eBooks podem fazer mal à visão?


Nos primeiros cinco meses de 2009, os e-books representavam 2,9% das vendas de livros. No mesmo período de 2010, eram 8,5%, segundo a Associação das Editoras Americanas, graças ao Kindle, da Amazon, e ao iPad, da Apple. Mas os brasileiros não ficam atrás, quando o assunto é a tecnologia. A Bienal do Livro de São Paulo de 2010 apresentou mais que títulos em papel. A feira sediou o lançamento do Mix Leitor-d, primeiro leitor eletrônico com tecnologia de software nacional.

Em ascensão nos últimos anos, o livro digital vem se tornado uma forma mais contemporânea de leitura, ainda que incipiente. O assunto mobiliza os leitores no mundo todo. Durante a 8ª Festa Literária Internacional de Paraty [Flip], na cidade do Sul Fluminense, o assunto foi muito debatido.

O futuro do livro digital é certo, mesmo sem entrar no mérito se ele substituirá ou não, por completo, os livros tradicionais. Quando o preço médio do e-book for reduzido, o livro digital ficará mais popular, ocupando parte do mercado editorial em todo o mundo. Pode ser cansativo ler dessa forma, mas esse estilo de leitura vem crescendo muito, pois permite ao usuário do e-book ter acesso gratuito a obras internacionais que são célebres e fáceis de serem encontradas na Internet.

Um livro também promove a acessibilidade quando facilita a leitura de quem tem problemas de visão, de vista cansada à completa cegueira. Um livro de papel de qualidade e com letras grandes ajuda o primeiro grupo. Os livros digitais também fazem isto, mas vão além para atender o segundo grupo, os e-books oferecem um sistema de text-to-speech [conversão texto para áudio embutida], que lê todo o texto, como alguém que lê para uma pessoa cega o livro que ela deseja.

Adaptação às novas tecnologias

O que preocupa os oftalmologistas em relação ao uso do livro digital são os tipos de iluminação de tela e o contraste das letras com o fundo do display. Grande parte das queixas é similar ao uso do computador comum ou dos notebooks: vista cansada, desconforto com a luminosidade da tela e dores de cabeça após a leitura.

Para amenizar os desconfortos e usufruir das novas tecnologias, algumas providências podem ser tomadas em relação aos cuidados com os olhos e com a postura corporal, durante leituras prolongadas. Se uma pessoa tem intolerância à iluminação específica da tela, talvez ela não consiga superar o problema apenas se adaptando a um novo hábito de leitura. Em alguns casos, é preciso fazer o uso de óculos com lentes coloridas, que podem filtrar algumas tonalidades da luz do livro digital.

Outra reclamação habitual refere-se ao fundo cinza de uma das marcas comercializadas, que dificulta a obtenção do contraste com as letras. Os leitores que apresentam um início de catarata, para os quais a visão em contraste é importante, apresentam mais dificuldades em lidar com o aparelho.

Geralmente, o público que lê e-books é mais jovem, mas percebemos que algumas pessoas com mais de 40 anos ficam com a vista cansada. Para evitar a fadiga visual é preciso posicionar o livro digital abaixo da linha dos olhos e ler em ambientes com lâmpadas amarelas, mais próximas da luz natural.

Outra medida preventiva no uso de e-books é uma pausa obrigatória na leitura. Recomenda-se que, a cada 50 ou 60 minutos, o usuário do livro digital dê uma parada por cinco minutos. O leitor deve dirigir seu olhar para um local distante, através de uma janela, por exemplo. Assim a musculatura ocular também poderá trabalhar, evitando a fadiga dos olhos.

Após horas de leitura, o piscar reflexo diminui, sem que a pessoa perceba. Quando você estiver fazendo uso dos livros digitais, coloque um lembrete, como, por exemplo, ‘piscar’ em algum cantinho do monitor. Assim você estará se policiando e piscando mais vezes, evitando o ‘olho seco’. Em atividades normais, os olhos piscam, em média, 22 vezes por minuto, enquanto que, quando estão em atividade de leitura, piscam de 12 a 15 vezes por minuto.

Os usuários de lentes de contato devem lubrificar mais vezes os olhos, quando em leitura continuada, para evitar problemas de ressecamento ocular. Manter as lentes de contato limpas e higienizadas deve ser uma rotina. Quando bem indicadas e usadas de acordo com as orientações médicas, as lentes não apresentam complicações.

Fonte: www.imo.com.br | sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011 18:16

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CURSO: O Livro na Era Digital


CURSO: O Livro na Era Digital

O Livro Na Era Digtal na USP


A palestra “O Livro na Era Digital” ministrada por Ednei Procópio no dia 26/10/10, às 9h, no evento “XIII Semana do Livro e da Biblioteca”, realizado na USP/ESALQ/DIBD em Piracicaba.

Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

Fliporto celebra cultura digital


Arte, ciência e tecnologia marcam a quarta edição do polo virtual da Festa Literária Internacional de Pernambuco

Pioneirismo, interatividade e democratização no acesso ao meio virtual. Com este propósito, nasceu, em 2006, a Fliporto Digital, este ano instalada na Biblioteca Pública de Olinda. De 12 a 15 de novembro, promovida pela VI Festa Literária Internacional de Pernambuco [Fliporto], Olinda irá abrigar o polo tecnológico da Fliporto. O objetivo é divulgar e valorizar obras literárias, seus escritores virtuais e demais interessados no ramo digital. A abertura do quarta edição da Fliporto Digital será feita pelo curador da Fliporto, o escritor Antônio Campos, com a exposição virtual e interativa “Olinda, Traços do Passado, Cores do Presente”.

De acordo com a professora de Literatura Brasileira e coordenadora da Fliporto Digital, Cláudia Cordeiro, o polo possui um diferencial em relação a outros eventos da mesma área. “Não se trata de tecnologia só por tecnologia. É o uso dela em apoio à arte, em especial à arte literária. A partir das oficinas oferecidas na Fliporto Digital, vamos possibilitar que os escritores virtuais possam editar e comercializar seus e-books. O conhecimento oferecido por este polo não é só abstrato, é algo que pode ser utilizado na prática”, explicou a coordenadora.

Esta edição irá trazer duas oficinas de WEB 2.0, sendo uma direcionada para escritores virtuais, que desejam editar e comercializar seus e-books, e a outra voltada para a edição de vídeos. A abertura das palestras que acontecerão durante a Festa serão feitas pelo cientista-chefe do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife [C.E.S.A.R], Silvio Meira, com a exposição sobre “Mídia Social”. Membro da Academia de Letras do Distrito Federal, o escritor Antônio Miranda será o mediador, falando sobre “Direitos Autorais e Internet”.

No penúltimo dia de palestras, será a vez da jornalista Silvia Valadares, que irá expor as problemáticas e benefícios da junção entre “Jornalismo e Internet”. Por fim, o especialista em Tecnologia da Informação [TI], Manoel Veras, encerrará o ciclo de palestras da Fliporto Digital com a exposição sobre “Tecnologia e Comunicação”. Para democratizar o acesso ao conteúdo e divulgar as ações promovidas pela Festa, a Fliporto Digital fará a transmissão, ao vivo, da programação literária e suas videoconferências.

Interatividade – Este ano, a Fliporto Digital contará com dois espaços direcionados para exposições interativas. Em um deles, será possível folhear, virtualmente, e-books. No outro, haverá exibição de fotos da cidade de Olinda feita a partir de um computador HP touch, que possibilita a interação com o meio virtual através do toque e projeta, em telões, as imagens selecionadas pelo contato manual. Os e-books disponíveis durante o evento serão “Os cem melhores do TOC140”, de Clarice Lispector, “Uma geografia fundadora”, do curador Antônio Campos, e “Pernambuco, Terra da Poesia”, escrito por Antônio Campos e Cláudia Cordeiro.

Democratização – Grandes nomes da arte, ciência e tecnologia irão dividir seus conhecimentos com o público da Fliporto através de palestras e oficinas. Entre os palestrantes, Antônio Miranda, Sílvio Meira, Manoel Veras e Silvia Valadares. Os participantes do evento também poderão participar das oficinas WEB 2.0 e a WEB 2.0 para escritores, ministradas por Lídia Freitas e Izabel Grizzi, diretoras do setor técnico da Microsoft em Pernambuco. Serão duas turmas, com 15 alunos, cada, para as oficinas.

