O calvário dos eBooks


Os livros digitais dão sinais de perda de fôlego nos países desenvolvidos e ainda não têm relevância nos negócios das editoras brasileiras

Em queda: as vendas do Kindle, lançado pela Amazon de Jeff Bezos, despencaram, segundo varejista inglês | Foto: Ben Margot

Em queda: as vendas do Kindle, lançado pela Amazon de Jeff Bezos, despencaram, segundo varejista inglês | Foto: Ben Margot

Poucos setores ficaram imunes ao avanço da tecnologia digital. A indústria fonográfica, por exemplo, foi a primeira a sentir os efeitos da digitalização, que levou as principais empresas da área quase à bancarrota no início dos anos 2000. A televisão sente os efeitos da internet, com o surgimento de um telespectador que quer assistir o que quer, na hora que desejar e no dispositivo que for mais conveniente. A Netflix é o grande expoente dessa nova era. Diante disso, muitos viram no Kindle, lançado em 2007, o começo do fim do livro impresso.

O aparelho da Amazon, de Jeff Bezos, tinha tudo para fazer para a indústria editorial o que o iPod fez para o setor musical. Ledo engano. Para surpresa geral, as editoras abraçaram os livros digitais [e-books]. E logo descobriram que a margem de lucro das versões digitalizadas era o dobro da tradicional, mesmo com um preço mais baixo. Era um sinal de que a transição, considerada inevitável, do livro de papel para o digital seria feita sem grandes solavancos. Só faltou combinar com o leitor. Nos países desenvolvidos, o livro digital começa a dar sinais da falta de fôlego.

Executivos da maior cadeia de livrarias da Inglaterra, a Waterstone, declarara ao jornal Financial Times que as vendas de Kindle simplesmente desapareceram. A perda de impulso já atingiu a Simon & Schuter, membro do “Big Five”, grupo dos cinco maiores conglomerados do mundo [Penguim Random House, Hachette, HarperCollins e Macmillan completam o time]. Subsidiária do grupo de mídia CBS, a S&S registrou queda nas vendas de 3,8%, para US$ 778 milhões. O lucro caiu 5,6%, para US$ 101 milhões. Uma razão para o ano ruim foi a redução no ritmo das vendas digitais.

A fatia diminuiu de 24,4% em 2013 para 23,2% no ano passado. Não se trata de casos isolados. A consultoria americana Gartner aponta que, em 2017, os e-readers como o Kindle venderão 10 milhões de unidades, número 50% menor do que as vendas do ano passado. Com a estagnação, a alternativa é ler e-books nos tablets, que também estão passando por um declínio de vendas, e smartphones. “São aparelhos que dispersam, oferecem opções demais de entretenimento e não são apropriados para a leitura longa”, afirma Eduardo Melo, fundador da consultoria de livros digitais Simplíssimo.

Por que aparelhos como o Kindle enfrentam esse calvário? O rechaço tem a ver com sua função única. O consumidor, ao que tudo indica, quer fazer mais tarefas com uma tela. Isso fez com que as principais empresas do segmento, como Amazon e Kobo, passassem a investir na produção de tablets. Se nos países ricos os e-books patinam, no Brasil, eles nunca deixaram o gueto editorial. Apenas 2% dos R$ 5,3 bilhões faturados com livro no Brasil vêm de ebooks, segundo levantamento da Fipe de 2013 [dado mais recente]. A Biblioteca Nacional, por exemplo, expediu 16.564 ISBNs [código de identificação dos livros] para e-books no ano passado, apenas 1% a mais que no ano anterior.

De 2012 para 2013, o crescimento havia sido de 10%. Diversas iniciativas voltadas para e-books foram abandonadas, como o selo Breve Companhia, da Companhia das Letras, empresa da Penguim Random House, que publicava obras inéditas direto na mídia digital. Ela foi descontinuada no fim do ano passado. “No momento, estamos repensando o enfoque”, diz Fabio Uehara, editor de e-books da empresa. “Temos outros lançamentos digitais previstos para este ano.” A fadiga também atinge o varejo. “Crescemos dois dígitos, mas esperava um crescimento muito maior”, afirma Sergio Herz, CEO da Livraria Cultura, que comercializa ebooks e e-readers da Kobo.

