Taxa fixa para baixar eBooks pode ser solução para indústria dos livros


Quando o Napster entrou no ar, em 1999, como maior plataforma de troca de arquivos musicais do mundo, não demorou muito para que milhões de aficionados por música o descobrissem. Naqueles bons tempos, mais de 10 milhões chegavam a acessar simultaneamente a plataforma, baixando e partilhando música gratuitamente.

Mais de dez anos se passaram até que o setor econômico revertesse essa tendência, proporcionando alternativas legais. No entanto, de início, o poder de mercado do MP3 não foi percebido pela indústria fonográfica. Empresas que não tinham a ver com o ramo, como a Apple ou a Amazon, foram mais rápidas e dividiram o bolo entre si.

Durante muito tempo, a indústria musical subestimou a internet. Muitos diretores do setor a viam apenas como um playground musical. Os executivos das gravadoras passaram tempo demais se sentindo seguros, ninguém nos setores de chefia acreditava que os MP3s e a internet iriam revolucionar de tal forma a distribuição de música.

Quando o problema foi identificado, já era tarde demais. O medo da expansão galopante da pirataria na internet se espalhou pela indústria, que registrou quedas de faturamento milionárias. Enquanto fora relativamente fácil dar fim ao Napster, há muito se perdeu todo o controle sobre as ofertas na zona cinzenta da internet.

INDÚSTRIA DO LIVRO MAIS RÁPIDA

Enquanto isso, a comercialização de cópias eletrônicas de livros ainda estava engatinhando. o interesse público era pouco, excetuado setor de literatura especializada, onde as publicações digitais eram cada vez mais numerosas. No entanto, as editoras estavam cientes de que teriam que enfrentar o problema mais cedo ou mais tarde. Logo elas compreenderam que teriam de oferecer e-books pela internet, para não perder a conexão com o mercado. E isso, a preços acessíveis e sem grandes obstáculos técnicos.

Em meados da década de 2000, fornecedores como a líder de mercado Amazon, mas também outras plataformas especializadas em literatura, tomaram a frente. Hoje, na área de prosa, praticamente não há livro impresso que também não esteja disponível como e-book. Mesmo assim, a parcela de mercado de e-books continua mínima, só passando de 0,8% em 2011 a 2,4% no ano passado.

As razões para a falta de interesse são várias. Muitos ainda preferem segurar um livro de papel nas mãos a olhar para um monitor. Alguns observadores criticam que os preços dos livros eletrônicos ainda seriam altos demais. Além disso, muitas vezes eles são oferecidos com uma proteção contra cópias digitais, o que impede o usuário de lê-los em diferentes dispositivos.

E justamente a tentativa da Amazon de dominar o mercado, adotando um formato exclusivo e um dispositivo de leitura próprio, o e-reader Kindle, afastou muitos usuários, em vez de conquistá-los.

DAVID CONTRA GOLIAS

Não é de espantar que o mercado de e-books – mesmo se desenvolvendo lentamente – atraia outro tipo de concorrente: fornecedores ilegais tentam puxar o tapete das gigantes da internet.

Na Alemanha, o portal de download Torboox dispõe atualmente de mais de 42 mil títulos, incluindo todos os best-sellers, e, segundo informações próprias, registra mensalmente mais de 1,2 milhão de downloads.

O que alegra particularmente os usuários é que ali, ao contrário dos fornecedores legais, a proteção digital não é um problema. Assim, os livros podem ser copiados livremente e lidos em todos os e-readers, tablets e computadores comuns.

Em meados deste ano, a Torboox ameaçou se afogar no próprio sucesso. Graças à divulgação na mídia, o número de downloads aumentava sem parar. Servidores mais potentes tiveram de ser instalados, mas aí diminuiu a disposição dos usuários em fazer doações. Para contornar o dilema, o portal passou a adotar uma taxa fixa de 3 euros mensais, do tipo “all you can read”.

AMAZON CORRE ATRÁS

E em breve a gigante do setor Amazon poderá seguir o exemplo dos piratas da internet, só que por meios legais. Devido a seu enorme poder de mercado, a empresa tem como influenciar os preços, que ela deverá baixar o máximo possível, em prejuízo das editoras e autores.

Os piratas da TorBoox se veem um pouco como o lendário Robin Hood, que roubava dos ricos para dar para os pobres. Na luta contra os gigantes da internet, eles surpreenderam as editoras com a oferta de fechar o site de downloads. Em contrapartida, a Associação do Comércio Livreiro Alemão cuidaria para impor no país uma taxa fixa para e-books, evitando que Amazon e companhia dividam o mercado entre si.