Pioneirismo – O estande do Mix Leitor D será o local da Festa onde os antenados em tecnologia poderão conhecer o primeiro leitor eletrônico nacional de livros. Ele ficará disponível ao público durante os quatro dias da Fliporto no mesmo ambiente do polo tecnológico. As transmissões, ao vivo, da Festa e as inscrições gratuitas para a oficina WEB 2.0 serão feitas pelo http://www.fliporto.net. A oficina é voltada para interessados no mundo tecnológico e escritores virtuais.

Serviço
Biblioteca Pública de Olinda
Av. Liberdade, 100 – Carmo
Fone: +55 81 3305-1157

Olinda Digital
Rua Manuel Borba, 270 – Umurama
Fone: +55 81 2128-3800

Fliporto Digital

Olinda recebe a Fliporto Digital


Dentro da programação da sexta edição da VI Festa Literária de Pernambuco, os visitantes poderão entrar em contato com o que há de mais moderno no quesito comunicação digital com a Fliporto Digital que tem como gestor o advogado, escritor e curador da Fliporto, Antônio Campos, coordenação de Cláudia Cordeiro e apoio do MIC Pernambuco. Em sua quarta edição, o evento será sediado na Biblioteca Pública de Olinda, em frente ao pátio do Carmo, onde será realizado o Congresso Literário, com o objetivo de valorizar obras literárias e seus escritores com o que há de mais moderno quando o assunto é tecnologia.

O apoio à leitura no meio digital, feita através de dispositivos como e-books e e-readers, também é o foco da quarta edição da Fliporto Digital e, por isso, o polo tecnológico irá premiar os talentos que divulgam suas obras no meio virtual. O Prêmio TOC140 Poesia no Twitter, criado por Antônio Campos, merecerá uma seleção dos “100 melhores do TOC140” em livro, além dos prêmios em dinheiro. E serão exibidas as edições vencedoras dos quatro anos do Prêmio Internacional Poesia ao Vídeo.

Democratização

Para democratizar o acesso ao conteúdo e divulgar as ações promovidas pela Festa, a Fliporto Digital fará a transmissão ao vivo da programação literária e de suas videoconferências, além de flashs de todas as atividades que serão divulgadas por videocast.
Com o apoio do MIC Pernambuco que vem desenvolvendo, especialmente para a Fliporto, ferramentas e recursos dirigidos para escritores, a Fliporto Digital amplia e verticaliza suas ações para a inclusão digital e promove uma imersão bem maior nas atividades da Festa e seus objetivos: o diálogo e o congraçamento entre culturas e povos, através da Arte Literária.
Serão oferecidas duas oficinas WEB 2.0, uma delas especialmente para escritores, mas ambas voltadas para a produção, divulgação e comercialização da produção literária no meio virtual.
A WEB 2.0 para escritores, com imersão de 8 horas, em um único dia, objetiva tornar o escritor seu próprio editor e dono de sua própria livraria, num espaço virtual onde poderá editar, divulgar e comercializar seus e-books sem intermediários.

Grandes nomes da arte, ciência e tecnologia irão dividir seus conhecimentos com o público através de palestras transmitidas ao vivo e oficinas. Entre os palestrantes, Sílvio Meira, Diego Mello, Antônio Miranda, Sílvia Valadares e Manoel Veras.

Pioneirismo

No estande do Mix Leitor D, os visitantes poderão conhecer o primeiro leitor digital com tecnologia 100% nacional, um dispositivo compacto que permite, entre as suas múltiplas funções, leitura de e-books e o acesso à internet, graças a um browser interno que se conecta a um modem 3G incluso no aparelho.

Interatividade

Este ano, a Fliporto Digital contará com dois espaços direcionados para exposições interativas. Em um deles, será possível folhear, virtualmente, e-books. No outro, a exposição “Olinda, traços do passado, cores do presente” , baseada em imagens e textos do livro de Edvaldo Alérgo. É uma homenagem à Cidade Patrimônio Histórico da Humanidade retratada em desenhos de diversos artistas, entre eles Manoel Bandeira, e fotos atuais de Marcus Padro. Um verdadeiro inventário histórico e artístico de Olinda. A partir do método touch, que possibilita a interação com o meio virtual através do toque, as imagens acionadas no HP Toutch pelos visitantes serão automaticamente ampliadas e exibidas em telão.

Ascom | 22/09/2010

O que falta para um verdadeiro “Kindle Brasileiro”?


Esse artigo é uma “carta aberta” aos desenvolvedores nacionais de leitores eletrônicos e eBooks, junto com uma breve análise de mercado e sugestões de como melhorar seus produtos.

Mercado Global

No final de 2007, a Amazon lançou o Kindle original, um leitor eletrônico de livros, que se integrava à sua loja virtual, oferecendo eBooks diretamente para o aparelho. O Kindle não foi o primeiro produto do mercado, a tecnologia de tela por e-Ink já existia comercialmente há pelo menos 3 anos na época, inclusive com leitores funcionais, como o Sony LIBRIé, no Japão em Abril de 2004 e sua evolução para o mercado global na forma do Sony Reader em Setembro de 2006.

Mesmo com o Kindle não sendo o primeiro aparelho, ele foi maior sucesso comercial em sua categoria pelo simples motivo de ter toda uma estrutura por trás para melhorar a experiência do usuário: os livros podiam ser comprados de forma transparente via rede 3G, o acervo de eBooks era razoável e o preço era justo; essas vantagens estruturais eram tão convidativas, que os usuários até ignoravam as limitações do aparelho propriamente dito comparado com outros já existentes, como a falta de toque na tela, backlight e suporte ao formato ePub.

Apenas recentemente, outras livrarias americanas conseguiram criar uma estrutura similar à da Amazon, como a Barnes & Noble, com seu leitor Nook e a Borders com o Kobo e outros leitores eletrônicos.

Mercado Brasileiro

Aqui no Brasil, apenas nos últimos meses vimos projetos de leitores eletrônicos aparecendo, com todos eles sendo lançados praticamente juntos, a tempo da Bienal do Livro de São Paulo. Até onde eu pude catalogar, temos disponível: o Positivo Alfa, o Coolreaders COOL-ER, o Mix Leitor D e o Braview BR-100-TX; todos com tela e-Ink de 6 polegadas e outras similaridades de hardware.

Apesar de todo o esforço nacional, esses projetos estão fadados ao fracasso se não evoluírem para alcançar o Amazon Kindle, que já está disponível no Brasil desde Outubro de 2009, e com as sucessivas quedas de preço chega mais acessível que os preços sugeridos dos concorrentes nacionais. Isso tudo sem levar em conta a maturidade o aparelho e o serviço oferecido pela Amazon. O único ponto onde os nacionais realmente têm alguma chance é no acervo em português, o que também é apenas uma questão de tempo para a Amazon, tempo que esse que é o limite máximo para os nacionais evoluírem, se perderem essa janela não há mais volta.

Replicando o Kindle

Essa não é uma tarefa fácil, o Kindle já está em sua terceira edição, teve sucessivos updates de software, possui um orçamento desproporcional em R&D [Pesquisa e Desenvolvimento], ou seja, é um produto bastante maduro e estabelecido. Em contrapartida, os leitores nacionais são licenças OEM de leitores genéricos, apenas com localização para o mercado local; em termos de hardware eles mal chegam ao nível da primeira edição do Kindle, já com 3 anos de idade.

Eu sei que é injusto comparar o hardware, todas as telas de e-Ink, de todos os leitores que usam essa tecnologia vêem de um único fornecedor, e a Amazon tem recursos suficiente para trabalhar em conjunto com essa empresa e conseguir prioridade na disponibilidade das inovações, como por exemplo, a última versão da tecnologia, chamada de e-Ink Pearl, hoje apenas disponível no recém-lançado Kindle 3.

Para os leitores nacionais se destacarem, a maneira mais efetiva atualmente é via software e serviços:

Software: o leitor não pode ser apenas uma versão traduzida de um leitor chinês básico, ele precisa oferecer vantagens reais para o usuário, como:

  • Integração melhor com as livrarias online.
  • Text-to-Speech [leitor de tela] em português.
  • Sistemas de bookmark, destaque e anotações.
  • Dicionário integrado em português [o Positivo Alfa já vem com o Aurélio].
  • Interface intuitiva.
  • Tipografia otimizada para e-Ink, com “hinting” de fontes.
  • SDK aberta para desenvolvimento de Apps.

