As implicações da passagem do computador de sua mesa para seu bolso


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 12/11/2014 | Tradução Marcelo Barbão

Benedict Evans da Andreessen/Horowitz [um indispensável observador da mudança digital na mídia, e analista que explica a Amazon melhor do que qualquer outro que eu conheço] fez uma apresentação chamada “O Celular está Comendo o Mundo”. Ele esclarece o fato de que todo mundo vai ter smartphones com conectividade em pouco tempo. Um slide [o slide número 6] na apresentação dizia que no final de 2017 — daqui a pouco mais de três anos — pouco menos de 30% das pessoas no planeta não vão ter um smartphone. Isso significa que 95% dos conhecidos de pelo menos 95% das pessoas que estão lendo este post vão ter um. Outro slide [o de número 28] diz que já estamos no momento em que, durante a vasta maioria das horas que uma pessoa está acordada, elas dedicarão entre 40% e 70% deste tempo a atividades de mídia ou comunicação.

Evans e outros analistas estão sugerindo que estas mudanças vão refazer o uso de websites e apps e nos tornar mais confiantes em “cards”, objetos digitais agnósticos em relação a sistemas e aparelhos que podem fornecer tanto informações quanto a capacidade de agir sobre ela. Vemos o começo disso agora nos negócios de livros com o Aerbook de Ron Martinez, que coloca “conteúdo no fluxo social” e Citia de Linda Holliday, que se afastou dos aplicativos estilo card voltado à indústria do livro para servir a indústria da publicidade.

Acho que seria interessante que as editoras de livros focassem nas oportunidades de marketing e consumo que estas mudanças permitem [ou exigem] em vez de permitir que esta mudança tecnológica faça com que se afastem de novo, como fizeram com os enhanced e-books. O uso do celular substituindo o PC na verdade favorece a velha leitura de livros, já que o espaço limitado das telas não é um problema. Mas os processos de descoberta e os meios de compra poderiam mudar radicalmente.

Um texto muito inspirador que li [mas não consigo encontrar mais] sugeria que tudo isso significa uma forte redução do uso do e-mail, algo que Evans confirma em uma tabela mostrando que crianças entre 12-15 anos [no Reino Unido], não usam muito. Elas mudaram para redes sociais como Facebook e Twitter como canais de comunicação. Elas nem mesmo falam no celular. Há uma nova categoria de “mídia efêmera”; ela faz o que tem que fazer e depois a comunicação desaparece. Claro, não sabemos realmente como será o comportamento comunicativo daqui a 20 ou 30 anos de alguém que hoje está com 12-15, e o e-mail ainda é muito importante para o marketing. Enquanto isso, continuam as tentativas de melhorar o e-mail, incluindo a mais recente do Google.

Há duas grandes mudanças que são realmente obrigatórias para a migração ao celular. A grande mudança óbvia é uma redução no espaço de tela em um celular, em comparação com um PC. A menos óbvia, mas que ameaça o uso do e-mail, é a perda dos teclados com muitas funções e grande tamanho. Estas duas grandes mudanças não foram citadas especificamente nas apresentações que vi sobre isso, incluindo a de Evans.

A mudança na tela poderia terminar sendo a de menor problema. Como o crescimento nos celulares é real, também é a ubiquidade de telas de muitos tamanhos em muitos lugares. A tecnologia para permitir que algo enviado de um celular seja “jogado” em outra tela é bastante trivial – o bluetooth já existe e outras coisas novas, como Chromecast, que permite a reprodução da tela de um aparelho com Internet em uma TV, estão sempre chegando. Não é difícil imaginar que telas maiores estarão disponíveis para celulares que poderão informar sobre quase tudo. E apesar de que sempre haverá uma tendência natural a preferir ver no aparelho que você segura na mão e com o qual controla toda sua navegação [uma grande vantagem para livros], se uma tela maior for necessária, sempre haverá uma disponível quando você precisar.

