Digital Book World acontece em março


Conferência deve reunir 1.500 profissionais do livro para discutirem os rumos da indústria digital do livro

Digital Book WorldCerca de 1500 profissionais do livro devem se reunir na Digital Book World [DBW], marcada para acontecer entre os dias 7 e 9 de março, em Nova York. A conferência idealizada pelo colunista do PublishNews Mike Shatzkin discute os rumos do livro digital, as estratégias para a transformação digital da indústria do livro, apontando tendências e novas possibilidades para a indústria editorial. Entre os destaques da programação, estão John Ingram, presidente e CEO da Ingram; Scott Galloway, professor de marketing da Universidade de Nova York; Dominique Raccah, CEO da Sourcebooks; Virginia Heffernan, escritora que colabora dom a New York Times Magazine, e May Ann Naples, vice-presidente sênior da Rodale Books. Para mais informações e inscrições, acesse o site da DBW.

Redação PublishNews | 11/12/2015

eBooks mudam o jogo para o catálogo e a exportação


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 27/10/2015

Para Shatzkin, qualquer política de gestão de direitos que impeça um e-book de ser vendido em qualquer lugar provavelmente custará algumas vendas

Há dois aspectos do negócio que os e-books realmente devem mudar. Uma é que os e-books podem realmente levar a aumentos nas vendas do catálogo. O outro é que os e-books vão realmente permitir vendas fora do território de origem da editora.

Essa segunda questão nem vai exigir muito esforço. Em uma conferência chamada Camp CoreSource organizada pela Ingram recentemente, Mary Cummings da Diversion Books, que lançou no ano passado uma app e-bookstore somente para livros de romance, EverAfter Romance, contou que pouco menos da metade dos usuários do app EverAfter são de fora do mercado “interno” dos EUA. Desses 49%, só cerca de 6% são do Reino Unido e do Canadá. Claro, a Diversion detém os direitos mundiais de muitos títulos. E o resto do mundo tem bem mais do a metade das pessoas, bem mais do que a metade dos falantes de inglês, no mundo. Assim, os EUA ainda são responsáveis por mais usuários per capita, mas isso tem uma importância secundária. Conseguir metade dos clientes de mercados que teriam sido muito difíceis de alcançar há dez anos – sem qualquer esforço extraordinário – é algo muito novo.

Esta realidade global surge em outra frequente discussão atual. As grandes editoras estão sugerindo que as vendas de e-books se estabilizaram, talvez até mesmo diminuíram. A Amazon diz que “não é verdade”, que as vendas de e-books ainda estão aumentando. Algumas análises, como a que é feito pelo Data Guy for Author Earnings, dizem que os grandes livros das editoras estão perdendo participação nos e-books para os independentes, baseando-se principalmente em dados da Amazon para afirmar isso. As explicações mais comuns oferecidas são que o sucesso das editoras ao forçar um aumento nos preços dos seus títulos, combinado com um declínio em novos convertidos para e-books (que têm a tendência a “carregar” seus dispositivos quando começam a ler digitalmente) conta para a aparente tendência.

Mas a comparação pode ser distorcida. Todas as vendas da Amazon fora dos EUA que não são feitas através de uma loja local da Amazon são creditados à loja dos EUA. E quando a Amazon distribui e-books independentes, eles sempre (ou pelo menos quase sempre) têm direitos globais. Então poderia muito bem ser o caso, e muitas vezes é, de que os e-books de editoras que estão sendo comparados aos e-books independentes estão trabalhando em uma base territorial menor para vendas. Há um problema de misturar maçãs com laranjas que torna difícil comparar as vendas de e-books independentes da Amazon com as das editoras.

A questão a entender é que só ter e-books à venda em todo o mundo pode trazer mercados à porta de um cliente, onde quer que o livro tenha sido publicado. Qualquer política de gestão de direitos que impeça um e-book de ser vendido em qualquer lugar provavelmente custará algumas vendas.

O desafio do catálogo é ainda mais complicado e os resultados podem não ser tão óbvios. Dois dos maiores impulsionadores das vendas de e-books são encontrados em resposta à pesquisa e ao efeito amplificado do impulso de vendas existentes na lista dos mais vendidos e nas recomendações da livraria. (“As pessoas que compraram esse, compraram aquele.”) Uma forte lei de distribuição parece inerente nas vendas de e-books. Aqueles que vendem desenvolvem impulso de vendas; aqueles que não, permanecem escondidos e enterrados.

Mas muito disso tem a ver com metadados. As editoras estão melhorando na redação da descrição que determina se os motores de busca conseguem identificá-la como uma “resposta” às consultas certas. Isso significa que, quando voltamos no tempo, é cada vez menos provável que a apresentação seja útil para isso.

E há algumas realidades sobre orçamentos e esforços de alocação em grandes empresas para levar em conta. Boa parte dos orçamentos e dos esforço internos de alocações para marketing vão para os lançamentos. O catálogo é muitas vezes maior que o número de títulos sendo lançados, então menor a quantidade de dinheiro e trabalho é dedicado a um número muito maior de títulos. Em uma base por título, quase não há nenhum recurso disponível para o catálogo. E como as vendas de e-books de catálogo não são geralmente robustas, prever o ROI necessário para aumentar essas alocações orçamentais requer coragem. Ou imprudência.

Depois estão as realidades políticas corporativas. Novos livros têm defensores. Estão os editores que fizeram os contratos e cujas carreiras serão afetadas pelo resultado. Sempre há alguém olhando para os lucros, firme na crença de que poucos livros do catálogo podem mover a agulha da mesma forma que um novo título. E as empresas e os editores são os que conhecem os livros e dizem aos publicitários como eles são e (muitas vezes) a quais públicos estão destinados.

E, acima de tudo, as editoras muitas vezes contam com as vendas do catálogo para aumentar o lucro, precisamente porque não precisam alocar gastos com marketing ou tempo da equipe para esses livros. Às vezes parece existir um medo nas editoras de que começar a gastar esforços de marketing no catálogo seria como abrir uma caixa de Pandora que comprometeria o aspecto mais rentável de seus negócios.

Mas há sinais de esperança de que isso está mudando.

Carolyn Reidy, a CEO da Simon & Schuster, falou na recente reunião anual do Book Industry Study Group sublinhando como a S&S mudou sua abordagem sobre como capturar oportunidades de trabalhar com o catálogo. Reidy afirmou que entre impressos comprados on-line e e-books, mais de 60% das vendas da empresa aconteciam via Internet. Contou que na reunião semanal de marketing na S&S, que tenho certeza era quase exclusivamente orientada para os lançamentos até muito recentemente, eles já estão olhando para seus livros “através de uma lente de oportunidades diárias”. Isso poderia incluir perceber se um livro está listado para um prêmio ou foi mencionado em um programa de TV ou um tuite de uma celebridade. As chances de que um livro será descoberto por alguém procurando pelo livro desta forma são multiplicadas se a descrição do livro apontar os motores de busca na direção certa.

Esta é uma abordagem que vimos pela primeira vez na Open Road Digital Mediaalguns anos atrás. O “calendário de marketing” deles, voltado para feriados e eventos previsíveis como formaturas, não a data de publicação dos próximos livros. Claro, Open Road não tinha nenhum lançamento naquele momento. Todos os livros que adquiriram nos primeiros dias da empresa eram catálogo com direitos digitais de alguma forma disponíveis. Eles transformaram uma deficiência em uma virtude. Mas fazer o marketing do catálogo à luz das “oportunidades diárias” mais atuais é precisamente a coisa certa a fazer.

É interessante notar que quando Reidy falou na Digital Book World em janeiro de 2014, ela apontou para as oportunidades no mundo global. No ano anterior, notou, a S&S tinha vendidos e-books em mais de 200 países.

O reconhecimento de uma oportunidade é um primeiro passo e atribuir recursos humanos e de capital para aproveitá-la é a segunda. Mas as maiores editoras também vão precisar de ferramentas digitais para explorar plenamente o que está se abrindo para elas. Quando olhamos para o que Open Road estava fazendo, eles tinham cerca de mil títulos em sua loja, sendo que todos tinham acabado de ser adquirido pela equipe. Podiam pensar neles. As maiores editoras possuem dezenas de milhares de títulos em seus catálogos, muitos (senão a maioria) dos quais foram adquiridos e lançados por editores e publishers que já não são mais funcionários. Muitos deles possuem descrições velhas e desatualizadas que não podem ser atualizadas facilmente porque ninguém trabalhando lá agora conhece o livro.

Em breve será visto como necessário empregar tecnologia para monitorar as notícias e mídias sociais e para “mostrar” os resultados de cada “oportunidade diária” das possibilidades do catálogo. Por um bom tempo ainda vai ser necessário empregar seres humanos para fazer alguma investigação orientada para o que são hoje termos de pesquisa relevantes e escrever a descrição que irá responder a eles, mas a assistência tecnológica vai multiplicar a eficácia dos esforços humanos.

Devemos esperar que os catálogos comecem a aumentar sua participação nas vendas anuais de todas as editoras. E devemos esperar que aconteça o mesmo com as vendas no exterior.

Há relatos recentes dos EUA e do Reino Unido de que as vendas unitárias de impressos estão crescendo, enquanto as vendas unitárias dos e-books estão caindo. Isso está sendo comemorado por alguns como uma indicação de que os consumidores de livros estão se afastando da leitura digital para voltar ao impresso. Talvez porque eu intuitivamente ache isso pouco provável, posso pensar em algumas advertências.

As supostas reduções e crescimento são bem pequenas e as técnicas de medição são bastante cruas, portanto, existe uma questão de precisão. Mas também sabemos – como foi referido no corpo principal do post acima – que novos convertidos ao e-book tendem a “carregar” seus dispositivos digitais quando começam a ler dessa forma. Acredito que as compras no começo são um pouco “aspiracionais”, mas depois se estabelecem em um ritmo mais parecido com a substituição. Assim, as compras de e-books são infladas no início da “carreira” de leitura de e-books. Menos leitores novos de e-books a cada mês (o que certamente acontece) significa menos pessoas carregando os aparelhos.

Claro, o crescimento das vendas de livros impressos, que é a implicação dos dados recentes, é uma marca independente que, se confirmada ao longo do tempo, requer outra explicação e isso eu ainda não tenho.

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 27/10/2015

Mike ShatzkinMike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Organiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro. Em sua coluna, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era tecnológica. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin

Demonstração de que a Amazon ajuda mais os interesses do autor do que os editores


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 29/07/2015

A Authors Guild e seus aliados recentemente apelaram ao Departamento de Justiça para investigar o possível controle monopolista da Amazon do negócio do livro. É difícil discutir com o fato de que a Amazon vende mais livros para os consumidores do que qualquer conta única já fez e que a empresa está, inevitavelmente, mudando a economia do mercado como resultado disso.

Embora aqueles que lutam contra a Amazon possam e irão apontar as situações nas quais, eles consideram, a Amazon leva uma vantagem injusta por sua posição no mercado, existem dois aspectos no que aconteceu nos últimos 20 anos que os críticos que defendem a intervenção do governo quase certamente ignoram.

A maior parte do sucesso da Amazon é devido ao seu próprio desempenho estelar: inovando, investindo, executando e tendo uma visão do que poderia acontecer quando eles crescessem.

A maior parte do que a Amazon fez para construir seu negócio – quase tudo o que eles fizeram até os últimos anos de dominação do Kindle – beneficiou a maioria das editoras e ajudou no crescimento de suas vendas e sua rentabilidade. [Na verdade, a indústria editorial foi o único setor no mercado de mídia que não caiu de um penhasco na década ao redor do milênio e um forte argumento poderia ser o de que a Amazon na verdade foi quem os salvou.]

Isso não terminou. O exemplo mais recente foi anunciado recentemente. A Amazon agora permite que os leitores se inscrevam nas páginas de seus autores favoritos para receberem notificação dos próximos livros. Isso demonstra mais uma vez a disposição da Amazon para inovar. E ao fazer isso, também beneficia as editoras – um aumento imediato na venda de novos livros para os membros dessas listas dos autores. Mas existem grandes chances de que os autores ficarão mais interessados do que os editores. Esse aspecto da iniciativa vai alimentar a reclamação de que “a Amazon está querendo dominar tudo!”.

Em nosso negócio de marketing digital, muitas vezes mostramos a editoras e autores que a criação de uma página do autor robusta e completa na Amazon deveria ser um elemento-chave da pegada digital de qualquer autor. É vista por um monte de gente e será indexada pelo Google, reforçando a compreensão do Google de quem é o autor e aumentando a probabilidade de que ele será encontrado através de uma busca, até mesmo buscas que não incluam seu nome ou seus títulos de livros. Olhando para tudo isso da perspectiva da editora como tendemos a fazer neste blog, defendemos que as editoras precisam incentivar – ou criar – sites para o autor bem feitos e com bom SEO ou vão correr o risco de que a página do autor na Amazon, ou até mesmo a página do livro, se torne o resultado principal quando alguém fizer uma busca pelo nome do autor.

Quando falamos de site do autor, enfatizamos a importância de construir a base de fãs em tamanho e intensidade. Entre as grandes agências literárias que investem em ajudar os autores com sua presença digital [e são muitas], ajudamos uma a descobrir as técnicas para ensinar seus autores a reunir nomes em listas de e-mail [ou o que Seth Godin chamou de “permissões” pela primeira vez há cerca de duas décadas, quando foi um dos primeiros a ver o valor da construção de listas de e-mails].

Agora a Amazon fez, da forma como sempre faz [simples e só para ela], com que isso seja incrivelmente fácil. Conhecemos editores que se perguntam por que um autor precisaria de um site próprio, em vez de apenas uma página no site da editora. Há muitos motivos que podem ser verdadeiros, incluindo a aparente relutância de muitos editores de “promover” os livros que um autor publicou com outra editora antes. Mas agora os editores poderiam ouvir autores fazendo essa pergunta mas de uma maneira diferente. Por que eles precisam de outra página na web, além da que possuem na Amazon?

Esta discussão não é nova. Goodreads, que foi comprado pela Amazon, faz tempo que permitiu que os fãs se inscrevessem na página de autores, um recurso que foi atualizado recentemente. Da mesma forma que algumas editoras, mas muito raramente para ser algo eficaz. Elas costumam colocar as páginas dos autores em silos – como um “catálogo” – que não vai ter muito tráfego e pouca participação. As páginas de autor estão incompletas. Não fazem promoção interativa.

Assim, ainda há uma resposta à pergunta do autor: o que mais eles podem precisar? O que a Amazon criou não entrega verdadeira conexão direta entre autores e fãs. Na verdade, os fãs estão se inscrevendo na Amazon – através da página do autor – para receber notificações que virão da Amazon. Há pouca indicação de que haverá algum outro compartilhamento da lista do autor, ou quaisquer outras oportunidades criadas para o autor e a base de fãs de se comunicarem [embora “autores convidados” poderão conseguir criar uma mensagem personalizada junto com o anúncio]. Mas a coisa mais importante que um autor gostaria de dizer aos seus/suas fãs é “eu tenho um novo livro saindo” e a Amazon resolveu isso.

E ao fazer isso, eles aumentaram o controle que têm do mercado editorial e destacaram mais uma vez que parte do terreno que estão tomando é aquele que as editoras simplesmente cedem. Qualquer editora que não esteja ajudando os autores a se relacionarem com seus leitores e criando ativamente suas próprias listas de e-mail para alertar os interessados sobre os novos livros percebeu agora que estão atrasados. Mas uma coisa ainda é verdade: melhor tarde do que nunca.

Ajudar autores com a pegada digital deles precisa subir na lista de prioridades de cada editora.

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 29/07/2015

Mike Shatzkin

Mike Shatzkin

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Organizada anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].

 

A Amazon é amiga ou inimiga?


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 10/04/2015 | Tradução Marcelo Barbão

Fui convidado para me unir a uma discussão chamada “Amazon: Amiga ou Inimiga” [no caso “para as editoras”] bancada pelo Digital Media Group da Honorável Companhia de Impressores [só na Inglaterra!] e que vai acontecer em Londres no próximo dia 13. Acho que a resposta deve ser “as duas coisas”, e tenho a suspeita de que meus companheiros de discussão — Fionnuala Duggan, que já foi da Random House e da CourseSmart; Michael Ross, da Enciclopédia Britânica, e Philip Walters, o moderador da conversa, vão concordar. É uma questão simples com muitas respostas complicadas. Tenho certeza de que Fionnuala, Michael e Philip vão apresentar algumas perspectivas que não tratarei aqui.

Os primeiros pensamentos que a pergunta traz para mim são as três formas pela qual a Amazon mudou profundamente a indústria.

Apesar de que quase toda editora tem dores de cabeça ao negociar com a Amazon, poucas poderiam negar que ela é a conta mais lucrativa, se levarem em consideração volume de vendas, retornos e o custo dos serviços. Este fato quase nunca é reconhecido e, portanto, pode ser classificado como um dos pequenos segredos da indústria. Como está consolidada entre a audiência que compra livros online e entrega com extraordinária eficiência, a Amazon deve achar que está totalmente justificada em ser dura nos descontos; afinal são a conta mais lucrativa de todas as editoras! Mas como estão realmente substituindo muitas outras contas robustas, a lucratividade que acrescentam coloca um preço alto na estabilidade e confiabilidade do negócio editorial, que se sente muito mais confortável com uma quantidade maior de contas. As editoras resistem bravamente às exigências da Amazon para mais margem, parcialmente porque não sabem até onde irão estas exigências.

Também é verdade que a Amazon criou quase sozinha o negócio do e-book. Sim, ele existia antes da criação do Kindle, em novembro de 2007, mas era insignificante. Foi preciso a combinação que somente a Amazon poderia juntar para fazer com que o mercado realmente surgisse. Eles criaram um aparelho de leitura com conectividade interna para download direto [o que, naquele tempo pré-wifi, exigia correr o risco real de que os preços de conexão pudessem matar a margem]. Eles tinham o poder para persuadir as editoras a colocar mais livros, especialmente novos títulos, disponíveis como e-books. E tiveram a atenção e a lealdade de uma porcentagem significativa de leitores de livros para defender os e-books. Com tudo isso e a disposição de investir em um mercado que não existia, a Amazon criou algo do zero. Tudo que aconteceu desde então – Nook, Apple, Google e Kobo – não teria funcionado se a Amazon não tivesse aberto o caminho. Na verdade, eles poderiam nem ter tentado! Steve Jobs desdenhou completamente os e-books como negócio antes de a Amazon ter demonstrado que eram downloads pelos quais muita gente estava disposta a pagar.

A outra grande mudança na indústria que é significativa, mas poderia não ter acontecido sem a Amazon é a autopublicação. O sucesso do Kindle gerou facilidades e barateou a forma para chegar a uma porção significativa da audiência que compra livros com preços baixos e margens altas. A Amazon também contribuiu com a criação de uma interface fácil de usar e um autosserviço eficiente. Novamente, outras empresas seguiram o caminho, incluindo a Smashwords. Mas quase todas as editoras de autopublicação que conseguiram sucesso comercial devem agradecer à Amazon. Parece que, pelo menos no espaço do e-book, as autopublicações vendem tantas unidades quanto algumas editoras das Cinco Grandes e, em ficção, até ultrapassam. Sem a Amazon, isso não poderia ter acontecido.

Então, destas três maneiras a Amazon realmente mudou a indústria – consolidando o grosso dos compradores de livros online, criando o negócio do e-book e permitindo que a autopublicação se tornasse viável comercialmente – as editoras teriam que falar que as duas primeiras foram benéficas [amiga] e a última seria melhor não ter acontecido [inimiga].

A segunda grande questão para esta discussão da Amazon tem a ver com a assimetria entre o que a Amazon conhece da indústria e o que a indústria conhece da Amazon. Dados sobre a indústria editorial são notórios por serem pouco conhecidos e por causa do grande número de audiência e modelos comerciais no “negócio do livro”, que são difíceis de interpretar de forma inteligente. A Amazon, por outro lado, tem sua própria forma de tornar as coisas opacas ao não compartilhar informações.

