Editores comentam os erros mais comuns na hora de negociar a publicação de um livro


Conhecer a linha editorial, revisar o original, não ser arrogante e ser paciente são algumas das dicas dos editores

O processo de negociação de um livro envolve muita ansiedade e alguns erros de percurso podem ser evitados. É preciso ter calma e saber que o tempo de análise da editora é lento. A pressa e a cobrança por uma resposta podem antecipar uma recusa. Mas é importante saber, também, que o caminho tradicional não é o único e que hoje, com tantas plataformas de autopublicação, lançar um livro é fácil. Portanto, quem não fizer questão de publicar por uma editora tradicional pode ter o livro em mãos num curto período de tempo – pagando ou não. Divulgar, distribuir, ser descoberto e vender são outros quinhentos e o trabalho será árduo.

Os editores Carlos Andreazza, do Grupo Record, e Eduardo Lacerda, da Patuá; a agente literária Marianna Teixeira, da MTS; o presidente do Clube de Autores, Ricardo Almeida; e a publisher da Livrus, Chris Donizete, comentam os erros e as ansiedades e dão dicas para quem pretende tirar um original da gaveta.

A maioria das editoras tem orientações em seus sites sobre como mandar originais. E é primordial conhecer a linha editorial das casas antes de entrar em contato. “Talvez o maior erro seja não ler corretamente as orientações para envio de originais. Por exemplo, uma editora deixa explícito em seu FAQ que não publica livros de autoajuda ou jurídicos ou poesia, mesmo assim o autor se desgasta enviando seu original para essa editora, liga pedindo a avaliação do original, acaba se irritando com a negativa, mesmo que a negativa seja explicada já anteriormente ao envio do original. Outro erro comum, até engraçado, é que muitos autores enviam o original com cópia aberta para dezenas de editoras ao mesmo tempo“, comenta Eduardo Lacerda.

Outro erro, segundo Lacerda, é enviar o original focando na própria expectativa de vendas expressivas, de sucesso imediato. “É um direito do autor criar essa expectativa, mas é antecipar uma frustração considerando que mesmo autores publicados por grandes editoras têm enormes dificuldades para viver apenas de venda de livros“, completa.

Para Marianna Teixeira, o autor não pode ser arrogante e pretensioso. “Tem que entender que o agente ou o editor estão apostando no trabalho dele e que todos estarão em busca dos melhores resultados. Também é preciso saber ouvir e ter disposição de trabalhar duro“, diz.

Se a pessoa me mandou um e-mail e eu respondi dizendo que vou avaliar e que vou entrar em contato, isso vai acontecer – mas pode demorar. Então, não tem problema nenhum essa pessoa escrever ou ligar perguntando se eu esqueci o livro. Mas se ele insiste e cobra muito, ele vai precipitar uma resposta minha liberando, sugerindo que ele procure outra editora se tiver muita pressa. Não é que a pessoa deva entregar o livro na editora e não fazer um controle disso, mas é importante que ele se informe um pouco sobre a dinâmica desse mercado, saiba quantos livros a editora publica por ano, para entender como é o processo de seleção para chegar nessa peneira tão restrita”, explica Carlos Andreazza.

Para Ricardo Almeida, presidente do Clube de Autores, o grande erro de quem opta pela autopublicação é acreditar que basta publicar e esperar que as vendas aconteçam. “O mercado não é mais assim. Para falar a verdade, acho que jamais foi. O escritor precisa entender que escrever a história é apenas o primeiro passo. Ele precisa saber construir a sua audiência, mantê-la próxima, bem cuidada e sempre engajada. Se conseguir fazer isso, terá um caminho brilhante pela frente.”

Ansiedade gera erros. Muitas vezes o autor atropela o processo. Muitos marcam lançamentos antes da obra sequer ter entrado em gráfica. Há autores que chegam até nós, com originais que julgam prontos para a publicação e na lida do primeiro parágrafo já encontramos erros gramaticais“, aponta Chris Donizete, publisher da Livrus.

