Crescimento do mercado de eBook é lento no Brasil, mas ainda há esperança


Há três anos, grandes players chegavam ao País; hoje, o mercado está mais avançado, mas ainda espera por seus leitores

Em 2011, Duda Ernanny, pioneiro com sua [hoje extinta] Gato Sabido do mercado de e-books e vendedor do primeiro E-reader no País, o Cool-er, profetizou: “Até 2015, o livro digital já vai ter ultrapassado o físico em volume de vendas no Brasil”. Era um momento de euforia e expectativa – um ano após sua declaração, os grandes players, tão aguardados e que revolucionariam a leitura digital no País, iniciariam suas operações.

De lá para cá, o mercado se desenvolveu e cresceu significativamente, porque partiu do zero, mas ainda representa muito pouco do faturamento das editoras. Considerando que o número de livros físicos vendidos em 2015 será similar aos 277 milhões de exemplares apurados pela Pesquisa Produção e Venda do Mercado Editorial [2014], feita pela Fipe, e a estimativa de venda de 3,65 milhões de e-books este ano, o porcentual ficaria em 1,31%. No caso das grandes editoras, no entanto, ele beira os 4% – nos EUA, fica entre 25% e 30%.

Paulista. Empresa sai do ambiente virtual para mostrar o leitor digita

Paulista. Empresa sai do ambiente virtual para mostrar o leitor digita

Ainda segundo a mais recente edição da pesquisa, o mercado editorial brasileiro faturou R$ 3,8 milhões em 2012 com venda de livros digitais, R$ 12,7 milhões em 2013 e R$ 16,7 milhões em 2014. É importante dizer que os valores, que mostram uma relação de 0,3% do faturamento das editoras, se referem à soma das que responderam ao questionário, sem nenhuma inferência estatística. Como um todo, o mercado editorial brasileiro é estimado em R$ 5,4 bi.

O mercado cresce, mas não na velocidade esperada. Eduardo Melo, da também pioneira Simplíssimo, produtora de e-books, imaginava que a essa altura estaríamos mais desenvolvidos. “Não só em vendas, mas na presença do livro digital no cotidiano das pessoas”, diz.

As editoras estão produzindo, as livrarias oferecendo e algumas pessoas comprando – são vendidos, diariamente, 10 mil e-books, segundo fontes do mercado. Mas é preciso muito mais para o investimento começar a valer a pena. O e-book é um produto virtual, que não está no imaginário ou no caminho do leitor. E tem fama de caro.

Vêm da Amazon, tão temida pelos concorrentes, duas iniciativas exemplares de tentativa de popularizar o produto. Primeiro, ela abriu um quiosque na entrada do Top Center, em plena Avenida Paulista, para expor o Kindle e deixar as pessoas experimentarem o E-reader. Cupons de desconto para uso na loja são distribuídos no local. Depois, em parceria com duas marcas de bombom, a Amazon fez o que pode ser considerada a primeira campanha efetiva de leitura de e-book. Elas distribuíram nada menos do que 30 milhões de caixas de bombom em 5 mil pontos de venda. Quem comprar pode escolher um entre 10 e-books selecionados para a promoção. E não é preciso ter o Kindle. Basta baixar o aplicativo da empresa e ler no computador, tablet ou smartphone. “Iniciativas como essa mostram o tipo de marketing que o e-book precisa porque vão despertar o interesse em um público que já é conectado e mobile, ou seja, já tem o equipamento necessário para ler um e-book, mas ainda precisa de um empurrãozinho para conhecer e usar a tecnologia”, completa Melo.

Escritores também aproveitam o momento para experimentar. Com dois livros acertados para publicação em 2016 e 2017 e outros originais na gaveta, Tailor Diniz, 60 anos, resolveu testar a plataforma de autopublicação da Amazon, a KDP, depois de ter sido abordado por uma funcionária da empresa na Feira de Frankfurt, com um livro que achava difícil interessar a editoras tradicionais.

O livro digital é uma experiência totalmente diferente do impresso. É mais ou menos como abrir um restaurante no interior da Coreia sem saber o que os caras gostam de comer”, brinca. “Eu quis deixar esse livro, A Matéria da Capa, como uma espécie de garrafa com uma mensagem no mar. Vai ficar lá. Um dia, talvez daqui a 10, 20, 50, 100 anos, ela bata na margem de alguma praia e seu conteúdo seja descoberto”, comenta. Se cair no gosto popular ou se a Amazon adotar suas estratégias de venda e divulgação, o sucesso pode vir mais rapidamente.

