Editora passa a oferecer seus títulos na plataforma digital de empréstimo de livros


Cengage entra na Minha Biblioteca

A Minha Biblioteca, consórcio formado pelas editoras Grupo A, Grupo Gen–Atlas, Manole e Saraiva para oferecer uma biblioteca digital a instituições de ensino superior, se associou, em janeiro à Pasta do Professor, que oferece conteúdos fracionados a esse mesmo público. Como consequência dessa união, a Minha Biblioteca passou a aceitar outras editoras fora do pool de sócios. A Cengage Learning é a primeira editora não sócia a fazer parte da Minha Biblioteca. Além dela, as outras 38 editoras participantes da Pasta do Professor poderão aderir à Minha Biblioteca. “Estamos dando prioridade às editoras que fazem parte da Pasta do Professor. A participação destas já está aprovada pelo conselho“, disse Richardt Rocha Feller, diretor executivo do consórcio, que não descarta que outras editoras poderão entrar na Minha Biblioteca. Com a chegada da Cengage, o catálogo da Minha Biblioteca alcança seis mil títulos.

POR LEONARDO NETO | PUBLISHNEWS | 22/09/2015

Bibliotecas digitais: um novo mercado a vista


Iniciativas no âmbito digital prometem dar fôlego extra à venda de e-books no Brasil

O Censo Nacional das Bibliotecas Públicas Municipais do Brasil, realizado em 2010 pela Fundação Getúlio Vargas [FGV] mostrou que 79% dos municípios brasileiros têm, pelo menos, uma biblioteca municipal. Em média, elas fazem modestos 296 empréstimos por mês. O reflexo disso na indústria editorial, até agora, era muito pequeno: a mesma pesquisa mostra que apenas 17% dos acervos das bibliotecas municipais são resultado de compras, contra 83% de doações. Mas algumas iniciativas no âmbito digital prometem mudar esse cenário. Na manhã de hoje, os editores cariocas conheceram a novíssima Biblioteca Xeriph, criada pela distribuidora de livros digitais de mesmo nome. O foco é exatamente as bibliotecas municipais e corporativas. A favor do projeto, está a cartela de clientes da Xeriph que hoje conta com 280 editoras, com catálogos bastante diversificados.

Carlos Eduardo Ernanny, diretor da Xeriph, aponta que o grande diferencial da nova biblioteca digital é que ela não é focada ou especializada em educação. “Somos a primeira biblioteca de e-books no Brasil não pensada exclusivamente nos estudantes”, explica. Outras iniciativas como Minha BibliotecaPasta do Professor e Árvore de Livros [que deve entrar em operação em março] têm como foco principal escolas ou universidades. Neste aspecto, o negócio daXeriph é mesmo diferente. O Censo da FGV mostrou que apenas 8% das pessoas que frequentam bibliotecas vão para lazer e é essa fatia que a Xeriph quer fazer crescer e, depois abocanhar. “Não é que o brasileiro não lê. Ele quer ler, mas não tem acesso ao livro”, defende Carlos Eduardo. O executivo lembra ainda que a quantidade de bibliotecas que abrem fora do horário comercial é irrisória. O censo da FGV fala de apenas 12% das bibliotecas funcionam aos sábados, por exemplo. “A população economicamente ativa não tem acesso à biblioteca e é isso que queremos mudar.O nosso modelo tem capacidade real de transformar o perfil das bibliotecas no Brasil”, promete o diretor. E já que as bibliotecas digitais nunca fecham, funcionam sete dias por semana, 24 horas por dia, o executivo defende que uma biblioteca que tinha 300 acessos por mês poderá ter 5 mil usuários ativos.

A plataforma da Xeriph foi viabilizada depois da compra da empresa pelo Abril Mídia, em maio passado. No projeto, foram empregados R$ 1,5 milhão e a plataforma já está pronta, de acordo com Carlos Eduardo. “Já estamos em negociação com uma grande empresa que tem operações dentro e fora do Brasil e ainda com o sistema de bibliotecas de uma grande cidade brasileira. Assim que fechar o contrato, colocamos a plataforma em operação”, conta. Por questões contratuais, a Xeriph não pode ainda revelar os nomes dos seus clientes em potencial.

