PublishNews entrevista CEO da Kobo


Acreditamos que será uma transformação para os próximos 25 anos”, conta Michael Serbinis

Michael Serbinis | Foto Divulgação

Michael Serbinis | Foto Divulgação

Na Feira de Frankfurt, o CEO da Kobo, Michael Serbinis, deu uma entrevista exclusiva ao PublishNews Brazil. Ele falou sobre como é ser uma start-up global, sobre a parceria com a Livraria Cultura, os aparelhos da Kobo e os planos futuros da empresa para plataformas de autopublicação. A Kobo quer, por exemplo, integrar no futuro o Writing Life, sua plataforma de autopublicação, a serviços de impressão sob demanda, permitindo que os autores tenham versões impressas de seu trabalho. Michael também falou sobre a importância de investir em boas parcerias quando a empresa não tem recursos inesgotáveis.

PublishNews Brazil | Como está sendo o processo de lançamento no Brasil?

Michael Serbinis | É muito mais fácil hoje do que era há 3 anos, quando éramos uma empresa nova, porque agora já fizemos isso algumas vezes. Realmente, criamos um modelo com a WH Smith, a FNAC, a Mondadori na Itália, indo de Portugal ao Japão. Mas ainda é uma decisão importante. As livrarias estão em processo de transição e isso é uma longa transformação. Depois da falência da Borders nos EUA, muitas pessoas pensaram: “A transformação digital vai nos destruir”. Não é o caso. Trabalhamos duro na formulação dos nossos acordos de parcerias e na maneira como nos organizamos, para ter certeza de que será uma situação onde as duas partes ganham.

PNB | Vocês tiveram que se adaptar em cada país?

MS | O que sempre acontece é que nós falamos como fizemos as coisas em outros 15 países, e as livrarias dizem que querem fazer de forma diferente. Então, discutimos um pouco no começo, mas no final quase sempre terminamos com o mesmo padrão usado nos outros países. Não é complicado, nós só comparamos nossas forças. Veja, eu acredito, como cliente de livrarias, que uma das melhores coisas que elas podem fazer é criar uma experiência que as pessoas queiram ter. Não vou a livrarias só porque quero comprar um livro. Vou lá porque gosto da experiência, e levo meus filhos também. Então comparar a força delas à nossa é algo muito importante.

PNB | Por que o Brasil é uma prioridade para a Kobo?

MS | Começamos esta empresa querendo ser a número um no mundo. É uma longa transformação, e se eu não fizer mais nada na minha vida, isso terá sido suficiente. Então, para ser o número um no mundo, é preciso ser o número um em alguns países importantes. Quando a empresa começou, tínhamos uma parceira nos EUA, mas infelizmente a Borders, por muitas outras razões, faliu.

Então quais são os países onde podemos construir uma massa crítica? Japão, Reino Unido, alguns países europeus. E acreditamos que o Brasil está na lista dos top dez. A Rakuten também acredita que o Brasil é central – eles compraram a Ikeda. Então o Brasil é importante, e é importante começar agora. Porque também sabemos que ser uma empresa pequena tem suas vantagens – não temos a maior conta bancária, mas somos os mais rápidos.

PNB | Qual é a vantagem de ser a primeira a chegar ao Brasil?

MS | Ser o primeiro em um mercado é importante se você tiver conteúdo, se tiver um ecossistema completo. Sem isso, é irrelevante. Ser o primeiro com a experiência completa é algo que estamos tentando fazer sempre. Certamente, vamos fazer isso no Brasil. Acertar os métodos de pagamento é quase tão importante quanto ter o conteúdo correto. Isso é difícil porque bancos e seus sistemas de pagamentos não são tão ágeis.

PNB | Por que escolheram a Livraria Cultura como parceira no Brasil?

MS | Essa decisão tem a ver com quais livrarias achamos que estão comprometidas e conseguem criar uma excelente experiência. O que concluímos é que, no período que queríamos inaugurar, a Livraria Cultura tinha todo o compromisso e pode criar uma boa experiência; não só no Brasil, ela também pode ser um exemplo para outros países. Estamos muito animados com eles.

