativos a partir do comando de voz. Uma vez dentro do carro, o motorista deverá abrir o app no seu smartphone e conectá-lo ao seu veículo via USB. A partir daí, pode dará os comandos: play, pause, stop, back e forward.

O app contém 19 histórias de Roald Dahl, incluindo Charlie and the chocolate factory, Matilda e James and the giant peach, lidas por atores como David Walliams, Stephen Fry e Kate Winslet. O App é gratuito e o primeiro capítulo de cada história é gratuito. Para ter acesso à íntegra do livro, os usuários terão que desembolsar £4.99. O app será lançado entre outubro e novembro e estará disponível para download em todo o mundo – exceto América do Norte-, mas os livros estarão exclusivamente em inglês.

Por Charlotte Eyre | The Bookseller | 17/09/2014

Amazon lança biblioteca digital sem cinco maiores editoras americanas


Depois de meses de especulação, na sexta-feira [18] a Amazon lançou um serviço digital de assinaturas que oferece acesso ilimitado a livros eletrônicos e audiobooks digitais por US$ 9,99 ao mês.

O serviço, Kindle Unlimited, oferece uma abordagem em estilo Netflix que permite acesso a mais de 600 mil livros eletrônicos, entre os quais séries de sucesso como “Jogos Vorazes” e “Diário de um Banana”, obras de não ficção como “Flash Boys”, do jornalista Michael Lewis, clássicos e ficção literária.

Até o momento, nenhuma das cinco grandes editoras dos Estados Unidos está oferecendo seus livros.

A HarperCollins, a Hachette e a Simon & Schuster, por exemplo, estão fora.

A Penguin Random House e a Macmillan se recusaram a comentar, mas uma busca na Amazon sugere que os livros dessas editoras tampouco estão disponíveis.

Como resultado, alguns títulos populares eram notáveis pela ausência quando o serviço começou a operar.

E como muitos escritores oferecem livros por mais de uma editora, os assinantes podem descobrir que têm acesso a certos livros de Michael Chabon e Margaret Atwood, mas não a outros.

A introdução do serviço surge em um momento de crescente tensão no relacionamento entre a Amazon e as grandes editoras.

O grupo de varejo on-line está sofrendo escrutínio cada vez mais intenso por seu domínio do mercado de livros eletrônicos e pelas táticas duras que usa nas negociações com as editoras.

A Amazon e a Hachette estão envolvidas em um duradouro e público impasse sobre os termos de venda de livros eletrônicos da editora, e a situação não parece próxima de uma solução.

Entre as editoras que estão oferecendo títulos pela assinatura estão a Scholastic, da série “Jogos Vorazes”, e a Houghton Mifflin Harcourt.

As notícias sobre o Kindle Unlimited começaram a surgir semanas antes de seu lançamento, quando a Amazon postou acidentalmente um vídeo promocional sobre o modelo de assinatura. O vídeo foi retirado do site, mas não antes que blogs de tecnologia comentassem sobre ele.

Ao oferecer o serviço, a Amazon está ingressando em um mercado cada vez mais lotado. Concorrerá com empresas iniciantes de distribuição digital de livros que oferecem serviços semelhantes, como a Scribd e a Oyster.

A Scribd conta com cerca de 400 mil títulos, e cobra US$ 8,99 ao mês. A Oyster tem mais de 500 mil títulos e oferece acesso ilimitado aos leitores por US$ 9,95 ao mês.

Com modelos de preço semelhante, a concorrência entre os serviços de livros eletrônicos por assinatura pode ser decidida com base no conteúdo e autores disponíveis.

O serviço da Scribd inclui livros de mais de 900 editoras, entre as quais Simon & Schuster e HarperCollins.

A Oyster oferece títulos de seis das dez maiores editoras norte-americanas.

Ainda assim, a Amazon ingressa no segmento com uma imensa vantagem: seu predomínio na publicação de livros eletrônicos e sua vasta biblioteca de audiobooks, que ela está integrando ao seu serviço por assinatura.

