O que falta para um verdadeiro “Kindle Brasileiro”?


Esse artigo é uma “carta aberta” aos desenvolvedores nacionais de leitores eletrônicos e eBooks, junto com uma breve análise de mercado e sugestões de como melhorar seus produtos.

Mercado Global

No final de 2007, a Amazon lançou o Kindle original, um leitor eletrônico de livros, que se integrava à sua loja virtual, oferecendo eBooks diretamente para o aparelho. O Kindle não foi o primeiro produto do mercado, a tecnologia de tela por e-Ink já existia comercialmente há pelo menos 3 anos na época, inclusive com leitores funcionais, como o Sony LIBRIé, no Japão em Abril de 2004 e sua evolução para o mercado global na forma do Sony Reader em Setembro de 2006.

Mesmo com o Kindle não sendo o primeiro aparelho, ele foi maior sucesso comercial em sua categoria pelo simples motivo de ter toda uma estrutura por trás para melhorar a experiência do usuário: os livros podiam ser comprados de forma transparente via rede 3G, o acervo de eBooks era razoável e o preço era justo; essas vantagens estruturais eram tão convidativas, que os usuários até ignoravam as limitações do aparelho propriamente dito comparado com outros já existentes, como a falta de toque na tela, backlight e suporte ao formato ePub.

Apenas recentemente, outras livrarias americanas conseguiram criar uma estrutura similar à da Amazon, como a Barnes & Noble, com seu leitor Nook e a Borders com o Kobo e outros leitores eletrônicos.

Mercado Brasileiro

Aqui no Brasil, apenas nos últimos meses vimos projetos de leitores eletrônicos aparecendo, com todos eles sendo lançados praticamente juntos, a tempo da Bienal do Livro de São Paulo. Até onde eu pude catalogar, temos disponível: o Positivo Alfa, o Coolreaders COOL-ER, o Mix Leitor D e o Braview BR-100-TX; todos com tela e-Ink de 6 polegadas e outras similaridades de hardware.

Apesar de todo o esforço nacional, esses projetos estão fadados ao fracasso se não evoluírem para alcançar o Amazon Kindle, que já está disponível no Brasil desde Outubro de 2009, e com as sucessivas quedas de preço chega mais acessível que os preços sugeridos dos concorrentes nacionais. Isso tudo sem levar em conta a maturidade o aparelho e o serviço oferecido pela Amazon. O único ponto onde os nacionais realmente têm alguma chance é no acervo em português, o que também é apenas uma questão de tempo para a Amazon, tempo que esse que é o limite máximo para os nacionais evoluírem, se perderem essa janela não há mais volta.

Replicando o Kindle

Essa não é uma tarefa fácil, o Kindle já está em sua terceira edição, teve sucessivos updates de software, possui um orçamento desproporcional em R&D [Pesquisa e Desenvolvimento], ou seja, é um produto bastante maduro e estabelecido. Em contrapartida, os leitores nacionais são licenças OEM de leitores genéricos, apenas com localização para o mercado local; em termos de hardware eles mal chegam ao nível da primeira edição do Kindle, já com 3 anos de idade.

Eu sei que é injusto comparar o hardware, todas as telas de e-Ink, de todos os leitores que usam essa tecnologia vêem de um único fornecedor, e a Amazon tem recursos suficiente para trabalhar em conjunto com essa empresa e conseguir prioridade na disponibilidade das inovações, como por exemplo, a última versão da tecnologia, chamada de e-Ink Pearl, hoje apenas disponível no recém-lançado Kindle 3.

Para os leitores nacionais se destacarem, a maneira mais efetiva atualmente é via software e serviços:

Software: o leitor não pode ser apenas uma versão traduzida de um leitor chinês básico, ele precisa oferecer vantagens reais para o usuário, como:

  • Integração melhor com as livrarias online.
  • Text-to-Speech [leitor de tela] em português.
  • Sistemas de bookmark, destaque e anotações.
  • Dicionário integrado em português [o Positivo Alfa já vem com o Aurélio].
  • Interface intuitiva.
  • Tipografia otimizada para e-Ink, com “hinting” de fontes.
  • SDK aberta para desenvolvimento de Apps.

Serviços: o leitor sozinho não é muito atrativo para o consumidor atual de livros, segue alguns exemplos de serviços que agregam valor ao aparelho:

  • Sincronismo de bibliotera pessoal “na nuvem”.
  • DRM Opcional.
  • Softwares leitores alternativos para PC, celulares e tablets.
  • Sincronismo de última página entre softwares e o leitor.
  • Sincronismo de outros serviços, como anotações, bookmark, etc.
  • Sistema se assinatura de periódicos em parceria com jornais e revistas.
  • Loja de Apps e incentivo aos desenvolvedores.
  • Recomendações, “clube do livro”, conteúdo editorial.
  • Integração com redes sociais.
  • Primeiros capítulos de graça.
  • Sistema fácil de publicação direta para os autores.
  • Programa de afiliados.
  • Ofertas periódicas, “livro da semana”, etc.
  • Sistema de empréstimo digital de livros.