PNB | Como veem o futuro desta parceria com a Cultura?

MS | Você sabe como funciona nosso modelo no Reino Unido, com a WH Smith, mas também com a British Booksellers Association. Estamos juntos nessa para ganhar no mercado, é como pensamos. No Reino Unido, certamente ter 1.100 lojas da WH Smith é algo muito valioso. Mas ter outras mil lojas de diferentes redes, com a exceção das duzentas lojas da Waterstones, é algo valioso não só para nós, como também para a própria WH Smith. Achamos que podemos fazer, provavelmente, a mesma coisa no Brasil com o tempo.

PNB | Como você acha que os brasileiros vão reagir aos aparelhos Kobo, especialmente os e-readers dedicados?

MS | Os e-readers dedicados que foram lançados no mercado brasileiro ou são muito caros, ou não são muito bons. Ouvi isso no Japão antes. As pessoas diziam: “Bom, você sabe, o mercado japonês, com toda sua tecnologia, vai ser da Sony e da Panasonic, tem mais a ver com tablets coloridos, aparelhos multiuso.” Mas não estamos vendo isso. Estamos vendo, essencialmente, que entre os leitores no mundo inteiro, há os que leem muito, e estes preferem e-ink. E é duro ganhar do o e-ink em termos de vida de bateria, portabilidade, durabilidade e como ele é leve quando se está lendo na cama.

No entanto, acredito que cor é imprescindível no longo prazo. As livrarias não vendem mais livros em preto e branco. Na maioria das livrarias, cerca de 20% das vendas são de livros infantis, às vezes até 25% ou 30%. E qual a porcentagem de HQs, livros de gastronomia e revistas? Então, para criar uma grande experiência para o conteúdo colorido, sentimos que precisávamos ter nosso próprio aparelho colorido. Então desenvolvemos o Kobo Arc, que estará chegando nas lojas em novembro. E, ao contrário de alguns dos nossos concorrentes, não paramos de desenvolver apps para outros aparelhos. Escolha uma empresa e veja quando foi a última vez que lançaram algo. Nós atualizamos todo mês, construímos a experiência HTML5 para tablets, continuamos a desenvolver apps para android, diversos idiomas, temos suporte para conteúdo de layout fixo. E em relação aos aparelhos, achamos que há espaço para os dois.

PNB | Toda a família Kobo estará disponível no Brasil?

MS | Essa é a nossa intenção. Trabalhamos com todos os parceiros para criar a estratégia mais adequada para eles. Por exemplo, acabamos de entrar na Itália com a Mondadori, e eles estão levando toda a linha. Lançamos no Japão somente com o Touch, estamos trabalhando para introduzir outros aparelhos ali.

É realmente caro ser uma jovem start-up global, mas descobrimos uma forma de fazer a coisa funcionar e ser global desde o começo. Portanto, quando anunciamos novos aparelhos, geralmente estamos prontos para enviá-los em até 4 semanas a todos os lugares onde fazemos negócios. Estamos prontos, então é questão de decidir, junto com nossos parceiros, quando é o momento certo de introduzi-los no mercado.

PNB | O governo brasileiro acabou de comprar 600 mil tablets. O que você pensa das compras governamentais de aparelhos, especialmente para crianças e estudantes?

MS | Honestamente, achamos que isso é muito importante. Uma coisa que realmente tem sido uma mudança é que, até agora, a maioria do mercado foi de consumidores através do varejo. E isso está mudando. Uma coisa que tem nos animado muito é a possibilidade de alcançar crianças e escolas, e isso é algo totalmente diferente. Por exemplo, o governo turco está estudando comprar 18 milhões de tablets. Uau! Isso muda completamente qualquer empresa que conseguir uma relação dessa, pode até quebrá-la.

