Converter livro em eBook cria novo mercado


Uma tradução bem feita não garante, por si só, o sucesso de um livro estrangeiro, mas é um elemento fundamental para que isso aconteça. As editoras sabem dessa importância e dedicam-se com afinco à escolha de bons tradutores. Agora, porém, com a disseminação do livro digital, as editoras estão tendo de lidar com um novo tipo de tradução: a tecnológica. Verter os textos para os formatos dos livros eletrônicos – que podem ser lidos em computadores, tablets, celulares ou dispositivos específicos para leitura digital – é um processo meticuloso e que requer habilidades específicas. O resultado é que essa demanda deu origem a um mercado nascente no Brasil: o de empresas de tecnologia especializadas em transformar livros em e-books.

A Simplíssimo, com sede em Porto Alegre, e a Kolekto, de São Paulo, são exemplos dessa tendência. Para dar conta da tarefa, parte do trabalho é feita com softwares de conversão, que automatizam o processo. A segunda etapa, mais complexa, requer o trabalho de um programador de sistemas. Esse profissional altera o código principal do programa de acordo com as características do livro. Se a obra é repleta de gráficos ou ilustrações, por exemplo, mais ajustes ele terá de fazer.

À medida que cresce o interesse das editoras pela publicação de livros em formato digital, mais óbvias ficam as oportunidade de negócio na área. Criada em 2010, a Simplíssimo tem cerca de 50 editoras em sua carteira de clientes. O faturamento está por volta de R$ 500 mil por ano. “Nossa meta é conseguir atender mais editoras e ampliar a receita“, disse Eduardo Melo, fundador e diretor executivo da companhia. Desde sua fundação, a Simplíssimo transformou aproximadamente 1,1 mil livros em e-books.

A Kolekto, criada pelos sócios Alexandre Monti, Reginaldo Silva, Ayala Júnior e Carlos Vicente, iniciou as operações em maio. A companhia tem um plano de investimento de R$ 7,5 milhões, baseado integralmente em recursos próprios. A maior parte do investimento será dedicada à infraestrutura tecnológica, mas a empresa já usou uma parcela desse dinheiro para comprar a CodeClick, empresa especializada em aplicativos, como são chamados os softwares com finalidades específicas para tablets e smartphones.

De acordo com Carlos Vicente, diretor de marketing da Kolekto, a aquisição segue a estratégia da companhia de converter livros tanto em e-books como em aplicativos. “Alguns livros não se enquadram nos formatos digitais próprios para e-books porque demandam outro tipo de interatividade, como animações, vídeos e outros recursos“, diz Vicente. “É justamente nesses casos que o aplicativo é mais indicado”.

Por enquanto, ainda são poucas as companhias de tecnologia brasileiras especializadas na produção de e-books. Mas a expectativa é que isso mude rapidamente, com o desenvolvimento do mercado de livros digitais no país. “Há muitas companhias no exterior dedicadas à conversão de livros para formatos digitais ou aplicativos. Tenho certeza que grande parte delas vai se interessar por oferecer seus serviços no Brasil“, afirmou Bill McCoy, diretor executivo da organização internacional de publicações digitais, a IDPF.

Fundada no fim dos anos 90, quando ainda não se ouvia falar sobre livros digitais, a IPDF foi responsável pela criação do padrão tecnológico que hoje predomina no mercado de e-books. Batizado de Epub, o formato não tem proprietário, e é baseado em HTML5 – padrão apoiado pela Apple e seguido atualmente por diversas companhias e criadores de conteúdo.

Mas o Epub não está sozinho. Existem diversos outros formatos digitais para e-books, além dos aplicativos. A escolha desses padrões digitais pelas editoras é um aspecto que divide opiniões.

Esse, aliás, é um problema enfrentado há algum tempo pelos criadores de aplicativos. Para oferecer seu produto em uma das grandes lojas virtuais de “apps”, como esses programas são conhecidos, o programador precisa escrevê-lo com base no sistema operacional adotado pelo dono da loja, como a Apple ou o Google.

Entre os executivos da área editorial ouvidos pelo Valor, a principal preocupação é que transformar um livro em um aplicativo destinado a um único sistema operacional torne a editora refém desse canal de distribuição. Padrões abertos, como o Epub – que é aceito por um número maior de softwares e dispositivos – são uma saída, mas podem deixar a obra fora de lojas de aplicativos de grande movimento, que exigem programas próprios. Outra possibilidade é fazer como muitos criadores de aplicativos e criar versões diferentes do mesmo produto, um para cada sistema. De qualquer forma, há trabalho e custo adicionais envolvidos. As editoras já devem sentir saudades do tempo em que só tinham de se preocupar em traduzir livros para o português.

Por Bruna Cortez | Valor Econômico | 06/07/2012 | © 2000 – 2012. Todos os direitos reservados ao Valor Econômico S.A.