Se algum leitor nacional conseguir completar a maioria dos itens dessa lista e conseguir oferecer um preço justo, eu garanto que a próxima Bienal do Livro vai ser predominantemente digital!

A Receita do Bolo

Hardware

  • A tecnologia de tela é padronizada, a única diferença que alguém pode ter nesse aspecto é ter suporte touchscreen, mas mesmo assim isso é apenas uma camada extra sobre a tela de e-Ink padrão, que todos têm o mesmo acesso, ou seja, a tela é commodity! A função de hardware que realmente impacta a experiência do usuário é a conectividade, seja ela via 3G ou Wi-Fi. Os hardwares projetados no Brasil precisam ter isso em mente, e os que licenciam hardware chinês pronto precisam colocar isso no topo da lista de novas funcionalidades para cobrar do fornecedor.

Software / Serviços

  • Interface: Não é segredo que os leitores possuem a mesma base de software: Linux como Sistema Operacional e alguma variante de FBReader como leitor de eBooks; daí pra frente é pura questão de interface gráfica. Os projetos nacionais precisam investir mais em usabilidade, fazer testes com usuários, encontrar e corrigir as partes de software que geram confusão, etc. Para isso é necessário integrar as esquieps de Design, User Experience [“UX”] e Quality Assurance [“QA”].
  • Performance: Os leitores nacionais fazem feio na hora da ação mais simples possível do leitor: virar páginas! e não estou falando do tempo de refresh do e-Ink, eles passam a maior parte do tempo renderizando a página seguinte em memória para finalmente aplicar na tela de uma vez. Uma equipe de engenheiros é fundamental para otimizar o código. Soluções simples, como renderizar previamente algumas páginas em memória, por exemplo, podem melhorar bastante a reputação do produto, e uma boa equipe de engenheiros de programação conhece todas essas técnicas.
  • Text-to-Speech: Esse recurso não é útil apenas para deficientes visuais, qualquer usuário pode passar por uma situação onde precise de um acesso alternativo ao conteúdo, como por exemplo: descoforto ao ler em meios de transporte, receio de tirar o leitor da bolsa/mochila por segurança, etc. Existem vários projetos Open-Source de leitura de texto, alguns até com vozes em português do Brasil, pronta para serem usadas, só precisa ser “colada” pela equipe de desenvolvimento. Segue um exemplo de um fragmento narrado pelo eSpeak com a voz em português, é meio robótica, mas não é muito diferente do que o Kindle oferece em inglês:
    Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver, dedico, com saudosa lembrança, estas memórias póstumas, Machado de Assis.
  • Softwares de Leitura: Atualmente a Amazon, Barnes & Noble e Borders oferecem seus eBooks tanto em leitores dedicados, como via software para Windows, Mac OS X, iOS [iPhone, iPod touch, iPad], Android e Blackberry. Para se equiparar com esses serviços é necessário pelo menos suportar a plataforma Windows e iOS, e pensando no futuro suportar também Android. O software nào precisa ter todas as funcionalidades do leitor dedicado, mas precisa pelo menos suportar os fortados de eBooks com e sem DRM, e sincronizar as últimas páginas entre eles. Antes de sair programando é necessário estabelecer uma API comum a todos, a partir daí delegar uma plataforma para cada equipe, podendo ser inclusive terceirizadas.
  • Dicionário Integrado: A Positivo saiu na frente com esse recurso, oferecendo o Dicionário Aurélio no Alfa. Mas além disso, existem outros bons dicionários que podem ser licenciados, tudo que precisa é uma boa negociação e uma breve adaptação técnica do banco de dados do dicionário para o formato do leitor.
  • Tipografia Avançada: Quando o assunto são fontes não tem muito pra onde correr, é melhor entrar em contato direto com uma Font-Foundry [empresa que desenha e distribui fontes] que tentar otimizar fontes abertas por conta própria. Poucos fabricantes se dão conta, mas as fontes são fundamentais para a legibilidade do leitor eletrônico, especialmente com as limitações de cores e resolução das telas de e-Ink. O processo e otimizar uma fonte para uma determinada resolução é chamado de “hinting”, onde os designers ajustam os traços dos caracteres para se enquadrarem melhor nos pixels. O recomendável é fechar parcerias com empresas grandes, como Bitstream, Monotype ou Adobe; e não confiar apenas nas fontes simples oferecidas pelos OEMs.
  • SDK para Apps: Esse provavelmente é o passo mais complexo de todos! requer uma grande equipe multi-disciplinar, suporte à uma comunidade de desenvolvedores e todas as burocracias envolvidas na distribuição. Apesar da complexidade, os resultados são bastante promissores se forem bem implementados; e se conseguir usar uma linguagem ou framework já populares é melhor ainda, especialmente usando linguagens de script, como Python ou Lua.
  • Integração com Livrarias: Essa é, de longe, a maior barreira de usabilidade dos leitores eletrônicos atuais: é muito difícil para um usuário leigo comprar os primeiros livros e copiar para o aparelho! A integração com as lojas é simplesmente obrigatória para um produto bem-sucedido. O ideal é o próprio dispositivo possibilitar a compra, mas caso o hardware não ofereça meios de conexão, o uso de softwares gerenciadores integrados às lojas já ajuda nessa tarefa.
  • Cloud Computing: Uma estrutura centralizada de servidores, que guardam dados dos livros, bookmarks, anotações, etc. Esse recurso depende mais da loja de eBooks que do fabricante, mas uma parceria com o fabricante do leitor é fundamental para integrar esses serviços. Isso requer uma equipe de programação especializada em Web e e-Commerce, atém de “SysAdmins”, DBAs e outros profissionais necessários para manter os serviços no ar.
  • Assinatura de Periódicos: Para oferecer um serviço como esse é preciso padronizar modelos de assinatura e cobrança, além de fechar parcerias com jornais e revistas de grande circulação, mas isso é basicamente negociação, o maior desafio técnico é entregar esse conteúdo, o que pode ser resolvido da mesma forma que integração com a loja: preferencialmente via wireless, com opção via software gerenciador.
  • Redes Sociais: Aqui podem ser agrupados uma série de recursos simples, mas que podem impactar bastante a experiência do usuário, como por exemplo: notificações tipo “estou lendo…” no Facebook, trechos de destaque de texto via Twitter, etc. Não precisa de uma equipe muito técnica para isso, apenas bastante criativa, e que entenda as dinâmicas sociais dos amantes de livros.