Nosso novo lançamento de aparelhos inclui o Kobo Mini, por algumas razões. Uma delas é o preço, que é importante para o consumidor, para pessoas que são mais preocupadas com o custo e para pessoas mais ativas – elas precisam de algo que caiba no bolso. Mas a outra razão são as crianças. Tenho 3 filhas: estão agora começando a ler livros. Elas têm acesso a iPads em nossa casa, mas não leem neles, só assistem a filmes e ao Youtube. O Kobo Mini cabe nas mãos da minha filha, ela pode segurar com facilidade. E quando você vê a experiência de uma jovem menina segurando seu Kobo Mini e virando as páginas, lendo alguns capítulos antes de dormir, parece a coisa mais natural do mundo.

PNB | Então se os e-readers forem isentos de impostos no Brasil, será ótimo para a Kobo.

MS | Uma das coisas que precisamos enfrentar em todo o mundo são as diferentes regras de alfândega e impostos. Acreditamos que tratar um e-reader como um tablet de 500 dólares não faz sentido, enquanto que tratá-lo mais como um livro, acreditamos, é uma boa solução.

PNB | E o Writing Life, a plataforma de autopublicação da Kobo? Há planos para levá-la ao Brasil?

MS | Acabamos de anunciar o Writing Life em outras línguas. Do jeito que está agora, autores de 80 países, de 20 ou 30 idiomas diferentes, colocam seus livros na Kobo. Então, vamos tornar a plataforma disponível em novos idiomas como francês, espanhol, alemão, português e holandês, e vamos continuar a desenvolvê-lo. Mas, pensando na evolução de uma parceria em um país, tudo começa com o lançamento. É algo difícil, mas na verdade é a parte mais fácil. A prioridade é aprender juntos como construir o mercado – porque é o que estamos realmente fazendo; estamos descobrindo como construir o mercado. Então, quando passamos esse primeiro ano, começamos a falar sobre autopublicação. Agora, todos nossos parceiros europeus estão esperando pelo Writing Life e pelo seu papel em nossa parceria na autopublicação. Por exemplo, eles poderiam oferecer versões impressas destes livros, podendo o escritor ter ou não uma editora, ou podemos fazê-lo através de parcerias de impressão sob demanda.

PNB | Estão pensando em imprimir também?

MS | Certamente. Acabamos de anunciar a aquisição da empresa francesa Aquafadas, que possui uma plataforma de publicação digital para revistas em quadrinhos, livros infantis, etc. Então eles possuem as ferramentas para montar um arquivo ePub, um formato especial ou uma app. A editora pode então começar a distribuir, seja pela Kobo ou alguma outra empresa. Deixaremos as ferramentas da Aquafadas disponíveis para as editoras, mas vamos conectá-las também ao Writing Life. As ferramentas que estarão disponíveis para o Writing Life serão então “superturbinadas”. Também estamos estudando soluções de impressão sob demanda e outros tipos de serviços de publicação.

Acho que o mais interessante é ver como isso vai funcionar com, digamos, a Cultura, apresentando autores independentes ou autopublicados em uma parte especial da loja, criando eventos com estes autores, etc. Não é uma coisa puramente digital, ela se liga à experiência da livraria.

PNB | Mas existe uma data de início do Writing Life no Brasil?

MS | Sei que a Livraria Cultura está muito animada, mas por agora o foco é no lançamento, então só podemos pensar nisso em 2013, não antes.

PNB | Você mencionou o trabalho com conversão, vocês vão oferecer conversão às editoras brasileiras também?

MS | Vamos. No geral, gostamos de entrar em um mercado e ver que os arquivos ePub já estão saindo das editoras, mas nem sempre é o caso. E alguns mercados são muito complicados – o Japão seria o exemplo mais complicado. Lideramos o mercado de conversão ao ePub lá, pois mais ninguém no mercado estava passando para o ePub. Então financiamos, ou co-financiamos com editoras, a conversão de conteúdo. É caro – já está mais barato, com certeza, mas é custoso se você se preocupa com a qualidade. Muitas empresas vão dizer que possuem serviços de conversão de baixo custo, principalmente de mercados emergentes, mas somos nós que recebemos as ligações de clientes dizendo: “Comprei este livro de vocês e está tudo de cabeça para baixo.” As editoras não ouvem as reclamações. Nós nos preocupamos com a qualidade e por isso não é um processo barato.