Apesar de ser muito novo, esse mercado já mostra certa saturação”. A japonesa Rakuten, dona da Kobo, ainda é otimista. A empresa aumentou sua aposta nos livros digitais ao comprar a distribuidora de e-books Overdrive por US$ 410 milhões, em março deste ano. Amazon, Saraiva e Livraria Cultura não fornecem dados de vendas no Brasil, mas quem acompanha o setor não vislumbra um grande apelo dos e-readers. “No Brasil a leitura acontece em smartphones”, afirma Tiago Ferro, fundador da E-Galáxia, plataforma de intermediação entre autores e profissionais do mercado editorial a fim de editar e publicar e-books.

ISTO É Dinheiro | Por João Varella | 07/04/2015, às 17:30

A infraestrutura de apoio para que entidades possam publicar está crescendo


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 21/11/2014 | Tradução Marcelo Barbão

Lembro de uma letra de música do começo dos anos 70 cuja linha de abertura era: “não precisamos de mais marinheiros, precisamos de um capitão.” Aquela música poderia estar falando do novo mercado editorial que está crescendo a partir do fenômeno da“atomização”, livros que poderiam sair de quase qualquer lugar [este é o “nós”]. São apoiados pelo “desempacotamento”, a disponibilidade de quase todos os serviços exigidos [estes são os “marinheiros”] na complexa tarefa de publicar livros.

Isto é o que deveríamos chamar de “entidade de autopublicação”, ao contrário de “autor de autopublicação”. O sucesso de autores independentes foi muito analisado ultimamente, parcialmente pela disputa Amazon-Hachette que mostrou que os autores podem ganhar a vida se autopublicando – principalmente explorando os recursos da Amazon – sem precisar de uma organização grande por trás. Mas entidades autopublicadas são, na verdade, muito mais ameaçadoras para o mundo editorial tentando lucrar porque poderiam, com o tempo, trazer muito mais conteúdo no mercado com muito mais força de marketing por trás do que os autores individuais. E às vezes, as motivações destes fornecedores de conteúdo não incluem a necessidade de ter lucro.

[Também pode ser visto como uma oportunidade ao mercado, se as editoras acharem produtivo oferecerem seus serviços como parceiros flexíveis das entidades.]

Há muitas empresas que oferecem os serviços centrais que dão apoio à publicação. Grandes organizações como Ingram e Perseus são fornecedores com um conjunto completo de recursos, inclusive o de colocar livros impressos nas prateleiras das livrarias. [Na verdade, se você for grande o suficiente, consegue que uma das Cinco Grandes faça isso para você.] Distribuidores digitais como Vook, INscribe e ePubDirect podem transformar um arquivo em e-book e distribuí-lo no mundo todo. Lulu e Blurb também podem entregar livros impressos para você. Os serviços de assinatura como Scribd e Oyster [sem mencionar Amazon, Ingram, Overdrive e as outras livrarias] farão a distribuição. E, tanto como parte de ofertas maiores ou como serviços individuais, como BiblioCrunch, é cada vez mais fácil para um autor [ou uma entidade autopublicada] encontrar editoras, designers de capa, especialistas em marketing e criadores de website], assim como qualquer outro conjunto de habilidades específicas necessárias para publicar com êxito um livro. Na verdade, as próprias editoras há anos usam freelancers para muitas outras funções.

Mas entidades possuem desafios que autores individuais não possuem.

Um autor individual sabe o que será publicado: o que eles escrevem. E como a maioria dos autores se sente mais confortável em um gênero particular, eles não precisam se preocupar muito com consistência enquanto constroem uma audiência. São inerentemente consistentes. [Autores que querem mudar de gênero ou escrever fora do que são mais conhecidos enfrentam maiores dificuldades para conseguir sucesso comercial com a autopublicação].

Claro, eles têm muitos desafios fora de seu conjunto de habilidades de escrita: edição, design de capa, até preço e marketing. E aqueles desafios são suficientes para fazer muitos autores preferirem ter uma editora que vai cuidar deles, mesmo se de outra forma estivessem dispostos a abrir mão da influência em marketing e da  distribuição de uma editora profissional. Há grandes vantagens na margem por cópia vendida para fazer sozinho assim como ficar livre das restrições e atrasos que surgem de trabalhar com uma organização maior. Existe ainda muitas perguntas “como”, mas há poucas perguntas “o quê”.

