Aprendendo com o futuro dos livros


POR EDNEI PROCÓPIO

Figure CLXXXVIII in Le diverse et artificiose machine del Capitano Agostino Ramelli, an illustration of a bookwheel

Conforme venho prometendo neste blog há algum tempo, meu próximo livro, o terceiro sobre eBooks, será finalmente publicado. Já se encontra no prelo da Editora do Sesi e, se tudo continuar correndo bem, será lançado simultaneamente nos formatos digital e impresso durante a próxima edição da Fliporto.

Iniciei a escrita do livro no segundo semestre de 2012, exatamente no ano em que o Data Discman, o primeiro projeto relevante da empresa Sony Corporation na área de livros eletrônicos, completava duas décadas de vida. Uma vez, porém, que minhas pesquisas ainda careciam de algumas constatações, só consegui terminar o texto depois da última edição do Congresso Internacional CBL do Livro Digital.

É impressionante perceber que, quanto mais avançam as tecnologias que envolvem eBooks, em menor espaço de tempo as novidades são colocadas à prova pelo mercado. Levei, portanto, um ano para escrever e terminar o livro, e em apenas um ano muita coisa aconteceu. Imaginemos então tudo o que foi apresentado no período de duas décadas, onde o livro eletrônico saltou de um estrondoso fracasso comercial para uma nova e empolgante possibilidade de experiência para a leitura.

Insisto nesta mania de olhar para trás quando escrevo sobre eBooks porque o distanciamento me parece um dos poucos modos seguros de vislumbrar um futuro para os livros. Em 2002, por exemplo, as empresas desenvolvedoras dos e-readers da primeira geração Rocket eBook e SoftBook, respectivamente NuvoMedia e SoftBook Press, foram entregues a Gemstar, uma subsidiária da RCA que, por sua vez, vendera os dois projetos para a Google em 2012.

Mas e em 1992, qual era o cenário?

Mesmo com a atual velocidade com que aparecem as novidades tecnológicas, e antigas certezas são postas à prova, não consideraria como um caminho saudável transformar meu novo livro em um periódico. Ou seja, não consideraria transformar minha obra em uma edição corrente, atualizada constantemente como se fosse um jornal ou revista [mesmo em uma versão digital]. Não vejo como encarar um determinado título como algo realmente inacabado, que deve estar sempre sendo reescrito, em constante atualização como se fosse um blog. Preferi, ao contrário, contestar o presente, analisar o passado, para vislumbrar um futuro.

Descobri isto quando recebi a última revisão do texto original, que me alertava para o fato de que os números apresentados em meu livro já poderiam ser considerados defasados. A revisão me pôs em alerta. Como é que um determinado dado, registrado para futuras consultas, pode ser considerado defasado antes mesmo de ser publicado? Tive que deixar ainda mais claro para os futuros leitores da obra que, os números de mercado, apresentados no livro, refletiam um momento, um cenário, uma fotografia, enfim, um recorte de um período em que o mercado de eBooks parecia expandir-se por um novo caminho. Um caminho bem diferente daquele imaginado pela Sony duas décadas antes.

No início da década de 1990, a internet ainda era um projeto acadêmico e não havia se transformado no meio extraordinário de comunicação e exploração comercial como ela é hoje. A Sony lançava no mercado norte-americano, um dispositivo para a leitura de livro eletrônico chamado Data Discman. Uma espécie de percursor da primeira geração de e-readers que viria a seguir.

Por rodar livros em cima de uma mídia física, ou seja, pré-gravados em discos [protegidos como os antigos disquetes], o dispositivo fora desenvolvido totalmente para leitura no modo offline e o conteúdo podia ser pesquisado através de um teclado do tipo QWERTY [também físico, bastante parecido com o dos BlackBerrys].

Há duas décadas, Sony lançava seu primeiro Electronic Book Player. Foto: Sony Data Discman modelo DD-1EX]

Há duas décadas, Sony lançava seu primeiro Electronic Book Player. Foto: modelo DD-1EX

De certo modo, o Data Discman era uma tentativa da Sony de repetir o sucesso do Walkman, dessa vez com livros. Mas ao contrário de seu predecessor, que tocava áudio que poderia ser encontrado aos montes em lojas especializadas [fora as fitas do tipo K7 que se tornaram bastante populares e podiam ser gravadas pelos próprios usuários], o Data Discman carecia de conteúdo.

