A biblioteca virtual ‘Nuvem de Livros’ e a contemporaneidade


Por Roberto Bahiense, CEO da Biblioteca Digital Nuvem de Livros | Publicado originalmente em São Paulo Review | 24 novembro 2015

A biblioteca virtual ‘Nuvem de Livros’ e a contemporaneidade

A biblioteca virtual ‘Nuvem de Livros’ e a contemporaneidade

Estive em Paris durante o Salão do Livro deste ano, a convite do Bief – Bureau International de l’Édition Française, juntamente com respeitados editores e players da cadeia produtiva do livro no Brasil.

Antes, portanto, do horror que se abateu sobre a cidade nos últimos dias.

Lembrei-me, lá, de um livro que havia lido há alguns anos, de autoria do norte-americano Edmund White, publicado pela Companhia das Letras. O livro chama-se O flâneur – um passeio pelos paradoxos de Paris.

Tratei, na ocasião, durante a palestra que proferi no Centre National du Livre, dos paradoxos do meu País, de modo a contextualizar, justificar e legitimar a Biblioteca Virtual Nuvem de Livros.

Ao longo da minha exposição, após apresentar o que fizemos no Brasil e estamos, agora, desenvolvendo em outros países – com início na Espanha, em parceria com uma destacada corporação francesa, a Orange, e em vários países da América Latina, a partir de janeiro de 2016 -, esbocei, como Edmund, a mesma visão estrangeira sobre a realidade francesa, no tocante ao mercado do livro digital, sobretudo a partir da decisão do governo francês, notadamente da ministra Fleur Pellerin, sustentada por análise do “Le médiateur du Livre”, que identifica a ilegalidade dos serviços de leitura via streaming e de outras soluções análogas na França.

Antes que eu provocasse possíveis reações por parte das áreas de decisão governamental daquele país, Edmund, novamente ele, com a sua narrativa envolvente, em O flâneur…, auxiliou-me ao afirmar, no seu livro, que “os franceses têm uma civilização tão atraente, plena de plácidos prazeres e de tolerância genérica, e seus gostos em todos os domínios são tão marcantes, tão firmes, que um estrangeiro – eu, no caso – é logo levado a acreditar que, caso se tornasse um parisiense, dominaria, finalmente, a arte de viver.”

Esta singela menção protegeu-me, creio, em relação aos comentários que fiz e das minhas tímidas reflexões sobre o tema.

Voltemos, contudo, aos acontecimentos protagonizados, pela ministra da cultura, Fleur Pellerin.

Voltemos, também, ao Edmund.

Diz ele que a França só poderá continuar a exercer a sua função de farol da civilização, e não apenas de guardiã de sua herança, se abraçar a cultura híbrida e internacional que floresce mundo afora, sobretudo nos países emergentes como o Brasil.

No documento produzido por “Le médiateur du Livre”, há menção explícita a “…um risco de transferência, com a possibilidade de os atuais compradores de livros impressos ou digitais migrarem maciçamente para as ofertas de assinatura com condições financeiras menos favoráveis para os detentores dos direitos…”.

Ao pressupor tal comportamento, limita-se o crescimento do mercado leitor.

Conter a inexorável mudança de comportamento dos indivíduos, diante da velocidade dos novos modelos de intercomunicação pessoal com o apps e as redes sociais, é como tentar reter água com as mãos.

O documento faz referência, ainda, “à queda das receitas dos autores que participaram da experimentação de modelos deste tipo nos Estados Unidos e que, recentemente, falaram sobre sua decepção na imprensa”.

Não é factual e não se aplica a uma plataforma com a Nuvem de Livros, única no mundo a remunerar os editores e autores pelo aluguel de leitura dos conteúdos em suporte digital.

Diz o documento: “O nível de tarifação aplicado gera críticas. Esse nível se alinha às tabelas praticadas na música e no audiovisual, ao passo que as tarifas de venda unitária são, no entanto, distintas em cada setor. Por outro lado, o montante da assinatura é equivalente ao preço médio de um livro digital. Consequentemente, o serviço somente se torna financeiramente interessante para o usuário desde que se leia pelo menos dois livros por mês, o que o coloca, de fato, entre os leitores regulares (mais de vinte livros por ano). O simples fato de procurar livros no catálogo, em vez de lê-los na sua totalidade, não pode justificar o custo do serviço para um leitor médio, até porque os sistemas de disponibilização de trechos se multiplicam nas plataformas de difusão de livros digitais.”

Ao contrário, pois a ideia envolve sobretudo portabilidade, em tempos de caos e cólera em relação à mobilidade urbana, o que envolve outros ativos da Nuvem de livros, como os audiobooks, por exemplo.

O parecer do “Le médiateur du Livre” reúne, ainda, dois outros ângulos de visão sobre o tema.

Uma primeira abordagem faz da assinatura um vetor de desenvolvimento de novos mercados, autorizando modos, até então inéditos, de exploração dos catálogos, mas também de editoração da oferta (uma resposta totalmente integrada à necessidade de prescrição que reforça a profusão e a dispersão dos bens culturais no universo digital).

Assim, a possibilidade de acessar um catálogo mais amplo por um custo controlado, em um contexto que favorece as descobertas fortuitas, teria por natureza a intensificação das práticas de leitura de um público já amplamente familiarizado com o livro.

Estudo da Nielsen Book argumenta que os assinantes de serviços de leitura digital continuam a gastar mais do que a média em compras de livros digitais e que eles estariam dispostos a investir uma quantia mensal em assinatura superior a fim de aumentar a oferta de livros.

Uma segunda concepção, não exclusiva da primeira, argumenta que esse modo de comercialização está em sintonia com os usos digitais: ele se dirige a gerações ou segmentos da população mais familiarizados com as telas que com o papel, que estão acostumados com ofertas que se curvam às suas exigências de mobilidade e busca de livros, tendo desenvolvido uma concepção de bens culturais que é oriunda mais do fluxo que da obra como unidade fechada. Além disso, a assinatura é totalmente integrada a seus hábitos e atende às suas exigências de acesso, o mais amplo e o mais fácil possível para a cultura.

Mesmo assim, o legislador cultural definiu, surpreendentemente, a meu ver, que tais serviços são ilegais na França porque o preço dos livros deve ser fixado pelos editores e não pelos vendedores.

Mas é assim que ocorre na Nuvem de Livros, com os editores sabendo, prévia e rigorosamente, por quanto estará sendo oferecido o acesso ilimitado ao acervo da plataforma.

Se vamos caminhar pelo mundo – e essa é a nossa intenção determinada -, oferecendo uma solução respeitável que traz um dinheiro novo e forma novos leitores para a cadeia produtiva do livro, interessa-nos discutir protocolos legais como este onde quer que sejam definidos e estabelecidos.

De forma ampla, sem preconceitos quaisquer.

Oyster desiste de ser o Netflix dos livros


Depois de dois anos de operações, serviço de subscrição deve encerrar suas operações nos próximos meses

A história da Oyster, uma das primeiras plataformas de subscrição de livros do mundo, parece perto de um turning point. A companhia anunciou, nesta terça-feira [22], que encerrará, nos próximos meses, as suas operações. Nos últimos dois anos, o “Netflix dos livros” oferecia um catálogo de mais de um milhão de títulos por US$ 9,95 mensais. O curioso dessa história é que, segundo apurações do nosso parceiro Publishers Weekly, boa parte do staff da Oyster – incluindo o seu CEO Eric Stromberg e os cofundadores Andrew Brown e Willem Van Lancker — está migrando para o Google Play Books. Não se sabe, no entanto, se o Google comprou a plataforma ou se vai investir em um serviço de subscrição de e-books, nos modelos da Oyster. O que se sabe é que, no histórico da gigante, estão compras de start-ups que passaram a ser um serviço do Google. A jogada de toalha da Oyster vem dois meses depois de a Entitle fazer o mesmo.

No Brasil, há algumas experiências de serviços de subscrição de e-books. Uma das pioneiras é a Nuvem de Livros, que hoje tem um catálogo de 16 mil conteúdos [entre e-books, audiolivros, vídeos e games educativos] e uma base de 2,5 milhões de assinantes ativos, segundo informou Roberto Bahiense, diretor da empresa. Em fevereiro desse ano, o executivo lembra que começou um movimento de internacionalização da plataforma. No início do ano, chegou à Espanha e para outubro, Bahiense contou ao PublishNews que a Nuvem estacionará no México, Colômbia e Peru, em parceria com a operadora de telefonia móvel Moviestar. No final de 2014, a Amazon lançou por aqui o Kindle Unlimited que tem um milhão de títulos no seu catálogo. Desses cerca de 60 mil, segundo informou a varejista, são de livros nacionais. O número de usuários, a Amazon não revela. Outra plataforma que oferece esse serviço de assinatura é a Ubook, especializada no formato de áudio. Em julho, Flávio Osso e Eduardo Albano, fundadores e sócios da Ubook, fecharam uma parceria com a Saraiva, que passou a ofertar o serviço a seus clientes. Com isso, a Ubook alcançou uma base de 600 mil assinantes que podem ouvir os mais de mil títulos em áudio que a plataforma oferece.

Por Leonardo Neto | Publicado originalmente em PublishNews | 23/09/2015

A construção de um cânone na esfera digital


Por Ednei Procópio

A I Feira Nordestina do Livro [Fenelivro], inicia amanhã [28] e vai até o próximo dia 7 de setembro. O evento, promovido pela Associação do Nordeste de Distribuidores e Editores de Livros [Andelivros] e pela Câmara Brasileira do Livro [CBL], em parceria com a Companhia Editora de Pernambuco [Cepe], será realizado no Centro de Convenções de Pernambuco.

É a primeira edição do evento. Pelo que pude apurar, a I Feira Nordestina do Livro terá uma programação com workshops, palestras, minicursos e vai contar com uma área de 4 mil m², cerca de 200 estandes e mais de 200 autores convidados. A previsão, segundo os organizadores, é a de que o evento atraia cerca de 150 mil visitantes.

Entre um dos espaços do evento estaremos eu, Maurem Kayna e meu amigo Roberto Bahiense, da Nuvem de Livros, com quem venho trocando ideias e experiências nos últimos anos sobre os eBooks [no Brasil e no mundo].

Achei um pouco exótico o título da nossa mesa na Fenelivro, “A construção de um cânone na esfera digital“, mas, como evangelista dos livros digitais em pelo menos uma década e meia, estou tentando tirar de qualquer iniciativa algum resultado prático que possa ajudar-nos com modelos flexíveis e assertivos para o nosso mercado.

O mercado editorial está inserido em uma esfera de oportunidades que poderia resolver questões seculares, aqueles problemas que não eram possíveis de se solucionar até o advento da Internet. Mas, antes de elucubrações imprecisas, precisamos conceituar o que seria esta esfera digital da qual trata o título da mesa. Esta esfera pode ser a própria digitalização da economia industrial do livro ou até mesmo, preciso melhorar meu entendimento sobre esse assunto, a economia do compartilhamento das coisas.

É fato que o número de superfícies para o acesso, consumo e leitura dos livros, nesta esfera digital, só cresce. A base instalada de devices que podem portabilizar os livros chegam hoje a casa dos 180 milhões de telas. Segundo pesquisa realizada pela eMarketer, o Brasil é o 6º país com o maior número de smartphones. Uma projeção realizada pela mesma empresa norte-americana, revela que em 2018 o Brasil terá 71,9 milhões de smart devices. E, segundo os números da FGV [de abril de 2015], o número de hardwares conectados à verdadeira grande rede de relacionamentos, a Internet, já ultrapassa a casa dos 306 milhões.

Nos Estados Unidos, por exemplo, um mercado na qual sempre nos espelhamos, 84% da população possui celulares inteligentes capazes de portabilizar os livros, e é por esta mesma razão que 54% de smartphones são utilizados para leitura naquela região.

A abundância de reading devices, no entanto, cuja onipresença não garante conexão, não garante também mais eficiência na publicação, comercialização e divulgações dos livros. A questão central que talvez o mercado editorial ainda não tenha enxergado é que a esfera digital na qual vem se inserindo é repleto do que eu chamaria de “zonas de contradições”, eclipsadas por outras esferas políticas, sociais, econômicas e educacionais.

E é nesse contexto que Maurem Kayna, Roberto Bahiense, e eu, iremos conversar, trocar ideias e experiências para encontrar instrumento de medida, um cânone, ou um conjunto de modelos, capaz de eliminar da indústria criativa do livro suas históricas “zonas de contradições”.

Nos vemos por lá!

Anote aí na sua agenda!

A construção de um cânone na esfera digital
I Feira Nordestina do Livro | Fenelivro
Dia 03/09, quinta-feira, às 15h
Centro de Convenções de Pernambuco, Sala Ariano Suassuna
Com Maurem Kayna, Ednei Procópio [Livrus] e Roberto Bahiense [Nuvem de Livros]

Nuvem de Livros chega a Espanha


Há oito anos, o empresário e editor Jonás Suassuna teve uma intuição: “Tudo está sendo digitalizado. Os livros também serão e isso acontecerá rapidamente”. Hoje, em 2015, aquela sua reflexão é uma obviedade. Suassuna acreditou no seu faro e começou a preparar uma grande biblioteca virtual. “Imaginei a quantidade de escolas sem livros que há no Brasil e como levar livros a essas escolas. O segredo estava na internet. O segredo era construir uma grande biblioteca e não uma livraria”. Assim, em 2011, criou a Nuvem de Livros, que, por uma assinatura, dá acesso a um sistema de streaming com cerca de 14 mil títulos em português. Agora, Suassuna, aliado com a Orange, desembarca na Espanha. Por 3,99 euros por mês, o cliente terá acesso a mais de três mil títulos, além dos 400 mil volumes da Fundação Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes. O objetivo do empresário não é ficar apenas na Espanha. “Escolhemos a Espanha como base das operações, em primeiro lugar, por que eu sou um apaixonado pelo país e, segundo porque é a base ideal para se alcançar o mercado latino-americano”, disse.

Por Antonio Jiménez Barca | Publicado originalmente em El Pais | 13/04/2015, às 19:36

“Nuvem de Livros” abre biblioteca virtual e “democrática” na Espanha


Democrática, plural e muito responsável. Assim define a “Nuvem de Livros” o criador do projeto, Jonas Suassuna, que após conseguir 2,5 milhões de assinantes para 14 mil títulos no Brasil, desembarca nesta quarta-feira na Espanha com uma biblioteca virtual “rigorosa e ampla” a 3,99 euros por assinatura, metade do valor habitual.

Suassuna, presidente de Grupo Gol, apresentou hoje em Madri junto com o executivo-chefe da plataforma, Roberto Bahiense, e o diretor-geral da Fundação Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes, Manuel Bravo, um projeto que, afirmou, terá versões em francês e inglês, além de português e espanhol.

A ideia de Suassuna, segundo o próprio, é de que a plataforma, que oferece títulos de todos os gêneros, de romance a atlas, jogos educativos e notícias em tempo real, produzidas em mais de 160 países pelas agências Efe e France Press, seja neste mesmo ano uma realidade também em Portugal, México, Chile, Peru, Argentina “e a parte espanhola” dos Estados Unidos.

Ao contrário de outras bibliotecas digitais, a “Nuvem de livros” oferece um catálogo “rigoroso e amplo”, que inclui clássicos da literatura e conteúdos da Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes, que por enquanto abriga 420.000 títulos.

Na Espanha, onde começará funcionando com suporte da operadora de telefonia móvel Orange, já oferece 3.000 referências bibliográficas, selecionadas “com rigor e critério” por editores e “curadores”, sem “aceitar conteúdos publicitários”, explicou o presidente do Grupo Gol.

Quando comecei com esta ideia, nem meu cachorro acreditava nela. É preciso dizer que o Brasil tem o mesmo número de livrarias que Buenos Aires, ou seja, um país com muito baixa capacidade de leitura. Me diziam que estava louco, e quando há três anos nos estabelecemos na Espanha, me perguntaram ‘como você vai para um país em crise?’. ‘Porque os brasileiros amamos as crises’, respondia“.