Modelo de negócios

“A nossa grande missão era encontrar uma prática rentável para as editoras”, conta Carlos Eduardo. Para chegar a um modelo de negócio que atendesse esse demanda, foi criado um pool de dez editoras já clientes da Xeriph. Durante oito meses, diversos modelos de negócios foram submetidos a esses parceiros, que escolheram duas formas de vendas. Na primeira delas, a biblioteca compra a plataforma e o acervo, a partir do catálogo das editoras. Cada livro, comprado a preço de capa, poderá ser emprestado para apenas um usuário por vez, por 14 dias. Findado o prazo, o livro é compulsória e automaticamente devolvido. A segunda opção é comprar a plataforma e ter os livros por subscrição, ou seja, a biblioteca paga pelo acesso que seus usuários fazem ao livro. No modelo de subscrição, a editora será remunerada pela audiência. Cada vez que um livro for emprestado, a biblioteca paga uma taxa à Xeriph, 60% desse valor é repassado às editoras. Nos dois casos, o usuário não pode fazer mais de dez downloads ao mês e nem emprestar mais de 5 livros de uma só vez. De acordo com Carlos Eduardo, essa é uma maneira de não atrapalhar o negócio de livreiros.

A plataforma permite que quando o usuário clique no livro que tem interesse, ele não vê apenas a capa, a sinopse e outros metadados, mas também a fila de espera do livro. Se há mais de 25 pessoas na fila e apenas um exemplar adquirido, isso implica que o 26º usuário vai ter que esperar mais de um ano para ter acesso ao título desejado. Assim, o bibliotecário pode tomar a decisão de comprar outros exemplares, isso tudo de forma muito simples, a um clique. “A fila é um termômetro: uma fila cada vez maiorpossibilita que as bibliotecas se tornem grandes clientes para as editoras”, defende o diretor. Para utilização da plataforma, foram criados aplicativos para iOS, Android, PC e Mac.

Árvore de Livros

O PublishNews adiantou, no final de janeiro, a criação da Árvore de Livros, capitaneada por Galeno Amorim [ex Fundação Biblioteca Nacional]. Ao contrário da Biblioteca Xeriph, a Árvore é focada nas escolas das redes públicas e privadas, mais especificamente nos alunos de ensino fundamental 2 e médio. A plataforma, que deve entrar em operação em março, vai cobrar uma assinatura anual de governos, prefeituras, escolas e empresas para que seus usuários acessem de forma ilimitada por meio de computadores, smartphones e tablets.

De acordo com material enviado às editoras e ao qual o PublishNews teve acesso, a expectativa é adquirir acervo inicial de 200 mil e-books para atender mais de 170 mil alunos.O modelo de negócios da Árvore de Livros foi desenvolvido com base em estudos, pesquisas e comparações feitas com modelos existentes no mundo. Foram feitas adaptações à realidade e às peculiaridades do mercado nacional, e levou em conta o perfil e as práticas leitoras vigentes nas bibliotecas e escolas do País. Em resumo, a Árvore adquire pelo preço de mercado pelo menos um e-book escolhido para compor o acervo da biblioteca digital de seus clientes. O livro digital pode ser emprestado de forma simultânea e sua licença de uso expira após 100 empréstimos. Cada vez que um usuário tentar ler um e-book que está emprestado é gerada uma nova compra do produto. Por exemplo, um livro adotado por uma rede de ensino que exija a leitura simultânea de 5 mil alunos. Isso resultará na compra de 5 mil e-book desse título.

Relatórios mensais vão servir de guia para acerto com as editoras participantes do projeto. Além disso, a editora pode monitorar online e em tempo real a quantidade de acesso e a leitura de seus títulos, além de ter acesso a dados estatísticos sobre o desempenho e a preferência dos usuários, formando um perfil de seus consumidores. Na apresentação enviada aos editores, há um e-mail pelo qual editoras podem enviar propostas: editoras@arvoredelivros.com.br.