Mas quando uma entidade se compromete com a autopublicação, mesmo que seja um jornal ou uma revista que sabe como criar a propriedade intelectual, eles de repente precisam tomar decisões que não estão equipados para fazer e isso começa com “o quê” publicar.

Eles precisam de um editor. Na metáfora da letra da música, eles precisam de um “capitão”.

A posição de “editor” existe dentro do mundo das revistas e dos jornais também, mas significa algo um pouco diferente do que nos livros. Nos dois casos, o editor governa todo o empreendimento, não apenas as decisões editoriais. Como a renda das revistas e jornais vêm principalmente dos anunciantes, o tempo do editor e foco são dirigidos para lá. A editora certamente tem a responsabilidade por coisas como marketing e distribuição, mas estes tendem a não exigir muita atenção.

Mas a natureza da edição de livros é que cada livro é um desafio de marketing separado assim como editorial, e os dois estão interrelacionados. Se o livro certo para um mercado deveria custar $15, você faz um livro diferente do que se o livro certo fosse $30 ou $8. Se o livro está pronto para publicação em setembro, mas o momento certo para levar este livro ao mercado é fevereiro, é um editor que decide para adiá-lo.

E se há 20, 30 ou 100 livros que uma entidade poderia fazer, é um editor que decide fazer cinco por mês ou cinco por temporada, qual fazer primeiro, e qual deveria sempre sair em junho.

Em um post de um ano atrás, eu citei o exemplo do que o editor Bruce Harris fez com o audacioso [e bem-sucedido] livro de receitas do fundador da Microsoft, Nathan Myhrvold que custava $625. Myhrvold tinha o conceito e a propriedade intelectual e a perspicácia de negócios para tomar decisões chaves. Mas foi preciso Bruce, ou alguém com sua considerável experiência e sofisticação editorial, para orquestrar a contribuição de especialistas em marketing e publicidade, coordenar com as realidades do calendário editorial, e fornecer a direção para fazer o melhor uso dos serviços do Ingram.

Este tipo de conhecimento é ainda mais importante estruturar listas dentro de um programa editorial em andamento.

Vook certamente experimentou um pouco disto. O website deles ainda anuncia que são “centrados em autor”, mas eles estão abertos à ideia de que entidades são uma grande parte do futuro da autopublicação. Eles forneceram serviços de infraestrutura crítica para permitir a publicação de e-books para The New York Times, Forbes, Thought Catalog, Fast Company, US News & World Report, Frederator Studios e The Associated Press.

Fornecer inteligência de negócios é uma parte crucial de estratégia Vook para trabalhar com entidades. Matt Cavner da Vook me contou:

Estamos rastreando dados de mais 4 milhões de livros – impresso e digital – e usamos esta informação para gerar recomendações de preços para maximizar renda para os livros que nossos parceiros publicam, para então ajustar os livros dentro dos mercados, e encontrar categorias específicas onde será mais provável criar um ranking de listas de best-sellers. Também coordenar o marketing digital padrão e merchandise com as livrarias. Assim, estamos agindo como a infraestrutura e a plataforma da parte traseira dos dados para estes parceiros terem o mais bem-sucedido possível – permitindo que mantenham o foco no lado criativo e de desenvolvimento de seu programa editorial.

Mas, claro, estes dados precisam ter a ação por um editor no outro lado. A lista de clientes da Vook é importante, com organizações de mídia que podem fornecer alguma versão desta decisão título a título, lista a lista para usar as ferramentas de Vook. Porque Vook começou na vida oferendo serviços a autores, Cavner sabe como era focar direção e reconhece a questão.

Está certo. Aquele que toma decisão coordenada/criativa sobre o lado parceiro joga o papel do autor em certo sentido.

A notícia chegou no fim de semana: Blurb, a companhia de serviços editoriais que saiu de uma oferta inicial print-on-demand, tinha contratado editores veteranos Molly Barton e Richard Nash para ajudá-los a construir uma rede de serviços de apoio que eles vão, presumivelmente, operar como negócio autônomo e como uma rampa para seu negócio central. Blurb viu que isso ia acontecer e o movimento fez sentido: dois editores com vasta experiência sabem como encontrar e verificar as ofertas de serviço para todos os componentes necessários para publicar um livro com sucesso.