Suassuna optou pela Espanha – “onde estão os melhores editores do mundo” – como segunda nação de desenvolvimento de seu projeto porque o país “é encantador” e queria que fosse “a central de operações para a Europa”. Além disso, afirmou estar “muito satisfeito” com o trabalho desenvolvido até agora, com o “grande” apoio de empresas como a Agência Efe, ressaltou.

O criador do projeto reiterou que apesar de os internautas terem que pagar para acessar a Nuvem de Livros, o valor “é muito pequeno, a metade do que a concorrência cobra e em relação ao muito que oferece”, uma biblioteca “pertinente e próxima”.

Os conteúdos podem ser acessados por meio da Orange – com a possibilidade de pagar o serviço pela conta de telefone – pelo site “www.nubedelibros.com” ou um aplicativo próprio [disponível para Android e iOS no Google Play e na App Store], e durante os primeiros 30 dias poderão ser testados gratuitamente.

O Grupo Gol também tem o plano de expandir sua “Nuvem do Jornaleiro”, que no Brasil já oferece 300 publicações e as notícias de EFE, AP, AFP e BBC, que fazem de tablets e celulares o “suporte frenético da leitura de notícias”, uma ferramenta que começará a funcionar em seis meses na Espanha.

Já Roberto Bahiense lembrou que, como diz Umberto Eco, a internet é “perigosa para o ignorante e útil para o sábio”, “um mundo selvagem” que pode “fazer mal” se não for hierarquizado e organizado.

A Nuvem de Livros, disse, se insere na tradição que goza “do silêncio absoluto dos templos”, nos quais reinam “os deuses das palavras”, ou seja, as bibliotecas, “mas sem sua segunda parte”, “tecas”.

“É preciso deconstruir respeitosamente esse sufixo e deixar de considerar ‘teké’, em seu significado de depósito, de caixa. As bibliotecas físicas se transformarão em espaços simbólicos”, previu Bahiense, seguro de que o futuro passará por “uma assembleia de usuários do conhecimento estejam onde estiverem”.

Após sua experiência no Brasil, acrescentou, o desafio da Nuvem é “oferecer a uma sociedade culturalmente rica e exigente como a Espanha uma biblioteca responsável, contemporânea e atrativa que atenda as exigências de uma sociedade mais madura”.

Manuel Bravo, por sua vez, lembrou que a Fundação Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes começou a colaborar com o Grupo Gol em 2013 e que, desde então, as duas entidades desenvolveram “um projeto muito complementar” que terá, segundo ele, “um grande sucesso na Espanha e na região ibero-americana” por seu “excelente catálogo”.

Da Nuvem de Livros fazem parte índices das editoras Nowtilus, Siruela, Susaeta, DK, Nórdica, Roca Editorial, Internet Academi, UNED, Geointeractiva e Elesapiens, entre outras.

Por Agência EFE | Publicado originalmente por Info Online | 21/01/2015

A assinatura de eBooks no Brasil


POR Marina Pastore | Publicado originalmente por  COLOFÃO | 17 de dezembro de 2014

Como qualquer pessoa com acesso à internet e interesse por livros já deve saber a essa altura, na última quinta-feira estreou no Brasil o Kindle Unlimited, serviço de assinatura de e-books da Amazon. A fórmula já é conhecida: por R$19,90 por mês, os assinantes têm acesso ilimitado a milhares de livros digitais. A estreia deste “Netflix dos livros”, à primeira vista bastante atraente para o leitor, dá novo fôlego à discussão sobre preços e modelos de negócio para os e-books no mercado editorial brasileiro.

De cara, a estreia do Unlimited trouxe dois desdobramentos importantes para a loja Kindle brasileira. O primeiro é o impacto do serviço sobre a lista de mais vendidos: tudo indica que, assim como nos EUA, cada leitura de um e-book “emprestado” conta como uma venda. Assim, títulos disponíveis no serviço entram na lista de mais vendidos muito mais facilmente; no dia seguinte ao do lançamento, dos 20 primeiros colocados no ranking, 18 podiam ser lidos no Kindle Unlimited [incluindo todos os dez mais vendidos]. A segunda consequência é uma jogada de marketing bem típica da Amazon [e quero dizer isso no melhor sentido possível]: ao fazer a busca por um título que participe do Unlimited, acima do preço das versões digital e impressa, aparece um belo “R$0,00”, evidenciando a economia que se faz ao assinar o serviço:

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No caso de um e-book que custa mais do que a assinatura mensal, esse zerinho começa a parecer bem atraente.

Mas, marketing à parte, vamos olhar mais de perto para o que o serviço oferece. Em termos de tamanho, o catálogo é bem respeitável: são quase 12 mil títulos em português, ou seja, quase 30% do total de e-books disponíveis neste idioma na loja Kindle brasileira [pouco mais de 42 mil]. Mas a maior parte do catálogo é mesmo formada por e-books em inglês: são cerca de 650 mil, número que se aproxima até do catálogo do Kindle Unlimited americano [pouco mais de 700 mil].

De qualquer maneira, mesmo 12 mil livros já seriam um número mais do que suficiente para manter qualquer leitor satisfeito. O problema é a seleção de títulos disponíveis: como já era esperado, poucas das grandes editoras brasileiras aderiram ao serviço no momento do lançamento. Numa consulta rápida ao catálogo, fiquei com a impressão de que as participantes estão aproveitando este momento inicial para experimentar com alguns títulos: a Vergara y Riba, por exemplo, entrou com os dois primeiros volumes da série Diário de um banana, mas não os demais; a Leya incluiu muitos de seus livros mais conhecidos, como seus Guias Politicamente Incorretos, mas apenas o primeiro volume de A Guerra dos Tronos; a Globo incluiu títulos importantes, como Casagrande e seus demônios e Ágape, mas deixou de fora a maior parte do seu catálogo – inclusive alguns títulos disponíveis na concorrente Árvore de Livros, como as biografias de Andre Agassi e Amy Winehouse. É bom lembrar que mesmo nos EUA, onde o mercado de assinatura de livros já está melhor estabelecido, nenhuma das “Big 5″ ainda arriscou embarcar no Kindle Unlimited – a força do seu catálogo vem, em grande parte, de autores independentes publicados pelo Kindle Direct Publishing [KDP]; então, não é nenhuma surpresa que as editoras brasileiras estejam começando com cautela.

A meu ver, a grande diferença entre o cenário que o Unlimited enfrenta nos EUA e aqui é mesmo a maturidade do mercado. Por lá, a Amazon enfrenta a concorrência não só de serviços similares, como o Oyster e o Scribd, que já conseguiram a adesão de grandes editoras [Simon & Schuster e HarperCollins], mas também de um serviço bem completo e gratuito: as bibliotecas públicas. Nos EUA, cerca de 95% destas instituições oferecem e-books aos leitores, e todas as Big 5 disponibilizam pelo menos parte de seu catálogo para elas. No Brasil, a situação é bem diferente: o único concorrente mais ou menos similar ao Kindle Unlimited é a Nuvem de Livros, que conta com um catálogo pequeno, mas bem variado, incluindo livros de diversas editoras brasileiras, audiolivros e vídeos educacionais. A Árvore de Livros, embora ofereça um serviço parecido, por enquanto disponibiliza assinaturas apenas para instituições como escolas e bibliotecas. Aliás, por aqui, são poucas as bibliotecas que oferecem e-books; algumas, ligadas a faculdades e universidades, até contam com um catálogo de livros digitais, mas com limitações [tanto em termos de catálogo quanto no próprio uso: em algumas só é possível acessar os e-books a partir dos computadores da própria biblioteca, por exemplo]. Por isso, um serviço com preço atraente e catálogo razoável tem mais chances de sucesso.

Para dominar este mercado por aqui, resta à Amazon conseguir convencer o maior número possível de editoras de que este é um modelo de negócios viável para os e-books. Não será uma tarefa fácil: olhando mais uma vez para os EUA, por lá, embora boa parte do próprio mercado editorial acredite que o modelo de assinatura para e-books é inevitável, três das cinco maiores editoras ainda hesitam em disponibilizar seus livros em qualquer serviço deste tipo [sendo que a maior de todas, a Penguin Random House, já se pronunciou veementemente contra eles]. Na música, mercado em que serviços de assinatura são mais antigos [e em que certamente há demanda por eles], artistas já vêm reagindo contra o tipo de remuneração que recebem por participar deles – sendo o caso mais famoso o da Taylor Swift, que recentemente tirou todas as suas músicas do Spotify.

É claro que são mercados diferentes: editoras e autores não são remunerados exatamente da mesma maneira que gravadoras, cantores e compositores. Especula-se que, no Kindle Unlimited, existam basicamente dois tipos de remuneração: para os autores independentes publicados pelo KDP, a Amazon estabelece uma quantia fixa no início de cada mês; este valor é, então, dividido entre os participantes com base no número de empréstimos dos livros de cada um [o que nem sempre é vantajoso, mesmo para autores populares]. Para editoras, a princípio o valor pago é o mesmo de uma venda; assim, a curto prazo, é um bom acordo tanto para elas quanto para seus autores. Caso seja este o modelo aplicado no Brasil, é provável que ele não se sustente por muito tempo: afinal, do ponto de vista do leitor, o serviço vale a pena justamente porque é mais barato do que boa parte dos e-books vendidos por aqui. Assim, me parece razoável supor que, uma vez construído um catálogo atraente, o próximo objetivo da Amazon seja tornar o serviço mais rentável. Depois de atrair uma base de clientes significativa, ela terá um forte argumento para pressionar as editoras a modificar algo nesta relação: ou o modelo de remuneração e/ou o próprio preço dos e-books.

POR Marina Pastore | Publicado originalmente por  COLOFÃO | 17 de dezembro de 2014

Marina Pastore

Marina Pastore

Marina Pastore é jornalista formada pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Descobriu os e-books ainda na faculdade, em 2011, e foi amor ao primeiro download. Vem trabalhando com eles desde então, integrando o departamento de livros digitais da Companhia das Letras. Seu maior orgulhinho profissional foi ver toda a obra de seu autor preferido e muso inspirador, Italo Calvino, disponível em formato digital. Sua vida é basicamente um grande episódio de Seinfeld, mas com menos sucrilhos e mais [muito mais] gifs animados.

Nuvem de Livros lança versão de software com mais recursos técnicos


A biblioteca digital Nuvem de Livros, a maior do Brasil e que oferece acesso a cerca de 12 mil conteúdos, lançou uma versão mais atraente e com mais recursos tecnológicos, que será usada igualmente no serviço em espanhol, com previsão de lançamento para outubro.

A nova versão é mais robusta tecnologicamente, além de ser mais atraente, lógica e racional“, disse nesta quarta-feira à Agência Efe uma fonte do Grupo Gol, produtor e distribuidor de conteúdos multimídia de educação, que desenvolveu e opera uma biblioteca virtual online que já conta com cerca de 1,3 milhão de clientes no país.

De acordo com a fonte, a versão 2.0 da Nuvem de Livros conta com uma estrutura de metadatos mais complexa e rica, permitindo agilizar e melhorar as opções de busca e identificação de conteúdos.

Também apresenta um novo leitor [na tela] e um novo editor desenvolvidos pelo Grupo Gol no Brasil“, afirmou a fonte.

Além dos aproximadamente 12 mil livros, áudios, vídeos, conteúdos para reforço escolar, conteúdos interativos, jogos, cursos, reportagens e entrevistas oferecidos por esta multiplataforma, a nova versão inclui cursos de formação profissional certificados pelo Centro de Integração Empresa-Escola [CIEE].

Os conteúdos da biblioteca digital, pensada originalmente para escolas públicas e famílias, podem ser acessados a partir de qualquer plataforma com conexão à internet. O aplicativo pode ser baixado em aparelhos com sistema operacional iOS, Android ou diretamente no computador.

Apesar de ser oferecida aos clientes desde a primeira semana de julho, a versão 2.0 foi apresentada oficialmente no último fim de semana pelo presidente do Grupo Gol, Jonas Suassuna, na Festa Literária Internacional de Paraty [Flip].

O Grupo Gol também opera a Nuvem do Jornaleiro, uma plataforma digital que permite aos usuários de telefones celulares, tablets ou internautas acessar o conteúdo de 200 meios de comunicação, incluindo notícias da Agência Efe, sem baixar os arquivos nos aparelhos.

Ambas as iniciativas contam com parceria da operadora Vivo, subsidiária da espanhola Telefônica no Brasil.

Rio de Janeiro | Publicado originalmente por Yahoo | 06/08/2014 | Da Agência EFE

Nova regra de ‘Netflix para livros’ enfurece escritores independentes


O escritor inglês Dave Robinson, 50, é um dos leitores que aderiram a um novo tipo de serviço para consumo de livros digitais que pode revolucionar o mercado.

Ele assinou o Kindle Unlimited, que a varejista on-line Amazon lançou no último dia 18, apenas nos EUA.

O funcionamento é simples: por US$ 9,99 [R$ 22,26] ao mês, o leitor tem acesso a mais de 600 mil títulos. O produto vem sendo chamado de Netflix para livros, em referência ao serviço em que é possível assistir a séries e filmes on-line por um valor mensal.

Para o inglês, a vantagem é a variedade de séries de ficção científica. “Mesmo a quatro dólares por um livro impresso, uma série inteira de oito volumes acaba ficando cara. Por dez dólares eu posso ler tudo e ainda tentar outros“, escreve ele num fórum dedicado a discutir e-books.

A Amazon não revela quantos leitores já fizeram a assinatura nem quando o serviço deverá vir ao Brasil.

A chegada de uma gigante do varejo movimenta um setor ainda pouco explorado. As iniciativas mais antigas na área –a Oyster e a Scribd–, nos EUA, são de 2013.

Editoria de Arte/Folhapress

Para o analista Carlo Carrenho, fundador do Publishnews, os próprios editores ainda não sabem qual será o impacto nas vendas. “Isso altera o modelo de negócio.

A mudança é na remuneração às editoras e aos autores, que deixam de ganhar por livro comprado e passam a receber por livro lido. No caso da Amazon, o leitor tem de atravessar pelo menos 10% do exemplar para que os autores tenham retorno.

A discórdia cresceu especialmente entre independentes, segundo o fundador da Smashwords, empresa que distribui e-books autopublicados para lojas virtuais.

Segundo o americano Mark Coker, 49, a forma de pagamento “imprevisível” da Amazon e o tratamento preferencial dado a grandes editores enfureceu os autopublicados.

A Amazon remunera os pequenos por meio de um fundo global variável. Escritores independentes ganham uma porcentagem a partir do montante total desse fundo.

A varejista também exige exclusividade deles. Já as grandes editores recebem o valor sobre o preço de capa do livro vendido.

No Brasil, por enquanto, o momento das editoras ainda é de observação do modelo, diz a presidente do sindicato da categoria, Sônia Jardim.

Me parece interessante no caso de livros universitários. Quem sabe não iniba a xerox.

Esse gênero de biblioteca tem exemplos aqui. A Nuvem de Livros e a Árvore de Livros são iniciativas com estratégias financeiras mais amigáveis às editoras: a remuneração não está condicionada à leitura.

A Nuvem paga autores e editoras um valor mensal. Já o contrato de remuneração da Árvore conjuga empréstimo e número de exemplares.

Para o presidente da Árvore, Galeno Amorim, a ampliação de bibliotecas digitais aumentará o número de leitores.

POR ALAN SANTIAGO | Publicado originalmente em Folha de S. Paulo | 26/07/2014, às 02h32

Espaço na Off Flip lançará versão 2.0 de biblioteca online


Rio de Janeiro – De 31 de julho a 2 de agosto, durante a programação Off Festa Literária Internacional de Paraty [Flip], a Liga Brasileira de Editoras [Libre] e a plataforma online Nuvem de Livros apresentarão um espaço onde o público participará de debates e conhecerá a versão 2.0 da biblioteca online do Grupo Gol.

