Livros digitais podem ser grande oportunidade’, diz dono de livraria


Livraria da Vila conta com oito unidades e prevê crescimento de 10% em 2014

Guimarães Rosa foi um dos primeiros a chegar. Depois, Machado de Assis, Nelson Rodrigues… Eles e outros autores fazem parte dos 200 mil títulos da Livraria da Vila.

A história da livraria começou há 28 anos em uma pequena casa na Vila Madalena, uma região boêmia da cidade de São Paulo. E, em 2003, quando o jornalista Samuel Sêibel tomou as rédeas da empresa, o negócio se expandiu. Hoje, a marca conta com oito unidades.

Livros para todos os gostos. E um mercado cada vez mais diversificado. As livrarias estão em todos os cantos. E entre as mais tradicionais está a Livraria da Vila.

A rede nasceu há 28 anos, com uma loja na Vila Madalena. Quase três décadas depois, já são oito unidades e mais de 200 mil títulos nas prateleiras.

Em 2003, Samuel Seibel comprou a rede. Logo percebeu que, para se destacar no mercado, era preciso ser diferente. E resolveu investir nos atendentes:

“Para nós é importante ter uma equipe que vai trabalhar com livro, que seja um leitor. Ou com música, que adore música. Ou com filmes, quem curte realmente o cinema, para poder dialogar com o público”, explica Samuel Seibel, presidente da Livraria da Vila.

A variedade de títulos em uma livraria de grande porte é imensa, de todos os gêneros, para todos os gostos. Mas, de uns anos para cá, o livro de papel se deparou com o livro digital. Será que a estante de madeira vai, aos poucos, perder espaço para a estante virtual?

“Acho que as pessoas vão ler de um jeito, ler de outro, ou um dos dois, e isso vai fazer com que o mercado cresça. E isso que tem aparecido como uma ameaça pode ser que seja uma grande oportunidade”, declara Seibel.

Para 2014, a Livraria da Vila não terá novas lojas, mas estima um faturamento 10% maior que no ano passado: “Já introduzimos games, por exemplo, começamos a ampliar com uma linha de papelaria, mas o carro chefe continua sendo livro, o CD e DVD são importantes também. E vamos ver o que mais pode ser implementado”, afirma o presidente da Livraria da Vila.

Por Flávia Sarmento | 07/02/14 | Portal G1

O futuro das livrarias e o futuro do mercado editorial


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 05/02/2014

Um dos assuntos que estamos examinando já há muito tempo é o inevitável impacto que o aumento das compras online de livros terá nas prateleiras do comércio e o que isso vai significar para as editoras de livros gerais. [Você vai ver que este discurso que já tem mais de uma década também diz que as editoras terão que se centrar em sua audiência, ou atuar de forma vertical, também.]

Claro, já ocorreu um choque no sistema – um evento “Cisne Negro” – que foi o fechamento da Borders em 2011. Isso, de repente, tirou umas 400 livrarias bem grandes da cadeia. Desde então, a história sobre as independentes – que inclui informações financeiras encorajadoras, mas sem comprovação do Bureau de Análise Econômica [BEA/EUA] e muitos hurras de independentes bem-sucedidas [jogamos um pouco de gasolina nesse fogo com uma importante sessão na DBW que aconteceu na semana passada] – tem sido bastante otimista [apesar de que os dados da Bowker parecem sugerir que a Amazon ganhou mais com a morte da Borders do que qualquer outro player]. E apesar de a Barnes & Noble continuar a mostrar alguma queda de vendas, seus retrocessos mais sérios foram no negócio do Nook, não nas vendas em lojas.

Um fator que distrai a atenção dos analistas pensando nesta questão tem sido a aparente desaceleração no crescimento das vendas de e-books, sugerindo que há leitores de impressos persistentes que não querem mudar. O fato encorajador acaba distraindo porque é incompleto quando se trata de prever o futuro do espaço de prateleira no comércio, que é a questão existencial para as editoras, distribuidoras e livrarias [e, portanto, por extensão, para os autores]. Precisamos saber quais são as mudanças na divisão destas vendas entre online e offline para ter um quadro completo. Se a aceitação do e-book diminuir, mas a mudança para compras online continuar, as livrarias vão sofrer mesmo assim.

Este problema das vendas online versus offline, no lugar de vendas de livros impressos versus livros digitais é central e é a que estamos martelando há anos. Foi ótimo ver Joe Esposito enfatizar o problema em um recente post ao tratar algumas as minhas perguntas favoritas sobre a Amazon. Realizamos na DBW um painel de quatro livrarias independentes bem-sucedidas. Uma das participantes, Sarah McNally da McNally-Jackson, recentemente foi citada dizendo que está preocupada com o futuro de sua livraria no Soho quando seu aluguel terminar. [Os aluguéis aumentam rapidamente naquela parte da cidade.] Enquanto isso, ela está se movendo para não ficar só nos livros e vender bens com muito design e talvez mais duradouros como arte e móveis. [E, neste sentido, McNally-Jackson segue o exemplo da Amazon, não se limitando a ser uma marca de livraria.]

Um amigo meu que, há muito tempo, é representante de vendas independente diz que até mesmo as independentes bem-sucedidas estão sentindo a necessidade de vender livros e outras coisas [cartões, presentes, enfeites] para sobreviver. As mega-livrarias com 75 mil ou mais títulos foram um ímã para os clientes nas décadas de 1970 a 1990. Não é mais assim porque uma livraria com muitos milhões de títulos está disponível em computadores de todo mundo. Isto é um fato que faz com que o número de lojas bem-sucedidas seja um indicador fraco do potencial de distribuição disponível para as editoras. Se os sebos possuem metade do inventário que são publicados, podemos ter muitas histórias de sucesso entre as livrarias independentes, mas mesmo assim temos um ecossistema encolhendo, dentro do qual as editoras distribuem seus livros.

Em geral, os proprietários de livrarias independentes bem-sucedidas e sua associação, a American Booksellers Association, pintam o momento como favorável para livrarias independentes. Eles rejeitam o ceticismo de pessoas, que como eu, acreditam que a atual onda de aparente boa sorte é causada por uma janela de tempo [agora] em que o fechamento da Borders removeu espaço na prateleira mais rápido que a Amazon e os e-books removeram a demanda por livros nas lojas.

Tem sido uma profissão de fé silenciosa achar que as livrarias não passariam pelo que aconteceu com as lojas de discos ou de aluguel e venda de vídeos, dois segmentos que desapareceram quase completamente. O livro físico tem usos e virtudes que um CD, um disco de vinil, um DVD ou uma fita de vídeo não possuem, sem falar que um livro físico é seu próprio player. Mas também fornece uma experiência de leitura qualitativamente diferente, enquanto que outros formatos “físicos” não mudam o modo de consumo. Claro, isso só ajuda as livrarias se as vendas continuarem offline. As pessoas comprando livros online têm grandes chances de comprar da Amazon. Em outras palavras, é perigoso usar a capacidade do livro para resistir garantindo a capacidade das livrarias de se sustentar. As duas coisas não estão conectadas de forma indissociável.