Serviços: o leitor sozinho não é muito atrativo para o consumidor atual de livros, segue alguns exemplos de serviços que agregam valor ao aparelho:

  • Sincronismo de bibliotera pessoal “na nuvem”.
  • DRM Opcional.
  • Softwares leitores alternativos para PC, celulares e tablets.
  • Sincronismo de última página entre softwares e o leitor.
  • Sincronismo de outros serviços, como anotações, bookmark, etc.
  • Sistema se assinatura de periódicos em parceria com jornais e revistas.
  • Loja de Apps e incentivo aos desenvolvedores.
  • Recomendações, “clube do livro”, conteúdo editorial.
  • Integração com redes sociais.
  • Primeiros capítulos de graça.
  • Sistema fácil de publicação direta para os autores.
  • Programa de afiliados.
  • Ofertas periódicas, “livro da semana”, etc.
  • Sistema de empréstimo digital de livros.

Se algum leitor nacional conseguir completar a maioria dos itens dessa lista e conseguir oferecer um preço justo, eu garanto que a próxima Bienal do Livro vai ser predominantemente digital!

A Receita do Bolo

Hardware

  • A tecnologia de tela é padronizada, a única diferença que alguém pode ter nesse aspecto é ter suporte touchscreen, mas mesmo assim isso é apenas uma camada extra sobre a tela de e-Ink padrão, que todos têm o mesmo acesso, ou seja, a tela é commodity! A função de hardware que realmente impacta a experiência do usuário é a conectividade, seja ela via 3G ou Wi-Fi. Os hardwares projetados no Brasil precisam ter isso em mente, e os que licenciam hardware chinês pronto precisam colocar isso no topo da lista de novas funcionalidades para cobrar do fornecedor.

Software / Serviços

  • Interface: Não é segredo que os leitores possuem a mesma base de software: Linux como Sistema Operacional e alguma variante de FBReader como leitor de eBooks; daí pra frente é pura questão de interface gráfica. Os projetos nacionais precisam investir mais em usabilidade, fazer testes com usuários, encontrar e corrigir as partes de software que geram confusão, etc. Para isso é necessário integrar as esquieps de Design, User Experience [“UX”] e Quality Assurance [“QA”].
  • Performance: Os leitores nacionais fazem feio na hora da ação mais simples possível do leitor: virar páginas! e não estou falando do tempo de refresh do e-Ink, eles passam a maior parte do tempo renderizando a página seguinte em memória para finalmente aplicar na tela de uma vez. Uma equipe de engenheiros é fundamental para otimizar o código. Soluções simples, como renderizar previamente algumas páginas em memória, por exemplo, podem melhorar bastante a reputação do produto, e uma boa equipe de engenheiros de programação conhece todas essas técnicas.
  • Text-to-Speech: Esse recurso não é útil apenas para deficientes visuais, qualquer usuário pode passar por uma situação onde precise de um acesso alternativo ao conteúdo, como por exemplo: descoforto ao ler em meios de transporte, receio de tirar o leitor da bolsa/mochila por segurança, etc. Existem vários projetos Open-Source de leitura de texto, alguns até com vozes em português do Brasil, pronta para serem usadas, só precisa ser “colada” pela equipe de desenvolvimento. Segue um exemplo de um fragmento narrado pelo eSpeak com a voz em português, é meio robótica, mas não é muito diferente do que o Kindle oferece em inglês:
    Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver, dedico, com saudosa lembrança, estas memórias póstumas, Machado de Assis.
  • Softwares de Leitura: Atualmente a Amazon, Barnes & Noble e Borders oferecem seus eBooks tanto em leitores dedicados, como via software para Windows, Mac OS X, iOS [iPhone, iPod touch, iPad], Android e Blackberry. Para se equiparar com esses serviços é necessário pelo menos suportar a plataforma Windows e iOS, e pensando no futuro suportar também Android. O software nào precisa ter todas as funcionalidades do leitor dedicado, mas precisa pelo menos suportar os fortados de eBooks com e sem DRM, e sincronizar as últimas páginas entre eles. Antes de sair programando é necessário estabelecer uma API comum a todos, a partir daí delegar uma plataforma para cada equipe, podendo ser inclusive terceirizadas.
  • Dicionário Integrado: A Positivo saiu na frente com esse recurso, oferecendo o Dicionário Aurélio no Alfa. Mas além disso, existem outros bons dicionários que podem ser licenciados, tudo que precisa é uma boa negociação e uma breve adaptação técnica do banco de dados do dicionário para o formato do leitor.
  • Tipografia Avançada: Quando o assunto são fontes não tem muito pra onde correr, é melhor entrar em contato direto com uma Font-Foundry [empresa que desenha e distribui fontes] que tentar otimizar fontes abertas por conta própria. Poucos fabricantes se dão conta, mas as fontes são fundamentais para a legibilidade do leitor eletrônico, especialmente com as limitações de cores e resolução das telas de e-Ink. O processo e otimizar uma fonte para uma determinada resolução é chamado de “hinting”, onde os designers ajustam os traços dos caracteres para se enquadrarem melhor nos pixels. O recomendável é fechar parcerias com empresas grandes, como Bitstream, Monotype ou Adobe; e não confiar apenas nas fontes simples oferecidas pelos OEMs.
  • SDK para Apps: Esse provavelmente é o passo mais complexo de todos! requer uma grande equipe multi-disciplinar, suporte à uma comunidade de desenvolvedores e todas as burocracias envolvidas na distribuição. Apesar da complexidade, os resultados são bastante promissores se forem bem implementados; e se conseguir usar uma linguagem ou framework já populares é melhor ainda, especialmente usando linguagens de script, como Python ou Lua.
  • Integração com Livrarias: Essa é, de longe, a maior barreira de usabilidade dos leitores eletrônicos atuais: é muito difícil para um usuário leigo comprar os primeiros livros e copiar para o aparelho! A integração com as lojas é simplesmente obrigatória para um produto bem-sucedido. O ideal é o próprio dispositivo possibilitar a compra, mas caso o hardware não ofereça meios de conexão, o uso de softwares gerenciadores integrados às lojas já ajuda nessa tarefa.
  • Cloud Computing: Uma estrutura centralizada de servidores, que guardam dados dos livros, bookmarks, anotações, etc. Esse recurso depende mais da loja de eBooks que do fabricante, mas uma parceria com o fabricante do leitor é fundamental para integrar esses serviços. Isso requer uma equipe de programação especializada em Web e e-Commerce, atém de “SysAdmins”, DBAs e outros profissionais necessários para manter os serviços no ar.
  • Assinatura de Periódicos: Para oferecer um serviço como esse é preciso padronizar modelos de assinatura e cobrança, além de fechar parcerias com jornais e revistas de grande circulação, mas isso é basicamente negociação, o maior desafio técnico é entregar esse conteúdo, o que pode ser resolvido da mesma forma que integração com a loja: preferencialmente via wireless, com opção via software gerenciador.
  • Redes Sociais: Aqui podem ser agrupados uma série de recursos simples, mas que podem impactar bastante a experiência do usuário, como por exemplo: notificações tipo “estou lendo…” no Facebook, trechos de destaque de texto via Twitter, etc. Não precisa de uma equipe muito técnica para isso, apenas bastante criativa, e que entenda as dinâmicas sociais dos amantes de livros.

Conclusão

Executar todas essas idéias é uma missão monumental, e como eu já dei a entender, é muito pouco provável que algum fabricante, livraria ou editora consiga implementar tudo, afinal o custo é bem proibitivo, a mão-de-obra é escassa e a concorrência do Kindle é quase desleal. Mas mesmo assim é algo que eu investiria se tivesse os recursos para isso! o mercado de eBooks tende a crescer bastante. Eu sei que os eBooks nunca vão matar os livros de papel, mas com certeza vão fazer parte da vida de todos em breve!