A primeira indicação disso é que a Amazon não usa o número ISBN que é padrão da indústria; eles têm seu próprio número chamado ASIN. Então enquanto a indústria tem uma contagem total de títulos através das agências de ISBN que exige um grau próprio de interpretação, os títulos publicados exclusivamente pela Amazon, que só possuem ASINs e não ISBNs, são um “buraco negro” total. Ninguém, exceto a Amazon, sabe quantos existem e em que categorias podem ser colocados.

Outra parte do negócio da Amazon que possui uma relevância crítica para o resto da indústria, mas está totalmente escondida é seu negócio de livros usados. Há uma discussão a ser feita de que o mercado de livros usados que a Amazon alimenta na verdade ajuda as editoras a vender seus livros novos com preços mais altos dando aos consumidores uma forma de recuperar seu dinheiro. Mas também é verdade que as pessoas estão comprando cópias usadas de livros que, em outra situação, teriam comprado novos, com a escolha usada mais barata sendo oferecida para eles já quando o livro é publicado. Poderíamos assumir intuitivamente que o efeito se torna cada vez mais corrosivo com títulos mais antigos e o suprimento de cópias usadas continua aumentando com a queda na demanda do livro, fazendo com que o preço dos livros usados caia. Mas ninguém fora da Amazon sabe algo sobre isso, incluindo o tamanho do mercado.

E da mesma forma, não temos ideia de qual é o tamanho do negócio de livros proprietários da Amazon: os títulos que somente eles publicam. Além de não saber quantos há ou em que categorias estão, nós não podemos interpretar como as vendas dos títulos publicados pela Amazon poderiam afetar as perspectivas para títulos que uma editora poderia ter contratado. Só a Amazon possui essa perspectiva para informar sobre seus títulos, seu merchandising, e medir a extensão de sua capacidade de alavancar vendas nas negociações com editoras.

Voltando à pergunta original, exceto pela possibilidade de que as vendas de algum novo livro ocorram porque o comprador confia na possibilidade de revender, isso é tudo parte do inimigo!

Em retrospectiva, é claro que a grande vantagem da Amazon foi que eles sempre tiveram a intenção de usar o negócio do livro como um trampolim para uma jogada maior; nunca viram os livros como um fim em si mesmo. Isso foi uma antecipação do futuro que ninguém dentro do negócio do livro entendeu quando estava acontecendo, nem foi imitado por outros participantes que somente estão dentro do negócio dos livros. Mas foi a chave da economia da Amazon. Eles não precisavam ganhar muita margem nos livros; estavam concentrados no “valor do cliente eterno” e viram muitas formas de conquistá-lo. Google e Apple têm a mesma realidade: livros para eles estão a serviços de propósitos maiores. Mas começaram com propósitos maiores e, por esta e outras razões, nunca conseguiram ser tão bons quanto a Amazon com livros. [Uma grande deficiência das ofertas da Google e da Apple é que são apenas digitais; eles não imprimem livros.] E a B&N e a Waterstone’s nunca pensaram além de livros; parece que a Waterstone’s nunca pensou muito além das lojas físicas!

Mas pode ser que a Amazon esteja se aproximando dos limites de sua parte do mercado de livros. O que eles trabalharam no mundo de língua inglesa – para livros impressos há duas décadas e e-books há quase uma década – porque foram os primeiros e foram capazes de agregar um enorme case de clientes antes da existência de qualquer desafio sério. Não vai ser tão fácil dominar novos mercados hoje, especialmente aqueles que têm regras que dificultam a competição de preços. Diferenças de linguagem significam que mercados de livros vão permanecer “locais” por um bom tempo e será difícil para a Amazon deslocar os fortes atores locais.

A Amazon tem poderosas ferramentas para manter seus clientes. Prime é a mais eficiente: quando os clientes pagam uma taxa substancial para envios gratuitos, é pouco provável que comprem em outro lugar. O Kindle é outro. Os aparelhos e os apps possuem ampla distribuição e, por causa da autopublicação, Kindle continua a livraria com a maior seleção.

O mercado está mudando, claro. A grande vantagem da Amazon é ter a maior seleção de livros impressos e digitais em um único lugar. Todos sabem há décadas que este é o melhor ímã para atrair compradores de livros. Mas agora muitos livros estão sendo lidos sem a compra nas livrarias como antes. Estamos no começo de uma era de “distribuição distribuída”. Muitas ofertas tecnológicas diferentes — Aerbook, Bluefire, De Marque, Page Foundry e Tizra entre elas — podem facilitar a vida das editoras para a venda direta de e-books [e a Aerbook permite também a promoção nas redes sociais]. Os serviços de assinatura Scribd, Oyster, 24Symbols e Bookmate [assim como o próprio Kindle Unlimited da Amazon] estão afastando os clientes da compra de e-books à la carte, e Finitiv e Impelsys facilitam que qualquer entidade ofereça leitura digital por assinatura. Todas essas vendas, exceto Kindle Unlimited, diminuem a participação da Amazon, já que é a principal livraria hoje em dia. As editoras no geral veem esta dispersão de mercado como uma coisa boa, apesar de que alguns dos problemas de falta de transparência começam a surgir e, na verdade, os grandes serviços de assinatura geral são um novo grupo de intermediários potencialmente perturbadores que agora estão ganhando poder.

Para o futuro próximo – nos próximos anos – a Amazon vai continuar dominante na maior parte do mundo como o local central onde podemos comprar livros online à la carte porque eles têm os melhores serviços, a maior seleção e vendem tanto impressos quanto digitais. Mas eles agora têm um novo desafio com a próxima rodada das mudanças do mercado, pois o que eles dominam vai se tornar uma porção menor do negócio geral de livros nos próximos anos. As editoras encaram o mesmo desafio, mas de uma forma diferente.

O evento que serviu de inspiração para este post acontece na noite anterior à abertura da Feira do Livro de Londres. A entrada é paga. Se você vai à Feira e quiser participar,eu recomendo! Não vou ter, como sempre, uma base de operações verdadeira na Feira, mas vou ficar nos três dias com algum tempo disponível para encontrar novos e velhos amigos. Mande um e-mail para info@idealog.com se quiser organizar algo.

Mike Shatzkin

Mike Shatzkin

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].

Early Bird na Digital Book World


Até dia 30 de junho, interessados em participar da conferência que acontece em Nova York terão desconto

Até o dia 30 de junho, quem estiver interessado em participar da Digital Book World, a conferência capitaneada pelo colunista do PublishNews Mike Shatzkin, terá descontos na inscrição. A conferência traz, a cada edição, o que há de mais inovador em estratégias de publicação digital e, na última edição, levou à Nova York mais de 1500 profissionais de todos os segmentos envolvidos na cadeia do livro digital. Para conferir preços e se inscrever, clique aqui.

PublishNews | 18/06/2014

Editoras precisam se conectar diretamente com seus leitores


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 03/04/2014 | Tradução Marcelo Barbão

Desde a fusão que criou a Penguin Random House, houve pouca especulação [exceto por mim, até onde sei] sobre o que este novo mamute na publicação de livros gerais poderia fazer para explorar suas escala de formas novas e inovadoras.

A vantagem de escala deles é enorme. A PRH tem algo perto da metade dos livros gerais publicados, dos best-sellers para baixo. [Você vê análises que dizem que é 25%, mas na maioria das vezes as estimativas giram ao redor dos 40%]. Por várias décadas, os grandes clubes do livro norte-americanos — Book-of-the-Month Club e o Literary Guild — mostraram que ter metade dos livros era “suficiente” para que um grande número de pessoas se sentisse confortável de que suas escolhas do que ler dentro deste grupo de títulos seria suficiente para suas necessidades.

Meus palpites iniciais, ainda não realizados, eram que a PRH iria lançar um serviço de assinatura com apenas seus livros, e através do uso de inventários gerenciados por vendedores, criar canais exclusivos de distribuição em lojas que não estariam disponíveis em nenhum de seus concorrentes. [Um executivo sênior de um concorrente a quem descrevi este cenário, disse de forma honesta, “colocaríamos nossos melhores livros disponíveis para eles através do canal proprietário se fosse a nossa única forma de conseguir distribuição”].

Um executivo da PRH me explicou a inerente resistência da empresa com o modelo de assinatura, que parece apelar mais aos que mais leem e procuram uma barganha. Como o maior ator do mercado, a PRH não está querendo reduzir o gasto das pessoas que são as maiores fontes de renda da indústria, o que uma oferta de assinatura bem-sucedida faria inevitavelmente. [Este modelo de assinatura, ou “Netflix para e-books”, é complexo em sentidos que são geralmente ignorados, mas que Joe Esposito explica bastante claramente.] Claro, isso não significa que a empresa não deveria considerar a proposta em um ambiente onde os serviços de assinatura estão ganhando a maior parte da audiência [certamente não é o caso ainda, mas vejamos o que acontece se o Scribd, Oyster, Entitle ou o novo Rooster forem bem-sucedidos]. Parece dizer que eles não serão pioneiros neste campo. E não há sinal ainda de que vão usar minha ideia de usar VMI para criar suas próprias livrarias, também.

Mas a PRH UK — repetindo o que me disse Markus Dohle, o CEO da RH US faz alguns anos – anunciou agora que se tornou uma editora focada no consumidor. Hannah Telfer, que se tornou “diretora de grupo, desenvolvimento de consumidor e digital” em janeiro, diz que a capacidade de descoberta depende de “construir uma relação direta com os consumidores”. E ela afirma que “nossa escala” é uma forma central de como fazer isso “de forma apropriada”. Isso é inovador, já que a maioria do pensamento da indústria sobre como usariam a escala parece estar mais ligado a consolidar depósitos do que aproximar-se de forma mais inteligente dos consumidores.

Um artigo no The Bookseller detalha as mudanças de equipe e iniciativas ao redor deste objetivo. [E outro expressa algum ceticismo sobre se seus planos são adequados para a tarefa. Esta segunda matéria sugere que precisam pensar em vendas diretas, uma recomendação sobre a qual expressei algumas reservas.] Por um lado, o primeiro artigo sugere alguns objetivos realmente amplos, de toda a empresa, incluindo “o potencial para que a Penguin Random House seja uma usina de força cultural e de entretenimento; espaço para todas as audiências”. Na recente conferência de vendas deles. O CEO Tom Weldon descreveu a oportunidade para a PRH “criar o mapa de uma marca editorial como marca para os consumidores e, ao fazer isso, capturar a atenção do mundo para as histórias, ideias e escrita que importa”. Isto parece um grande marca.

Ao mesmo tempo, havia um claro reconhecimento da importância do que chamamos “verticalidade” ou “foco na audiência”. Um “projeto de segmentação de audiência” foi anunciado. Assim como a atenção cruzada para assuntos específicos, com “gastronomia” e “crime” citados. Uma ferramenta que é claro que a Penguin Random House tem e vai usar chama-se Bookmarks, descrita como “o painel dos leitores da Random House”. Novos planos querem que isso “se transforme em um recurso da PRH, dando a todas as partes da empresa acesso a mais de 3,5 mil leitores por meio de pesquisas e focus groups”

Claro, dependendo de quantas formas diferentes a empresa quiser usar este painel, mais difícil será conseguir dados úteis. Na verdade, parece que ele foi feito para um processo contínuo de “painelização”, através do qual novas pessoas estão sendo acrescentadas todo o tempo a um número de painéis que podem responder a questões sobre diferentes interesse das comunidades. Um painel não pode servir a todos os propósitos.

Isso traz dois tópicos para um ousado alívio que historicamente não foram parte do pensamento ou dos conjuntos de habilidades de uma editora.>

1. Pede um pensamento novo e cheio de nuances sobre as marcas.

2. Pede um plano multifacetado para se relacionar com consumidores individuais.

Existem muitos conselhos direcionando editoras para pensar em branding para consumidores hoje em dia.Desde que comecei a pensar e escrever sobre mercado editorial e brands, algo importante aconteceu, algo que não pensei na época: auto publicação. Minha ideia original era que o desafio era estabelecer marcas com claras identidades verticais e centrada na audiência. Provavelmente o melhor exemplo de sucesso entre as grandes editoras norte-americanas foi o estabelecimento, pela Macmillan, da Tor como uma marca para ficção científica e tor.com como site de destino para amantes da ficção científica. Já faz mais de dois anos desde que escrevi que a tor.com tem centenas de milhares de endereços de e-mail que eles podem usar para promoções com resultados bastante bons.

Tor.com dá à lista de ficção científica da Macmillan um claro rótulo de não autopublicação. Mas fora da Tor, para sua lista geral, a Macmillan usa muitos nomes de selos. Um romance poderia ser publicado como St. Martin’s, Holt, Farrar Straus ou Thomas Dunne Books [entre outros], cada um dos quais provavelmente faz “sentido” aos compradores em grandes contas, grandes bibliotecas e resenhistas de livros, mas que significa muito pouco para o público em geral. A pessoa média conhece estes nomes melhor do que conhecem, digamos, Thomas & Mercer [o novo selo da Amazon] ou Mike & Martha Books [um nome que acabei de inventar]?

[Notem que a Macmillan está sendo usada aqui para propósitos ilustrativos; toda grande editora tem as mesmas questões com marcas de selos que são realmente criadas por motivos B2B, não para o consumidor].

Mas no final, é importante para a Macmillan, e para toda editora, colocar a marca de “grande editora” em seus livros para deixar que o público saiba que “isto vem de uma editora estabelecida há muito tempo” com a suposição, que eu concordaria, de que as pessoas que não conhecem os nomes confiariam mais em uma instituição do que em um indivíduo com interesses próprios para “escolher” seus livros.

[Obviamente, a maioria das pessoas escolhe seus livros por causa do autor, do assunto, de uma recomendação de um amigo ou até baseado em alguma combinação de capa, descrição e preço. Quanto da audiência seria influenciada por conhecer que uma grande editora está por trás do livro? Não sabemos disso, e não sabemos se este livro vai crescer ou diminuir baseado na sempre crescente produção de material autopublicado que não passou pela edição e pelo rigor de formatação de uma editora. E, por falar nisso, fazer branding agressivo significa que as editoras precisam prestar ainda mais atenção à edição e formatação. Cada exemplo de um produto com marca inferior chegando ao mercado vai enfraquecer o valor da marca].

Então aqui está a regra sobre branding. Cada editora importante deveria pegar um nome que está no seu guarda-chuva. Todo livro é importante para estabelecer a empresa como uma fonte maior de literatura de qualidade, leitura agradável e informação empacotada como livro. Tentando ter um alvo mais preciso do que isso deveria ser o trabalho da marca do “selo” debaixo do guarda-chuva. E esta marca deveria ser vertical, identificando assunto ou audiência. Esta é a Tor no exemplo da Macmillan acima. Note que no momento a Macmillan não é uma marca sendo usada por qualquer uma das empresas norte-americanas na família Macmillan.

O plano para conectar-se com consumidores é muito mais complicado e tem muitos componentes. Um é simplesmente coletar endereços de e-mail e permissões para entrar em contato e depois fazer isso. Girar quase todos os esforços de marketing que puder para criar uma máquina de reunir emails é uma boa parte disso. Este é um jogo que todo mundo deveria se envolver: todas as livrarias, todas as editoras e todos os autores. Sabemos por alguns trabalhos recentes em nossa empresa de marketing digitalque os agentes literários mais espertos estão descobrindo como ajudar seus autores a fazer isso. Não estamos longe do dia em que um agente vai perguntar a um editor “quantos e-mails relevantes você tem para promover o próximo livro do meu autor?”

Mas listas de e-mail, como a declaração da PRH UK sugere, é apenas um aspecto do relacionamento com o consumidor. E as declarações da PRH também afirmam implicitamente que uma empresa muito maior tem mais facilidade para conseguir esta lista. Tirando a capacidade de analisar os endereços de e-mail existentes entre seus assinantes ou que eles encontram por outros meios [acesso a seus websites, autoidentificação na mídia social] para entender e chegar a maiores audiências, as grandes companhias conseguem criar listas verticais especiais de interesse para aumentar o tráfego [impulsionando cadastros de e-mail] e usando várias oportunidades promocionais. Vemos Simon & Schuster fazendo muito isso. Eu recebo diariamente o , um e-mail de sua nova lista vertical de livros de negócios que resume a proposta central de um livro de negócios todo dia. Se este ou outros esforços verticais deste tipo que a editora está tentando, poderá se transformar em uma comunidade web remunerada ou até um bom lugar para lançar um livro, ainda é uma pergunta sem resposta. Mas é o tipo de experiência que poderia produzir uma plataforma de lançamento que realmente poderia ajudar a S&S com livros de negócios.

Afirmamos também que a noção de que criar painéis dinâmicos de consumidores para contar coisas – coisas que você pode perguntar o tempo todo – também é algo valioso. Sabemos a história de uma revista de nicho que está sempre usando o Twitter para pedir a opinião de seus leitores sobre várias coisas, como qual ângulo usar em uma reportagem. Eles conseguem respostas muito rápidas desta forma. Sabemos que a Osprey, a editora de história militar, sempre pede a opinião de sua audiência quando estão escolhendo entre assuntos para o desenvolvimento de um livro. [E é importante notar que Random House UK contratou a enérgica e visionária CEO da Osprey, Rebecca Smart, para dirigir seu selo Ebury. Esta é outra forma de usar a escala: contrate o talentoso executivo de uma companhia menor!]

Uma boa política para uma editora grande que pode coletar um grande número de endereços de e-mail seria perguntar rotineiramente aos consumidores se eles gostariam de ser consultados com perguntas que irão guiar as estratégias de publicação e marketing da editora. Fazer isso funciona como uma forma de conseguir novos nomes. O que a Osprey faz com sua audiência especializada poderia se tornar uma prática rotineira para uma editora com uma lista de e-mail grande o suficiente. Seria possível perguntar aos consumidores se um tópico é bom para ser lançado antes de a editora assinar um contrato. Também poderiam ser questionados sobre capa e preço. E se este tipo de interação fosse construída na prática geral a editora, com o tempo eles aprenderiam quando as opiniões dos consumidores são um bom guia a ser seguido e quando não são [porque nem sempre serão!]

Estamos nos primeiros dias de um período em que as grandes editoras estão passando da quase total dependência de intermediários para chegar a seus mercados, para outro de relacionamento direto com os consumidores. Por enquanto, a maioria das editoras está bastante quieta sobre o que estão fazendo, parcialmente porque acham que estão inventando algo e parcialmente porque não sabem como isso vai funcionar. Mas o relativo silêncio não deveria ser interpretado como inação ou desatenção relativa. Não é nenhuma novidade para as grandes editoras que elas precisam conversar diretamente com suas audiências. A Penguin Random House tem vantagens de tamanho em relação às outras Cinco Grandes, mas estas têm vantagens de tamanho em relação a todo o resto.

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 03/04/2014 | Tradução Marcelo Barbão

Mike Shatzkin

Mike Shatzkin

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].

Por que é tão difícil competir com a Amazon?


Editores que veem a Amazon como um negócio multimilionário focado no break-even e que não se importa com o faturamento estão enganados. Uma visão mais apropriada seria olhar a empresa como um conglomerado de investimentos em vários níveis de desenvolvimento. E o de livros é um dos setores maduros, e que é provavelmente muito lucrativo – um competidor difícil, e que deve ficar mais agressivo à medida que a empresa aumenta sua participação no mercado. Mas, vale a pena também analisar a empresa no contexto geral, e ver que uma das razões da varejista ser tão forte é justamente os vários tipos de negócios diferentes. Jeremy Greenfield, editor do site Digital Book World, entrevistou o consultor Mike Shatzkin sobre o assunto. Clique na matéria para ler o que Shatzkin fala sobre o que realmente acontece na Amazon, o que editoras precisam saber e o que podem fazer para melhorar a relação com seu cliente mais importante.

Por Jeremy Greenfield | Digital Book World | 28/10/2013

O desafio de manter as margens das editoras


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 07/08/2013 | Tradução: Marcelo Barbão

As grandes editoras aparentemente conquistaram uma posição comercial muito forte na transição para e-books. Eu digo “aparentemente” porque os dados que mostram o recente crescimento – uma apresentação da HarperCollins da situação atual – está um pouco incompleto.