Do “New York Times” | Publicado originalmente por UOL | 26/07, às 3:10 | Tradução de PAULO MIGLIACCI

Tudo o que você precisa saber sobre o Kindle Unlimited, o “Netflix de livros” da Amazon


Por Paulo Higa | Publicado originalmente em Tecnoblog | 18/07/2014 às 14h49

Kindle Unlimited oferece mais de 600 mil ebooks por 10 dólares mensais

A Amazon confirmou as expectativas e lançou, nesta sexta-feira [18], o Kindle Unlimited, um serviço que oferece acesso ilimitado a um catálogo de mais de 600 mil ebooks e milhares de audiobooks com uma assinatura mensal de US$ 9,99. Sem prazo de devolução, os livros podem ser lidos tanto nos leitores Kindle quanto nos smartphones, tablets e computadores com o aplicativo gratuito do Kindle.

Como funciona esse negócio?

Pensar no Kindle Unlimited como um “Netflix de livros” é a maneira mais fácil de entender como o serviço funciona. Na página da Amazon, há uma opção para degustar o Kindle Unlimited por 30 dias. Enquanto você for assinante, receberá uma cobrança mensal de 10 dólares no cartão de crédito e poderá ler quantos livros quiser nos dispositivos atrelados à sua conta. Ao cancelar a assinatura, os ebooks são automaticamente retirados da sua coleção.

Tanto no Kindle quanto na loja da Amazon, próximo ao botão de compra, haverá um botão para “ler de graça” em mais de 600 mil obras. Depois que o ebook for baixado, você pode lê-lo como se fosse seu: há sincronização com o Whispersync, o que significa que a página, as marcações e as anotações são sincronizadas entre todos os seus dispositivos.

Não há prazo de devolução, mas há um limite de 10 ebooks emprestados simultaneamente. Quando você tentar ler o décimo primeiro livro, a Amazon irá sugerir a devolução do ebook emprestado há mais tempo — mas é possível selecionar outro. A qualquer momento, um ebook emprestado anteriormente pode ser baixado novamente, inclusive com as marcações sincronizadas na nuvem.

Além de livros em texto, o Kindle Unlimited permite acessar pouco mais de 2 mil audiobooks, mas eles só podem ser ouvidos em dispositivos com som, o que não inclui nenhum dos leitores Kindle vendidos hoje [Kindle e Kindle Paperwhite], só os tablets Kindle Fire e dispositivos Android e iOS com o aplicativo oficial do Kindle. O tamanho dos arquivos varia; aqui, gastei 156 MB para baixar o audiobook de The Hobbit.

Não está disponível no Brasil, mas…

O Kindle Unlimited só foi lançado nos Estados Unidos, mas o serviço funciona no Brasil caso você possua uma conta americana da Amazon com um endereço americano. O cartão de crédito precisa ser internacional, mas não necessariamente emitido nos Estados Unidos.

Se você se enquadra no caso acima, não deve ter dificuldade para testar e assinar o serviço. Se a conta for brasileira, é possível migrá-la para uma americana sem perder as compras já realizadas [no entanto, você não poderá adquirir novos conteúdos na Amazon.com.br]. Basta entrar em Gerencie seu Kindle e selecionar “Configurações do país”. Em “Brasil”, clique no link “Mudar”, preencha com o endereço americano e salve as alterações. É possível voltar para uma conta brasileira a qualquer momento fazendo o caminho inverso.

Em comparação com a Amazon brasileira, a Amazon americana possui uma quantidade maior de ebooks [2,7 milhões contra 2,2 milhões], mas menos títulos em português [27 mil contra 35 mil]. Os preços não estão totalmente conectados: alguns livros são mais baratos na loja americana; outros, na brasileira.

Na Amazon americana, é possível comprar audiobooks e fazer assinaturas de jornais e revistas, como O GloboZero HoraThe New York TimesNational Geographic e Vogue. Estranhamente, mesmo com jornais brasileiros, a assinatura não está disponível no Brasil, por isso, se você fizer o caminho inverso [migrar uma conta americana para uma brasileira], suas assinaturas serão automaticamente canceladas.

E quando o Kindle Unlimited será lançado oficialmente no Brasil? Procurada pelo Tecnoblog, a Amazon declarou que “não comenta planos futuros”. Como o serviço ainda não funciona nem no Reino Unido, outro mercado grande para a Amazon, é bom esperar sentado.

O que tem de bom para ler?

