Brasil ganha mais dois concorrentes na gestão de metadados


CBL anuncia, na Bienal do Rio, a Books in print, ligada à Frankfurt; e Eduardo Blucher lança a ferramenta Mercado Editorial

Metadados: o nó no mercado editorial que começa a ser desatado | © www.mercadoeditorial.org

Metadados: o nó no mercado editorial que começa a ser desatado | © http://www.mercadoeditorial.org

Não raro, os colunistas do PublishNews apontam que um dos maiores gargalos do mercado editorial brasileiro é, ainda, a gestão de metadados. Em 2011, por exemplo, Camila Cabete escreveu: “publicar um livro sem metadados é como ter um filho e não dar nome ao coitadinho”. Em 2012, ao participar do debate “Dilemas e conflitos do mercado editorial”, na Bienal de SP, Felipe Lindoso creditou à falha gestão dos metadados o problema da “descobertabilidade”: “o livro brasileiro não é achado, é patético descobrir algo que você não conhece em uma livraria”. Mais recentemente, o colunista voltou ao assunto ao escrever, em março passado: “o pior é que as editoras brasileiras simplesmente mal sabem o que são metadados, não têm ideia de como incluir tags significativos do conteúdo de seus livros”. O assunto, então, deixou de ser apenas a pauta das discussões e passou a fazer as engrenagens do mercado rodarem. Do início de 2014, para cá, o PublishNews noticiou a chegada da Bookwire, que, além da distribuição, faz também a otimização de metadados, e a mudança no modelo de negócios da Digitaliza Brasil que também passou a prestar o serviço. Em 2015, noticiamos a criação da Ubiqui, plataforma que promete reduzir custos com metadados em até 70%. Mais recentemente, a Bookpartners lançou o Portal do Editor, ferramenta pela qual editores podem revisar e atualizar produtos já cadastrados no sistema da holding. Agora, para os próximos dias, duas novidades prometem dar mais força a esse mercado. É que, ainda em agosto, Eduardo Blucher promete colocar no ar o Mercado Editorial e, no dia 2 de setembro, a CBL e a MVB [empresa coligada à Feira do Livro de Frankfurt] anunciam a chegada do serviço Books in Print Brasil.

Os serviços têm em comum um painel de controle por onde editores fazem o upload das informações dos seus livros e as ferramentas padronizam conforme as necessidades de cada um dos varejistas. A Books in print Brasil leva a chancela da MVB, subsidiária da Associação de Editores e Livreiros Alemães, e tem mais de 40 anos de experiência na Alemanha. A vinda da empresa para o Brasil é fruto da parceria entre CBL e a Feira do Livro de Frankfurt, que apresentaram, no começo da semana passada, o projeto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social [BNDES]. O modelo de negócios da nova empresa no Brasil ainda está em discussão. Na Alemanha, editores pagam por títulos cadastrados e distribuidores, atacadistas e quem quiser os metadados pagam por uma assinatura que varia de acordo com o tamanho da empresa. Os principais clientes lá na Alemanha são: Amazon, Nielsen, GfK e Bookwire. “O trabalho conjunto da Feira do Livro de Frankfurt com a MVB, em parceria com a CBL, vai trazer para o Brasil a mais completa e moderna plataforma de metadados do mercado. Um grande diferencial que a nossa plataforma tem é o uso de algorítimos que garante uma inteligência ao nosso banco de dados. Isso mantém o padrão de entradas, o que dá mais qualidade ao metadado cadastrado”, afirma Ricardo Costa, representante da Feira do Livro de Frankfurt no Brasil. A previsão é que a empresa comece a operar dentro de um ano.

No caso da Mercado Editorial, o serviço de disparo de metadados será gratuito. Eduardo Blucher disse ao PublishNews que estuda cobrar por serviços avançados. “Optamos pelo modelo freemium nesse primeiro momento. Nem editoras e nem livrarias pagarão pelo serviço. Após lançada a plataforma, vamos testar com o mercado as formas de cobrar pelo serviço”, aponta. Blucher prevê o início das operações ainda no mês de agosto.