Mas o destino de quase todas as editoras gerais está inextricavelmente conectada ao destino das livrarias. Só há duas exceções. A Penguin Random House é uma, porque é grande o suficiente para criar livrarias próprias apenas com seus livros. A outra são as editoras verticais com suas audiências o que abre a possibilidade de criarem pontos de vendas que não sejam exatamente livrarias. Livros infantis e de artesanato são possibilidades óbvias para isso; não há muitos outros.

O sentimento que eu tive na Digital Book World é que a maioria das pessoas na indústria ou rejeitou ou quer ignorar a possibilidade de que haverá uma erosão ainda mais séria da indústria nos próximos anos e que isso ameaçaria as práticas centrais da indústria. Com mais da metade das vendas de muitos tipos de livros – ficção na área geral, claro, mas também muitos tópicos especializados, profissionais e acadêmicos – já online, muitos parecem sentir que qualquer “ajuste” necessário já foi feito. Eles receberam apoio para seu otimismo na Digital Book World. O guru do mercado de ações Jim Cramer apresentou sua visão do futuro da Barnes & Noble [porque ela é a última rede de livrarias] e, do palco principal, foi apresentada a ideia de que o Walmart poderia comprar e operar a B&N como parte de uma estratégia anti-Amazon.

Tudo isso é possível e não tenho dados para refutar a noção de que chegamos a algum tipo de nova era de estabilidade da livraria, só uma sensação que não me abandona de que nos próximos anos não será assim. Não quero ignorar os sinais positivos que vimos no último ano mais ou menos. E o declínio geral nas compras em livrarias versus online afeta todo o comércio, não só livros, então é possível – alguns poderiam dizer que é provável – que o aperto dos aluguéis vá diminuir. Não é só o espaço em prateleiras que parece estar sobrando em comparação com a demanda; esta é uma verdade em todo o comércio. Então sua impressão pode diferenciar e teria alguma lógica para apoiar um ponto de vista contrário.

Mas meu palpite [e isso não é uma “previsão” como em “isso vai acontecer; corram para o banco”] é que o espaço de prateleira para impressos na Barnes & Noble e em outras livrarias poderia muito bem diminuir uns 50% nos próximos cinco anos. Qual CEO ou CFO de uma editora geral consideraria prudente não levar em conta esta possibilidade em seu próprio planejamento?

Obviamente, menos espaço em prateleira e mais compras online mudam as práticas de cada editora de muitas formas. Elas vão querer implementar mais recursos para o marketing digital e menos para a cobertura de vendas. Vão querer ter menos espaço de estoque e menos inventário, mudando a economia geral de seu negócio. Como estamos falando há anos, elas vão achar importante a consistência vertical: adquirir títulos com apelo consistente à mesma audiência. A própria base de dados de consumidores de cada editora vai se tornar um componente cada vez mais importante de seu lucro: ativos que fornecem valor operacional hoje e valor de balanço se forem compradas.

Mas, acima de tudo, as editoras terão que pensar em como elas manterão seu apelo frente aos autores se colocar livros nas livrarias se tornar o componente menos importante da equação geral. Ainda é verdade que colocar livros nas lojas é necessário para chegar perto da penetração total entre a audiência potencial de um livro. Ignorar o mercado de livrarias obviamente custa vendas, mas também tem um custo de percepção que reduz as vendas online. [Afinal, as lojas estão muito conscientes do efeito “showroom”: clientes que cruzam suas prateleiras com smartphones na mão, fazendo pedidos da Amazon no ato!]

Mas isso acontece hoje quando a divisão online-offline pode estar perto de 50-50 no geral e 75-25 para certos nichos. Se estes números chegarem a 75-25 e 90-10 nos próximos cinco anos, o mercado de livrarias realmente não vai importar muito para a maioria dos autores. Seja pela autopublicação ou por alguma editora nova que não tem as capacidades das grandes editoras de hoje, mas também não possui toda a estrutura de custo, os autores vão sentir que as grandes organizações são menos necessárias do que são agora para ajudá-los a realizar todo seu potencial.

Taxas de royalties mais altas para e-books, pagamentos mais frequentes e contratos mais curtos são todas formas pouco atrativas, da perspectiva da editora, para resolver esta questão. Até agora o mercado não forçou as editoras a oferecer isso. Se as livrarias conseguirem se manter, a necessidade de usá-las não será muito forte por algum tempo. Mas se não conseguirem, a maioria das editoras terá poucos elementos para continuar a atrair autores para suas fileiras.

Já estamos vendo grandes editoras afastando-se aos poucos dos livros que não demonstraram grande capacidade de vender bem no formato de e-book: livros ilustrados, livros de viagem, livros de referência. Isso implica uma expectativa que o componente online – especialmente o segmento de e-book – já mudou o mercado ou certamente vai mudar em pouco tempo. Ajustes aos termos padrão com autores é outra questão que ainda não foi resolvida, mas se o mercado continuar a mudar, poderia ficar muito difícil manter as coisas como estão.

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 05/02/2014 | Texto originalmente publicado no The Shatzkin File | Tradução: Marcelo Barbão

Mike Shatzkin

Mike Shatzkin

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].

Livros impressos resistem aos eBooks


Os faturamentos das livrarias ainda não sentiram a presença do e-book no mercado e consumidores não acreditam no fim das páginas impressas

Apesar de o mercado digital conquistar veloz e exponencialmente vários ramos do comércio, a presença dos e-books no mercado ainda não atrapalhou os faturamentos das livrarias. É o que informam Victor Hugo Fischer, coordenador de produtos editoriais da Fnac, e Pedro Paulo Ornelas, gerente e sócio da Livraria Leitura. Talvez porque, como Pedro observou, no Brasil, a prática ainda não seja tão acessível nem difundida entre os usuários da rede. Menos ainda entre os possíveis leitores que em linha geral não consistem numa maioria dos cidadãos.

“Eu até esperava um decréscimo maior dos lucros. Talvez nos próximos anos, mas não creio. Porque ainda não está claro para a população como utilizar os e-books. Ainda é difícil e nem todos sabem como utilizar”, comenta o sócio. Ele conta que trabalhou por anos na Inglaterra numa empresa onde vendia e-books e não teve tanto retorno financeiro, mesmo onde a tecnologia já é parte incorporada da cultura. “No Brasil, ainda não é uma realidade. Nos próximos 5 anos acredito que as vendas de e-books vão aumentar, mas não irão atingir o faturamento dos livros. Tenho emprego para os próximos 10 anos, pelo menos”, brinca.

