À beira do ponto crítico


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 02/03/2011 | Tradução Marcelo Barbão

Às vezes, e parece que isso acontece com muito mais frequência hoje em dia, o futuro chega mais rápido do que se espera.

Seguidores desse blog, e dos meus discursos antes de existir um blog [este é de 2001!], sabem que há muito tempo espero o momento em que muitas pessoas passarão a ler mais e-books do que livros impressos. Errei no ritmo que isso ia acontecer. [Há dez anos eu esperava que isso acontecesse em 2006 ou 2007.] Errei em relação à questão da diferença que faria um aparelho de leitura [leio muito confortavelmente no celular, e antes disso num PDA, por isso achei que poucos iriam querer mais um aparelho somente para ler]. E estou repensando minhas expectativas em relação aos enhanced e-books e à utilidade da leitura social.

Mas há muito tempo ficou claro para mim que os e-books oferecem vantagens incríveis sobre os impressos – portabilidade, facilidade de compra e custos menores que devem inexoravelmente reduzir os preços – e que isso iria influenciar muitas das pessoas que, cada vez mais, estão na frente de uma tela a maior parte de seu tempo. E minha longa experiência lidando com a administração de livrarias deixou evidente que a consequente diminuição de vendas em lojas físicas iria levar a falências, o que aumentaria as distâncias para os clientes chegarem às lojas, e isso por sua vez motivaria mais pessoas a comprar livros impressos ou digitais online. O que iria levar a mais falências. É um círculo virtuoso se você estiver no negócio do e-book ou de vendas de livros impressos on-line. Ou se quiser ver os norte-americanos consumindo menos gasolina.

É um círculo vicioso – uma espiral mortal – se você é dono de uma livraria.

Michael Cader, da Publishers Lunch, informou [é preciso ser assinante para acessar os links] que os números da BookScan mostram uma queda na venda unitária de livros impressos em torno de 4,4 % de 2009 para 2010. Mas não acredite nesse número. Já está desatualizado. Cader fez uma análise mais profunda de mais dados recentes da BookScan mostrando que as vendas de livros impressos tinham caídomais de 15% em comparação com o ano anterior nas primeiras seis semanas de 2011! E a parcela de livros impressos vendidos online continua aumentando, então isso, quase com certeza, significa que as vendas em lojas caíram ainda mais rapidamente. As vendas de livros impressos em lojas podem ter caído 20% ou 25% em comparação com o ano passado? Claro que sim!

Vendas de iPads, Kindles e Nooks excederam as expectativas para o Natal de 2010. Dominique Raccah, chefe da editora independente Sourcebook, uma empresa com uma linha diversificada, informou em seu blog que as vendas em sua empresa em janeiro foram 35% através de métodos digitais!

Não me espanta que ela diga: “Podemos estar bem no ponto de virada. Suspeito que vamos ver alguma revisão quando os editores olharem seus números no final do primeiro trimestre de 2011.”

Ouvi o argumento de umas pessoas muito inteligentes falando que a adoção do e-book vai se estabilizar em algum momento. Como ela tem dobrado, ou mais, nos últimos três anos e tem sido frequentemente colocada entre 13 e 19% para nova ficção e não-ficção no último trimestre de 2010, sabemos que não poderá continuar a dobrar nos próximos três anos, ou iria ultrapassar os 100%. Mesmo assim, previsões de que as vendas de e-books chegarão aos 50% nos próximos cinco anos e que o espaço em prateleiras nas livrarias vai cair igualmente pela metade nos próximos cinco anos – que era a minha opinião – parecia algo bastante agressivo há seis meses.

Não parece mais.

A parcela de renda que a Borders representava para as editoras está ao redor de 8%. Poderia ser 10% ou 12% se víssemos só as vendas em lojas físicas. Assim, se a Borders desaparecesse completamente amanhã [e isso não vai acontecer] e mesmo se todo livro que eles vendessem em suas lojas fossem, de alguma forma, comprados na loja de outra pessoa [o que não vai acontecer], a redução da venda de livros em lojas seria tão grande que todas as outras livrarias, coletivamente, veriam um declínio substancial de vendas ano a ano.

Tudo isso significa que 2011 será um verdadeiro “apertem os cintos, o piloto sumiu” para as editoras. E Raccah está certa ao afirmar que as editoras ficarão um tanto quanto perdidas ao olharem seus números no primeiro trimestre desse ano.