ISBN
O projeto da CBL prevê que o Books in print seja, além de uma plataforma de gestão de metadados, também a entrada nos cadastros de ISBN no Brasil. Caso o projeto ande, as editoras farão o input dos dados pela plataforma que se responsabilizará pela inscrição dos metadados na Biblioteca Nacional. “É assim que funciona na Alemanha. É uma experiência já consagrada”, aponta Luis Antonio Torelli, presidente da CBL. Outros projetos já foram iniciados pela Câmara, mas sem grandes sucessos, lembra Torelli. “Há alguns anos, os espanhóis cederam uma plataforma que acabou não funcionando. Abandonamos o projeto. A obsolescência de projetos assim é muito grande. A atualização constante do serviço está no DNA da empresa alemã. A pergunta que devemos nos fazer é: vamos continuar tentando ou vamos partir para uma experiência já consagrada? Não podemos errar de novo”, define Torelli.

O Books in print será apresentado oficialmente no dia 2 de setembro, das 15h às 17h30, no Hotel Grand Mercure [Av. Salvador Allende, 6.555 – Rio de Janeiro/RJ]. Na ocasião, Ronald Schild, CEO da MVB, vai apresentar a ferramenta. Segundo disse Torelli ao PublishNews, o CEO fará também uma reunião com a Fundação Biblioteca Nacional para apresentação do projeto e das possibilidades de integrar a plataforma ao serviço de cadastro do ISBN. Para a apresentação do dia 2, é necessário confirmar presença pelo e-mail eventos@cbl.org.br até o próximo dia 28.

Por Leonardo Neto | Publicado originalmente em PublishNews | 24/08/2015

Vendas de tablets crescem 400% no país


O interesse do consumidor brasileiro por novas tecnologias é bem conhecido, mas um levamento recente da empresa de pesquisa Nielsen, antecipado ao Valor com exclusividade, mostra o quanto essa avidez pode surpreender: no primeiro semestre, as vendas de tablets no país cresceram 400% em número de unidades em relação ao mesmo período do ano passado – um volume elevado, mesmo considerando a relativamente modesta base instalada. No segmento de smartphones, mais disseminados entre o público, as vendas aumentaram 121%. Os números da Nielsen medem exclusivamente os dispositivos vendidos no varejo, o chamado “sell out”. Não entram na conta aparelhos oferecidos por operadoras de telefonia diretamente a seus clientes.

Por Gustavo Brigatto | Valor Econômico | 12/08/2013

Ficção digital irá ultrapassar livros de bolso em 2014 no Reino Unido


De acordo com seu relatório “Entendendo o consumidor de e-book” de julho, a Nielsen estima que ano que vem as vendas de ficção chegarão a 47 milhões de unidades, umas 300.000 à frente dos livros de bolso, e representarão 48% do total de vendas de ficção. Contudo, como o preço médio de um e-book é menos de 3 libras, comparado a 5,5 libras do livro de bolso, o valor das vendas de e-book em 2014 alcançarão apenas 32% do total de ficção. Segundo a Nielsen, uma menor receita da venda de e-books não é a única preocupação para editoras. Receitas de vendas de livros impressos estão caindo também. “Estamos prevendo que o valor total do mercado de ficção cairá 16% este ano, e mais 4% em 2014”, afirma o relatório.

Por Philip Jones | The Bookseller | 24/07/2013

Novo capítulo


Chegada dos livros eletrônicos da Amazon e do Google Play abre nova fase na venda de conteúdo digital. Mas o Brasil está preparado?

SÃO PAULO | Os livros digitais ou e-books chegaram de vez ao Brasil, país que não só ainda tem uma baixa penetração de e-readers e tablets como também índices baixíssimos de leitura. Amazon, Google, Apple e Kobo estão ansiosos para ver suas lojas virtuais jorrando livros digitais, mas há dúvidas sobre se ou quando isso realmente acontecerá.

O brasileiro em geral lê pouco. Mas a gente pode atingir um novo público atraído pelo digital”, diz Fabio Uehara, responsável pelos negócios digitais da Companhia das Letras. “Se não tem tantas livrarias quanto se deveria, agora com um ponto de internet e um tablet ou e-reader é possível comprar qualquer livro, e tanto faz se estou em São Paulo ou no Oiapoque.