Mas o problema do teclado pode ser mais complicado. Teclados portáteis e dobráveis já foram desenvolvidos, e já são usados para transformar tablets em laptops. Se serão tão populares ou tão facilmente compatíveis quanto as telas é algo duvidoso. Eles não funcionaram para Palm Pilots e ainda estamos esperando para ver se seu uso vai ficar popular no Microsoft Surface.

O que atenua a perda dos teclados é o aumento do uso de ditado por voz para substituir a digitação. Sempre que clico no meu app Google no iPhone, ele me convida a simplesmente falar o que eu quero. Claro, transcrever textos ditados introduz novas possibilidades de erro. Mesmo assim, teclados ineficientes poderiam não ser tão ruins para escrever e-mails para uma parte substancial da população que não tem entre 12-15 anos, e que ainda estará usando este meio de comunicação por décadas, como os atuais hábitos dos usuários do século XXI parecem sugerir.

Você pode, claro, simplesmente falar com Siri [ou Google] em voz alta qual é o best-seller do NY Times que quer e pedir para navegar até um site onde pode baixar uma amostra ou comprar, e chegará lá.

Existe ainda mais motivos para acreditar que websites vão continuar mesmo se os cards se tornarem mais populares. Com a atomização da criação de conteúdo [cada vez mais criadores de conteúdo, alguns deles podem ser bem pequenos], entender a “autoridade” deles será cada vez mais importante. Por enquanto, Google é a empresa que mais dependemos para abordar este desafio [outras que tentaram incluem Bong, Wolphram, Alpha, Duck Duck Go] e sites são uma ferramenta fabulosa para o Google entender quem é alguém e se eles sabem de onde falam ou escrevem.

Este exame de autoridade provavelmente será cada vez mais importante e percebido desta forma pelos consumidores de conteúdo. [Na verdade, isto está acontecendo agora, apesar de que a maioria dos consumidores não perceba que está acontecendo.] Se isso for verdade, websites oficiais e úteis [ou meios equivalentes, que são proprietários ou editáveis, para consolidar informação ao redor de uma pessoa que procura uma audiência – como Wikipedia, Google+, Amazon Author Central, e outras páginas autênticas] podem continuar a ser importantes para o Google e, portanto, para todos nós.

O que é certo é que no mundo desenvolvido quase todo mundo vai ter um computador em suas mãos o tempo todo que poderá acessar quase tudo na web ou em qualquer app. [Isso já é, em grande parte, verdadeiro, mesmo que seja pouco usado ou subestimado.] Estamos nos sentindo cada vez mais confortáveis usando o celular livremente, sem estarmos presos a horários e lugares. Também podemos estar livres da ignorância a maior parte do tempo, se quisermos.

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 12/11/2014 | Tradução Marcelo Barbão

[Mike Shatzkin é presidente da conferência DBW – Digital Book World, marcada para acontecer entre os dias 13 e 15 de janeiro, em Nova York [EUA]. O PublishNews é media sponsor do evento e os seus assinantes têm desconto especial na inscrição. Para garantir o direito ao desconto, basta informar o código PNDBW15 no ato da inscrição].

Mike Shatzkin

Mike Shatzkin

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].

Quatro anos na revolução do e-book: coisas que sabemos e coisas que não sabemos


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 05/10/2011

Mike Shatzkin

Pensando no lançamento do primeiro Kindle no final de novembro de 2007, alguém poderia dizer [e vai] que a revolução da leitura eletrônica está chegando ao seu 4º aniversário. Já existiam outros aparelhos dedicados aos e-books antes, incluindo o Sony Reader – no mercado quando o Kindle chegou e ainda vivos, apesar de não ter muito sucesso – e os já falecidos Rocket Book e Softbook que tinham debutado e desaparecido alguns anos antes. E no começo dos anos 90 tínhamos o Sony Bookman, que mostrava apenas algumas poucas linhas de texto de cada vez e desapareceu sem deixar rastros. O formato de e-book que mais vendia antes do Kindle era o que se podia ler no Palm Pilot e o mercado em geral de e-books estava tão atrasado que qualquer investimento de uma editora em digitalização era feito por fé, não por evidências comerciais.