Um impacto sobre o qual as editoras sofisticadas estão conscientes, mas que não é tão óbvio para olhos pouco treinados, é que com as vendas caindo, as porcentagens de retorno, inevitável e inexoravelmente, vão subir. Quando um editor calcula uma porcentagem de devolução para qualquer período – uma semana, um mês, um trimestre ou um ano – está medindo as devoluções recebidas e creditadas naquele período em relação às vendas feitas no mesmo período. Mas a devolução na verdade está ligada às vendas feitas em períodos anteriores; mesmo na pior das situações, poucos livros são devolvidos menos de três meses depois de seu pedido.

Então, o que está acontecendo agora é que os envios estão diminuindo – quase nenhum ou muito pouco para a Borders e com expectativas caindo em outros lados – enquanto que as devoluções estão crescendo porque estão sendo devolvidos os pedidos feitos a partir das expectativas mais altas dos últimos seis ou doze meses. Isso significa que as vendas por internet que estão sendo realizadas agora – envios menos devoluções – poderiam, para muitos, ser um desapontamento que beira a desolação.

E as porcentagens de devolução não são as únicas porcentagens problemáticas. Duas outras nas quais se baseiam as editoras serão mais desafiadoras.

A porcentagem do preço de um livro impresso que é constituído pelo “custo unitário de fabricação” é um. O custo unitário é algo extremamente sensível. Se você está imprimindo menos livros e se precisa segurar os preços de varejo [duas coisas que certamente acontecerão], a porcentagem da receita gasta na criação de livros impressos irá aumentar.

O segundo ponto problemático é que as editoras gostam de pensar os custos fixos como porcentagem. Muitas editoras ainda seguem a prática pouco inteligente de colocar um cálculo de porcentagem sobre os custos fixos em seus cálculos de cada livro. Mas se o volume de vendas cair mais rápido do que os custos fixos puderem ser reduzidos, essa porcentagem aumentará também. E não dá para reduzir de forma eficiente esses custos rapidamente. Demitir pessoas é geralmente uma ilusão; estamos sempre ouvindo falar de freelancers que conseguem trabalho porque as editoras demitiram a equipe que costumava fazer a mesma tarefa. Mas, além disso, custos de manutenção do espaço de trabalho e galpão de armazenamento, além de investimentos em sistemas não sobem ou diminuem de acordo com o volume [que é exatamente por isso que é um erro de lógica calculá-los como uma porcentagem da renda!]. Editoras que estão usando porcentagens sobre custos fixos para calcular suas margens em cada título que contratam vão descobrir que esses números precisam ser reconsiderados também.

Apesar de a Barnes & Noble sentir a queda nas margens de todas as livrarias físicas, eles estão, sem dúvida, bem conscientes da sua crescente importância para todas as editoras num futuro mundo sem a Borders. A B&N quase certamente estará procurando melhores termos de negociação e as editoras quase certamente sentirão a fraqueza de sua posição ao lidar com esses pedidos. E isso sem contar o fato de que as editoras realmente querem que uma Barnes & Noble saudável mantenha sua capacidade de mostrar os seus livros ao público.

Então, as vendas estão caindo, os retornos estão crescendo, o custo dos bens está subindo, as margens das vendas estão caindo, e manter os custos fixos corretos será um problema crescente. A boa notícia é que as vendas dos e-books estão crescendo e as margens deles – pelo menos até agora – foram bem preservadas.

Mas o primeiro sinal significativo de que os preços dos e-books vão cair chegou com a notícia de que e-books de 99 centavos de dólar estão começando a aparecer na mídia e nas listas de best-sellers que saem no The New York Times e no USA Today. Isso cria alguns problemas horríveis. Coloca autores anteriormente desconhecidos com livros por 99 centavos de dólar aparecendo como criadores de best-sellers. E encoraja as editoras já estabelecidas a cortar os preços para alcançar números de vendas que os coloquem nessas listas.

No mínimo, imagino que as editoras vão começar a pedir que o New York Times e o USA Today considerem a renda total que um livro gera no comércio [preço vezes unidade] quando criarem as listas, e não se baseiem somente nas quantidades de exemplares vendidos. Como as editoras estabelecidas compram muito mais anúncios que os autores de livros de 99 centavos, podemos esperar que eles, pelo menos, dêem alguma atenção a elas.

As editoras terão de lutar para manter seu negócio lucrativo e repensar muitas das práticas mais reconhecidas nas próximas semanas.