Kindle | FOTO: Helvio Romero | Estadão

Kindle | FOTO: Helvio Romero | Estadão

As livrarias estrangeiras levaram mais tempo para chegar do que o planejado e chegaram com preços não tão baixos quanto o esperado.

Boa parte da responsabilidade é das editoras. Elas se debruçaram sobre os imensos contratos, refizeram alguns acordos mais antigos com autores [de quando não se previa o formato digital], bateram o pé para o preço não ser menor do que 70% do valor do livro físico e demoraram para aprender a converter seu catálogo da forma correta.

Acho que as editoras brasileiras foram muito espertas ao negociar com esses players internacionais”, diz Edward Nawotka, editor do site Publishing Perspectives, especializado no setor. “Elas conseguiram obter contratos de vendas realmente decentes da Amazon. Problemas podem surgir se a Amazon adquirir muita fatia de mercado, então eles passarão a exercer pressão sobre as editoras por acordos melhores para eles, como aconteceu nos Estados Unidos.

Por aqui, a Associação Nacional das Livrarias também se arma. Em uma carta aberta, ela defendeu que lançamentos demorem 120 dias para chegar ao digital. “É bom que o livro digital venha, mas é importante que as livrarias sobrevivam”, diz o vice-presidente da ANL, Augusto Kater. A medida, para a presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros, Sônia Machado Jardim, só incentivaria mais a pirataria que, para ela, é o “maior inimigo”. “Se o livro que estiver bombando não estiver no digital, as pessoas vão escanear e lerão do mesmo jeito.

Na questão do preço, o Brasil seguiu uma espécie de convenção internacional que limita em 30% o desconto do livro físico para o digital. Isso garante competitividade ao papel, mas não anima o consumidor.

Para analistas, o mercado de e-books deverá ficar restrito a um pequeno público, composto basicamente de pessoas de renda mais alta e que já tenham tido contato com dispositivos móveis de leitura. “Quem compra livros impressos hoje, com preços médios de R$ 50, não terá dificuldade em adquirir e-readers”, diz Gerson Ramos, consultor de mercado editorial para a Nielsen e para a Fundação Biblioteca Nacional. “Estamos falando de um poder aquisitivo bem maior do que a média – grande parte inclusive já possui tais aparelhos.

Ramos diz ainda que o e-reader da Amazon oferece os melhores preços de e-books no Brasil – mas tem limitações. “O Kindle, por ser um aparelho de uso exclusivo tende a ter um alcance menor, pois além de tudo, ele não permite outras funcionalidades além da leitura de e-books.

Há quem aposte no fracasso dos e-readers [que tiveram suas vendas reduzidas em 75% entre o fim de 2011 e o início de 2012] diante dos tablets. Além de serem multifuncionais, os aparelhos estão ficando mais baratos – caso do Kindle Fire e do Google Nexus 7, com preço inicial de US$ 200 – e não demoraram para aterrissar por aqui.

Sai ganhando o aparelho mais amigável e o que oferecer conteúdo mais barato. A Livraria Cultura e seu Kobo, Google e Apple aceitam ler e-books de outras empresas [basta baixar o respectivo aplicativo]. Resta saber se Kindle, restrito apenas ao formato da Amazon e preço de R$ 300 no Brasil, terá aqui a mesma adesão que tem lá fora.

Estantes

Por Murilo Roncolato | Publicado originalmente em LINK | 9 de dezembro de 2012, às 19h21

Japão e Brasil: universos digitais paralelos


Por Greg Bateman | Publicado originalmente em Publishnews | 06/06/2012

A relação centenária entre o Brasil e o Japão me intriga. Curiosamente, fiz meus primeiros amigos brasileiros em solo japonês, quando eles trabalhavam em uma das primeiras gerações de telas planas de TV da Sharp. Acho que podemos olhar para o Japão para aprender com os desafios do passado e ter uma ideia sobre o presente e o futuro dos e-books no Brasil. Você talvez ache esse paralelo surpreendente.

O passado

O medo, no Japão, de uma ruptura da indústria editorial retardou o crescimento daquele que poderia ser um enorme mercado para os e-books.

Aproveitando o status privilegiado que têm no varejo, as editoras japonesas controlam de perto o preço final de venda dos e-books. Além disso, elas determinam o desconto [em torno de 30%] e o posicionamento das edições digitais. Os leitores, portanto, não se beneficiam de ofertas e promoções de produtos que poderiam ser feitas pelas livrarias criativas.