Este Artigo está licenciado sob Licença Creative Commons Atribuição 3.0 | Por Ronaldo Ferreira | Publicado originalmente em Racum Tecnologia

E-reader brasileiro na bienal


Lançamento do Mix Leitor-d, primeiro e-reader com tecnologia de software nacional, acontece nesta quinta, 12/08

A Bienal do Livro de São Paulo de 2010 vai trazer mais que títulos em papel. A feira sedia também o lançamento do Mix Leitor-d, primeiro leitor eletrônico com tecnologia de software nacional, nesta quinta-feira [12/08]. O aparelho disponibilizará centenas de e-books incluídos no software Kertas para os compradores.

O produto, da Mix Tecnologia, possui tela de seis polegadas – com leitura na forma horizontal ou vertical – teclado Qwerty, bateria durável por até quinze dias, suporte para 13 formatos de arquivos, memória de 128 Mb Rom, com SDCard incluído de 2Gb, expansível até 16Gb e peso de 260 gramas.

Biblioteca

O destaque do leitor é o aplicativo Kertas, criado para o gerenciamento e organização da biblioteca de livros digitais. “Com o aplicativo o usuário pode detectar, identificar e sincronizar seu computar com o Mix Leitor-d. Além disso, pode organizar seus locais de downloads de conteúdos na web, fazer cadastro de livrarias e sites favoritos, inclusão e alteração de comentários referentes ao conteúdo lido e acesso ao Clube Mix Leitor”, explica Murilo Marinho, diretor de negócios do Leitor-d.

Para a Bienal do Livro de São Paulo será comercializado um lote de 300 leitores ao preço de R$ 890,00 a unidade, com frete incluso e pagamento parcelado, no site http://www.mixleitord.com.br a partir de 12/08.

No portal Clube Mix Leitor o internauta pode fazer download de diversas obras de domínio público, além de comprar obras, inclusive de autores independentes.

BR Press | 20/08/2010

Livro digital veio para ficar, mas não para substituir


A julgar pela quantidade de pessoas circulando pelos corredores da 21ª Bienal do Livro de São Paulo com sacolinhas nas mãos, o livro impresso não está nem perto de sua morte anunciada pela chegada dos e-books, como são chamados os livros em formatos digitais, geralmente comercializados em formato PDF, e os aparelhos de leitura eletrônicos. Pelo menos não aqui no Brasil.

O livro digital foi tema de debate no Salão de Ideias da Bienal, na tarde desta quinta-feira [19]. Os rumos dessa nova tecnologia foram discutidos por Ednei Procópio, sócio-fundador da Giz Editorial e membro da Comissão do Livro Digital da Câmara Brasileira do Livro, e pela escritora Regina Drummond, autora de diversos títulos infantis, como “Histórias de Arrepiar”.

Para Procópio, autor de “O livro na era digital”, um obstáculo importante para a popularização do livro digital no Brasil é o baixo acesso à internet: apenas 10 milhões de pessoas têm banda larga em casa, uma parcela pequena da população. E ainda há o custo dos aparelhos. O Kindle, leitor eletrônico comercializado pela livraria online americana Amazon, custa US$ 380, mas não é vendido no Brasil. O iPad, aparelho de leitura da Apple, vale US$ 500, mas não há confirmação de quando ele chegará ao país e qual será seu preço.

Por aqui há leitores de outras marcas. O Mix Leitor-d, primeiro leitor eletrônico com tecnologia de software nacional, sai por R$ 890 [leia mais ao final da matéria]. O Cool-er, vendido pela editora Gato Sabido, custa R$ 599. Ele usa a tecnologia de tinta eletrônica, similar à do Kindle. A Positivo também lançou o seu e-reader, o Alfa, que tem tela sensível ao toque e vem com o Dicionário Aurélio. O preço fica por volta de R$ 700.

A boa notícia é que um texto digital costuma ser mais barato do que sua contrapartida em papel – há um consenso no mercado de que ele deve custar cerca de 30% menos.

Para Ednei Procópio e Regina Drummond, é possível aproveitar o melhor de cada formato: a capacidade de armazenamento dos leitores eletrônicos, que permite carregar dezenas e até centenas de obras em um único aparelho, e o “fetiche” do livro impresso, o prazer do contato físico com o papel e a praticidade de poder ler sem se preocupar com baterias e cuidados para não estragar o equipamento. Por isso, Procópio diz que o futuro do livro não é nem digital, nem em papel – é híbrido. Sua editora, a Giz, tem 200 títulos em seu catálogo, todos eles na forma impressa e digital.
Apesar de o mercado de livros digitais no Brasil ser incipiente, outras editoras apostam no produto. A Melhoramentos, de São Paulo, produz livros digitais desde 1990, já que foi nesse ano em que a editora lançou dicionários em disquete. Em 2009 a empresa lançou seus e-books, e hoje conta com cerca de 60 títulos nesse formato. Neste ano, a editora disponibilizou no iTunes, a loja online da Apple, um aplicativo para a leitura de seus livros no celular da marca, o iPhone.

Já a editora Singular tem previsto para outubro o lançamento de outro aplicativo para iPhone e iPad que congrega junto à leitura do texto informações adicionais, como uma versão em áudio, dados históricos sobre os locais citados no texto e visualização de imagens. É o “e-book 2.0”. A primeira obra a ser vendida com o formato será “1822”, do historiador Laurentino Gomes, que terá sua versão impressa lançada em setembro pela Nova Fronteira.
“Essa deverá ser uma das tendências do mercado, trazer não só a transposição do texto do papel para o meio eletrônico, mas também novos elementos’, diz Newton Neto, diretor-executivo da Singular. Hoje a Singular tem mais de 500 mil títulos, entre obras em português e outros idiomas, para a impressão sob demanda, outra tendência de mercado apontada por Neto. São cerca de 25 mil impressões por mês, mas a empresa prevê um crescimento para 120 mil em 2011. Paralelamente, conta com 20 mil títulos em livros digitais em seu catálogo.

Outro exemplo dessa tendência do “e-book 2.0” é o lançamento digital pela Globo Livros de “A Menina do Narizinho Arrebitado”, clássico de Monteiro Lobato publicado originalmente em 1920. Na versão para iPad o leitor tem opções de interatividade, como arrastar a imagem de um vagalume pela tela para iluminá-la, ou tocar no nariz da personagem e fazê-la “espirrar”. O livro deve chegar à AppStore, a loja da Apple, em novembro.

Você sabe o que é um e-book?
Uma pesquisa realizada pela GfK, a 4ª maior empresa de pesquisa de mercado no Brasil, mostra como o livro digital ainda está longe de ameaçar o tradicional no país. De acordo com a sondagem, 67% dos entrevistados não sabem o que é o e-book. Entre os mais jovens, de 18 e 24 anos, o índice de desconhecimento foi um pouco menor: 64%.

Apesar de os mais jovens serem mais antenados, Ednei Procopio não acredita que necessariamente os livros digitais vão estimular o gosto da leitura nas crianças e adolescentes. Mas eles têm um lado muito positivo, que é colocar o tema “livro” na pauta do dia. “Mas o livro eletrônico não forma leitor, para isso precisamos da educação“, afirma Regina Drummond.

Já para Markus Dohle, diretor executivo da americana Random House, maior editora de livros em língua inglesa do mundo, as novas tecnologias podem dar sim um empurrãozinho no gosto pela leitura. “Conheço pessoas nos Estados Unidos que dizem: comecei a ler de novo por causa do meu leitor eletrônico – e também os meus filhos“, disse, em entrevista para a revista alemã Der Spiegel.

No entanto, Dohle acha exageradas as estimativas de que em 10 anos o livro digital vai substituir o impresso. Alguns analistas chegam a prever que em uma década o livro de papel vai representar apenas 25% do mercado americano, baseados em números como os divulgados pela Amazon, que anunciou que em junho vendeu 180 títulos digitais para cada 100 livros de capa dura nos Estados Unidos.

Para Ednei, esse número pode dar uma impressão enganosa, já que a livraria virtual está contabilizando apenas os livros impressos de capa dura, excluindo as brochuras da conta. “Tradicionalmente os livros capa dura são mais vendidos nas livrarias físicas, pois as pessoas gostam de manuseá-los“, diz.

Números à parte, não somos obrigados a optar por um ou outro formato. Como diz a escritora Regina Drummond, “está na dúvida entre o livro digital e o impresso? Então fique com os dois.