Victor Hugo concorda: “Não sentimos ainda o impacto do e-book na venda de livros. Mesmo porque a entrada deles no Brasil é recente. A cultura do livro ainda é muito forte”, observa.

Cultura do Livro

Segundo Victor Hugo, a cultura do livro entre os afins é muito forte e ele não acredita que a transição do papel para o digital será rápida. “Até nos Estados Unidos, onde a tecnologia digital é muito mais difundida, você não vê as livrarias morrendo. Porque a cultura do livro é muito forte”, avalia.

Apesar de não identificar impacto significativo nas vendas em função da concorrência do e-book, Victor acredita que este seja um processo inevitável, entretanto para um futuro a médio e longo prazo. “Falo isto mais pela cultura social da leitura pelo livro do que pela dificuldade de difusão do e-book”, pondera.

Pedro Paulo acrescenta: “Muito pelo contrário. Os faturamentos das livrarias continuam crescendo em números recordes. Principalmente na categoria infanto-juvenil, a exemplo da contemporânea Saga Crepúsculo, líder de vendas nas livrarias”.

Assim como a televisão não acabou com o rádio, nem ainternet não acabou com a TV, Pedro Paulo acredita muito mais na complementaridade do que na sobreposição dos meios.

Nisto, a estudante Gisele Amorim concorda. “Acho que são suportes diferentes e podem coexistir como o CD e o vinil. Acho que a tendência é livro virar objeto de arte, como aquele que o Zeca Baleiro lançou”, conta a futura bibliotecária que, quando questionada sobre o desaparecimento dos livros, exclama: “Espero que não! Hoje há editoras que seguem esta tendência de livros como um fetiche, mesclando bom design com traduções primorosas”, complementa.

Questão de Preferência

Gisele, sem dúvida, prefere os livros. Conta que lê, em média, três livros por mês e que este número caiu após seu casamento. “Quando era solteira, lia muito mais livros. Já li e-books, mas de assuntos acadêmicos, ou seja, porque fui forçada”, conta rindo. Surpreendentemente, a entrevistada conta que sente dificuldade de ler parada no mesmo lugar, como sentada à frente de um computador. “Leio muito andando. Tenho dificuldade de ficar parada”, diz. Em sua casa, Gisele informa que a leitura é um hábito compartilhado até pelas crianças. “A Sarah ainda não tem muita paciência. Mas a Sophia já tem sua própria biblioteca e está aprendendo a ler”, fala.

Na opinião de Gisele, além da questão que envolve um melhor conforto relacionado aos tipos de suporte para a leitura, existe um ponto mais importante no que diz respeito à formação de leitores. “O livro digital possibilita que uma comunidade mantenha um acervo, como o da biblioteca do Congresso Americano – a maior do mundo – com um custo baixo”, observa.

A acessibilidade destas bibliotecas no formato digital aproxima o e-book das realidades acadêmicas e os livros dos estudantes. Entretanto, Gisele confessa que o branco exagerado de tela lhe dá dores de cabeça e a dificuldade de manuseio do suporte a incomoda.

Thiago Santê, radialista e estudante de Jornalismo, encontrou uma solução para este problema. Como tem o hábito diário de ler, o entrevistado comprou um dispositivo eletrônico para leitura de e-books chamado leitor digital. Semelhante a um tablet, a ferramenta foi desenvolvida para tornar a leitura mais acessível em qualquer lugar porque possui uma tela antirreflexo e uma luz interna com brilho suave e ajustável que pode ser ativada ou não.

Tenho curtido muito os e-books e percebi que consigo ler até mais. Depois de comprar o leitor digital, minha escolha é pelos e-books pela praticidade. Por existir a possibilidade de comprar por valores mais baixos e até encontrar arquivos em sites de gênero gratuito ou sites de compartilhamento”, esclarece.

Thiago acrescenta que o aparelho utilizado por ele usa uma tinta digital muito semelhante à do livro e não cansa as vistas, mas só conseguiu encontrar a tecnologia disponível on-line. “Ele pode ser encontrado a partir de R$ 260. Mas o meu foi um pouco mais caro, modelo mais novo, R$ 460”.

E-Commerce

Para não perder o nicho de mercado disponível pela internet, a maioria das grandes livrarias aposta no e-commerce de livros. De acordo com o coordenador de produtos editoriais da Fnac, esta é uma fatia fundamental do faturamento da empresa no segmento.

Quando vendemos para Manaus, por exemplo, alcançamos um cliente o qual não teríamos acesso se não fosse pela internet porque não temos lojas lá. A internet concentra num único local, a baixos custos operacionais, uma capacidade enorme de conquistar clientes num território ilimitado”, avalia.

Mais importante do que o formato de leitura fica a reflexão da entrevistada: “o importante é formar leitores!”

POR RAFAELA TOLEDO | DIÁRIO DA MANHÃ | 31/01/2014 às 21h11

Livrarias independentes se recusam a vender Kindles


Livrarias independentes do Reino Unido e EUA reagiram com ceticismo à notícia de que a Amazon vai passar a vender e-readers em suas lojas. A Amazon revelou recentemente que planeja fazer acordos com livrarias que estocarem aparelhos Kindle, recebendo 10% de comissão nos e-books vendidos pelo e-reader durante dois anos após a venda. Outra opção seria as livrarias comprarem o aparelho com um desconto maior. Nos EUA, as editoras estão céticas. O CEO da Associação das Livrarias dos Estados Unidos Oren Teicher afirmou que, “dada as estratégias corporativas agressivas da Amazon e táticas para não pagar impostos, não vemos credibilidade alguma nesse programa”.

Por Lisa Campbell | The Bookseller | 07/11/2013

Um futuro para a livraria do futuro


Que tal nos especializar em promover a venda dos livros?

Por Ednei Procópio | Publicado originalmente em Blog do Galeno | Edição 313 – 30 de agosto a 07 de setembro de 2013

Uma civilização sem livreiros de varejo seria inimaginável… as livrarias são artefatos essenciais à natureza humana. A sensação de um livro retirado de uma prateleira e seguro nas mãos é uma experiência única, que une o escritor ao leitor. E para competir com a Internet as livrarias do futuro terão de ser diferentes das megalojas voltadas para a massa que ora dominam o mercado. As lojas do futuro terão de ser o que a Internet não pode ser: tangíveis, íntimas, locais, comunitárias; oferecendo prazer e sabedoria na companhia dos que querem compartilham dos nossos interesses; onde o livro que se procura sempre pode ser encontrado e as surpresas e as tentações saltam de todas as prateleiras.” — Jason Epstein, O Negócio do Livro, 2002

A livraria do futuro ainda não consegue existir porque em nossa tese o presente mercado editorial ainda vive do seu passado. Afirmar que uma livraria do futuro deve obrigatoriamente ser um ponto cultural não resolve uma equação de solução para, por exemplo, os pequenos negócios. Não só em razão do espaço físico, muitas vezes indisponível e caro por causa de uma eminente bolha imobiliária já presente em nossas cidades, mas também por conta das questões orçamentárias, financeiras e de recursos humanos e materiais em geral.