Se, de um lado, a tecnologia do e-book surgiu no Japão cerca de 20 anos atrás, de outro existem menos de 50 mil e-books em japonês – é menos do que o número de títulos lançados no país em formato impresso em um único ano. Essa lacuna digital abriu espaço para que algumas empresas bastante astuciosas escaneiem e disponibilizem ilegalmente conteúdo impresso – uma prática chamada de jisui [fazer sua própria comida]. Vamos rezar para que os piratas brasileiros se tornem organizados desse jeito e transformem seu hobby em um negócio.

Uma ação coletiva por parte das 13 maiores editoras do país, que constituiu uma forte aliança de distribuição, está bloqueando a entrada de inovadores digitais estrangeiros. Acho esse espírito nacionalista de “vamos fazer aqui mesmo” muito admirável. No entanto, uma aliança tende a se concentrar mais em ações defensivas do que no desenvolvimento de algo novo, e, assim, não apenas os leitores estarão impedidos de acessar o conteúdo que desejam, como os piratas vão deitar e rolar.

O presente

As plataformas de leitura eletrônica ainda não atendem as necessidades do mercado local, retardando a adoção do e-books.

Embora eu tenha muito orgulho do meu trabalho com o Kindle e outros e-readers E-Ink, eu sou o primeiro a dizer que eles não são para todo mundo. Eles são muito grandes e não servem pra quem se espreme em trens a caminho do trabalho ou para as leitoras que carregam bolsas pequenas. E, no Brasil, com os preços de hoje, dispositivos dedicados exclusivamente à leitura são inacessíveis para todo mundo, com exceção dos aficionados por tecnologia endinheirados. Talvez você ache interessante saber que os smartphones e até os feature phones são a principal plataforma de leitura digital no Japão. O argumento de que os e-books exigem um aparelho dedicado, portanto, é discutível.

Outro aspecto a considerar é que a maneira única como os japoneses leem – de cima para baixo, da esquerda para a direita – torna simplesmente impossível importar plataformas pensadas para o leitor do inglês. Da mesma forma, o hífen é um problemaço em português. Quem desenvolve as plataformas precisa enfrentar essas questões complicadas relacionadas aos idiomas.

Como ressaltou Jonathan Newell, da Nielsen, durante o Congresso CBL do Livro Digital, em maio, o gênero romance é de longe o que motiva a adoção do e-book nos mercados americano e inglês, especialmente. Mas não para os japoneses: lá, os mangás geram 25% da receita editorial total e 75% da receita com digital. No Brasil, algo me diz que o segmento educacional poderá ser a galinha dos ovos de ouro.

O futuro

Porque o conteúdo deveria ficar limitado a telas monocromáticas de seis polegadas? O conteúdo vai estar acessível aos leitores sempre que eles quiserem consumi-lo. Para além do ecossistema fechado que a Amazon desenvolveu com o Kindle, há muita gente trabalhando em plataformas em nuvem para permitir que as pessoas acessem suas bibliotecas de smartphones, de tablets e, não se esqueça, de PCs. As soluções criadas em HTML5 significam que qualquer dispositivo com um navegador pode se transformar num e-reader.

O conteúdo vai ser “petiscável”. Quando eu tenho tempo, adoro sentar no parque do Ibirapuera ou na praia de Ipanema para ler devagar um bom romance. Mas nove em dez vezes minha experiencia de leitura está limitada a uma corrida de táxi de 20 minutos [ou às vezes 60, em São Paulo]. Os japoneses foram pioneiros no conceitos de “aperitivos” de conteúdo – uma nova experiência que pode ser digerida numa rápida viagem de ônibus para o trabalho, por exemplo. Com a obsessão dos brasileiros por pedacinhos de conteúdo no Twitter ou no Facebook, algo me diz que esta poderia ser uma receita de sucesso no país.

Os livros ilustrados também vão vir com força. Ao focarem no patrimônio nacional dos mangás, os japoneses inventaram soluções criativas para visualizar esse rico conteúdo em formato digital. Espere ver livros para crianças, conteúdo educacional e guias ilustrados incríveis iluminando as telas no Brasil e em todos os lugares do mundo.