Contraponto

Para José Castilho Marques Neto, secretário executivo do Plano Nacional do Livro e Leitura [PNLL], essas iniciativas que começam a aparecer no ambiente digital são muito bem-vindas, mas precisam ser vistas com ressalvas. “Não podemos construir um fetiche em torno dessas questões, nem dizer que são absolutamente importantes e nem dizer que não são importantes”, comenta. Ele defende que, no que tangencia o PNLL, sejam construídos, além de plataformas de acesso a e-books, programas pedagógicos de incentivo à leitura. “Nenhuma biblioteca – seja digital ou física – vai resolver o problema da leitura no Brasil”, comentou.

Castilho comenta ainda que não dá para “fazer marketing em cima dessas iniciativas” e conclui: “No fim, pode ser um bom negócio para quem produz, mas não vai ter o efeito desejado se não estiver dentro de um planejamento mais amplo”.

Evento em SP

Hoje pela manhã, a Xeriph apresentou a plataforma e seu plano de negócios para editores cariocas. No dia 13/02 será a vez de São Paulo. São esperados mais de 100 representantes de editoras paulistas. O encontro será no São Paulo Center [Av. Lineu de Paula Machado, 1088/1100 – Cidade Jardim], a partir das 16h.

Por Leonardo Neto | Publicado originalmente em PublishNews | 11/02/2014

Pasta do Professor atinge a marca de meio bilhão de páginas


“Isso significa que meio bilhão de páginas de conteúdo não foram pirateadas”comemora Bruno de Carli

O projeto Pasta do Professor, nascido dentro da Associação Brasileira de Direitos Reprográficos, ABDR, e que reúne 34 editoras e mais de 70 selos editoriais voltados ao ensino universitário, alcançou na última semana a marca de meio bilhão de páginas de conteúdo entregues aos alunos das instituições de ensino filiadas à iniciativa. O projeto cria uma alternativa legal viável contra a pirataria de livros, em especial no meio universitário – a famosa xerox da pasta do professor. “O aluno tira cópia porque é barato e é fácil. Se o livro tem 100 páginas, ele usa apenas 30, por isso que, independentemente do preço do livro, ele sai caro para o aluno”, explica Bruno de Carli, diretor do projeto. Frente a essa realidade, a Pasta do Professor buscou replicar o modelo de tirar cópias dos livros universitários, e viram que a internet seria a ferramenta mais adequada para isso, devido a sua capilaridade.

Para viabilizar a Pasta do Professor e torná-la o mais acessível possível aos alunos, o projeto acabou criando também um enorme acervo de metadados: “Todos os livros estão fracionados em capítulos, colocados pelo nome. Na época nem se sabia que no futuro isso seria o famoso metadado” comenta Bruno.

O projeto é pioneiro no mundo, e evoluiu ao longo do tempo nos formatos e tecnologia, começando com o sistema de folhas soltas impressas nas parcerias com universidades como PUC-Minas, PUC-Rio, Mackenzie e ESPM, para o formato de fascículos impressos na Universidade Estácio, e por fim disponibilizando os conteúdos das editoras afiliadas em tablets e sistemas de leitura online através de browser na internet.

Por Iona Teixeira Stevens | PublishNews | 23/08/2012

O interesse público e o interesse das publicadoras


Quem costumava acessar o site Livros de Humanas para baixar livros [na grande maioria, ensaios acadêmicos], passou a encontrar lá somente a mensagem: “estamos fora do ar porque recebemos notificação judicial da abdr.” A Associação Brasileira de Direitos Reprográficos achou por bem exigir o encerramento do site, cumprindo suas funções de “combate e punição à pirataria editorial, que constitui crime contra os autores, tradutores, revisores e outros profissionais […] do livro, além de ofender a noção de cidadania”.