Para equalizar questões complexas como a de tentar encontrar uma síntese para o que seria uma livraria no futuro, propomos, antes, responder a uma questão das mais básicas e fundamentais para o entendimento das partes interessadas:

Afinal, o que é uma livraria?

Simplicidade na resposta pode ajudar em muito a resolver uma série de questões em torno do assunto, principalmente para as chamadas livrarias independentes. Se os livros são digitais, a livraria também o seria; mas se os livros são impressos a livraria pode ser online ou física. Em nossa tese, trataremos das lojas físicas que vendem apenas livros impressos.

Assim, segundo um dicionário, livraria é um estabelecimento onde se vendem livros. Segundo a Wikipédia, as livrarias são lojas que vendem livros e outros itens relacionados a leitura.

Livraria, portanto, é um local onde se vendem livros. Mas, para não cair no risco da superficialidade, segundo o amigo Gerson Ramos (www.vivodelivro.com.br), citando uma fonte bastate segura:

A livraria é uma empresa, como todas as unidades econômicas ou organizacionais, cujo objetivo é a produção de riqueza. Em uma economia empresarial entende-se por empresa a organização cujas características são do tipo predominantemente econômico. A livraria é, portanto, uma organização econômica, cujo objetivo é prover serviços de distribuição. Seu papel é distribuir livros, fazendo uma transformação econômica, pois os dispõe dos momentos e locais mais adequados para satisfazer demanda e as necessidades do comprador-leitor.” — La Librería Como Negócio

Mais alguma coisa que uma livraria deveria ser?

DOS EXEMPLOS CONEXOS

Houve um momento na história da indústria automobilística em que a General Motors sentiu a necessidade de unificar o processo produtivo de muitas de suas unidades, antes mais separadas e independentes, para enfrentar a modernização dos meios de transporte. O modelo que a GM queria implantar era bem diferente daquele instaurado por Ford. Fazia-se necessário inovar na customização dos carros ante a concorrência dos tipos padrões oferecidos até aquele momento.

Por incrível que possa parecer, no entanto, um temor da GM naquela ocasião não eram aqueles carros todos iguais fabricados em série, mas os aviões. Sim, os aviões. O temor da gigante GM era que as pessoas parassem de andar de carro e começassem a andar de avião.

Deveria a GM, então, dada a percepção desfocada, fabricar aviões?

Antes de existirem os gigantescos centros de compras e, como consequência, os hipermercados, existiam os mercados de bairro, chamados hoje minimercados. Quando os hipermercados começaram a se popularizar e ganhar força de atração, o que se discutia, por volta da década de 1990, era o fim desses mercadinhos de bairro. Foi assim decretada sua morte em detrimento dos grandes centros de compras, os hipermercados, cujo modelo estava sendo importado de países de economias então mais consolidadas como os Estados Unidos.

O que ocorreu, no entanto, foi exatamente o contrário, os hipermercados deram ainda mais sobrevida aos minimercados. Players como Extra e Pão de Açúcar, em estado de vertiginosa expansão, tiveram de repensar os seus negócios e também optaram por abrir mercadinhos, menores, em locais improváveis, onde jamais se poderia imaginar que pudessem aquelas marcas um dia se alocarem. Nascia assim o businessexpress” e marcas como Minimercado Extra.

Da mesma forma que o avião (utilizado para percorrer as distâncias maiores) não acabou com a fabricação dos carros (utilizados por passageiros para percorrer as menores e maiores distâncias a custos acessíveis), o hipermercado não acabou com os mercadinhos de bairro (que continuam tendo um papel muito particular no abastecimento dos moradores locais com a venda daqueles produtos mais urgentes).

No caso de mídias como livro, poderíamos continuar a repetir os exemplos do cinema que não acabou com o teatro, da televisão que não acabou com o rádio e por aí vai. E embora o digital esteja em rota de colisão com as indústrias todas, existem questões ainda mais próximas.

A CONCORRÊNCIA INTERNA

Os exemplos nos dão uma dimensão mais acertada de como ver a questão das livrarias de um modo mais geral, amplo, globalizado. Precisaríamos, no entanto, para melhorar a nossa assertividade sobre o tema, perguntar ao próprio mercado editorial, e aqui incluímos as editoras, as gráficas, as distribuidoras, etc., se seria realmente interessante, comercialmente falando, que as livrarias menores, independentes, continuassem existindo. É importante para o mercado editorial a existência, e não a sobrevivência, dessas livrarias?

Parece que o mercado editorial talvez não considere uma realidade viável e, por diversas vezes, em várias circunstâncias, ajudou a canibalizar as livrarias menores, pequenas ou independentes. Subjugou o poder de venda das menores. Favoreceu o seu enfraquecimento, para não dizer o seu real desaparecimento, em detrimento de players maiores.

As pessoas em geral compram os livros porque eles estão ali, por perto, disponíveis. Mas as livrarias online, principalmente aquelas ligadas aos grandes grupos, com a sua política de precificação, enfraqueceram a livraria de rua, que permitia aquela situação corriqueira da compra por impulso. E temos que considerar que, como consequência, comprometeram também aquela rica bibliodiversidade antes existente no mundo livreiro.

Em sua obra “O Negócio do Livro”, Jason Epstein afirma que:

“(…) a função primordial da lista de lançamentos é fortalecer os catálogos, um princípio que a maioria das editoras, infelizmente, ignorou por completo ante a era digital; e que as redes de livrarias atuais, por sua vez, com sua dependência dos títulos efêmeros, fazem com que os editores tenham dificuldade em obedecer.

Parte da equação da solução tem de considerar um problema com relação às livrarias físicas, aquelas que vendem os livros impressos, pois elas não só concorrem atualmente com as eBookStores e com as livrarias online que também vendem os títulos impressos, mas concorrem com as grandes redes, gráficas, as distribuidoras e as editoras que, pela desintermediação imposta pela revolução digital, resolveram vender, elas próprias, títulos diretamente para o público leitor.