Para navegar nesse mar de mudanças trazidas pelo e-book, precisamos olhar para fora. Mas o invés de mirarmos os Estados Unidos, nós no Brasil podemos aprender mais ainda com nossos amigos de longa data lá no Japão.

Greg Bateman

Greg Bateman

Por Greg Bateman | Publicado originalmente em Publishnews | 06/06/2012

Greg Bateman, expert em tecnologia e empreendedor do negócio de e-books, é conhecido pelo seu envolvimento na criação de produtos extremamente bem-sucedidos, como os smartphones da Samsung e o Kindle, da Amazon. Na Vook, ele desenvolveu uma eficiente cadeia de produção de centenas de e-books por semana. Greg, que nasceu nos Estados Unidos, viveu nove anos no exterior, onde intermediou várias parcerias envolvendo Coreia, China, Japão e EUA. Hoje mora no Brasil, em São Paulo. Ele é pesquisador visitante da Universidade de Tóquio, tem duas graduações pela Universidade da Califórnia em Berkeley [engenharia elétrica/ciência da computação e literatura japonesa] e um MBA pela Columbia Business School.

A coluna E-Gringo discute a fundo o negócio e o lado técnico dos e-books a partir de uma perspectiva global. Às quartas-feiras, quinzenalmente, ela vai apresentar plataformas e tendências do mundo todo e, claro, do Brasil. Para enviar comentários, escreva para greg@hondana.com.br .

Brasil e Índia no caminho da rápida adoção dos livros eletrônicos


Por Felipe Lindoso | Publicado originalmente em PublishNews | 15/05/2012

O 3º Congresso do Livro Digital, organizado pela CBL, revelou-se melhor que os dois primeiros em um ponto fundamental: um número menor de vendedores de apps e programinhas, que compareciam menos para demonstrar tendências e mais para propor a venda de serviços para os tupiniquins embasbacados pelas novidades, o que geralmente não conseguiam, porque o pessoal daqui é desconfiado e muquirana.

Ainda assim, a mesa “Inovando suas publicações com aplicativos” foi um exemplo lamentável desse tipo de coisa. O único interessante, que apresentou a Nuvem de Livros, poderia ter servido de pano de fundo para um debate importante: o interesse por “conteúdo grátis”, que é turbinado pelas telefônicas e pelos provedores de serviços da internet, para os quais quanto mais tráfego O 3º Congresso do Livro Digital, organizado pela CBL, revelou-se melhor que os dois primeiros em um ponto fundamental: um número menor de vendedores de apps e programinhas, que compareciam menos para demonstrar tendências e mais para propor a venda de serviços para os tupiniquins embasbacados pelas novidades, o que geralmente não conseguiam, porque o pessoal daqui é desconfiado e muquirana.

Provocado pelo “grátis” ou pelo menos “baratinho” é importantíssimo. Eles cobram pelo tráfego de informação através de seus sistemas, e quanto mais nós contribuirmos com conteúdo grátis, melhor para eles. Isso merecia uma discussão. Mas os outros dois “palestrantes” dessa mesa, que foi o ponto mais baixo do evento, eram apenas patéticos vendedores que pareciam nem saber que tipo de pessoas compunha a plateia.

As duas palestras mais interessantes do Congresso foram, na minha opinião, as de Jonathan Novell, da Nielsen, e a de Kelly Gallagher, da R.R. Bowker. Foi uma fantástica oportunidade de ver, na prática, como os metadados constituem, hoje, um elemento essencial para que a indústria editorial possa cumprir seu papel de entregar os livros a seus leitores.

Jonathan Lowell, da Nielsen, foi o primeiro. A Nielsen é uma empresa internacional de coleta e análise de dados de mercado. Há alguns meses, Roberto Feith, do SNEL, anunciou que havia tratativas para que a empresa instalasse no Brasil o seu sistema de rastreio de vendas on-line de livros, o BookScan [eles têm sistemas semelhantes para outros produtos de varejo], e nossa colega Roberta Campassi, depois da palestra, soube que ele confirmou que isso acontecerá até o fim do ano.