Na Rua da Lapa, coração do Centro Histórico da charmosa cidade do Litoral Sul Fluminense, a Casa Libre e a Nuvem de Livros apresentarão durante três dias, sempre a partir das 12h, debates e bate-papos sobre a pluralidade editorial e as inovações digitais na área.

Com curadoria do escritor Luis Maffei, os visitantes poderão assistir a debates como “Políticas de bibliotecas digitais”, “Livros e políticas” e “A infância e o livro”, além de bate-papos como “O Plano Nacional de Educação e a cultura brasileira”, com Arnaldo Niskier, [membro da Academia Brasileira de Letras], e “Uma vida com a ficção”, com Antônio Torres, [também acadêmico], ambos da “Nuvem”.

Nas mesas de debate estarão nomes como Ittala Nandi, atriz, diretora e escritora; Sergio Cohn, poeta e editor; Marcelino Freire, escritor; Vivian Pizzinga, psicóloga e ficcionista; e Jorge Fernandes da Silveira e Vera Lins, intelectuais da área da Literatura.

Principal lançamento do espaço, a nova versão 2.0 da biblioteca online Nuvem de Livros estará disponível na Casa para o público acessar e também será apresentada num bate-papo com o presidente do Grupo Gol e criador da plataforma, Jonas Suassuna, no dia 1º de agosto.

A programação também terá lançamento de livros, sarau e as apresentações “Meia-noite Erotika” e “Meia-noite com Camões”, com início às 23h59, que encerrarão as atividades nos dias 31 [quinta-feira] e 1º [sexta].

No sábado, 2, as crianças serão as convidadas da roda de leitura de trocadilhos “Trocando alhos por bugalhos, misturando os ditados”, e uma festa encerrará a programação da Casa à noite.

Para Haroldo Ceravolo, presidente da Libre, “com esse espaço em Paraty a Libre, as editoras independentes e a biblioteca digital Nuvem de Livros querem falar diretamente ao público, promover a diversidade do livro e das editoras e discutir ideias e políticas para o mercado editorial brasileiro”.

Exame | 22/07/2014

Quanto vale o livro por assinatura — para editoras, autores e leitores


Por Julio Silveira | Publicado originalmente em PublishNews | 27/03/2014

“Leva esse Felinni também. Ó, os quatro por dez reais”. Eu já tinha um Almodóvar e dois John Hughes na mão. Com o Felinni, cada DVD sairia por meros R$ 2,50. Mas, pensando bem… para quê? Era o último dia da locadora do bairro. E era a última locadora no bairro. Estava vendendo tudo, o acervo, os móveis, as prateleiras. O dono explicava a mais um cliente desconsolado. “É. Não dá mais. As pessoas não alugam mais. Agora elas ligam a tevê e botam o que querem ver. Now. Netflix. Vai ser assim agora”. O cliente comentou que, com a internet, nem comprava mais CDs. Aproveitei: “E livro hein? Será que vai ser assim também?” O dono deu de ombros. “É, daqui a pouco vai ser assim também com os livros”. Outra cliente concordou com um muxoxo. “É, até com os livros”.

O que pressentem os clientes na locadora é o que se sabe no Vale do Silício. Os livros, ou melhor, a literatura digital, caminham para um sistema de assinaturas. Os e-books tentaram se comportar como os livros tal qual conhecemos: mercadorias. Porém o lado “e” foi mais forte que o lado “book”, e ele acabou por seguir sua natureza, a internet, repudiando restrições de quantidade, acesso e [quase] de custo. O digital já permitiu que a música e o audiovisual passassem da fase sólida para a gasosa, isto é, os bens culturais deixaram de ser mercadorias que o cliente busca e leva para casa, e tornaram-se um serviço em permanente disposição, onde e quando e o quê o cliente desejar. No audio temos o Spotify. No visual temos a Netflix.

Nos últimos meses, pipocaram os candidatos a “Netflix” dos livros, lá fora e no Brasil. Uma boa arrancada, mas sem direção clara. O que representa o sistema de assinatura de livros — onde o cliente lê o quê e o quanto quiser por uma tarifa mensal — para leitores, editores e autores? Como isso “funciona” financeiramente — se é que funciona?

Os modelos de negócio ainda estão calcados nos livros-mercadoria e equiparam a web às livrarias e bibliotecas físicas. As “distribuidoras” dizem a editores que cada “leitura” equivalerá à receita da venda de um ebook. Alguns editores exigem que, enquanto um livro estiver “emprestado” a um assinante, não poderá ser lido por mais ninguém. Escritores querem seus “direitos autorais” contabilizados como um percentual de cada livro “emprestado”. Todos preferem ignorar que um texto digital não é um objeto estocável, e sim um arranjo eletrônico provisório infinitamente replicável. Dão respostas de ontem para perguntas de amanhã.

A pioneira Kindle Owners Lending Library [KOLL], da Amazon, segue a metáfora da biblioteca. O assinante só pode pegar um livro por vez. Quer ler outro? Devolva o primeiro. Por U$ 72 anuais, é como se o leitor comprasse 12 ebooks por U$ 6 cada [um desconto de 40% sobre o preço médio]. Cada livro “emprestado” rende ao editor como se ele tivesse sido vendido, mas somente aqueles que concordam com a exclusividade conseguem boas margens na Amazon. O autor, é de se supor, recebe seus royalties integrais a cada livro baixado.

Já com a Oyster — a mais parruda das candidatas a “Netflix dos Livros” — é para valer. Leia quantos livros você quiser ou conseguir, pagando uns U$ 10 por mês. Do lado das editoras, a Oyster promete pagar integralmente por aqueles títulos efetivamente lidos [mas não os folheados], como se tivessem sido vendidos. Em termos de plano de negócio, o modelo é o da churrascaria rodízio. Alguns clientes vão comer, literalmente, todo o lucro do processo, mas a média [dentro de uma grande amostragem] vai consumir menos do que custou a comida, gerando lucro. E, se o cardápio não varia, os custos são constantes e menores, por economia de escala. É só uma questão de manter as mesas cheias. O negócio atingirá o nirvana econômico quando contar com uma base extensa de assinantes gerando um fluxo constante de receita superior aos repasses às editoras: uma mais valia sobre o leitor pouco frequente no meio do big data. Em outras palavras: o restaurante cheio de gente que se entope com farofa antes de chegar a carne.

Voltando à Amazon e sua KOLL, há uma outra receita para editores, que dificilmente pode ser convertida em royalties para os autores — simplesmente porque é impossível atribuir a um título. As editoras que toparem exclusividade com o Kindle dividem um “Fundo Global”. Para calcular sua fatia nesse bolo — que para Março de 2014 é de R$ 2,8 milhões — divide-se a quantidade de empréstimos do catálogo da editora pelo total de empréstimos geral. Essa receita não se confunde com a receita pelo empréstimos de ebooks, que também é paga, e serve de base para o cálculo dos royalties de autores. No Brasil, a pioneira Nuvem de Livros opera de forma semelhante: as editoras recebem diretamente por cada livro “lido”, e também indiretamente, com uma participação da receita geral, calculada pela quantidade de livros em relação ao catálogo total. Nos dois casos, o recurso do bônus é uma forma de estimular editoras a embarcarem em uma modalidade radicalmente nova de comercialização. Dá para imaginar que, com o amadurecimento do mercado, esse chamariz perca atratividade.

Ainda assim, os editores estão hesitantes em entrar no Oyster, e elegeram para bois-de-piranha seus backlists, os títulos mais antigos que já não rendem muito. Algo parecido ocorre com a Netflix, com o catálogo baseado em filmes que já esgotaram a carreira no cinema e tevê. Mas a Netflix deu tão certo que já está produzindo seu conteúdo, e com sucesso. Quem sabe a Oyster, quando tiver uma base de milhões de assinantes, não terá porte para bancar livros “exclusivos” de grande apelo?

E se o sistema efetivamente vingar, o que isso representará para a indústria do livro?

No cenário do círculo vicioso, os livros serão banalizados. Aquela edição comentada traduzida do russo em quatro volumes “custa” [e “vale”] tanto quanto os sonetos do meu tio poetastro. Sem a percepção de valor inerente aos livros impressos, a literatura digital perde de vez a disputa com outras formas de entretenimento digital. Os editores venderão o estoque, a “3 por 10 real”.

Na melhor das hipóteses, temos o círculo virtuoso. O acesso instantâneo e fácil, livre das restrições de custo, vai estimular a descoberta e a formação de público leitor. Uma base maior de assinantes vai gerar um fluxo constante para editoras que, com a receita básica garantida e a extinção dos custos de impressão e frete, vão poder remunerar melhor os autores. Em pé de igualdade com outros bens de consumo digitais, música e audiovisual, os livros ganham novos públicos.

O argumento para esse cenário mais promissor é que a maior parte das vendas de livros trade, como os romances, se dá por impulso. O sujeito zanza pela loja e vai com a cara do livro no balcão. O que vai determinar a venda, na livraria, é o número que aparece ao escanear o código de barras. É o preço que define se ele levará o livro ou não, o exemplo clássico de demanda elástica. Pois imagine que não há mais essa barreira. No sistema de assinatura de livros, não custa nada folhear um livro, ele parece sair “de graça”. Rompe-se o elástico. O bovarismo é regra. Se tudo der certo, teremos mais gente descobrindo livros, maior público leitor, maior receita.

Seja qual for o futuro do livro e de seu indústria, assistir de camarote às destruições criativas que levam o mercado adiante não é uma opção. É a energia, cupidez e insensatez das startups tecnológicas que abrem novos caminhos, justamente porque são eles que não sabem o que é impossível. Infelizmente, os desafios comerciais são por vezes maiores que os desafios tecnológicos, posto que os mercados têm códigos mais complexos, como a cultura e o hábito. Eis o dilema do inovador: ser o melhor a atender ao mercado em suas demandas atuais, ou ser o primeiro a atender suas demandas futuras.

Ou continuar a ser a melhor locadora do bairro.

Por Julio Silveira | Publicado originalmente em PublishNews | 27/03/2014

Julio Silveira é editor, formado em Administração, com extensão em Economia da Cultura. Foi cofundador da Casa da Palavra em 1996, gerente editorial da Agir/Nova Fronteira e publisher da Thomas Nelson. Desde julho de 2011, vem se dedicando à Ímã Editorial, explorando novos modelos de publicação propiciados pelo digital. Tem textos publicados em, entre outros, 10 livros que abalaram meu mundo e Paixão pelos livros[Casa da Palavra], O futuro do livro [Olhares, 2007] e LivroLivre [Ímã]. Coordena o fórum Autor 2.0, onde escritores e editores investigam as oportunidades e os riscos da publicação pós-digital.

A coluna LivroLivre aborda o impacto das novas tecnologias na indústria editorial e as novas formas de relacionamento entre seus componentes — autores, agentes, editores, livrarias e leitores. Ela é publicada quinzenalmente às quintas-feiras.

Oito questões sobre as bibliotecas digitais


Joana Monteleone, da Alameda Editorial, analisa o fenômeno que tem dado o tom do mercado editorial nesse momento

A mais recente tendência do mercado de livros eletrônicos, tanto no exterior  quanto no Brasil, é a busca de composição de acervos de bibliotecas digitais. A principal diferença em relação ao modelo de livrarias é que passamos da figura do consumidor de livros para a do usuário de bibliotecas.

Essa diferença não é irrelevante. Provavelmente, os dois modelos conviverão. Mas para que ambos deem certo, é preciso pensá-los em suas especificidades.

No Brasil, há pelo menos três projetos privados significativos em andamento. Todos focam, essencialmente, possíveis compras do poder público, mas também estão em busca do usuário individual, em e-readers, tablets e telefones celulares. São eles o da Nuvem de Livros, da Gol Mobile [em operação]; o Biblioteca Xeriph, ligado ao grupo Abril [em lançamento]; e o Árvore de Livros, representado por Galeno Amorim, ex-presidente da Fundação Biblioteca Nacional [em gestação].

Listamos abaixo oito questões que consideramos relevantes para pensar as bibliotecas digitais.

1. Biblioteca digital não substitui biblioteca física. Ambas são experiências importantes, mas complementares. O Ministério da Educação, que tem a missão de conduzir o cumprimento da Lei da Biblioteca Escolar [12.240/10], sancionada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a gestão de Fernando Haddad como ministro da Educação, não pode abusar do artigo 2º, que permite o uso de vários suportes, para ignorar o fato de que escola sem biblioteca física operando é escola ruim. O grande desafio de melhorar a educação nacional passa por não fingir que gadgets eletrônicos são uma espécie de emplastro Brás Cubas, que tudo cura.

2. Quando o consumidor ou o governo compra um livro, ele adquire um conteúdo específico, unitário. Quando o assunto é biblioteca, busca-se um acervo. Uma livraria vive muito dos livros da estação, que todos querem ler; uma biblioteca é útil quando sua coleção é representativa, seja pela especificidade, seja pela variedade. Uma livraria não deve ignorar a bibliodiversidade [muitos autores, editores, públicos e coleções diferentes], se quer manter um público cativo; uma biblioteca simplesmente não pode.

3. Os editores independentes, boa parte deles reunidos na Libre, mas não apenas, representam o maior e mais diversificado acervo de livros comprados pelas melhores bibliotecas públicas e privadas. Qualquer modelo de livraria digital sério tem de reconhecer este valor, dialogar com esses editores e remunerá-los pela qualidade e importância de seus catálogos. Quem privilegiar apenas os grandes grupos se parecerá com um catálogo de best-sellers, não com uma biblioteca.

4. Livraria não é mídia, é ponto de venda. Biblioteca não é ponto de venda, é espaço de consulta e estudo, muito mais do que de lazer. E isso é bom. Biblioteca que seguir a lógica de ponto de venda não vai funcionar, assim como crescem rápido, mas paradoxalmente afundam, sobretudo culturalmente, mas também do ponto de vista de sustentabilidade econômica, livrarias que vendem espaços como se fossem outdoor.

5. Remunerar bem apenas quem é mais acessado é reproduzir na biblioteca a lógica da livraria que vende espaço de mídia. Ou seja, o pior dos mundos.

6. Um dos motivos do fracasso relativo da biblioteca pública como instituição nacional, amplamente difundida no território do país, é que muitos políticos as entendem como depósito de livros, e o usuário é visto primeiro como potencial ladrão de exemplares do que como alguém que acessa o serviço público. O mínimo que se espera do universo eletrônico é que ele proporcione conforto ao usuário, e excesso de restrições não vai ajudar as bibliotecas digitais a se popularizar.

7. Numa biblioteca digital, o usuário não pode ter as mesmas restrições que numa biblioteca física, como pegar fila para acessar um livro ou ter pouco tempo para ler uma obra. Aliás, o ideal é que nesse novo mundo, o tempo não seja uma questão.

8. A prestação de contas aos fornecedores e usuários tem de ser, ao mesmo tempo, a mais simples e detalhada possível. As bibliotecas são, tradicionalmente, um espaço de questionamento e transparência. Criar uma relação de confiança entre todos os envolvidos é fundamental.

Por Joana Monteleone | PublishNews | 21/02/2014 | Joana Monteleone, historiadora, é editora da Alameda.

Bibliotecas virtuais | iniciativas, perspectivas e problemas


Por Felipe Lindoso | Publicado originalmente em PublishNews | 18/02/2014

No  última quinta-feira [13/02], fui assistir à apresentação do modelo de biblioteca pública virtual que está sendo lançado pela Xeriph. Há duas semanas, Galeno Amorim anunciou o próximo lançamento de um projeto de bibliotecas virtuais para bibliotecas escolares, e nos últimos dias a joint-venture da Saraiva, GEN, Atlas e Grupo A anunciou nova versão do modelo de seu programa Minha Biblioteca, que já está com três anos de vida.

Por outro lado, pipocam notícias sobre várias alternativas de aluguel e empréstimo de livros eletrônicos. A Amazon tem um serviço que funciona entre proprietários do Kindle e startups como a Oyster e outros almejam se tornar a “Netflix” dos livros. Como se sabe, a Netflix é um sistema de assinatura que permite o streaming de uma seleção já bastante extensa de filmes, séries de TV e congêneres.