A medida, que se revestia de “defesa do direito do autor”, também recebeu pesadas críticas de… autores, que se juntaram à multidão de leitores, quase todos estudantes universitários, indignados com o que chamaram de “barreira no acesso à informação”. No momento em que este artigo é escrito, o site que reúne o protesto contra o fechamento passa de mil subscritores, quase todos “graduandos” e “mestrandos”.

O discurso dos autores a favor do site é que, ao fim e ao cabo, o interesse do escritor é ser lido, e o livrosdehumanas.org cumpria de modo mais eficiente a função de “publicar” do que as próprias editoras. Também foi questionada a autoridade da ABDR para falar em nome dos autores [entre seus 102 afiliados, apenas a UBE, representa a classe] e sua ingerência sobre textos de domínio público e de ensaios disponibilizados pelos próprios autores. Também argumentou-se que, se não havia cobrança, não havia crime, já que a ABDR define que “a reprodução ilegal de livros, com intuito de lucro direto ou indireto, que constitui crime”. Com o site, as editoras talvez deixem de ganhar dinheiro, mas estão certamente perdendo uma oportunidade.

Ronaldo Lemos, que é membro do Conselho Nacional de Combate à Pirataria e diretor do Creative Commons no Brasil mostra que o caso do livrosdehumanas é apenas um sintoma do momento de descompasso entre o que a tecnologia permite e o que os membros da cadeia produtiva oferecem aos leitores.

O conflito principal ocorre pela ausência de possibilidades de acesso eletrônico legal. Esses mesmos livros que a ABDR tirou do ar, as pessoas não têm como acessar. Um dos aspectos a ser discutidos é se a existência desses serviços de venda digitalmente também não desestimularia a necessidade de existência de sites como esses. Se o preço fosse bom e fácil, o site não teria razão de ser.

Essa é a questão. Ao dar as costas para os canais digitais, as editoras estão indo contra sua função de “publicadoras”. O acesso livre e gratuito ao livro sempre existiu, e atende pelo nome de “biblioteca”. Foi encontrada uma solução econômica [entre autores, editores, governos e universidades] que viabilizou o acesso gratuito [ou quase] ao leitor. É preciso encontrar uma solução equivalente na era da publicação digital.

Essa solução tem que ser baseada na inversão da lógica atual do livro. Não dá mais para esperar grandes margens de pequenas tiragens, é preciso pensar em margens infinitesimais sobre tiragens infinitas.

Como bem diz Felipe Lindoso,

A multiplicação das possibilidades de acesso deve contribuir para a diminuição do preço para cada acesso individual. Os conteúdos podem e devem ser disponibilizados a um preço condizente para que todos os interessados possam acessá-los. Se isso não for feito dessa maneira, o espaço para a pirataria, a reprodução ilegal, estará definitivamente aberto. Não vai adiantar ter mecanismos de tranca [DRM] ou instituições ‘caça pirata’ que nem a ABDR. Essa é uma luta inútil, destinada à derrota.

A resposta “digital” da ABDR à anarquia seria a Pasta do Professor, um portal no qual “as editoras disponibilizam os seus conteúdos de forma fracionada e os professores criam pastas-do-professor virtuais”. Assim, quem precisar ler o único capítulo que importa em A ética protestante e o espírito do capitalismo não precisará comprar o livro todo [entre R$ 14,90 e R$ 48 na Livraria Cultura], e pagará meros R$ 2,50. O preço é justo, mas o método é obtuso: o leitor pode consultar a ficha do texto pela internet, mas, para lê-lo, tem de se dirigir a uma copiadora cadastrada [no meu caso, fica a meia hora, com bom trânsito, da minha casa]. Se eu me dispuser a ir lá buscar as 14 páginas, estarei, segundo o projeto, quitando o que devo de direitos autorais — ainda que Max Weber tenha entrado em domínio público em 1990. Posso até considerar que estou salvaguardando os direitos do tradutor, se alguém me mostrar algum tradutor brasileiro que ganha por exemplar vendido. Assim, a “pasta do professor” da ABDR é uma solução que não soluciona, criando barreiras entre o leitor e o texto ao tentar manter um status quo que não funciona. É preciso mudar tudo para que tudo continue como está.