PNB | Mas vocês vão cobrar por esta conversão? Quanto?

MS | Vamos. E o preço vai depender. Vamos trabalhar com editoras e livrarias para encontrar um bom preço. Como disse, não somos uma empresa com orçamentos ilimitados e olhamos para todo país pensando “como podemos vencer neste país”? Não temos um modelo único para todos os lugares.

PNB | Este é o diferencial da Kobo?

MS | O que muitas pessoas não sabem sobre nós é que estamos aperfeiçoando este modelo local há 3 anos. A parceria não é um contrato, são 500 pessoas na Kobo que sabem como trabalhar com estes parceiros, não só com livrarias. Eles sabem como fazer merchandise, preço, como treinar, como vender aparelhos, etc. Algumas empresas falam em “acrescentar um novo país” quando estão na verdade somente acrescentando um novo idioma. Se fosse só isso, estaríamos em uns cem países agora. Acreditamos que é uma transformação de uns 25 anos, e que o prêmio é grande o suficiente para justificar o investimento.

Por Carlo Carrenho e Iona Stevens | PublishNews | 25/10/2012

Kobo inicia vendas na Itália


Dando continuidade ao seu plano de expansão mundial, a Kobo inaugurou hoje sua parceria com a livraria italiana Mondadori, com o início das vendas dos eReaders Kobo Mini [79 euros], Kobo Touch [99 euros] e Kobo Glo [129 euros].

Para quem não conhece, a Mondadori está para a Itália assim como a Saraiva está para o Brasil – é a maior rede de livrarias físicas do país e uma das maiores lojas online da Itália.

Segundo relatos recentes, o mercado de eBooks na Itália está experimentando alguma aceleração – dizem que os eBooks já correspondem a cerca de 4% das vendas.

Por Eduardo Melo | Clipado de Revolução eBook | 02/10/2012

eBooks brasileiros em pauta na PublishersLaunch


Sérgio Machado, da Record, foi o representante brasileiro no painel que reuniu editores da Itália, Alemanha, China e Estados Unidos

Sérgio machado

A possibilidade de crescimento do mercado brasileiro de livro digital está na mira de editores internacionais e a organização da Conferência PublishersLaunch escolheu Sérgio Machado, presidente do Grupo Record, uma das editoras que integram a distribuidora de livros digitais DLD, para contar o que o Brasil anda fazendo nesse sentido. O painel, realizado nesta segunda-feira, dia 10, em Frankfurt, contou ainda com a participação de Riccardo Cavallero, da Mondadori [Itália]; Kris Kliemann, da Wiley [Estados Unidos]; Michale Justus, da S. Fischer Verlag [Alemanha].

Para Machado, em três anos os e-books devem ter 10% de market share no Brasil. Mas isso só vai acontecer se houver um número razoável de e-books, e-readers baratos e se a compra for fácil. Depois disso, ele acredita, o crescimento será muito rápido.

Entre os assuntos abordados estava o interesse da Amazon pelo país, e ele contou que a empresa não pretende concorrer na venda de livros impressos. “Ela entendeu que pode ser um pesadelo distribuir livros no Brasil”, completou. Por outro lado, sabe-se que Amazon já está conversando com a DLD, editoras e livrarias para conhecer o mercado e organizar sua estratégia. E que também está procurando um profissional para representá-la em São Paulo.

Por fim, Sérgio Machado disse que o exemplo da Barnes & Noble, rede de livrarias que se aventurou pelo mundo digital e criou o seu próprio e-reader, é de grande valia e pode ser muito útil se quisermos chegar logo no mesmo nível dos outros países. E chegou a fazer previsões: “Cedo ou tarde, um player local vai fazer um acordo com a Barnes & Noble para usar a tecnologia dela e acelerar o processo para poder concorrer com a Amazon”.