Serviço

21ª Bienal do Livro de São Paulo
De 13 a 22 de agosto
Das 10h às 22h*
*Dia 22, das 10h às 20h, com entrada até às 18h
Ingressos:
Público geral: R$ 10
Estudantes: R$ 5
Professores, profissionais da cadeia produtiva do livro, bibliotecários, estudantes inscritos pelo sistema de visitação escolar programada, maiores de 60 anos ou crianças com até 12 anos, mediante apresentação de documento comprobatório: entrada gratuita
Mais informações: http://www.bienaldolivrosp.com.br

Por Juliana Tiraboschi | da Redação Yahoo! Brasil | Com Agência Estado| Sexta-feira, 20 Agosto, 02h03

Saraiva entra no mercado de eBooks


Dois meses depois de lançar sua loja on-line de livros eletrônicos, a Saraiva, maior rede de livrarias do país, inicia a venda de leitores digitais a partir da próxima segunda-feira [16].

A companhia começa a distribuir os leitores coreanos iRiver pelo site. Com capacidade para 1.500 livros, funções de gravador de voz e reprodutor de músicas, o aparelho custará R$ 1.099.

Este é o primeiro aparelho da série de leitores digitais que pretendemos oferecer. Imaginamos ter, até o fim do ano, também o iPad, da Apple“, diz Marcílio Pousada, presidente da Livraria. O aparelho da Apple, porém, não tem data confirmada para chegar ao país.

Até o fim de agosto, a Saraiva também venderá o Alfa, da brasileira Positivo. O Alfa custará cerca de R$ 700. Em complemento às vendas pela internet, as lojas físicas da rede receberão os modelos nos próximos meses.

Também na próxima semana, a Saraiva atualiza sua loja de livros on-line. Inaugurada em junho, a loja até agora oferecia livros para serem lidos no computador. Até agora foram 12 mil títulos distribuídos. Deles, 8 mil foram obras gratuitas, fruto de parceria com a Imprensa Oficial.

O volume ainda é pequeno, mas marca o início da tendência. “Os leitores atuais são deficientes em conectividade e não têm loja embarcada, o que seria o ideal“, diz.

AMADURECIMENTO

Existem hoje cerca de 1.500 títulos nacionais em versão eletrônica, ante os 46 mil exemplares em papel editados no ano passado.

É igualmente pequena a base de leitores digitais. São 10 mil unidades, frente a 2,9 milhões nos EUA.

A entrada da Saraiva na venda destes aparelhos, ao lado de outras iniciativas recentes de Fnac, Livraria Cultura, editoras e fabricantes, devem contribuir para o crescimento do mercado.

O fenômeno pode não ser integrado como nos EUA, onde a Amazon, tradicional varejista on-line, fomentou a criação de um ecossistema completo, da distribuição do leitor Kindle até a entrega dos livros eletrônicos.

Iniciativas pontuais, porém, tendem a fazer o mercado crescer naturalmente, já que com mais leitores, mais conteúdo pode ser gerado, o que ficará mais interessante para o consumidor“, diz Duda Ernanny, da livraria Gato Sabido, que trouxe oficialmente o primeiro leitor digital ao país, em dezembro.

Hoje, além do Cool-er, Positivo, e a pernambucana Mix Tecnologia já investem nas vendas do aparelho.

Do lado das editoras, um avanço expressivo veio em junho, com a criação da Distribuidora de Livros Digitais [DLD], reunindo as editoras Objetiva, Record, Sextante, Intrínseca, Rocco e Planeta. A intenção é investir R$ 2 milhões até o fim de 2011.

CONTEÚDO DIFERENTE

Entre os autores não há unanimidade, mas, para alguns, os leitores digitais são o trunfo para conquistar os jovens. Segundo o gaúcho Moacyr Scliar, 73, com obras à venda na Amazon, recursos multimídia como os do iPad darão vazão a outros tipos de conteúdo. “O livro deixará de ser só texto, embora sua beleza continue nas palavras“, resume.

Folha.com | Livraria da Folha | 15/08/2010 – 10h04

Admirável Livro Novo


Quem compraria de olhos fechados um produto que ninguém experimentou, que ainda não tem certeza de como funciona e que nem sabe exatamente para que vai servir? A partir deste mês, milhares de pessoas [por ora apenas nos Estados Unidos] terão a oportunidade de ver como é realmente o iPad, o mítico e-reader da Apple, aquele que pode fazer com o livro em papel o mesmo que o iPod fez com o CD: torná-lo dispensável. Seriam esses computadores pessoais em formato de prancheta e tela sensível ao toque, chamados tablets, “assassinos tecnológicos”, capazes de transformar o livro impresso em objeto de museu, ao lado dos daguerreótipos, dos gramofones e até dos primeiros leitores digitais, como o Kindle?

Como em todas as discussões milenaristas, os debatedores podem ser divididos em duas correntes: os “apocalípticos” e os “integrados”, para usar os termos do filósofo italiano Umberto Eco – que é, aliás, uma voz importante também nessa questão. Na obra Não Contem Com o Fim dos Livros, que sai no fim do mês no Brasil, ele e o escritor francês Jean-Claude Carrière procuram tranquilizar, numa série de conversas, os que temem que a era tecnológica se transforme num apocalipse que não deixará página sobre página. Ao mesmo tempo, é um exemplo de como a discussão sobre o fim do livro é inútil, porque na maior parte do tempo é baseada em achismos e experiências pessoais que não são necessariamente compartilhadas pelas novas gerações. Mesmo quando o debate é liderado por pensadores de renome.

Quem lê o livro percebe que a confiança expressa na capa não reflete o conteúdo. O que sobressai é o lamento de dois homens brilhantes que, como muitos de seus contemporâneos, se veem como dinossauros soterrados por uma revolução nas formas de escrever, ler e transmitir o conhecimento. Carrière fica surpreso, por exemplo, quando o amigo Eco revela ser um velho jogador de fliperama [!] atordoado por uma “derrota acachapante” de 280 a 10 para o neto de 7 anos num videogame. O placar leva o autor de O Nome da Rosa a reconhecer que, por mais que tenha devorado bibliotecas, é incapaz de acompanhar a revolução que se anuncia. “Nossa insolente longevidade não deve nos mascarar o fato de que o mundo do conhecimento está em revolução permanente e de que não fomos capazes de captar plenamente alguma coisa senão no lapso de um tempo necessariamente limitado.

Apesar de inflamar corações e mentes, a discussão sobre o fim do livro é apenas a ponta do iceberg de outra revolução em curso: a das novas possibilidades de narrar e ler abertas pelas tecnologias digitais. Essas inovações convergem de tal forma que, no futuro, as experiências de ler, ouvir e ver não serão mais distintas. Uma nova semântica já começa a se instaurar a partir da internet. Os próprios conceitos de livro e literatura já não parecem mais tão claros diante das novas mídias.

A QUARTA TELA
A revolução que torna incerto o futuro do livro questiona a noção de autoria, abala as bases da indústria editorial e muda as formas de leitura já é chamada pelos especialistas de Quarta Tela – as três primeiras são a da televisão, a do computador pessoal e a do telefone celular. A quarta tela com que vamos nos acostumar a interagir diariamente será a do tablet. O iPad é a estrela desta nova geração de computadores, mas nem de longe a única. Calcula-se que ele dividirá o mercado com pelo menos 50 modelos nos próximos meses.

A Hewlett-Packard, por exemplo, promete para breve o Slate, que usará o Windows como sistema operacional. A Samsung também anunciou o seu E6, um e-reader que permite anotações a mão, e a Asus inova com um e-reader com duas telas, simulando a leitura de um livro. Até o Brasil entrou na corrida. De Recife, a Mix Tecnologia anunciou o lançamento para junho do primeiro leitor eletrônico com software 100% nacional, a um preço que varia entre R$ 650 e R$ 1,1 mil. O investimento parece alto, mas milhares de e-books são oferecidos pelas livrarias virtuais gratuitamente, como os clássicos em domínio público. E o download de um lançamento custa em geral metade do preço de um livro em papel.