Todas essas iniciativas possuem algo em comum, e imensas diferenças entre si.

A Kindle Lending Library está disponível para os que têm conta na Amazon americana e pagam pelo serviço Prime. Nesse caso, podem baixar temporariamente livros da biblioteca de empréstimo e também emprestar seus livros para outro usuário do Kindle. A assinatura anual do Prime custa US$ 79 e oferece algumas vantagens adicionais, como frete grátis [nos EUA]. Como tudo na Amazon, é um serviço destinado aos seus clientes e exclusivamente para estes. Ainda não está disponível no Brasil.

Minha Biblioteca foi imaginada inicialmente como uma grande “pasta do professor” legalizada e editada. As universidades contratam os serviços. Os alunos dessas universidades recebiam um login para acessar o acervo digital da instituição do ensino. Essa montava a biblioteca pagando o preço de capa dos livros escolhidos, que ficavam disponíveis “para sempre” [desde que isso exista na Internet…]. No modelo de aquisição, cada usuário da instituição pode acessar o título adquirido desde que este não esteja sendo lido por outra pessoa. Ou seja, a instituição de ensino deve calcular pelo menos uma média de exemplares adquiridos de modo a não congestionar o acesso ou fazer filas extensas.

O outro modelo é o de assinaturas, pelo qual a instituição de ensino paga pela quantidade de logins usados. Nesse caso, não há fila de espera.

Recentemente a Minha Biblioteca abriu outro modelo de negócio. Agora pessoas físicas, sem intermediação da instituição de ensino, podem adquirir ou alugar livros pelo sistema. O aluguel varia segundo o tempo e o preço de capa do livro. O aluguel de um livro por todo o semestre pode chegar a 60% do valor de sua compra.

Oyster por enquanto só funciona com cartões de crédito dos EUA.  A Nuvem de Livros funciona no Brasil e é exclusivo para assinantes da Vivo. Só funciona com acesso à Internet. Ou seja, além da assinatura [R$ 2,99], há também o custo da conexão e o programa só funciona online.

Nesses vários modelos de bibliotecas com sistema de aluguel, os leitores [pessoas físicas] compram assinaturas que permitem acessar uma certa quantidade de títulos no período, escolhendo entre acervos que crescem continuadamente. Essas iniciativas são todas muito importantes e ampliam o acesso ao livro de forma exponencial. Ainda são embrionárias e, em muitos casos, experimentais.

O modelo das Bibliotecas Digitais Xeriph tem algumas semelhanças com o da Minha Biblioteca, menos na possibilidade de aluguel direto por pessoas físicas.

Xeriph  foi a primeira distribuidora e agregadora de livros digitais no Brasil. Segundo Carlos Eduardo Ernanny, seu diretor [que continua no cargo depois que a empresa foi adquirida pelo Grupo Abril], a Xeriph surgiu como uma necessidade depois da fundação da livraria Gato Sabido, que se viu com pouquíssimo conteúdo disponível para vender depois de inaugurada. A criação da distribuidora foi o caminho encontrado para solucionar isso. Hoje, a Xeriph distribui mais de 200 editoras e dispõe de um acervo de cerca de 16.000 títulos para distribuição e comercialização.

O projeto de bibliotecas da Xeriph está destinado a bibliotecas públicas [de qualquer tipo] e bibliotecas empresariais. Em ambos casos, a autoridade responsável [órgão governamental ou o departamento encarregado da administração da biblioteca] adquire o acervo e o programa e recebe o pacote inteiro, que inclui as informações de cada usuário e de cada livro, ferramentas de administração [incorporação de acervo, de usuários, consultas de métricas, etc.] e o link para a app desenvolvida pela Xeriph que é de uso obrigatório para leitura. A Xeriph já desenvolveu apps para iOS e Android [o Windows Phone não foi mencionado] e para computadores pessoais.

Os livros disponíveis podem ser os agregados pela Xeriph ou, no caso de outros agregadores, os que as editoras autorizem participar no programa.

Os livros são vendidos pelo “preço de capa” do e-book [ePUB 2 ou PDF]. Nesse sentido, a Xeriph atua como uma loja e se remunera com o desconto que lhe foi concedido pela editora. Isso no modelo de compra dos livros.

Mas a biblioteca pode ser usada também pelo modelo de subscrição. Nesse caso, a empresa [ou o órgão governamental], adquire uma quantidade de logins, o sistema registra quantos livros foram retirados e cobra o preço pactuado por esses acessos [não foi revelado o preço, é claro, segredo de negócio e certamente sujeito a múltiplas negociações]. Sessenta por cento do recebido é transferido para as editoras, de modo proporcional aos acessos de seus livros.

No caso de venda dos livros, Carlos Eduardo Ernanny declarou ser favorável a uma venda definitiva, perpétua. Mas os editores podem estabelecer também um limite para downloads de empréstimo [modelo que vem sendo adotado por algumas editoras dos EUA]. Ou seja, depois de “x” empréstimos o livro não fica mais no acervo e a biblioteca terá que adquiri-lo novamente.
Quando o acervo é vendido, cada exemplar digital só pode ser emprestado a um usuário por vez. Se o livro estiver emprestado, forma-se uma fila. Se esta cresce muito, pode induzir o bibliotecário a adquirir mais exemplares do livro. No caso de subscrição, tal como na Minha Biblioteca, não existem filas.  Em todos os casos os usuários ficam com os livros nas suas estantes por duas semanas, e podem emprestar até cinco títulos por vez. No modelo de subscrição, para evitar que o usuário permaneça indefinidamente com o livro, a renovação do empréstimo só pode acontecer 45 dias após o final do empréstimo anterior. Em todos os casos, depois de terminado o período de empréstimo, o sistema automaticamente retira o livro da estante do usuário e o devolve para o acervo digital da biblioteca, abrindo espaço para outro usuário emprestar o volume.

Ernanny informou que, no caso de já existir um sistema de bibliotecas, a “biblioteca mãe” pode centralizar o empréstimo para todos os ramais, sempre dentro dos mesmos princípios: fila para os usuários, acesso imediato para subscrições, dentro da quantidade de logins adquiridos.

A Xeriph apresentou um modelo das páginas de uma biblioteca. O modelo é fixo, podendo mudar apenas no cabeçalho e na cor da barra superior, que podem incluir o logotipo da biblioteca, empresa, etc.

Logo abaixo dessa barra inicial aparece uma fila de livros [existentes no acervo] recomendados pelo sistema. Perguntado, Ernanny informou que essas recomendações são feitas exclusivamente através de algoritmos do sistema, não havendo possibilidade de cobrança para mudança de posição. Ora, sabemos que as livrarias cobram adicionais das editoras para colocação de livros na entrada, em vitrines, em pilhas, e que a Amazon levou esse processo a extremos, com as promoções ditas “cooperadas”.  Diante disso, sugiro às editoras, principalmente as pequenas, que vejam se essas condições estão ou não incluídas nos contratos.

A fila seguinte é a de “Recomendações do Bibliotecário”. Nesse caso, é o administrador da biblioteca que seleciona os títulos que recomenda. Pode haver também uma barra com os títulos “mais emprestados” e haverá também espaço para sugestões de aquisição. Alguns sistemas de administração de bibliotecas, como o Alexandria,  por exemplo, permitem que o programa localize de imediato o título sugerido, já que geralmente o leitor informa somente o título, às vezes o autor e quase nunca a editora.

Segundo Ernanny, as editoras terão condições de colocar metadados com informações adicionais sobre seus livros, Mas não foi informado como o sistema irá processar as buscas.

A leitura dos livros será feita exclusivamente através do app desenvolvido pela Xeriph, que já tem incorporado modo noturno e a possibilidade do fundo da página ser sépia, assim como mudar a fonte.

Ao entrar no sistema, o usuário pode verificar a lista de todas as bibliotecas que estão na Xeriph, mas deverá escolher aquela para a qual tem acesso. Poderá, se for o caso, ter acesso a duas ou mais bibliotecas, se estiver inscrito em várias.

Ernanny informou que deve entrar no ar a curto prazo um piloto do sistema, para o comprador que está na etapa final das negociações. O sucesso da empreitada, entretanto, depende certamente da quantidade e qualidade do acervo oferecido. Pela reação dos representantes das editoras presentes, percebi que isso não será problema. É mais um negócio que pode ser viável para os livros já digitalizados.

No caso da biblioteca da Xeriph, acredito que ela possa ter sucesso junto a empresas que ofereçam esse benefício a seus funcionários ou clientes. Pode bem ser um benefício de programas de milhagem ou similares.

Tenho minhas dúvidas quanto à sua implantação em bibliotecas públicas por uma razão bem simples: os impedimentos orçamentários e burocráticos que dificultam o crescimento de acervos nas bibliotecas públicas continuam sendo os mesmos na biblioteca digital. As prefeituras, em sua imensa maioria, não destinam recursos para as bibliotecas, que vivem de doações do público ou recebendo acervos proporcionados pelo governo. Nesses casos, o uso de mecanismos das leis de incentivo fiscal para patrocinar bibliotecas pode ser uma saída.

De qualquer maneira, o simples fato de tirar a necessidade de ir à biblioteca [ou a uma livraria] e facilitar o acesso, já é um grande ponto a favor. Programas de incentivo à leitura são fundamentais, mas sem o acesso a acervos atualizados, de pouco adiantam.

Por Felipe Lindoso | Publicado originalmente em PublishNews | 18/02/2014

Felipe Lindoso

Felipe Lindoso é jornalista, tradutor, editor e consultor de políticas públicas para o livro e leitura. Foi sócio da Editora Marco Zero, diretor da Câmara Brasileira do Livro e consultor do CERLALC – Centro Regional para o Livro na América Latina e Caribe, órgão da UNESCO. Publicou, em 2004, O Brasil pode ser um país de leitores? Política para a cultura, política para o livro, pela Summus Editorial. Mantêm o blogwww.oxisdoproblema.com.br

A coluna O X da questão traz reflexões sobre as peculiaridades e dificuldades da vida editorial nesse nosso país de dimensões continentais, sem bibliotecas e com uma rede de livrarias muito precária. Sob uma visão sociológica, este espaço analisa, entre outras coisas, as razões que impedem belos e substanciosos livros de chegarem às mãos dos leitores brasileiros na quantidade e preço que merecem.

Scribd, o “Netflix dos livros”, e a segunda onda dos eBooks


Por Renata Honorato | Publicado originalmente e clipado à partir de Veja On Line | 15/02/2014

Criador e CEO do serviço de “aluguel” de livros digitais diz que “leitores devem se preocupar com o que ler, e não com o que comprar”

Trip Adler, CEO da Scribd - Jeff Chiu/AP

Trip Adler, CEO da Scribd – Jeff Chiu/AP

Os leitores devem se preocupar com o que ler, e não com o que comprar“, diz o americano Trip Adler, de 29 anos. Adler é cofundador e CEO do Scribd, plataforma criada para facilitar o compartilhamento de arquivos e que desde outubro de 2013 ganhou uma nova função: vender assinaturas de uma biblioteca digital. O usuário paga uma mensalidade 8,99 dólares [menos do que o preço de um livro, em geral] e ganha acesso ilimitado a um catálogo de, por ora, 100.000 e-books que podem ser acessados a qualquer momento, a partir do computador, do tablet, do smartphone. O serviço faz com os livros digitais o que o Netflix fez com vídeos e o Spotify com a música. Não há compra — nem da obra em papel, nem de sua versão virtual. Nos Estados Unidos, a nova maneira de consumir literatura ganha corpo. Por lá, o rival é o Oyster, lançado no ano passado. A gigante Amazon também tem algo parecido, mas menos em conta: por 79 dólares ao ano, é possível escolher uma obra por mês em um catálogo de 350.000 títulos. No Brasil, há pelo menos três iniciativas similares: Nuvem de Livros, Biblioteca Digital e Minha Biblioteca. O catálogo do Scribd ainda é relativamente modesto [nos Estados Unidos, a Amazon, oferece cerca de 2 milhões de e-books para venda]. O acervo se concentra em obras publicadas até 2012, ou seja, lançamentos mais recentes estão fora do alcance do assinante. Além disso, há muitas obras que já caíram em domínio público e,assim, já estão disponíveis em outros sites. Na entrevista a seguir, Adler diz que mantém negociações com editoras e autores, inclusive brasileiros, para oferecer mais títulos. Ele descreve ainda a reação ao novo modelo dos atores da indústria do livro — leitores, autores, editores e também a rival Amazon.

Como surgiu a ideia do modelo de assinatura de e-books?

Trabalhamos com um grande número de editoras há alguns anos e, a certa altura, começamos a discutir com elas um novo modelo de negócio. Estávamos em busca de mais leitores e, é claro, de mais receita. Foi assim que tivemos a ideia de apostar em um modelo de venda de assinaturas em lugar de venda de e-books. Chegamos à conclusão de que esse modelo poderia render dinheiro às editoras e funcionar como um negócio interessante para o Scribd.

Quantos assinantes esse serviço possui?

Não temos esses números ainda, porque o serviço é recente. Toda a plataforma Scribd possui 80 milhões de usuários. Lançamos o recurso de assinatura de conteúdos compartilhados por usuários no começo de 2013 e, desde então, registramos um crescimento de 60% ao mês. O catálogo de livros, contudo, só começou a ser oferecido em outubro do ano passado.

Qual é o perfil dos assinantes do serviço de assinatura de e-books?

Em geral, são pessoas que realmente gostam de ler. Gente interessada em conhecer novos livros de uma forma diferente, não importando o gênero. Oferecemos uma biblioteca digital: portanto, os leitores devem se preocupar com o que ler, e não com o que comprar. É muito mais divertido descobrir e experimentar novos livros por meio da plataforma.

Você acredita que esse é o modelo de consumo de livros do futuro?

Sim. Esse modelo de assinatura funciona para música, vídeos, jornais e revistas. Por que não funcionaria para livros? O usuário paga o valor de um e-book, mas tem acesso a um catálogo de milhares de livros. E toda vez que essas obras são lidas, o editor ganha dinheiro.

Qual é o modelo de negócio? Como autores e editores são remunerados?

Pagamos os autores e editoras toda vez que um e-book é lido. Ao invés de pagar pelo arquivo, como acontece na venda de livros digitais, nós pagamos por leitura.

E o que acontece quando um livro não é lido integralmente?

Depende muito do acordo fechado com as editoras. Em alguns casos, pagamos por página, em outros, há uma remuneração parcial. Tudo depende do tipo de acordo fechado.

Qual é a reação dos leitores ao modelo?

A nossa percepção é de que os usuários adoram o serviço. Eles podem usá-lo em diferentes plataformas. Oferecemos o Scribd, por exemplo, no formato de aplicativos na App Store e Google Play. Nessas lojas, a nossa avaliação média é de quatro ou cinco estrelas. Temos usuários muito engajados. Alguns leem, em média, 40 horas por semana. Claro que ainda é muito cedo, mas acho que o serviço se tornará muito popular em um prazo curto.

E a indústria do livro, incluindo editoras e autores, como vem reagindo?

Nosso relacionamento com os autores e editoras têm sido tranquilo até o momento. Fechamos uma grande parceria com uma das maiores editoras dos Estados Unidos, a HarperCollins, e outros contratos estão a caminho. No começo, todos ficaram apreensivos, tentando compreender o novo modelo de negócio, mas agora o conceito ganha força a cada semana. Temos mantido um contato intenso com editoras e autores. Conversamos o tempo todo com esse público a fim de escutar sugestões e implementar novas ideias. Somos muito abertos.

A Amazon parece ser uma rival óbvia do serviço. Qual a relação do Scribd com a gigante do varejo?

Lançamos um aplicativo para o Kindle Fire e o Kindle PaperWhite [dispositivos da Amazon], mas a Amazon não nos deixou colocá-lo à disposição dos leitores em sua loja de apps. Passamos, então, a oferecê-lo em nosso site.

Quando o Scribd chegará a outros países?