No momento em que escrevo este parágrafo, há 639 mil livros disponíveis no Kindle Unlimited, pouco menos de um quarto dos 2,7 milhões de ebooks da loja americana. Muitos títulos não estão disponíveis, mas a Amazon destaca algumas obras conhecidas: dá para ler a trilogia de The Lord of The Rings, os sete livros de Harry Potter, bem como 2001: A Space OdysseyThe Hobbit e Life of Pi, por exemplo.

Todos os livros acima estão em inglês, mas também há pouco menos de 8 mil títulos em português no Kindle Unlimited.

O problema é que, assim como na Netflix, liberar os conteúdos exige acordos comerciais. E as cinco grandes editoras americanas [Hachette, HarperCollins, Macmillan, Penguin Random House e Simon & Schuster] não disponibilizaram muitos livros, logo, há uma série de títulos famosos faltando. Boa parte dos livros do Kindle Unlimited, incluindo as obras em português, são de pequenas editoras ou autores independentes.

Portanto, mesmo que 600 mil ebooks pareça muito, na prática a história é um pouco diferente, e o acervo ainda é fraco se você estiver interessado apenas nos best sellers.

Quão fraco? Entre a lista dos 20 ebooks Kindle mais vendidos, apenas 3 estão no Kindle Unlimited: My Mother Was Nuts, em 1º; Pines, em 13º; e One Lavender Ribbon, em 20º. Na categoria Computadores e Tecnologia, a situação melhora [10 dos 20 podem ser lidos gratuitamente], mas a maioria dos livros são guias e tutoriais — nada de ler de graça a biografia do Steve Jobs ou o novo livro de Glenn Greenwald, portanto.

Entre os livros em português, a coisa é ainda mais triste, mas isso é até compreensível se considerarmos que o serviço, oficialmente, nem funciona no Brasil. Da lista dos 20 mais vendidos, só um está no Kindle Unlimited. E, na verdade, esse único livro não é voltado para brasileiros, mas sim para estrangeiros que desejam aprender a língua portuguesa.

Vale a pena o esforço?

O preço de US$ 9,99 por mês é bem atraente. Se você considerar que muitos ebooks custam esse preço ou até mais, basta pedir apenas um ou dois livros emprestados e a assinatura mensal já valeu a pena.

Só que a Amazon ainda precisa melhorar o acervo para o Kindle Unlimited ser realmente vantajoso. 600 mil ebooks é muita coisa, mas uma parcela bem pequena desses livros representa o que as pessoas querem ler. Eu tenho certeza que grande parte dos que estão lendo este texto passariam tranquilamente 10 horas por mês assistindo a filmes e séries na Netflix, mas não gastariam a mesma quantidade de horas lendo livros aleatórios na Amazon.

Resta saber se a Amazon conseguirá aumentar a disponibilidade de livros e, mais importante, se será capaz de convencer as editoras de que o modelo de negócios é interessante. Estamos até acostumados com serviços de streaming de músicas ou filmes, mas não de livros — embora já existissem opções antes do Kindle Unlimited, como o Oyster. Eu, como leitor, acho ótimo pagar só 10 dólares para ler quantos livros quiser. Mas, se estivesse do outro lado, comandando uma editora, não sei se toparia receber só alguns centavos por usuário.

Por Paulo Higa | Publicado originalmente em Tecnoblog | 18/07/2014 às 14h49

Dois hambúrgueres e um eBook, por favor


McDonald´s dá acesso gratuito a e-books a seus clientes

Depois de distribuir livros físicos aos seus clientes, o McDonalds inicia nova campanha, agora com e-books. Clientes – ou não – da rede podem acessar gratuitamente livros digitais interativos pelowww.happystudio.com, a plataforma de jogos e interação digital com os pequenos. Os livros – por enquanto três títulos – foram produzidos pela Dorling Kindersley, da Penguin Random House e trazem temas como as estrelas e os planetas, as maravilhas da natureza e as mais espetaculares cidades do mundo. Os pequenos podem ainda criar seus próprios livros com opções de selecionar, arrastar e inserir elementos como palavras e imagens. Os livros podem ser lidos direto no computador ou baixando os aplicativos para as versões mobile disponíveis na AppleStore e no Google Play.