EDUCAÇÃO EM VEZ DE CRIMINALIZAÇÃO

No entanto, esse acordo não foi realizado, em vez disso, a associação aposta no trabalho de esclarecimento. “Queremos alertar os usuários que tais plataformas se movem num campo ilegal. Ao mesmo tempo, pretendemos chamar a atenção deles para ofertas legais“, afirmou a porta-voz Claudia Paul. Como a plataforma Libreka.de, que oferece 270 mil títulos.

Acreditamos que grande parte dos usuários irá se comportar, então, de forma legal. Não concordamos com sanções nessa área.” Por outro lado, é preciso proceder decididamente contra as plataformas ilegais. Para tal, a Associação do Comércio Livreiro Alemão aposta nas autoridades ou em organizações antipirataria.

Mas como o setor explica o avanço galopante da pirataria, embora o mercado de e-books esteja se desenvolvendo rapidamente na Alemanha? Claudia Paul aponta primeiramente os bons negócios para os ilegais. Afinal de contas, eles ganham com a publicidade em seus sites. Além disso, “até agora, o risco de os operadores das plataformas serem identificados não é tão grande“.

A indústria editorial ainda resiste à ideia da taxa fixa, embora ela pudesse matar dois coelhos de uma só cajadada: combater com sucesso a pirataria e competir com os gigantes da internet.

Autores e editoras teriam que contar com lucros menores, mas a indústria musical e os artistas também não foram prejudicados com a venda legal de MP3s. Após uma queda bilionária na receita, o mercado musical se recuperou. Atualmente, os MP3s respondem por um quinto da receita no setor , com tendência a aumentar.

DA DEUTSCHE WELLE, 05/11/2013, às 11h25

O mercado digital alemão


alemanha-brasilEnquanto nos EUA o crescimento das vendas de e-book estagnou, na Alemanha ele continua dinâmico, e livreiros online alemães, principalmente Tolino-Allianz, querem tirar a liderança da Amazon.

Os números do mercado de e-book na Alemanha são motivo de otimismo. A participação no faturamento de 2012 referente à venda de e-books triplicou em relação ao ano anterior, passando de 0,8 para 2,4% [segundo um estudo sobre o setor realizado pela Börsenverein e publicado pelo Painel do Usuário da GfK]. Mas isso não significa que o mercado de e-books não tem seus limites. As grandes taxas de crescimento anual do livro digital nos EUA chegaram a um ponto de estagnação, pelo menos por ora. Enquanto a participação no mercado ficou em 22,6% em 2012, até a metade deste ano ela não havia ultrapassado os 25%, segundo a pesquisa da BookStats, revelou Nina von Moltke, Vice Presidente da Digital Publishing Development da Random House, à revista Zeit.

Só o tempo dirá o que isso significa para o mercado alemão. Depois de anos de crescimento, é possível que a curva do faturamento diminua e passe a oscilar em torno de um patamar. Segundo Anne Stirnweis, responsável pelo livro digital na Random House de Munique, o crescimento neste setor continua, “e não esperamos nenhuma mudança. Mas a longo prazo é natural que o crescimento diminua.” Quanto à participação do livro digital no mercado alemão, seu ponto máximo também pode ficar abaixo de 25%.

No mercado alemão de e-book o foco não está somente no aumento de receita, mas também na briga pela liderança do mercado: A E-Reader-Allianz dos atacadistas Weltbild, Hugendubel, Thalia e Club Bertelsmann, assim como a Telekom, tentam atrair o grosso do mercado alemão com a ajuda do seu leitor Tolino. Segundo a GfK, a Amazon alemã teve uma participação no mercado de e-book de 41% em 2011. Diminuir essa participação do mercado de origem americana é o principal objetivo do grupo. Os sócios da Tolino conseguiram em 2011 uma participação de mercado de 35%. As lojas de e-books do leitor digital são abastecidas pela Pubbles, uma joint-venture entre DBH e Bertelsmann, cujo portal de vendas será encerrado no fim de setembro. A partir daí, a Pubbles passará a atuar somente como distribuidora.

A plataforma Libreka! pode ter um papel importante, caso se junte ao consórcio Tolino, abastecendo as pequenas e médias livrarias que queiram vender aparelhos Tolino e livros digitais. Há negociações no momento referentes à divisão de custos para este modelo de negócio, que ainda precisam ser esclarecidas.