E, nesse processo, ao invés de haver uma diversificação sadia de pontos de venda, houve na verdade uma guerra pela precificação do produto livro, enfraquecendo ainda mais o próprio mercado; como consequência, aquele efeito dominó, sobre as livrarias menores, principalmente as de rua.

Embora o papel de uma livraria possa parecer, nesta nossa tese, aparentemente simples, um problema apresentado é exatamente este papel ter, de certo modo, migrado para outros agentes da cadeia produtiva do livro, como as editoras, distribuidores e lojas online que não guardam compromisso com a leitura e a venda direta de livros tão bem quanto às livrarias.

Em conversa com o amigo Gerson Ramos ele me alertou sobre o seguinte:

Eddie, a questão mais urgente para o pequeno livreiro hoje é a sua sobrevivência. Isso em um primeiro momento. Mas, imediatamente em seguida, vem a questão da rentabilidade do varejista de livros; que passa primeiro por uma profissionalização de seu oficio no varejo, combinada com qualificação para ser um protagonista cultural na sua região de influência, assim como também numa visão mais abrangente do mundo, para que a livraria seja não só o ponto de encontro, mas um agente protagonista nas transformações da sociedade em que faz parte… Mas falta ao empreendedor livreiro ter a visão de que está tocando uma empresa; que exige competência administrativa, financeira, tecnológica e logística.”

Diante deste cenário, de necessidades e desafios, será que existe uma equação para se encontrar a solução para modelo de negócios sustentável para a tradicional livraria de rua? Será que as livrarias de rua, como os cinemas de rua, morreram? Ou como uma fênix, que renasce das cinzas, algo poderia ser feito que revertesse uma triste morte?

Enfim, o que uma livraria tradicional de rua precisa fazer para continuar existindo?

CAFÉ COM LIVRO

Segundo outro amigo — envolvido com livreiros e a quem sempre recorro buscando conselhos sobre o tema —, mas que prefere não se identificar:

Como o pequeno livreiro vai sobreviver, perante a concorrência dos sites e dos grandes? As margens são pequenas, o giro de estoque baixo e só vão entrar na livraria física os amantes dos livros que, infelizmente, são poucos.

Há, no entanto, as possibilidades do entorno da livraria: atendimento a escolas, empresas, bibliotecas etc. Parece-me que as locadoras de vídeo ainda sobrevivem em cima de fundo de catálogo, que não são encontrados pra download na Web. Valeria a pena o livreiro pesquisar sobre isso.

Só está crescendo quem parte para a Web, e agrega sua expertise e renome ao site. Por exemplo, a (…) está fechando várias lojas físicas e investindo pesado na construção de um site, que vai focar na bibliodiversidade de seu estoque.

Cresce também quem está atendendo o Governo, escolas etc.

E só.

Bem, para início ou final de conversa, o que uma tradicional livraria física de rua precisa fazer para continuar existindo é… vender os livros. Simples assim.

A melhor e mais eficiente maneira de promover a venda de livros é os colocando à disposição do público. A exposição por si só também já é uma promoção. Não resolve a questão maior, mais essencial, por exemplo, colocar à venda café para atrair os clientes. Sejamos óbvios, as tradicionais cafeterias, espalhadas pelas cidades, já o fazem de maneira mais eficiente. E ninguém vai a uma livraria para tomar café. As pessoas, por maior ou menor número em que se encontrem, vão às livrarias para comprar livros. Se o que se pretende é atrair clientes para uma livraria, não venda café, dê o café, de graça. Deixe as pessoas comprarem livros, não o café. O café é apenas o início de uma conversa, não é o objetivo final. O café dentro de uma livraria deve ser tratado como coadjuvante, não como o ator principal.

Cafeterias vendem café, livrarias vendem livros. Se não for assim, teremos que ponderar se não seria mais interessante então vender remédios e livros; ou talvez livros e tabaco; ou quem sabe comida e livros, ao invés de livros e livros. Podemos fazer uma pesquisa do que mais as pessoas gostam. Por exemplo, de animais de estimação. Chegaríamos à conclusão de que a solução seria vender livros e produtos para pets.

Mas não é esse o caso porque o contrário nos pareceria mais óbvio, lucrativo e prudente, ou seja, vender livros em papelarias, pet shops, cafeterias, restaurante, etc. E por que os comerciantes em geral não fazem isso? Simplesmente porque não é comercialmente viável para os próprios pequenos livreiros. E a questão maior continua sendo a logística. Esta é uma das razões leva modelos mais verticais como uma livraria especializada em culinária, por exemplo, começarem a novamente ser testados.

Não resolve igualmente a questão fundamental, tão pouco, colocar itens de papelaria e informática nas livrarias porque as papelarias tradicionais espalhadas pela cidade já o fazem de maneira mais digna. Só por conta de haver escolas por perto, uma livraria teria que obrigatoriamente estar atrelada a uma papelaria? Não seria mais lógico, e rentável, para afastar a contradição, a própria papelaria vender os livros escolares? E não é exatamente o que muitas delas já o fazem?

Esta é uma questão muito bem levantada por um amigo que me disse que a livraria, principalmente a independente, atualmente serve mais como vitrine para grandes grupos editorias, e sites canibais, do que como canal de vendas. E este seria um dos motivos que levaria livreiros a migrarem para a venda de outros produtos. E esta é mais razão pela qual o preço de capa do livro no Brasil deveria realmente ser fixado em uma tabela de preço único.

Indo um pouco além e já forçando ainda mais a barra. Teatro, cinema, eventos culturais, etc., podem se tornar inviáveis dentro da maioria dos negócios de livrarias físicas menores, se formos honestos, se pensarmos que se um determinado empreendedor não tem espaço físico para sequer colocar os livros; e concluirmos que os aparelhos de cultura também já têm os seus próprios desafios. Cinema, eventos culturais, etc. já têm os seus espaços devidamente ocupados nas cidades. Cada um com os seus problemas e concorrências próprios. Não faz sentido algum convencer o livreiro menor, aquele que deveria ser o especialista em livros, de que ele agora é obrigado a tornar-se um aparelho de cultura, como se apenas vender livros já não bastasse para tornar-se um.

E ainda que a iniciativa de uma livraria de pequeno porte vencesse estas questões dita culturais, não nos indicaria a segurança de um business sólido, uma vez a própria biblioteca, o museu, o ateliê, a galeria, o teatro, privados, também não conseguem apresentar modelos de negócios consistentes. Estes outros negócios culturais muitas vezes também não conseguem consolidar um modelo sustentável mais eficiente e perdem até os seus próprios papéis sociais.

Neste sentido, proponho voltarmos ao básico. Se você é um pequeno livreiro e pretende vender livro, então esqueça todo o resto e se concentre naquilo que deveria fazer uma verdadeira livraria: promover a venda de livros.