Mais próximas de uma “solução” são iniciativas como a empregada nas faculdades Estácio de Sá, onde o aluno “ganha” um tablet com o conteúdo didático, previamente licenciado pela instituição junto às editoras. Ou o projeto Nuvem de Livros, onde, por uma módica tarifa semanal, têm-se acesso a um amplo acervo, e que remunera as editoras na medida em que os livros de seu catálogo são lidos. Ambos os projetos têm o que melhorar [no primeiro, os textos vêm no inflexível formato PDF e, no segundo, os livros só podem ser “folheados” on-line], mas já representam avanços na relação entre editoras e leitores empregando os recursos digitais.

No exterior, tivemos há pouco um caso semelhante ao do livrodehumanas: a library.nu, baseada na Alemanha e de alcance mundial. Neste site, estudantes também compartilhavam textos acadêmicos, entre livros escaneados e e-books “destravados”. Nada era vendido, mas o site aceitava doações — o que, ironicamente, decretou seu fim, já que as autoridades conseguiram rastrear a conta do PayPal e encerraram a festa.

Na opinião de Christopher Kelty, que compara o fechamento da library.nu com um duelo entre leitores e editores, as empresas “legacy” que perdem seu tempo tentando fechar canais “alternativos” em vez de desenvolver novas maneiras de lidar com os leitores estão alienadas da nova realidade: “a demanda global por aprendizado e escolaridade não está sendo atendida pela indústria editorial contemporânea. E não pode ser atendida, com os atuais modelos de negócios e preços. Os usuários da library.nu — esses bárbaros aos portões da indústria editorial e da universidade — são a legião.”

Agora, quem acessar o site library.nu achará um campo de busca do Google Books e um anúncio da Amazon. A multidão de leitores solidários foi substituída por duas megacorporações.

A indústria fonográfica saiu dos escombros para descobrir que a força dominante não é mais a que produz [Sony, EMI, Warner etc], mas a que distribui [Apple]. O mesmo processo — de transferência de poder das produtoras para a distribuidora — está ocorrendo na indústria editorial, mas as editoras [algumas delas, pelo menos] estão mais atentas. Ao mesmo tempo, está se desenhando uma força dominante no negócio de “biblioteca virtual”, e talvez seja aquela que será dirigida por Robert Darnton, aquele mesmo que defendeu “A causa dos livros”.

Para ele, o futuro das bibliotecas com a digitalização é “o acesso aberto. Abrir os tesouros intelectuais guardados nas nossas grandes bibliotecas de pesquisa, como a de Harvard, para o mundo. Recebi a incumbência de criar a Biblioteca Pública Digital da América, e há dois anos estamos trabalhando para criar um novo tipo de biblioteca. Vamos pegar coleções digitais de todas as grandes bibliotecas do país e usá-las como base de uma grande coleção de livros que ficará disponível de graça para todo mundo no mundo. Vamos estrear em abril do ano que vem. Será uma versão preliminar, mas vai crescer até um dia, eu acho, superar a Biblioteca do Congresso, a maior do mundo”.

As editoras podem se dedicar a criminalizar a leitura digital, e isso vai ser tão eficiente quanto a criminalização da maconha: os estudantes sempre dão um jeito de conseguir, e serão estimulados pelo desafio da “proibição”. A demanda cria a oferta. Se essa oferta não vier das editoras, empregando os recursos digitais de uma maneira economicamente viável, virá de “alternativas” como o livrosdehumanas, ou nos restringiremos a só ler o que grandes corporações estrangeiras, como a Google, a Amazon ou a “Biblioteca da América” de Darnton decidirem.