O que Michael Cader mostrou no Publishers Lunch em 4 de junho – e que o agente Brian Defiore comentou no blog da Aardvark no mesmo dia – é que o CEO da HarperCollins, Brian Murray, tinha, em uma apresentação para os acionistas, comparado a receita padrão e os custos de livros de capa dura versus e-books. A apresentação mostrou claramente que:

1). As receitas [a linha de cima] dos e-books são menores por unidade em comparação com os livros de capa dura;

2). Os royalties dos e-books também são mais baixos por unidade do que os de capa dura;

3). As margens líquidas para as editoras em termos de produção, distribuição, retornos e royalties são consideravelmente mais altas para e-books do que para livros de capa dura.

Assim, os autores com contratos fixos ganham menos por unidade nos e-books do que com livros de capa dura, mas as editoras ganham mais. O problema aqui é o termo “contratos fixos”.

Os maiores autores não têm este tipo de contrato.

Os agentes mais espertos dos maiores autores não negociam contratos como o resto do mundo. Eles fazem uma previsão de quantas cópias o livro deve vender [autores com um passado de grandes vendas são de alguma forma mais previsíveis] e recebem um adiantamento igual a uma porcentagem alta da possível receita de vendas.

Não se espera que o adiantamento seja ultrapassado [e, pode acreditar, com adiantamentos calculados desta forma, eles quase nunca são]. Isso significa que a porcentagem de royalties acaba sendo irrelevante. Por isso escritores estrelas assinam contratos padrões e editoras afirmam que não pagam mais do que 15% do preço de capa nos impressos ou mais de 25% nos e-books.

Desta forma, a tabela de Murray é precisa, mas não cobre a realidade comercial – apesar de refletir os contratos reais – dos maiores livros.

Mas isso não muda o fato de que, ao publicar a tabela, tenha surgido uma reação adversa vinda da comunidade de agentes contra, aparentemente, uma realidade na qual as grandes editoras estão melhorando sua posição financeira às custas dos escritores. E que outras reações poderíamos esperar? A Authors Guild está brava e o blogger-repórter Porter Anderson conseguiu alguns comentários adicionais de Defiore.

Ao mesmo tempo, as editoras estão batalhando do outro lado do negócio, com livrarias que querem aumentar suas margens também. Isso não tem a ver com a Amazon. Ela domina as vendas online e é indispensável por esta razão. Mas Barnes & Noble é quase tão dominante na vendas em lojas e pelo visto está em uma disputa com a Simon & Schuster há meses, o que reduziu a presença dos livros desta editora na suas livrarias. Os resultados financeiros recém-anunciados da B&N deixam claro que eles serão mais ambiciosos e tentarão arrancar qualquer margem adicional de seus parceiros.

Quando os e-books começaram a se tornar comercialmente importantes, o que para nós foi a partir do lançamento do Kindle no quarto trimestre de 2007, as editoras tiveram que encarar o desafio de reduzir os custos indiretos do livro impresso, pois a demanda por livros em papel começou a diminuir. Você pode imprimir menos livros, mas ainda precisa preparar o original, diagramar e mandar imprimir. E a maioria das grandes editoras possui seu próprio depósito, então não era uma questão simples de reduzir o custo do estoque.

Na verdade, parece que os retornos declinaram mais do que as vendas de impressos, e ainda mais drasticamente como porcentagem das vendas gerais já que os e-books não possuem nenhum retorno. Tudo isso foi bom para a lucratividade das editoras. Vendo os dados agora, pode-se pensar se as editoras estavam em uma rota autodestrutiva quando faziam de tudo [incluindo tudo que gastaram no processo com a Apple] para preservar as vendas dos livros impressos às custas dos e-books. Eles tentaram criar janelas – atrasando a saída do e-books ao mercado por um tempo – e depois tentaram manter os preços do e-books mais altos na livraria [prática que veio à tona quando o Departamento de Justiça dos EUA entrou na história].

Mas, claro, elas não estavam sendo autodestrutivas. Como escrevi várias vezes, colocar os livros nas prateleiras é a principal proposta de valor da editora; quando esta necessidade diminui em importância, elas diminuem junto. Será difícil manter as margens altas. Agentes dos grandes autores vão buscar porcentagens maiores do lucro projetado com a mudança para digital. Como os adiantamentos das editoras para os títulos não tão grandes também estão diminuindo, os autores de segunda linha podem preferir a autopublicação ou a publicação com editoras menores, que pagam menos adiantamentos, mas royalties maiores. Enquanto isso, as maiores livrarias vão continuar pressionando para conseguir margens maiores. E a maioria das editoras não terá estômago para manter uma briga de longo prazo como a S&S está fazendo [especialmente porque ainda não há provas de que a S&S vai conseguir vencer].

As grandes editoras que estão reinvestindo sua atual margem para desenvolver a proposta de valor que será importante no futuro – que é “marketing digital em escala” – ainda podem ser capazes de prosperar com o avanço da transição. Mas seus parceiros dos dois lados – autores e livrarias – serão implacáveis na tentativa de conseguir agarrar qualquer margem “excedente” que estiverem percebendo. Michael Cader mostrou que a Amazon, conseguindo margens de menos de 1% nas vendas, tem poucos motivos para sentir simpatia por editoras reclamando de como é difícil conseguir margens de 2 dígitos. A Barnes & Noble vai precisar arrancar mais margem das editoras para manter suas lojas abertas frente ao declínio das vendas.

Há agora dois pontos que vão ser considerados pelos autores: a parcela das vendas online e a eficiência na divulgação de seus livros. O primeiro fator está fora do controle das editoras [e é difícil prever]; o segundo significa que os autores mais disputados abaixo da camada mais alta se tornarão os mais difíceis de manter.

Eu aconselhei, há algum tempo, que as editoras deveriam aumentar os royalties dos autores como uma forma de lutar contra a exigência de mais margens das livrarias. Na época, o CEO de uma grande editora me disse que havia mérito no meu conselho, mas “era bastante difícil fazer mudanças como esta com a Justiça em cima da gente”. Então talvez veremos alguns movimentos para aumentar a taxa de royalties, que está em 25%, no futuro próximo, já que o problema com a Justiça parece ter ficado no passado.

Sinto, há algum tempo, que os autores [agentes] deveriam trabalhar para conseguir uma quantia fixa por cópia vendida como royalties de e-book e abandonar as porcentagens pois, como sabemos, os e-books podem mudar de preço com frequência. Sei que isso sofreria a resistência das editoras, mas faz muito mais sentido.

O atual estado das coisas diz de forma bastante enfática o que sinto há muito tempo: a atual direção das grandes editoras é esperta e conseguiu administrar uma transição complicada de forma bastante eficiente. O que conseguiram conquistar hoje é bastante impressionante, mesmo se for impossível sustentá-la no longo prazo.

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 07/08/2013 | Tradução: Marcelo Barbão

Mike Shatzkin

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Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].

Os modelos de negócio estão mudando: é o momento de tentativa e erro


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 12/12/2012 | Tradução: Marcelo Barbão

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O anúncio no final da semana passada de que a Random House está lançando três selos que priorizam o digital foi só o exemplo mais recente de como as editoras estão explorando novos modelos de negócios. Poucos dias antes recebemos a notícia da parceria entre a Simon & Schuster e a Author Solutions fazendo com que a S&S seja a terceira maior editora – depois da titã de publicações cristãs Thomas Nelson e da Harlequin, forte na área de romances – a colocar seu nome no setor de “serviços ao autor”.

A S&S não é a primeira das Seis Grandes a dar este grande passo, a Pearson, empresa coligada à Penguin, comprou a Author Solutions há alguns meses e a HarperCollins comprou a Thomas Nelson no ano passado. Então, na verdade, três das Seis Grandes agora estão envolvidas com serviços ao autor – e são, na verdade, quatro das seis, lembrando a outra recente grande notícia de que a Penguin e a Random House estão em processo de fusão. [E não estou contando iniciativas mais modestas como o “Authonomy” da HarperCollins ou o “Book Country” da Penguin.]

Eu me lembro de ter participado de um painel no Canadá alguns anos atrás com Carolyn Pittis, a pioneira digital, uma pessoa muito inteligente, da HarperCollins, que citou a forma como a maioria das editoras faz negócios – comprando o direito de explorar copyrights e depois monetizando em cima deles – como um dos possíveis modelos de negócios para uma editora. Ela explicitamente mencionou “serviços ao autor” como outra. Isso foi antes de sua empresa ter lançado o Authonomy, alguns anos antes do “Book Country”. Em outras palavras, grandes editoras já estão pensando há um tempo sobre modelos “autor-paga” [assim como os editores profissionais].

Todos eles seguem o caminho da Amazon, que há anos vende à la carte todos os componentes de sua própria cadeia de valores. Recentemente li um e-book chamado “The Amazon Economy” publicado pelo Financial Times [um exemplo de uma editora não especializada em livros ajustando seu próprio modelo de negócios para ser uma editora de livros, falaremos mais disso outro dia] que sugeria que a Amazon na verdade ganha mais dinheiro disponibilizando sua infraestrutura para outros do que vendendo coisas.

Em outras palavras, há um potencial de lucro na desconstrução da cadeia de valor de uma empresa e a venda de acesso a ela em pedaços.

Em certo sentido, as editoras sabem disso há muito tempo. Elas tornaram a parte de suas operações externas ao livro [estoque, distribuição, crédito, recolhimento e vendas] disponíveis a outras editoras há anos. Algumas editoras, como a Random House, transformaram a distribuição em um negócio importante com suas próprias estruturas de gerenciamento dentro da corporação. A Perseus, que é uma editora montada em cima de vários selos pequenos, construiu um serviço de distribuição que possui mais de 300 clientes. A Ingram, cuja operação central é de venda por atacado combinado com a subsidiária Ligthning que montou nos anos 90 para fornecer serviços de impressão sob demanda e, mais tarde, serviços digitais, possui uma oferta de distribuição comparável.

Mas o que a Author Solutions – e vários concorrentes menos robustos [e bem mais baratos] – mostraram é que há uma forte demanda para os serviços que precedem a entrega do livro para a venda.

Não tenho outro método, a não ser a inferência, para saber como a Thomas Nelson e a Harlequin estão fazendo com sua oferta de serviços ao autor baseada na Author Solutions, mas o fato é que a Pearson, empresa-mãe da Penguin, comprou as duas e  a S&S fechou um acordo, e isso certamente sugere que a ASI possui um bom histórico. Claro, eles são líderes do mercado porque ganham dinheiro e ganham dinheiro tendo boas margens. E os preços dos serviços da iniciativa Archway – o projeto da ASI com a S&S – são mais altos do que em outras plataformas. Isso não significa que eles não vão convencer muitos aspirantes a autores a usá-los.

Isso é tudo muito lógico, mas também muito enganador. A maioria das editoras – pelo menos até bem recentemente – considerava os serviços de distribuição que eles oferecem como commodities, ou seja, amplamente disponível e altamente comparável. É verdade que qualquer uma das grandes editoras, muitas das menores, e os distribuidores, além da Ingram e da Perseus, podem distribuir as capacidades centrais: contas ativas com todos os grandes varejistas, a capacidade de fazer negócios com eles e recolher o dinheiro, e a disponibilidade do livro em toda a cadeia de suprimento. Obviamente, todos lutam para serem melhores que os concorrentes e assim justificar seus preços mais altos.

Mas, acima de tudo, o orgulho e a crença da editora em uma diferença qualitativa entre o que oferecem e o que a concorrência resulta em um valor muito maior. As editoras geralmente acreditam em seus editores e marqueteiros mais do que acreditam em suas forças de vendas e estoques. [Gente como eu, há 20 anos em vendas, costumava dizer, com ironia consciente, que havia dois tipos de livros: sucessos editoriais e fracassos de vendas e marketing.] Eles veem seu tempo e sua atenção como algo muito precioso. Eles são muito mais relutantes para tornar este tempo disponível para alugar e, de fato, parece que todos os três acordos de editoras com a Author Solutions têm como base o fornecimento dessa capacidade pela ASI. Elas não vêm das próprias editoras.

Tudo isto significa um desvio de outro componente importante para uma publicação bem-sucedida: a coordenação de todas estas atividades. A publicação bem-sucedida é o resultado de várias pequenas decisões: na edição, na apresentação [tanto do livro em si e do metadado, como cópia de catálogos e press releases, que servem como apoio], e, cada vez mais, nas tags de SEO, sinais sobre “colocação” que estão incluídos no arquivo digital do livro, ou metadado de marketing. Na era digital, estas coisas podem mudar com o tempo. As notícias diárias – sobre votos na ONU ou escândalos sexuais no Pentágono ou qualquer outra coisa – poderiam pedir uma mudança nos metadados de um livro publicado há um mês ou um ano para deixá-lo com maior probabilidade de ser mostrado pelos mecanismos de busca hoje.

[O e-book do FT sobre a Amazon, que eu recomendo, deixa claro que a empresa também vende “coordenação” do lado varejo como um valor adicional extremamente importante, e aparentemente muito apreciado.]

Na verdade, a decisão de colocar mais ou menos esforço em um livro está – ou deveria estar – baseada em uma análise de vendas e tendências de busca, assim como em medidas mais tradicionais, como análise de resenhas.

Nos velhos tempos pré-Internet, publicar livros era como lançar foguetes. A maioria caía na Terra, alguns entravam em órbita. Mas os esforços do editor – na maioria das vezes – se limitavam ao lançamento. Então, a equipe de marketing poderia entrar em ação. Isso não era uma forma de fazer negócios que agradava aos autores, mas era consistente com as realidades do mercado. As grandes redes de livrarias não matinham um título em estoque se seu apelo de vendas não ficasse evidente no caixa em 90 dias. Sem cópias de um título nas lojas, não havia motivo para a editora insistir.

Isso é algo que mudou muito na era digital. Com alguns títulos e gêneros representando metade de suas vendas através de e-books ou vendas online, não há mais limite de tempo em relação à eficiência do marketing. No que é um assunto que vamos certamente explorar em uma conferência futura, isso pode estar causando engarrafamentos nos departamentos de marketing das editoras. Eles não podem mais esperar que os títulos mais antigos continuem abrindo espaço e ao mesmo tempo trabalhar nos mais novos.

A Open Road é uma editora exclusivamente digital que trabalha principalmente, mas não exclusivamente, com catálogos. [Eles parecem estar também se especializando em publicar livros de editoras estrangeiras e em ajudar editoras de livros ilustrados a entrar no mundo dos e-books.] O que me impressionou quando eu me encontrei com eles há um ano foi que eles não distinguiam entre “lançamentos” e “catálogos”. Eles faziam marketing de acordo com o calendário, em eventos e feriados, e não nos livros mais novos. Acredito que isso na verdade trouxe maior relevância a seu marketing. Obviamente, isso também vinha de uma necessidade, pois eles não têm um fluxo de “novos” livros para agenciar. Mas também capitalizaram em cima de uma nova situação, onde os livros não ficam de repente indisponíveis porque as lojas os tiram das prateleiras.

Um produto secundário de vendas de longo prazo é a maior facilidade para as editoras agruparem os livros para o marketing. Agora quatro livros em um tópico similar podem ser unidos, mesmo se tiverem sido publicados meses ou até anos depois. A Open Road faz um amplo uso desta realidade.

Estes são desafios e oportunidades que forçam os editores a repensar a organização de seus departamentos de marketing e a disposição de seus recursos de marketing. É uma oportunidade para uma editora aumentar o valor de um autor se conseguir dar uma nova vida a um livro seis meses ou um ano depois de lançado, quando outros títulos parecidos chegarem ao mercado ou um evento faz com que um livro antigo volte a ser relevante. Como autores estão cada vez mais dispostos a fazer algumas coisas úteis por si mesmos para capitalizar nestas oportunidades, eles ficarão cada vez mais impacientes com as editoras que desistirem dos seus livros cedo demais.

Há coisas que os autores simplesmente não podem fazer. Eles não podem ajustar o metadado e adicionar tags ao livro. Eles não conseguem fazer promoção com as livrarias quando o novo livro de outra pessoa faz com que o dele volte a ser relevante. Autores tampouco têm o benefício de chegar às melhores práticas da marketing e às regras práticas ao examinar os dados de desempenho por vários grupos de títulos: grandes conjuntos de títulos, categorias, vendas comparadas e outros. Estão contando com que as editoras façam isso.

O papel da editora ao coordenar e administrar uma miríade de detalhes sempre foi uma das principais formas de acrescentar valor e pode ser ainda maior na era digital. Mas só se eles realmente fizerem isso, e há uma pequena indicação de que têm esta intenção pelos títulos que estão sendo pagos.

Jane Friedman [a blogueira e consultora para escritores, não a CEO da Open Road] aponta que sua alma mater, Writers Digest e Hay House – a editora vertical em mente-corpo-espírito que conseguiu interagir tão bem com seu público – também fez um acordo com a ASI. Ela aponta que os grandes sucessos que todos conhecemos entre os autores autopublicados – John Locke, Joe Konrath e Amanda Hocking estão entre os mais famosos – não publicaram pela ASI. Jane discorda da promessa da ASI de ajudar editoras a “monetizar manuscritos não publicados”. É difícil discordar que editoras que pagam autores para publicá-los podem estar andando na corda bamba ao ter paralelamente um modelo de negócios onde elas cobram dos autores por serviços que provavelmente não lhe trarão dinheiro.

Por outro lado, a Random House tinha feito uma declaração enfática sobre o valor que editoras legítimas podem trazer com o sucesso de Cinquenta Tons de Cinza, originalmente uma história autopublicada e agora, graças à editora, o maior sucesso comercial de todos os tempos. Nenhum livro autopublicado chegou perto e demorará muito tempo antes de aparecer outro. Vejo que esta postura de privilegiar o digital [no qual eles não são os primeiros, mas parecem ser os primeiros a promover agressivamente a diáspora de autopublicação] como um passo em direção a um modelo de negócio diferente, que reconhece as novas realidades comerciais do mercado editorial. Ele permite a publicação com menores investimentos – os autores nestas editoras digitais dificilmente receberão adiantamentos em níveis próximos aos dos livros da Random House – e talvez receberão menos atenção também. O marketing é simplificado pelo fato de que não se trata de livros impressos e, portanto, não envolve as livrarias. Assim, o limiar da lucratividade é muito mais baixo e, como descobrimos, eles ainda podem decidir dar a qualquer livro nestes novos selos o “tratamento completo” – livros impressos estocados em livrarias – mais tarde, se quiserem.

É muito cedo para julgar se a relação entre editoras e serviços de autores vai agregar valor para todos. Todas essas editoras agora têm ou terão, pelo menos, um grupo estável de autores autopublicados que estão contribuindo marginalmente a eles e que significam um interesse financeiro [mesmo sem investimento inicial]. Há definitivamente um conflito inerente entre, de um lado, tentar lucrar o máximo com um autor contratando serviços editoriais e, de outro, recrutar autores e livros que serão bem-sucedidos comercialmente.

Mas as editoras ainda sabem, mais do que o resto, como fazer para que livros com potencial comercial vendam. Se a ASI e suas editoras parceiras podem encontrar a fórmula para que a promessa inerente de sucesso da marca de uma editora chegue efetivamente aos autores que contratam serviços, será respondido nos próximos meses.

Ter mais empresas tentando descobrir isso certamente melhora as chances de alguém conseguir [e a ASI tem muito interesse em espalhar as melhores práticas quando elas aparecerem]. E com serviços cada vez mais baratos para estes aspectos de autopublicação que realmente são commodities, isso significa que ASI e todos seus parceiros terão de demonstrar de forma bastante convincente que eles podem acrescentar o marketing eficiente a sua oferta mista, isso se quiserem continuar por aqui daqui a dez anos.