Mas eu suspeito que para a maioria dos novatos que encontram editores e designers de capa e especialistas em marketing de livros na rede, Barton e Nash vão ajudar a Blurb a entregar [e ficamos imaginando quanto se sobrepõe e qual a distinção qualitativa que haverá entre o que eles prometem com o que uma busca em BiblioCrunch ou no Google poderia mostrar], seriam os próprios Barton e Nash, e pessoas como ele e Bruce Harris e outros veteranos com experiência com muitos livros e muitas listas, que seriam os fornecedores de serviço mais valiosos. O mais ambicioso dos novos estreantes no mercado editorial, entrando para construir sobre o conhecimento e a reputação estabelecidos em alguns outros ecossistemas [até um que é “mídia”], seria inteligente se visse que, como em todas as outras tarefas, a orquestração de um programa editorial é realizado de forma melhor por alguém com experiência. E as pessoas que fornecem isso não precisam estar necessariamente na equipe.

E outro pensamento não relacionado.

No mundo fora do mercado editorial, muito conteúdo está sendo gerado por “marketing de conteúdo”. Foi parte da minha tarefa na programação da DBW – Digital Book World entender como o mundo do marketing de conteúdo e o mundo da edição de livros se conectam.

A forma como um editor instintivamente quer pensar sobre isso é “se as pessoas estão sendo pagas para produzir conteúdo, posso vendê-lo?” Das três possíveis interações com o mundo do marketing de conteúdo, esta provavelmente é a menos produtiva. O marketing de conteúdo tem a ver com criar precisamente o conteúdo correto para a necessidade de marketing de uma marca. Não é especialmente uma postura eficiente procurar o mundo do conteúdo existente para isso, depois ter que licenciá-lo e viver com as restrições de licenciamento, e quase certamente precisar modificá-lo para uso no marketing. Assim, com algumas limitadas exceções, risque isso.

Outra interação potencial poderia ter a ver com distribuir o que é ou produzir conteúdo de marketing como e-books. Eu fiz esta sugestão a um escritório de advocacia que tinha criado um white paper sobre Lei de Marcas Registradas. Por que não publicar como e-book, falei? Eles disseram, para que ter o trabalho? Pensei, não querem aparecer para as pessoas que buscam na Amazon por “lei de marcas registradas”?

Mas quando falei com Joe Pulizzi, o chefe do Content Marketing Institute, sobre e-books, ele disse, “bem, claro, eles poderiam fazer sentido em alguns casos, mas há tantas outras coisas mais importantes para alguém de marketing.” Ele está falando sobre blogs, Pinterest e YouTube e a web e apps onde o conteúdo pode ser feito para mostrar para as pessoas que estariam mais interessadas nisso, exatamente quando elas precisam. Em outras palavras, “entendo sua visão, mas francamente, em geral temos peixes muito maiores para fritar”.

E isso aponta para como as editoras podem ganhar mais dentro do negócio de marketing de conteúdo. As editoras possuem toneladas de conteúdo, mas estão longe de ter descoberto a melhor forma de usar este conteúdo para marketing. Esta é uma ciência adjacente para nós, não algo que temos muita experiência. É por isso que temos Pulizzi falando precisamente sobre este assunto – usando conteúdo para construir uma audiência e como aplicar estas coisas que funcionam melhor que e-books – no palco principal do Digital Book World. Até demos a ele uma sessão dupla porque haverá muitas perguntas de editores [e seus especialistas em marketing] que vão querer incluir estes recursos em seus arsenais.

Muitas das empresas mencionadas neste post vão falar na Digital Book World, 14-15 de janeiro de 2015.Blurb e ePubDirect são patrocinadores que também estarão no programa. Palestrantes da Forbes, Ingram,Overdrive, Oyster, Penguin Random House, Perseus, Scribd, US News & World Report e Vook estão nos painéis. No palco principal, vamos ouvir uma apresentação de James Robinson, que faz análise de web na redação do The New York Times, e Michael Cader e eu vamos conversar com Russ Grandinetti da Amazon.