Por enquanto é possível apenas estimar como o público do mercado alemão de livros digitais evoluiu nestes seis primeiros meses do ano, principalmente desde o lançamento do Tolino em março. Os resultados não discriminam por varejista de e-books, mas são frequentes as notícias sobre o crescimento da participação de empresas como Thalia e Weltbild/Hugendubel: as vendas do Tolino pela Weltbild e Hugendubel, que chegam a cinco dígitos, ultrapassam as expectativas, crescendo ainda mais durante o Natal.

Veja uma seleção dos portais de livros nos países de língua alemã

Amazon.de – Loja Kindle
Catálogo: cerca de 1,8 milhão, dos quais 170.000 em língua alemã.
Formatos:  AZW, PDF, TXT [exceto EPUB],  KF8 para  livros com informações extras [em sistema protegido]
Participação no mercado em 2012 [segundo a GFK]: 41%
Leitores digitais: Kindle, Kindle Paperwhite, Kindle-Fire [Tablet] e aplicativos de leitura

Thalia.de
Catálogo: cerca de 300.000, dos quais 200.000 em língua alemã
Formatos: EPUB, PDF
Participação no mercado em 2012 [segundo a GFK]: 14%
Leitores digitais: Tolino Shine, Bookeen Cybook, Tablet PC4

Weltbild.de
Servidor: DBH
Catálogo: cerca de 500.000, sem dados sobre livros em língua alemã
Formatos: EPUB, PDF
Participação no mercado em 2012 [segundo a GFK]: 13%
Leitores digitais: Tolino Shine, Trekstor Reader 4Ink
Particularidades:
– A Pubbles, uma joint-venture entre Weltbild e Bertelsmann, abastece as lojas DBH [Weltbild, Hugendubel]
– A DBH pertence à Tolino-Allianz [juntamente com Thalia, Clube Bertelsmann e Deutsche Telekom]; 100 dias após estrear no mercado, ela anunciou vendas em valores na casa dos cinco dígitos.

Libreka !
Servidor: MVB
Catálogo: cerca de 760.000, dos quais 85.000 são títulos em língua alemã
Formatos: EPUB, PDF
Leitores digitais: Trekstor Liro Ink, Trekstor Liro Color, Trekstor Liro Mini, Trekstor Liro Tab [Tablet]
Particularidades :
– a Libreka! foi fundada como site de procura de textos e oferece e-books desde 2009.
– A Liro Shop instalada dentro do Leitor Liro é alimentada com dados da Libreka!
– Libreka! como plataforma de distribuição foca principalmente no segmento loja para loja [B2B] para editores e livreiros
– Um modelo de empréstimo está atualmente em teste; cerca de 800 títulos podem ser emprestados.

Buecher.de
Catálogo: cerca de 1,1 milhão, dos quais 400.000 em língua alemã
Formatos: EPUB, PDF
Participação no mercado em 2012 [segundo a GfK]: 5%
Leitores digitais :  Tolino Shine,
– A loja incorpora na sua página comentários de jornais como o “FAZ” [Frankfurter Allgemeine Zeitung]

Ebook.de
Servidor: Libri.de
Catálogo: cerca de 600.00, dos quais 245.000 em língua alemã
Formatos: EPUB, PDF
Participação no mercado em 2012 [segundo a GfK]: 4%
Leitores digitais: ebook.de distribui leitores de texto Sonys PRS-T2
Particularidades:
– Apesar do foco ser conteúdo digital [e-book.de], os clientes podem também pedir títulos impressos
– O acionista majoritário da empresa é o varejista Libri
– ebook.de é a sucessora de loja de varejo  libri.de [mudou de nome em outubro de 2012].

Por Conexão Alemanha-Brasil | Publicado em português por PublishNews | 05/08/2013 | Publicado orignalmente por Börsenblatt | 2/07/ 2013 | Michael Roesler-Graichen, Tamara Weise and Jens Schwarze são editores da Börsenblatt, o jornal sobre mercado editorial mais importante da Alemanha.

3º Congresso Internacional CBL do Livro Digital terá Newton Neto do Google, Ronald Schild da Libreka! e Paul Petani da Ingram Content Group como palestrantes


A 3ª edição do Congresso Internacional CBL do Livro Digital contará com a presença de Newton Neto, responsável no Google por parcerias estratégicas com o ecossistema de mídia impressa na América Latina; Ronald Schild, CEO da MVB Marketing e Serviços Editoriais [Libreka!]; e Paul Petani, diretor de Vendas Internacionais da Ingram Content Group, entre outros.