Quer saber mais como fazer isso? Comece lendo um bom livro, “La Libreria Como Negócio”, indicação que me foi sugerida por quem entende do assunto.

UMA MENTIRA QUE SE CONTA VÁRIAS VEZES

Temos de repetir diversas vezes para ficar bem claro: o futuro da livraria do futuro é ser dolorosamente simples, um ponto comercial que vende livros. Se não puder ser pelo menos isso, então nós realmente temos um problema.

Há um motivo para que sejamos tão repetitivos em defesa de nossa tese. O ditado popular afirma que uma mentira contada várias vezes se torna uma verdade. Mas não é verdade que o brasileiro não lê. Embora seja verdade que não existem consumidores o bastante para comprar livros e manter alguns pontos de venda. No entanto, quatro títulos foram a média lida por pessoas em 2011. Não é verdade que o livro no Brasil é caro, embora ajustes no preço de capa sejam obviamente necessários. Há números que demonstram que os preços vêm se tornando mais populares nos últimos anos. Alguns podem discordar, mas talvez a verdade seja o fato de que o livro em nosso país não tenha o seu devido valor. De qualquer modo 5,26% foi quanto o faturamento do setor cresceu em 2011.

Sessenta e cinco por cento dos brasileiros compram livros em livrarias. Nossas fontes, o “Retrato da Leitura no Brasil” e o “Levantamento Anual do Segmento de Livrarias”, da Associação Nacional de Livrarias (ANL), nos mostram que há até cerca de 3.000 lojas em operação no Brasil. Meio milhões de obras foram vendidas em 2011. Sessenta mil títulos foram publicados no mesmo período. Trinta e três por cento das livrarias faturaram até 10 milhões. Vinte por cento faturaram de 10 a 20 milhões. Vinte por cento das livrarias faturaram acima dos 20 milhões.

Neste cenário, façamos um exercício. Pense no seguinte, vamos supor que, eventualmente, para que o Governo enviasse incentivos fiscais, investimentos financeiros, às livrarias, para salvá-las do seu leito de morte, existisse paralelamente associada uma lei que obrigasse as livrarias a venderem essencialmente os livros. Apenas os livros. Faria sentido isso? Faria algum sentido hipoteticamente, como gostariam alguns, o Governo incentivar livrarias que lucrassem com a venda de cartões de créditos para celulares pré-pagos ou cigarros, por exemplo?

Pense um pouco mais, porque é assim com as bancas de jornal, e alguns governos locais até tentam mudar este cenário permitindo que estas bancas possam vender até macarrão instantâneo. Muitos ‘entendidos’ do mercado dirão, logo de cara, que não, que não faria sentido, em plena modernidade, que as livrarias vendessem apenas os livros. E estes são os mesmos que são contra o projeto de lei do preço único no Brasil, são os que, lá no fundo, também morrem de medo do livro eletrônico.

QUITANDA DE LIVROS

Debater livro eletrônico aqui beiraria a covardia. Então voltamos ao básico, para não fugir do óbvio. As pessoas saem de casa para comprar as coisas. Elas passeiam e trafegam nas ruas. Não é verdade que toda a audiência de pessoas esteja somente dentro dos shoppings. Como se só as pessoas que andam nos shoppings tivessem dinheiro e estivessem dispostas a gastar. As pessoas, geralmente, com ou sem dinheiro, letradas ou não, não vão aos shoppings para comprar livros. Elas eventualmente compram livros porque os livros estão lá, como já dito, à venda. É isto, existem livros ali sendo ofertados. E não estão sós, estão rodeados por uma infinidade de outros produtos que inclusive dispersam a atenção dos chamados potenciais consumidores.

Vender outros tipos de produtos com a desculpa de que precisa desta muleta para vender os livros não resolve o problema. Ou se vendem os livros ou não se vendem os livros, não existe o meio termo, do tipo, “me vê um quarto de café e dois capítulos daquela obra ali”.

E se o modelo de uma livraria não suporta o custo de um shopping, uma alternativa poderia ser a daquele case que vende livros infantis nos corredores, uma livraria Express — modelo já testado por uma franquia que parece ter mudado de ramo; caso contrário, o projeto de uma livraria menor precisa estar alocado pelo menos em um local onde as pessoas estão passando, trafegando, passeando. Mas não necessariamente dentro dos shoppings.

Se as pessoas passeiam pelas ruas, e podem consumir livros tanto quanto os consumidores que passeiam pelos shoppings, e se o modelo das grandes redes é na verdade vender produtos de informática ou papelaria, então qual é o verdadeiro problema das livrarias de rua?

Segundo o mestre Epstein, em seu clássico “O Negócio do Livro”:

No comércio de livros, como em qualquer negócio de varejo, estoque e aluguel impõem o chamado trade-off. Ou seja, quanto mais se paga por um, menos se pode gastar com o outro. Os aluguéis nos shoppings impossibilitavam a estrutura varejista que se desenvolveu de mãos dadas com a indústria editorial por quase dois séculos… a ocupação de alto custo nos estabelecimentos dos shoppings exige alta rotatividade de produtos indiferenciados, taxas de giro incompatíveis com a longa, lenta e com frequência errática vida dos livros…”.

Parece-nos, portanto, que as editoras e as livrarias terão de optar por sentar em uma mesa para negociar planos futuros para as livrarias de rua, ou finalmente romper de uma vez por todas o cordão umbilical que possibilitava a ambas a venda casada dos livros. Mas em qual das tantas entidades do livro existentes neste país, estaria esta mesa de negociações? Na Associação Brasileira do Livro Eletrônico?

UM FOCO PARA FINALIZAR

O que aconteceria se a GM resolvesse apostar na fabricação de aviões?

Parece-me que perderia o foco.

E este é o maior problema do mercado brasileiro atual. Falta um ajuste de foco nas lentes dos óculos dos diretores das empresas editoriais.

Muitos estabelecimentos comerciais, por exemplo, vendem barras de chocolates. Desde padarias, restaurantes, aeroportos, cinemas, etc., até as farmácias, camelôs e ambulantes vendem os chocolates. Mas então por que cases como a CacauShow são um sucesso? Seria o foco? Afinal, não é porque vivemos em um país tropical que as pessoas não consomem chocolates. Assim como não é verdade que o fato de uma parcela da população ser analfabeta elimina a possibilidade da outra parcela, letrada, comprar os livros. E mesmo que alfabetizássemos todos os brasileiros que não sabem ler, não poderíamos garantir com segurança que todos eles comprariam os livros.