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 21/11/2014 | Tradução Marcelo Barbão

[Mike Shatzkin é presidente da conferência DBW – Digital Book World, marcada para acontecer entre os dias 13 e 15 de janeiro, em Nova York [EUA]. O PublishNews é media sponsor do evento e os seus assinantes têm desconto especial na inscrição. Para garantir o direito ao desconto, basta informar o código PNDBW15 no ato da inscrição].

Mike Shatzkin

Mike Shatzkin

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].

Iba terá serviço de assinatura de livros e revistas


Iba terá um ‘Netflix’ de revistas. A ideia é ampliar o serviço para e-books ainda nesse ano

O agradável Terraço Abril, no topo do prédio da editora Abril na Marginal Pinheiros, em São Paulo, serviu de cenário para um almoço com Ricardo Garrido, diretor de operações do Iba. Já de início, o assunto do dia: a vinda ou não da Barnes & Noble ao Brasil. “Isso de a B&N vir para o Brasil pelas mãos da Iba soa como música aos meus ouvidos, mas infelizmente, não é verdade”, afiança desmentindo os rumores que pairaram no ar na tarde da última quarta-feira.

Mas o almoço era mais para falar sobre os rumos do Iba e Ricardo conta que já no primeiro trimestre de 2014, o Iba promete colocar na praça um novo modelo de negócios. Vai vender assinatura de revista por assinatura. Não, não erramos ao repetir a palavra assinatura. É isso mesmo. “Essa é uma grande aposta do Iba para 2014. Vamos ter um ‘Netflix’ de revistas. O usuário paga um valor e poderá ler todas as revistas do nosso portfólio e, logo depois, queremos estender esse modelo de negócio aos livros também”, conta Garrido. Para isso, o Iba deve investir R$ 10 milhões em tecnologia ao longo de 2014.

Durante o almoço, Ricardo pega um de seus devices – à mesa, ele estava com um iPhone e um iPad – e diz orgulhoso: “Em média, temos 1.500 novos usuários por dia, mas ontem chegamos a 2.600”. Os números do Iba, a propósito são mesmo de deixar qualquer um retumbante de alegria. A plataforma fechou 2012 – ano de sua criação – com quase 315 mil usuários. Em 2013, um boom elevou esse número a 1,3 milhão. O crescimento de vendas também acompanhou a explosão e fechou 2013 com crescimento de 245% no número de itens vendidos em relação ao ano anterior.

O portfólio também se diversificou nesse período. Em 2012, estavam a venda 12 mil e-books. Esse número fermentou e chegou a 23 mil títulos em 2013. O mesmo aconteceu com as revistas. Se em 2012, o portfólio do Iba contava com apenas duas editoras (Mymag e Rickdan), em 2013, o número subiu para 21 editoras, 146 publicações (já contabilizadas 28 revistas da casa).

Ecossistema

O Iba quer ocupar novos espaços no mercado. “Uma das nossas grandes missões pro ano é ampliar a nossa participação no ecossistema”, aponta Garrido. O primeiro passo nesse sentido foi dado no apagar das luzes do ano passado, quando o Iba passou a ser responsável pela comercialização de e-books da varejista Extra.com. Foi ampliada a parceria com a Abril Educação para comercialização de didáticos. Além disso, o Iba fez parcerias com fabricantes de tablets que têm Android como sistema operacional e eles já saem de fábrica com os aplicativos do Iba instalados. Outro filão que o Iba pretende abocanhar em 2014 é o das vendas para o governo e já está em processo de qualificação junto ao FNDE.

Além disso, por meio de uma parceria com a distribuidora global de e-books OverDrive, o Iba já oferece 30 mil títulos em língua estrangeira. A meta para 2014 é chegar a 200 mil.

Engajamento

Do universo de 1,3 milhões de usuários, Ricardo estima que apenas 10% deles sejam realmente ativos, comprando e lendo pelos aplicativos do Iba. “Essa é uma métrica nova, ninguém nunca se preocupou em medir quantas pessoas entravam numa banca de revistas e folheava, sem comprar, uma revista”, pondera. Para isso, estão sendo pensadas ações para engajar os usuários do Iba. O primeiro passo foi a reestruturação completa dos 15 aplicativos Iba preparados para rodar nos mais diversos devices. “Remontamos completamente as nossas plataformas. Trocamos absolutamente todas as linhas de código dos nossos primeiros aplicativos feitos em 2012”, conta Garrido. Michelle Campos, gerente de marketing, que também participou do almoço, contou que a ideia é entrar com tudo com referências cruzadas para dinamizar e estimular a experiência de leitura pelo Iba. “Com isso, queremos aumentar a recorrência dos usuários, ampliar a escala e acelerar a curva de adoção”, explica Michelle.