Nossa plataforma está disponível internacionalmente e já temos, inclusive, alguns assinantes brasileiros. Eu acredito que, ao oferecer mais conteúdo em português, nossa base de usuários brasileiros crescerá. Essa é, inclusive, uma estratégia interessante para conseguir mais assinantes no exterior.

Você tem planos de fechar parcerias com editoras brasileiras?

O Brasil é um mercado grande e temos recebido muitos pedidos de autores e editoras brasileiras interessados em incluir seus livros na plataforma. Nós temos cerca de 500 livros em português em nossa biblioteca e sabemos que para conquistar mais leitores no país será preciso aumentar a oferta de obras no idioma local.

O que você acha do apelido que o Scribd ganhou: “Netflix dos livros”?

Eu não vejo problema. Trata-se de um modelo de negócio semelhante. Ele possui algumas características próprias, porque temos além dos livros um catálogo grande de documentos compartilhados por usuários. Mas acho “OK” nos comparem ao Netflix.

Nuvem de Livros expandirá biblioteca virtual à América Latina


A biblioteca virtual Nuvem de Livros ganhará sua versão em espanhol em meados de 2014 no México, na Colômbia, no Peru e no Chile, anunciou nesta sexta-feira o fundador e presidente do grupo Gol Mobile, Jonas Suassuna, durante a Campus Party Brasil que finalizou hoje sua sétima edição em São Paulo.

Durante a apresentação da Nuvem na Campus Party, Suassuna delineou o crescimento da plataforma digital para tablets, telefones celulares e computadores que pretende chegar com baixo custo e literatura e ciência às crianças das escolas públicas e privadas.

A qualificação profissional é um dos requisitos do mundo atual. Estamos no caminho do crescimento tanto no Brasil como em outros países da América Latina e o conhecimento é o caminho para entrar no mundo de melhores empregos e melhor qualidade de vida“, disse Suassuna.

O Grupo Gol, proprietário da Nuvem de Livros, desembarcará nos quatro países latino-americanos com mais de 3.000 títulos e o arquivo da Biblioteca Miguel de Cervantes, no marco de um acordo já em funcionamento na Espanha com a empresa Telefônica.

No Brasil, a plataforma que atua em telefones da operadora Vivo, pretende preencher o vazio da falta de bibliotecas nas escolas públicas e outorgar uma plataforma de nuvem, sem downloads, para leitores em geral.

A Nuvem de Livros tem também o conteúdo informativo da Agência Efe.

Agência EFE | 01/02/2014, às17h31

Terra passa a abrigar Nuvem de Livros


O portal Terra, em mais uma investida para ampliar seu portfólio de produtos e serviços, anunciou uma parceria com a página Nuvem de Livros que, a partir de agora, passa a ficar hospedada em seu canal.

O portal reúne mais de 11 diferentes tipos de leitura, entre clássicos da literatura brasileira e estrangeira, obras infantis e infanto-juvenis, biografias, atlas, livros educacionais e tele-aulas da Fundação Roberto Marinho. A Nuvem de Livros oferece aos leitores a possibilidade de ler o conteúdo das obras sem precisar baixar o arquivo.

O canal funciona por meio de uma assinatura mensal [R$ 14,90 para os assinantes Terra e R$ 19,90 para outros usuários] e permite a leitura ilimitada das obras do acervo. O portal pode ser acessado por PC e também em tablets e smartphones.

Meio & Mensagem | 21/01/14

Biblioteca online Nuvem de Livros divulgará obras da Miguel de Cervantes


A biblioteca online Nuvem de Livros, que possui o maior número de usuários na região ibero-americana, incluirá em breve o catálogo dos conteúdos editoriais da biblioteca virtual Miguel de Cervantes.

Segundo um comunicado emitido pela Miguel de Cervantes, com sede na Universidade de Alicante, esta nova possibilidade é fruto de um recente acordo alcançado pela fundação da biblioteca virtual espanhola com a editora Gol, sediada no Rio de Janeiro.

O convênio tem como âmbito de atuação a Espanha, o Brasil e o resto da região ibero-americana, e prevê a distribuição das obras por meio da plataforma web [www.nuvemdelivros.com.br], que pode ser acessada desde computadores, smartphones, tablets e aplicativos.

O catálogo editorial da Miguel de Cervantes, em formato “epub2”, conta com mais de 300 clássicos da literatura espanhola e ibero-americana, destacando obras do próprio Cervantes, Félix Lope de Vega, Calderón de la Barca, Mariano José de Larra, Benito Pérez Galdós e Rubén Darío, entre outros.

Além dos ícones da literatura espanhola, a biblioteca virtual Miguel de Cervantes também inclui nomes menos conhecidos, mas de mesmo valor literário, caso de Gonzalo de Gramados e Meneses, Juan Cortés de Tolosa e Julia de Asensi.

A plataforma Nuvem de Livros iniciou seu trabalho no Brasil em 2011 e, em menos de dois anos, já superou a marca de milhão de usuários, o que lhe posicionou como a biblioteca “online” com maior número de internautas da região ibero-americana.

Atualmente, a biblioteca oferece mais de 10 mil conteúdos multimídia, entre livros, áudios, vídeos e teleaulas para todas as idades, sendo que seu responsável literário é Antônio Torres, um dos autores brasileiros mais respeitados, além de membro da Academia Brasileira de Letras e prêmio Machado de Assis em 2000.

Por sua parte, a biblioteca virtual Miguel de Cervantes [www.cervantesvirtual.com] foi criada em 1999 através de uma iniciativa da Universidade de Alicante, do Banco Santander – através da divisão global Santander Universidades – e da Fundação Botín.

A biblioteca em questão, que atualmente é regida pela fundação de mesmo nome, presidida pelo escritor peruano Mario Vargas Llosa, tem o objetivo de difundir a cultura ibero-americana, oferecendo livre acesso a mais de 160 mil registros bibliográficos.

Terra | 28/11/13

Biblioteca online Nuvem de Livros conquista 1 milhão de usuários


Nuvem de LivrosA falta de espaço nas residências e em 65% das escolas públicas e privadas do Brasil dificulta a implementação de uma biblioteca física, mas isso não é uma barreira para a disseminação do conhecimento, segundo o empresário Jonas Suassuna, criador da biblioteca online Nuvem de Livros, que disponibiliza mais de 10 mil conteúdos para computadores, tablets e celulares dos cerca de 1 milhão de assinantes.

Jonas Suassuna, presidente do Grupo Gol, produtor e distribuidor de conteúdos multimídia de entretenimento e educação, sabe que sua paixão pela literatura está no sangue.

Ele é sobrinho do escritor paraibano Ariano Suassuna e foi o responsável pela criação da Nuvem de Livros (www.nuvemdelivros.com.br), uma biblioteca online multiplataforma, feita em parceria com a companhia telefônica Vivo, que disponibiliza os arquivos educacionais sem a necessidade de download.

A ideia do projeto, que nasceu há sete anos e foi implantado há dois, veio do “inconformismo” do empresário com a falta de acesso aos livros em escolas públicas, principalmente de regiões remotas do Brasil.

O governo brasileiro assinou uma lei que diz que, até 2020, todas as escolas brasileiras, públicas e privadas, devem ter uma biblioteca com pelo menos um livro por aluno (Lei da Biblioteca Escolar). Quem conhece a realidade da escola pública brasileira sabe que isso vai ser muito difícil“, disse Jonas à Agência Efe. Segundo ele, há, hoje, no país um deficit que impacta cerca de 15 milhões de crianças e jovens.

Levando em conta a improbabilidade de que o país construa milhares de bibliotecas em menos de 10 anos, o empresário buscou, determinantemente, outra solução viável.

Segundo dados fornecidos pela empresa, “o Brasil é a quinta maior plataforma de telefonia celular do mundo. O 3º maior mercado mundial de desktops. Hoje, 60% dos acessos de internet na América Latina são feitos aqui. Se é difícil fazer bibliotecas físicas, existe a possibilidade real de fazer uma digital“.

O acervo da Nuvem de Livros apresenta material didático, livros selecionados por uma curadoria sob o comando do respeitado autor Antônio Torres, audiolivros, vídeos e teleaulas (em parceria com a Fundação Roberto Marinho), notícias produzidas em vários países pela Agencia Efe que compõem os mais de 10 mil conteúdos que estão disponíveis na internet, em tablets e celulares, e disponibiliza conteúdos de ensino profissionalizante e games educacionais.

Os usuários da biblioteca online Nuvem de Livros podem fazer a busca nos livros por capítulo ou por termo, marcar as páginas e estudar mapas interativos, enquanto os professores podem propor conteúdos, selecionar suas leituras e controlar o que os alunos estão pesquisando em ambientes de convergência criados com esta finalidade.

Segundo a empresa, o plano era criar uma plataforma de conteúdos protegidos contra a pirataria que pudessem atender a demanda de cerca de 15 milhões de alunos de escolas que não possuem biblioteca e de 3 milhões de universitários de cursos à distância que também não tem onde fazer suas pesquisas, além de famílias que não contam com espaço para estantes de livros em casa e de indivíduos que queiram acessar conteúdos literários de qualidade produzidos pelas 150 mais importantes e respeitadas editoras do mercado brasileiro e mundial.

Na biblioteca virtual, você pode conferir a qualidade da informação que seus filhos estão buscando. Hoje, em um site de busca, não há segurança alguma sobre a confiabilidade do conteúdo, pois você encontra de tudo ali. A Nuvem de Livros traz qualidade, pluralidade, segurança e bom preço“, explicou Jonas.

A assinatura escolar custa cerca de R$ 2,00 mensais por aluno, e os clientes particulares pagam cerca de R$ 8 por mês para ter acesso ilimitado aos conteúdos, em quaisquer plataformas.

Acho que o grande charme da Nuvem, além do acervo, é a portabilidade. Você poder ler um livro ou assistir a uma aula em qualquer lugar, é uma forma interessante de ter acesso a um conhecimento seguro“, disse Jonas.

A Nuvem de Livros conta com mais de 150 profissionais espalhados pelo mundo, entre professores, pedagogos, bibliotecários e curadores de conteúdos. Em paralelo, mantém equipe de 80 professores que se responsabilizam, nos ambientes escolares, pela capacitação e motivação dos educadores, engajando-os no processo de modo a permitir que a Nuvem de Livros seja utilizada, eficientemente, como ferramenta pedagógica em salas de aula.

Não dava para um profissional da área de tecnologia explicar o funcionamento da biblioteca para um professor. Os discursos são diferentes, distintos, a terminologia é outra“, afirmou o empresário.

Para Jonas, um dos principais desafios da equipe foi convencer as editoras a embarcar no projeto. A preocupação era com a disponibilização de conteúdo e a garantia de que não há possibilidade de pirataria.

Não é um tipo de gente retrógrada. Ao contrário, são indivíduos com visão contemporânea, atualizados e sensíveis. Mas é um mercado que está vendo o seu negócio mudar. Nenhum editor de livro é dono de fábrica de papel. Eles são experts em garimpar e produzir conteúdo de qualidade“, afirmou.

Nossa obrigação é organizar essa massa de conteúdo do ponto de vista literário e pedagógico de forma pertinente e, principalmente, disponibilizar uma ferramenta tecnológica que permita a interação com a biblioteca da forma mais simples possível, participativa, atrativa e por um preço convidativo“, explicou o criador do projeto.

A Nuvem de Livros já está presente também na Argentina e deve começar a operar em outros países da América Latina e na Espanha a partir de setembro.

Terra | 16/08/13

“No Brasil, livro é produto de elite”, diz entusiasta dos eBooks


Campus Party proporciona discussão sobre futuro do mercado editorial e como o digital se adapta a isso

Foto: Leonardo Pereira Olhar Digital

Foto: Leonardo Pereira Olhar Digital

A Campus Party criou uma situação curiosa ao promover um debate sobre livros digitais no palco que leva o nome de Johannes Gutenberg. Foi ele o inventor da impressão por tipos móveis, que possibilitou o desenvolvimento da imprensa e revolucionou o setor editorial no mundo. Nesta quarta-feira, 30, ao comentar a coincidência, o consultor editorial Carlo Carrenho, do Publishnews, disse que ela é mais do que oportuna, pois o alemão promoveu um momento de ruptura na história da humanidade – basicamente o que acontece hoje em relação ao mercado editorial.

Assim como a invenção de Gutenberg, o livro digital leva informação a quem tem dificuldade de obtê-la. Antes dos tipos [basicamente carimbos em formato de letras], a cultura escrita era extremamente restrita, mas passou a se abrir porque a reprodução foi facilitada; com os e-books é a mesma coisa: o consumidor não precisa esperar que a obra recém-lançada chegue à livraria mais próxima. Porque ele nem precisa da livraria.

Este cenário, obviamente, incomoda livrarias, distribuidoras e transportadoras, que veem uma clara ameaça aos negócios. “Nenhum dos principais players do mercado ganha dinheiro com livro digital, pelo contrário, tem muita gente perdendo”, disse Sergio Herz, CEO da Livraria Cultura, em que 3% das vendas de livros já correspondem a obras em formato digital.

Segundo Hubert Alquéres, vice-presidente de Comunicações da Câmara Brasileira do Livro [CBL], todos os envolvidos no setor editorial estão focados no digital, ainda mais depois da chegada de Amazon e Google e do lançamento do Kobo pela Livraria Cultura. “Se o Brasil estava ainda muito cauteloso de entrar nesse mundo, percebe-se que agora é um caminho sem volta.

Democratização da leitura

Os dados mais recentes da CBL dizem que o preço médio do livro no Brasil é de R$ 10 – em 2011, quando foram vendidos 470 milhões de exemplares, o mercado faturou R$ 4,8 bilhões. Sergio, então, fez as contas: um tablet bem básico pode ser comprado por R$ 400, portanto, 40 obras já valeriam o investimento. O problema, comentou, começa na questão da durabilidade: “O tablet, na mão do aluno, dura seis meses. O livro impresso dura dez.

Além disso, a banda larga brasileira não é das melhores e a penetração é muito baixa, sem contar o fato de que a parcela da população com acesso doméstico ao computador ainda é baixa. Mas nada disso convenceu Roberto Bahiense, diretor de Relações Institucionais do Grupo Gol.

Livro no Brasil é produto de elite. Há em Buenos Aires [Argentina] mais livrarias do que no Brasil inteiro, e sabe quanto vai custar um device daqui a alguns anos? R$ 100”, disse ele, lembrando que embora grupos como o comandado por Sergio façam “esforços legítimos” em prol da difusão da leitura, o ideal é o digital, que por não ter empecilhos físicos teoricamente chega a todos os cantos. “Vivemos um divisor de águas, estamos diante de um fato novo, inegociável.”

A briga do device

Há dois anos, antes que os gigantes olhassem para cá, a Vivo e o Grupo Gol lançaram a Nuvem de Livros, que disponibiliza obras a clientes da operadora por uma assinatura semanal. O modelo dispensa o uso de um Kobo ou Kindle e Roberto garante que o brasileiro pulará uma etapa ao adquirir o tablet, ao invés do e-reader, outra hipótese que desagrada livrarias.

Sergio, da Cultura, afirmou que aparelhos como iPad dificultam a concentração, deixam a leitura mais lenta e comprometem a absorção do conteúdo. Por outro lado, Roberto atacou que os e-readers servem, na realidade, para fidelizar o consumidor e fazer com que ele compre produtos ou serviços mais caros futuramente. A Amazon, por exemplo, poderia usar o cadastro de quem adquiriu livros para oferecer televisores.

Com o tablet você baixa o formato que quiser e pode comprar obras interativas, vídeos, jogos e outros tipos de aplicativos. “Para o brasileiro que lê dois livros por ano não faz sentido ter um leitor digital”, disse Carlo, do Publishnews. Mas um aparelho específico pode ajudar a prender o cliente por limitar os formatos de arquivo que podem ser lidos ali, criando um cenário parecido com o que instituiu o iTunes quando o MP3 foi popularizado.