Com vasta experiência no mercado de plataformas para a distribuição do livro digital, esses profissionais irão discorrer sobre suas experiências durante o congresso, no painel “O poder das plataformas de distribuição”, a se realizar no dia 11 de maio, às 16h30.

Idealizado e realizado pela CBL desde 2010, o Congresso e a própria entidade constituem o principal fórum brasileiro para a discussão e debate das tendências do mercado editorial de conteúdo digital. A 3ª edição tem como tema central “A nova cadeia produtiva de conteúdo – do autor ao leitor”.

As inscrições para o 3º Congresso internacional CBL do Livro Digital estão abertas. O fórum acontece nos dias 10 e 11 de maio, no Centro Fecomercio de Eventos, em São Paulo. A programação completa pode ser acessada pelo link: http://www.congressodolivrodigital.com.br.

CBL Informa | 24/04/2012

Alemanha desafia Google e trabalha para montar sua própria biblioteca online


A Biblioteca Digital Alemã quer tornar milhões de livros, filmes, imagens e gravações em áudio acessíveis online. Mais de 30 mil bibliotecas, museus e arquivos deverão contribuir com seus artefatos culturais digitalizados. A ideia, em parte, é competir com o Google Livros. Mas funcionará?

ScanRobot, uma máquina capaz de digitalizar livros inteiros automaticamente

Em um dia bom, o leitor mecânico lê até 1.216 páginas por hora. Assoviando silenciosamente, devorando livro após livro. De vez em quando ele diz: “Pffft”.

Este é um robô moderno em funcionamento. Ele escaneia automaticamente todo livro colocado aberto diante dele. Uma cunha fina desce até a dobra, varre as páginas da esquerda e da direita e copia seu conteúdo. Elas são fotografadas e com um gentil sopro de ar –pffft– o robô vira a página.

E assim prossegue, dia após dia, no Centro de Digitalização da Biblioteca Estadual Bávara em Munique. Cerca de 45 mil obras já foram escaneadas –de “Nibelungenlied” em pergaminho até uma partitura original escrita à mão por Gustav Mahler.

Reconhecidamente, tesouros dos primórdios da cultura do livro costumam ser escaneados à mão. O robô cede lugar quando se vê diante de livros frágeis, que podem pesar dezenas de quilos, estar encadernados em couro ou apresentar capas de madeira.

No final, um novo portal de Internet se beneficiará da riqueza desses bancos de dados de Munique. A Biblioteca Digital Alemã [Deutsche Digitale Bibliothek, ou DDB] se transformará em um centro online para milhões de livros, revistas, fotos e filmes. Bibliotecas, museus e arquivos de todo o país deverão contribuir com artefatos culturais digitalizados.

Uma câmara de maravilhas

Mas levará tempo. A primeira versão de teste poderá estar online em 2011 –“e será apenas para um grupo restrito de usuários”, diz Ute Schwens, uma diretora da Biblioteca Nacional Alemã em Frankfurt, que está coordenando a DDB.

O ministro da Cultura da Alemanha, Bernd Neumann, da União Democrata Cristã [CDU], chama a visão a longo prazo de “um projeto do século”. Os iniciadores prometem uma câmara virtual de maravilhas, boa tanto para pessoas leigas quanto para pesquisadores à procura de fontes específicas e documentos científicos. Digite “Beethoven” e você encontrará não apenas livros sobre o compositor, mas –no final– partituras escritas à mão, amostras de música e talvez até mesmo uma versão filmada de “Fidélio”.

O gabinete federal alemão deu o sinal verde no início de dezembro. A meta é integrar a DDB com o Europeana, o portal europeu lançado em 2008 com ambições semelhantes.

Essa diligência europeia foi estimulada, principalmente, pelo Google, que já digitalizou mais de 10 milhões de livros em todo o mundo. Houve alertas contra uma corporação privada obtendo um monopólio cultural. O Europeana e a DDB prometem respeitar os direitos autorais que o Google até o momento respeita apenas relutantemente. Jean-Noël Jeanneney, um ex-presidente da Biblioteca Nacional Francesa, falou sobre um “modelo anticapitalista para combater o poder do Google”.

A digitalização também é uma forma de combater a vulnerabilidade do livro como meio. Um incêndio em 2004 na Biblioteca Anna Amalia, em Weimar, destruiu 50 mil volumes, alguns deles insubstituíveis. Cópias digitais de backup poderiam limitar essas perdas no futuro.