Por Julio Silveira | Publicado originalmente em Publushnews | 31/05/2012

Julio Silveira é editor, formado em Administração, com extensão em Economia da Cultura. Foi cofundador da Casa da Palavra em 1996, gerente editorial da Agir/Nova Fronteira e publisher da Thomas Nelson. Desde julho de 2011, vem se dedicando à Ímã Editorial, explorando novos modelos de publicação propiciados pelo digital. Tem textos publicados em, entre outros, 10 livros que abalaram meu mundo e Paixão pelos livros[Casa da Palavra], O futuro do livro [Olhares, 2007] e LivroLivre [Ímã]. Coordena o fórum Autor 2.0, onde escritores e editores investigam as oportunidades e os riscos da publicação pós-digital.

A coluna LivroLivre aborda o impacto das novas tecnologias na indústria editorial e as novas formas de relacionamento entre seus componentes — autores, agentes, editores, livrarias e leitores. Ela é publicada quinzenalmente às quintas-feiras.

Editoras se unem e levam e-books para bibliotecas universitárias


Grupo A, GEN, Saraiva e Atlas criam a empresa Minha Biblioteca, que começa a operar em 1º de junho

Em 2010, Objetiva, Record, Sextante, Rocco, Planeta e L&PM fundaram a DLD para converter seus livros para o formato digital e distribuí-los. Ontem, pouco mais de um mês desde que a DLD começou a operar, outras quatro grandes editoras, mas com forte presença no segmento de livros universitários, também se uniram para uma entrada mais agressiva no mercado de livro digital. Só que dessa vez o foco sai das livrarias e vai para as bibliotecas das universidades brasileiras.

Grupo A, GEN, Saraiva e Atlas inauguram o projeto “Minha Biblioteca” em 1º de junho. Nele, será reunido o catálogo digital das quatro sócias, estimado, hoje, em quatro mil títulos. Funciona assim: com base no interesse da universidade, no número de alunos, na perspectiva de acessos e no potencial de crescimento, a empresa, que também se chama Minha Biblioteca, customiza um catálogo e o vende inteiramente à universidade. Aos alunos dessas instituições é permitido o acesso remoto a todo o conteúdo.

À primeira vista a ideia se parece com a da Pasta do Professor, mas o diretor executivo Richardt Feller, que trocou Curitiba por São Paulo e já está se instalando no escritório da empresa na Avenida Paulista, disse que elas são diferentes. “A Pasta é mais uma contribuição do mercado para evitar a pirataria e legalizar as cópias, mas não tem formato digital. Já o Minha Biblioteca, que também é uma alternativa à pirataria, prevê o ensino de plataforma, com acesso livre de qualquer lugar”. Enquanto no projeto mais antigo é possível comprar o livro fracionado, neste novo só serão vendidos livros inteiros.

Nesse momento, nosso objetivo é levar conteúdo digital a um maior número de alunos do Brasil”, disse. Mas este é só o começo, garante. Agora, as empresas estão concentradas em colocar o “Minha Biblioteca” na rua. A partir da publicação nesta segunda-feira, 23, do comunicado da Saraiva, a equipe – são quatro funcionários – está liberada para divulgar o serviço, apresentá-lo nas universidades, fechar negócios…

O site deve entrar no ar ainda hoje – http://www.minhabiblioteca.com.br

Conheça as editoras envolvidas no projeto

O Grupo A é uma holding formada pelos selos editoriais Artmed, Bookman, Artes Médicas, McGrawHill, Penso e Tekne. Responsável pela publicação de livros científicos, técnicos e profissionais nas áreas de biociências, de ciências humanas e de ciências exatas, sociais e aplicadas, o Grupo possui, entre títulos impressos e e-books, mais de 2 mil títulos em catálogo.

A Editora Atlas, fundada em 1944, conta com mais de 3 mil títulos publicados nas áreas de Contabilidade, Economia, Administração de Empresas, Direito, Ciências Humanas, Métodos Quantitativos e Informática. Suas publicações – livros-textos, livros de referência, dicionários e livros para concursos públicos – visam à melhoria do ensino e da Educação brasileira em sua totalidade.