Como Diniz comentou, não há informações concretas sobre o perfil desse novo leitor. Há quem diga que segue a métrica do livro físico: mulher paulistana abaixo dos 30. Mas tem funcionado muito bem com livros de ficção científica, suspense e fantasia e romances [enquanto histórias de amor, e não gênero literário]. Embora o Jabuti tenha incluído este ano a categoria digital infantil, as vendas de títulos para esse público ainda não são significativas – e testes de formatos seguem sendo feitos. “Tenho visto que o e-Pub consegue ser percebido como livro e o aplicativo não tem crescido muito. Um pouco de interação é bom, mas quando ela mantém a essência da leitura, sem distrair a criança com tantos penduricalhos”, explica Marcelo Gioia, diretor da distribuidora alemã Bookwire no Brasil.

Havia também a ideia de que os “jovens adultos” seriam um bom público consumidor, mas segundo Marcos da Veiga Pereira, presidente do Sindicato Nacional de Editores, isso não está acontecendo. Dono da Sextante e sócio da Intrínseca, ele dá o exemplo de A Culpa É das Estrelas, best-seller da segunda casa, que vendeu, no digital, cerca de 3% do que vendeu do impresso. Ele não crê que o E-reader tenha se popularizado entre os jovens.

Digital. Mais confortável que o tablet, o E-reader ainda não se popularizou
Digital. Mais confortável que o tablet, o E-reader ainda não se popularizou

Há muitas vantagens do digital sobre o impresso, mas ele é um grande mistério. Ainda não conseguimos descobrir a fórmula de torná-lo um grande mercado”, diz Pereira. No balanço da Sextante, o e-book representará 5% de seu faturamento [excluindo da conta os livros de colorir]. Quando eles voltam para a planilha, cai para 3,5%. Em 2014, o índice foi de 3,2% e em 2013, 1,62%. No Grupo Record, eles representarão 3% do faturamento total deste ano. Já a Intrínseca, cuja venda de e-book ficava nos 2% nos últimos dois anos, deve fechar 2015 com um pouco mais de 3%.

É sempre legal e muito importante a gente vender o nosso conteúdo em diferentes formatos e acho que este mercado ainda é promissor. Tudo indica que ele vai crescer ainda mais”, comenta Jorge Oakim, publisher da Intrínseca, que lança, no ano que vem, mais um volume da série de Elio Gaspari sobre a ditadura brasileira num formato um pouco além do tradicional e-book: com conteúdo extra, links, etc.

É mais ou menos este o modelo ideal para Flávio Pinheiro, diretor do Instituto Moreira Salles, que acaba de fazer sua primeira experiência digital. Cartas do Pai, de Alceu Amoroso Lima, sai em duas versões – uma delas com seis vídeos. “Um e-book deve ser necessariamente uma publicação que traga acréscimos com relação a uma publicação impressa, quer sejam imagens em movimento, magnificação de imagens, remissões, estudos e arquivos mais robustos”, explica.

Preço e ranking. Em recente entrevista ao Estado, David Naggar disse que o livro digital custava caro no Brasil. No geral, eles ficam 30% e 40% mais baratos que o impresso. “Estamos tentando chegar ao preço médio de R$ 15, mas existe uma pressão para diminuir ainda mais. Ganha o leitor, mas toda a cadeia perde”, explica Marcelo Gioia.

Os custos de produção de um livro digital são mais baratos que os de um impresso, claro. Para fazer um e-book de 250 páginas de texto, a editora paga cerca de R$ 350 – e esse arquivo é revendido pelo tempo que durar o contrato. Livros infantis e técnicos podem sair mais caros que o tradicional. Mas há vários custos embutidos, como, acredite, o do encalhe do livro físico que poderá ser provocado pelo sucesso da versão digital, comenta Marcos da Veiga Pereira. “Preço é fundamental”, confirma Willian Novaes, da Geração, que ofereceu O Pequeno Príncipe por R$ 2,99 e já soma 10 mil cópias vendidas.

Entre os entraves para a popularização dessa forma de leitura, além do preço das obras [as autopublicadas levam vantagem por serem mais baratas], estão o valor do E-reader [a partir de R$ 299], a experiência de leitura [alguns arquivos com erros, a tecnologia pode ser complicada] e metadados displicentes – são essas informações que permitirão que a obra seja encontrada no buraco negro da internet e das lojas virtuais. Sobre essa última questão, vale dizer que duas empresas estão chegando para unificar essas informações: a Mercado Editorial, de Eduardo Blucher, e a Books in Print, da Feira do Livro de Frankfurt, MVB [empresa de tecnologia da Associação de Editores Alemães] e Câmara Brasileira do Livro.