Para quem quer publicar um livro neste momento, Marianna Teixeira diria: “Você vai começar a se tornar um autor quando for publicado. Ou seja, quando o seu trabalho se tornar público. Isso demanda não somente talento, mas trabalho, obstinação e paciência. Então seja bastante rigoroso com o que vai apresentar aos leitores. Eles são muito exigentes. Acredite, ser escritor não é para os fracos”.

Já Eduardo, “que atualmente publicar um livro é extremamente simples e barato, quando não é de graça. Que muitas das pequenas editoras podem fazer um trabalho tão importante, de qualidade e relevante quanto as grandes. E que o trabalho com a literatura e com o livro é um trabalho que só dá resultados a longo prazo e que é um trabalho para muitas mãos. Que editores e editoras, ao mesmo tempo que hoje são desnecessários para quase todos os processos de feitura do livro, ainda podem [e devem] surpreender e ser sempre um parceiro do escritor”.

Por Maria Fernanda Rodrigues | Publicado originalmente por ESTADÃO | 23/01/2016, às 04h59

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Mercado editorial brasileiro: crescimento e cultura digital


Segundo dados da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, lançada em 2012, há 88,2 milhões de leitores no país, de um total de 178 milhões de brasileiros com mais de cinco anos de idade. São considerados leitores, segundo um critério internacional, pessoas que leram pelo menos um livro nos últimos três meses. E apesar de o número de leitores ter diminuído em relação à última pesquisa realizada em 2007, os resultados registram que 49% dos atuais leitores afirmam estar lendo mais do que leram no passado. Esse aumento do volume de leitura pode explicar o crescimento das vendas de livros nos últimos anos. Segundo a última edição da pesquisa “Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro”, divulgada em julho de 2012, as editoras brasileiras tiveram um aumento de 7% nas vendas com relação a 2010. No período, também houve um aumento do número de publicações em torno de 6%.

E a diversidade marca esse panorama: com quase 500 editoras atuantes no mercado, sejam nacionais, internacionais ou de capital misto, e também com muitos autores nacionais conceituados, o mercado no Brasil tende a crescer. “O mercado editorial brasileiro vem crescendo e se profissionalizando, acompanhando o desenvolvimento econômico do país sobretudo nos últimos 20 anos. Isto se revela no aumento do número de editoras e livros publicados, assim como do padrão de qualidade dos serviços e produtos; no interesse crescente dos grandes grupos internacionais pelo mercado interno; na maior visibilidade que os autores brasileiros vem conquistando no exterior; e no oferecimento de cursos específicos voltados para trabalho editorial”, analisa o editor Cide Piquet, da Editora 34.

Projetos editoriais para públicos diferentes

Ao lado das grandes editoras, como a Companhia das Letras, Objetiva e Martins Fontes, por exemplo – com catálogos grandes e heterogêneos – destacam-se no também aquelas de perfil mais específico, como é o caso da Cosac Naify. “Ocupamos um nicho de mercado de livros de alta qualidade editorial, respondendo por um catálogo de valor literário e de referência para as distintas áreas em que atuamos. Nosso público vem do meio cultural e universitário, leitores exigentes em geral”, explica Florencia Ferraria, diretora editorial da Cosac Naify.

O público acadêmico é também um dos principais leitores da Editora 34, que tem um catálogo focado nas áreas de filosofia contemporânea, sociologia, estudos literários, música e literatura, tanto nacional como estrangeira. Outro exemplo de editora com perfil específico é a Zarabatana Books, voltada para a publicação de quadrinhos autorais, cujo público vai além dos leitores habituais de HQs. “Do ponto de vista de nossa linha editorial, vejo o mercado brasileiro em grande expansão, com o surgimento de novos talentos nacionais assim como a publicação de HQs de diversas partes do mundo, tanto de clássicos como de novos autores. Atualmente existe também o reconhecimento e a valorização dos quadrinhos por entidades públicas brasileiras, através de programas de apoio à edição e compra de obras para bibliotecas escolares”, diz Cláudio Martini, editor da Zarabatana Books.