Alvíssaras. Poderemos ter dados confiáveis, pelo menos sobre as vendas de varejo, já que pesquisa de produção editorial da CBL/SNEL ficou comprometida com a apresentação de dados diferentes para o mesmo ano. Ao que tudo indica, pelo menos no que concerne às vendas no varejo, poderemos ter dados confiáveis.

O BookScan registra em tempo real as vendas nas empresas de varejo [e bibliotecas, para empréstimo], que aceitem instalar o sistema. Permite aos editores saber, em tempo real, onde foi vendido cada um dos livros, a que horas, qual o cartão de crédito usado, as condições de venda, se o comprador faz parte de programas de fidelização e coisas do estilo. Mas, como Lowell chamou atenção, esses dados por si só ainda fornecem “poucas” informações. A análise se enriquece geometricamente se os livros contiverem metadados enriquecidos, de modo que as tendências na compra de cada exemplar possam ser agrupadas de maneira efetiva por gêneros, e cruzadas com outras variáveis. Para informações mais abrangentes sobre o BookScan, veja http://migre.me/956Sm .

Os instrumentos proporcionados pelo BookScan só serão úteis se os editores aprenderem a “mastigá-los”, de modo a permitir uma tomada de decisão bem fundamentada. Os dados não decidem o que fazer, mas permitem que sua análise informe quais as opções que melhor se adequam a cada editora, a cada momento. As livrarias, por sua vez, passam a dispor não apenas dos dados provenientes de suas vendas, mas podem comparar desempenhos de títulos e gêneros em outras regiões, em outros tipos de varejo etc.

São todas informações que devem ser trabalhadas. O que, infelizmente, nem editores nem livreiros andam muito habituados a fazer, salvo as famosas e honradas exceções.

No âmbito da análise de dados a partir do comportamento dos consumidores, a palestra de Kelly Gallagher abriu outras perspectivas.

Gallagher trabalhou com um conjunto de dados proveniente da uma pesquisa recém terminada em abril passado, o Global eBook monitor all country comparison – Final report. Usou também, como exemplo, um relatório do PubTrack, o sistema que analisa casos específicos.

O primeiro relatório terá sua versão sintética, referida a dez países [Austrália, Brasil, França, Alemanha, Índia, Japão, Coreia do Sul, Espanha, Reino Unido e EUA] disponível gratuitamente para download em breve aqui. Mas avisou: o relatório específico sobre o Brasil, só vendido. Lição para os editores: informação aparentemente custa caro, mas vale muito quando se aprende a usá-la.

O relatório sobre tendências globais para o consumo de livros eletrônicos mostrou as razões do interesse da Amazon no mercado brasileiro, e que são as mesmas pelas quais eventualmente teremos mais editoras internacionais querendo pescar uma fatia desse mercado. A pesquisa mostra que 18% dos consumidores já haviam adquirido pelo menos um livro eletrônico nos seis meses anteriores à pesquisa, e que esse índice tenderia a triplicar em curto prazo. Outro ponto interessante mostra que, nos mercados mais “maduros” [Reino Unido e EUA, por exemplo], as mulheres, e mais velhas, compram mais e compram mais ficção. Nos mercados “emergentes”, como no Brasil e na Índia, são os homens, e de uma faixa etária mais baixa, e há grande interesse pelos livros da área técnico-científica e profissional. É mais fácil se atualizar na área técnica via livros eletrônicos.

Segundo o relatório, os Estados Unidos, Austrália e Reino Unido são os países com os maiores índices de adoção de e-books, mas a Índia e o Brasil são os que apresentam as melhores condições para um rápido crescimento. A combinação da análise das porcentagens com o tamanho da população [e o ambiente econômico geral] é que coloca o Brasil e a Índia na ponta de lança do crescimento numérico de e-books a curto prazo.

O outro componente dessa equação será a disponibilidade de e-readers mais baratos, se a Amazon e a Kobo conseguirem colocar seus aparelhos por volta de R$ 200.

Vale mencionar um aforismo do Ed Nawotka, o editor da Publishing Perpectives há alguns meses: livro pirateado é o que não foi lançado em condições adequadas. Eduardo Melo, da Simplíssimo, que participou em outra mesa no Congresso, também afirmou que, se os editores não ocuparem o espaço, os livros pirateados irão atender a essa demanda.