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 02/03/2011 | Tradução Marcelo Barbão

Oportunidade não bate à porta, chuta!


Escrito por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 23/02/2011

Num post recente, discuti o desenvolvimento de mercados de e-books no mundo todo, especialmente na Europa, e observei que dez anos ou mais de esforços de digitalização no mundo de língua inglesa teriam um impacto considerável nos mercados de e-books em países com outros idiomas. Antes, quando escrevi sobre isso foi para enumerar o desafio que acho que os editores em outras línguas devem esperar em seus mercados locais.

Hoje, quero ver a mesma situação de uma perspectiva oposta e considerar a oportunidade do ponto de vista dos editores de língua inglesa. Na verdade, é possível que seja tão substancial que irá adiar o Armageddon para grandes editoras em geral, cujos desafios causados pelo inevitável declínio das livrarias me preocupam há muitos anos e que foram o assunto ou subtexto de muitos posts nesse blog.

Quero descrever uma oportunidade que é perversamente difícil de dimensionar precisamente. Precisaríamos saber quantos candidatos a ler livros em inglês existem nos EUA, no resto dos países de língua inglesa e depois em países de outros idiomas. A Wikipedia diz que o mundo tem 914 milhões de pessoas que falam inglês, dos quais 251 milhões estão nos EUA, 232 milhões na Índia e 168 milhões em países com outras línguas maternas na Europa. Mas esses dados não são atuais e os números dos EUA, por exemplo, são do censo de 2000.

Uma fonte com quem conversei recentemente que trabalha com estatísticas, e que possui razões para estar bem informado, insiste que o mundo possui 600 milhões de falantes nativos de inglês e 1,4 bilhão de falantes de inglês em outros países. Se isso for verdade, os EUA teriam menos de 1/6 do total em suas fronteiras.

Os EUA, pela contagem de quase todo mundo, possuem menos de 1/3 das pessoas que falam inglês. E todo mundo parece medir “falantes de inglês”, não “letrados em inglês”. Mas o mercado de leitores de inglês em países onde não se fala a língua, tanto hoje quanto em algum momento quando for pesquisado, com certeza está crescendo mais rápido do que os mercados nativos. Então, se aceitarmos a premissa de que e-books acabarão colocando esses leitores de e-books potenciais dentro do alcance de editores nos Estados Unidos [e Grã-Bretanha, Canadá, Austrália e outros países de língua inglesa, claro], estamos vendo as estradas de acesso sendo construídas para uma base de clientes que poderia dobrar [até mais do que isso] em relação ao que existia antes.

A maior parte desse mercado secundário em inglês, certamente do ponto de vista de consumo, está na Europa. Minha viagem para a Conferência IfBookThen em Milão há alguns dias, organizada pela nova livraria de e-books italiana Book Republic em parceria com o 4IT Group, me deu uma grande oportunidade para entender ainda mais como pode ser animadora essa perspectiva para toda a comunidade – editores, agentes e autores – que dividem os rendimentos das vendas da literatura em língua inglesa.

Tenho algumas experiências pessoais incomuns para me ajudar a antecipar como vai ser quando os consumidores franceses, alemães, italianos, etc., começarem a descobrir as virtudes dos e-books. Descobri como poderia ser incrivelmente conveniente e satisfatório ler numa tela pequena quando comecei a usar um Palm Pilot, 10 ou mais anos atrás. “Sempre levar meus livros comigo” é uma vantagem enfatizada muito frequentemente na comparação impresso X e-book [parcialmente porque não se aplicaria da mesma forma com pessoas que leem num Kindle ou Nook ou iPad como faz com quem lê num iPhone ou em qualquer outro telefone ou PDA que se pode levar no bolso], mas é poderoso. Foi poderoso o suficiente para me conquistar totalmente desde a primeira vez.

Mas quando comecei a ler dessa forma, era uma pequena minoria e permaneci assim por muitos anos. Os poucos que liam e-books antes do Kindle logo encontraram um problema que os consumidores franceses, alemães, italianos, etc. vão começar a encontrar, independente do aparelho no qual leem. Não havia o suficiente para escolher! Lembro rotineiramente de passar 15 ou 20 minutos ruminando as escolhas, vendo o que eu já tinha lido a cada vez que ia comprar algo e sem encontrar muitas coisas que queria ler. Foi por isso que, até a chegada do Kindle e o número de títulos disponíveis ter explodido, acabei fazendo algumas escolhas estranhas: ler Tarzan [ainda bem] e comprar e ler a biografia de Grover Cleveland [presidente norte-americano] cujo e-book custou 28 dólares! [ainda bem que comprei esse também.]