E muitas pessoas na indústria acreditavam que ler numa tela demoraria muitos anos para ser realidade, se algum dia chegasse a ser…

Agora, menos de quatro anos depois, estamos vivendo num mundo mudado, apesar de ainda não estar transformado. Mas isso pode acontecer muito em breve.

Como as vendas dos e-books nos EUA agora parecem já ter chegado aos 20% de rendimentos em algumas editoras [o que quer dizer que já está nesse patamar ou chegará muito em breve], há algumas coisas que podemos dizer que sabemos sobre como será o futuro, mas também há algumas outras coisas muito importantes que não sabemos ainda.

Nós sabemos que a maioria das pessoas vai se ajustar em pouco tempo à leitura de livros narrativos numa tela em vez do papel.

Nós sabemos que os pais vão entregar seus iPad, iPhone ou Nook Color para uma criança para que possa desfrutar os livros infantis nos aparelhos.

Nós não sabemos se livros adultos ilustrados serão igualmente bem aceitos por consumidores de livros em aparelhos digitais, apesar de que há cada vez mais aparelhos capazes de mostrar quase o mesmo que um editor mostra numa página impressa.

Nós não sabemos quanto os pais vão pagar por um e-book infantil ilustrado pequeno, mas parece que poderia ser muito menos do que estão dispostos a pagar pelo papel.

Nós sabemos que os consumidores vão pagar preços de formato paperback ou mais por e-books simples.

Nós não sabemos se os consumidores vão aceitar pagar preços mais altos para melhorias como vídeo, áudio ou software aos e-books.

Na verdade, nós não sabemos se os consumidores pagariam preços de paperback para e-books se o paperback não estivesse à venda em todos os lugares por um bom preço.

Nós sabemos que a popularidade do e-book, medida em vendas ou na porcentagem de rentabilidade das editoras, dobrou ou mais do que dobrou a cada ano desde 2007.

Nós sabemos que esta taxa de crescimento é matematicamente impossível de continuar por mais três anos [porque isso colocaria os e-books com 160% da rentabilidade das editoras!].

Nós sabemos, a partir dos anúncios sobre novos aparelhos e uma recente pesquisa da Harris prevendo um aumento na compra de aparelhos, que não há expectativa de uma queda na adoção dos e-books num futuro próximo.

Nós não sabemos se vamos encontrar uma barreira de resistência ou se talvez deveríamos chamar de “barreira da insistência” do papel, em algum nível, nas vendas dos próximos dois anos [no final dos quais os e-books seriam 80% dos rendimentos das editoras com as taxas de crescimento que vimos nos últimos quatro anos].

Nós sabemos que há um mercado grande e em desenvolvimento para e-books em inglês no mundo, já que a infraestrutura do e-book permite a construção desses mercados globais.

Nós não sabemos a rapidez com que esses mercados vão se desenvolver ou o tamanho que vão alcançar.

Nós sabemos que o número de livrarias sofreu uma forte redução em 2011 por causa da falência da Borders.

Nós não sabemos se a rede de livrarias físicas remanescente, lideradas pela B&N e incluindo as independentes bem como o espaço em prateleira devotado a livros, receberão uma ajuda com a desaparição da Borders, dando às editoras alguma estabilidade temporária em sua rede de lojas, ou se a erosão do espaço em prateleira vai continuar [ou até acelerar].

Nós não sabemos o que a perda do merchandising em lojas físicas vai significar para a capacidade dos editores e autores de introduzirem novos talentos a leitores, ou até mesmo de apresentar um novo trabalho dos nomes já conhecidos.

Nós não sabemos se a descoberta e o merchandising melhorados funcionam com a aplicação de “escala” pelas editoras fora dos nichos verticais, seja por tópicos ou gêneros.

Nós sabemos que agentes e autores vão aceitar royalties nos e-books de 25% da receita líquida no cenário atual, onde 70% ou mais das vendas ainda são feitas em papel.

Nós não sabemos se as ameaças das opções de publicação alternativa forçarão esta taxa de royalties a subir se as vendas dos impressos caírem para 50% ou 30%.

