Minha nova preocupação de estimação


Por Camila Cabete | Texto publicado originalmente em PublishNews | 25/10/2012

Em minha última viagem, participei da semana acadêmica de Comunicação da UFSM, como palestrante da recém-criada cadeira de Produção Editorial. Fiquei muito feliz por encontrar uma equipe de mestres e doutores com uma visão tão esclarecida do mercado. Pode ser que eu tenha me enganado – afinal isso é uma coluna e não tenho compromisso com dados – mas acredito que seja a grade mais completa e atualizada do mercado, e se ainda não for, contam com profissionais preparados e engajados para transformar essa cadeira em referência nacional. Fiquei muito feliz mesmo.

Após a palestra, um aluno querido me perguntou se eu podia indicar um pacote básico de conhecimentos na área, para que ele pudesse se preparar minimamente para o mercado. Então falei que, em primeiro lugar, eles precisavam consumir o produto e-book. Como seriam capazes de desenvolver produtos digitais se nem conhecem suas utilidades, praticidades e também suas falhas?

Em segundo lugar, expliquei que deveriam amar a tecnologia, se atualizar e consumir, na medida do possível. Recomendei também que aprendessem o básico sobre HTML e programação de ePub, afinal, mesmo que não trabalhem como diagramadores, que ao menos saibam dialogar com os profissionais. Finalmente, sugeri que entendessem de metadados em ONIX, o sistema de catalogação e atualização de dados dos e-books. A planilha Excel pode suprir essa deficiência mas, já que é uma deficiência, por que não estudar logo ONIX? Sabiam que ele é mais simples de manusear que uma planilha?

O melhor de tudo foi ver olhinhos brilhando. Precisamos de profissionais com olhos brilhando. E o melhor, profissionais preparados para encarar as novas rotinas de atualização profissional do editor do futuro.

Mas, como nem tudo são flores, a decepção da semana ficou por conta dos escritores e futuros escritores que ainda pensam dentro da caixa. Sinto uma eterna amarra na imagem do cultuado e isolado autor, com olheiras e trancado em sua casa com fumaça de cigarro, remoendo o quanto a vida é injusta por não reconhecerem sua genialidade, seu brilhantismo. O que será de nós editores se nossos autores, criativos e coração de todo o processo, não conseguirem visualizar as possiblidades e maravilhas do mundo digital? Fiquei preocupada com isso. Acho que foi a primeira vez que voltei minha atenção para esse fenômeno, que chamarei carinhosamente de “síndrome-do-autor-tuberculoso-do-século-XIX”.

Vamos discutir esse assunto? Vamos voltar nossos olhos para o coração de nosso processo de produção? Enquanto ficamos alimentando a “síndrome-do-autor-tuberculoso-do-século-XIX”, nossas crianças já consomem conteúdo digital e, por falta de autor pensando fora da caixa, teremos uma geração alfabetizada em inglês. Sim, pois elas só encontram aplicativos e livros que condizem com sua realidade digital em inglês.

Pensei que o autor quisesse muito ser lido, independentemente do meio, mas pelo visto não… Continuam apegados ao objeto, não conseguindo enxergar as maravilhas da distribuição digital. Estão apegados à imagem do autor-mártir, que não vive de literatura e aceita isso, e acham heresia tentar viabilizar comercialmente um conteúdo. Realmente este tipo de visão, no meio de todos os furacões de chegadas de gigantes do e-book no Brasil, me fez perder o sono. De que adianta ter gigantes para viabilizar a distribuição de conteúdo, se as mentes criativas e provedoras só precisam de um exemplar impresso, de um objeto de estante, para serem completos e felizes?

Para o bem ou para o mal, me escrevam camila.cabete@gmail.com.

Por Camila Cabete | Texto publicado originalmente em PublishNews | 25/10/2012

Camila Cabete [@camilacabete] tem formação clássica em História e foi responsável pelo setor editorial de uma editora técnica, a Ciência Moderna, por alguns anos. Entrou de cabeça no mundo digital ao se tornar responsável pelos setores editorial e comercial da primeira livraria digital do Brasil, a Gato Sabido, além de ser a responsável pelo pós-venda e suporte às editoras e livrarias da Xeriph, a primeira distribuidora de conteúdo digital do Brasil. Foi uma das fundadoras da Caki Books [@CakiBooks], editora cross-mídia que publica livros em todos os formatos possíveis e imagináveis. Hoje é a Brazil Senior Publisher Relations Manager da Kobo Inc. e possui uma start-up: a Zo Editorial [@ZoEditorial], que se especializa em consultoria para autores e editoras, sempre com foco no digital. Camila vive em Copacabana e tem uma gata preta chamada Lilica.

A coluna Ensaios digitais é um diário de bordo de quem vive 100% do digital no mercado editorial brasileiro. Quinzenalmente, às quintas-feiras, serão publicadas novidades, explicações e informações sobre o dia-a-dia do digital, críticas, novos negócios e produtos.

Os metadados dos livros


Por Karine Pansa

Karine Pansa

O Brasil conquistou posição relevante entre os primeiros países do mundo no ranking econômico mundial. E o mercado editorial brasileiro precisa beneficiar-se deste novo contexto. Afinal, não lhe faltam bons profissionais em toda a cadeia produtiva do livro.