Comprar exigia uma frustrante perda de tempo e a pouca disponibilidade de títulos era a razão pela qual eu continuei a ler alguns livros impressos nos primeiros anos sendo que estaria bem disposto a passar totalmente para os e-books [algo que agora já fiz].

Mesmo nos primeiros anos da última década, no entanto, o número de e-books em inglês era maior do que o número de e-books na maioria das línguas europeias que os consumidores encontrarão neste ano ou no futuro próximo. O número incrivelmente pequeno de livros convertidos para epub na maioria dos países europeus garante que nossos amigos europeus vão sentir a mesma frustração irritante que eu tive no passado.

Até começarem a comprar e-books em inglês.

E vão. Na verdade, eles já compram. Informei no post anterior que ouvimos o dado de que 25% dos livros impressos vendidos na Dinamarca estão em inglês. Um amigo na pequena Eslovênia informa que mais de 15% dos livros vendidos ali estão em inglês. Um livreiro escandinavo com várias lojas na Escandinávia e em Berlim que conheci na IfBookThen informou que 20% dos livros que ele vende estão em inglês. E as vendas acontecem apesar das barreiras dos custos [e, portanto, do preço] e do suprimento [e, portanto, da escolha] inerentes em bens físicos.

[A consultoria A.T. Kearney fez uma pesquisa com a equipe da Book Republic para preparar a IfBookThen. Descobriram 100.000 títulos em epub em alemão e 50.000 em francês, menos de 2/3 e 1/3, respectivamente, do que a Amazon tinha em inglês há mais de três anos. E descobriram menos de 10.000 disponíveis em espanhol, italiano ou sueco!]

E apesar de o norte europeu ter mais fluência no inglês do que o sul, descobri um fato interessante [através de um britânico, não de um italiano] enquanto estava em Milão. Francês era a segunda língua ensinada a todas as crianças italianas nas escolas até 1991 quando foi substituído pelo alemão. O alemão durou pouco. Desde 1997, a segunda língua que todas as crianças italianas aprendem é o inglês. Então as escolas italianas se tornarão clientes de publicações em língua inglesa que aumentarão sua presença na população local a partir de agora. Isso é um sintoma da mudança acontecendo em todo o mundo, mudança que está criando novos clientes para editores de língua inglesa.

Um amigo norte-americano numa grande editora que não está entre as Seis Grandes me contou na semana passada que 10% dos e-books que está vendendo vem de fora dos EUA [e isso não inclui o Reino Unido]. Uma livraria global de e-books me contou que 7% de suas vendas de livros em inglês hoje vem de países cujo idioma não é o inglês. Esses números vão aumentar inexoravelmente e, às vezes, até em arrancadas explosivas, por muitos anos ainda. Seria necessário pesquisar com mais cuidado para tentar prever a porcentagem de venda de e-books em língua inglesa que poderiam acontecer em países cujo idioma não é o inglês, mas acho que o número poderia chegar a algo entre 25-35% nos próximos cinco ou dez anos, e não seria um chute muito alto. [Se serão em cinco ou dez anos é algo que será muito mais evidente em 2012-13.]

E apesar de algumas pessoas se perguntarem se as vendas de e-books que estão sendo feitas agora são canibais ou incrementais [quase certamente são os dois!], as vendas que serão feitas no exterior em países cujo idioma não é o inglês mais provavelmente serão incrementais. Elas poderiam acrescentar mais vendas nos próximos cinco anos do que os problemas na Borders vão subtrair hoje.

Isso não é um cenário futuro em relação ao qual as pessoas podem relaxar e esperar. Essa é uma oportunidade imediata.

Este situação deve significar o final de mercados abertos para e-books em língua inglesa e isso vai acontecer logo. Mercados abertos funcionaram por anos para impressos, dando a múltiplas empresas um incentivo para explorar as oportunidades de vendas com esforço e serviço. Mas mercados abertos para e-books certamente vão recompensar somente um atributo: o menor preço. Como os e-books se beneficiam de um reforço relativamente confiável de preços diferenciados por mercado [para aqueles contrários ao DRM, essa é mais uma razão pela qual ele vai continuar por mais tempo], os consumidores de outros idiomas logo serão capazes de identificar os e-books de mercado aberto. Serão os realmente baratos!