Por Leonardo Neto | PublishNews | 06/05/2014 |

Editoras precisam se conectar diretamente com seus leitores


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 03/04/2014 | Tradução Marcelo Barbão

Desde a fusão que criou a Penguin Random House, houve pouca especulação [exceto por mim, até onde sei] sobre o que este novo mamute na publicação de livros gerais poderia fazer para explorar suas escala de formas novas e inovadoras.

A vantagem de escala deles é enorme. A PRH tem algo perto da metade dos livros gerais publicados, dos best-sellers para baixo. [Você vê análises que dizem que é 25%, mas na maioria das vezes as estimativas giram ao redor dos 40%]. Por várias décadas, os grandes clubes do livro norte-americanos — Book-of-the-Month Club e o Literary Guild — mostraram que ter metade dos livros era “suficiente” para que um grande número de pessoas se sentisse confortável de que suas escolhas do que ler dentro deste grupo de títulos seria suficiente para suas necessidades.

Meus palpites iniciais, ainda não realizados, eram que a PRH iria lançar um serviço de assinatura com apenas seus livros, e através do uso de inventários gerenciados por vendedores, criar canais exclusivos de distribuição em lojas que não estariam disponíveis em nenhum de seus concorrentes. [Um executivo sênior de um concorrente a quem descrevi este cenário, disse de forma honesta, “colocaríamos nossos melhores livros disponíveis para eles através do canal proprietário se fosse a nossa única forma de conseguir distribuição”].

Um executivo da PRH me explicou a inerente resistência da empresa com o modelo de assinatura, que parece apelar mais aos que mais leem e procuram uma barganha. Como o maior ator do mercado, a PRH não está querendo reduzir o gasto das pessoas que são as maiores fontes de renda da indústria, o que uma oferta de assinatura bem-sucedida faria inevitavelmente. [Este modelo de assinatura, ou “Netflix para e-books”, é complexo em sentidos que são geralmente ignorados, mas que Joe Esposito explica bastante claramente.] Claro, isso não significa que a empresa não deveria considerar a proposta em um ambiente onde os serviços de assinatura estão ganhando a maior parte da audiência [certamente não é o caso ainda, mas vejamos o que acontece se o Scribd, Oyster, Entitle ou o novo Rooster forem bem-sucedidos]. Parece dizer que eles não serão pioneiros neste campo. E não há sinal ainda de que vão usar minha ideia de usar VMI para criar suas próprias livrarias, também.

Mas a PRH UK — repetindo o que me disse Markus Dohle, o CEO da RH US faz alguns anos – anunciou agora que se tornou uma editora focada no consumidor. Hannah Telfer, que se tornou “diretora de grupo, desenvolvimento de consumidor e digital” em janeiro, diz que a capacidade de descoberta depende de “construir uma relação direta com os consumidores”. E ela afirma que “nossa escala” é uma forma central de como fazer isso “de forma apropriada”. Isso é inovador, já que a maioria do pensamento da indústria sobre como usariam a escala parece estar mais ligado a consolidar depósitos do que aproximar-se de forma mais inteligente dos consumidores.

Um artigo no The Bookseller detalha as mudanças de equipe e iniciativas ao redor deste objetivo. [E outro expressa algum ceticismo sobre se seus planos são adequados para a tarefa. Esta segunda matéria sugere que precisam pensar em vendas diretas, uma recomendação sobre a qual expressei algumas reservas.] Por um lado, o primeiro artigo sugere alguns objetivos realmente amplos, de toda a empresa, incluindo “o potencial para que a Penguin Random House seja uma usina de força cultural e de entretenimento; espaço para todas as audiências”. Na recente conferência de vendas deles. O CEO Tom Weldon descreveu a oportunidade para a PRH “criar o mapa de uma marca editorial como marca para os consumidores e, ao fazer isso, capturar a atenção do mundo para as histórias, ideias e escrita que importa”. Isto parece um grande marca.