Conclusão

Executar todas essas idéias é uma missão monumental, e como eu já dei a entender, é muito pouco provável que algum fabricante, livraria ou editora consiga implementar tudo, afinal o custo é bem proibitivo, a mão-de-obra é escassa e a concorrência do Kindle é quase desleal. Mas mesmo assim é algo que eu investiria se tivesse os recursos para isso! o mercado de eBooks tende a crescer bastante. Eu sei que os eBooks nunca vão matar os livros de papel, mas com certeza vão fazer parte da vida de todos em breve!

Este Artigo está licenciado sob Licença Creative Commons Atribuição 3.0 | Por Ronaldo Ferreira | Publicado originalmente em Racum Tecnologia

Biblioteca na palma da mão


Os primeiros livros feitos com tipos móveis renováveis, predecessores das publicações atuais, surgiram no século XV e semearam uma revolução. Transformaram a leitura em algo popular. Estaremos assistindo a uma nova revolução no conceito de livro? Na semana passada, a Amazon, a maior entre as livrarias on-line, lançou o Kindle, aparelho para ser usado na leitura de textos em formato digital. Não é o primeiro desse tipo de produto, chamado genericamente de e-reader. Mas tem um encanto especial: a conexão direta com a Amazon sem a intermediação de um computador. A livraria oferece 88.000 títulos para download. Há também uma seleção de jornais americanos e europeus, 250 blogs e a Wikipedia, a enciclopédia da web. Nenhum concorrente chega perto em número de publicações.

O conteúdo é baixado para o Kindle por telefonia celular, sem custo para o usuário. Já os livros e jornais precisam ser pagos. Um título recém-lançado sai por 9,99 dólares. Obras de catálogo são vendidas por menos de 1 dólar. Seja qual for o número de páginas da obra, o tempo de download não chega a ser um problema. O aparelho armazena em torno de 200 livros. O teclado permite consulta a textos arquivados e à Wikipedia. “O Kindle pode não substituir os livros, mas faz coisas que eles não fazem“, disse Jeff Bezos, dono da Amazon, no lançamento do produto. O Kindle não é barato – custa 399 dólares, o preço de um iPhone. Pesa 300 gramas. É ligeiramente mais grosso que um lápis e tem o formato aproximado de um livro-padrão. Ou seja, pode ser carregado numa pasta sem causar incômodo. O visor, com 15 centímetros na diagonal, usa tecnologia criada pela E-Ink, empresa que nasceu no Instituto de Tecnologia de Massachusetts [MIT]. A tela é constituída por cápsulas microscópicas, preenchidas por pigmentos pretos e brancos. Estes são ativados por uma corrente elétrica, formando as letras. Ao contrário dos computadores e dos celulares, quanto mais claro o ambiente, mais nítida fica a tela.

Os e-readers surgiram no fim dos anos 90. Nenhum deles emplacou. Pioneiros como o SoftBook e o Rocket eBook eram caros [500 dólares], pesados [1,5 quilo] e tímidos em termos tecnológicos [nem sonhavam com downloads por rede sem fio]. A Sony produziu duas versões de livros digitais entre 2004 e 2006: o Librié e o Reader. O primeiro naufragou. O segundo tem vendas modestas. Tornou-se um produto de nicho. Em 2006, surgiu o iLiad, da iRex Technologies. Era mais leve que os primogênitos, mas ainda assim pesado: quase 400 gramas. A oferta de amplo conteúdo permite à dupla Kindle-Amazon um sonho mais ambicioso: representar para o mercado editorial o que outra dupla, a Apple-iPod, significou para a indústria fonográfica – uma reviravolta monumental.

Fonte: Revista VEJA.com | 28/11/2007