Um smart reader de verdade!


POR EDNEI PROCOPIO

Nos meus dois últimos livros, “O Livro na Era Digital” e “A Revolução dos eBooks” eu dizia que não tinha certeza se os e-readers, os dispositivos dedicados, iriam ganhar mercado e se tornar um padrão para a leitura dos livros eletrônicos. Eu tentava me convencer de que talvez os dedicated readings devices fossem a melhor opção para o mercado editorial.

Terminei de escrever “O Livro na Era Digiral” em 2010, quando uma segunda geração de reading devices estava ganhando força e os tablets, embora tivessem sido inventados na década de 1970, e testados no início dos anos 2000 pela americana Microsof Corp., ainda não tinham ganhado mercado. O impulso que faltava para os tablets só veio depois que fora lançada a versão da Apple e que impulsionou esta categoria de produto.

O fato é que nem os e-readers e nem os tablets se tornaram tão emergentes e populares quantos os smartphones. Penso que, embora torcesse pelos e-readers, naquela momento, não queria admitir que estes não seriam páreo para os smartphones, muito menos para os tablets. É que eu vinha de uma fase em que a primeira geração de e-readers já havia me encantado o bastante a ponto de me fazer crer que precisávamos apenas de um bom LIBRIè para revolucionar o mercado. O resto viria história em pouco tempo.

Mas o tempo me mostrou que talvez estivesse errado em se tratando de um mercado editorial arcaico, retrógrado, ultrapassado e cheirando a papel mofado. Mais recentemente, no entanto, um estranho, e genial, smartphone de codinome Yotaphone 2, criado pela empresa russa Yota, fez-me sentir redimido de minhas dúvidas.

Vire o Yotaphone 2 e leia seu livro com mais conforto | Photo: Divulgação

Vire o Yotaphone 2 e leia seu livro com mais conforto | Photo: Divulgação

Na parte da frente, o Yotaphone 2 parece ser um smartphone que roda o sistema operacional Android; basta no entanto virar o aparelho para perceber que ele também serva para a leitura, demorada, dos livros eletrônicos, pois mantém uma segunda tela que utiliza a tecnologia do que chamamos aqui de papel eletrônico [o famoso e-ink usados em muitos e-readers por aí].

Aqui a gente percebe uma convergência no uso de diversas telas nos dispositivos portáteis para o consumo de mídia. A ideia do Yotaphone 2 é bem simples: os desenvolvedores reconhecem que muitas mensagens instantâneas de textos [como as do Whatsapp, por exemplo], e-mails, notícias, e-livros, etc., não precisam dos recursos da cor e, por essa razão podem ser acessados na tela traseira e, assim, economizar a famigerada bateria – o maior dos pesadelos, todos sabemos, quando se fala em dispositivo portáteis e móveis.

Durante algum tempo me vi perdido em criar uma resposta que convencesse as pessoas que os dedicated readings devices seriam a melhor opção para o mercado editorial. Creio que, agora, no entanto, eu não precise mais ficar decorando respostas prontas, basta mostrar o case Yotaphone 2 e as pessoas talvez se toquem de que suas convicções sobre os livros eletrônicos estão sempre sendo derrubadas por novas ideias.

POR EDNEI PROCOPIO

Mercado de livro em alta destaca papel de editor


Atividade tem graduação própria, mas muitos profissionais são jornalistas de origem

O número de leitores tem aumentado no Brasil. Resultados apresentados por uma pesquisa feita Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas [Fipe] para o Sindicato Nacional dos Editores de Livros [SNEL] e Câmara Brasileira do Livro [CBL] indicam crescimento de 7,2% nas vendas de livros entre 2010 e 2011 – últimos dados fechados disponíveis. As editoras brasileiras comercializaram 469,5 milhões de exemplares em 2011 É um novo recorde para o setor.

No caso dos e-books, incluídos pela primeira vez na pesquisa Fipe, os números ainda são pequenos, se comparados ao livro tradicional, mas já têm boa presença no panorama editorial, com mais de 5.200 títulos lançados em 2011. Em relação às vendas, o total desse segmento correspondente a um faturamento próximo de R$ 870 mil.