Ao mesmo tempo, havia um claro reconhecimento da importância do que chamamos “verticalidade” ou “foco na audiência”. Um “projeto de segmentação de audiência” foi anunciado. Assim como a atenção cruzada para assuntos específicos, com “gastronomia” e “crime” citados. Uma ferramenta que é claro que a Penguin Random House tem e vai usar chama-se Bookmarks, descrita como “o painel dos leitores da Random House”. Novos planos querem que isso “se transforme em um recurso da PRH, dando a todas as partes da empresa acesso a mais de 3,5 mil leitores por meio de pesquisas e focus groups”

Claro, dependendo de quantas formas diferentes a empresa quiser usar este painel, mais difícil será conseguir dados úteis. Na verdade, parece que ele foi feito para um processo contínuo de “painelização”, através do qual novas pessoas estão sendo acrescentadas todo o tempo a um número de painéis que podem responder a questões sobre diferentes interesse das comunidades. Um painel não pode servir a todos os propósitos.

Isso traz dois tópicos para um ousado alívio que historicamente não foram parte do pensamento ou dos conjuntos de habilidades de uma editora.>

1. Pede um pensamento novo e cheio de nuances sobre as marcas.

2. Pede um plano multifacetado para se relacionar com consumidores individuais.

Existem muitos conselhos direcionando editoras para pensar em branding para consumidores hoje em dia.Desde que comecei a pensar e escrever sobre mercado editorial e brands, algo importante aconteceu, algo que não pensei na época: auto publicação. Minha ideia original era que o desafio era estabelecer marcas com claras identidades verticais e centrada na audiência. Provavelmente o melhor exemplo de sucesso entre as grandes editoras norte-americanas foi o estabelecimento, pela Macmillan, da Tor como uma marca para ficção científica e tor.com como site de destino para amantes da ficção científica. Já faz mais de dois anos desde que escrevi que a tor.com tem centenas de milhares de endereços de e-mail que eles podem usar para promoções com resultados bastante bons.

Tor.com dá à lista de ficção científica da Macmillan um claro rótulo de não autopublicação. Mas fora da Tor, para sua lista geral, a Macmillan usa muitos nomes de selos. Um romance poderia ser publicado como St. Martin’s, Holt, Farrar Straus ou Thomas Dunne Books [entre outros], cada um dos quais provavelmente faz “sentido” aos compradores em grandes contas, grandes bibliotecas e resenhistas de livros, mas que significa muito pouco para o público em geral. A pessoa média conhece estes nomes melhor do que conhecem, digamos, Thomas & Mercer [o novo selo da Amazon] ou Mike & Martha Books [um nome que acabei de inventar]?

[Notem que a Macmillan está sendo usada aqui para propósitos ilustrativos; toda grande editora tem as mesmas questões com marcas de selos que são realmente criadas por motivos B2B, não para o consumidor].

Mas no final, é importante para a Macmillan, e para toda editora, colocar a marca de “grande editora” em seus livros para deixar que o público saiba que “isto vem de uma editora estabelecida há muito tempo” com a suposição, que eu concordaria, de que as pessoas que não conhecem os nomes confiariam mais em uma instituição do que em um indivíduo com interesses próprios para “escolher” seus livros.

[Obviamente, a maioria das pessoas escolhe seus livros por causa do autor, do assunto, de uma recomendação de um amigo ou até baseado em alguma combinação de capa, descrição e preço. Quanto da audiência seria influenciada por conhecer que uma grande editora está por trás do livro? Não sabemos disso, e não sabemos se este livro vai crescer ou diminuir baseado na sempre crescente produção de material autopublicado que não passou pela edição e pelo rigor de formatação de uma editora. E, por falar nisso, fazer branding agressivo significa que as editoras precisam prestar ainda mais atenção à edição e formatação. Cada exemplo de um produto com marca inferior chegando ao mercado vai enfraquecer o valor da marca].

Então aqui está a regra sobre branding. Cada editora importante deveria pegar um nome que está no seu guarda-chuva. Todo livro é importante para estabelecer a empresa como uma fonte maior de literatura de qualidade, leitura agradável e informação empacotada como livro. Tentando ter um alvo mais preciso do que isso deveria ser o trabalho da marca do “selo” debaixo do guarda-chuva. E esta marca deveria ser vertical, identificando assunto ou audiência. Esta é a Tor no exemplo da Macmillan acima. Note que no momento a Macmillan não é uma marca sendo usada por qualquer uma das empresas norte-americanas na família Macmillan.