No segundo relatório Gallagher mostra um dos trabalhos feito sobre encomenda, no caso sobre livros de cozinha. A pesquisa parte do fato de que as vendas de livros de cozinhas [nos EUA] estavam em queda. Mas a análise dos dados desagregados por grupos geracionais mostrava que uma determinada faixa etária se comportava de maneira diferente, comprando cada vez mais livros de cozinha. Resultado: produção de material para aquela faixa etária pelo editorial; marketing voltado para o grupo; comercialização em pontos de venda frequentados pelo grupo etário. Essa análise foi possível combinando informações de diferentes fontes, desde as pesquisas da própria R. R. Bowker sobre comportamento de consumidores, até os dados do BookScan.

Editar é uma arte, mas é uma arte que pode e deve ser informada pelo conhecimento científico. Saber quem são e onde estão os consumidores é algo que se torna cada vez mais crucial para que os leitores achem os livros que querem, e o editor possa lhes oferecer esses produtos. Mas recuperar essas informações de modo inteligível, de modo a poder analisá-las e tomar decisões informadas exige um pré-requisito: que os livros que circulam na web – não apenas os livros eletrônicos, mas todos os livros, cujas operações de compra e venda acabam registradas na Internet – estejam acompanhados desse “recheio” fundamental: os metadados.

Por Felipe Lindoso | Publicado originalmente em PublishNews | 15/05/2012

Felipe Lindoso

Felipe Lindoso é jornalista, tradutor, editor e consultor de políticas públicas para o livro e leitura. Foi sócio da Editora Marco Zero, diretor da Câmara Brasileira do Livro e consultor do CERLALC – Centro Regional para o Livro na América Latina e Caribe, órgão da UNESCO. Publicou, em 2004, O Brasil pode ser um país de leitores? Política para a cultura, política para o livro, pela Summus Editorial.

A coluna O X da questão traz reflexões sobre as peculiaridades e dificuldades da vida editorial nesse nosso país de dimensões continentais, sem bibliotecas e com uma rede de livrarias muito precária. Sob uma visão sociológica, este espaço analisa, entre outras coisas, as razões que impedem belos e substanciosos livros de chegarem às mãos dos leitores brasileiros na quantidade e preço que merecem.

Nielsen mais perto de lançar o BookScan no Brasil


Presidente da empresa diz que já há contratos fechados com livrarias nacionais para coletar informações sobre vendas de livros

A Nielsen está mais próxima de implementar o BookScan no Brasil, o serviço da companhia que levanta dados sobre vendas de livros e já é usado em vários países, disse o presidente da Nielsen Book, Jonathan Nowell, em entrevista ao PublishNews. Segundo o executivo, que proferiu uma palestra no primeiro dia do Congresso CBL do Livro Digital, a empresa já fechou contratos com algumas livrarias brasileiras e está em negociação com outras para começar a coletar informações sobre o mercado nacional. “Ainda não temos uma data para lançar o BookScan aqui. Mas na Índia, por exemplo, que é um mercado mais complexo e desorganizado que o brasileiro, implementamos [o serviço] em seis meses”, afirmou Nowell.

O acesso às informações coletadas pela Nielsen é pago. Além de congregar os dados dos pontos de venda, o serviço permite fazer análises do mercado por gêneros, períodos de venda, regiões geográficas etc. O BookScan já existe em países como EUA, Reino Unido e Austrália, além de Índia e na China, países onde foi implementado mais recentemente.

Nowell falou no congresso da CBL sobre “Vendas globais de livros e a importância dos metadados”, e mostrou números para comprovar que quanto mais dados uma editora disponibiliza sobre seus títulos, mais as vendas sobem. Segundo o levantamento apresentado por ele, editoras que passam a fornecer dados completos – conforme o padrão da Book Industry Communications, há onze dados básicos, como título, imagem de capa, disponibilidade e ISBN, e quatro “aprimorados”, ou “enhanced” – aumentam em 35% suas vendas “offline”, fora da internet, e em 178% as vendas on-line. “Quanto mais ricos os metadados on-line, mais vendas, porque a informação melhora muito a descoberta dos livros na internet”, disse. O estudo completo da Nielsen sobre o tema pode ser acessado aqui.

Por Roberta Campassi | PublishNews | 10/05/2012