Tablets têm uma série de vantagens sobre os dispositivos que apenas exibem textos digitalizados, como os pioneiros Kindle, da livraria Amazon, e o nook, da livraria Barnes & Noble, além de sua tela colorida. “Ele abre uma nova gama de experiências que ultrapassa a da leitura do livro impresso”, afirma o brasileiro Julius Wiedemann, editor-chefe da área de design da Taschen, que já testa um programa para simular livros de arte no novo e-reader, com direito a multimídia e interatividade. “Vivemos uma mudança radical de paradigma”, acredita. Opinião parecida tem o editor da revista americana Wired, Chris Anderson. “Daqui a 10 anos vamos ver que este foi um momento significativo”, afirmou numa conferência em São Francisco em março, quando apresentou um vídeo com a versão da revista, uma espécie de bíblia das novas tecnologias, para o iPad.

A verdade é que, até o mês passado, e-readers eram suportes eletrônicos para livros comuns, e os e-books não passavam de versões digitalizadas de textos produzidos para serem impressos. Mas, de agora em diante, o livro — assim como os jornais e revistas — pretende ser muito mais do que um texto adaptado para o novo formato. Nascidos digitais, os novos livros podem prescindir da leitura linear, integrar-se à internet, misturar palavra, vídeo, foto, som e animação, e literalmente explodir em 3D nas telas. Neste novo universo, real e virtual não são mais mundos separados. Os novos livros poderão ainda ser reescritos por seus leitores, em experiências interativas e colaborativas que colocam em questão o conceito de autoria e propriedade intelectual.

O CHEIRINHO DO LIVRO
Ainda é cedo para medir o impacto na criação narrativa dessa literatura sem papel. O livro eletrônico poderia desenvolver novas formas expressivas — assim como o livro impresso possibilitou o boom do romance, e a câmera filmadora a explosão do cinema? Boa parte das obras produzidas no novo formato ainda é experimental. No entanto, as editoras comerciais já começam a fazer suas próprias experiências. A Penguin e a Macmillan colocaram na rede vídeos mostrando como seus livros serão reinventados, ganhando recursos interativos e multimídia, espaço para comentários, mecanismos de busca e comunidades virtuais de leitores para trocar ideias.

Segundo o executivo-chefe da Penguin, John Makinson, a editora criará grande parte de seu conteúdo digital em HTML [linguagem para escrever páginas da internet] em vez do formato ePub, usado nos livros eletrônicos. “A própria definição de livro está aberta”, acredita. De fato, há dúvidas sobre como classificar as obras produzidas a partir das estratégias narrativas abertas pelas novas tecnologias. Seriam livros ou alguma forma nova, que já é chamada de transmídia, que conviverá em separado com o mercado editorial tradicional, como a televisão adquiriu uma linguagem diferente do cinema?

Apesar de toda essa excitação, não faltam leitores que não pretendem abandonar o papel por nada. Seus argumentos são pertinentes. Ler num computador não é tão confortável como ler uma obra impressa [por outro lado, uma biblioteca inteira cabe num levíssimo e-reader]. É difícil ler na tela porque os olhos se cansam da luminosidade [aparentemente não os das novas gerações, habituadas às telas do computador]. As baterias acabam, enquanto livros duram quase uma eternidade [em compensação os livros impressos não podem ser baixados para o seu e-book quando se está há horas esperando na antessala do médico]. Para praticamente todo argumento contra um tipo de livro há um a favor.

Resta o insubstituível “cheirinho do livro”. Para quem não abre mão dele, uma história divertida é a relatada pelo historiador americano Robert Darnton em A Questão dos Livros: Passado, Presente e Futuro, que sai no Brasil em maio. Conta que uma pesquisa com estudantes constatou que 43% deles consideravam o cheiro uma das maiores qualidades dos livros. E a única que aparentemente não poderia ser suplantada pelos livros eletrônicos. Mas uma editora online, a CaféScribe, já apareceu com uma solução: oferecer um adesivo para ser colado em seus computadores com um aroma similar.

Especialista na história do livro, Darnton mostra que o livro impresso é também uma tecnologia de leitura, que já desbancou outras, no passado: os rolos de pergaminho e as obras manuscritas, mesmo que sob severos protestos de seus defensores. Nesta área, as mudanças têm sido cada vez mais rápidas. “Da descoberta da escrita até o codex [o formato atual do livro], passaram-se 4.000 anos; do codex à tipografia, 1.150 anos; da tipografia para a internet, 524 anos; da internet para os mecanismos de busca, 17 anos; deles para o Google, 7 anos; e quem sabe o que estará ali na esquina ou vindo na próxima onda?”, pergunta.

Com ou sem cheirinho, os e-readers prometem revolucionar os hábitos de leitura, assim como o codex fez com os rolos de papiro. Em vez de duas páginas lado a lado, teremos uma única, que também servirá para exibir vídeos, acessar a internet e nos comunicar com os amigos. Podemos retomar o hábito de fazer anotações nas margens, sublinhar e usar etiquetas virtuais [tags] para catalogar o que nos interessa. Em vez de comprar livros, poderemos baixá-los numa livraria virtual imediatamente — e talvez impulsivamente, porque o preço será bem menor. Será muito simples buscar palavras-chave num grande volume de textos e assim destrinchar em poucos minutos a obra de um grande pensador sobre determinado assunto. Ou mesmo de vários pensadores ao mesmo tempo. Vamos poupar muitas árvores de serem abatidas à toa, para a publicação de livros sem importância. Mas qual será o custo disso para o universo da leitura tal como conhecemos hoje?

O tempo dirá quem vai pagar a conta.

CROWDSOURCING
Elaboração dos mais diversos conteúdos de maneira coletiva. O desenvolvimento de ferramentas interativas e o sucesso do twitter deu novo fôlego às experiências colaborativas em rede na área acadêmica e literária.

APLICAÇÕES
A enciclopédia virtual Wikipédia é um exemplo de narrativa colaborativa: em vez de especialistas contratados, quem escreve os verbetes são os leitores. Na wikiliteratura, eles também são convidados a contribuir para o desenvolvimento da história.

TÍTULOS
De olho no fenômeno, a editora americana Penguin criou o projeto A Million Penguins, que chamou de exercício de escrita criativa colaborativa com base no twitter. Nela, todas as contribuições podem ser editadas, alteradas ou removidas pelos colegas. E a BBC Audiobooks convidou o escritor Neil Gaiman para dar o pontapé inicial de um conto com uma frase de 140 caracteres, complementado depois pelos seguidores cadastrados.

INTERATIVIDADE
Total. A própria ideia de autoria se desfaz nestes projetos baseados no conceito de inteligência coletiva.
VEJA: http://www.amillionpenguins.com

FICÇÃO HIPERTEXTUAL
Também chamada de ficção não-linear, permite que o texto tome vários caminhos e até ter vários finais possíveis. Não nasceu na internet, mas ganhou impulso nela pela facilidade de criar hiperlinks, que possibilitam navegar pela história.

APLICAÇÃO
Tem grande aplicação na literatura, adequada para a criação de nova narrativas não-lineares, ou na adaptação de já existentes, como O Jogo da Amarelinha, de Júlio Cortázar.

TÍTULOS
Alguns dos mais interessantes exemplos podem ser consultados na Biblioteca Cervantes Virtual, sob a rubrica hipernovela. Vale conferir títulos como Condições Extremas, de Juan B. Gutierrez.

INTERATIVIDADE
Pode ser de dois tipos: explorativa e construtiva. Na primeira, o autor define os rumos da história, mas permite ao leitor decidir seu trajeto de leitura. Na segunda, o leitor pode inclusive modificar a história.
VEJA aqui.

HIPERMÍDIA
Narrativa que faz uso de texto, áudio, animações e vídeo para contar uma história ou desenvolver uma tese. A hipermídia não é a mera reunião da várias mídias, mas sim a fusão delas numa nova narrativa.

APLICAÇÃO
Permite que várias mídias sejam integradas e formem uma nova linguagem, com sua própria gramática. Já imaginou um livro como A Volta ao Mundo em 80 dias usando o Google Maps? É útil também em ensaios – um livro sobre a ópera, por exemplo, pode trazer imagem e áudio das encenações.

TÍTULOS
O premiado Alice Inanimada, produzida por Kate Pullinger e Chris Joseph, é um romance que utiliza uma combinação das várias mídias. Durante dez episódios vemos a menina sair de uma região remota da China para se tornar uma designer de jogos.