Por Maria Fernanda Rodrigues | PublishNews | 11/10/2011

A pergunta agora é: Os e-readers vão sobreviver?


Conferência PublishersLaunch debate a atual situação do livro digital e reúne editores de diversos países

Discutir se há um futuro para o livro impresso é coisa do passado. Editores viraram o disco e agora se perguntam que tipo de aparelho as pessoas vão escolher para ler livros digitais: e-readers ou tablets? “Não é uma questão de ter um e-reader ou um tablet, mas de poder sincronizar todos os seus aparelhos”, melhor respondeu Riccardo Cavallero, da Mondadori. O assunto foi levantado na manhã desta segunda-feira, dia 10, em Frankfurt, nos dois primeiros painéis da Conferência PublishersLaunch, organizada pelo consultor e colunista do PublishNews Mike Shatzkin e por Michael Calder, responsável pelo boletim Publishers Lunch. A empresa AT Kearney apresentou números relacionados à utilização de e-readers e tablets nos principais países. De todos os países consultados, apenas no Reino Unido os tablets superam os leitores de livro eletrônicos [3.4% contra 2.6%]. Nos Estados Unidos, a relação é equilibrada, com os tablets tendo entre 8% e 9% de penetração e os e-readers, entre 9% e 10%. Com relação ao número de e-books disponíveis, o Brasil, único país da América Latina consultado, está na lanterna, com 6 mil títulos. Os mais avançados são Estados Unidos [1 milhão], Reino Unido [400 mil], Alemanha e França [80 mil cada], China [60 mil], Japão [50 mil], Austrália [35 mil], Itália [20 mil] e Espanha [15 mil].

Por Maria Fernanda Rodrigues | PublishNews | 10/10/2011

Entrada da Amazon na Itália estimula queda de preços


Itália: Horas antes de Ricardo Cavallero, gerente geral da Mondadori, embarcar para São Paulo – onde participou na quarta do Congresso Internacional do Livro Digital -, a gigante italiana assinou com a Amazon contrato para venda de 2.000 títulos para Kindle.

Há nove meses vendendo eBooks, a maior editora da Itália pretende lançar no formato outros 1.000 dos 10 mil títulos de seu catálogo até o fim do ano – quando a Amazon, no país desde novembro, deve iniciar a venda do Kindle. “Não houve razão para assinarmos o acordo antes de termos certeza de que eles entrariam no mercado italiano“, disse Cavallero à coluna.

Ciente das dificuldades da varejista de fechar contratos no Brasil, o gerente compara a situação aqui com a dos EUA em 2009. “A tendência é que as editoras batalhem pelo direito de definir os preços sem que ninguém possa mudá-los. O problema dessa típica reação de defesa da indústria é que, para que esse mercado dê certo, os preços precisam cair. Está provado que as pessoas gastam no máximo 10 dólares ou euros em compras pelo celular.

Hoje, a Mondadori dá descontos de 50% em todos os seus e-books. Quer reduzir ainda mais os preços até o fim do ano.

Por Raquel Cozer | O Estado de S.Paulo | 30/07/2011

“O poder passa do editor ao leitor”


Riccardo Cavallero

A primeira coisa que Riccardo Cavallero disse ao se sentar à mesa de sua casa, onde viveu o fundador da Mondadori, Arnoldo Mondadori, em Milão, é que esta mudança é séria; aquilo que sempre se disse, que um dia este universo mudaria, é por fim verdade. E numa frase muito simples [“O poder passa do editor ao leitor”], este manager de editoras que cruzou da Europa à América e depois fez a viagem de volta, passando pela Espanha, propõe atuações diante da nova situação. Gutenberg ainda está por aí, e continuará, mas a internet, “o digital”, como ele disse, já marca o futuro.