Michael Cader e eu estamos fazendo nossa primeira apresentação da Authors Launch, em parceira com nossos amigos na Digital Book World, em 18 de janeiro, sexta-feira, o dia seguinte à DBW 2013. A questão de onde se unem as linhas entre os esforços das editoras e dos autores é um tópico importante. Temos um grande grupo de especialistas para trabalhar: a já mencionada Jane Friedman, junto com Porter Anderson, Jason Allen Ashlock, Dan Blank, o ex-marqueteiro da Random House Pete McCarthy, coautores Randy Susan Meyers e M. J. Rose, Meryl Moss e David Wilk. Entre os editores estão Matt Baldacci da Macmillan, Rachel Chou da Open Road, Rick Joyce da Perseus e Matt Schwartz da Random House. Esta é uma conferência realmente voltada para autores publicados em vez deautopublicados, mas ensinará habilidades e dará ideias a qualquer autor disposto a investir tempo e esforço para vender seu livro.

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 12/12/2012 | Tradução: Marcelo Barbão

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].

Novas editoras começam mais enxutas


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 28/09/2012 | Tradução: Marcelo Barbão

Mike Shatzkin

Ficou muito claro para mim que o digital ganha do impresso e que o digital puro, sem nenhum legado de custos, ganha ainda mais do impresso.” – David G. Bradley, dono da Atlantic Media, citado no The New York Times em 24 de setembro de 2012.

O negócio de revistas não é o negócio de livros, mas…

Na maior parte das últimas duas décadas, muitas pessoas viram o dilema em potencial que a transição digital criava para organizações editoriais bem-sucedidas. Se a distribuição não exigia mais escala, o que isso significava para as empresas que não apenas eram bem-sucedidas na distribuição em escala, mas também bastante presas a suas infraestruturas caras e de alta manutenção?

Esta foi uma das minhas preocupações quando fiz minha apresentação intitulada “Fim das Editoras Comerciais Gerais” na BookExpo em 2007. Quando as livrarias desaparecerem, entendi, seria absolutamente necessário que os editores trabalhando com vários públicos se ajustassem à realidade dos multi-nichos, mas isto seria muito difícil. E parecia, para mim, que seria muito mais caro manter as grandes organizações para lidar em escala com as milhares de livrarias espalhadas quando estes pontos de venda não existissem mais. E diminuir esta alta estrutura não seria fácil.

Todos entendem este desafio. Todas as grandes editoras estão procurando novas formas de conseguir escala nas tarefas de elaborar um banco de clientes, analisar dados, melhorar as formas de descoberta, o marketing social e criar parcerias com outros que possam levá-los a alcançar seu público.

Várias empresas construíram estratégias de negócios com base na expectativa de que organizações editoriais tradicionais vão ficar menores e mudar a forma como trabalham sua cadeia de valor de impressos. Entre as maiores, Donnelley, Ingram, Perseus e até a Random House se encaixam nesta descrição: oferecem uma variedade de serviços para as editoras terceirizarem tudo, exceto as funções que são absolutamente centrais para publicar: seleção e desenvolvimento editorial, gerenciamento de direitos e marketing.

As empresas que oferecem soluções de cadeia de valor para livros impressos também têm serviços digitais, claro, mas possuem concorrentes neste espaço que se especializam em atender as demandas de escala para editoração digital. Estes concorrentes tendem a começar oferecendo melhorias no fluxo de trabalho e não focando na distribuição escalável. Duas novas parcerias anunciadas na semana passada sugerem a emergência de novos modelos comerciais para publicação.

Os anúncios que chamaram a atenção foram que Barry Diler e Scott Rudin, ambos com raízes em Hollywood, estão fazendo investimentos substanciais – anunciaram cerca de de $10 milhões, mas eles poderiam certamente aumentar este valor quando quiserem – em uma nova editora comercial chamada Brightline a ser dirigida pelo veterano editor Frances Coady. A Brightline vai fazer uma parceria e produzir seus livros com a plataforma The Atavist

Talvez menos notado, mas apontando em uma direção similar, parece que o agente e empreendedor Jason Allen Ashlock estabeleceu uma nova editora de nicho para publicar livros de crime e suspense, trabalhando sobre a plataforma PressBooks criada por Hugh McGuire.

As ambições dos dois são bem diferentes, mas a direção que eles estão mostrando sobre o futuro das editoras é bastante igual.

Diller e Rudin apoiando Coady pode parecer algo voltado para competir com grandes editoras por grandes livros. Não se coloca $10 milhões como investimento inicial para contratar um bando de autores autopublicados ou ficção de gênero. E a plataforma The Atavist foi montada pensando em Hollywood. A Atavist não só criou uma ferramenta que acomoda links de forma elegante [permitindo que sejam ou bem óbvios ou bem discretos], como também previu que a publicação de ebooks de não-ficção temática séria teria potencial para cinema e TV. O contrato padrão deles inclui tais direitos, refletindo sua visão para obter um valor em conteúdo próprio para desenvolvimento.

Isto não implica que a Brightline vai precisar depender da visão comercial original da The Atavist ou de contratos; eles certamente terão suas próprias ideias sobre as duas coisas.

As ambições de Ashlock, pelo menos inicialmente, parecem ser mais modestas. Como proprietário de uma jovem agência literária que está crescendo, ele precisaria adquirir títulos que não têm o tipo de exigências de adiantamento contra royalties com a qual a Brighline se sentiria confortável. Então ele anunciou seu empreendimento editorial, chamado Rogue Reader, que vai publicar “ficção criminal”, ao que parece somente um título por mês e também aparentemente de escritores pouco conhecidos ou desconhecidos.

A mensagem aqui é que vemos uma resposta parecida vindo de lados opostos do continuum de investimento e poder de qual é a gênese de uma futura editora bem-sucedida. Tanto uma editora ambiciosa, com bastante fundos e dirigida por um veterano na indústria, quanto uma editora pequena, com autores novatos de nicho sob a direção de um jovem empreendedor com muito menos experiência, estão usando novas plataformas de publicação que possuem muitas capacidades para a edição digital. Estes novos editores podem reagir à diminuição do mercado de venda de livros físicos com mais ideias porque há cada vez mais lugares onde pode se buscar os recursos necessários e pelo tempo que for necessário.

E como a necessidade destes recursos está diminuindo e como há tantas empresas que os possuem e não podem deixar de tê-los, repentinamente, há grandes chances de que o custo de obter tais recursos de terceiros continue a cair.

Estamos nos aproximando do dia em que tudo que uma editora vai realmente precisar “ter” é a capacidade de adquirir e desenvolver bons livros e formas de alcançar sua audiência central de forma persuasiva e barata. Diller e Rudin, com suas raízes em Hollywood, certamente possuem acesso a muitos dos grandes criadores de histórias. Graças ao contato com muitas pessoas que possuem plataformas de marketing e graças à extensa rede de conexões da IAC, a empresa controlada por Diller que possui forte presença na web, eles possuem grande capacidade de promoção.

Conseguiria alguma editora construir uma força de marketing de forma mais escalável do que a IAC? A equipe de Diller parece entender que pode alugar tudo menos sua habilidade principal e mesmo assim ser competitiva. Acho que ela está certa.

Ashlock não possui o mesmo alcance deles, mas, ao se manter com “ficção policial”, ele acha que pode construir uma comunidade e que isso vai permitir um marketing efetivo e eficiente. E, como agente, ele está em bem localizado para recrutar bons projetos, apesar de que terá que lidar com os conflitos de se transformar em autor independente alguém que o procura um agente literário querendo um contrato de publicação com uma editora. Os aspectos éticos desta questão já foram muito debatidos. Quem já passou por isso – o agente Scott Waxman que abriu a editora de e-books Diversion Books – desistiu de ser agente e preferiu ser editor de tempo integral. Será interessante ver o que acontece com Ashlock.

Tanto a Brighline quanto a Rogue Reader estão desenvolvendo suas estratégias neste momento. Podemos esperar em breve o anúncio de quando vão colocar os primeiros livros nas lojas. É possível imaginar empresas com grande capacidade de distribuição batendo na porta da Brightline. Um livro por mês não é tão atrativo e as editoras não querem encorajar a transformação de agentes literários em concorrentes, mas eu também imaginaria que a Rogue Reader será capaz de encontrar mais de uma empresa disposta a atender suas ligações telefônicas.

Rebecca Smart, a CEO da Osprey, esteve em nosso escritório na semana passada e deixou que nossa amiga Hannah Johnson, da Publishing Perspectives, gravasse alguns minutos de uma entrevista com elasobre a Publishers Launch Frankfurt em 8 de outubro. É um pequeno exemplo das novidades que serão apresentadas nas 18 diferentes apresentações em nosso evento que se realizará das 10:30-18:30

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 28/09/2012 | Tradução: Marcelo Barbão

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].

Antes que o fogo queime: desafios da chegada da Amazon no Brasil


Por Felipe Lindoso | Publicado originalmente em PublishNews | 03/04/2012

A chegada da Amazon no Brasil, que vem sendo cozinhada desde o começo do ano, com negociações entre os representantes da empresa de Seattle e editoras brasileiras e anúncio [informal] de algumas iniciativas, como a venda do Kindle por R$ 199,00, certamente terá um impacto significativo no mercado editorial brasileiro, tal como aconteceu em outros países.

Ainda não se sabe com certeza se a Amazon vai se limitar inicialmente à venda de livros eletrônicos [e também se já incluirá outros produtos entregues via web, como músicas e filmes] ou se também irá incluir os livros impressos, adquiridos on-line e entregues pelo correio ou porcourriers. A conhecida secretividade da empresa contribui para especulações, inclusive sobre a quantidade de editoras que já assinaram contratos com ela.

Recentemente Mike Shatzkin publicou alguns posts muito interessantes sobre a trajetória da empresa, procurando responder, basicamente, a duas perguntas: a] Quando vai terminar de crescer a parcela da Amazon no comércio de livros [nos EUA]? E b] Quem vai sobrar? Um terceiro post, igualmente importante, trata do impacto da iniciativa do site Pottermore, da J.K. Rowling, que vende seus livros sem DRM [Digital Rights Manager] e, desse modo, elimina a questão da interoperabilidade dos e-readers. Nesse último caso, além do mais, a autora do Harry Potter conseguiu o que alguns achavam impossível: o tráfego é feito através do site da empresa, encaminhado pela Amazon ou por qualquer outro varejista eletrônico. Ou seja, não é preciso estar no ecossistema “amazonian” para adquirir o livro.

Vou tentar resumir as questões do Shatzkin, evidentemente centradas no mercado dos EUA, para depois fazer observações sobre o impacto em nosso mercado.

Shatzkin enfatiza o fato de que a estratégia de começar o negócio pela venda de livros foi basicamente a de ter uma ferramenta de aquisição de clientes, e não um fim em si mesmo. Trabalhando com o estoque das editoras, da Ingram e da Baker & Taylor, a Amazon aperfeiçoou a “experiência do cliente” a um nível não alcançado antes, e “enganchou” uma base formidável de compradores para todos os demais produtos que foi paulatinamente oferecendo. Contou com a fartura de recursos proporcionada pela primeira “bolha” da Internet, mas soube aproveitá-la bem – aliás, com extrema competência.

As editoras ficaram felizes da vida com mais esse varejista, que foi paulatinamente aumentando sua participação de mercado. Quando lançou o Kindle, a posição da Amazon já era forte o suficiente para impor ao conjunto das editoras seus termos de venda dos livros eletrônicos. E aí a coisa começou a complicar. Naquela ocasião já se percebia que a Amazon estava não apenas sufocando as livrarias independentes, mas também prejudicando as grandes cadeias, como o falecimento recente da Borders e outras movimentações no mercado americano estão confirmando.

A Amazon usou amplamente as vantagens de armazenamento, distribuição e POD [printing on demand] das grandes distribuidora. A Ingram tentou, em 2007, estender as facilidades dos mecanismos de venda on-line para outros varejistas, e lançou um projeto chamado I2S2, que era uma plataforma similar à que oferecia à Amazon, para os outros. A Amazon, nessa ocasião, teve peso suficiente para fazer o projeto abortar, e seus concorrentes não dispuseram dessa ferramenta.

O lançamento do Kindle reforçou a estratégia da Amazon de modo exponencial. De fato, a empresa praticamente criou um enorme mercado a partir do que era apenas incipiente [o leitor da Sony não tinha conteúdo suficiente para oferecer]. Aumentou sua base de clientes e o poder de fogo da empresa. Acredito que o mesmo possa acontecer similarmente aqui: o Kindle a R$ 199,00 vai forçar todos a se mexerem. A Positivo está fazendo um esforço – via grupos de compra – para testar preços mais baratos para seu leitor, mas não se sabe se terá fôlego e recursos para aguentar esse tipo de concorrência.

A Amazon usa com extrema agressividade e eficiência sua política de preços na ação dupla de “enganchar” os clientes, envolvendo-os em seu ecossistema, e pressionar as editoras por margens maiores. Sem nenhuma dúvida fará isso no Brasil.

Se resolver entrar de imediato na venda de livros impressos, a Amazon enfrentará aqui algumas dificuldades que não encontrou em outros lugares, e a principal é a da logística. A precariedade da nossa distribuição é conhecida e não merece comentários adicionais; o POD, que é amplamente usado nos EUA, [inclusive para diminuir os custos de logística] também é precário por aqui. Mas já existe uma estrutura montada, que a Amazon pode aproveitar [Correios e courriers]. Aí é questão de fôlego financeiro para equacionar o problema e oferecer um serviço tão bom ou melhor do que o oferecido pelas cadeias de livraria existentes.

Um fator de dificuldade para o fortalecimento da Amazon no mercado brasileiro é o das compras governamentais, extremamente significativas para o setor de livros educacionais e cada vez maiores para a literatura, também. Como as negociações da Amazon são todas feitas com exigência de confidencialidade, é difícil saber os detalhes. Mas um dos pontos do modelo que ela vem oferecendo para as editoras brasileiras é que estas não poderiam oferecer condições melhores de venda e preço para outros clientes. Quem vende para o governo vai aceitar isso? Se aceitar, pode ter certeza que a Amazon vai usar essa cláusula para exigir as mesmas condições que o FNDE tem para suas compras. Vai ser hilário…

Outro panorama aventado por Mike Shatzkin para o crescimento da Amazon no mercado internacional é o do crescimento de seu braço editorial. Atualmente a “editora” Amazon é insignificante, comparada com as tradicionais. Mas a contratação do veterano Kirschbaum para dirigi-la mostra um empenho em fazer isso crescer. Por enquanto, ainda não conseguiu atrair grandes autores, a exceção conhecida sendo o Deepak Chopra. Mas e se contratarem grandes nomes da ficção e começarem a lançar as traduções diretamente nos mercados onde tem presença, como na Espanha, na França, e no Brasil?

Shatzkin assinala – já em uma resposta a um comentário ao seu post – que o avanço da Amazon nos outros mercados pode ser controlado por legislação local de preços.

Ou seja, o chamado “preço fixo” pode vir a ser uma defesa contra os ímpetos monopolistas da Amazon. A chegada dessa empresa pode até modificar a opinião sobre o assunto por parte das grandes editoras, até hoje refratárias à ideia, e também das cadeias, que usam a liberdade de preços para fazer, em menor escala, o que a própria Amazon faz. Duvido que tenham fôlego para aguentar a capacidade de fogo de descontos da Amazon…

O último post de Shatzkin comenta a iniciativa da J. K. Rowling, de vender as versões de e-books do Harry Potter sem o DRM. Ele assinala que em janeiro, no encontro do Digital Book World, Matteo Berlucchi, da Anobii [um varejista baseado no Reino Unido que é parcialmente de propriedade de três grandes editoras] declarou que só com a eliminação do DRM ele poderia vender para os proprietários do Kindle. Shatzkin chama a apresentação de “presciente” e congratula Charlie Redmayne, o CEO da Pottermore, por ter coragem de provar que isso é possível. A alternativa do Pottermore é uma espécie de “marca d’água” eletrônica incrustrada na cópia vendida, que apenas identifica quem a adquiriu. Diga-se que tanto o DRM quando essa “marca d’água” são possíveis graças ao desenvolvimento do DOI – Digital Object Identifier, programa patrocinado pelas grandes editoras, com o apoio da Associação Internacional de Editores, e desenvolvido em meados dos anos 1990.

Evidentemente todas essas questões estão sendo consideradas pelas grandes editoras brasileiras. Mas nada que passe pela coordenação das entidades do setor [CBL, SNEL, ABRELIVROS], e muito menos pelas redes de livraria. Espero que todos se lembrem das observações do filósofo e economista alemão do século XIX que assinalava o caráter extremamente predador das empresas capitalistas atuando em um mercado “livre”: o capitalismo sobrevive e cresce depois das crises, mas as crises chegam inevitavelmente e resultam em concentração e diminuição da concorrência. O impulso monopolista da Amazon é irrefreável se for enfrentado por cada empresa isoladamente. Assim, que não esperem que o fogo esteja lhes lambendo para que comecem a pensar em soluções legais e institucionalizadas que possam evitar o rumo monopolista que a Amazon costuma imprimir à sua atuação.

Uma última e singela observação: as disputas acerca das práticas da Amazon chegaram ao campo judicial e político nos EUA. Em um primeiro nível, a ação contra o modelo de “agenciamento” que as grandes editoras conseguiram impor depois da chegada da Apple no mercado, em plena evolução. A outra é a denúncia de que a Amazon só dá dinheiro para os Republicanos, o que é complicado lá no bipartidarismo deles. O site do San Francisco Chronicle  publicou matéria sobre o assunto, já em 2005. De lá para cá, ao que parece, piorou.

Por Felipe Lindoso | Publicado originalmente em PublishNews | 03/04/2012

Felipe Lindoso

Felipe Lindoso é jornalista, tradutor, editor e consultor de políticas públicas para o livro e leitura. Foi sócio da Editora Marco Zero, diretor da Câmara Brasileira do Livro e consultor do CERLALC – Centro Regional para o Livro na América Latina e Caribe, órgão da UNESCO. Publicou, em 2004, O Brasil pode ser um país de leitores? Política para a cultura, política para o livro, pela Summus Editorial.

A coluna O X da questão traz reflexões sobre as peculiaridades e dificuldades da vida editorial nesse nosso país de dimensões continentais, sem bibliotecas e com uma rede de livrarias muito precária. Sob uma visão sociológica, este espaço analisa, entre outras coisas, as razões que impedem belos e substanciosos livros de chegarem às mãos dos leitores brasileiros na quantidade e preço que merecem.

Venda de livros físicos cai e crescimento de e-books desacelera


Itália | As vendas de livros impressos estão em queda na maior parte dos mercados rastreados pelo Nielsen BookScan, com retração nas vendas de ficção particularmente acentuada. Os números foram dados pelo presidente da Nielsen Book, Jonathan Nowell, durante o evento italiano IfBookThen, ontem.

Segundo ele, a queda nas vendas nos Estados Unidos dobrou em dois anos, sendo que a maior redução foi em ficção – 7,2% em 2010 e 18% em 2011. No Reino Unido, nas primeiras quatro semanas de 2012, a redução nas vendas de livros físicos foi de 12% no geral e de 26% apenas em ficção.

O mesmo ocorre na Espanha, sendo a Itália uma exceção, onde as vendas de ficção ainda crescem. As vendas de e-books, por outro lado, aumentam, mas o ritmo de crescimento desacelerou nos últimos meses. Segundo Mike Shatzkin, consultor e presidente da The Idea Logical Company, a venda de e-books mais que dobrou de 2007 a 2010, mas recentemente surgiu evidência de que a resistência à leitura eletrônica cresceu. Ele também alertou os editores sobre a dependência em relação à Amazon. Ele estima que a varejista tem participação de 30% nos negócios de grandes editoras americanas, com tendência a aumentar. “Quando chegar a 50% vai ser horrível, e não vejo como isso pode ser evitado.” Ele recomendou, contudo, que as editoras elevem as receitas provenientes de outros canais.

Por Philip Jones | The Bookseller | 02/02/2012

Cenário das livrarias de eBook vai ficando cada vez mais definido


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 24/11/2011

Mike Shatzkin

A semana que passo, todo ano, na Feira do Livro de Frankfurt, é sempre a mais estimulante do meu ano de trabalho. A concentração das melhores cabeças e das pessoas mais poderosas no mercado editorial parece me levar a novos níveis de compreensão sobre nosso mundo editorial global, principalmente nesta época de rápidas mudanças.