Agentes não podem deixar essa situação continuar. Aqueles que não estão fechando mercados abertos para e-books certamente farão isso daqui a pouco. Os editores britânicos têm tentado fechar a Europa a favor deles há alguns anos; ouvi essa “anedata” [adorei essa nova palavra!] em Milão que sugere que os editores norte-americanos acordaram para isso e agora estão brigando para recuperar os mercados abertos.

Seria lógico que o mercado aberto para e-books irá para o editor que preencher o cheque maior ou for o primeiro, e que mais frequentemente será um cheque dos EUA.

Isso também leva a uma nova preocupação de oportunidades globais [na verdade, para ser mais preciso, “glocal”, que eu descreveria como “global, mas com alvos claros”] em marketing, principalmente porque isso acontece cada vez mais on-line. Para vermos um exemplo recente tirado de minhas leituras pessoais, Fall of Giants de Ken Follet, há muitos ganchos na história para ganhar o interesse de leitores em toda a Europa, mas principalmente na Rússia e na Alemanha, onde acontece muito da ação. Fall of Giants é um romance; as oportunidades serão ainda maiores com não-ficção. Não sei exatamente quando isso levará toda editora norte-americana de certo tamanho a colocar uma pessoa cuidando do “marketing glocal” ou acrescentar um “componente de marketing glocal” aos planos de muitos livros, mas isso poderia acontecer agora. Não vai demorar muito, com certeza.

Escrito por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 23/02/2011

Como ganhar a briga pela venda dos e-books?


Eu leio todos meus livros no meu iPhone e costumo ter diferentes livros abertos em vários e-book readers ao mesmo tempo. Essa é uma mudança drástica no velho hábito de ler um livro por vez. Nunca pensei que seria divertido ler dessa forma porque as limitações físicas de carregar vários livros de papel para todos os lados nunca me encorajou a pensar em algo assim.

No momento estou lendo Joe Cronin, de Mark Armour, e Crossing the Chasm, de Geoffrey A. Moore no Google Books; Washington, de Ron Chernow no Nook reader [que agora percebi que não marcou minha última leitura e está me forçando a descobrir em que parte eu estava, o que não é nada bom]; Brooklyn Dodgers: The Last Great Pennant Drive, de John Nordell no Kobo; e The Autobiography of Mark Twain, no Kindle. Tenho o iBooks reader no telefone, mas não compro na loja dele porque nunca vi nenhuma vantagem especial no reader e a loja possui bem menos títulos do que os concorrentes.

Agora, você se importou com os detalhes do que falei? Aposto que a maioria dos leitores não, a não ser dentro do limite de que esperam que eu faça alguma discussão conceitual sobre esses detalhes pessoais que falei no parágrafo anterior [e é claro que vou fazer]. Meu palpite é que a maioria leu o primeiro parágrafo curto e passou por cima do segundo que, francamente, não é realmente necessário para mostrar minha ideia. Mas creio que alguns poucos ficaram bastante interessados. [Mas por favor não me contem seus detalhes, eu faço parte da maioria].

Onde eu compro os livros é algo bem caótico. Minha ordem de preferência para ler [no momento porque isso muda e eu uso todas as possibilidades] é Kobo, Kindle, Google, Nook. Kobo, Kindle e Nook possuem dicionários incluídos; pressione [só tocar não adianta] em cima da palavra e aparecerá uma definição e a possibilidade de criar uma nota, ou então um link para a Google ou a Wikipedia. O problema para mim é que, no iPhone, nem sempre consigo fazer esse recurso funcionar. Minha experiência pessoal mostra que a funcionalidade é mais confiável no Kobo e bem menos no Kindle e na B&N, mas não sei se essa experiência pode ser considerada representativa em comparação com outras pessoas com iPhones, dedos e livros diferentes.

A Google ainda não oferece essa capacidade, nem mesmo simples marcação de página [que todos os outros têm], mas aposto que isso não vai demorar para ser implementado.

