Programas indies para edição, validação e testes de livros digitais


Normalmente, quando falamos em edição, validação e testes de livros digitais, falamos no Sigil, EpubCheck, Adobe Digital Editions e Readium. Para exportação: InDesign ou LibreOffice, — os mais radicais podem dizer Quark e/ou BlueGriffon Epub Edition –, certo?

Nada mais normal do que isso, afinal, são programas rotineiros no dia a dia dos desenvolvedores de e-books.
Hoje falarei brevemente sobre outras duas ferramentas não tão famosas quanto as citadas primariamente, todavia, muito interessantes tanto pelos diferentes funcionamentos quanto pelas possibilidades de serem usadas não apenas profissionalmente, mas também para estudo.

1. ePubChef

Trata-se de um projeto que tem a seguinte proposta: “acrescente os ingredientes na panela e ele cozinhará um ePub 3 para você” [impossível não lembrar do Fernando Tavares e suas analogias com comida].

Ele funciona via linha de comando a partir dos ingredientes que você adiciona às pastas dentro de uma estrutura pré-determinada, todavia, altamente customizável.

Esse caráter “customizável” do programa é extremamente útil para quem está interessado em estudar o formato e, de quebra, se estiver interessado em programação, você pode customizar o código da ferramenta em si, e não apenas os de seus arquivos. ;]

Após clonado o repositório, sua estrutura de diretórios é a seguinte:

Na pasta css você encontrará, bem, um CSS [bastante completo e cheio de comentários explicativos]. Nele, você poderá definir as diretrizes básicas do que espera do ePub a ser criado.

Se você estiver pensando em fazer alguns livros de uma mesma coleção, com valores similares, temos aí um bom começo: criar modelos de CSS.

Se você estiver pensando em fazer alguns livros de uma mesma coleção, com valores similares, temos aí um bom começo: criar modelos de CSS.

Mãos à massa: cook.py

Vá até a pasta [via terminal] e digite:

python cook.py mybook

Com esse comando ele criará os arquivos para o seu livro. Seguindo o exemplo da wiki usei o “mybook” [você é livre para escolher um nome mais criativo para o arquivo].

Você pode começar a editar e adicionar conteúdos, imagens, fontes na pasta mybook_raw e já preencher os metadados em mybook_recipe.yaml usando qualquer editor de textos simples [como o Bloco de Notas no Windows, por exemplo]. Nesse arquivo você ainda pode determinar a ordem, os nomes dos capítulos etc.

Já os conteúdos você acrescenta nos arquivos TXT. Exemplos de uso [tabelas, itálicos etc.] podem ser encontrados nos arquivos do exemplo [em demo_raw]. A cada edição, basta rodar o comando outra vez, e o programa recriará o arquivo atualizado.

Na página do projeto você encontra o tutorial da instalação e os primeiros passos para uso. Se você tem algum domínio de inglês e está interessado em aprender a fazer um e-book de dentro para fora, o ePubChef é um excelente caminho.

2. jeboorker

O jeboorker é um editor de metadados com algumas funcionalidades bastante úteis.
Para começar, ele permite a edição de metadados não apenas de arquivos ePub, mas também de CBR, CBZ e PDF, desde que os mesmos não se encontrem protegidos por DRM.

Diferente do ePubChef, o desenvolvedor já disponibiliza os pacotes de instalação para as plataformas Windows, Linux e Mac, diretamente na página do projeto no GIT.

A interface dele é bem simples, mas realiza bem o que se dispõe a fazer: editar metadados.

Uma das funções de que mais gostei no jeboorker foi o fato de poder importar diretamente uma pasta inteira em vez de um arquivo por vez, além da possibilidade de editar múltiplos arquivos de uma só vez, acrescentando a todos dados comuns presentes em um dos livros, tais como autor, coleção etc.

Outra coisa legal no programa é poder editar o UUID [arquivos exportados pelo InDesign em alguns casos apresentam um erro de validação referente a isso que, até então, eu corrigia na unha, diretamente no OPF e no NCX].

Além dessas funções, o programa permite fazer download dos metadados do título na internet a partir de dois bancos de dados [um é o do Google] e também editar os já existentes diretamente no XML.

Por fim, o programa é bem leve e não apresentou travamentos ou “comportamentos inesperados” [como fazer bagunça nos arquivos, por exemplo].

Para conhecer outras ferramentas relativas a e-books, vale verificar a listinha do EPUB Zone neste link.