Cavallero é diretor-geral de livros da Mondadori para a Itália, a Espanha e a América Latina; a Mondadori engloba os selos Einaudi, Piemme, Sperling & Kupfer, Mondadori e Random House Mondadori. Ele nasceu perto de Turim e tem 48 anos; está casado com Teresa, toscana, e tem um filho, Giulio, de 13 anos, nascido em Barcelona. Além do amor a Cadaqués, deixou na Espanha [onde ocupou diversos cargos editoriais, primeiro na Grijalbo e depois na Random House Mondadori] muitos afetos [entre outros, o de seu saudoso mestre Toni López] e experiências que agora fazem parte de sua memória de editor… Exerceu uma tarefa executiva, como conselheiro delegado da Random House Mondadori, primeiro em Nova York e depois em Barcelona…

É economista e nadador. Por acaso, essas duas características lhe servem agora para saber como se nada nas águas do futuro no qual ainda flutua o universo Gutenberg. Eis a entrevista.

El País – É a primeira vez que algo muda de verdade, parece.
Riccardo Cavallero
– Sim, pela primeira vez o mundo editorial está mudando. O digital supõe um grande impacto porque o poder passa do editor ao leitor. Desde Gutenberg não muda nada. Houve mudanças mecânicas, mas o processo e o negócio não mudavam. Os editores tinham o poder de decidir o que se lia em um país. Isto fez com que os editores entendessem mal a sua atividade, que a tenham confundido com a de impressor ou distribuidor, esquecendo-se da de editor.

E com o livro digital, isto muda.

R.C. – O poder passa ao leitor, que é quem decide o que quer, quando quer, como quer e a que preço. Poderíamos compará-lo com a revolução de Copérnico. Não é o mundo que dá voltas ao redor da Terra, mas a Terra é um planeta que gira ao redor de um sol, o consumidor, o leitor. Esta é a grande mudança.

E é recebida com naturalidade?
R.C. – O mundo editorial não está pronto para isto. O que marcará a diferença – como com os dinossauros – é que para sobreviver é preciso mudar de habitat. E há muitos que neste momento não têm a força mental para mudar sua forma de trabalhar…

Ao menos já existe o e-book ocupando seu terreno…, e as editoras o estão adotando…
R.C. – O e-book como tal não vale nada. Já nasce velho. O importante é a revolução digital, mudar a nossa forma de trabalhar contando com o leitor que está do outro lado. Temos que entender pela primeira vez o que o leitor quer. Até agora temos vivido numa bolha de luxo onde quase se podia prescindir do que o leitor queria.

O editor tem que ser diferente?
R.C. – O será, sem dúvida. Houve um momento em que não se sabia se o editor era impressor ou distribuidor… Muda a forma de veicular e entregar um conteúdo. Creio que em cinco ou dez anos o editor será um bibliotecário. Manusearemos um conteúdo que teremos que locar. Já não seremos proprietários de algo, mas possuiremos o que nos servirem no momento.

Então, o papel do editor será menos importante.
R.C. – Continuará sendo muito importante, mas não será o mesmo, será um pouco diferente. A revolução digital é uma mudança impressionante, mas o que não mudará durante um longo tempo deste caminho é a forma de criação, de escrever. O digital não irá influir nisto no curto prazo. O escritor fará experimentos. Já foram feitos livros de SMS, livros para telefones celulares… Nesta primeira fase há um grande porre: o autor está convencido de que o editor já não lhe serve, que é o agente que tem que fazer seu trabalho. O que acontece é que atualmente se encontra um monte de informações disponíveis, um monte de livros que se podem auto-editar sem nenhum problema, mas não se sabe como manejá-lo… O editor encontrará e manterá seu papel, que é o de ensinar a fazer uma seleção e, por outro lado, terá que estar muito atento ao que os leitores querem… Caso contrário, será excluído. As posições de privilégio destes últimos séculos, reduzidas basicamente à distribuição física, se acabam… Dentro de dez anos, isto não existirá mais. Os editores de grandes grupos, que basearam seu sucesso na distribuição, terão que buscar novas vantagens competitivas porque tudo será liberado…