Quando a Apple fez com que a música digital caísse no gosto das pessoas, a indústria fonográfica levou uma chacoalhada. As primeiras a sentirem o impacto foram as empresas maiores, o que deve ocorrer com o mercado editorial. Se o brasileiro pular direto para o tablet, não há como força-lo a comprar de uma loja específica.

Impresso tem futuro?

O livro impresso ainda vai durar um tempo; alguns tipos, como os de arte, existirão sempre – por outro lado, os digitais vão tomar cada vez mais espaço”, opinou Carlo.

Para ele, as editoras não serão impactadas, desde que façam apenas seu serviço original. ”O que acontece é que muitas editoras viraram distribuidoras, e como a ruptura é na distribuição, essa editora está com problema, porque o autor agora publica direto, sem passar por ninguém. As editoras que souberem fazer a transição estão salvas.

Hubert, da CBL, acredita que no futuro o mercado será reorganizado de forma que existam grandes empresas de conteúdo – “se vai ser para impresso ou digital, não importa”. O papel deve continuar forte, mas sem ser o principal meio de consumo; tanto que até o governo, principal comprador de livros do país, já está migrando para o digital [saiba mais aqui]. Segundo ele, como o brasileiro tende a se apegar rapidamente a novas tecnologias – como aconteceu com celular ou as eleições, hoje totalmente eletrônicas -, o e-book deve se consolidar rapidamente.

Mais leitores

Pesquisas dizem que pessoas que compraram e-readers ou passaram a consumir obras em formato digital começaram a ler mais por causa disso. Outras afirmam que quem não era leitor, se tornou um. Nada disso, porém, garante que essa novidade pode fazer com que o brasileiro leia mais.

Há, de acordo com Carlo, um fator determinante: a cultura. E ela só mudaria em corrente. “O que é mais determinante para criar um leitor é pai e mãe”, ressaltou. “Ter pais que leem forma leitores.

Por Leonardo Pereira | Olhar Digital | 30 de Janeiro de 2013 | 20:25h

Brasil, eBooks, educação e tecnologia


Por Octavio Kulesz | Publicado originalmente em PublishNews | 17/09/2012

Non ducor, duco

Com seus 11 milhões de habitantes – 20 milhões, se incluirmos as cidades ao redor – e um PIB de mais de 300 bilhões de dólares, São Paulo representa o principal polo industrial e financeiro da América do Sul. Cerca de 6 milhões de automóveis transitam por sua gigantesca rede de estradas, avenidas, túneis, pontes e viadutos. Escapando do trânsito,incontáveis passageiros são transportados pelas diferentes linhas de metrô, enquanto no ar, um enxame de helicópteros aguarda o momento propício para descer no terraço de algum arranha-céu.

A cidade transmite uma intensidade extraordinária, é absolutamente multicultural e absorve tudo o que chega de fora – costumes, roupas, comidas e até palavras – com a mesma naturalidade que uma selva tropical assimila espécies novas. No entanto, tal facilidade não deveria criar nenhuma confusão: longe de adaptar-se passivamente às tendências da moda, São Paulo transforma todas a seu favor, o que talvez explique a máxima em latim que adorna sua bandeiranon ducor, duco – “não sou conduzido, conduzo”.

CONTEC: educação e tecnologia

Felizmente, a cidade conta com espaços de serenidade. O Parque Ibirapuera é um dos mais importantes de São Paulo: possui belíssimos lagos, fontes e árvores, assim como uma rica oferta cultural. No centro dele ergue-se o Auditório Ibirapuera, concebido há várias décadas pelo genial arquiteto Oscar Niemeyer e atualmente administrado pelo Instituto Itaú Cultural.

O Auditório destina-se geralmente a grandes espetáculos musicais, mas durante os dias 7 e 8 de agosto serviu de sede para o evento CONTEC, uma conferência internacional sobre educação e tecnologia organizada pela Feira do Livro de Frankfurt [FBF] – em especial por suas divisões LitCam e Frankfurt Academy –, que contou com o apoio de atores locais como PublishNewsAbeu, o Instituto Itaú Cultural, a Câmara Brasileira do Livro [CBL] e a Positivo, entre outros. Quase 700 pessoas, majoritariamente jovens, assistiram a debates atuais sobre a questão do analfabetismo, os planos de leitura do Estado brasileiro, as iniciativas de empresas locais e as incursões das empresas internacionais.

Pelo que se pôde ver, o Brasil se prepara para um grande salto tanto em educação quanto em tecnologia. Como deixou claro Karine Pansa – diretora da CBL – na abertura do evento, o Brasil ainda é um país desigual, mas a universalização da educação primária, o investimento em qualidade educativa e as novas tecnologias acabarão sendo fatores decisivos na consolidação de um mercado leitor. Para conseguir estes objetivos, o país “terá que aprender das nações que já deram esse salto”.

Um Estado poderoso

André Lázaro – que foi secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade durante a presidência de Lula da Silva – enumerou as conquistas e desafios dos planos nacionais de luta contra o analfabetismo, assim como a necessidade de trabalhar com força neste âmbito, a fim de conseguir uma democracia melhor. Como lembrou Lázaro, ainda persistem fortes diferenças entre o rico sudeste e o nordeste mais pobre, assim como entre as cidades e o campo.

Lúcia Couto – atual coordenadora geral de Ensino Elementar do Ministério da Educação – descreveu as diferentes ferramentas utilizadas pelo Estado para universalizar a alfabetização das crianças. O Brasil está discutindo atualmente os detalhes do Plano Nacional de Educação, que poderia elevar o investimento educativo a 10% do PIB nos próximos 10 anos.

Os esforços do setor público também vêm da área da cultura. Galeno Amorim – presidente da Fundação Biblioteca Nacional – expôs detalhes do Plano Nacional do Livro e da Leitura. Como apontou o presidente da FBN, o Ministério da Cultura designou quase 200 milhões de dólares a diversas iniciativas de fortalecimento das bibliotecas e de estímulo à leitura que serão realizadas até o final do ano.

Brasil na vanguarda tecnológica

Se o setor público dá sinais de se mover com decisão, as empresas privadas não ficam atrás, embora sejam conscientes de que falta muito por fazer. Cláudio de Moura Castro – assessor do poderoso grupo Positivo – afirmou que apenas 18% dos universitários possuem o hábito da leitura e que um número significativo de alunos são, na verdade, analfabetos funcionais; de fato, em todo o Brasil existem tantas livrarias quanto na cidade de Paris.

O matemático José Luís Poli – do Programa de Alfabetização em Língua Materna [PALMA], desenvolvido pela empresa IES2 – confirmou o diagnóstico negativo a respeito dos milhões de analfabetos plenos e funcionais, mas se mostrou otimista sobre as soluções aportadas pelas novas tecnologias. PALMA funciona como um conjunto de aplicativos para celulares e oferece diferentes ferramentas de escrita e compreensão de textos. É importante lembrar que no Brasil existem mais de 250 milhões de celulares – o que equivale a uma penetração de 130% – dos quais ao redor de 54 milhões são 3G. Por outro lado, os fortes investimentos em infraestrutura 4G que se avizinham permitem supor que a telefonia móvel desempenhará um papel ainda mais vital na comunicação brasileira.

Brasil 2.0

As redes sociais constituem outro dos fatores decisivos no mundo da comunicação do Brasil. O país conta com mais de 55 milhões de contas de Facebook – segundo, depois dos EUA, no ranking global de usuários. A rede social Orkut, que no Brasil é administrada pela Google, perdeu sua liderança no final de 2011, mas ainda conta com uma considerável massa de seguidores. Em relação ao Twitter, o Brasil também segue os EUA no número total de usuários, sendo São Paulo a quarta cidade com maior número de tweets do mundo, só atrás de Jacarta, Tóquio e Londres. Durante a conferência CONTECa escritora carioca mais de 200.000 leitores que a seguem.

Os meios sociais do Brasil vão, inclusive, além do Facebook, Orkut ou Twitter. Já surgiram redes locais organizadas por núcleos de interesse, que mostram uma atividade notável. Na mesa que tive a oportunidade de moderar, Viviane Lordello deu algumas cifras do Skoob, a maior rede social de leitores do Brasil: uns 600.000 internautas trocam recomendações, notas e até livros físicos que são enviados por correio postal; estes usuários são de todo o território brasileiro, no entanto mais de 45% vive em São Paulo. Também é preciso destacar o trabalho realizado pela Copia, uma plataforma de conteúdos digitais dependente do grupo DCM dos EUA; Marcelo Gioia – CEO do Copia Brasil – enumerou durante a CONTEC os planos da empresa em nível local, especialmente depois de ter fechado uma aliança com o Submarino, a principal empresa de comércio eletrônico da América Latina: desta união de forças surgiu o Submarino Digital Club, uma rede social na qual os usuários podem compartilhar anotações assim como comprar e descarregar e-books.

Local e global. CONTEC 2013

A necessidade de estabelecer alianças locais foi em parte discutida durante a sessão “Visão panorâmica: olhando a bola de cristal”, na qual participaram Tânia Fontolan – do conglomerado brasileiro Abril Educação – e Hegel Braga – diretor da Wiley Brasil – sob a coordenação de Holger Volland. Fontolan começou explicando a forma como a Abril Educação vê o mercado educativo local nos próximos anos: crescimento dos conteúdos na nuvem; proliferação de tablets e celulares; aprendizagem baseada em videogames e conteúdo aberto. Braga, por seu lado, ofereceu detalhes sobre as ações da Wiley no Brasil: a empresa abriu um escritório próprio em São Paulo há poucos meses: dali espera desenvolver acordos com sócios locais e trazer tecnologia do exterior para ajustá-la ao cliente brasileiro. Tânia Fontolan concordou com a importância de trabalhar com alianças locais, embora tenha se mostrado cética a respeito da ideia de implantar soluções tecnológicas fechadas, pois em muitas ocasiões estas se mostraram simplesmente inadaptáveis.

Jurgen Boos e Marifé Boix García – respectivamente diretor e vice-diretora da FBF – sublinharam seu compromisso de longo prazo com o Brasil e a América Latina, ao mesmo tempo em que anunciaram uma nova edição da CONTEC para junho de 2013, desta vez na forma de uma feira internacional de conteúdos e educativos e multimídia, com dias diferenciados para os profissionais e para o público. A FBF já conta com delegações de Nova Délhi, Moscou, Beijing e Nova York, e logo abrirá um escritório em São Paulo. Segundo Jurgen Boos, as redes e o know how da FBF podem ser de grande ajuda para a indústria editorial brasileira:

“O Brasil tem um mercado interno enorme, com quase 200 milhões de pessoas. No entanto, está muito focado no local, ainda carece de contatos internacionais e é aí onde acho que nós podemos desempenhar um papel importante. Gostaríamos também de trabalhar com as universidades brasileiras, porque considero que tudo que fizermos deverá ser local. Podemos trazer nossa experiência, mas são necessários profissionais do mercado local.”

eBooks na Bienal: um futuro entre o EPUB e a nuvem

No dia 9 de agosto, a uns 12 quilômetros do Parque Ibirapuera – no centro de exposições do Anhembi – foi inaugurada a 22ª Bienal do Livro de São Paulo, sob o lema “Os livros transformam o mundo, os livros transformam as pessoas”. A exposição durou 11 dias e foi visitada por mais de 750.000 pessoas, confirmando o dinamismo de uma indústria editorial que fatura quase 2,5 bilhões de dólares anuais.

Em comparação com os estandes de livros impressos, o espaço dedicado aos e-books era bastante limitado, o que acaba sendo coerente com a baixa faturação que apresenta o segmento digital: na verdade, os livros eletrônicos equivalem hoje a menos de 1% do total de ingressos da indústria editorial brasileira. Apesar disso, algumas tendências permitem antecipar um crescimento acelerado do novo mercado.

Como afirmamos antes, são numerosas as empresas estrangeiras que trabalham com aliados nativos para oferecer conteúdos digitais cada vez mais adaptados aos leitores locais. Graças ao lançamento de sua rede social de livros digitais – resultado do acordo com a Copia – o estande da Submarino foi um dos mais concorridos da Bienal.

Por outro lado, a considerável capacidade de investimento dos players autóctones possibilitou o surgimento de plataformas originais como Nuvem de Livros, desenvolvida pelo Grupo Gol, em associação com a operadoraVivo-Telefônica: durante a Bienal, os estudantes puderam se informar sobre as funcionalidades e custos desta plataforma na nuvem, que conta com 800.000 usuários e que por menos de 2 reais por semana oferece acesso a cerca de 6.500 títulos.

Da mesma forma, as editoras nacionais estão trabalhando ativamente na digitalização de seus catálogos, embora ainda haja muito a melhorar: segundo a especialista Camila Cabete, mais de 60% dos arquivos EPUB brasileiros apresentam erros de estruturação. De qualquer forma, a migração já começou: os títulos publicados em formato digital chegaram, em 2011, a 9% do total de obras registradas. Diversas editoras passaram à ofensiva comercial, em especial no terreno do livro científico: Atlas, GENEditora Saraiva e Grupo A uniram forças para oferecer seus títulos através do Minha Biblioteca, uma plataforma de conteúdo digital pensada para o mercado acadêmico.

Quem quer colocar [Kindle] um fogo [Fire] na Amazônia?

O dia 10 de agosto foi a data chave para os e-books durante a Bienal. Ao longo de toda essa jornada – “o dia D” – o público pôde escutar diferentes protagonistas da cena digital: Andrew Lowinger da Copia, Marie Pellen da OpenEdition, Jesse Potash da Pubslush, Júlio Silveira da Imã, Eduardo Melo da Simplíssimo, Marcílio Pousada da Livraria Saraiva e Russ Grandinetti da Amazon Kindle. Depois da primeira conferência, os organizadores foram obrigados a mudar o evento para uma sala maior, já que o número de participantes tinha superado as expectativas.

Quando chegou a vez de Russ Grandinetti, nem sequer a nova sala foi suficiente para conter os interessados, e um grande número de ouvintes ficou de fora. O executivo esclareceu logo no começo que não daria nenhuma data para o desembarque da Amazon no Brasil e se limitou a enumerar os pontos positivos do e-reader Kindle e o tablet Fire. Carlo Carrenho – diretor do PublishNews – coordenou o diálogo entre Grandinetti e o público, e no final lembrou uma frase de Jeff Bezos: “Quero ir à lua… e ao Brasil”, o que levou a uma pergunta que o público celebrou com gargalhadas: “Quando pensam em abrir essa filial lunar, então?” É que o lançamento da Amazon no Brasil já demorou muito – talvez um sinal de que as coisas não eram tão simples quanto pareciam. Às complexidades impostas somam-se obstáculos impensados: por exemplo, até muito pouco tempo, o domínio amazon.com.br era propriedade de uma empresa local; demorou 7 anos para a Amazon EUA conseguir um acordo com sua contraparte brasileira – porque não era simples para os norte-americanos alegarem seu direito sobre a marca, já que o rio Amazonas [“Amazon” em inglês] se encontra precisamente no Brasil. Em todo caso, a empresa de Seattle parece disposta a fazer o que for necessário para se estabelecer na América do Sul – desde adquirir empresas nativas até operar sob uma denominação diferente, entre outras alternativas.

Imediatamente depois da Amazon, chegou a vez da livraria Saraiva. Nesse momento, eram tantas as pessoas na sala que a situação se assemelhava mais a um show de rock do que a uma conversa sobre e-books. Marcílio Pousada lembrou a importância de contar com 102 lojas em todo o território brasileiro e de ser um dos principais vendedores de tablets e de livros a nível nacional. Vale a pena sublinhar que a Saraiva possui mais de 2 milhões de clientes ativos em sua divisão eletrônica. Graças a uma equipe de 60 pessoas dedicadas ao desenvolvimento digital, implementou seu próprio aplicativo de leitura e outras iniciativas pensadas especificamente em função do leitor local. Este potencial concorrente da Amazon oferece hoje em torno de 10.000 títulos em língua portuguesa e espera somar outros 5.000 até dezembro.