Nós não sabemos se uma queda nas vendas de impressos, ficando entre 50% ou 30% do total, vai demorar muitos ou poucos anos.

Nós sabemos que o padrão Epub 3 e o HTML5 permitem recursos no estilo aplicativos nos e-books.

Nós não sabemos se esses recursos farão alguma diferença comercial para o texto linear que é o único tipo de e-book aprovado comercialmente.

Nós sabemos que marcas de criação de conteúdo que não são editoras de livros estão usando a relativa facilidade de publicação de e-books para distribuir seu próprio conteúdo no mercado de e-books.

Nós não sabemos se as editoras de livros vão desenvolver expertise na publicação de e-books que persuadirão outras marcas a usá-las para a publicação, da mesma forma que conseguiram no mundo do livro impresso, em vez de ignorá-las.

Como estou expressando minhas preocupações sobre o impacto da revolução do e-book nas editoras em geral, algo que estou fazendo com intensidade dramática desde a BEA em 2007, [uns seis meses antes do Kindle] é dizer que as editoras de livros gerais precisam começar a focar em seu público [o que significa escolher conteúdo para nichos verticais].

Hoje vou acrescentar outra sugestão urgente às editoras trade: reconsiderem seus compromissos para publicar livros ilustrados com qualquer prazo maior do que um ou dois anos e pensem em se manter com livros só de texto, a menos que tenham caminhos para chegar aos clientes para os livros que não passam por livrarias. Se terminarmos com um mercado com 80% de e-books em um futuro próximo, e é bem possível que isso aconteça, você vai querer ser dono do conteúdo que sabe que funciona [para o consumidor] naquele formato, não o que você não sabe que funciona fora do formato impresso.

Para os livros infantis, a chave é marca. Haverá demanda por Chapeuzinho vermelho, e Alice no país das maravilhas, por muitos anos, mas as equações de produtos e preços estão completamente indefinidas.

Tradução: Marcelo Barbão

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 05/10/2011

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].

Oportunidade não bate à porta, chuta!


Escrito por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 23/02/2011

Num post recente, discuti o desenvolvimento de mercados de e-books no mundo todo, especialmente na Europa, e observei que dez anos ou mais de esforços de digitalização no mundo de língua inglesa teriam um impacto considerável nos mercados de e-books em países com outros idiomas. Antes, quando escrevi sobre isso foi para enumerar o desafio que acho que os editores em outras línguas devem esperar em seus mercados locais.

Hoje, quero ver a mesma situação de uma perspectiva oposta e considerar a oportunidade do ponto de vista dos editores de língua inglesa. Na verdade, é possível que seja tão substancial que irá adiar o Armageddon para grandes editoras em geral, cujos desafios causados pelo inevitável declínio das livrarias me preocupam há muitos anos e que foram o assunto ou subtexto de muitos posts nesse blog.

Quero descrever uma oportunidade que é perversamente difícil de dimensionar precisamente. Precisaríamos saber quantos candidatos a ler livros em inglês existem nos EUA, no resto dos países de língua inglesa e depois em países de outros idiomas. A Wikipedia diz que o mundo tem 914 milhões de pessoas que falam inglês, dos quais 251 milhões estão nos EUA, 232 milhões na Índia e 168 milhões em países com outras línguas maternas na Europa. Mas esses dados não são atuais e os números dos EUA, por exemplo, são do censo de 2000.

Uma fonte com quem conversei recentemente que trabalha com estatísticas, e que possui razões para estar bem informado, insiste que o mundo possui 600 milhões de falantes nativos de inglês e 1,4 bilhão de falantes de inglês em outros países. Se isso for verdade, os EUA teriam menos de 1/6 do total em suas fronteiras.

Os EUA, pela contagem de quase todo mundo, possuem menos de 1/3 das pessoas que falam inglês. E todo mundo parece medir “falantes de inglês”, não “letrados em inglês”. Mas o mercado de leitores de inglês em países onde não se fala a língua, tanto hoje quanto em algum momento quando for pesquisado, com certeza está crescendo mais rápido do que os mercados nativos. Então, se aceitarmos a premissa de que e-books acabarão colocando esses leitores de e-books potenciais dentro do alcance de editores nos Estados Unidos [e Grã-Bretanha, Canadá, Austrália e outros países de língua inglesa, claro], estamos vendo as estradas de acesso sendo construídas para uma base de clientes que poderia dobrar [até mais do que isso] em relação ao que existia antes.