O que vai acontecer com os direitos autorais? Escorrerão como água na cesta, como cantava Harry Belafonte?
R.C. – Mais ou menos. É verdade que o papel do editor muda. Será um editor que não venderá algo, mas que o apresentará. Creio que no mundo digital o editor terá o que atualmente é uma televisão paga, com canais que venderão por assinatura. Estamos acostumados a fazê-lo de maneira simples: liquidamos os direitos por cada exemplar vendido. Isto já não pode ser assim, como nos filmes de cinema. A entrada gerava direitos para o filme. Creio que isso terá que mudar também em relação aos livros. É mais complicado porque a mudança se produzirá dentro de 20 anos, possivelmente. E atualmente o digital já está produzindo muitos problemas para os advogados porque é difícil quantificar o dinheiro necessário para pagar os direitos. Esse é o problema.

Você acredita que se entenderá que não compramos o livro, mas que o emprestamos?
R.C. – Cuidado. Como editores, o jogo será vencido por quem conseguir trabalhar sobre o conteúdo. Meu objetivo é vender e por isso não creio que o livro impresso irá desaparecer. Como nos jornais, creio que estamos no amanhecer do digital. Se eu compro o Financial Times como assinatura digital, tenho também o direito de receber a versão impressa. Assim como um livro. Se quero te vender o último livro de Murakami e você compra o livro físico, com o preço que me está pagando por esse livro tem direito a outras opções: há a versão impressa e digital. E esta é uma forma de comprar que continuará existindo, mas ambas as formas conectadas, porque a versão impressa sem o digital não poderá ser feito no curto prazo…

E depois há a locação…
R.C. – Sim, a forma pela qual opta outro tipo de leitor, que não quer comprar esse livro mas quer pegá-lo emprestado, como em uma biblioteca. Quem diz: “Eu quero uma assinatura de dez euros ao mês com a que tenha acesso a uma oferta de livros.” E esses livros podem ser todas as novidades, ou todo o romance rosa, ou o que for… São dois clientes diferentes, mas cuidado, são duas formas de usufruir de um livro… Pode ser que muita gente queira comprar livros de Murakami, García Márquez ou Vargas Llosa para conservá-los na biblioteca e prefira outros livros de entretenimento, como o romance histórico, de que goste, mas que não queira guardar em casa…

O editor parece o capitão de um barco e o mar provoca duas sensações: solidão e medo. Você tem agora alguma dessas duas sensações?
R.C. – Se me permite brincar, sou muito bom em natação e por isso o mar não me dá muito medo. O mar produz uma sensação de profundo respeito porque você sabes que tem na sua frente uma onda muito forte que pode te arrastar. No mundo literário acontece mais ou menos a mesma coisa… Produzir livros é a coisa mais simples. O trabalho de um editor é entregar os livros ao leitor de uma forma clara e inteligível e isso só se pode fazer através de coleções e selos. E do ponto de vista da gestão, da que também me encarrego como publisher [o responsável global de uma editora], é disso que me encarrego. A empresa se constrói em torno da figura dos editores; eles são o coração do negócio. Minha receita é muito simples, é a única que conheço e é a que aplico na América, na Europa, e até agora tem funcionado. Nada de solidão ou de medo. O medo começa quando se começa a esquecer disto e se aumenta a produção para chegar a um faturamento que é efêmero, a recolher devoluções…; é então quando o mar te engole e acabas como no filme Tempestade Perfeita.

Estamos em uma tempestade?
R.C. – Não, não é nenhuma tempestade. Estamos no momento da grande mudança pelo que acontece com o digital. Um momento em que devemos ter a coragem de renunciar aos privilégios que conseguimos, e que nos mantiveram como líderes até agora; é um momento para reinventar o nosso trabalho; como todos os momentos de mudança, este pode ser doloroso, incômodo, porque no mínimo até agora você controlava tudo, sabia tudo sobre o seu mundo. Agora é preciso assumir riscos, ter muita curiosidade, experimentar e, sobretudo, estar treinado para se equivocar. Quem nos próximos cinco anos não se equivocar, e não se equivocar de maneira importante, creio que não chegará aos dez anos.