Quem manda no baile

No Brasil, confluem hoje forças muito poderosas, provenientes tanto do interior quanto do exterior. Como rios caudalosos que se interconectam, o setor público, as empresas locais e as empresas globais formaram um ecossistema rico e dinâmico. Este diagnóstico poderia ser aplicado a diferentes áreas da economia, por exemplo a de infraestrutura de transportes, tal como pôde ser visto nos recentes anúncios do governo para a construção de ferrovias e estradas.

No âmbito das publicações digitais, a sinergia entre os players públicos e privados, locais e globais, é especialmente clara. A envergadura dos atores envolvidos permite supor um crescimento acelerado tanto da oferta de conteúdos quanto dos ingressos econômicos. O país tem tudo para ganhar com o desembarque das multinacionais do e-book: as empresas brasileiras recebem uma forte transferência de tecnologia do exterior, ao mesmo tempo em que os consumidores nacionais têm acesso a plataformas e dispositivos de primeiro nível.

Apesar disso, também é preciso avisar que existe o perigo de uma saturação da oferta. Na verdade, muitos de meus interlocutores brasileiros estavam surpresos pelo otimismo excessivo manifestado pelas empresas internacionais, que acham que este mercado é um novo Eldorado, a ansiada fuga da crise econômica que afeta suas matrizes. E o certo é que – tal como sublinharam os criadores de políticas durante a conferência CONTEC– o Brasil continua enfrentando desafios cuja solução exigirá muito tempo e grande esforço.

De qualquer forma, apesar de todas as dificuldades, o país ganhou uma relevância ineludível e já dialoga de igual para igual com os titãs da indústria eletrônica global. E o Brasil – com seu ativo setor público, suas poderosas empresas e seu povo extraordinário – está decidido a conduzir o baile, não a ser conduzido.

Por Octavio Kulesz | Publicado originalmente em PublishNews | 17/09/2012

Octavio Kulesz é formado em Filosofia pela Universidade de Buenos Aires e atualmente dirige a Teseo, uma das

Octavio Kulesz

principais editoras digitais acadêmicas da Argentina. Em 2010, criou a rede Digital Minds Network, junto com Ramy Habeeb [do Egito] e Arthur Attwell [da África do Sul], com o objetivo de estimular o surgimento de projetos eletrônicos em mercados emergentes. Em 2011, escreveu o renomado estudo La edición digital en los países en desarrollo, com apoio da Aliança Internacional de Editores Independentes e da Fundação Prince Claus.

Sua coluna Sul Digital busca apresentar um panorama dos principais avanços da edição eletrônica nos países em desenvolvimento. Tablets latino-americanos, leitura em celulares na África, revoluções de redes sociais no mundo árabe, titãs do hardware russos, softwares de última geração na Índia e colossos digitais chineses: a edição digital no Sul mostra um dinamismo tanto acelerado quanto surpreendente.

Biblioteca virtual Nuvem de Livros é apresentada na Campus Party Recife


Um serviço que disponibiliza para consulta um acervo on-line de quase 6,5 mil publicações foi apresentado na Campus Party Recife, neste sábado [28]. O projeto se chama Nuvem de Livros. Foi lançado em março deste ano e, até agora, já conta com 800 mil assinantes. Para ter acesso a essa biblioteca virtual é preciso pagar uma assinatura de R$ 1,99 por semana ou R$ 4 por mês.

As obras armazenadas – livros, áudiolivros, vídeos e games educacionais – podem ser visualizadas nas plataformas Apple, Android, Windows 8 e Web, mas o download não é permitido. `A nuvem é uma nova forma de armazenar uma grande quantidade de informação, que pode ser acessada via internet. Assim, a gente distribui licenças e, por exemplo, duas pessoas podem ler o mesmo livro ao mesmo tempo`, explicou Jonas Suassuna, presidente do Grupo Gol, que desenvolveu o serviço.

A licença é vendida a pessoas e escolas, que são o maior foco do projeto. Há conteúdos para todas as idade. Tem clássicos da literatura Brasileira, domínio público e lançamento, obras infantis e enciclopédias, além de títulos em espanhol e inglês. A Nuvem já conta com 74 editoras nacionais e estrangeiras. Também há espaço para excursões virtuais a museus e bibliotecas temáticas. Cursos de idiomas ainda serão disponibilizados.

A licença é vendida a pessoas e escolas, que são o maior foco do projeto. Há conteúdos para todas as idade. Tem clássicos da literatura Brasileira, domínio público e lançamento, obras infantis e enciclopédias, além de títulos em espanhol e inglês. A Nuvem já conta com 74 editoras nacionais e estrangeiras. Também há espaço para excursões virtuais a museus e bibliotecas temáticas. Cursos de idiomas ainda serão disponibilizados.

O G1 pediu para algumas pessoas testarem a Nuvem de Livros. Todos acharam a navegação super simples. `Acho que todo mundo curte a ideia de pagar pouquinho para poder ler tanta coisa. Acho que vale a pena`, disse a estudante Cláudia Machado.

Na seção `Reforço Escolar`, o aluno informa qual a deficiência que ele tem e o próprio sistema aponta os assuntos que precisam de reforço. Estão disponíveis teleaulas produzidas pela Fundação Roberto Marinho com assuntos do ensino médio ao técnico, além de vídeos do canal Futura. Há, ainda, um espaço exclusivo para professores, que podem consultar cartilhas, vídeos e vários materiais multimídias para usar em sala de aula.

Suassuna conta que a ideia da Nuvem de Livros democratizar a leitura é para suprir uma carência: segundo o Grupo Gol, a falta de bibliotecas no Brasil atinge cerca de 65% das escolas, afetando 15 milhões de estudantes. `Esta é uma nova forma de ensinar para esta geração 2.0. Esse é um exemplo de tecnologia aplicada na educação de forma prática e econômica`, frisou o presidente.

A Nuvem de Livros foi lançada no Brasil e deve chegar a outros 25 países. Na próxima semana, o Espaço Criança Esperança de Jaboatão dos Guararapes, no Grande Recife, vai receber pontos de acesso à Nuvem de Livros. Os espaços do Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte também serão contemplados.

Luna Markman | Globo.com | 28/07/2012

Leitura na nuvem sem mistérios


Por Greg Bateman | Publicado originalmente em Publishnews| 18/07/2012

O que é a nuvem?

Até pouco tempo atrás, todos os nossos arquivos estiveram fisicamente armazenados em hard-drives, CDs e outros dispositivos de memória. Se quaisquer desses suportes fossem perdidos, danificados ou roubados, azar – e provavelmente você sentirria saudades da perenidade do papel e dos livros. Mas, graças à inventividade da tecnologia, já existe um jeito melhor de armazenagem. Ao manter seus conteúdo e arquivos na nuvem, você pode acessá-los em qualquer lugar.

Por que isso interessa aos leitores?

No contexto dos e-books, a nuvem é ainda mais importante. Enquanto alguns formatos de arquivos vêm e vão, com a nuvem um e-book comprado hoje vai durar para sempre. Você deixou uma cópia do seu e-book no seu PC, em casa? Nenhum problema, você pode lê-lo pelo browser do seu telefone Android onde quer que você esteja. Deixou o seu precioso iPhone 4S cair numa poça na Avenida Faria Lima? Em apenas alguns segundos você pode refazer o download de graça pelo iBooks no seu novo celular.

A leitura na nuvem desmistificada

Certamente uma área de crescimento em 2012, a leitura em nuvem de fato começou a decolar. Mas, para tornar a situação um pouco mais “nebulosa”, há várias formas de nuvem. Farei o melhor que puder para clarear tudo isso.

Sincronização

Compre uma única vez e sincronize todo o conteúdo em qualquer lugar fazendo o download de uma cópia “local” em cada dispositivo que você usa. Não é surpresa nenhuma que a Amazon foi pioneira nisso com sua tecnologia Cloud Reader, por meio da qual os livros Kindle podem ser sincronizados não apenas no aparelho Kindle, mas também no iPad e no PC, por meio de aplicações para cada um desses dispositivos. A O’Reilly Media, editora norte-americana que adora inovações tecnológicas, uniu-se à Dropbox, empresa de armazenagem em nuvem, para que todo o conteúdo da O’Reilly comprado possa ser guardado de forma segura gratuitamente em nuvem.

Leitura no celular

Leia livros no seu aparelho conectado à internet, aonde quer que você vá. Enquanto há diversas empresas internacionais tentando fazer isso, eu considero as soluções propostas pela Xeriph e pela Gol Mobile, duas empresas do Rio de Janeiro, particularmente interessantes. E qual a inovação aqui? A Nuvem de Livros, da Gol, dá aos leitores acesso a toda uma biblioteca no estilo “coma quanto puder” por R$ 0,99 mais impostos por semana, em parceria com a Vivo. Já a Xeriph, por meio de uma parceria com a Claro, permite aos assinantes da Claro Leitura que eles leiam até três livros por semana por R$ 3,99.

Fim da dependência em relação aos dispositivos

O próximo capítulo na história da leitura em nuvem é uma solução que permite verdadeiramente uma independência em relação a plataformas e provê uma experiência de fato consistente em qualquer aparelho conectado à internet. Sem entrar em detalhes, empresas de tecnologia podem tornar esse sonho realidade usando a linguagem de programação HTML5, que permite em qualquer navegador de internet uma experiência semelhante à do uso de um “app”. A Google Play Books é um ótimo exemplo, vendendo e-books que podem ser comprados e lidos em vários aparelhos. A Vook, empresa de tecnologia de e-books, deu um passo além. Ela oferece às editoras um leitor e loja próprios e elegantes, bem como experiências de leitura enriquecidas por áudio e vídeo, por exemplo.

Com a leitura em nuvem, a promessa do conteúdo universalmente acessível finalmente chegou.

Greg Bateman

Greg Bateman

Por Greg Bateman | Publicado originalmente em Publishnews| 18/07/2012

Greg Bateman, expert em tecnologia e empreendedor do negócio de e-books, é conhecido pelo seu envolvimento na criação de produtos extremamente bem-sucedidos, como os smartphones da Samsung e o Kindle, da Amazon. Na Vook, ele desenvolveu uma eficiente cadeia de produção de centenas de e-books por semana. Greg, que nasceu nos Estados Unidos, viveu nove anos no exterior, onde intermediou várias parcerias envolvendo Coreia, China, Japão e EUA. Hoje mora no Brasil, em São Paulo. Ele é pesquisador visitante da Universidade de Tóquio, tem duas graduações pela Universidade da Califórnia em Berkeley [engenharia elétrica/ciência da computação e literatura japonesa] e um MBA pela Columbia Business School.

A coluna E-Gringo discute a fundo o negócio e o lado técnico dos e-books a partir de uma perspectiva global. Às quartas-feiras, quinzenalmente, ela vai apresentar plataformas e tendências do mundo todo e, claro, do Brasil. Para enviar comentários, escreva para greg@hondana.com.br .

Claro lança biblioteca virtual


A Claro lançou oficialmente o serviço de biblioteca virtual que permite aos clientes ler até três livros por semana ao custo de R$ 3,99. Há, por enquanto, 1.500 títulos subdivididos em 11 categorias: artes, autoajuda, biografia, direito, literatura brasileira, medicina e saúde, infantojuvenil, religião, filosofia, obras gerais e ciências sociais. “Em uma pesquisa realizada com usuários de smartphone, foi identificado que 57% dos usuários utilizam o aparelho para leitura e o lançamento desse serviço vem atender esse público”, disse Fiamma Zarife, diretora de serviço de valor agregado da operadora, segundo um comunicado divulgado hoje.

A Xeriph é a agregadora digital que fornece os títulos. Por enquanto são dez editoras envolvidas, mas o objetivo é “aumentar bastante esse número”, segundo Duda Ernanny, diretor executivo da Xeriph. “É algo muito, muito novo para as editoras, então resolvemos iniciar com dez. Mas nosso objetivo é disponibilizar o máximo de conteúdo possível e incluir duas ou três editoras novas por mês”, diz o executivo. A Xeriph congrega hoje, no total, 200 editoras e dez mil títulos.

A assinatura do Claro Leitura custa R$ 3,99 por semana. Já a assinatura dos conteúdos literários via SMS e MMS sai por R$0,29 e R$0,50 por mensagem, informou a empresa. A Claro tem 61 milhões de clientes no país.

O aplicativo do serviço é compatível com aparelhos e tablets com sistema operacional Android. Em breve, outros sistemas operacionais também estarão disponíveis, segundo a Claro. Depois que os usuários baixam os arquivos dos livros, é possível ler mesmo sem acesso à internet.

Batizado de Claro Leitura, o serviço rivaliza com a Nuvem de Livros, do grupo Gol, que oferece acesso à sua biblioteca aos clientes da Vivo pelo preço de R$ 0,99 por semana. A diferença entre os dois é que o primeiro permite baixar arquivos e ler mesmo sem conexão com a internet, enquanto o segundo exige a conexão.

Editoras que participam do Claro Leitura:

– Zahar
– Caki
– Dracaena
– Dublinense
– Não Editora
– Outras Letras
– Grupo Oxigênio
– KBR
– Todo Livro
– Revan

Por Roberta Campassi | PublishNews | 14/06/2012

Livros via celular


Ainda em fase de testes, a biblioteca virtual Claro Leitura entrou no ar na quinta, sem nenhuma divulgação, no portal da operadora de celular.

O serviço de empréstimo de livros por download tem custo de R$ 3,99 por semana. O portal não permite ver os títulos disponíveis antes da assinatura, gratuita na primeira semana – a pequena KBR é uma das dez editoras participantes, via distribuidora Xeriph.

A Vivo investe em serviço similar, a R$ 0,99 por semana. Mas, como diz o nome – Nuvem de Livros -, só se pode ler on-line. Se cai a internet, é preciso parar a leitura.

Por Raquel Cozer | Folha de S. Paulo | 12/05/2012

Os donos do fogo


A biblioteca de empréstimos do Kindle incomodou o mercado ao relativizar a propriedade do e-book

Para o lançamento de seu mais recente tablet, o Fire, a Amazon encontrou um inesperado porta-voz na figura de Voltaire. Um anúncio de televisão, que resumia seiscentos anos de evolução do processo de publicação de forma a culminar com o Kindle Fire, foi embalado pela seguinte frase do escritor francês: “A instrução que encontramos nos livros é como o fogo [“Fire”]. Nós o buscamos nos vizinhos, o atiçamos [“Kindle”] em casa, o comunicamos com os outros, e ele torna-se propriedade de todos.

É talvez com propósito, ou com ironia, que a Amazon tenha escolhido uma citação que prega que os livros são “propriedade de todos”. Afinal, desde que o livro se tornou uma mercadoria física e estocável [mais ou menos no período de Voltaire], sabe-se que a “propriedade” de um livro divide-se entre quem o escreveu [propriedade intelectual, que seja], quem o comprou na livraria e, principalmente, quem o produziu, o detentor do copyright, a editora.

O lançamento da biblioteca de empréstimo do Kindle [Kindle Lending Library] conseguiu incomodar a todos os envolvidos — autores, agentes, editores, livrarias — ao relativizar a propriedade do livro eletrônico. Em resumo, é um sistema de assinatura, em que o leitor paga U$ 79 por ano e tem direito de baixar um livro por mês. Quando tiver lido, [ou desistir da leitura], o assinante pode baixar outro livro, e o anterior será apagado de seu Kindle. Os livros ficam brevemente em posse do leitor [no Kindle] — mas não são sua propriedade.

Um dos argumentos a favor da empreitada é a comparação com a bem-sucedida Netflix, empresa de assinatura de filmes que funciona nos mesmos moldes. Há de se considerar, porém, que o hábito de comprar filmes é bem recente. Começou com as fitas VHS nos anos 1980, passou para o DVD, e sempre conviveu com as locadoras. Já os leitores têm o peso da tradição de seis séculos de livros comprados e enfileirados nas estantes.