Também conversei com um executivo de desenvolvimento de negócios de uma das empresas de tecnologia que está convertendo livros impressos e PDFs para ePub. Ele me contou que seu negócio permanece robusto, mas está se espalhando ao redor do mundo, já que novos mercados estão descobrindo que precisam colocar sua propriedade intelectual em formato digital. Concordamos que quem vive da transição digital – e isso certamente me inclui, no momento [afinal, por que você está lendo este blog?] – ainda tem mais alguns anos pela frente antes de precisar pensar em como ganhar dinheiro com a nova realidade [se precisarmos continuar ganhando a vida quando a mudança chegar].

Com os novos acordos anunciados em Frankfurt pela Kobo com a loja inglesa WHSmith e a francesa Fnac, junto com o aumento de abertura de lojas da Apple e da Amazon, o futuro cenário das livrarias de e-book está ficando cada vez mais definido. Parece que teremos três concorrentes globais principais que estarão ativos em todos os mercados – podendo ser Amazon, Apple e Kobo – e mais, talvez, um concorrente local em cada mercado. A Barnes & Noble desempenhou esse papel local de forma muito bem-sucedida, até o momento, nos Estados Unidos; a Waterstone’s vai tentar o mesmo no Reino Unido a partir do ano que vem; há competição local na Alemanha; e certamente haverá em muitos outros países, quando a revolução do e-book chegar a suas praias. O Google, sendo o Google, não vai desaparecer, mas permanecerá um concorrente relativamente marginal, pelo menos até colocarem mais energia em sua solução e na promoção do que têm.

Os acordos da Kobo servem para deixar o jogo mais claro, mesmo não mudando a situação no momento. Um observador atento da cena digital parou no meu estande em Frankfurt para discutir o acordo WHSmith-Kobo comigo e se perguntava se esse era o melhor acordo para os dois lados. A Kobo não deveria ter tentado fazer um acordo com a Waterstone’s? É inteligente para a WHSmith fazer um acordo no qual vendem os aparelhos, mas que os conecta com a loja da Kobo?

Mas isso, claro, é a chave para o acordo. A economia do aparelho não funciona, a não ser que você possa vender os e-books que o acompanham [essa é a resposta para todos os gênios que pensam que a Barnes & Noble é meio burra por não implementar o lançamento internacional do Nook!]. Nem a WHSmith nem a Fnac são somente livrarias. Os livros são apenas uma linha de produtos nas lojas que vendem outras coisas e possuem uma identidade mais ampla. Ao vender um e-reader ligado a uma loja de e-books que também serve a seus clientes, eles agregam valor para o consumidor de livros durante a transição e aumentam sua própria “vida útil” como vendedores de livros. Eles reconhecem que construir e manter uma loja de e-book não é algo trivial e, frente a vários concorrentes globais, tampouco é algo que querem empreender a partir de sua posição como livraria específica de um país.

Ao se aliar à Kobo, tanto a WHSmith quanto a Fnac podem entrar no mercado com e-readers quase ao mesmo tempo em que a Amazon entra com o Kindle. E a WHSmith, ao lançar os produtos e a loja para o Natal de 2011, deve deixar a Waterstone’s preocupada por estar alguns meses atrasada e porque quase com certeza terá uma loja menos amigável para o consumidor do que a concorrente.

A Barnes & Noble alcançou um incrível sucesso estabelecendo-se em segundo lugar no mercado de e-books dos EUA, mas sua situação pode acabar sendo única. Primeiro de tudo, estão no maior mercado de e-books [por valor, apesar de que mercados mais pobres podem ultrapassá-los em termos de unidade em algum momento] que veremos em uma década ou mais. Segundo, é uma livraria muito séria que construiu fortes relacionamentos entre as editoras no mundo todo, já há vários anos. E, terceiro, a maneira como executaram o seu plano para o mundo digital foi quase perfeita. Mesmo com este precedente como exemplo, não há nenhuma garantia de que a Waterstone’s, ou qualquer outra, possa repetir em outro mercado o que eles fizeram nos EUA.

Se for um jogo global e você tiver um concorrente global, assim como “todo um eco-sistema” que exige aparelhos ligados a uma livraria de conteúdo digital bem estocado e bem apresentado, podemos ver a briga sendo realizada pelos outros concorrentes tentando competir com Amazon, Apple e Kobo, seja Google, Copia, Sony, Blio da Baker & Taylor, ou os estreantes financiados em colaboração com as editoras: Anobii na Grã-Bretanha e Bookish nos EUA.

Se todo o resto for igual, posso ver um mercado global de e-books que, daqui a alguns anos, será 90-95% controlado por Amazon, Apple, Kobo e concorrentes locais em cada país, com o Google ficando com a maior parte do resto. O Google pode usar sua força nos títulos da cauda longa, porque descobrir conteúdo obscuro ou voltado para nichos poderia ser o seu forte; um editor universitário me contou em Frankfurt que já está vendo algum crescimento real em suas vendas no Google, algo que não ouvi de nenhum outro editor comercial ainda.

Mas muitas coisas podem não permanecer iguais. Uma fonte bem informada, da Digerati europeia, me contou que a Comissão de Competição Europeia pode proibir o modelo agência na União Europeia. Se isso acontecesse, seria uma grande ajuda para a Amazon. É irônico que o concorrente maior, mais forte e com mais dinheiro no mercado de vendas de e-books possa ganhar uma vantagem competitiva tão enorme dada por burocratas que ostensivamente querem estimular um mercado mais competitivo. As editoras podem ter suas dificuldades para compreender a transição digital, mas parece que as burocracias governamentais do mundo podem estar bem mais confusas do que as editoras.

Tradução: Marcelo Barbão

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 24/11/2011

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].

As editoras de livros conseguirão manter a primazia como editoras de eBooks?


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 17/11/2011

Mike Shatzkin

Como escrevi este post de Frankfurt, onde tivemos duas Conferências da Publishers Launch, não tive muito tempo para o que meus amigos britânicos chamariam de um post “apropriado”, com um pouco de pesquisa [admito que nunca faço muita] e alguns links. Mas estive pensando em algo no último mês, depois de conversar com um vice-presidente de marketing de uma grande editora. Parece ser uma das principais questões que as grandes editoras precisarão encarar nos próximos anos.

Essa questão não está baseada em estudos, pesquisas ou estatísticas oficiais: é minha especulação. Acho que num futuro bem próximo veremos 80% do mercado nos EUA para textos de narrativa [que também chamamos de livros trade] formado por livros digitais – poderia até mesmo ser daqui dois anos, mas o mais certo é que levará até cinco anos. Já falamos sobre o ciclo que leva a isso nesta coluna: mais leitura digital leva a um declínio na compra de livros impressos o que, por sua vez, diminui o número de livrarias e leva mais pessoas a comprar livros online o que aumenta a leitura digital. E assim o ciclo continua…

Já estamos no ponto onde a venda de livros trade está passando dos 25% no digital [a porcentagem da renda das editoras é menor do que isso, claro] e ainda estamos num período, que durou uns cinco anos, mas que logo terminará, onde a penetração do digital mais do que dobrou anualmente [coloquei isso em itálico para enfatizar que estou falando sobre dobrar a porcentagem das vendas que são digitais, não o número absoluto de vendas digitais. Muitas pessoas entenderam errado quando escrevi sobre isso anteriormente].

Claro, a velocidade do crescimento da penetração vai diminuir antes de chegar a 100%. Eu imaginaria que chegaremos a 80% nos próximos dois a cinco anos, então chegaremos a 90% em outros dois anos, com os últimos 10% se arrastando por um longo período. Quanto tempo demorou, depois da invenção do carro, para que a última pessoa deixasse de andar a cavalo na cidade?

Agora, aqui está um fato comprovado em pesquisas, e estaria bem comprovado aqui se eu tivesse mais tempo: as empresas que não são editoras estão publicando seus próprios livros com maior frequência. Revistas, redes de televisão e sites estão descobrindo que a autopublicação de e-books é algo que elas podem fazer sem as complicações [ou a divisão de lucros] que exigiria trabalhar com uma editora.

Não é surpresa para mim, mas isso realmente levanta um ponto que as grandes editoras precisam considerar: as editoras de livros podem acrescentar valor suficiente ao processo de publicação de e-books a fim de persuadir outras marcas com conteúdo de credibilidade, que tenha contato direto com a comunidade vertical que é o público para seus livros, a fazer seus e-books através da editora ao invés de autopublicá-los?

Essa é uma questão existencial para as grandes editoras. Elas criaram parcerias com outras marcas, até da mídia, por muitos anos, baseando-se em sua habilidade única para entregar os livros impressos de forma competente e colocá-los nas prateleiras das livrarias. São coisas que uma revista, um canal de televisão, um estúdio de cinema ou uma empresa de empacotamento não podia fazer sozinha.

O que leva à conversa que tive na semana passada com o VP de marketing. Estávamos discutindo os tópicos adequados para a Digital Book World em janeiro de 2012. Essa editora está fazendo algumas coisas muito importantes que nem pensaria em fazer há alguns anos: SEO, claro, mas também desenvolvendo comunidades verticais e organizando um esforço corporativo para juntar nomes, dados e o contato direto com os leitores [com a dificuldade de que eles quase nunca finalizam realmente a transação]. Levantei a pergunta: “as editoras serão capazes de persuadir essas marcas que não são editoras de que vale a pena abrir mão de uma margem de rendimento e de algum controle e trabalhar com as editoras no futuro?

Esta é realmente uma excelente pergunta”, ele comentou.

A Random House aparentemente foi bem sucedida ao fazer isso recentemente. Eles fizeram acordos com dois sites políticos [Politico e Real Clear Politics] para fazer e-books relacionados à eleição presidencial de 2012. Isso é algo importante. Não seria importante se o acordo fosse sobre livros impressos; Politico e RCP não conseguem produzi-los. Mas eles poderiam fazer e-books sem a Random House; agentes literários de todos os lugares estão fazendo fila para oferecer as ferramentas para isso.

E o grande perigo para as grandes editoras é que se grupos como Politico e RCP começam a fazer seus próprios e-books, quem pode garantir que vão parar por aí? Seria uma extensão natural começar a publicar os e-books de outras pessoas depois de criarem uma boa rede e infraestrutura para vender esses arquivos. A questão que as editoras comerciais devem temer é perder o seu papel na cadeia de valor, de cima para baixo.

Habilidades e capacidades de desenvolvimento que fazem com que tenham uma importância superior para marcas verticais será essencial para a sobrevivência das editoras quando as habilidades e capacidades para produzir livros impressos se tornarem menos importantes comercialmente, como vai acontecer. Mesmo se você discorda das minhas expectativas agressivas para a penetração do mercado de e-books, acho que será capaz de substituir por suas próprias e terminará basicamente com uma conclusão bem próxima à minha.

Tradução: Marcelo Barbão

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 17/11/2011

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].

A pergunta agora é: Os e-readers vão sobreviver?


Conferência PublishersLaunch debate a atual situação do livro digital e reúne editores de diversos países

Discutir se há um futuro para o livro impresso é coisa do passado. Editores viraram o disco e agora se perguntam que tipo de aparelho as pessoas vão escolher para ler livros digitais: e-readers ou tablets? “Não é uma questão de ter um e-reader ou um tablet, mas de poder sincronizar todos os seus aparelhos”, melhor respondeu Riccardo Cavallero, da Mondadori. O assunto foi levantado na manhã desta segunda-feira, dia 10, em Frankfurt, nos dois primeiros painéis da Conferência PublishersLaunch, organizada pelo consultor e colunista do PublishNews Mike Shatzkin e por Michael Calder, responsável pelo boletim Publishers Lunch. A empresa AT Kearney apresentou números relacionados à utilização de e-readers e tablets nos principais países. De todos os países consultados, apenas no Reino Unido os tablets superam os leitores de livro eletrônicos [3.4% contra 2.6%]. Nos Estados Unidos, a relação é equilibrada, com os tablets tendo entre 8% e 9% de penetração e os e-readers, entre 9% e 10%. Com relação ao número de e-books disponíveis, o Brasil, único país da América Latina consultado, está na lanterna, com 6 mil títulos. Os mais avançados são Estados Unidos [1 milhão], Reino Unido [400 mil], Alemanha e França [80 mil cada], China [60 mil], Japão [50 mil], Austrália [35 mil], Itália [20 mil] e Espanha [15 mil].

Por Maria Fernanda Rodrigues | PublishNews | 10/10/2011

O que as pequenas editoras, os agentes e os autores precisam saber sobre publicação de eBooks


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 14/09/2011

Mike Shatzkin

Com a aceleração na passagem de um mundo editorial centrado na impressão para outro, centrado no digital, estão surgindo cada vez mais editoras digitais.

As maiores editoras, com os recursos de departamentos de TI sofisticados para guiá-las, já são parte do jogo há alguns anos e estão prestando muita atenção desde que o Kindle foi lançado pela Amazon no final de 2007. Mas com o crescimento do mercado, também aumentou o ecossistema. Há três anos era possível alcançar uma boa parte do mercado de e-books através de uma única livraria, a Amazon, num aparelho que realmente só conseguia mostrar livros de texto narrativos lineares; agora temos muitas opções para chegar ao consumidor por causa da maior variedade de aparelhos e com apresentações que podem ser sofisticadas.

Serviços gratuitos ou muito baratos oferecidos na internet a toda editora – de qualquer tamanho –, todo agente literário e todo aspirante a autor sugerem “você pode fazer isso” e dão a entender que pode ser feito “de maneira eficiente e sem muita ajuda”. Na verdade, serviços como o KDP [Kindle Direct Publishing] da Amazon, o PubIt! da Barnes and Noble e provedores de serviços comoSmashwords e BookBaby, oferecem a possibilidade de criar um e-book a partir do seu documento e distribuí-lo através da maioria das livrarias, para quase todo os aparelhos e quase de graça.

É realmente assim tão simples? Dá para suspeitar que não, já que agências literárias estão criando editoras de e-books [por exemplo: a Diversion, agência de Scott Waxman] e um pacote de serviços [por exemplo, a The Knight Agency em Atlanta] e consultoria para ajudar os seus autores. E num nível um pouco acima, as empresas de distribuição de e-books [por exemplo: MintRight] e editoras somente de e-books [por exemplo: Open RoadRosetta, e a avó de todas elas, a e-Reads de Richard Curtis] estão criando mais alternativas, às vezes até proposições explicitamente voltadas para os agentes. Se publicar e-books para todos os canais fosse realmente uma simples questão de fazer o upload de um arquivo, dificilmente seria necessário construir toda essa infraestrutura.

Sabemos que editoras pequenas, agentes literários e autores estão se transformando em editores a uma taxa incrível. Há dois anos, quando eu estava tentando organizar um painel de agentes literários para conversar sobre o trabalho com autores com base em cobrança por serviços no lugar de uma parcela dos royalties, foi difícil encontrar voluntários para discutir novos modelos. Há duas semanas, um grande agente de fora de Nova York me disse: “todos temos de pensar sobre isso agora; não temos alternativa”.

Resumindo, não são apenas as grandes editoras que estão dispostas a desenvolver uma estratégia digital para ajustar seus negócios aos novos tempos. Os competidores menores, os agentes que dependem da distribuição do seu conteúdo e até os autores que dependiam de editoras cujo negócio sempre foi transformar um manuscrito num livro, estão todos encarando uma nova realidade. Precisam considerar quais novidades poderiam reduzir ou eliminar a necessidade de uma editora ou pelo menos reduzir sua participação.

Apesar da estratégia correta para cada um depender de fatores que diferem para cada caso, há coisas que todos os que estão entrando nesta arena precisam saber e entender.

Primeiro de tudo, quais são todas as coisas que os editores fazem para que o manuscrito se transforme em uma venda? Todas elas são necessários? Quanto custam? Edição e desenvolvimento, revisão, design, criação de metadados: são coisas feitas rotineiramente nas editoras. Elas são críticas para todo livro? Um leitor/comprador notaria se um editor novato deixasse de fazer alguma delas? Os serviços que prometem fazer e distribuir um e-book sem investimentos fazem essas coisas bem?

Os e-books em si se tornaram cada vez mais complicados. O padrão ePub [usado por quase todo e-book não direcionado ao ecossistema Kindle] melhorou para enfrentar o desafio das apps e conseguir incluir cor, vídeo, áudio e elementos de software. Todo mundo que sabe que “você recebe pelo que paga” espera que os e-books mais complexos custem mais e deem mais trabalho para ser criados do que e-books de texto narrativo tradicional. Mas o que constitui algo “complexo”? E quanto dinheiro a mais custa esse “dar mais trabalho” para o editor que quer distribuir um e-book mais complexo do que simplesmente texto?

O marketing de e-books também exige todo um novo conjunto de conhecimentos e habilidades. A chave para todo o marketing de e-book é a metadado que o acompanha. Códigos que viajam junto com o arquivo especificando a informação bibliográfica central e o preço, mas que podem também representar muito mais do que isso a uma livraria ou um mecanismo de busca. Search engine optimization [SEO] é a arte de criar metadado que faz com que o livro tenha mais possibilidades de ser encontrado em resposta a diversas buscas; isso é outro conhecimento que novos editores de e-books precisam ter.

Este é apenas o começo do que é possível [e portanto necessário] no marketing de e-book. Trechos de capítulos podem ser distribuídos de graça. Sites podem ser convidados como parceiros…

E autores e editoras podem, e devem, fazer “marketing nas redes sociais”: usar o Twitter e o Facebook para comentar em perfis de grande audiência para chamar a atenção e ganhar credibilidade com audiências mais amplas. Isso significa mais conhecimento a ser adquirido.

Qualquer novo editor vai precisar entender os caminhos para o mercado. É verdade que a Amazon tem mais da metade das vendas de e-books nos EUA e a Barnes & Noble tem a metade do que sobra. Mas isso não acontece com todo livro e ignorar os outros deixa um bom pedaço do mercado inexplorado, sendo que as coisas estão mudando muito rapidamente [a participação da Amazon no mercado caiu muito nos últimos dois anos]. A OverDrive é o principal caminho para as livrarias. A Ingram agrega muitas lojas independentes. A Baker & Taylor está abrindo mercados entre grandes varejistas. A Kobo é tão importante no Canadá quanto a B&N nos EUA e trabalha em outros mercados no mundo todo. A Google tem o ecossistema de e-books que está entrando com seriedade entre as livrarias independentes. A Sony está para apresentar novos aparelhos que podem aumentar a sua importância no mercado. E a Apple está fazendo o máximo para dominar as vendas para seus aparelhos, que constituem uma grande fatia do bolo dos consumidores de e-books.

É possível chegar a todos esses canais diretamente, mas também existem muitos serviços para fazer o trabalho incrivelmente complexo de distribuir e administrar estes múltiplos canais. Perseus ConstellationIngram DigitalINscribe DigitalLibreDigital [recém comprada pela Donnelley] eBookmasters, assim como os serviços automatizados: Smashwords, BookBaby e MintRight que já mencionamos, além de outros, oferecem pacotes de serviços que fazem as mesmas coisas e ajudam com as necessidades de criação e marketing também.

Como falamos no começo, as maiores mudanças no mercado editorial estão acontecendo na comunidade de agentes. O que foi um modelo de negócio estável durante gerações está agora, repentinamente, mudando. Parece que há tantos modelos e posturas novas quanto agências literárias. Isso acrescenta outra coisa que todas as e-editoras – algumas formadas por agentes, outras por pequenas editoras tradicionais ou escritores – precisam saber e compreender. As relações entre autores, agentes e editores estão ficando muito mais complicadas e todo mundo precisa passar algum tempo pensando nisso e discutindo o seu significado.

Tradução: Marcelo Barbão

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 14/09/2011

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].

As editoras de livros impressos e eletrônicos vão publicar o mesmo conteúdo?