Por Leonardo Neto | PublishNews | 13/02/2014

Bibliotecas e editoras têm interesses diferentes


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 07/03/2012

Mike Shatzkin

Uma vez que as bibliotecas representam 5% do negócio de uma editora comercial e uma porcentagem bem menor do negócio de e-books, que o mercado está mudando muito rapidamente e, ainda, que toda livraria, exceto a Amazon, está lutando para manter uma posição sustentável no mercado global de e-books, acredito que há muitas razões legítimas para que as grandes editoras tomem uma posição de “esperar para ver” na questão bibliotecas e e-books. O medo é a criação de uma experiência de “compra e consumo” nas bibliotecas que seja comparável ao que as livrarias podem oferecer. Esse potencial é atenuado agora porque a maioria dos livros importantes não está nas bibliotecas. Mas, se entrarem, as editoras temem que o consumidor deixe de “frequentar” livrarias.

Este medo não tem a ver só com as “perdas das vendas”. Está relacionado também com um “canal perdido” de venda ou uma conexão com o consumidor que passa inteiramente pela Amazon.

Claro, as bibliotecas veem isso de forma diferente porque os principais livros das grandes editoras são bem mais do que 5% do interesse de seus associados. Este é um desequilíbrio que explicaria a diferença na atitude das partes em jogo, para qualquer um que aceite esta realidade. Quer dizer, o eterno “instinto de autopreservação” leva as bibliotecas e as editoras a conclusões um tanto quanto diferentes sobre qual é o melhor futuro e com que rapidez a indústria deveria ir nessa direção.

Quando falei isso numa lista de discussão, provoquei uma pergunta de alguém que defende o ponto de vista das bibliotecas: “Eu estava dizendo que o medo principal é que a Amazon poderia ‘dominar’ a experiência de empréstimo, e que o canal tradicional da biblioteca e qualquer venda que essa experiência pudesse gerar estaria perdido? Ou eu estava falando outra coisa?”.

Bom, eu realmente não tinha pensado nisso, apesar de que a forma como as bibliotecas colaboraram com a OverDrive para estruturar o acordo para os empréstimos da Amazon fez com que essa possibilidade ficasse mais forte do que antes.

O que eu dizia era que já existe a possibilidade de estarmos a caminho de ter uma única livraria para e-books e impressos vendidos on-line, chamada Amazon. Todo canal para o consumidor, tanto bibliotecas quanto livrarias [independente de saberem disso ou não] estão na verdade lutando por suas vidas digitais. As editoras não querem fazer nada que enfraqueça Kobo, Google, Barnes & Noble, ou qualquer um oferecendo algum canal comercial aos clientes. É percebido [intuitivamente, sem dados, apesar de que eu argumentaria na verdade que há grandes limitações ao valor dos dados porque estamos falando sobre as consequências já que o ecosistema muda com o tempo] que dar formas para os consumidores conseguirem o que querem sem pagar por isso enfraquece as outras livrarias.

E não poderíamos dizer, pelo comportamento da Amazon de encorajar os empréstimos através de bibliotecas e fora delas, que talvez eles estejam vendo esta possibilidade também?

Eu sempre espero que uma entidade aja em seu próprio interesse, especialmente quando sua sobrevivência está envolvida [e a Amazon, com o preço de suas ações e enfrentando a possibilidade de perder as vantagens nos impostos nos Estados Unidos, também deve pensar assim]. Acho que todos deveríamos entender que pessoas inteligentes de todos os lados sabem que estão lutando para sobreviver. Isso inclui a Amazon, as editoras, as livrarias concorrentes e as bibliotecas. Nosso problema é que os interesses não se alinham e acho que as pessoas, às vezes, têm problemas em aceitar que esse alinhamento talvez nunca aconteça.

O fã da biblioteca, ao tentar entender “meu argumento”, retrucou se eu estava sugerindo que cada empréstimo de biblioteca poderia se traduzir numa perda de venda; e mesmo se fossem divididas proporcionalmente, eu estava sugerindo que a concorrência da Amazon perderia mais do que ela?