A maior parte desse mercado secundário em inglês, certamente do ponto de vista de consumo, está na Europa. Minha viagem para a Conferência IfBookThen em Milão há alguns dias, organizada pela nova livraria de e-books italiana Book Republic em parceria com o 4IT Group, me deu uma grande oportunidade para entender ainda mais como pode ser animadora essa perspectiva para toda a comunidade – editores, agentes e autores – que dividem os rendimentos das vendas da literatura em língua inglesa.

Tenho algumas experiências pessoais incomuns para me ajudar a antecipar como vai ser quando os consumidores franceses, alemães, italianos, etc., começarem a descobrir as virtudes dos e-books. Descobri como poderia ser incrivelmente conveniente e satisfatório ler numa tela pequena quando comecei a usar um Palm Pilot, 10 ou mais anos atrás. “Sempre levar meus livros comigo” é uma vantagem enfatizada muito frequentemente na comparação impresso X e-book [parcialmente porque não se aplicaria da mesma forma com pessoas que leem num Kindle ou Nook ou iPad como faz com quem lê num iPhone ou em qualquer outro telefone ou PDA que se pode levar no bolso], mas é poderoso. Foi poderoso o suficiente para me conquistar totalmente desde a primeira vez.

Mas quando comecei a ler dessa forma, era uma pequena minoria e permaneci assim por muitos anos. Os poucos que liam e-books antes do Kindle logo encontraram um problema que os consumidores franceses, alemães, italianos, etc. vão começar a encontrar, independente do aparelho no qual leem. Não havia o suficiente para escolher! Lembro rotineiramente de passar 15 ou 20 minutos ruminando as escolhas, vendo o que eu já tinha lido a cada vez que ia comprar algo e sem encontrar muitas coisas que queria ler. Foi por isso que, até a chegada do Kindle e o número de títulos disponíveis ter explodido, acabei fazendo algumas escolhas estranhas: ler Tarzan [ainda bem] e comprar e ler a biografia de Grover Cleveland [presidente norte-americano] cujo e-book custou 28 dólares! [ainda bem que comprei esse também.]

Comprar exigia uma frustrante perda de tempo e a pouca disponibilidade de títulos era a razão pela qual eu continuei a ler alguns livros impressos nos primeiros anos sendo que estaria bem disposto a passar totalmente para os e-books [algo que agora já fiz].

Mesmo nos primeiros anos da última década, no entanto, o número de e-books em inglês era maior do que o número de e-books na maioria das línguas europeias que os consumidores encontrarão neste ano ou no futuro próximo. O número incrivelmente pequeno de livros convertidos para epub na maioria dos países europeus garante que nossos amigos europeus vão sentir a mesma frustração irritante que eu tive no passado.

Até começarem a comprar e-books em inglês.

E vão. Na verdade, eles já compram. Informei no post anterior que ouvimos o dado de que 25% dos livros impressos vendidos na Dinamarca estão em inglês. Um amigo na pequena Eslovênia informa que mais de 15% dos livros vendidos ali estão em inglês. Um livreiro escandinavo com várias lojas na Escandinávia e em Berlim que conheci na IfBookThen informou que 20% dos livros que ele vende estão em inglês. E as vendas acontecem apesar das barreiras dos custos [e, portanto, do preço] e do suprimento [e, portanto, da escolha] inerentes em bens físicos.

[A consultoria A.T. Kearney fez uma pesquisa com a equipe da Book Republic para preparar a IfBookThen. Descobriram 100.000 títulos em epub em alemão e 50.000 em francês, menos de 2/3 e 1/3, respectivamente, do que a Amazon tinha em inglês há mais de três anos. E descobriram menos de 10.000 disponíveis em espanhol, italiano ou sueco!]