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 31/08/2011

Mike Shatzkin

Recentes relatórios de desempenho da Simon & Schuster e da Penguin, que podem ser tomados como indicadores, de alguma forma, do que está acontecendo com as outras “Big Six” nos EUA [além de serem também instrutivos sobre o que está acontecendo em todo o mercado editorial norte-americano], mostram que a receita está estável ou caindo, os lucros estão crescendo e que a parte dos e-books na receita está aumentando. Os relatórios mais recentes mostram que os e-books alcançaram 14% da receita na Penguin e na Simon & Schuster.

Primeiro, algumas observações sobre o que esses números realmente significam. Depois, alguns pensamentos sobre as implicações que terão no futuro próximo.

Devemos lembrar que estamos comparando maçãs e laranjas quando falamos sobre a porcentagem de vendas que representam e-books versus livros impressos. Chega-se a esta porcentagem, supostamente, somando as vendas dos livros impressos [que são envios sujeitos a devoluções] às vendas de e-books [que são compras reais de consumidores com devolução zero ou mínima] e depois dividindo os números da receita de e-books pela receita total.

Isso explica a aparente anomalia apontada no relatório da S&S, que mostra uma porcentagem maior do e-book no primeiro trimestre do que no segundo, o que já ocorreu em vários anos. Isso não é realmente difícil de entender. Um relatório que vi recentemente apontava uma explicação: as pessoas que ganharam e-readers no Natal compram mais livros em janeiro, um efeito que é menor no segundo trimestre. Mas também é o caso de que as vendas de impressos no primeiro trimestre [que são envios das editoras às livrarias, devemos lembrar] diminuem por dois fatores: incluem as devoluções das promoções de Natal e o primeiro trimestre não é onde se concentram os lançamentos de novos livros.

Então, enquanto há maiores envios de impressos sob consignação acontecendo antes das vendas de Natal e um grande número de novos donos de aparelhos final das festas, podemos esperar que os números do primeiro trimestre sejam aumentados artificialmente e os números do segundo trimestre mostrem um aparente declínio.

O declínio anual do segundo trimestre é apenas aparente, não é real.

A porcentagem de receita também serve às más interpretações. É uma média. Você conhece o ditado: “o homem de 1,82m se afoga caminhando por um rio que tem em média de 1 metro de profundidade”. Médias podem enganar. Esta porcentagem, tirando o fato de serem maçãs e laranjas, também é enganadora [me apresso a enfatizar que ninguém está querendo enganar de forma deliberada; não há nenhuma sugestão intencional aqui de afirmar que o número não é real ou que existe algum desejo de levar as pessoas a conclusões equivocadas].

Mas 14%, ou ao redor de 1/7, poderia levar as pessoas a pensar que o livro que vende 35 mil cópias está vendendo 30 mil em formato impresso e 5 mil em digital. Não é o caso. Primeiro de tudo, e-books “em média” geram menor receita por unidade do que os impressos porque muitos deles vendem por menos da metade do preço de varejo se comparado com a versão hardcover. Então, se 14% da receita é digital, algo mais do que essa porcentagem de unidades são digitais. Digamos que o número é mais próximo dos 17% ou talvez 20%.

Em segundo lugar, este número é, pelo menos até certo ponto, histórico. Certamente não é uma previsão. A previsão de todo mundo seria que o número subisse. E todo mundo concordaria [se você calcular o fator apropriadamente para o 1º e o 2º trimestres, além das anomalias de envios para vendas] que ele cresceu no período informado no relatório.

Em terceiro, nem todo o catálogo de impressos da S&S ou da Penguin está disponível em e-book. Isso significa que a base de títulos para os 14% de receita e [hipotéticos] 17% das unidades é um número menor de títulos do que a base de títulos impressos. Então para os livros disponíveis tanto como impresso como e-book, a porcentagem de unidades vendidas que são digitais é um número substancialmente maior do que esse. Não tenho tanto conhecimento assim das listas das editoras para fazer um chute razoavelmente bem informado sobre quantos títulos possuem muitas ilustrações ou são livros infantis ou já esquecidos no catálogo a ponto de os direitos para a edição de e-books serem muito confusos. Mas seria razoável assumir que para livros com narrativas comuns [não em termos de conteúdo, mas de forma], a porcentagem de unidades de e-books pode chegar a uns 30% ou mais.

Um relatório recente da Simon & Schuster sobre o primeiro dia de vendas de um grande best-seller enfatizou o poder do e-book nos EUA. O USA Today informou em 13 de julho que a S&S afirmava ter vendido 175 mil unidades totais vendidas no primeiro dia de disponibilidade de A Stolen Life, de Jaycee Dugard, dos quais 100 mil eram e-books [O artigo não deixa claro, mas é provável que sejam maçãs e maçãs, vendas de livros na caixa registradora e audiobooks informados pela BookScan e, como sempre, vendas registradas de e-books. Se eles comparassem envios de impressos com vendas de e-books, o número seria provavelmente uns 40% e não os 57% como indica esse relatório].

Como as vendas de e-books são, no momento, receita dólar por dólar, mais lucrativos do que as vendas de livros impressos, as editoras são capazes de informar receitas estáveis ou menores e lucros mais altos. Com o padrão da indústria de pagar 25% dos royalties dos e-books já prevalecendo nos últimos dois anos, mais ou menos, esta notícia definitivamente chama a atenção de agentes atentos. Mas, deixando de lado o sucesso futuro dos agentes em negociar melhores termos, é provável que isso continue assim?

Uma variável muito relevante que é difícil de prever é como editoras bem-sucedidas poderão manter os preços dos e-books altos se o ponto de referência nos preços dos livros impressos está diminuindo. Será um desafio maior manter os preços e, portanto, as receitas e margens altas – mesmo com o poder de agência, que só seis editoras no mundo hoje possuem realmente – quando o preço do livro impresso não for visto mais como base para comparação.

Na verdade, o atual crescimento no lucro sugere que as grandes editoras conseguiram fazer um bom trabalho no gerenciamento da transição de impresso para digital até o momento. O que está implícito nos números informados, mas que recebeu pouca atenção, é que as vendas de livros impressos está caindo tremendamente. Um editor me contou que a lista média de primeiras impressões de não-ficção caiu cerca de 40%. Uma editora maior sugere que o número de livros impressos que estão saindo de seus depósitos é 35% menor do que há dois anos. Não tenho acesso aos números, mas isso poderia significar que em alguns segmentos a queda pode chegar à metade do que era há dois anos.

Impressões menores significam preços maiores por unidade, mas também significa que unidades menores estão compartilhando o custo do design e da diagramação. Muitos dos custos fixos nas editoras: depósitos, departamento de produção, criação de catálogo e muita TI só são realmente necessários para apoiar o componente impresso do negócio. Nas últimas duas décadas, o sucesso comercial na publicação de livros [e, como a quebra da Borders deixou claro, no varejo também] dependia de uma cadeia eficiente de suprimentos. Ter estoque, mas não exagerado, envios rápidos, ser capaz de fazer reimpressões rapidamente, processar devoluções com agilidade para facilitar as contas e fornecer dados precisos para os clientes, bem como os acionistas, tudo isso exige investimento, mas gera valor que são mostrados nos lucros.

Até o Kindle ser lançado em novembro de 2007, a pergunta sobre e-books era “é possível transformar isso num negócio?” Desde então vimos o share do e-book duplicar ou mais do que isso a cada ano, incluindo 2010. Desde 2008 ou 2009, a pergunta tem sido “por quanto tempo este tipo de crescimento pode continuar?” Quando o share chega aos 30% para a maioria dos livros de narrativa, que acho é o número atual, sabemos que não podemos continuar por mais dois anos porque isso seria uma impossibilidade matemática.

Então, as perguntas sobre os e-books agora são “quando esse crescimento vai diminuir?” e “há um limite no qual o livro impresso continua sendo um negócio sustentável e substancial?” Se a resposta à primeira pergunta não for “muito em breve”, então a resposta à segura pergunta deve ser “não”.

A outra pergunta feita aqui é se a publicação de textos narrativos diretos se torna um negócio separado e diferente da publicação de livros ilustrados. Assim como o componente impresso é comercialmente importante para o sucesso de livros de narrativa, é perfeitamente lógico para uma editora publicar os dois. Os livros de narrativa e os ilustrados, afinal, podem ser colocados na mesma prateleira na Barnes & Noble, Ingram ou qualquer livraria. Às vezes, eles são até manufaturados pelas mesmas gráficas [apesar de que muito menos do que há algumas décadas]. O inventário deles pode realmente ser monitorado com as mesmas capacidades e pessoas [apesar de usarem algoritmos diferentes].

Um fator totalmente imponderável é como será o mercado para e-books fora do texto narrativo, pois foi nesse setor que se concentrou todo o crescimento. Para e-books ilustrados, enhanced ou em forma de apps, as histórias de sucesso são pontuais, não tendências inegáveis. É verdade que os aparelhos corretos ainda não estão distribuídos amplamente, mas é também verdade que não temos uma prova clara de que esses e-books serão tão importantes para o consumidor quanto os de textos narrativos. Sabemos que serão mais caros para criar.

Um executivo de e-books que sabe do que está falando, de uma grande editora, me lembrou outro dia que os seus editores de livros de receitas ainda estão preparando o conteúdo primeiramente para a página impressa e as versões digitais são desenvolvidas depois disso. “Se nossos editores ainda estiverem fazendo isso daqui a dois anos”, disse essa pessoa, “então como empresa teremos feito algo terrivelmente errado.” Essa declaração está correta e abrange a possibilidade de que algo como os pacotes de conteúdo de livros de culinária dentro de outros recipientes não terão um mercado lucrativo mesmo em formato digital, e serão explorados de forma completamente diferente. Não sabemos ainda como um fato empírico que as pessoas vão comprar “livros de culinária” digitais, da forma como temos certeza que as pessoas vão ler textos de narrativa em aparelhos, felizes e sem saudades.

[Culinária? Um candidato perfeito para o modelo de assinatura!]

O que sabemos é que uma alta porcentagem de venda de livros ilustrados é para presentes. Até certo ponto, isto acrescenta uma barreira que não tem nada a ver com design ou funcionalidade para a migração para e-books. E esses livros, supostamente mais do que os livros de textos narrativos, se beneficiam do efeito de showroom que as livrarias podem criar. E sabemos o que está acontecendo com as livrarias.

A taxa de migração de impresso para digital de textos narrativos nos últimos quatro anos nos levaria a acreditar que haveria um mercado pequeno para livros impressos dessa categoria daqui a uns poucos anos, se simplesmente não acabar. Se as editoras virem o rendimento com impressos cair outros 35% nos próximos 18 meses, a maioria dos grandes livros de narrativa vender até uns 75% de suas unidades como e-books, e a maioria do que as editoras enviam de seus depósitos for de títulos que não estão entre os mais vendidos, então o jogo terá mudado completamente.

Poderíamos concluir que os conhecimentos e as exigências organizativas para publicar narrativa, se os impressos se tornarem um componente menor do rendimento, serão bem diferentes do que é necessário para publicar o conteúdo ilustrado para o qual o impresso permanece ainda uma parte importante de rendimentos. Naquele mundo, o que constitui um portfólio sensível de ofertas para o que hoje chamamos de “editora de livros” poderia ser definido de forma bem diferente.

Tradução: Marcelo Barbão

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 31/08/2011

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].

Precificação dinâmica: O que é e o que não é


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 21/07/2011

Mike Shatzkin

O termo ‘precificação dinâmica’ anda ressoando na cabeça dos donos de editoras à medida que começam a perceber as novíssimas oportunidades do chamado modelo de agência. Recentemente eles descobriram que a Amazon define seus preços de forma automatizada, utilizando algoritmos. Como resultado, nesse momento alguns dos pensadores mais criativos do mundo tecnológico estão pensando em como as editoras podem fazer algo semelhante.

A determinação “automatizada” de preços é amplamente utilizada por empresas aéreas e pela indústria hoteleira para fixar preços de passagens e diárias em quartos de hotel. Mas tanto poltronas de avião como quartos de hotéis possuem três características que os e-books não têm:

A primeira delas é que há um limite físico de quanto se pode de fato vender. Quando lotados, vôos e hotéis não podem vender mais nada, ainda que haja procura.

A segunda característica é que empresas aéreas e hotéis pagam pelos assentos ou quartos independentemente destes serem vendidos ou não. Há um custo relativamente pequeno “por uso”: uma coca-cola grátis para o assento ocupado e o custo da lavagem de roupas de cama quando hóspedes usam o quarto de hotel. Mas independentemente de estarem vazios ou ocupados, o avião terá que voar e o hotel terá que pagar o recepcionista e as camareiras. E isso sempre irá ocorrer independentemente do número de assentos ou quartos ocupados.

E a terceira característica é que há um prazo efetivo para cada venda. De manhã cedo, já não se pode vender o quarto de hotel que estava vago na noite anterior. E quando o avião decola, já é tarde demais para oferecer assentos na janela ou na Classe Executiva.

Por isso esses dois tipos de negócios utilizam a chamada determinação dinâmica de preços. À medida que o prazo para negociar um quarto de hotel ou passagens de avião vai chegando ao fim, cálculos são realizados para determinar se é razoável elevar os preços [porque não há número suficiente de assentos ou quartos vendidos] ou baixá-los [por causa das muitas escolhas dos consumidores, somente preços baixos são competitivos, e em circunstâncias de baixa venda, qualquer negociação é lucro].

A precificação dinâmica nesses negócios tem a ver com a pergunta de como maximizar a receita tomando como base uma oportunidade de venda fixa.

Já com e-books a coisa é bem diferente. Não há limite quanto ao número de livros digitais que podem ser comercializados. Também não há prazo, que uma vez ultrapassado, faz com que custos recaiam sobre o negócio, mesmo não havendo venda. E o lado competitivo característico daqueles negócios – clientes checam a disponibilidade de quartos em diversos hotéis da mesma categoria antes de eleger um, e estudam inúmeras possibilidades de vôos antes de comprar a passagem – não é tão evidente. Se a fixação dinâmica de preços para maximização da receita em hotéis e aviões se assemelha a uma ciência exata, para e-books, funcionaria mais como uma alquimia ou uma arte.

Isso não quer dizer que não seja uma boa idéia. Mas é um pouco mais complicado resolver o problema da maximização de receita no negócio de livros digitais. No mínimo, a lógica das técnicas utilizadas nas indústrias hoteleira e de linhas aéreas não se aplicará totalmente à venda de e-books.

O desafio e a oportunidade é utilizar dados para ajustar preços automaticamente, ao invés de fazer buscas de informações de forma manual, usando-se para isso não muito mais do que a intuição humana.

Por exemplo, nosso cliente Dan Lubart de iobyte fez omapeamento de um caso interessante que demonstra que a determinação automatizada de preços pode ser uma boa idéia.

Dan encontrou um e-book que estava sendo vendido a US$ 12,99 mas que estava em uma curva de “declínio” de vendas, de forma bastante consistente e gradual. A editora determinou o preço de US$ 8,99 para o livro por algumas semanas e as vendas dispararam, estabilizando a um nível consistentemente superior por algumas semanas e enquanto o livro estava sendo oferecido pelo preço promocional.

Mas, quando a editora decidiu pela retomada ao preço “normal”, o valor subiu para US$ 14,99, e não mais US$ 12,99. O fato interessante foi que as vendas voltaram a cair e atingiram a mesma curva de declínio, fazendo com que o livro seguisse o caminho descendente anterior.

Isso nos leva a duas questões. Uma é se a editora deveria ter mantido o preço promocional por mais tempo, uma vez que as vendas estavam se sustentando a uma taxa superior com o preço mais baixo. A outra pergunta é se houve de fato algum benefício quando o livro permaneceu a US$ 12,99 por tanto tempo, quando poderia na verdade ter permanecido a US$ 14,99. O fato de que a curva de declínio não foi afetada pelo aumento do preço indica que teria havido mais benefício oferecer o livro a um preço mais alto.

A grande questão é que muitos livros são parecidos, mas nenhum livro é igual a outro. Isso obrigará as editoras a fazer inúmeras tentativas experimentais para somente então colher dados suficientemente confiáveis para responder as duas perguntas acima. Somente se forem feitos testes com 20 ou 30 livros com preços e perfis de vendas similares é que se poderá determinar uma tendência minimamente convincente e discernível. A maneira mais prática de encontrar candidatos para aplicar tais testes é gerando regras para alterar os preços dos livros de forma dinâmica. Se as editoras concluírem que os padrões se repetem, poderão, então, aplicar regras definidas algoritmicamente.

O número de variáveis é muito vasto. Há resultados diferentes para cada um dos diferentes pontos de vendas. Não há dúvida de que a observação dos preços de livros competitivos, por exemplo, teria um impacto importante. Por outro lado, a tarefa de identificar quais livros são competitivos já não é tão simples. O que dizer da tarefa de rastrear as vendas deles [pelo que pudemos observar, rastrear e determinar preços de livros competitivos é algo que ninguém jamais ousou fazer, mas aparentemente já estão tentando descobrir como]?

De fato, a complexidade do mercado de livros digitais faz com que o uso de técnicas para a precificação dinâmica seja, em potencial, muito mais importante para a indústria de livros digitais do que para hotéis e empresas aéreas. Certamente, isso poderia significar uma enorme vantagem competitiva para as editoras que saíssem na frente.

Os agentes mais espertos já estão atentos. Eles já sabem que sua parte na venda de livros digitais equivale à porcentagem que eles negociam a duras penas multiplicada pela receita da editora. A partir de agora, a receita poderá ser claramente afetada pela capacidade da editora de estabelecer preços que captem o maior números de dólares dos consumidores. Com o tempo, ficará cada vez mais claro que será necessário alterar os preços de forma inteligente para aumentar a receita, o que por sua vez levará ao aumento das comissões dos agentes.

As editoras que atentarem primeiro para este fato terão um argumento poderoso para convencer os autores que publicar com elas significa alguns trocados a mais no bolso.

Por agora, e nos próximos meses, ninguém estará utilizando este argumento de forma persuasiva. Isso porque ainda temos muito o que aprender . Hoje vivemos em um mundo onde as coisas estão mudando rapidamente e a revolução do formato impresso para o formato digital está dando seus primeiros passos. Mas as editoras que saírem na frente desenvolvendo esse novo conhecimento e dominando as ferramentas para implementá-lo terão muito o que falar nos próximos um ou dois anos.

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | Tradução: Caroline Aguiar | 21/07/2011

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].

Propaganda de eBooks ainda é um problema


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 22/06/2011

Mike Shatzkin

Desde os meus oito anos, sempre estou lendo pelo menos um livro. Quando era criança, os encontrava em casa [papai trabalhava na indústria] ou na biblioteca da cidade, Croton-on-Hudson, ou na biblioteca da escola. Às vezes situações fora do comum me traziam um monte de material de leitura. Nos últimos dias do segundo ano da escola, peguei catapora e fiquei na cama por umas duas semanas. Já tinha desenvolvido uma afinidade com a série de livros infantis da Random House sobre história norte-americana chamada Landmark Books, que ainda está disponível. Papai conhecia a pessoa na gráfica responsável pela conta da Random House e uma caixa com 40 livros chegou um dia depois que fui diagnosticado. Quando finalmente pude sair da cama, já tinha lido todos.

Quando estava no ensino médio, descobri que uma grande farmácia na esquina da Rua 42 com a Rua Vanderbilt, na Grand Central Station, tinha uma enorme seleção de livros paperback e ela se tornou um destino de compras pra mim por um bom tempo.

Quando adulto, as compras e as descobertas passaram a acontecer nas livrarias. E apesar de, ocasionalmente, encontrar ideias sobre o que ler em resenhas de livros ou recomendações de amigos, normalmente eu simplesmente ia até a livraria e comprava. Ia dar uma espiada nas seções de história norte-americana, biografias ou esportes [besisebol tem sua própria estante dentro de esportes].

Nunca me tomou muito tempo encontrar o que eu queria ler até chegar aos e-books.