Nenhuma das plataformas oferece um desempenho perfeito na minha experiência de uso [e a sua pode ser diferente]. Meu Kobo já “travou”, forçando-me a reiniciar o telefone para que voltasse a funcionar. A formatação do “Mark Twain” do Nook no meu iPhone era um desastre. [Falei sobre isso com algumas pessoas da B&N; talvez tenham consertado. Quando perguntei ao editor da UC Press, a resposta foi que o arquivo funcionava bem no aparelho Nook, mas sei que não funcionava no meu Nook para iPhone. Dá para ler muito bem no Kindle para iPhone.] O Kindle é frustrante para mim porque eu gosto muito de ler com alinhamento à esquerda e, até onde sei, o Kindle sempre mostra as páginas justificadas e não há como mudar. Acho que a navegação do Google e do Kobo são mais intuitivas para mim e me dão mais controle da experiência de leitura. O Nook não parece ter uma forma de travar com a tela na vertical então não dá para ler na cama de lado.

Se penso num livro que quero quando estou lendo outro, é mais provável que compre no reader que estou usando só porque é o que está aberto. Graças à combinação de modelo de agência e monitoramento do preço em tempo integral, é improvável que haja qualquer vantagem financeira de ficar procurando em várias lojas. Se eu sei exatamente qual livro quero, não existe nenhuma diferença especial entre os quatro em termos de facilidade de uso ou velocidade de transação.

Há uma dinâmica que claramente favorece o Kindle. Tenho um aparelho Kindle, que comprei nas primeiras semanas em que este saiu ao mercado. Li muitos livros nele no primeiro ano. Dei o aparelho para minha mulher quando o Kindle colocou sua vasta seleção disponível no iPhone. Martha lê muito mais livros do que eu; mas os gostos são muito diferentes. Quando decidi que queria ler Stieg Larsson, ela já tinha comprado para Kindle, então li no aparelho [é tudo a mesma conta.] E quando comprei o novo Ken Follett do Nook, ela o acessou em Nova York enquanto eu estava lendo em Frankfurt usando o iPad que compartilhamos [mas que nenhum dos dois gosta de usar para ler livros porque é muito pesado.]

Tudo isso leva à pergunta conceitual que prometi acima: o que uma loja deve fazer para fidelizar seus clientes? E para responder essa pergunta devemos também ter algo em mente: os pequenos grupos são importantes.

Vamos olhar no passado e dizer que havia um relativamente pequeno grupo de usuários iniciais do Kindle que foram os principais catalisadores de cada vez mais profundas mudanças na edição de livros [mudanças que ainda estão começando]. A Amazon estava numa posição única para entregar uma proposta nova e com valor para as pessoas que podiam se beneficiar mais dos aparelhos de leitura. E eles capturaram e, por um tempo, fidelizaram um grupo relativamente pequeno de pessoas que leem muito, porque quanto mais livros você lê, maior o benefício relativo do Kindle, em termos de funcionalidade e de economia.

Pode ser que um dia o formato de arquivo [relativamente] fechado do Kindle se torne um problema para as vendas, mas é difícil ver que isso vai acontecer agora, principalmente se a Amazon cumprir com seu recente anúncio de que em breve vai produzir um Kindle baseado em browser. [Eu deveria acrescentar que li relatórios de que o Google books funciona bem num aparelho Kindle através do web browser do aparelho. Como meu Kindle é um dos primeiros modelos, sem wi-fi e com uma conexão muito lenta, não estou em posição de confirmar isso.] Mas, por agora, a Amazon possui muitos milhões de felizes donos de aparelhos para quem comprar um livro de qualquer outra forma seria mais um problema do que uma solução.

Então, de qual outra forma a loja pode fidelizar o cliente? A Google tentou vender o valor de que você será o gerente da sua “estante” onde todos seus livros estarão disponíveis o tempo todo, em qualquer aparelho, etc. A ideia parece ser tirada do conceito do iTunes, mas esse é outro exemplo que nos faz lembrar que “livros não são iguais a música”. É importante ter toda sua música num só lugar. Nunca vou ter nenhum motivo para precisar que “Washington” e “Joe Cronin” estejam no mesmo reader, mas seria importante ter uma música de 1958 e uma de 1992 tocando consecutivamente quando eu quiser.

Então, o importante para a iTunes foi: a] permitir que fosse fácil ripar facilmente seus CDs, e para isso o banco de dados de metadata foi um recurso extremamente importante; e b] permitir que se comprasse qualquer outra música que se quisesse pelo método de download em algum sistema de hospedagem. Posso ser um extremo na desorganização dos meus hábitos de leitura, mas acho que poucas pessoas iriam exigir algo parecido às capacidades de agregação do iTunes para seu material de leitura.