O plano para conectar-se com consumidores é muito mais complicado e tem muitos componentes. Um é simplesmente coletar endereços de e-mail e permissões para entrar em contato e depois fazer isso. Girar quase todos os esforços de marketing que puder para criar uma máquina de reunir emails é uma boa parte disso. Este é um jogo que todo mundo deveria se envolver: todas as livrarias, todas as editoras e todos os autores. Sabemos por alguns trabalhos recentes em nossa empresa de marketing digitalque os agentes literários mais espertos estão descobrindo como ajudar seus autores a fazer isso. Não estamos longe do dia em que um agente vai perguntar a um editor “quantos e-mails relevantes você tem para promover o próximo livro do meu autor?”

Mas listas de e-mail, como a declaração da PRH UK sugere, é apenas um aspecto do relacionamento com o consumidor. E as declarações da PRH também afirmam implicitamente que uma empresa muito maior tem mais facilidade para conseguir esta lista. Tirando a capacidade de analisar os endereços de e-mail existentes entre seus assinantes ou que eles encontram por outros meios [acesso a seus websites, autoidentificação na mídia social] para entender e chegar a maiores audiências, as grandes companhias conseguem criar listas verticais especiais de interesse para aumentar o tráfego [impulsionando cadastros de e-mail] e usando várias oportunidades promocionais. Vemos Simon & Schuster fazendo muito isso. Eu recebo diariamente o , um e-mail de sua nova lista vertical de livros de negócios que resume a proposta central de um livro de negócios todo dia. Se este ou outros esforços verticais deste tipo que a editora está tentando, poderá se transformar em uma comunidade web remunerada ou até um bom lugar para lançar um livro, ainda é uma pergunta sem resposta. Mas é o tipo de experiência que poderia produzir uma plataforma de lançamento que realmente poderia ajudar a S&S com livros de negócios.

Afirmamos também que a noção de que criar painéis dinâmicos de consumidores para contar coisas – coisas que você pode perguntar o tempo todo – também é algo valioso. Sabemos a história de uma revista de nicho que está sempre usando o Twitter para pedir a opinião de seus leitores sobre várias coisas, como qual ângulo usar em uma reportagem. Eles conseguem respostas muito rápidas desta forma. Sabemos que a Osprey, a editora de história militar, sempre pede a opinião de sua audiência quando estão escolhendo entre assuntos para o desenvolvimento de um livro. [E é importante notar que Random House UK contratou a enérgica e visionária CEO da Osprey, Rebecca Smart, para dirigir seu selo Ebury. Esta é outra forma de usar a escala: contrate o talentoso executivo de uma companhia menor!]

Uma boa política para uma editora grande que pode coletar um grande número de endereços de e-mail seria perguntar rotineiramente aos consumidores se eles gostariam de ser consultados com perguntas que irão guiar as estratégias de publicação e marketing da editora. Fazer isso funciona como uma forma de conseguir novos nomes. O que a Osprey faz com sua audiência especializada poderia se tornar uma prática rotineira para uma editora com uma lista de e-mail grande o suficiente. Seria possível perguntar aos consumidores se um tópico é bom para ser lançado antes de a editora assinar um contrato. Também poderiam ser questionados sobre capa e preço. E se este tipo de interação fosse construída na prática geral a editora, com o tempo eles aprenderiam quando as opiniões dos consumidores são um bom guia a ser seguido e quando não são [porque nem sempre serão!]

Estamos nos primeiros dias de um período em que as grandes editoras estão passando da quase total dependência de intermediários para chegar a seus mercados, para outro de relacionamento direto com os consumidores. Por enquanto, a maioria das editoras está bastante quieta sobre o que estão fazendo, parcialmente porque acham que estão inventando algo e parcialmente porque não sabem como isso vai funcionar. Mas o relativo silêncio não deveria ser interpretado como inação ou desatenção relativa. Não é nenhuma novidade para as grandes editoras que elas precisam conversar diretamente com suas audiências. A Penguin Random House tem vantagens de tamanho em relação às outras Cinco Grandes, mas estas têm vantagens de tamanho em relação a todo o resto.

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 03/04/2014 | Tradução Marcelo Barbão

Mike Shatzkin

Mike Shatzkin

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].