Assim, o que foi de fácil acepção pelo cinéfilo pode ser um choque para o leitor. A Amazon tenta anular ceticismos ao dizer que pagará às editoras, por livro “emprestado”, exatamente o que paga por livro vendido. Em resumo, ela “comprará” o livro da editora a cada vez que ele for “emprestado”. Na ponta do lápis, isso faz sentido, uma vez que uma assinatura anual de U$ 79 representa, no máximo, a venda de 12 livros ao custo unitário de U$ 6,58, o que, por sua vez, no modelo de distribuição com margem de 35%, significa preços de capa em torno de U$ 10 — não muito longe do patamar atual.

Mesmo com essa conta, as editoras continuam desconfiadas. Das grandes, somente a Houghton Mifflin Harcourt aceitou participar, porém “com oito títulos, para fazer um teste”. As Big Six, ainda ressabiadas com a pressão para abandonar o sistema de agenciamento, não querem nem ouvir falar em empréstimos.

Mais enfáticos são os agentes e escritores, que acusam a Amazon de “emprestar” livros sem a devida autorização, já que a prática não está prevista nos contratos com as editoras. A Guilda de Autores[organização de escritores] e a Associação dos Representantes de Autores [que reúne os agentes] querem que seja acordado, antes de tudo, um novo mecanismo de royalties — ou que sejam eles a negociar com a Amazon, não as editoras. [A fórmula de pagamento de direitos autorais também é uma questão a ser resolvida no projeto Nuvem de Livros, da Gol editora, como se viu em recente debate na Primavera dos Livros].

Negociação direta com os autores talvez seja exatamente o que quer a gigante de Jeff Bezos. Afinal, boa parte do que está disponível para empréstimo foi autopublicado, através das plataformas da Amazon para o escritor individual, Kindle Direct Publishing e Create Space. Outra parte veio dos selos próprios da Amazon, onde o acordo entre escritores foi fechado sem a intermediação de editoras tradicionais.

A estratégia de atrair o autor individual, no entanto, foi o que suscitou a reação mais colérica. E não foi entre as editoras tradicionais, mas entre plataformas de publicação, como a SmashWords. Tudo porque a Amazon acaba de lançar o KDP Select, um fundo de pelo menos U$ 6 milhões de dólares anuais para distribuir entre os autores que publicarem diretamente [leia-se: sem editoras ou agentes] na Amazon e liberarem seus livros na Lending Library. Pela regra, o bolo vai ser dividido entre os escritores na proporção que seus livros obtiverem no número total de empréstimos.

Considerando que, no momento, há cerca de cinco mil títulos, cada autor começa, potencialmente, com um quinhão de U$ 1.200. Segundo o próprio exemplo da Amazon, quem mantiver ao longo do ano meros 1,5% do número de empréstimos levará respeitáveis U$ 90 mil.

Mark Coker, em artigo inflamado no Huffington Post, alerta para graves riscos na iniciativa do KDP Select, e faz insinuações sombrias sobre as reais intenções da Amazon.

Aqui está a pegadinha. Na verdade, há muitos ardis no lista de Termos e Condições do programa. Alguns deles trazem implicações anticoncorrência e práticas anticomerciais. Assim que o autor inscreve seus livros no programa, ele não pode distribuir ou vender seu livro em qualquer outro lugar. Nem na Apple iBookstore, nem na Barnes & Noble, nem na Smashwords, nem na Kobo, nem na Sony — e sequer em seu blog ou site pessoal. O livro tem que ser 100% exclusivo da Amazon.

Segundo Coker, a intenção da Amazon é, em última análise, reduzir todos os papéis da indústria editorial para apenas três: os autores, os leitores e, entre eles, a Amazon. Nada de livrarias concorrentes, nada de editoras ou agentes, nada de sites de autopublicação. É o fim daquilo que ele chama de editoras e livrarias indie [independentes]. Dramático, o criador do Smashwords alerta que podemos estar nos encaminhando para uma versão editorial da Grande Fome da Irlanda, que, no século 19, matou um quarto da população morreu desnutrida depois que o país inteiro apostou em uma única fonte de alimentação: a batata.

Muitas páginas serão escritas, impressas e baixadas sobre o assunto, até que se estabeleçam as novas práticas comerciais e novos papéis. Iniciativas como a Amazon Lending Library e a Nuvem de Livros parecem indicar que o livro deixará de ser uma mercadoria para tornar-se um serviço, como a água ou a eletricidade. Pode-se apostar, porém, que, ao contrário do livro-fogo de Voltaire, o livro-Fire não será “propriedade de todos”.

Por Julio Silveira | Publicado originalmente em PublishNews | 22/12/

Julio Silveira é editor, fundador da Ímã Editorial e autor do blog AUTOR 2.0.

Com tablets, empréstimo de e-books é desafio para bibliotecas


Com a popularização dos tablets, o empréstimo de livros virtuais virou um desafio para as bibliotecas

Com a popularização dos e-readers [leitores eletrônicos] entre alunos, o empréstimo de livros nas escolas brasileiras passa por um processo de adaptação. Colégios públicos e particulares investem e incentivam o uso de tablets e similares, e os estudantes começam a se familiarizar com a leitura de textos virtuais em dispositivos portáteis. Mas como as bibliotecas estão lidando com essa nova plataforma de leitura? Na 15ª Bienal do Livro, no Rio de Janeiro, ocorrida no início de setembro, dois dias foram dedicados à discussão do papel da biblioteca no empréstimo de e-books, da democratização no acesso à leitura e dos desafios impostos com o surgimento de novas tecnologias, um cenário inimaginável há menos de duas décadas, quando existiam poucos aparelhos e eles ainda eram grandes e caros.

Conforme explica o presidente da Fundação Biblioteca Nacional, Galeno Amorim, há duas linhas principais em estudo que se apresentam como possibilidades para implantação de uma biblioteca para empréstimo de e-books no Brasil. “Uma delas, que vigora na Europa e nos Estados Unidos, indica o empréstimo de livros que são baixados e, depois de alguns dias, desaparecem do suporte utilizado, fazendo com que termine o prazo de uso. A outra se daria por meio do ciberespaço, da chamada ‘nuvem’. Dentro desse conceito, os livros ficariam em uma rede disponível a todos e o leitor não chega a baixar os arquivos. Neste caso, haveria a necessidade de pagar uma mensalidade para que o usuário acessasse as obras“.

Desde o último dia 5, a Gol Editora já disponibiliza uma biblioteca virtual no endereçowww.nuvemdelivros.com.br. “Temos dados que nos propiciam fazer uma biblioteca em nuvem no Brasil, e fazendo com que isso seja popular. O País é o terceiro mercado de computadores do mundo e tem a quinta maior planta de celulares, com mais aparelhos do que habitantes. Esses são fatores que favorecem a implantação de uma rede para a leitura virtual“, afirma Jonas Suassuna, presidente do grupo, que pretende disponibilizar seis mil obras a partir de outubro ao custo de R$ 0,99 por semana. Esse modelo, no entanto, não é unanimidade. “O Brasil é um muito País muito grande e com peculiaridades bem distintas em cada região. Creio que para alcançarmos a tão falada inclusão digital, o ideal seria que o empréstimo de livros virtuais fosse gratuito, como nas bibliotecas convencionais“, detalha a professora do curso de biblioteconomia da Universidade Federal de Brasília [UnB], Mônica Regina Perez.

Os piratas do Brasil – Segundo dados da Associação Brasileira de Direitos Reprográficos, quase 200 mil downloads ilegais de livros foram realizados no País nos últimos dois anos por meio de 50 mil links “alternativos”. “Na França, em 2010, o número de livros pirateados foi de, no máximo, 3%. Ou seja, existe segurança para que o empréstimo e a comercialização não sejam irregulares“, comenta Amorim. Sócia-proprietária do site de hospedagem e gerenciamento virtual de livros Alexandria Online, Raquel Mattes acredita que o download ilegal é “uma resposta ao preço caríssimo das obras“.

“Durante o governo Lula, os livros foram desonerados de qualquer imposto e, mesmo assim, os preços não baixaram. Esse tipo de pirataria só pode ser combatida quando tivermos preços acessíveis à população”, diz.

Para Suassuna, a utilização da nuvem seria uma forma de combater a pirataria, já que não é possível baixar o livro e, assim, não daria para copiá-lo. Livros na rede sem qualquer custo – Enquanto se discute a melhor forma de distribuição do conteúdo, projetos como o Domínio Público [www.dominiopublico.gov.br], do governo federal, que disponibiliza, por exemplo, a obra completa de Machado de Assis, e o Gutenberg [www.gutenberg.org], em inglês,  que busca a democratização da leitura por meio da distribuição gratuita de livros em formato digital, ganham espaço. Em ambos os casos, são colocados à disposição do internauta obras cujos direitos autorais já estão liberados para uso. Com uma proposta um pouco diferente, o Scridb [pt.scribd.com] se anuncia como “o maior clube do livro do planeta”. Nele, o leitor compartilha textos com outras pessoas e pode, assim como nos sites já citados, encontrar algumas obras de livre circulação. O problema segue sendo as obras “fechadas”, cujo interesse econômico por trás ainda vigora.

Empreste um livro para um amigo – Para esses casos, ainda existe a possibilidade de uma troca entre amigos, que segue viva nas plataformas virtuais. O mais popular leitor de e-books da atualidade, o Kindle, da Amazon, permite o empréstimo de livros virtuais desde novembro do ano passado. O processo é feito de um equipamento para o outro. O usuário que empresta fica 14 dias sem acesso à obra para que o amigo possa ler. Depois desse tempo, ela é bloqueada para quem pegou emprestado e “devolvida” ao dono. Processo muito semelhante a um empréstimo de um livro de papel.

Independentemente da postura adotada, o importante é procurar uma adequação às mudanças que a tecnologia impõe ao hábito de ler. “A biblioteca precisa buscar alternativas para se adaptar a esse processo. A tecnologia está disponível em qualquer lugar e a qualquer momento, e não necessariamente onde está a biblioteca. Logo, ela não pode mais esperar que o usuário vá até a instituição para buscar títulos ou realizar pesquisas, ela precisa ir onde o leitor estiver, disponibilizado obras raras e coleções exclusivas, para atrair o mesmo”, ressalta o professor de tecnologia da informação da Universidade Federal do Espírito Santo [Ufes], Antônio Luiz Mattos. A biblioteca da Ufes já começou a selecionar obras para compor seu acervo de livros virtual.

Terra Educação | 26/09/2011

Por R$ 0,99 por semana, brasileiro terá acesso à biblioteca digital


Projeto Nuvem de Livros foi apresentado no Bienal do Livro do Rio

Até 2020, todas as escolas brasileiras deverão ter uma biblioteca. Partindo da ideia de que existem quase 68 mil escolas no país e que 34% delas não têm nenhuma sala com livros, e ainda que o Brasil é o 3º país em número de celulares, o 5º em número de computadores, e que mais de 38 milhões já têm banda larga, Jonas Suassuna, do grupo Gol, viu aí uma oportunidade de negócio. Ele sabe das dificuldades envolvidas no cumprimento dessa diretriz governamental. Por que não construir, então, uma grande biblioteca digital?

Depois de três anos maturando a ideia, pesquisando, criando plataformas e pensando no conteúdo, a Gol Mobile apresentou sua Nuvem de Livros na Bienal do Livro do Rio. Com curadoria editorial de Antônio Torres e uma licença de uso semanal de R$ 0,99, o projeto conta com parceria de empresas como Telefônica, Vivo, Estadão, O Globo e Itautec, o que já dá, de saída, 82 milhões de clientes à biblioteca.

Os livros poderão ser lidos no computador, leitores digitais, tablets e celulares e a Gol criou seu próprio DRM para evitar a pirataria. O acesso amplo e simultâneo está garantido. “Tem que dar acesso geral. Se milhões de pessoas quiserem ler o mesmo livro ao mesmo tempo, elas vão ler”, comentou Suassuna. Hoje, a biblioteca conta com 3 mil títulos, e isso inclui 1.500 teleaulas fornecidas pela Fundação Roberto Marinho. Já o CCAA ficou responsável por todo o conteúdo em língua estrangeira.

Livros de 25 editoras como Moderna, Ediouro e seus selos, Conrad, A Girafa, Vermelho Marinho e outras também integram o catálogo. A forma de remuneração talvez seja a maior novidade do projeto. O fato de o livro estar na biblioteca já garante um pagamento à editora. Se ele for selecionado para ficar como destaque ou integrar coleções e ainda se for muito acessado, isso quer dizer que a editora ganhará um extra. Participar do projeto não é difícil. Se já tiver os livros digitalizados, tanto melhor. Se não tiver, a Gol cuida de convertê-los.

Outra novidade é que professores vão poder acompanhar a leitura dos alunos, conferir os livros pesquisados e saber se eles fizeram de fato o download da obra para embasar seus trabalhos.

Mas a Nuvem de Livros não foi pensada para ser usada apenas por alunos nas escolas; ela terá conteúdo para toda a família. A seu favor, Suassuna tem os apartamentos cada vez mais compactos. “Os apartamentos têm hoje, em média, 45 m2. Coloque uma estante de livros no meio disso tudo e falta espaço para a geladeira ou para a cama”, comentou.

Criamos um modelo para ganhar pouco dinheiro de muita gente”, comentou Suassuna, que não pretende resolver o problema da biblioteca pública no Brasil. “Se eu conseguir fazer os 82 milhões de usuários terem uma boa experiência com bons livros já posso ir embora dessa terra para as nuvens” brincou.

Essa conta que faz remonta ao número de clientes de seus parceiros. Por exemplo, todos os computadores da Itautec virão com a biblioteca digital. Os 80 milhões de usuários da Vivo terão 30 dias de acesso gratuito e depois, se quiserem, assinam o serviço por R$ 0,99 por semana. O mesmo vai acontecer com os clientes dos 25 países onde a Telefônica atua e os assinantes dos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo.

Esta é a segunda iniciativa na área de bibliotecas digitais feita por empresas que não são exatamente bibliotecas no Brasil. A primeira, Minha Biblioteca, acaba de firmar parceria com a Ingram e ainda está sendo formatada para em breve ser oferecida para universidades do país. A Nuvem de Livros deve chegar antes, já que a previsão de lançamento é para 1º de outubro.

Por Maria Fernanda Rodrigues | PublishNews | 08/09/2011

Empresa lança biblioteca virtual com mais de 6 mil títulos


Milhares de visitantes da Bienal do Livro, que acontece no Riocentro até domingo [11], saem do evento carregados de sacolas de livros comprados na feira. Mas chegando em casa, muitos deles enfrentam um outro problema: a falta de espaço para guardar as publicações.

O problema inspirou o empresário Jonas Suassuna, presidente da Editora Gol, a criar uma biblioteca virtual, em que uma variedade de títulos literários e didáticos fica armazenada na “nuvem”.

O resultado foi apresentado nesta terça-feira [6], na Bienal, a plataforma Nuvem de Livros, que começa a funcionar em outubro. A ideia é que o assinante possa acessar todos os títulos que quiser de seu computador, tablet ou celular por uma taxa fixa. O acesso à biblioteca pode ter um custo semanal, de R$ 0,99, ou mensal, de R$ 4.

O projeto nasceu há três anos como um sonho, e agora estamos entrando no ar”, conta Suassuna, que explica que o assinante não fará download dos livro digitais, mas fará a leitura online. “É como se a pessoa visitasse uma biblioteca e lesse os livros lá, sem levar para casa”, diz.
A biblioteca virtual já tem um acervo de cerca de 6 mil títulos, sendo metade deles de obras literárias, vindos das 50 editoras parceiras. Os livros incluídos no sistema por meio de digitalizador de publicações. Um dos equipamentos usados no projeto ficará em exposição no estande do projeto até o fim da Bienal, no próximo domingo [11].

O sistema também oferece vídeos, aulas de idiomas e manuais. “É um conteúdo diversificado, que também pode ser importante para os alunos de municípios que não têm bibliotecas e para os estudantes de universidades a distância”, afirma o empresário, que está aproveitando a Bienal para expandir seu acervo e fechar novos contrato com editoras.

Por Carla Meneghini | G1 | 06/09/2011