Portanto, voltamos novamente ao básico. Deixe que os mercados em geral que vendam fósforos, cigarros, bebidas, etc. Deixe que aquela grande rede online lucre mais com os televisores de alta definição, ou com venda de filmes, do que com os livros. Porque se uma determinada livraria vende mais outras coisas, literalmente, em detrimento do livro, cinquenta por cento a mais, por exemplo, trata-se então de qualquer outro ponto comercial, não de uma livraria. O livro, para estes grandes empreendimentos, é apenas um cartão de visita, uma isca, nada mais.

Mas, para o pequeno livreiro, não adianta usar de subterfúgios se o objetivo é vender livros. Caso contrário, fique com o outro tanto, lucre com o resto e esqueça os livros. Se os livros não se vendem, então abrir uma quitanda talvez seja a melhor saída. Pode parecer radical, mas o cinismo também é um artifício de convencimento, algum consultor poderia apostar na brilhante ideia de vender frutas, verduras, legumes… e livros de culinária. Mas não ia funcionar porque as donas de casa não vão aos supermercados ou a feiras livres, grandes ou pequenas, para comprar livros. O fato é que borracharias, mecânicas e autoshoppings não vendem livros sobre carros por uma razão muito simples, as pessoas que gostam de carros e querem comprar livros sobre os carros geralmente recorrem às livrarias mesmo sabendo poder encontrar livros em outros locais.

Podem até tentar, mas o melhor lugar para se comprar fisicamente os livros impressos continua sendo uma livraria. O melhor lugar para comprar pão é na padaria. Assim como o melhor lugar para se comprar vinho é na adega. O melhor lugar para se jantar é em um restaurante, dentro ou fora de um shopping, não importa. O melhor lugar para assistir a um filme, apesar da era do home theater, continua sendo a sala de cinema. Onde é o melhor lugar para se comprar perfumes? Assim como se torna legítimo afirmar que o melhor lugar para se tomar sol é na praia, na piscina, num clube ou num rio, mesmo que o sol esteja presente na maior parte do nosso planeta. Um escritor poderia demonstrar em uma cena de um best-seller como o sol também aquece as livrarias, mas nem por isso as pessoas iriam às livrarias para tomar sol.

Um amigo, bem mais radical que eu, um dia me disse: “Eddie, não confunda melancolia profunda, com melancia na bunda”. Pareceu-me bem desconfortável quando eu ouvi a sentença a primeira vez, mas ele tinha razão. Afinal, o livro impresso consegue estar fisicamente presente em todos os lugares, com um modelo de negócios sem um foco definido? Não. É claro que não. Assim mesmo, o papel social fundamental de uma livraria física, para que não pairem mais dúvidas sobre o assunto, é o de vender os livros.

Concessionárias geralmente vendem os carros, embora possam também vender as peças dos automóveis. Tabacarias vendem cigarros, cachimbos, etc., embora possam vender jogos de xadrez. Borracharias geralmente cuidam dos pneus dos carros, embora possam também manter bons lava-rápidos anexos logo ali do lado. Pequenos mercados de bairro geralmente vendem itens do lar, como comida, tempero, macarrão, embora também possam vender cobertores e edredons. E por que não o fazem? E por que as lojas especializadas em sapatos também não vendem matéria-prima como borracha e couro, ou consertam os sapatos, ou mantêm os engraxates por perto?

Desde o desenvolvimento do negócio livreiro, com o aprimoramento da máquina de tipos móveis pelo gênio alemão Gutenberg, até o nascimento das livrarias online, o papel fundamental de uma livraria é um só. Se uma livraria não puder vender livros, essencialmente os livros, então chegamos à conclusão de que a livraria realmente morreu como negócio. O que nasce, depois disso, será qualquer outra coisa, menos uma livraria.

Ednei Procópio

Ednei Procópio

* Ednei Procópio é especialista em livros eletrônicos desde 1998 e Diretor Executivo da Livrus Negócios Editoriais (www.livrus.com.br).

Cidades com mais livrarias são as que mais compram livros pela web


Os maiores compradores virtuais de livros no Brasil estão exatamente nas áreas mais abastecidas por lojas físicas –embora o comércio eletrônico seja sempre lembrado por especialistas em leitura como alternativa para áreas onde não há livrarias.

Das dez cidades que mais compram livros pela internet no país, nove estão na região Sudeste, segundo levantamento per capita realizado pela Livraria Saraiva, a maior do país, a pedido da Folha.

O levantamento cobriu todas as cidades brasileiras e considerou o período de junho de 2012 a maio de 2013.

A lista é liderada por Niterói [RJ], São Caetano do Sul [SP] e Vitória [ES], três municípios entre os 50 com o maior Produto Interno Bruto [PIB] do país e que têm, respectivamente, uma livraria para cada 21 mil, 19 mil e 18 mil habitantes –a média nacional é de uma livraria para 63 mil.

O ranking da venda específica de e-books acompanha a tendência, com Santana do Parnaíba [SP] liderando a lista seguida de Niterói, Florianópolis [SC], São Caetano do Sul e Vitória.

Na Saraiva, o e-commerce representa hoje 34% das vendas da rede, que tem 104 lojas físicas no país. Já na Cultura, o comércio via internet chega a 22% do total. Em ambas, a loja on-line é a que mais cresce em toda a rede.

Para livreiros que trabalham com venda pela internet, é nítida a diferença no comportamento dos consumidores em cidades onde as lojas físicas estão presentes.

O e-commerce não é só conveniência para quem não tem acesso a outros canais. Sempre que abrimos loja numa cidade, aumenta a compra on-line local”, diz Sergio Herz, CEO da Livraria Cultura.

Fabiano dos Santos, subdiretor no centro de fomento à leitura na América Latina da Unesco, diz desconhecer estudos sobre o impacto das livrarias na formação do hábito de leitura, mas vê aí “boa agenda de investigação”.

A livraria tem função social na democratização do acesso e na promoção da leitura. Todo livreiro é ou deve ser um mediador cultural.

Para Eliana Yunes, diretora da Cátedra Unesco de Leitura PUC-Rio, os dados fazem pensar no limite da democratização da leitura permitida pela internet, até pelo fato de a inclusão digital também ser maior em áreas mais ricas.

Quanto mais diversificados os canais de compra, melhor para a população. Mas quem não tem acesso a livrarias e bibliotecas dificilmente solucionará um déficit de leitura com o computador. A esses foi negado o aperitivo, o gosto de experimentar.

NORDESTE

O Nordeste é a segunda região mais bem colocada na compra de livros on-line, embora seja a terceira região com mais livrarias, atrás do Sul.

Entre os 50 municípios que mais compram pelo site da Saraiva, na contagem per capita, 29 são do Sudeste, 11 do Nordeste, cinco do Sul, dois do Centro-Oeste, dois do Norte e um do Distrito Federal.