Nesse mercado de nichos, não se pode esquecer das pequenas editoras, que publicam jovens escritores, como é o caso da Não Editora, da Patuá, da Demônio Negro e d’A Bolha, entre outras. Essas editoras têm um papel bastante importante não só em lançar nomes, que mais tarde irão se fixar no mercado em editoras de maior porte, mas também em criar um público para as novas gerações de escritores.

Formato digital

Não há como falar hoje em mercado editorial sem pensar nos livros digitais. Ainda recentes no Brasil, os e-books já começam a trazer resultados para as editoras. A primeira empresa de tecnologia para leitura digital a entrar no mercado brasileiro foi a Kobo, em parceria com a Livraria Cultura. Hoje, porém, livros digitais em português podem ser adquiridos na Amazon, Apple e Google. E as principais editoras do país já colocaram o pé no digital: a Companhia das Letras, por exemplo, tem um catálogo de mais de 600 e-books, incluindo literatura brasileira e estrangeira. Rocco, Objetiva, Record e Zahar também oferecem um catálogo grande e variado de publicações digitais.

Para entrar nesse mercado, em 2011, a Editora 34 fez uma experiência: lançou a Nova antologia do conto russo, na íntegra e em e-book, mas também em partes, ou seja, cada conto poderia ser comprado separadamente. “A recepção foi muito boa. O conto Depois do baile, de Tolstói, chegou a ficar na lista dos mais vendidos da Livraria Cultura”, conta Piquet. Entre os critérios da editora para a escolha dos títulos para publicação digital estão a relevância do título, a viabilidade do contrato e a adequação ao formato. Fazem parte das próximas ações digitais da 34 o lançamento de títulos de não-ficção e também de títulos esgotados no catálogo convencional.

Mais recentemente, em abril deste ano, a Cosac Naify lançou seus primeiros e-books. “Nossas edições procuram trabalhar com os melhores tradutores e oferecer aparatos de especialistas do tema, além de material extra para que o leitor possa ampliar seu conhecimento em relação ao texto principal. Parte desse material editorial se mantém nos e-books”, esclarece Florencia Ferraria.

O papel das feiras

Se por um lado o mercado está aquecido, por outro, ainda há um grande desafio: conquistar um público leitor maior. Além das escolas e universidades, cumprem parte desse papel as Feiras do Livro e eventos literários, como a Festa Literária de Paraty, no Rio de Janeiro; a Jornada Literária de Passo Fundo e a Feira do Livro de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul; a Bienal do Livro e a Balada Literária, ambas em São Paulo. São eventos que aproximam leitores e autores em palestras e sessões de autógrafos.

Não menos importantes são as feiras no exterior, que contribuem para a internacionalização dos autores brasileiros e também como cenário comercial para as editoras nacionais. “Para nós, mais do que uma oportunidade de realizar negócios, a participação em feiras importa como momento intenso de relacionamento com parceiros e de abertura de projetos para o futuro. O interesse pela literatura brasileira, em especial contemporânea, vem crescendo”, relata Florencia Ferraria.

As feiras também são importantes para os editores que buscam autores de outros países para tradução. A editora Cosac Naify, por exemplo, tem 32 obras traduzidas do alemão para o português, enquanto a Editora 34 já contabiliza 30 obras cujo original é alemão. “Em virtude da Temporada Alemanha – Brasil 2013/2014, temos mais cerca de seis títulos previstos para breve. O programa de apoio à tradução e as parcerias com o Instituto Goethe, de modo geral, são um grande incentivo para a realização de um projeto como esse”, afirma Piquet. Com a participação do Brasil como país convidado da Feira do Livro de Frankfurt em 2013, esse diálogo entre os mercados editoriais tende a crescer, ampliando o número de traduções e aquecendo o mercado de ambos os países.

Por Camila Gonzatto | Goethe Institut | Publicado originalmente em Brasil que Lê | 06/07/13