Pereira acredita que o cenário continuará o mesmo em 10 anos. “Não vejo ninguém entrando e não vejo por que alguém sairia. Mas se a Amazon desenvolver uma estratégia muito agressiva de venda de Kindle e a Apple parar de cobrar em dólar, tudo pode mudar.

A tendência é que as vendas se concentrem mesmo em empresas de tecnologia, e Amazon e Apple são líderes de mercado. Depois aparecem mais ou menos com a mesma performance Cultura/Kobo, Google e Saraiva.

Serviços de assinatura de livros, bibliotecas digitais, autopublicação. Tudo isso cresce no Brasil e pode ajudar a disseminar a leitura eletrônica. E como uma coisa puxa a outra, novas empresas surgem na esteira. “Vimos um aumento de empreendedores que nasceram exclusivamente para o negócio digital e que não pretendem migrar para o impresso”, comenta Daniela Manole, da comissão de Livro Digital da CBL.

NÚMEROS

10 mil

e-books são vendidos diariamente no Brasil

3,5 milhões

é a quantidade de e-books no acervo da Amazon, o maior do País – estão incluídas obras nacionais e estrangeiras

40 mil

é o número de títulos em português oferecidos pela Cultura. Amazon tem 65 mil e Saraiva, 57 mil [nos dois casos, estão incluídas obras de autopublicadas]

R$ 299

é quanto custam os leitores digitais mais baratos no País

Por Maria Fernanda Rodrigues | O Estado de S.Paulo | 19/12/2015 | 06h00

Um novo mercado editorial está nascendo


Ednei Procópio

Por Ednei Procópio

Desde seu advento, a internet está causando uma revolução no modo como os consumidores modernos lêem os livros, com reflexos em toda a cadeia produtiva que este produto envolve. E o eBook, o livro digital, já não é o único entre os efeitos desta mudança na cadeia de valor do mercado editorial.

Se delimitarmos, como parâmetro, somente a última década, todos os profissionais da cadeia produtiva do livro [dentre eles, os escritores, revisores, tradutores, pesquisadores, preparadores de textos, editores, publishers, gráficos, distribuidores, livreiros, bibliotecários e até jornalistas] foram, de certo modo, pegos de surpresa por uma disruptura imposta pela era digital.

Uma visão, digamos, negativa, com relação a esta mudança brusca no modo como produzimos, comercializamos e vendemos os livros é, dentre todos os efeitos, aquela que causa maior ansiedade: a mudança profissional. O ponto central de que trato neste artigo. Mas um lado positivo desta disruptura cultural, social e econômica, tão difícil de visualizar de modo amplo, por estarmos nela inseridos, seria exatamente a oportunidade de inovação profissional.

Enquanto a indústria editorial tradicional se esforça por compreender melhor o incipiente mercado digital, o profissional atualmente avesso a este cenário vai buscando entender de que modo pode mover-se de um lugar a outro. E uma hora ele inevitavelmente percebe que, em vez de reduzir sua atuação, até mesmo o livro inserido em um contexto digital pode expandir, maximizar e exponencializar seu campo de visão.

Nenhum profissional do mercado tradicional que já tenha trabalhado com linotipo, por exemplo, além de todos os demais métodos tradicionais, pode ser considerado um profissional ultrapassado. Pelo contrário, os profissionais que tiveram a oportunidade de publicar, comercializar e divulgar os livros impressos, podem apresentar atrativos e dispor de um diferencial frente aos que atualmente só enxergam o mundo digital e aos que aos seus efeitos estão mais negativamente expostos, por não compreenderem o funcionamento do tradicional mas, principalmente por não aceitarem que o velho e o novo mundo sejam na verdade o mesmo mercado que se renova.

Aos que agora estão saindo das universidades, o cenário que se apresenta é o de transição. Estamos no limiar, no nascedouro de novos postos, estamos testemunhando o nascimento de um novo profissional. Polivalente, antenado, conectado ao mundo. Trabalho é o que não falta em um mundo híbrido de produtos físicos [feito de átomos] e de produtos digitais [feitos de bits]. Do ponto de vista de uma editora, por exemplo, as oportunidades para o profissional do livro na era digital, e seus ganhos, vão desde a preparação de textos para narrativas hipertextuais até a produção, conversão ou digitalização de obras.

Talvez nem seja o caso de apenas digitalizar um currículo. O livro digital em si não tende a eliminar postos de trabalho formal, para quem já tem experiência com o mercado editorial tradicional, o importante agora é oxigenar as ideias para expandir as oportunidades.

E não importa em que lugar da cadeia produtiva do livro este profissional de mudança queira inserir-se; com o advento da internet [a causa maior] e do livro digital [não o único de seus efeitos], um novo mercado editorial está nascendo.

POR EDNEI PROCÓPIO