Na Saraiva e na Cultura, o Nordeste foi a região em que a compra on-line mais cresceu em 2012, acompanhando tendência de crescimento do PIB local [2,05% no primeiro trimestre] na comparação com o resto do país [1%]. “O Nordeste foi uma opção federal em termos de investimento. Isso se reflete na compra de livros”, diz Frederico Indiani, diretor de compras da Saraiva.

Publicado originalmente e clipado à partir de Folha de S. Paulo | 27/06/13

Editoras lançam Bookish


Site é resultado de parceria da Simon & Schuster, Penguin e Hachette

BookishAs editoras Simon & Schuster, Penguin e Hachette, 3 das chamadas Big Six internacionais, juntaram forças e lançaram o Bookish, uma mistura de rede social, site de recomendação de livros [com recomendações “inteligentes”, segundo o portal] e livraria online, com livros de outras editoras além das 3 parceiras. Além disso, o Bookish também pretende ser uma publicação online, com conteúdo editorialmente independente sobre livros e autores de diversas editoras.

PublishNews | 07/02/2013

Guardian terá mapa interativo de livrarias


Grã-Bretanha: O jornal inglês The Guardian vai lançar em junho um mapa interativo com as livrarias do Reino Unido e da Irlanda, em parceria com a associação National Book Tokens. O mapa ficará no site http://www.guardian.co.uk/books dedicado aos livros dentro do portal do jornal, e vai permitir que os livreiros coloquem informações sobre suas lojas, ao mesmo tempo em que os usuários poderão marcar suas livrarias preferidas e incluir informações sobre festivais e autores. Já a equipe multimídia do Guardian vai ligar ao mapa conteúdos como vídeos sobre as livrarias, podcasts, blogs e ações promocionais. Segundo Claire Armitsead, editora da área de livros do Guardian News and Media, a ideia é fazer do mapa uma referência para que as pessoas encontrem livros e recomendações, compartilhem experiências sobre suas livrarias preferidas e descubram novos locais para exercer sua paixão pela leitura.

PublishNews | 29/05/2012 | Com informações do site da The Bookseller.

Martins Fontes Paulista moderniza seu site


A Martins Fontes Paulista está com site novo. Agora, é possível acompanhar o status das compras, ficar por dentro dos eventos realizados na livraria e dos lançamentos e pesquisar em um acervo de mais de 400 mil títulos. Além disso, na home, o cliente encontra em destaque as editoras que estão dando descontos especiais. Hoje, eles variam entre 20% e 30%.

PublishNews | 22/12/2010

Livraria mais antiga do Brasil lança loja virtual


Corria o mês de junho de 1844. E foi na quinta-feira, dia 13 daquele mês, que a livraria Ao Livro Verde abria suas portas na então rua da Quitanda, nº 22, na cidade fluminense de Campos dos Goytacazes. O empreendimento foi inaugurado pelo português José Vaz Correia Coimbra. “Havia na época um porto importante na região – o Cais do Imperador na foz do no rio Paraíba do Sul –, que trouxe muitas famílias portuguesas para cá”, explica Ronaldo Sobral, atual proprietário da loja. “Graças a isso, havia uma demanda por livros importados de Portugal”.

Cento e sessenta anos depois, o cais não existe mais, as famílias portuguesas se tupinicanizaram e o Brasil já produz seus próprios livros, mas a livraria Ao Livro Verde continua de portas abertas na rua Governador Teotônio Ferreira de Araújo, nº 66. Mudou de endereço, pensariam os mais incautos. Mas não – foi a rua que mudou de nome e de numeração. A livraria segue onde sempre esteve e é a mais antiga livraria do Brasil em funcionamento.

É bem verdade que possui uma grande área dedicada a produtos de papelaria e oferece uma gama de produtos bastante variada e nem sempre diretamente ligada ao livro. Mas a realidade é que a Ao Livro Verde já nascera assim e, em tempos de desafios para as livrarias independentes, parece encontrar em suas origens uma forma de sobreviver. Como o jornal i noticiou na época da abertura da loja, o estabelecimento oferecia, além de livros, “…perfumarias, miudezas, livros pautados e em branco, um lindo sortimento de jóias do último gosto, drogas medicinais e para pintura…”, além de comercializar, como não podia deixar de ser, “o verdadeiro rapé Bernardes”, que supria, nos idos de 1844, a falta do similar Princesa de Lisboa.

Mas Ronaldo Sobral, cuja família é proprietária da livraria há 80 anos, não olha apenas para o passado. “Nossa loja virtual sai ainda este ano no ar”, explica o livreiro, ao lado do cyber café que já existe na loja física e de olho no futuro. Até já existe algum movimento no http://www.aolivroverde.com.br, embora o catálogo ainda não esteja no ar. Mas o que importa é que lá no alto da página já estão publicadas, com muito orgulho, as palavras “Desde 1844”.

Abaixo republicamos a íntegra da notícia sobre a abertura da livraria Ao Livro Verde publicada em O Monitor Campista. Mantivemos a grafia da época:

Loja do livro verde, rua da Quitanda n. 22

José Vaz Correia Coimbra e C.ª, annuncião ao respeitável publico que acabão de abrir sua casa de negocio, com a denominação acima especificada, na qual se acha para vender o seguinte: um variado sortimento de obras e mais pertences para escolas de instrucção primariae secundaria de latim e francez, bem como novellas, historias e romances; musica de cantoria e para pianno, e vários instrumentos de corda e sopro; papel almço e de peso de differentes qualidades, dito de Hollanda, e outros accessorios para escriptorio; perfumarias, miudesas, livros pautados e em branco, um lindo sortimento de jóias do ultimo gosto, drogas medicianaes e para pintura, broxas e papelão de números sortidos, o verdadeiro rapé Bernardes, que já supre a falta do princesa de Lisboa, excellente chá hisson, bem como outros muitos artigos que se hão de annunciar. Os annunciantes se propõem a servir e por preços razoáveis, as pessoas que queirão honrar com sua confiança.

O Monitor Campista, ed. 419, 2/7/1844

Por Carlo Carrenho | Publicado originalmente em PublishNews | 18/11/2010

Curso virtual para livreiros


O Centro Regional para Fomento do Livro na América Latina e Caribe [Cerlalc] realiza, de 4/10 a 19/11, o curso “A livraria como espaço cultural”, com objetivo de fortalecer esse mercado, aumentando o público leitor e, com isso, impulsionar as vendas. O curso não tem restrição de horário, já que será totalmente virtual. Basta dedicar duas horas diárias, ou dez horas semanais, de acordo com a possibilidade de cada participante.
As inscrições vão até 28/9. Para saber mais, acesse aqui.

Revista do Observatório do Livro e da Leitura | 24/09/2010