Na era dos e-books pré-Kindle, eu era cativo da loja Palm Digital, porque lia num Palm e sua postura era não permitir que outras lojas vendessem seu formato. As escolhas eram limitadas porque as editoras, antes da chegada do Kindle, relutavam em fazer os investimentos necessários para publicar livros para mim e para as outras quatro pessoas que liam e-books na época. Isso mudou imediatamente quando o Kindle chegou e, por causa dele e de outros grandes formatos que chegaram ao mercado desde então, as opções são muito maiores agora. Quase todo livro novo que quero ler está disponível para o aparelho que escolhi [o iPhone] e a digitalização do catálogo continua acontecendo nas editoras.

Mas a propaganda, pelo menos para alguém que compra num iPhone [é um pouco melhor através de outros aparelhos ou PCs], deixa muito a desejar. Minhas experiências de compra são, na verdade, parecidas a uma caminhada aleatória. Eu peço para a minha loja me mostrar os livros por categoria e, como minhas categorias não mudam muito [e não mudaram muito desde que sou criança], tendo a ver os mesmos livros muitas vezes, muitos dos quais já li [talvez em outros formatos].

Há pouco tempo, estava comprando minha próxima leitura no iPhone. Comecei a comprar com o Kindle e depois com o Nook, mas alguns minutos em cada site mobile não mostraram nada que me animasse. Aí, no Google eBooks, encontrei Making of the President 1968, de Theodore White. Esse era o que eu queria ler. Comprei e já estou na metade.

Não existe nenhuma garantia especial de que vou encontrar meu próximo livro na Google. Ainda não encontrei nenhum padrão claro entre as quatro lojas em que compro normalmente [Kobo é a quarta]. Obviamente, se eu soubesse que queria ler outro thriller de James Patterson ou John Locke, os dois estariam em poucos minutos no meu iPhone sem grandes problemas. É quando estou buscando por assunto que encontrar uma boa opção de leitura parece ser um golpe de sorte. Com certeza não estou ajudando as livrarias ao ficar fazendo compras em vários lugares; mesmo se alguma delas tivesse um bom motor de busca para guardar as minhas compras anteriores, ler o meu perfil e fazer uma excelente recomendação, eu estaria complicando por ficar espalhando meus dados por aí.

Tudo isso mostra a dificuldade do desafio enfrentado por Bookish nos EUA e aNobii no Reino Unido, dois sites para “encontrar a próxima leitura”, financiados por grandes editoras. E eles se juntam a uma longa lista de sites que tentaram construir recomendações e conversas comunitárias baseadas no que as pessoas estão lendo: Goodreads, Shelfari, Library Thing, e a nova plataforma de e-books, Copia.

Acontece que a nossa empresa está agora se dedicando a colocar o livro do “The Shatzkin Files” em plataformas diferentes da sua inicial, a Kobo [os 60 dias de exclusividade terminaram]. Quando encontramos um limite de sete palavras-chave no processo de upload do Kindle, comecei a questionar: “Por que esse limite?”

E tive uma boa resposta. Acontece que a inclinação de qualquer autor ou editor seria colocar um monte de palavras-chave. Essa era a minha intenção. Ia pegar toda palavra-chave de todo post e colocar no livro. Mas, depois de refletir, como meu amigo na Amazon sugeriu, isso realmente não ajudaria o leitor que estava procurando o meu livro. O fato de um post no blog falar sobre um sobrevivente do Holocausto não quer dizer que alguém procurando esse tópico vai querer meu livro, cujo resto do conteúdo fala sobre coisas totalmente diferentes.

Acontece que a Amazon usa algoritmos criados por busca de texto completo para melhorar o que eles mostram em resposta às buscas que o editor e o autor não necessariamente pensam quando criam metadados. Como exemplo, ele mostrou um livro que você vai encontrar na Amazon se procurar por “erasure coding”, um termo de arte que poderia muito bem não ter sido incluído por um autor ou editor ao inserir palavras-chave, mas que os métodos mais sofisticados da Amazon permitem que seja usado para buscas.

Meu amigo na Amazon não disse isso, e talvez eu esteja lendo muito sobre o que eles fazem, mas quase parece que as palavras-chave que colocamos poderiam ser supérfluas e a capacidade que eles têm de fazer análises e algoritmos sobre textos completos na verdade mandam no que descobrimos. Talvez a solicitação de palavras-chave a autores e editores seja “só pra inglês ver”, mas é claro que não espero que a Amazon admita isso.

Eu estava apenas procurando por “história norte-americana” quando encontrei Making of the President 1968 no Google [e não encontrei em nenhum outro lugar quando procurei]. Então, as sofisticadas capacidades da Amazon não funcionaram para mim e agora o mecanismo deles não sabe que esse era um livro que eu queria, porque comprei em outro lugar.

Mas estou realmente feliz por ter encontrado este livro, que deve ter saído bem recentemente em formato e-book. Eu fui bastante ativo naquela campanha e na Convenção Democrática em Chicago, onde era o assistente de Pierre Salinger na primeira campanha de George McGovern. O autor dos livros da sérieMaking of the President, Theoore White, era amigo de Salinger e eu o conheci na convenção. Mas vou guardar as histórias dessa campanha para outro post, em outro dia.

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 22/06/2011

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].

Como é difícil descobrir o preço correto para o livro digital


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 25/05/2011

Mike Shatzkin

Wall Street Journal publicou um artigo sobre um assunto que já nos preocupa há um certo tempo: a dificuldade que as editoras terão em sustentar os preços dos livros no momento em que o fornecimento [de livros] está crescendo mais rápido do que a demanda por causa de toda a autopublicação que está chegando ao mercado.

O WSJ construiu sua história ao redor de John Locke, cujos livros de mistério custam 99 centavos de dólares e conseguiu ganhar US$ 100 mil em março vendendo-os na Kindle Store. O próprio Locke coloca a questão dos preços sob outra perspectiva. Se seus livros custam 99 centavos de dólar e a maioria dos e-books das grandes editoras custa de US$ 9,99 para cima, ele não precisa provar que é tão bom quanto os outros escritores; eles é que precisam provar que são 10 vezes melhores do que Locke!

Já li o Locke e afirmo: não consigo pensar em ninguém que seja dez vezes melhor do que ele. Por seus próprios critérios, ele poderia facilmente vender por US 2,99 [e ganhar uma porcentagem mais alta de royalties] porque ninguém é três vezes melhor do que ele, também.

Enquanto isso, num nível muito menos importante comercialmente, o e-book do The Shatzkin Files saiu agora pela Kobo por US$ 3,99. Como o preço foi pensado? A Kobo disse: “vamos colocar este preço”. A primeira ideia deles foi que deveria custar US$ 4,99, mas depois sugeriram diminuir porque, afinal, todo o conteúdo do e-book está no blog, de graça [isso estabelece que qualquer pessoa que compra o e-book está pagando pela conveniência do conteúdo agregado num só lugar e produto, não pelo conteúdo em si].

Não sei qual é o impacto diluidor do The Shatzkin Files sobre as vendas do “verdadeiro” e-book, mas é, como o material de John Locke, concorrência adicional para livros que são lançados por editoras. É mais oferta concorrendo pela mesma demanda.

Tentar entender o impacto real do preço é bastante difícil. A Amazon informa que os livros sobre os quais ela tem controle do preço estão crescendo mais do que os livros nos quais as editoras controlam o preço. Isso é outra maneira de dizer: “e-books de 99 centavos e US$ 2,99 autopublicados estão crescendo mais do que ebooks de US$ 9,99 a US$ 14,99 publicados pelas grandes editoras”. Isso tenderia a sugerir [e certamente procura dizer] que o preço alto [e “sem noção”] está prejudicando a rentabilidade das grandes editoras e dos grandes autores, mas não dá para tirar essa conclusão dos dados com absoluta certeza.

Voltando a Locke. Ele afirma que o livro de US$ 9,99 precisa ser “10 vezes melhor” do que o dele para ter um valor equivalente, mas eu afirmaria que ele precisa vender somente um décimo da quantidade de exemplares vendidos por Locke para garantir a mesma renda. A Penguin ainda está vendendo o Fall of Giants , de Ken Follett, por US$ 19,99. Venderia vinte vezes mais exemplares se cobrasse 99 centavos? E, se vendesse, faria isso canibalizando as vendas da edição de capa dura, que, com um preço de US$ 36, possui uma margem de quase US$ 20 em relação ao e-book?

Não sei se US$ 19,99 é o preço certo para Fall of Giants, mas tenho certeza de que 99 centavos não é.

Em outras palavras, as grandes editoras não estão loucas ao resistir aos preços de e-books que os novos autopublicados estão colocando. Para ser justo, não podemos sugerir que a Amazon colocaria seus preços a esse nível, se tivesse a liberdade para tanto. Uma coisa é certa: a menos que os esquemas de preços mudassem completamente, a Amazon teria “comprado” um e-book [no atacado] a um preço que limitaria sua disposição a rebaixá-lo. Eles realmente pressionaram as editoras assumindo perdas em alguns e-books, vendendo por US$ 9,99 o que tinham comprado por US$ 12 ou US$ 15. Mas nunca os venderiam por 99 centavos!

Na verdade, parece que a Amazon não tem controle sobre o preço do livro de Locke, porque o artigo do WSJ deixa claro que ele vai continuar vendendo por 99 centavos, mesmo podendo ganhar mais a US$ 2,99 [A Amazon paga um royalty de 35% para livros abaixo de US$ 2,99 e 70% por livros entre US$ 2,99 e US$ 9,99, então Locke ganharia US$ 2,10 por cópia se vendesse a US$ 2,99 em vez dos 35 centavos de agora]. Provavelmente a Amazon teria colocado os livros dele a um preço onde Locke [e eles] ganhassem mais, não onde conseguissem mais vendas por unidade, o que, assumimos, iria aumentar a cada centavo que os preços fossem reduzidos – até chegarem a ser gratuitos.

Mas o fato de que as editoras não estão necessariamente erradas em tentar manter os preços perto dos US$ 10 ou mais não apaga duas verdades convincentes que seria um erro ignorar.

Uma é que a pressão para baixa nos preços é inexorável porque o número de autores empreendedores como John Locke vai crescer e eles serão descobertos e “ganharão nome”, e assim muitos leitores os verão como substitutos para os autores mais caros das editoras, e porque o número de ofertas iguais às do e-book do The Shatzkin Files – de pessoas que não estão escrevendo para lucrar com o conteúdo, mas que estão construindo uma audiência e de qualquer maneira têm um livro – vai continuar a acrescentar oferta para o que é uma demanda relativamente estática.

E o segundo, já falado aqui antes há não muito tempo, é que as editoras não sabem tanto quanto poderiam e deveriam sobre como o preço afeta as vendas por unidade e o lucro total.

Cedo ou tarde, uma ou duas grandes editoras vão começar a fazer experiências sérias com isso. Elas vão conseguir o conhecimento que vai permitir que digam a um autor ou agente: “sabemos algumas coisas sobre preços que podem gerar uma boa renda para você, se publicar conosco”. Quando isso acontecer, provavelmente vai ser mais significativo para um autor do que um aumento na porcentagem nos royalties. Talvez uma editora possa até acrescentar valor suficiente com expertise em preços para compensar a redução deles!

Até agora, somente um autor que conhecemos recusou um adiantamento significativo de uma grande editora para se autopublicar. Foi Barry Eisler, e escrevemos sobre ele quando tomou sua decisão de recusar meio milhão de dólares para se autopublicar. A gente convidou o Barry para falar em nossaprimeira Conferência Publishers Laucnh em 25 de maio na BookExpo America. Estamos muito interessados em quanto ele está antecipando em vendas no exterior e como vai lidar com direitos de tradução, mas também queremos saber os pensamentos de Barry sobre como ele vai estabelecer os preços para seus livros quando o poder estiver inteiramente em suas mãos.

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 25/05/2011

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].

BookExpo America terá conferência sobre o livro digital


O “Publishers Launch BEA: eBooks Go Global” está sendo organizado por Mike Shatzkin e por Michale Calder, do Publishers Lunch

Entre os dias 23 e 26 de maio, Nova York recebe profissionais do mercado editorial para a BookExpo America [BEA], que consiste em quatro dias de conferências [23 a 26] e três dias de exposição [24 a 26]. Paralelamente à programação que vai movimentar o Jacob K. Javits Convention Center [655 West 34th Street – Nova York/NY], acontecem seminários como o “Publishers Launch BEA: eBooks Go Global”.

Organizado por Michael Calder, do Publishers Lunch, a mais importante publicação especializada – com 45 mil assinantes, e por Mike Shatzkin, consultor, fundador da Idea Logical Comapny e colunista do PublishNews, o encontro apresentará todos os aspectos do livro digital no dia 25 de maio, das 9h às 17h, e tem entrada independente da feira. Há diferentes pacotes de ingressos. Quem quiser participar apenas da conferência paga US$ 595 e tem direito a visitar a feira neste dia. Outras informações sobre inscrições podem ser acessadas aqui.

A conferência ajudará editores, agentes, autores, livreiros e outros profissionais do mercado nessa transição para a era digital e vai ajudar na mediação entre a tecnologia, profissionais envolvidos, paradigmas e estruturas já existentes que ainda são responsáveis pelos lucros deste negócio. As lições aprendidas pelo mercado editorial norte-americano, mais avançado do que qualquer outro nesta questão digital, serão compartilhadas com os participantes. Os conferencistas mostrarão ainda como construir uma base de operação digital e abordarão todas os seus desdobramentos – conversão, distribuição digital, metadados, direitos autorais, modelos de preço, aplicativos, entre outros.

Confira a programação, que inclui palestra de empresas como a Google, Random House, Bloomsbury, Ingram e outras.

PublishNews | 12/05/2011

Random House adere ao modelo de agência


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 16/03/2011

Mike Shatzkin

Agora todas as Big Six estão vendendo livros pelo modelo de agência. A Random House se uniu a suas cinco concorrentes.

Faz quase um ano que a Apple lançou o iPad, abriu a iBookstore e entregou às grandes editoras uma oportunidade para reescrever as regras do mercado de e-book, pelo menos para seus próprios livros e por algum tempo. Como leitores desse blog certamente sabem, cinco das maiores editoras (Hachette, HarperCollins, Macmillan, Penguin e Simon & Schuster) usaram a oportunidade apresentada pela chegada da Apple à cena e implementaram a mudança para o modelo de agência para todos seus clientes. A Random House, por motivos que fizeram sentido para mim na época – e quase certamente ganhando algumas vantagens competitivas no último ano, julgando pela raiva entre muitos de seus concorrentes de igual tamanho –, ficou com o modelo de distribuição original.

A vantagem competitiva vinha do fato de que todas editoras com modelo agência “forçavam” uma margem de 30% no canal de venda de e-book enquanto que a Random House pode ter, no final da história, abocanhado mais margem do canal de varejo.

Estas são minhas interpretações sobre essa mudança:

1. O modelo agência foi bem-sucedido em quebrar a hegemonia da Amazon sobre o mercado de e-book. Um ano atrás, parecia possível que a Amazon conseguisse manter de forma duradoura entre 75% ou 80% do mercado de e-book. Hoje, apesar de ainda terem a maior fatia, e quase certamente terem mais do que o dobro de qualquer outro, o modelo de agência permitiu que se desenvolvesse uma competição real com a iBookstore, o Nook da B&N, Kobo e Google. E os independentes servidos por Google, Ingram e Overdrive ao redor do mundo podem oferecer uma alavancagem de mercado em potencial, se não forem expulsos do jogo pela competição do preço. A Amazon ainda é um gigante, mas não é o único player do mercado. Ao implantar o modelo de agência agora tanto a Random House como a Amazon ganham alguma vantagem comparativa. Se a Amazon ainda tivesse 80% do mercado, não veríamos essa mudança.

2. A Google pode não estar vendendo (ainda) muitos e-books (o sentido de não terem uma grande fatia do mercado), mas estão abrindo cada vez mais espaço para os independentes. Estes conversam com representantes de venda e a Random House possui mais representantes do que qualquer outro. Eu imagino que a empresa começou a sentir um certo desconforto com o feedback que estavam do varejo que eles querem manter vivo.

3. Até o momento, nenhuma das grandes editoras tomou a iniciativa de vender agressivamente e-books diretamente para os consumidores online. Mas elas acabarão tendo de fazer isso. Vocês podem se lembrar que o CEO da Random House, Markus Dohle, me contou no ano passado que tinha percebido que as editoras precisariam se tornar B2C. Ele não estava sugerindo que venderia livros direto ao consumidor no momento; na verdade, ele insistia que havia outras formas de manifestar aquela visão que não fossem vendas diretas. Mas se alguma vez você pensar em vender direto e dedicar quinze minutos a isso, vai perceber que ou terá de fazer sob termos de agência ou enfrentará complicadas e bastante problemáticas conversas com seus varejistas.

E é isso que estou vendo.

No momento, até onde posso afirmar, há muito pouco uso, entre as grandes editoras, de sua capacidade de gerenciar os preços no mercado. Não conheço muitas experiências sendo feitas. Não conheço nenhum especialista em marketing direto ou em dinâmica de preços (duas coisas que seriam relevantes) sendo contratados por grandes editoras para ajudá-las a perceber o potencial das oportunidades. E só posso lembrar de um executivo sênior conhecido que possui um interesse pessoal em dinâmica de preços.

Talvez seja diferente com a Random House. Eles são os líderes tradicionais da indústria em termos de operações e análises. Fazem inventários gerenciados por vendedores para as contas de varejo; não conheço nenhuma outra grande editora que faça o mesmo. Possuem um sofisticado gerenciamento de cadeias de suprimento há anos.

Agora têm a vantagem de ver o que seus concorrentes fizeram e o que não fizeram, durante o primeiro ano de preços pelo modelo de agência. Será importante ver se aproveitam de forma mais enérgica a oportunidade com o gerenciamento de preços do que as outras editoras fizeram até o momento.

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 16/03/2011

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].

À beira do ponto crítico


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 02/03/2011 | Tradução Marcelo Barbão

Às vezes, e parece que isso acontece com muito mais frequência hoje em dia, o futuro chega mais rápido do que se espera.

Seguidores desse blog, e dos meus discursos antes de existir um blog [este é de 2001!], sabem que há muito tempo espero o momento em que muitas pessoas passarão a ler mais e-books do que livros impressos. Errei no ritmo que isso ia acontecer. [Há dez anos eu esperava que isso acontecesse em 2006 ou 2007.] Errei em relação à questão da diferença que faria um aparelho de leitura [leio muito confortavelmente no celular, e antes disso num PDA, por isso achei que poucos iriam querer mais um aparelho somente para ler]. E estou repensando minhas expectativas em relação aos enhanced e-books e à utilidade da leitura social.

Mas há muito tempo ficou claro para mim que os e-books oferecem vantagens incríveis sobre os impressos – portabilidade, facilidade de compra e custos menores que devem inexoravelmente reduzir os preços – e que isso iria influenciar muitas das pessoas que, cada vez mais, estão na frente de uma tela a maior parte de seu tempo. E minha longa experiência lidando com a administração de livrarias deixou evidente que a consequente diminuição de vendas em lojas físicas iria levar a falências, o que aumentaria as distâncias para os clientes chegarem às lojas, e isso por sua vez motivaria mais pessoas a comprar livros impressos ou digitais online. O que iria levar a mais falências. É um círculo virtuoso se você estiver no negócio do e-book ou de vendas de livros impressos on-line. Ou se quiser ver os norte-americanos consumindo menos gasolina.

É um círculo vicioso – uma espiral mortal – se você é dono de uma livraria.

Michael Cader, da Publishers Lunch, informou [é preciso ser assinante para acessar os links] que os números da BookScan mostram uma queda na venda unitária de livros impressos em torno de 4,4 % de 2009 para 2010. Mas não acredite nesse número. Já está desatualizado. Cader fez uma análise mais profunda de mais dados recentes da BookScan mostrando que as vendas de livros impressos tinham caídomais de 15% em comparação com o ano anterior nas primeiras seis semanas de 2011! E a parcela de livros impressos vendidos online continua aumentando, então isso, quase com certeza, significa que as vendas em lojas caíram ainda mais rapidamente. As vendas de livros impressos em lojas podem ter caído 20% ou 25% em comparação com o ano passado? Claro que sim!