Um Data Discman modelo padrão, como o DD-1EX, tinha uma tela de LCD de baixa resolução e em escala de cinza, como nos primeiros Palmtops, com baixo poder de processamento. Ao contrário dos Palms, trazia um drive de CD com a tecnologia e o padrão proprietários, que rodava enciclopédias, dicionários, além das obras literárias. Que não eram facilmente encontrados em livrarias, nem nos melhores magazines do ramo.

Como era de se esperar, o Data Discman teve pouco sucesso, principalmente fora do Japão [país sede da Sony]. Em vez disso, agendas eletrônicas do tipo Palm foram os dispositivos que ganharam popularidade e conquistaram o consumidor. Um pouco mais tarde, o Palm Reader foi a solução de aplicativo para a leitura dos livros nos devices portáteis daquele período que avançou até o lançamento do Sony Libriè para o mercado japonês.

Nada se cria, tudo se compartilha

Sony Data_Discman | Electronic Book Player modelo DD-8

Sony Data_Discman | Electronic Book Player modelo DD-8

Há semelhanças entre o Data Discman e o Palm. Há semelhanças entre o Palm e o BlackBerry. Há semelhanças entre o Rocket eBook e o Sony Reader lançado em 2005 no mercado americano. Mas o que geralmente é enxergado são apenas as diferenças entre esses equipamentos todos desenvolvidos dentro de um período que vai de 1990 a 2010.

A internet mudou muito desde aquelas duas décadas e, parte do conteúdo que existia naquela chamada web 1.0, de meados da década de 1990, praticamente já não existe mais. Se algum pesquisador buscar até os números referentes ao período que antecede o lançamento do Kindle, que inaugura a segunda geração de e-readers, terá que vasculhar bastante para encontrar alguma análise relevante.

É neste sentido que, nos meus dois primeiros livros, tentei contextualizar ao máximo os dados do mercado e cenários apresentados. Penso em um contexto futuro, usando históricos e cases de sucesso ou fracasso do passado para ampliar a visão do presente. E agora tento fazer isto novamente com minha nova obra porque eu sei que alguns pesquisadores precisarão de informações, analisadas e comentadas, para eventualmente até usar de comparação em seus trabalhos.

Por exemplo, algum profissional poderá futuramente se perguntar que porcentual representava a venda de eBooks no Brasil, em comparação com o mercado de livros impressos, quando big players como Kobo, Google e Amazon aportaram no país. Se ele fizer uma comparação com dados em um mesmo nível de apuração, usando os mesmos critérios de levantamento, poderá obter o percentual de crescimento mais próximo da realidade até o seu próprio período [mesmo que alguns players continuem ocasionalmente tentando manipular os números como tentam fazer hoje].

Agora, se a internet continuar impondo seu ritmo avassalador de criação, armazenamento e compartilhamento de informações, esta tarefa de pesquisa pode se tornar cada vez mais difícil de ser realizada. E obras contemporâneas, que mais do que registrar um período, contextualiza os números e cenários, pode ajudar profissionais a compreender o passado mas, principalmente, o futuro dos livros.

Foi assim que, por conta da velocidade com que novidades surgem, em formato de projetos, startups, apps, produtos, softwares, hardwares, plataformas, etc., fui obrigado a voltar ao básico neste meu novo livro. Procurei encontrar semelhanças entre as coisas aparentemente diferentes, e diferenças naquelas que nos são aparentemente semelhantes.

POR EDNEI PROCÓPIO

Microsoft Reader


Por Ednei Procópio

Tela do Microsoft Reader

O Microsoft Reader with ClearType©, lançado em abril de 2000, foi um dos primeiros aplicativos desenvolvido para livros digitais baseado no padrão OeB/XML.