Então, o que mais? A The Copia [nosso cliente durante uma boa parte do ano passado, que estará no meu iPhone assim que o aplicativo deles estiver pronto] possui uma proposta para tentar resolver isso, que é criar um aplicativo de rede social em conjunto com o leitor. Se eu estivesse no The Copia e tivesse todos os livros dos quais estou falando no aplicativo deles, vocês seriam capazes de ver os detalhes que eu apresentei no segundo parágrafo sem que eu tivesse de contar.

E isso me leva à segunda questão: que pequenos grupos são importantes. Porque, claramente, há pessoas que se importam com o que os outros estão lendo e que querem compartilhar suas anotações para que os outros possam ver. E se eu me importar em mostrar minhas experiências de leituras, vou querer que todos meus livros estejam no The Copia. Isso é um método de fidelização. E, quem sabe, pode ser que eu descubra que vale a pena compartilhar informações com outras pessoas loucas pela história do beisebol. [Apesar de que me pergunto se sou a única pessoa que acha o sublinhado sutil do Kindle, que mostra, quando você passa o mouse sobre um item, que “87 pessoas destacaram essa passagem”, ao mesmo tempo inútil e distrativo.]

Fidelizar um pequeno grupo é o que a Kobo está pensando com os novos recursos de leitura social que acabaram de introduzir. Estão disponíveis agora somente na versão iPad do aplicativo, mas eles “acompanham” sua leitura, dão recompensas por terminar um livro e permitem que o mundo saiba em que ponto você está de um livro. As pessoas que acham isso bom, e existem algumas, agora terão um motivo para usar o Kobo e somente o Kobo, assim como as pessoas que possuem um Kindle tem uma razão para usar somente a Amazon e o The Copia espera ganhar as pessoas que gostam de redes sociais e que conseguem ver menos valor no resto.

Por outro lado, espero que as capacidades centrais fiquem mais parecidas com o tempo. A Google vai acrescentar links externos para dicionários e fontes de referência. Todas as plataformas vão melhorar a resposta de seus aplicativos para meus dedos gordos no iPhone. Se as estatísticas sociais da Kobo provarem ser algo que arrasta os consumidores, os outros vão acrescentar algo parecido.

Uma coisa que descobri ser muito legal de fazer no iPhone é a capacidade de copiar a tela como se fosse uma foto, o que me permite enviar por e-mail. Há um fabuloso gráfico no novo livro de Robert Reich, “Aftershock”, que deixa muito claro o fato de que uma coisa que atrapalha muito a economia norte-americana é que o 1% dos mais ricos é dono de uma parte muito grande da renda nacional. Adorei ser capaz de copiar aquela tabela como foto e enviá-la para meus amigos. Acho que uma tela de iPhone de conteúdo é pequena o suficiente para não ser considerada pirataria. [Essa é a minha versão e eu a defendo.]

Mas o que mais me importa é a experiência de merchandising e de compra, que a Kobo parece estar ganhando até o momento, mas que não é excelente a ponto de não poder ser superada. [E, como eu apontei acima, se você sabe qual livro em especial quer comprar, todas as lojas são iguais e é difícil que se destaquem.] Há muitas formas de melhorar a experiência de compra, mas eu vou deixar meus pensamentos para outro post.

Então, a maioria dos cavalos já saiu da linha de largada e a Amazon está claramente na dianteira. Mas qualquer um que acha que a corrida pela venda de e-books terminou deveria pensar nisso: não sabemos ainda nem qual é o conjunto de recursos que irá ganhar, muito menos quem vai conseguir descobri-lo no longo prazo.

Sei que essa análise está incompleta. Não leva em conta os readers exclusivos como o IBIS Reader da Liza Daly nem as lojas de e-book independentes como a pioneira Diesel Ebooks. Não fala da Sony, que pode ainda ter um pedaço maior do mercado do que a Kobo [apesar de que, se possuem, minha previsão é que não será por muito tempo]. Nos dias antes do Kindle, quando eu lia meus e-books em formato Palm num aparelho Palm ou outro PDA, comprava na Diesel. Não descarto as chances de ninguém nesse momento, já que ainda é o princípio do desenvolvimento da infraestrutura da leitura digital, mas acho que meu iPhone e esse post capturam as fontes que oferecem a maior seleção de conteúdo que poderiam me interessar. E estou razoavelmente certo de que estou falando aqui das empresas que fornecem a grande maioria dos e-books lidos nos EUA, no geral mais de 90% e provavelmente perto de 95%.

Texto escritor por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 23/12/2010