Quanto vale o livro por assinatura — para editoras, autores e leitores


Por Julio Silveira | Publicado originalmente em PublishNews | 27/03/2014

“Leva esse Felinni também. Ó, os quatro por dez reais”. Eu já tinha um Almodóvar e dois John Hughes na mão. Com o Felinni, cada DVD sairia por meros R$ 2,50. Mas, pensando bem… para quê? Era o último dia da locadora do bairro. E era a última locadora no bairro. Estava vendendo tudo, o acervo, os móveis, as prateleiras. O dono explicava a mais um cliente desconsolado. “É. Não dá mais. As pessoas não alugam mais. Agora elas ligam a tevê e botam o que querem ver. Now. Netflix. Vai ser assim agora”. O cliente comentou que, com a internet, nem comprava mais CDs. Aproveitei: “E livro hein? Será que vai ser assim também?” O dono deu de ombros. “É, daqui a pouco vai ser assim também com os livros”. Outra cliente concordou com um muxoxo. “É, até com os livros”.

O que pressentem os clientes na locadora é o que se sabe no Vale do Silício. Os livros, ou melhor, a literatura digital, caminham para um sistema de assinaturas. Os e-books tentaram se comportar como os livros tal qual conhecemos: mercadorias. Porém o lado “e” foi mais forte que o lado “book”, e ele acabou por seguir sua natureza, a internet, repudiando restrições de quantidade, acesso e [quase] de custo. O digital já permitiu que a música e o audiovisual passassem da fase sólida para a gasosa, isto é, os bens culturais deixaram de ser mercadorias que o cliente busca e leva para casa, e tornaram-se um serviço em permanente disposição, onde e quando e o quê o cliente desejar. No audio temos o Spotify. No visual temos a Netflix.

Nos últimos meses, pipocaram os candidatos a “Netflix” dos livros, lá fora e no Brasil. Uma boa arrancada, mas sem direção clara. O que representa o sistema de assinatura de livros — onde o cliente lê o quê e o quanto quiser por uma tarifa mensal — para leitores, editores e autores? Como isso “funciona” financeiramente — se é que funciona?

Os modelos de negócio ainda estão calcados nos livros-mercadoria e equiparam a web às livrarias e bibliotecas físicas. As “distribuidoras” dizem a editores que cada “leitura” equivalerá à receita da venda de um ebook. Alguns editores exigem que, enquanto um livro estiver “emprestado” a um assinante, não poderá ser lido por mais ninguém. Escritores querem seus “direitos autorais” contabilizados como um percentual de cada livro “emprestado”. Todos preferem ignorar que um texto digital não é um objeto estocável, e sim um arranjo eletrônico provisório infinitamente replicável. Dão respostas de ontem para perguntas de amanhã.

A pioneira Kindle Owners Lending Library [KOLL], da Amazon, segue a metáfora da biblioteca. O assinante só pode pegar um livro por vez. Quer ler outro? Devolva o primeiro. Por U$ 72 anuais, é como se o leitor comprasse 12 ebooks por U$ 6 cada [um desconto de 40% sobre o preço médio]. Cada livro “emprestado” rende ao editor como se ele tivesse sido vendido, mas somente aqueles que concordam com a exclusividade conseguem boas margens na Amazon. O autor, é de se supor, recebe seus royalties integrais a cada livro baixado.

Já com a Oyster — a mais parruda das candidatas a “Netflix dos Livros” — é para valer. Leia quantos livros você quiser ou conseguir, pagando uns U$ 10 por mês. Do lado das editoras, a Oyster promete pagar integralmente por aqueles títulos efetivamente lidos [mas não os folheados], como se tivessem sido vendidos. Em termos de plano de negócio, o modelo é o da churrascaria rodízio. Alguns clientes vão comer, literalmente, todo o lucro do processo, mas a média [dentro de uma grande amostragem] vai consumir menos do que custou a comida, gerando lucro. E, se o cardápio não varia, os custos são constantes e menores, por economia de escala. É só uma questão de manter as mesas cheias. O negócio atingirá o nirvana econômico quando contar com uma base extensa de assinantes gerando um fluxo constante de receita superior aos repasses às editoras: uma mais valia sobre o leitor pouco frequente no meio do big data. Em outras palavras: o restaurante cheio de gente que se entope com farofa antes de chegar a carne.