E apesar de o norte europeu ter mais fluência no inglês do que o sul, descobri um fato interessante [através de um britânico, não de um italiano] enquanto estava em Milão. Francês era a segunda língua ensinada a todas as crianças italianas nas escolas até 1991 quando foi substituído pelo alemão. O alemão durou pouco. Desde 1997, a segunda língua que todas as crianças italianas aprendem é o inglês. Então as escolas italianas se tornarão clientes de publicações em língua inglesa que aumentarão sua presença na população local a partir de agora. Isso é um sintoma da mudança acontecendo em todo o mundo, mudança que está criando novos clientes para editores de língua inglesa.

Um amigo norte-americano numa grande editora que não está entre as Seis Grandes me contou na semana passada que 10% dos e-books que está vendendo vem de fora dos EUA [e isso não inclui o Reino Unido]. Uma livraria global de e-books me contou que 7% de suas vendas de livros em inglês hoje vem de países cujo idioma não é o inglês. Esses números vão aumentar inexoravelmente e, às vezes, até em arrancadas explosivas, por muitos anos ainda. Seria necessário pesquisar com mais cuidado para tentar prever a porcentagem de venda de e-books em língua inglesa que poderiam acontecer em países cujo idioma não é o inglês, mas acho que o número poderia chegar a algo entre 25-35% nos próximos cinco ou dez anos, e não seria um chute muito alto. [Se serão em cinco ou dez anos é algo que será muito mais evidente em 2012-13.]

E apesar de algumas pessoas se perguntarem se as vendas de e-books que estão sendo feitas agora são canibais ou incrementais [quase certamente são os dois!], as vendas que serão feitas no exterior em países cujo idioma não é o inglês mais provavelmente serão incrementais. Elas poderiam acrescentar mais vendas nos próximos cinco anos do que os problemas na Borders vão subtrair hoje.

Isso não é um cenário futuro em relação ao qual as pessoas podem relaxar e esperar. Essa é uma oportunidade imediata.

Este situação deve significar o final de mercados abertos para e-books em língua inglesa e isso vai acontecer logo. Mercados abertos funcionaram por anos para impressos, dando a múltiplas empresas um incentivo para explorar as oportunidades de vendas com esforço e serviço. Mas mercados abertos para e-books certamente vão recompensar somente um atributo: o menor preço. Como os e-books se beneficiam de um reforço relativamente confiável de preços diferenciados por mercado [para aqueles contrários ao DRM, essa é mais uma razão pela qual ele vai continuar por mais tempo], os consumidores de outros idiomas logo serão capazes de identificar os e-books de mercado aberto. Serão os realmente baratos!

Agentes não podem deixar essa situação continuar. Aqueles que não estão fechando mercados abertos para e-books certamente farão isso daqui a pouco. Os editores britânicos têm tentado fechar a Europa a favor deles há alguns anos; ouvi essa “anedata” [adorei essa nova palavra!] em Milão que sugere que os editores norte-americanos acordaram para isso e agora estão brigando para recuperar os mercados abertos.

Seria lógico que o mercado aberto para e-books irá para o editor que preencher o cheque maior ou for o primeiro, e que mais frequentemente será um cheque dos EUA.

Isso também leva a uma nova preocupação de oportunidades globais [na verdade, para ser mais preciso, “glocal”, que eu descreveria como “global, mas com alvos claros”] em marketing, principalmente porque isso acontece cada vez mais on-line. Para vermos um exemplo recente tirado de minhas leituras pessoais, Fall of Giants de Ken Follet, há muitos ganchos na história para ganhar o interesse de leitores em toda a Europa, mas principalmente na Rússia e na Alemanha, onde acontece muito da ação. Fall of Giants é um romance; as oportunidades serão ainda maiores com não-ficção. Não sei exatamente quando isso levará toda editora norte-americana de certo tamanho a colocar uma pessoa cuidando do “marketing glocal” ou acrescentar um “componente de marketing glocal” aos planos de muitos livros, mas isso poderia acontecer agora. Não vai demorar muito, com certeza.

Escrito por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 23/02/2011