Mas, para tanto, é indispensável que os próprios brasileiros leiam mais livros, que o mercado interno seja uma realidade na proporção do seu verdadeiro potencial. Para que isso aconteça, é necessário que os livros “existam”, “apareçam”, sejam encontrados e estejam a disposição do consumidor em qualquer hora e lugar.

Sem dúvida, avançamos muito na distribuição e em livrarias como, também, em bibliotecas. Mas, ainda há muito o que ser feito nesse sentido. Na era das mídias digitais, um dos modos mais eficientes de comunicar a existência de um título é pela divulgação precisa dos dados das obras [título, autor, editora, resenha, preço, capa etc] para que os robôs de buscas, os blogs, aplicativos e outras modernas e úteis ferramentas ajudem no processo.

Informações precisas, corretas e ricas sobre livros, seus autores e editoras, são hoje denominadas “metadados”.

Enfrentando os desafios

O mercado editorial brasileiro experimenta uma positiva transformação, algo sem precedentes em sua história. Neste oportuno cenário, a Câmara Brasileira do Livro acompanha de perto as mudanças, atua permanentemente para o aperfeiçoamento do mercado. São muitos e distintos os desafios da modernidade, e a CBL fortaleceu-se ainda mais ao criar a Comissão do Livro Digital. Seus grupos de trabalho têm apresentado discussões interessantes sobre temas como tributação e padrões. Além disso, são concretos e crescentes os resultados obtidos com o Congresso Internacional do Livro Digital, já em sua terceira edição, que acontecerá em maio próximo.

Mas, a CBL quer continuar avançando em outras frentes e, neste mês de fevereiro, a entidade inicia os testes do Cadastro Nacional do Livro [CANAL], com cerca de cinco editoras associadas. O Cadastro Nacional do Livro entra, portanto, em um efetivo processo de consolidação.

Um novo canal para os livros

O sistema CANAL, que já está hospedado e customizado para a realidade do Brasil, será inicialmente validado pelo que consideramos um dos mais importantes elos da corrente que integra a cadeia produtiva do livro: a editora.

As editoras convidadas poderão usar o CANAL, para que possamos atestar a eficácia do sistema. Assim, elas poderão organizar seus catálogos como nunca antes lhes foi possível.

Não é necessário instalar nenhum software ou plug-in. Basta o cadastro no CANAL para, imediatamente, iniciar a organização dos catálogos e a sua divulgação. Não é necessário qualquer conhecimento técnico. Basta preencher os dados das obras nos campos respectivos, sob regras muito bem definidas e padronizadas.

As editoras poderão extrair os dados, através de um arquivo Excel, e os enviar para os seus networks atuais. Elas também se beneficiarão do fato de que, em pouco tempo, distribuidores, livreiros, bibliotecários e outros usuários e desenvolvedores utilizarão estes mesmos dados para melhorar as suas bases em pontos de vendas, sites, blogs, aplicativos, redes sociais e uma infinidade de outros bancos de dados que já atuam na venda dos livros.

E tudo isto, graças à Onix for Books.

O padrão Onix for Books

Onix for Books é um padrão de intercâmbio de dados. Não se trata apenas de uma tecnologia, mas, acima de tudo, é uma iniciativa que pretende padronizar os dados sobre os livros no mundo. Isto implica em dizer que os livros em língua portuguesa podem circular em bancos de dados em todo o planeta, utilizando uma interface comum: o CANAL. Amazon e Apple já utilizam este padrão.

A CBL é membro ativa do Grupo de Trabalho de Metadados do Centro Regional para o Fomento do Livro na América Latina e Caribe [CERLALC], órgão intergovernamental ligado à UNESCO, que definiu os dados bibliográficos mais importantes para indústria internacional do livro.

O Grupo de Trabalho de Metadados CERLALC também definiu, em setembro de 2011, entre outras diretrizes, a adoção da iniciativa Onix for Books como padrão para o intercâmbio de metadados na Região. A iniciativa Onix for Books, desenvolvido pela EDITEUR [www.editeur.org], grupo de coordenação de infraestrutura para comércio eletrônico, está se estabelecendo como padrão internacional para representar e comunicar as informações eletrônicas sobre o produto livro.

Mas os benefícios do padrão de dados Onix for Books, adotado pela Câmara Brasileira do Livro, são, principalmente, para refletir no trabalho diário de centenas de distribuidores, livreiros e bibliotecários que necessitam das informações sobre os livros para melhorar, ainda mais, a circulação, venda e comercialização das obras.

Uma vez que o Brasil chegou aos primeiros lugares entre os maiores países do mapa econômico mundial, e a globalização do uso das tecnologias bate em nossa porta, o mercado editorial precisa estar preparado para enfrentar a concorrência de players que podem segmentar o nosso mercado tornando a concorrência global ainda mais perturbadora.

Através dos inúmeros e precisos dados disponíveis no CANAL, os livros em língua portuguesa permanecerão vivos, em prateleiras físicas ou virtuais, para que sejam catalogados, acessados, comprados e, principalmente, lidos.

Quem desejar conhecer o status do Cadastro Nacional do Livro, acesse http://www.cbl.org.br/canal.

* Karine Pansa é editora e presidente da Câmara Brasileira do Livro [CBL].

Publicado originalmente em CBL | 23 de Fevereiro de 2012