INTERATIVIDADE
Nem sempre é necessária. O leitor pode simplesmente acompanhar a história da forma como ela é narrada. Ou eventualmente jogar com ela.
VEJA: http://www.inanimatealice.com/

FAN FICTION
Obra de ficção criada por fãs com base em personagens de livros, filmes, mangás e animações consagradas. Sem se importar com direitos autorais, os fãs podem também tomar emprestadas situações das histórias originais.

APLICAÇÃO
Criado para diversão, o gênero também tem um potencial didático que já foi descoberto por professores de português. Em sala de aula, pode-se criar fan fictions de obras clássicas – inventado mais peripécias, por exemplo, para Leonardo Pataca, protagonista de Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida.

TÍTULOS
Embora os primeiros blogs sejam dedicados a aventuras inspiradas pela série Harry Potter, de J. K. Rowling, há histórias baseadas em Senhor dos Anéis, de J. K. Tolkien, e em Eragon, de Christian Paolini, entre outros.

INTERATIVIDADE
Em sites, blogs, fóruns e redes de e-mail, um “autor” pode controlar um personagem, discutindo com os amigos os rumos da história.
VEJA: http://fanfiction.nyah.com.br/

GAMES
Modelo narrativo não-linear, que leva o leitor a “jogar” uma história, em vez de acompanhar passivamente a trama arquitetada por um autor.

APLICAÇÃO
Atraente especialmente para o público juvenil, acostumado a interagir com videogames. Os educadores já estão de olho no potencial do formato para atualizar os livros didáticos. Já pensou estudar Geografia procurando um tesouro nos Andes?

TÍTULOS
Em 2008, a editora americana Scholastic publicou o primeiro livro da série The 39 Clues – lançado no Brasil pela Ática. Escrito por Rick Riordan, autor de Percy Jackson & Os Olimpianos, o livro entrou imediatamente nas listas de mais vendidos nos Estados Unidos.

INTERATIVIDADE
No caso de The 39 Clues, um website, figurinhas colecionáveis, quebra-cabeças, jogos on-line ajudam o leitor-jogador a seguir as pistas que revelam o passado da família Cahill e de personagens históricos, como Benjamin Franklin e Anastasia Romanov.
VEJA: http://www.the39clues.com

REALIDADE AUMENTADA
Marcada com um código especial, uma página de livro exibe objetos tridimensionais na tela do computador quando colocada em frente à webcam. São imagens, sons e textos que acrescentam informações ao conteúdo impresso, numa mistura de mundo virtual e real.

APLICAÇÃO
Útil para livros infantis e enciclopédias, que poderiam trazer mapas, gráficos e objetos animados e em 3D.

TÍTULOS
As crianças que foram à Feira de Frankfurt em 2008 puderam se deliciar com as experiências da Metaio, uma empresa alta tecnologia alemã que apresentou os livros Aliens & UFOs. Este ano, as inglesas Salariya Book Company e Carlton lançaram títulos como O que Lola Quer… Lola Tem e Dinossauros Vivos!

INTERATIVIDADE
O que diferencia essa tecnologia dos pop-ups tradicionais [livros de papel em que as ilustrações são montadas em 3D] é que os objetos em 3D se mexem e acompanham o leitor, seguindo seus movimentos.
VEJA: http://www.metaio.com

VOOK
Um livro em que a informação do texto é complementada com vídeo – algo parecido com o jornal Profeta Diário dos filmes de Harry Potter, em que as reportagens trazem, em vez de foto, personagens em movimento.

APLICAÇÃO
Útil para livros de receitas culinárias ou de ginástica, em que o leitor poderá ver os movimentos necessários em vídeo. Em ficção, contudo, seu uso é polêmico, por tirar do leitor o prazer de imaginar rostos e cenários.

TÍTULOS
Disponíveis hoje para iPhone e tablets – não para Kindle. Em ficção, Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol, e A Estranha História do dr. Jekyll e mr. Hyde, de Robert Louis Stevenson. Há ainda obras exclusivas para o formato, como Promessas, de Jude Deverauz.

INTERATIVIDADE
O leitor pode se conectar com o autor, acessar links úteis e comentar a história com seus amigos ou outros leitores nas redes sociais, como o Twitter e o Facebook.
VEJA: http://www.vook.com

Cristiane Costa – Sean Mackaoui – Revista BRAVO – Abril 2010

Leitor digital brasileiro chega ao mercado em junho


Empreendedores de Pernambuco desenvolveram o Mix Leitor D, um e-reader voltado ao mercado educacional, com software brasileiro que permite interatividade

Leitor digital brasileiro chega ao mercado em junho

Estratégia da empresa é o foco na educação

Kindle, iPad, Slate, Reader e mais um mundo de opções para a leitura digital chegam prometendo revolucionar o mercado. Em meio a gigantes como Sony e Apple, uma empresa pernambucana de 30 funcionários quer colocar um leitor digital brasileiro no páreo.

A Mix Tecnologia, em parceria com a empresa Carpe Diem Edições e Produções, terminou o desenvolvimento do Mix Leitor D, um leitor digital voltado ao mercado da educação.

Tudo começou com uma conversa informal. “Em 2008, um dos diretores da Carpe Diem viajou aos EUA e, quando ele voltou, conversamos sobre o Kindle. Nesta conversa, surgiu a pergunta: será que não conseguimos fazer um brasileiro?”, diz Diego Mello, um dos diretores do projeto.

Desde então, a ideia começou a ser estudada e desenvolvida. Em junho de 2009, as empresas lançaram o conceito do Mix Leitor D e o protótipo do produto. Agora ele é real e a companhia deve começar a vendê-lo em junho deste ano. “Ainda estamos negociando isenções fiscais. Dependendo do resultado, o aparelho pode custar entre R$ 650 e R$ 1.100”, diz Mello.

Entre tantas opções de grandes empresas, a Mix Tecnologia pretende diferenciar seu produto pelo público-alvo. O foco é o mercado educacional. Para isto, a empresa desenvolveu um software batizado de Inter Quiz [IQ], que permite interatividade com os livros que estiverem sendo lidos. “Se um aluno está lendo um texto sobre descobrimento do Brasil, por exemplo. Na tela, ficará presente o ícone ‘IQ’. O usuário pode clicar ali a qualquer momento e logo aparecerá uma tela com questões sobre descobrimento do Brasil”, afirma. para responder, basta usar o teclado do gadget. Ao final, aparece um percentual de erros e acertos e comentários sobre a matéria em questão.

Para distribuir o produto, a empresa estuda a parceria com colégios privados e universidades. O varejo convencional também deve ser um importante canal, principalmente por meio de parceria com livrarias.

O usuário do Mix Leitor D pode baixar conteúdo de qualquer biblioteca digital ou livros de domínio público. Para isto, o equipamento também tem WI-FI e conexão 3G. A Mix Tecnologia também quer ter sua própria loja virtual, mas o plano ainda dependente de parceria com outras empresas.

Os aparelhos de leitura digital e a transformação da indústria editorial são assunto da revista Época NEGÓCIOS de março, que chega às bancas nesta quarta-feira [10/03].

Época Negócios | Por Lilian Sobral | 11/03/2010

Livro eletrônico ”made in Brasil”


Empresa de Pernambuco lança e-book reader para concorrer com Apple, Sony e Amazon

Com 30 funcionários, seis anos de vida, faturamento anual de R$ 2,5 milhões e uma sede discreta na Ilha do Leite, no Recife, a Mix Tecnologia quer brigar com gente grande. Em junho, a empresa vai lançar o primeiro leitor eletrônico de livros com software 100% nacional – um equipamento que vai dividir espaço no mercado brasileiro com produtos de gigantes do mundo da tecnologia, como Apple, Sony e Amazon.

Quem é empreendedor tem de ter essa veia de aventura“, diz o pernambucano Murilo Marinho, que fundou a empresa em 2004, assim que concluiu a faculdade de Ciências da Computação. “Conciliamos, claro, um pouco de loucura a uma base sólida de conhecimento tecnológico.” Marinho brinca com a ousadia que o levou a desenvolver o primeiro “e-book reader” nacional , mas tem um discurso consistente para defendê-lo e diferenciá-lo dos maiores, Kindle e iPad.