Mas eu realmente não estava tentando escolher um lado ou apoiar qualquer posição particular nessa disputa. Não tenho claro pessoalmente se os empréstimos de bibliotecas estimulariam ou canibalizariam; e de qualquer forma não podemos assumir que a situação de hoje persistiria num futuro diferente. E não acho que as preocupadas editoras estão pensando na venda em si; o que estão pensando é no ecossistema geral que está se desenvolvendo.

Ainda bem que não sou uma grande editora que precisa tomar essas decisões. Só decido quando preciso e no momento, na verdade, estou deliberando sobre uns poucos livros que controlo; e sem ainda ter tomado uma posição. Mas independente do que eu fizer, não assumiria que a Simon & Schuster deveria fazer a mesma coisa [em algum momento da semana que vem terei de decidir sobre DRM e sobre empréstimos a bibliotecas em relação a alguns e-books que herdei os direitos e arquivos POD, do meu pai].

Há muitos caminhos, desde o que a OverDrive já está fazendo para a Bloomsbury até a ideia de “emprestar um aparelho” da 3M e o conceito de assinatura da Recorded Books e a negação total, todas táticas razoáveis no mercado atual. As pessoas não perdem muito ficando de fora nem se arriscam muito se entrarem neste momento [quando a tecnologia ainda está bastante antiquada e a maioria dos livros importantes não está disponível]. A Random House está ganhando alguma vantagem da situação de forma muito hábil e sem dúvida deixando a concorrência das Big Six muito brava, assim como fizeram quando demoraram a adotar o modelo de agência [continuam a suprir as bibliotecas sem limitação, mas subiram os preços das “edições de bibliotecas” de seus e-books].

Realmente não quero fazer julgamentos porque há muitas coisas que não sei sobre a situação de cada empresa, onde elas estão equilibrando o relacionamento com os agentes e, no caso das três editoras que estão investindo na Bookish nos EUA e as outras duas investindo na Anobii, no Reino Unido, quais os planos para desenvolver um canal próprio. Mas acho que a maioria de nós concorda que o valor recebido por leitura que as editoras grandes serão capazes de ganhar provavelmente vai cair [alguns otimistas argumentariam que o número de leituras vai subir, mas, claro, isso é um conforto questionável se o número de livros disponíveis também crescer, e isso vai acontecer]. Então, as editoras estão bem conscientes disso, de uma forma que elas nunca tiveram de pensar antes, quando o preço do que vendiam estava amarrado pelas realidades físicas.

Essas não são decisões morais, são comerciais [mesmo quando são feitas por entidades sem fins lucrativos]. Eu acho que as editoras menores conseguirão tirar mais vantagem desta situação em que as Big Six não estão nas bibliotecas, conseguindo mais vendas e maior facilidade em fazer com que seus livros sejam descobertos [talvez da mesma forma que a Random House, a preços premium!]. Se as vendas superarem os riscos ou as consequências negativas, então as Big Six voltarão e este pedaço do mercado vai mudar novamente em detrimento das editoras novas. Enquanto isso, alguns autores serão descobertos, algo que não aconteceria se as Big Six estivessem nesse mercado desde o começo.

Estamos falando de um jogo de xadrez multijogadores de longo prazo, não o final de um campeonato. Minha tendência é olhar e coçar a cabeça, sem torcer por nenhum time em especial.

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 07/03/2012

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].

OverDrive compra Booki.sh


A OverDrive comprou a empresa australiana Booki.sh por um valor não divulgado, num movimento que, segundo a distribuidora digital, permitirá uma experiência de leitura “nova, direta e envolvente” para bibliotecas e escolas. A Booki.sh é uma plataforma para distribuição, venda e leitura de e-books que não requer a instalação de um app para ler os livros. A OverDrive planeja expandir a distribuição e as plataformas de livraria digital da empresa adquirida, bem como integrar a tecnologia de leitura de ePub e HTML5 da Book.ish aos seus próprios serviços para bibliotecas e escolas.

Por Lisa Campbell | The Bookseller | 05/03/2012

Random House adere ao modelo de agência


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 16/03/2011

Mike Shatzkin

Agora todas as Big Six estão vendendo livros pelo modelo de agência. A Random House se uniu a suas cinco concorrentes.