Enquanto os especialistas na Alemanha embarcam nos trabalhos preliminares, está aparente que o empreendimento enfrenta desafios temíveis. As metas tecnológicas por si só parecem ambiciosas. O Instituto Fraunhofer em Sankt Augustin, perto de Bonn, é responsável pela tecnologia de informática da DDB. Ele está desenvolvendo programas para reconhecer pessoas em filmes, converter discursos gravados em texto pesquisável e indexar automaticamente os documentos.

Mais audaciosa é a abrangência proposta do novo portal. Mais de 30 mil museus, arquivos e coleções científicas por toda a Alemanha supostamente estariam interligados. Os criadores da DDB ficarão satisfeitos, por ora, com uma centena de participantes, mas instituições de prestígio como o Hamburger Kunsthalle ou o Museu Städel, em Frankfurt, ainda não estão nem mesmo na lista.

Ambição em excesso, recursos em falta

Rolf Griebel, diretor geral da Biblioteca Estadual Bávara, que considera o projeto “bom e que já devia ter sido iniciado há muito tempo”, todavia alerta contra planos exagerados. “Eu tenho sérias dúvidas sobre se a DDB conseguirá dispor de conteúdo apropriado e dentro de um prazo razoável”, ele diz.

Griebel estima que o escaneamento de um livro do século 16 ou 17 custa entre 70 e 140 euros, dependendo do volume de trabalho. Títulos contemporâneos são mais baratos, mas as quantidades envolvidas são enormes. A Associação Alemã das Bibliotecas está propondo a digitalização de cerca de 5,5 milhões de volumes nos primeiros 10 anos. Isso custaria pelo menos 165 milhões de euros. Mas de onde virá o dinheiro?

Os alemães estão olhando com inveja para a França, onde o presidente Nicolas Sarkozy prometeu recentemente levantar 750 milhões de euros para pagar pela digitalização da cultura nacional da França.

O projeto alemão, por sua vez, pode ter falhas culturais óbvias por muitos anos. O usuário ficará satisfeito em se deparar com grandes descobertas ocasionais? Não seria preferível fazer menos, mas fazer direito? “Para começar, certamente faria sentido limitar isto a áreas e temas selecionados”, diz Griebel.

Mas os planejadores da DDB não aceitam isso. Toda atividade cultural, toda ciência, todo tipo de documento é válido –preferivelmente de todos os museus e bibliotecas da Alemanha. E a tecnologia de busca será mais sofisticada do que apenas a procura por termos, como oferecida pelo Google. As coleções da DDB [segundo o plano atual] serão indexadas segundo uma variedade de critérios – local, tempo, tema. Esse índice só funcionará se os objetos forem descritos em detalhes.

Neste esforço, a DDB tem se beneficiado de alguma tecnologia básica do programa Theseus, financiado pelo governo alemão. Os pesquisadores do Theseus trabalham desde 2007 em métodos para indexação de imagens, filmes, gravações de áudio e livros. Se o computador tiver um entendimento rudimentar do que está acontecendo, ele pode preencher vários campos automaticamente – algo indispensável para as vastas quantidades de documentos com que a DDB terá que lidar.

Os pesquisadores estão informando um progresso inicial no reconhecimento de elementos em filmes e fotos. “Faces ainda são difíceis, mas está se saindo bem com árvores, carros e prédios”, diz Thomas Niessen, chefe do Theseus. O computador também está tendo certo sucesso em converter palavra falada em texto pesquisável –ele até mesmo tenta separar pessoas, lugares e eventos relevantes.

Completo com passagens de trem alemãs

Enquanto isso, um debate está em andamento sobre o quadro maior. Como exatamente a DDB deveria servir tanto a leigos quanto a pesquisadores? E como um portal ideal deve se parecer?

Reinhard Altenhöner, da Biblioteca Nacional Alemã, acha que os usuários poderiam poder postar suas próprias contribuições. “Se um arquivo municipal fornece material sobre a história de uma rua”, ele diz, “os moradores poderiam enriquecê-la com suas próprias histórias e fotos”.

Os museus poderiam inserir links em resultados de busca para exposições atuais relevantes. Uma pequena demonstração na tela ilustra como isso poderia funcionar. “E aqui”, diz Altenhöner, clicando em outro link, “aqui você até mesmo poderia comprar uma passagem para o Deutsche Bahn”.