Formado oficialmente no segundo semestre de 2007, o Grupo Editorial Nacional [GEN] reúne as editoras Guanabara Koogan, Santos, LTC, Forense, Método, Forense Universitária, AC Farmacêutica e EPU. O objetivo do grupo é prover o mais completo conteúdo educacional para as áreas científica, técnica e profissional [CTP]. O GEN oferece um catálogo com mais de 2.800 títulos, alguns dos quais publicados também em Espanhol e distribuídos em toda América Latina.

A Editora Saraiva é a maior editora brasileira no segmento de obras jurídicas e uma das mais importantes editoras de livros universitários nas áreas de administração, economia, contabilidade, marketing e negócios, além de editar obras de interesse geral. Hoje, seu catálogo reúne cerca de 3 mil títulos para o público universitário. É também uma das primeiras no ranking de livros didáticos e paradidáticos para ensino fundamental e médio.

Por Maria Fernanda Rodrigues | PublishNews | 24/05/2011

Site da ABDR é invadido por hackers


O site da Associação Brasileira de Direitos Reprográficos [ABDR] foi invadido neste fim de semana por hackers. E não foram arruaceiros digitais quaisquer que cometeram o ato. A invasão tinha endereço certo, pois as mensagens deixadas nas áreas invadidas traziam textos copiados de outros sites que criticam a atuação exemplar da entidade na luta contra a pirataria de livros no Brasil. Em uma das “notícias” deixadas pelos meliantes virtuais logo na página de abertura do portal, um texto mal redigido, copiado do site eBooksBrasil, condenava a atuação da ABDR junto ao site norte-americano Scribd, que teria retirado do ar os e-books publicados ali legalmente [segundo o texto] pelo eBooksBrasil. Outros textos inseridos no site eram um curto manifesto com idiotices do tipo “Viva a Cultura Livre. Queremos dedicar este ato de protesto à presidenta eleita Dilma” – este era um texto original e não copiado – e uma notícia antiga extraída do site do projeto Cultura Livre sobre uma ação civil pública ajuizada contra a ABDR pelo Instituto de Direito do Comércio Internacional e Desenvolvimento [IDCID].

Além deste texto, foram colocados links para filmes no YouTube, um deles em que mostra o jurista Túlio Vianna defendendo a descriminalização da pirataria em um programa de TV obscuro. O ataque cibernético foi feito de forma anônima, como convém aos covardes. A equipe do projeto Cultura Livre, por exemplo, nem sabia da ação. “Nosso projeto é internacional e não incentiva tal atitude”, explicou Marilia Maciel, do projeto carioca.

Assim que soube da invasão pelo PublishNews, a ABDR retirou seu site do ar e o republicou minutos depois. A entidade promete reagir. “Este é mais um exemplo de violação de direitos autorais. Isso nos incentiva a trabalhar mais e mais intensamente contra a pirataria”, declarou Dalton Morato, diretor da entidade. “Tomaremos as medidas cabíveis; isso não é brincadeira, é crime”, completou. Sobre a questão envolvendo a retirada de conteúdo do eBooksBrasil do Scribd, a questão é um pouco complexa, mas Dalton se dispôs a esclarecê-la: “A ABDR só age a partir de solicitação de seus associados. Nunca ocorreu de alguém colocar conteúdo legítimo em um site e a ABDR mandar tirar. Ocorre que nem sempre os autores e tradutores entendem direito a cessão de direitos autorais e autorizam a divulgação de obras cujos direitos tinham cedido para uma editora”.

Se alguém está se dando ao trabalho de invadir o site da ABDR é porque o trabalho desta importante entidade para o mercado editorial tem surtido bons efeitos. Entre suas ações, além do combate direto às fotocópias em universidades, destaca-se o projeto A Pasta do Professor [www.pastadoprofessor.com.br]. Trata-se de uma iniciativa pioneira de editoras brasileiras que tem por objetivo disponibilizar o conteúdo de suas obras para ser adquirido de forma fracionada, como a boa, velha [e pirata] pasta do professor. Não será um ataque de hackers anônimo, covarde e criminoso que impedirá a ABDR de continuar seu trabalho.

Por Carlo Carrenho | Texto publicado originalmente em PublishNews | 22/11/2010