  1. Ainda assim, recomendo que, no uso de Linux, a instalação seja feita diretamente através de repositórios [se disponível na sua distro]. Dessa forma você garante que receberá as atualizações automaticamente sem precisar entrar na página e baixar o programa outra vez. Se você, como eu, usa um derivado do Archlinux, no meu caso, o Manjaro, tem no AUR. ;]
Antonio Hermida

Antonio Hermida

Por Antonio Hermida | Publicado originalmente em Colofão |  29 de abril de 2015

Antonio Hermida cursou Análise de Sistemas [UNESA], Letras – Português-Latim [UFF] e Letras – Português-Literaturas [UFF]. Começou a trabalhar com e-books em 2009, na editora Zahar e, em 2011, passou a atuar como Gerente de Produção para Livros Digitais na Simplíssimo Livros, onde também ministrava cursos [Produzindo E-Books com Software Livre] e prestava consultorias para criação de departamentos digitais em editoras e agências. Atualmente, coordena o departamento de Mídias Digitais da editora Cosac Naify e escreve mensalmente para o blog da editora. Entre outras coisas, é entusiasta de Open Source e tem Kurt Vonnegut como guru.

Questões comuns na formatação dos eBooks


Semana passada li no The Digital Reader um artigo que, por sua vez, comenta um texto publicado no Science Blog, no qual o leitor Martin Rindkvist compartilha uma experiência frustrante com leitura de e-books no app Google Play Livros. Rindkvist relata que diversos caracteres desapareceram nas versões digitais de dois de seus livros e associa essa omissão a um defeito do app do Google.

Já Nate Hoffelder, do The Digital Reader, supõe que é possível que seja um bug causado pelo conflito da linguagem do usuário com a linguagem do e-book. Eu pessoalmente apostaria em erros de fonte embutida com problemas de mapeamento, causando desaparecimento de caracteres quando a opção de fonte da editora está marcada.

Suposições à parte, acho que a maioria das pessoas que consomem livros digitais já se depararam com problemas de formatação de e-books. Apesar da necessidade de conhecimentos técnicos para identificar causa e solução, não é preciso ser nenhum especialista para percebê-los.

Com esta afirmativa em mente, pensei em expor brevemente alguns problemas muito comuns em conversões de livros digitais, os quais geralmente podem ser evitados através do processo de revisão de e-books ou no processo de diagramação dos livros impressos.

1. Hifenização

No processo de produção do livro muitas vezes colocamos hífens em palavras que coincidem com quebra de linhas. Esse hífens, que fazem total sentido na diagramação de um livro impresso, não são necessários no livro digital, uma vez que e-books têm quebra fluida de linha e/ou hifenização automática.

Se você acha esse erro irritante, deve ficar ainda mais incomodado quando, além de hifenização indevida, a hifenização que de fato é necessária não está sendo respeitada no livro. Pois é, acontece. E é irritante. Agora, por que acontece?

Isso geralmente acontece porque o sistema de conversão quer retirar os hífens desnecessários e acaba retirando os necessários. Esses erros podem ser evitados de acordo com os recursos utilizados na diagramação do livro, mas nem sempre o arquivo-base está perfeitinho do jeito que gostaríamos.

2. Espaços

Assim como a hifenização, temos erros de espaços entre palavras, tanto pela ausência quanto pela presença. A ideia é a mesma, surgem espaços onde não há necessidade, geralmente pela utilização de ligaduras ou apóstrofes.

Na eliminação de espaço entre palavras, isso ocorre porque muitas vezes estes espaços não são diagramados com uma “barra de espaço”, e esta outra formatação para o espaço não é respeitada na conversão de formatos. Ocorre às vezes desses espaços aparecerem como uma interrogação ou um quadrado no ADE antigo e no LEV.

3. Caracteres

Fontes são problemáticas, gente! São lindas e ajudam no projeto gráfico do seu livro, mas podem dar muita dor de cabeça. Os problemas geralmente são desaparecimento ou troca de caracteres e possuem a mesma origem: arquivo mal mapeado. É possível ajeitar através do FontForge, fico devendo novamente um tutorial.

4. Quebra de linha

Por fim, muitas vezes na diagramação do impresso é utilizada uma quebra de linha no meio de um parágrafo para ajeitar os espaçamentos de palavras. Esses espaçamentos são interpretados no código do e-book como tags <br /> que quebram a fluidez do texto.

Conclusão

Bom, esses erros são extremamente comuns, portanto, não se desespere se encontrá-los em seu livro. Todos eles têm solução, mais ou menos trabalhosas. Algumas já foram abordadas aqui mais minuciosamente, e outras, de maneira mais genérica. A dica que dou é: prepare bem seu arquivo antes da exportação do e-book, seja no InDesign ou no LibreOffice. E nunca elimine de sua rotina de produção uma avaliação de qualidade do produto final, pois é nela que aparecerão erros que a produção e a revisão podem ter deixado passar.

Por Lúcia Reis | Publicado originalmente em Colofão | 15 de abril de 2015

Lúcia Reis é formada em Letras: Português/Literaturas, pela Universidade Federal Fluminense, trabalha com livros digitais desde 2011 e hoje atua como Coordenadora de Livros Digitais na editora Rocco. Como todo bom leitor compulsivo, tem mais livros do que a prateleira comporta, e possui muitos mais em sua biblioteca virtual! Lê e-books todo dia no trajeto para casa, ao som de sua banda favorita, Thin Lizzy.