Já há riscos. O pirata está aí esperando que seja rentável roubar livros.
R.C. – Sim. A pirataria é um fato muito sério, muito doloroso, em alguns países mais que em outros. Mas, se me permite, os piratas são os únicos que conhecem verdadeiramente os best sellers. Para um autor, ser pirateado é quase uma satisfação porque significa que está vendendo muito. O pirata nunca erra!… Agora, falando seriamente, é certo combater a questão da pirataria até onde se pode, mas lhe digo a verdade: a responsabilidade da pirataria [falo da digital, sobretudo] é dos editores… A música não tinha barreiras de idioma, era vendida muito cara, te obrigavam a comprar um CD para ouvir, às vezes, apenas uma música. Em nível comercial, isto era sem dúvida um estímulo para piratear. Todos pirateamos música; aos doze ou aos quinze anos já gravamos uma canção de um disco para presentear uma fita cassete a uma noiva. Creio que não há ninguém no mundo que não o tenha feito. Portanto, não é preciso assustar-se com isso.

Mas é um problema para o editor…
R.C. – Quando a pirataria se converte em um fenômeno econômico tão relevante, não é a polícia que tem que resolver isso. Deve-se buscar uma solução econômica a nível editorial. Para o livro, sem dúvida, foi a edição de bolso, que não tinha até agora um desenvolvimento completo nem no mundo de fala hispânica nem no italiano. O mesmo acontecerá com o livro digital. Piratear o digital é muito mais fácil. E, além disso, se o consumidor digital quer alguma coisa, o quer para já, não está disposto a aceitar os planos da editora. O quer já, e se o encontra em outro lugar, o pirateia.

Fácil assim?
R.C. – Eu não sou pirata, mas baixo os Beatles no meu iPod caso não puder comprá-los. No digital, o que os editores têm que entender quando digo que perdemos o poder é isto: nós já não mandamos, já não dizemos: “Isto te dou, isto não.” Alguém diz: “Se você não me der, eu o encontrarei, pois existe em algum lugar do mundo…” Temos que mudar a nossa atitude, perder o poder significa que nós não mandamos e que temos que respeitar verdadeiramente o consumidor. Respeitá-lo significa dar-lhe o que quer e ao preço que quer. Temos que mudar a nossa mentalidade, saber construir uma estrutura econômica que possa suportar esta mudança. Se não somos capazes, não merecemos continuar como editores. Isso se chama seleção natural. Creio que Darwin continua sendo a minha luz!

Todo o poder é do consumidor?
R.C. – Não. O poder está com o escritor e o consumidor. O editor é um intermediário, um contato. O que fará é colocar o escritor em contato com seu público, que também mudará porque é um público que tem uma comunidade de interesses; já não é o público de antes que todos conhecíamos. Não. Sabia-se quem eram aqueles que gostavam de romance rosa, em que há sexo… Com o romance digital, estamos vendendo muito mais o selo do romance rosa porque há muita gente que se envergonha de andar pela rua com um livro rosa. E o lê no formato digital. Como acontecia com a pornografia, que você escondia dentro do Financial Times… Para voltar ao começo, o editor perde poder? Sim, evidentemente, tem que perdê-lo. O poder está com o autor que escreve e meu trabalho como publisher é colocá-lo em contato com o seu público. Caso contrário, o autor me deixará por outro que sabe como chegar ao seu público. Antes, o problema principal era saber distribuir e chegar com a distribuição, e isso era verdade tanto para o editor grande como para o pequeno. Agora não há distinção entre o editor grande e o pequeno. A ferramenta baixou tanto o custo que já não existe essa diferença. Agora não há desculpas para dizer que não se consegue ter sucesso porque se é pequeno e os grandes grupos o estão matando. Agora vai se ver de verdade quem vale alguma coisa.

Reproduzido do site do IHU – Instituto Humanitas Unisinos; publicado originalmente no El País [13/03/2011], com tradução do Cepat.

Por Juan Cruz | El Pais | 16/03/2011