O lançamento do produto foi uma espécie de resposta da Microsoft aos aplicativos lançados por empresas como Nuvomedia [eRocket] e Adobe [Acrobat Reader]. E um modo que a Microsoft achou de chamar a atenção para os novos equipamentos, Pocket e Tablet PCs, anunciados na mesma época pela empresa.

O lançamento do Microsoft Reader foi um marco na história dos livros digitais e inspirou empresas como a Barnes & Noble a disponibilizar aos leitores cerca de 2000 títulos para compra e download imediato. Não é à toa que a Barnes & Noble disponibiliza hoje cerca de 1 milhão de títulos para a sua plataforma Nook; ela começou o processo lá em 2000. Um pouco mais tarde até a Palm lançou o Palm Reader baseado em um aplicativo antigo chamado PeanutPress Reader, para não perder campo com o seu Palm até então desconectado do mundo pré-iPhone.

LIT

A Microsoft há dez anos atrás foi uma das empresas que participou do consórcio que criou o Open eBook, o padrão que mais tarde daria origem ao formato ePub. Dentro de um arquivo .LIT, lido pelo aplicativo Microsoft Reader, existe um arquivo xHTML validado tal qual um ePub. Um arquivo LIT é muito parecido com um arquivo ePub em qualidade e conteúdo, com a diferença de que a Microsoft criara também um sistema de DRM, baseado em um passaporte para que leitores se identificasse através de um ID. Algo, mais tarde, consolidado pela Adobe com o seu Adobe Content Server.

Eu trabalhei por oito anos na assessoria de imprensa da Microsoft no Brasil e, de algum modo, eu sempre tive acesso as informações da empresa nesta área. Aliás, eu fui um dos únicos beta-testes da empresa para o dicionário baseado em XML, em formato LIT, que vinha com o aplicativo MS Reader.

DOWN

Esta semana, porém, a Microsoft anunciou a descontinuidade do Microsoft Reader. E eu realmente não consegui entender. Confesso que esta notícia me pegou de surpresa, porque se a Microsoft pretende realmente fazer com que versões portáteis ou mobiles do Windows rode em tablets e smartphones mais modernos, o aplicativo Microsoft Reader seria um dos itens mais importantes para acesso a conteúdo. Será que a Microsoft pretende lançar algum serviço cloud para eBooks nas próximas versões do Windows Phone ou Mobile? Ou será que a era dos aplicativos cross plataformas atingiu a empresa de Seattle em cheio?

Com a nova guerra entre os sistemas operacionais para portáteis [ Apple iOS, Google Android, Nokia Synbian, Windows Phone, etc.], eu acreditava que a Microsft fosse dar um ‘up‘ no projeto Microsoft Reader. Mas, agora, eu acho que há alguma coisa fora da ordem por aqui. Será que a Microsoft teve tanto prejuízo com livros digitais assim?

TABLETS

Embora o iPad seja um sucesso sem igual, a Microsoft foi uma das primeiras empresas a tentar vender para o mercado o conceito das pranchetas e o Microsoft Reader nasceu exatamente num momento em que Bill Gates tentava também vender a ideia dos Pocket PCs [os computadores de mãos que pretendiam rivalizar com os palmtops]. Uma vez que os Pocket PCs traziam telas de LCD coloridas, o Microsoft Reader melhorava a legibilidade de livros digitais através da tenologia denominada ClearType. Uma tecnologia que realmente suavizava as fontes exibidas nas telas tanto dos Pockets quantos dos Tablets PCs, usando conceitos básicos de RGB.

Mas já fazia algum tempo, porém, que a Microsoft não lançava uma verão atualizada do aplicativo. Sua última versão foi anunciada em meados de 2007, exatamente quando a Amazon lançou o Kindle.

VELHOS APPS

Bem. É realmente triste que a Microsoft esteja descontinuando, a partir deste mês, um dos melhores aplicativos de livros digitais já criados [numa época em que a Apple tenta a todo custo minar a existência de aplicativos melhores do que o iBooks]. Quem realmente conhece eBooks sabe que o aplicativo da Apple ainda tem muito o que melhorar e está muito longe dos bons aplicativos de leitura como o BlueFire, o MobiPocket e o velho e eficiente MS Reader.

Por Ednei Procópio