Faz quase um ano que a Apple lançou o iPad, abriu a iBookstore e entregou às grandes editoras uma oportunidade para reescrever as regras do mercado de e-book, pelo menos para seus próprios livros e por algum tempo. Como leitores desse blog certamente sabem, cinco das maiores editoras (Hachette, HarperCollins, Macmillan, Penguin e Simon & Schuster) usaram a oportunidade apresentada pela chegada da Apple à cena e implementaram a mudança para o modelo de agência para todos seus clientes. A Random House, por motivos que fizeram sentido para mim na época – e quase certamente ganhando algumas vantagens competitivas no último ano, julgando pela raiva entre muitos de seus concorrentes de igual tamanho –, ficou com o modelo de distribuição original.

A vantagem competitiva vinha do fato de que todas editoras com modelo agência “forçavam” uma margem de 30% no canal de venda de e-book enquanto que a Random House pode ter, no final da história, abocanhado mais margem do canal de varejo.

Estas são minhas interpretações sobre essa mudança:

1. O modelo agência foi bem-sucedido em quebrar a hegemonia da Amazon sobre o mercado de e-book. Um ano atrás, parecia possível que a Amazon conseguisse manter de forma duradoura entre 75% ou 80% do mercado de e-book. Hoje, apesar de ainda terem a maior fatia, e quase certamente terem mais do que o dobro de qualquer outro, o modelo de agência permitiu que se desenvolvesse uma competição real com a iBookstore, o Nook da B&N, Kobo e Google. E os independentes servidos por Google, Ingram e Overdrive ao redor do mundo podem oferecer uma alavancagem de mercado em potencial, se não forem expulsos do jogo pela competição do preço. A Amazon ainda é um gigante, mas não é o único player do mercado. Ao implantar o modelo de agência agora tanto a Random House como a Amazon ganham alguma vantagem comparativa. Se a Amazon ainda tivesse 80% do mercado, não veríamos essa mudança.

2. A Google pode não estar vendendo (ainda) muitos e-books (o sentido de não terem uma grande fatia do mercado), mas estão abrindo cada vez mais espaço para os independentes. Estes conversam com representantes de venda e a Random House possui mais representantes do que qualquer outro. Eu imagino que a empresa começou a sentir um certo desconforto com o feedback que estavam do varejo que eles querem manter vivo.

3. Até o momento, nenhuma das grandes editoras tomou a iniciativa de vender agressivamente e-books diretamente para os consumidores online. Mas elas acabarão tendo de fazer isso. Vocês podem se lembrar que o CEO da Random House, Markus Dohle, me contou no ano passado que tinha percebido que as editoras precisariam se tornar B2C. Ele não estava sugerindo que venderia livros direto ao consumidor no momento; na verdade, ele insistia que havia outras formas de manifestar aquela visão que não fossem vendas diretas. Mas se alguma vez você pensar em vender direto e dedicar quinze minutos a isso, vai perceber que ou terá de fazer sob termos de agência ou enfrentará complicadas e bastante problemáticas conversas com seus varejistas.

E é isso que estou vendo.

No momento, até onde posso afirmar, há muito pouco uso, entre as grandes editoras, de sua capacidade de gerenciar os preços no mercado. Não conheço muitas experiências sendo feitas. Não conheço nenhum especialista em marketing direto ou em dinâmica de preços (duas coisas que seriam relevantes) sendo contratados por grandes editoras para ajudá-las a perceber o potencial das oportunidades. E só posso lembrar de um executivo sênior conhecido que possui um interesse pessoal em dinâmica de preços.

Talvez seja diferente com a Random House. Eles são os líderes tradicionais da indústria em termos de operações e análises. Fazem inventários gerenciados por vendedores para as contas de varejo; não conheço nenhuma outra grande editora que faça o mesmo. Possuem um sofisticado gerenciamento de cadeias de suprimento há anos.

Agora têm a vantagem de ver o que seus concorrentes fizeram e o que não fizeram, durante o primeiro ano de preços pelo modelo de agência. Será importante ver se aproveitam de forma mais enérgica a oportunidade com o gerenciamento de preços do que as outras editoras fizeram até o momento.

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 16/03/2011

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].