O aparelho brasileiro está sendo criado, inicialmente, para ser usado em sala de aula, com função essencialmente educacional. A ideia é que o professor use o dispositivo para agendar tarefas, aplicar testes, fazer apresentações. Para isso, todos os alunos teriam de ter o aparelho. “O Brasil é o maior consumidor de livro didático do mundo“, diz Marinho. “Hoje tem escola fazendo rodízio de livros, para o aluno não levar tanto peso nas costas. Queremos oferecer uma alternativa.

O aparelho foi batizado de Mix Leitor D. Além de leitor, ele oferece funções como dicionário, tradutor, agenda e calendário. Pesa 400 gramas e tem de 1 GB a 4 GB de capacidade dependendo do modelo. Deve ter conexão à internet com portal que direciona o usuário para bibliotecas de domínio público. O visual lembra muito o Kindle, embora o criador não admita comparações. O preço de cada aparelho deve variar de R$ 650 a R$ 1.100.

A Mix Tecnologia está tentando fechar contratos com universidades, escolas, governos estaduais e municipais. Diz ter começado o ano, mesmo antes do lançamento, com uma encomenda de 5 mil unidades. O segundo passo, de acordo com o empresário, é fazer clientes na área jurídica e fechar contratos com tribunais de Justiça de todo o País. Mendes não informa o estágio dessas negociações, por “questões estratégicas”, diz apenas que nenhum desses mercados está em Pernambuco, berço da ideia. Para tornar o Mix leitor D uma realidade, foram necessários R$ 2 milhões até agora. O investimento é uma parceria da própria empresa de tecnologia com a editora que motivou o projeto, a Carpe Diem, do escritor e empresário Antônio Campos.

Estudioso e amante dos livros de papel, Campos começou a pesquisar o alcance dos e-readers e identificou neles um novo mercado. “O livro já foi oral, já foi escrito em pedras e só vai crescer”, diz. Ele acredita que o livro eletrônico vai ganhar espaço rapidamente embora ainda deva conviver por um bom tempo com a plataforma impressa. “Essa transformação será mais ágil com os livros didáticos, já que a atualização torna-se muito mais rápida no meio eletrônico.” Campos já se considera um colecionador de leitores: tem um Kindle, o e-reader da Sony, o Mix Leitor D e espera para comprar um iPad.

DIFICULDADES

O maior desafio da Mix Tecnologia foi desenvolver o projeto e colocá-lo no mercado num prazo máximo de dois anos, “para não perder a onda”. Quando o Mix Leitor D ainda era uma ideia, o grupo pensou em construir uma fábrica no Recife para produzi-lo. Documentação, alvarás, autorizações em todas as esferas públicas, no entanto, inviabilizariam os planos.

Como já é comum no setor de tecnologia, o jeito foi apelar para a China. O leitor foi desenvolvido no Brasil, mas ganha forma do outro lado do mundo. Os primeiros aparelhos começam a chegar em maio.

Além do ambicioso projeto do leitor D, a Mix Tecnologia desenvolve outros duas ideias, também ambiciosas. Murilo Mendes e sua equipe criaram um sistema de controle para entrada e saída de turistas em Fernando de Noronha. O programa gerencia quanto tempo cada um dos visitantes passou na ilha, por onde passou e em que pousada ficou.

E eles também pretendem faturar com a Copa do Mundo de 2014. Desenvolveram uma rede social inédita, batizada de Arena, para gerenciar eventos esportivos, com uma base de dados única, com informações turísticas e sobre o evento. O projeto já foi selecionado e premiado pela Financiadora de Estudos e Projetos [Finep], do governo federal.

Estado.com – Terça-Feira, 09 de Março de 2010 – Por Naiana Oscar

E-reader 100% brasileiro


(BR Press) - Mix Tecnologia lança leitor digital de livros com preços mais acessíveis e pode levar vantagem na competição com e-readers da Amazon e Apple. Por Gabriel Bonis.

A empresa Mix Tecnologia lança em junho o Mix Leitor-d, primeiro leitor digital de livros brasileiro. O aparelho possui tela de seis polegadas, 400 gramas, capacidade para armazenar aproximadamente 1,5 mil livros e uma bateria que resiste a mais de oito mil trocas de páginas. O preço deve ficar entre R$ 650 e R$ 1,1 mil.

Multi-disciplinar

O Mix Leitor-d trabalha com funções como dicionário, tradutor, agenda e calendário. Além disso, pode acessar conteúdo de instituições de ensino como notas e horários – caso seja utilizado por estudantes.

O e-reader brasileiro deve competir no mercado nacional com o Kindle da Amazon, que no Brasil chega a custar mais de R$ 1000,00 – nos EUA o valor fica em torno de US$ 250,00 [R$ 450,00], dependendo da versão do equipamento. O iPad da Apple, que deve chegar ao país no segundo semestre, também entra na briga com preços nas lojas americanas entre US$ 499 [R$ 898,00] e US$ 629 [R$ 1132,00].

Gabriel Bonis | Especial para BR Press | Ter, 02 de Março de 2010 10:56

Ele vai matar o livro


A varejista virtual norte-americana Amazon.com vendeu mais livros eletrônicos do que físicos no Natal de 2009

Da forma que conhecemos, o livro está fadado a sumir?

A varejista virtual norte-americana Amazon.com vendeu mais livros eletrônicos do que físicos no Natal de 2009. O Kindle, seu popular e-book, também foi o presente mais comprado da história da companhia. Os investidores começam a ficar irritados com a companhia de Jeff Bezos por não divulgar dados específicos sobre o desempenho comercial do produto.

At questão não é de números, mas de lógica. Assim como aconteceu com a indústria de música e a cinematográfica, o setor editorial também vai ter de se adaptar ao formato digital. Não será um tsunami, mas deixará os seus esqueletos pelo caminho.

O primeiro corpo será o livro no seu formato físico. O outro cadáver serão as editoras que acreditarem que a profecia é apenas previsão de falsos profetas apocalípticos. Há várias vantagens no livro eletrônico. Em primeiro lugar, ele é ecológico. Não é preciso derrubar árvores para produzi-lo. Ele também poupa espaço nas estantes dos leitores. O Kindle, por exemplo, pode guardar até 1,5 mil obras. Não se esqueça de que ele é portátil. Portanto, é possível levar sua biblioteca completa na pasta ou mochila. As telas dos e-books estão também cada vez mais sofisticadas e menos brilhantes. Quem já teve a experiência de ler em um Kindle diz que depois de minutos o formato eletrônico deixa de ser notado. O que resta é o prazer da leitura. É isto o que importa, independentemente de o livro ser digital ou de papel.

As editoras parecem já ter percebido que o livro no formato físico é um “animal” a caminho da extinção. Uma pesquisa realizada na Feira de Frankfurt com mais de mil representantes do mercado editorial de todos os continentes indicou que eles acreditam que em 2018 os livros eletrônicos superarão em volume de negócios os de papel. No Brasil, a Zahar começou a disponibilizar parte do seu acervo por meio da Gato Sabido, a primeira loja puro-sangue de e-books do País.

Os escritores Paulo Coelho e Rubem Fonseca já vendem seus livros em formato digital. E a recifense Mix Tecnologia promete lançar o primeiro aparelho brasileiro para ler livros eletrônicos. O Mix Leitor D chegará ao mercado no primeiro semestre de 2010. Ele se somará aos fabricados pela Samsung, Fujitsu, Sony e Amazon. Há outro incentivo que promete impulsionar ainda mais o livro eletrônico no Brasil. A Justiça decidiu que os leitores de e-books contem com a mesma imunidade tributária de livros e revistas importados. Até agora, eles vinham sendo tratados como eletrônicos, cuja taxa é de 60%.

Desde que a primeira Bíblia foi impressa por Gutenberg, em 1455, nunca houve uma tecnologia que tivesse durado por mais de 500 anos. O livro, neste período, pouco mudou do seu formato original. Se Gutenberg ainda estivesse vivo, provavelmente reconheceria um exemplar nos dias de hoje. O fundador da Amazon.com, Jeff Bezos, revolucionou o varejo quando fundou a empresa em 1994. Agora, ele está mudando a forma como lemos. Eu não sentirei saudade das traças.

Artigo publicado originalmente em ISTOÉ Dinheiro | Por Ralphe Manzoni Jr. | Nº EDIÇÃO: 640 | 21/02/2010 – 16:05