Esses extras sutis não podem ser encontrados no Google. A empresa de ferramenta de busca prefere projetos que possam ser explicados em uma única sentença. No caso da digitalização, a meta é simples: todo livro do mundo em uma apresentação fácil para o usuário. Além disso, a melhor tecnologia de indexação é de pouca utilidade.

As consequências de ignorar este axioma são ilustradas pelo site Europeana. Após uma longa estagnação, a coleção deverá crescer para 10 milhões de artefatos culturais até meados de 2010. “Isso nos torna líderes globais”, diz Stefan Gradmann, um cientista da informação de Berlim e um membro do comitê executivo do Europeana.

Alguns itens já estão acessíveis pelo site, em caráter de teste, utilizando busca inteligente. Digite, digamos, “Paris” e o Europeana também retorna Montmartre e o Jardin des Tuileries; aparecem fontes relacionadas a Paris, o príncipe da mitologia grega. A ferramenta de busca também está familiarizada com seu feito fatídico, o “rapto de Helena”. Ele encontra documentos, em outras palavras, que não contêm o termo da busca. Mas navegar pelo Europeana não é muito agradável. Os resultados são exibidos em miniaturas do tamanho de selos postais. Se você clicar para ver uma imagem maior, você é levado ao instituto correspondente. Logo você se vê vagando impotente por dezenas de sites diferentes de museus e bibliotecas –e acaba perdido em algum ponto entre a “Vlaamse Kunstcollectie” e a “Wielkopolska Biblioteka Cyfrowa”.

Não seria preferível incorporar todas as exposições dentro da estrutura familiar do Europeana? “Nós preferiríamos isso”, diz Gradmann. “Mas então os museus não participariam.” Eles insistem em apresentar seus próprios tesouros.

Bibliotecas digitais, ao estilo babilônico

Se a DDB ceder à vaidade dos institutos participantes, o resultado será uma estrutura babilônica com 30 mil anexos. Alguém teria paciência para navegar por um índice consistindo de 30 mil sites idiossincráticos?

A promessa de observar rigidamente os direitos autorais também traz problemas. As únicas obras que a DDB pode escanear livremente são aquelas de autores que morreram há pelo menos 70 anos. Para documentos mais novos cujos autores não podem ser contatados, um acordo será acertado com as coletividades relevantes de direitos autorais.

Schwens, a coordenadora da DDB, também deseja incorporar material contemporâneo. “Seria uma vergonha”, ela diz, “se conhecimento científico atual não puder ser encontrado via a DDB”. As negociações com os editores também já estão em andamento. De modo ideal, diz Schwens, haveria uma “loja única” onde o usuário poderia comprar ou alugar eletronicamente a obra que o interessa.

A loja online Libreka, operada pela Associação Alemã das Livrarias, estaria disponível para venda de livros. Mas a Libreka tem uma reputação duvidosa: muitos de seus livros eletrônicos apresentam intricada proteção contra cópia. Os editores querem dessa forma. E muitos de seus livros best sellers tendem a não aparecer, por medo da pirataria digital.

O projeto alemão de digitalização é ameaçado de dois lados: não há dinheiro suficiente para o escaneamento de obras mais antigas, enquanto o acesso a novas obras – que podem já existir em formato digital– provavelmente será bloqueado por editores ansiosos.

Logo, não seria melhor deixar o Google assumir a coisa toda? Até meados de 2010, a empresa americana deseja começar a vender livros eletrônicos. Meio milhão de títulos já foi destinado para o projeto “Edições Google”, com 63% de cada venda destinada à editora e o Google ficando com o restante.

A experiência da Biblioteca Estadual Bávara com o Google tem sido boa até o momento. Desde 2007, o Google tem digitalizado livros sem direitos autorais e que estão sob custódia cultural de Munique –cerca de um milhão de volumes até o momento. Em duras negociações, a biblioteca assegurou o direito de ter sua própria cópia de cada livro, para apresentar da forma como bem desejar. O acesso livre a esses tesouros está, portanto, garantido.

E o escaneamento prossegue como um relógio. Toda semana cerca de 5 mil volumes deixam as salas da biblioteca estadual. Um caminhão os leva até um endereço secreto na Baviera, onde os scanners do Google trabalham sem parar. Neste ritmo, tudo estará concluído em apenas quatro anos.

UOL Notícias | Por Manfred Dworschak e George El Khouri Andolfato | 22/02/2010 – 00h01