Vendas de iPads, Kindles e Nooks excederam as expectativas para o Natal de 2010. Dominique Raccah, chefe da editora independente Sourcebook, uma empresa com uma linha diversificada, informou em seu blog que as vendas em sua empresa em janeiro foram 35% através de métodos digitais!

Não me espanta que ela diga: “Podemos estar bem no ponto de virada. Suspeito que vamos ver alguma revisão quando os editores olharem seus números no final do primeiro trimestre de 2011.”

Ouvi o argumento de umas pessoas muito inteligentes falando que a adoção do e-book vai se estabilizar em algum momento. Como ela tem dobrado, ou mais, nos últimos três anos e tem sido frequentemente colocada entre 13 e 19% para nova ficção e não-ficção no último trimestre de 2010, sabemos que não poderá continuar a dobrar nos próximos três anos, ou iria ultrapassar os 100%. Mesmo assim, previsões de que as vendas de e-books chegarão aos 50% nos próximos cinco anos e que o espaço em prateleiras nas livrarias vai cair igualmente pela metade nos próximos cinco anos – que era a minha opinião – parecia algo bastante agressivo há seis meses.

Não parece mais.

A parcela de renda que a Borders representava para as editoras está ao redor de 8%. Poderia ser 10% ou 12% se víssemos só as vendas em lojas físicas. Assim, se a Borders desaparecesse completamente amanhã [e isso não vai acontecer] e mesmo se todo livro que eles vendessem em suas lojas fossem, de alguma forma, comprados na loja de outra pessoa [o que não vai acontecer], a redução da venda de livros em lojas seria tão grande que todas as outras livrarias, coletivamente, veriam um declínio substancial de vendas ano a ano.

Tudo isso significa que 2011 será um verdadeiro “apertem os cintos, o piloto sumiu” para as editoras. E Raccah está certa ao afirmar que as editoras ficarão um tanto quanto perdidas ao olharem seus números no primeiro trimestre desse ano.

Um impacto sobre o qual as editoras sofisticadas estão conscientes, mas que não é tão óbvio para olhos pouco treinados, é que com as vendas caindo, as porcentagens de retorno, inevitável e inexoravelmente, vão subir. Quando um editor calcula uma porcentagem de devolução para qualquer período – uma semana, um mês, um trimestre ou um ano – está medindo as devoluções recebidas e creditadas naquele período em relação às vendas feitas no mesmo período. Mas a devolução na verdade está ligada às vendas feitas em períodos anteriores; mesmo na pior das situações, poucos livros são devolvidos menos de três meses depois de seu pedido.

Então, o que está acontecendo agora é que os envios estão diminuindo – quase nenhum ou muito pouco para a Borders e com expectativas caindo em outros lados – enquanto que as devoluções estão crescendo porque estão sendo devolvidos os pedidos feitos a partir das expectativas mais altas dos últimos seis ou doze meses. Isso significa que as vendas por internet que estão sendo realizadas agora – envios menos devoluções – poderiam, para muitos, ser um desapontamento que beira a desolação.

E as porcentagens de devolução não são as únicas porcentagens problemáticas. Duas outras nas quais se baseiam as editoras serão mais desafiadoras.

A porcentagem do preço de um livro impresso que é constituído pelo “custo unitário de fabricação” é um. O custo unitário é algo extremamente sensível. Se você está imprimindo menos livros e se precisa segurar os preços de varejo [duas coisas que certamente acontecerão], a porcentagem da receita gasta na criação de livros impressos irá aumentar.

O segundo ponto problemático é que as editoras gostam de pensar os custos fixos como porcentagem. Muitas editoras ainda seguem a prática pouco inteligente de colocar um cálculo de porcentagem sobre os custos fixos em seus cálculos de cada livro. Mas se o volume de vendas cair mais rápido do que os custos fixos puderem ser reduzidos, essa porcentagem aumentará também. E não dá para reduzir de forma eficiente esses custos rapidamente. Demitir pessoas é geralmente uma ilusão; estamos sempre ouvindo falar de freelancers que conseguem trabalho porque as editoras demitiram a equipe que costumava fazer a mesma tarefa. Mas, além disso, custos de manutenção do espaço de trabalho e galpão de armazenamento, além de investimentos em sistemas não sobem ou diminuem de acordo com o volume [que é exatamente por isso que é um erro de lógica calculá-los como uma porcentagem da renda!]. Editoras que estão usando porcentagens sobre custos fixos para calcular suas margens em cada título que contratam vão descobrir que esses números precisam ser reconsiderados também.

Apesar de a Barnes & Noble sentir a queda nas margens de todas as livrarias físicas, eles estão, sem dúvida, bem conscientes da sua crescente importância para todas as editoras num futuro mundo sem a Borders. A B&N quase certamente estará procurando melhores termos de negociação e as editoras quase certamente sentirão a fraqueza de sua posição ao lidar com esses pedidos. E isso sem contar o fato de que as editoras realmente querem que uma Barnes & Noble saudável mantenha sua capacidade de mostrar os seus livros ao público.

Então, as vendas estão caindo, os retornos estão crescendo, o custo dos bens está subindo, as margens das vendas estão caindo, e manter os custos fixos corretos será um problema crescente. A boa notícia é que as vendas dos e-books estão crescendo e as margens deles – pelo menos até agora – foram bem preservadas.

Mas o primeiro sinal significativo de que os preços dos e-books vão cair chegou com a notícia de que e-books de 99 centavos de dólar estão começando a aparecer na mídia e nas listas de best-sellers que saem no The New York Times e no USA Today. Isso cria alguns problemas horríveis. Coloca autores anteriormente desconhecidos com livros por 99 centavos de dólar aparecendo como criadores de best-sellers. E encoraja as editoras já estabelecidas a cortar os preços para alcançar números de vendas que os coloquem nessas listas.

No mínimo, imagino que as editoras vão começar a pedir que o New York Times e o USA Today considerem a renda total que um livro gera no comércio [preço vezes unidade] quando criarem as listas, e não se baseiem somente nas quantidades de exemplares vendidos. Como as editoras estabelecidas compram muito mais anúncios que os autores de livros de 99 centavos, podemos esperar que eles, pelo menos, dêem alguma atenção a elas.

As editoras terão de lutar para manter seu negócio lucrativo e repensar muitas das práticas mais reconhecidas nas próximas semanas.

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 02/03/2011 | Tradução Marcelo Barbão

O futuro quando?


Nos EUA, onde é maior a adesão ao livro digital, 2011 começa com as perguntas de antes: quando livrarias de tijolos vão fechar e se grandes autores publicarão sem intermediários, explica à Folha Mike Shatzkin, organizador do Digital Book World. O evento, realizado na última semana em Nova York, debate vendas, enquanto o Tools of Change for Publishing, em fevereiro e similar em importância, se concentra na produção. No mundo, as dúvidas são: com que rapidez o livro eletrônico se disseminará e como o varejo local resistirá à hegemonia americana. Shatzkin estima entre 10% e 15% o percentual de americanos que leem livros digitais. Em outros países, não supera 1%.


Os números ainda são “medíocres” por aqui, afirma Luciana Villas-Boas, diretora da Record: “Vendemos até agora 37 exemplares eletrônicos“. Na Objetiva, que ofereceu mais títulos, o diretor Roberto Feith diz que desde novembro foram 663 exemplares vendidos: “O aumento foi de 252% em um mês, depois do lançamento do iPad e do Galaxy no país“.

POR JOSÉLIA AGUIAR | Folha de S. Paulo | COLUNA PAINEL DAS LETRAS | 29 de janeiro de 2011

E-books abaixo de zero


Por Carlo Carrenho

Em meio ao frio e neve nova-iorquinos, editores presentes na Digital Book World encontram mais perguntas do que respostas

A semana em Nova York começou fria. Ou melhor, gelada. Os termômetros bateram nos -15º na segunda-feira [26], e foi um dos dias mais frios dos últimos anos. Mas nada disso impediu que os 1.200 participantes da conferência Digital Book World, organizada pela F+W Media e pelo consultor Mike Shatzkin, marcassem presença no evento. Entre eles, mais de 30 brasileiros representando empresas como Companhia das Letras, GEN, Gente, Contexto, Saraiva, Callis, Livraria Cultura, Livraria da Vila, Ediouro e Singular, entre outros.

O evento abriu as portas na própria segunda-feira com um coquetel, alguns workshops e algumas apresentações comerciais de produtos em uma espécie de pré-conferência. Mas foi na terça-feira que a conferencia começou de fato. De forma geral, as dúvidas e perguntas suplantaram as respostas e novidades. Muitos dos painéis e palestras foram bastante especulativos, e as exceções foram os eventos que trouxeram dados de pesquisas inéditos ou soluções consolidadas.

A primeira apresentação plenária foi de James McQuivey, pesquisador da Forrester, que apresentou alguns números obtidos em uma pesquisa entre executivos do mercado editorial norte-americano. Como introdução, McQuivey lembrou que 10,5 milhões de pessoas são proprietárias de um leitor digital e 20 milhões de pessoas leram livros digitais no ano passado. A Forrester prevê que US$ 1,3 bi sejam gastos em ebooks em 2011, contra apenas US$ 1 bilhão em 2010.

MacQuivey ainda trouxe uma informação bastante interessante sobre a disputa entre leitores dedicados e leitores multifuncionais: um terço dos proprietários de iPads também tem um Kindle.

53% dos executivos pesquisados – que representam 65% do mercado editorial norte-americano – acreditam que as vendas de livros impressos vão cair nos próximos anos. E metade deles prevê que 50% dos livros vendidos já serão digitais em 2014. No entanto, quando perguntados como serão as vendas dos livros que publicam, acreditam, ironicamente, que isto só acontecerá em 2015 em suas empresas.

Outro painel bastante interessante colocou no palco Brian Napack, CEO da Macmillan, Jane Friedman, CEO da Open Road e veterana do mercado editorial americano, David Steiberger, da Perseus, e Mike Hyatt, CEO da Thomas Nelson. Conforme o bate-papo fluía entre os executivos, era possível perceber suas preocupações e focos e até identificar algumas tendências.

Mike Hyatt lembrou que o atual cenário exige que todo presidente de editora administre duas empresas, uma digital e outra física, e que este é um grande desafio. Napack, por sua vez, dividiu os editores em duas categorias: aqueles mais abertos que correm atrás do que precisam dominar no novo mundo digital e aqueles que insistem em dizer que o digital nunca acontecerá. Ele ainda enfatizou que os editores precisarão de um novo conjunto de habilidades que vão além do que eles têm hoje.

Friedman lembrou as 80 mil editoras independentes dos EUA e manifestou sua expectativa de que elas tragam autores e gerem negócios para sua empresa. “Estou cansada de fala das ‘big 6’”, declarou. A discussão também chegou às mídias sociais. “As pessoas agora estão confiando nos amigos para descobrir livros e conteúdo”, afirmou Hyatt. “Não é mais a exposição nas livrarias que vende livros”, completou Friedman.

Todos os conferencistas concordaram em relação às livrarias independentes. “Somos otimistas em relação às lojas físicas, mas elas têm o desafio de não se tornarem um show-room para vendas on-line”, afirmou Napack. “A livraria independente é parte de uma comunidade e é sobre comunidades que estamos falando aqui – as livrarias independentes têm feito mídia social muito antes deste nome ter sido inventado”, lembrou Friedman.

Outros momentos de destaque do painel foram quando David Steinberger lembrou que livros não são faixas de música e que os dois mercados são 100% análogos e quando Friedman afirmou que “custo zero não é um modelo de negócio, mas um modelo de marketing”.

A conferência ainda trouxe algumas pesquisas e as palestras de representantes da Google e da Amazon, com novidades em um ambiente carente de soluções. Abe Murray, da Google Books, informou que já foram baixados mais de um milhão de apps do leitor da Google e três milhões de e-books. Ele também divulgou as categorias mais vendidas e os romances populares são os campeões. Quanto aos parceiros, já existem 5mil editores no programa e 180 revendedores utilizando a plataforma para vender e-books. Russ Grandinetti, da Amazon, trouxe dados limitados mas bastante úteis. O principal deles é que os clientes da Amazon aumentam suas compras de livros em média 3,3 vezes depois de adquirirem um Kindle.

Ao final de cada painel, havia sempre um momento de perguntas da platéia. Foi quando alguém disparou: “Vocês só falam de vender livros. E a leitura? Vocês não se interessam se as pessoas lêem os livros, se de fato lêem o que compram?

Com certeza, esta e outras perguntas – e poucas respostas – foi o que a maioria dos participantes do Digital Book World levou na bagagem de volta para casa – caso tenham conseguido deixar Manhattan durante uma das maiores nevascas deste inverno na noite desta quarta-feira [26].

Por Carlo Carrenho | Publicado originalmente em PublishNews | 27/01/2011

DRM pode não evitar a pirataria, mas pode proteger as vendas


Existe muita discussão sobre a pirataria e DRM entre pensadores do espaço editorial. Este post vai expressar alguns pensamentos sobre os dois, mas, acima de tudo, é um pedido para não juntar as duas coisas na mesma discussão. Na verdade, o fato de que pirataria e DRM são parte da mesma discussão é tão controverso quanto o fato de que a pirataria é uma ameaça às editoras e de que o DRM deve ser empregado em tudo.

Primeiro, vamos definir alguns termos. Faço uma distinção [que não é universalmente aceita] entre pirataria – que eu definiria como deixar disponível um arquivo com direitos autorais para livre acesso a qualquer um que o encontre – e “troca casual”. Troca casual acontece entre pessoas que se conhecem; pirataria acontece entre estranhos.

Foi observado durante muito tempo que o DRM faz pouco para evitar a pirataria, que é normalmente executada através de sites que hospedam versões desprotegidas de conteúdo. Foi demonstrado que o DRM pode ser facilmente “quebrado” [tenho dois amigos que rotineiramente a quebram por esporte: um nos EUA que não está no mercado editorial e outro no Brasil que está. Nenhum deles já vendeu ou transferiu os arquivos destravados, mas eles tiram a proteção só para provar que podem. E dizem que sempre conseguem]. Na verdade, livros que nunca existiram em edições digitais, como a série Harry Potter, existem em todos os sites de pirataria.

É possível escanear um livro impresso e criar um arquivo digital em pouco tempo. Recentemente foi apresentado um gadget que é capaz de automatizar isso. Mas você pode comprar conversão de conteúdo comercialmente criando um arquivo de e-book a partir de um livro impresso por poucas centenas de dólares a cada título. Então eu concordo enfaticamente que DRM faz pouco ou nada para impedir um pirata com um mínimo de determinação de fazer um arquivo de e-book pirateado, com ou sem DRM; independente de já existir um e-book!

Mas troca casual é outra questão, pelo menos para mim. As pessoas compartilham material publicado o tempo todo através de e-mail, normalmente enviando um link para algo que querem que outra pessoa veja. Mas às vezes anexam um arquivo ou copiam um texto ou imagens no corpo do e-mail. Algumas pessoas [minha esposa entre elas] mantêm listas de e-mail de pessoas que devem alertar sobre uma coisa ou outra. Esse tipo de seleção pessoa-a-pessoa é o novo boca-a-boca ajudado pela automação e que se transformou num componente crítico da comunicação moderna.

Agora minha posição. Não faço ideia se a pirataria ajuda ou atrapalha as vendas, mas independente do que for, não consigo ver como o DRM pode evitá-la. Mas acho que o DRM evita a “troca casual” [com certeza, ela me impede; e acho que a maioria das pessoas são mais parecidas comigo do que como esses meus amigos que destravam e-books por esporte]. E acredito, baseado na fé, não em dados, que permitir a troca casual atrapalharia as vendas de e-books, principalmente para os best-sellers.

As grandes editoras sobrevivem com base no desempenho de seus maiores livros. Agentes sobrevivem com base nas vendas de seus maiores autores. Então as grandes editoras e os grandes agentes, se pensarem como eu, estariam a favor de DRM mesmo que isso não ajude em nada a evitar o tipo de pirataria que tentam resolver com pedidos de fechamento de sites.

Há muitas boas razões para não gostar de DRM. Ele pode fazer com que o ato de comprar ou usar seja um pouco mais difícil. É aparentemente responsável pela maior parte dos custos do e-book. Pode frustrar o uso legítimo por um comprador legítimo. E custa dinheiro além de acrescentar complicações. No geral, quanto mais confortável você se sentir com a tecnologia, mais provavelmente o DRM o incomodará.

Mas fico louco quando as pessoas atribuem a crença de que DRM protege contra a pirataria a todo mundo que entende o sentido de usá-la.

Então, com isso como pano de fundo, peguei um link do começo dessa semana de um entrevista na O’Reilly Radar com meu companheiro de escritório [mas um cara que tem sua própria empresa] Brian O’Leary com o título de “Qual é o impacto atual da pirataria na indústria editorial?” Brian está tentando há quase três anos medir o real efeito das edições pirateadas [não a troca casual] sobre as vendas. Seu método é acompanhar os sites de pirataria para a aparição de livros e depois medir as vendas das semanas anteriores e posteriores. Se a pirataria está canibalizando as vendas, alguém deveria esperar um declínio após a aparição da edição pirata. Se a pirataria está estimulando as vendas através de mais boca-a-boca, deveríamos esperar um aumento nas vendas.

Claro, os dados para fazer essa análise só podem vir dos editores, mas estes, apesar da tão falada preocupação com a pirataria [e sua aparente disposição a gastar muito dinheiro para combatê-la], não estiveram dispostos no geral a participar nos esforços de Brian para medir seu impacto. Mas o que ele viu [principalmente através dos dados da O’Reilly, que é uma editora sem DRM] sugeriu que a pirataria podia aumentar as vendas mais do que atrapalhar.

Na entrevista, Brian apresenta pontos bastante bons, mas depois eu encontrei isso:

“Estou bastante contra o DRM: Ele não tem nenhum impacto na pirataria. Qualquer bom pirata pode desabilitá-lo em questão de segundos ou minutos. Um pirata também pode escanear uma cópia impressa com a mesma simplicidade.” [Concordo quando fala nos “bons piratas”, mas a declaração de “nenhum impacto” baseia-se em dados? Duvido.] Mas então:

“DRM só é realmente útil para evitar que as pessoas compartilhem uma cópia, algo que fariam se ela não existisse.” Então, ele é contra o DRM apesar de concordar que evita o compartilhamento casual. E não sei de ninguém, nem mesmo Brian, que já tenha tentado medir o impacto do compartilhamento casual.

Isso é interessante porque nós dois temos exatamente a mesma opinião sobre o que DRM pode e não pode fazer, mas não temos a mesma opinião sobre se deveria se aplicada!

A questão que Brian levanta e que eu levo a sério, no entanto, tem a ver com tentar basear as opiniões em dados sempre que possível em vez de usar conjeturas. Muitos dos seus companheiros na luta contra o DRM atribuem sua continuidade à ignorância e a ideias erradas: editores e agentes que, de alguma forma, são levados a pensar que usando DRM poderão restringir a pirataria. Ao mesmo tempo, a preocupação sobre o compartilhamento casual ou é ignorada ou eliminada.

Se juntar dados sobre o verdadeiro efeito da pirataria é difícil e sobre os verdadeiros efeitos do compartilhamento de livros comerciais é impossível, estou numa boa posição para juntar dados sobre o que os executivos editoriais e os agentes mais poderosos pensam sobre a pirataria, compartilhamento casual e DRM.
Então, criei uma pesquisa informal para descobrir.

Fiz três perguntas:

1. Você acha que DRM é necessário para proteger as vendas de e-books dos títulos populares?
2. Você acha que DRM é eficiente contra a pirataria?
3. Você acha que o principal benefício do DRM é prevenir a troca casual de livros?

Perguntei a executivos em grandes editoras e agentes que trabalham com os principais autores. Nove executivos e quatro agentes [mais da metade do número de entrevistados] foram gentis o suficiente para me responder [até agora]. Vou informar sobre minhas descobertas no próximo post.

Texto escritor por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 26/01/2011

Mike Shatzkin

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].