Apesar de os números indicarem um mercado em expansão, a gerente da CBL, Cristina Lima, estima em 500 o número de profissionais em atividade no Brasil. Oriundos do jornalismo ou dos cursos de letras, a maioria aprendeu na prática técnicas de marketing, relações públicas e administração de empresas, que somadas ao conhecimento de artes gráficas, literatura e ao domínio de alguns idiomas além do português, permitem que exerçam as várias facetas da função.

Trajetórias profissionais como a de Maria Amélia Mello, da José Olympio, uma das mais antigas e tradicionais editoras brasileiras e pertencente ao grupo Record, ou de Luiz Fernando Emediato, dono da Geração Editorial, fundada há 21 anos, confirmam a origem dos editores de livro em atividade no mercado atual. Ambos exerceram o jornalismo antes de ingressarem no mundo dos livros.

Outra característica comum é a paixão pela literatura, que se reflete mesmo entre os mais jovens, como é o caso de Ednei Procópio, que é especialista em e-book. E autor de livros, entre eles “O Livro na Era Digital”, que mostra como as novas mídias estão transformando o hábito da leitura em todo o mundo.

Para acompanhar a dinâmica profissional, os editores ocupam parte de seu tempo em cursos e palestras, onde às vezes são alunos, mas também participam como professores, numa troca constante de conhecimento. Instituições como a Fundação Getúlio Vargas, PUC, Senac e a própria CBL estão sempre organizando eventos desse tipo.

Maria Amélia inclui em seu roteiro sebos e feiras de antiguidades, onde é possível encontrar raridades editoriais que podem servir de inspiração para novos lançamentos. “Todo dia, o editor acorda achando que ele vai descobrir alguma coisa nova“, diz. Emediato, por sua vez, não dispensa a internet para acompanhar o que está acontecendo. Para ele, “o mundo está a um toque de seu dedo“.

Os dois editores citam a Feira do Livro de Frankfurt, em outubro, como a principal no plano internacional, e revelam a expectativa de bons negócios na edição deste ano, que tem o Brasil como tema. Clássicos da literatura nacional e escritores consagrados como José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Ariano Suassuna ou Ferreira Goulart, todos da José Olympio, já tem lugar garantido na bagagem de sua diretora editorial, Maria Amélia.

Com um olho no mercado e outro na qualidade dos textos que seleciona e publica, Emediato prefere aproveitar o evento para estreitar relações com agentes literários, mantendo o networking, que considera indispensável para conseguir bons negócios para a sua editora.

Formação. Com números indicando um mercado em expansão, a procura por cursos de formação profissional para editores de livros não fica atrás. Além daqueles oferecidos por instituições tradicionais, como a Universidade de São Paulo [USP] – o curso de Editoração da Escola de Comunicação e Artes [ECA] existe desde o início da década de 1970 – e a Universidade Federal do Rio de Janeiro, são oferecidas formações rápidas que buscam atualizar os profissionais já em atividade para as novidades do mercado.

A formação generalista, como definem alguns editores, cede lugar à especialização, cada vez mais necessária em um mercado globalizado. Mas o número de vagas anuais que o vestibular da USP destina para editoração é de apenas 15.

De acordo com o professor Plínio Martins Filho, que coordena essa área da ECA/USP, os alunos ingressam no mercado de trabalho antes mesmo de concluírem o curso, o que faz com que também aprendam na prática. Mas a faculdade também se ocupa da formação técnica dos alunos, que têm uma editora-laboratório para trabalharem todas as etapas da publicação de um livro, da elaboração ou escolha de um texto, passando pela revisão, projeto gráfico, criação da capa, diagramação, até a sua divulgação e comercialização.

A grade curricular inclui formação literária, além de conhecimento jurídico, de marketing e o domínio do português, com todas as suas atualizações. “Somos os guardiões da língua culta”, define Martins Filho, dando a entender que esse atributo é indispensável para quem quer ser um editor de livros.

POR ELI SERENZA | ESPECIAL PARA O Estado de S.Paulo | 07 de abril de 2013