Voltando à Amazon e sua KOLL, há uma outra receita para editores, que dificilmente pode ser convertida em royalties para os autores — simplesmente porque é impossível atribuir a um título. As editoras que toparem exclusividade com o Kindle dividem um “Fundo Global”. Para calcular sua fatia nesse bolo — que para Março de 2014 é de R$ 2,8 milhões — divide-se a quantidade de empréstimos do catálogo da editora pelo total de empréstimos geral. Essa receita não se confunde com a receita pelo empréstimos de ebooks, que também é paga, e serve de base para o cálculo dos royalties de autores. No Brasil, a pioneira Nuvem de Livros opera de forma semelhante: as editoras recebem diretamente por cada livro “lido”, e também indiretamente, com uma participação da receita geral, calculada pela quantidade de livros em relação ao catálogo total. Nos dois casos, o recurso do bônus é uma forma de estimular editoras a embarcarem em uma modalidade radicalmente nova de comercialização. Dá para imaginar que, com o amadurecimento do mercado, esse chamariz perca atratividade.

Ainda assim, os editores estão hesitantes em entrar no Oyster, e elegeram para bois-de-piranha seus backlists, os títulos mais antigos que já não rendem muito. Algo parecido ocorre com a Netflix, com o catálogo baseado em filmes que já esgotaram a carreira no cinema e tevê. Mas a Netflix deu tão certo que já está produzindo seu conteúdo, e com sucesso. Quem sabe a Oyster, quando tiver uma base de milhões de assinantes, não terá porte para bancar livros “exclusivos” de grande apelo?

E se o sistema efetivamente vingar, o que isso representará para a indústria do livro?

No cenário do círculo vicioso, os livros serão banalizados. Aquela edição comentada traduzida do russo em quatro volumes “custa” [e “vale”] tanto quanto os sonetos do meu tio poetastro. Sem a percepção de valor inerente aos livros impressos, a literatura digital perde de vez a disputa com outras formas de entretenimento digital. Os editores venderão o estoque, a “3 por 10 real”.

Na melhor das hipóteses, temos o círculo virtuoso. O acesso instantâneo e fácil, livre das restrições de custo, vai estimular a descoberta e a formação de público leitor. Uma base maior de assinantes vai gerar um fluxo constante para editoras que, com a receita básica garantida e a extinção dos custos de impressão e frete, vão poder remunerar melhor os autores. Em pé de igualdade com outros bens de consumo digitais, música e audiovisual, os livros ganham novos públicos.

O argumento para esse cenário mais promissor é que a maior parte das vendas de livros trade, como os romances, se dá por impulso. O sujeito zanza pela loja e vai com a cara do livro no balcão. O que vai determinar a venda, na livraria, é o número que aparece ao escanear o código de barras. É o preço que define se ele levará o livro ou não, o exemplo clássico de demanda elástica. Pois imagine que não há mais essa barreira. No sistema de assinatura de livros, não custa nada folhear um livro, ele parece sair “de graça”. Rompe-se o elástico. O bovarismo é regra. Se tudo der certo, teremos mais gente descobrindo livros, maior público leitor, maior receita.

Seja qual for o futuro do livro e de seu indústria, assistir de camarote às destruições criativas que levam o mercado adiante não é uma opção. É a energia, cupidez e insensatez das startups tecnológicas que abrem novos caminhos, justamente porque são eles que não sabem o que é impossível. Infelizmente, os desafios comerciais são por vezes maiores que os desafios tecnológicos, posto que os mercados têm códigos mais complexos, como a cultura e o hábito. Eis o dilema do inovador: ser o melhor a atender ao mercado em suas demandas atuais, ou ser o primeiro a atender suas demandas futuras.

Ou continuar a ser a melhor locadora do bairro.

Por Julio Silveira | Publicado originalmente em PublishNews | 27/03/2014

Julio Silveira é editor, formado em Administração, com extensão em Economia da Cultura. Foi cofundador da Casa da Palavra em 1996, gerente editorial da Agir/Nova Fronteira e publisher da Thomas Nelson. Desde julho de 2011, vem se dedicando à Ímã Editorial, explorando novos modelos de publicação propiciados pelo digital. Tem textos publicados em, entre outros, 10 livros que abalaram meu mundo e Paixão pelos livros[Casa da Palavra], O futuro do livro [Olhares, 2007] e LivroLivre [Ímã]. Coordena o fórum Autor 2.0, onde escritores e editores investigam as oportunidades e os riscos da publicação pós-digital.

A coluna LivroLivre aborda o impacto das novas tecnologias na indústria editorial e as novas formas de relacionamento entre seus componentes — autores, agentes, editores, livrarias e leitores. Ela é publicada quinzenalmente às quintas-feiras.

Sony joga a toalha


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 13/02/2014

Sony jogou a toalha no negócio de e-book e entregou seus clientes para a Kobo. Isso iniciou muitas especulações de que a Nook vai fazer o mesmo. Se a B&N fosse realmente forçada a escolher entre os investimentos que precisam ser feitos em suas lojas e os investimentos exigidos para competir na entrega digital, seria difícil que não preferissem salvar as lojas. A ideia de que outro varejista, talvez o Walmart, comprasse toda a empresa parece bastante lógica, mas não dá para descartar que existe uma ligação sentimental do principal dono da B&N, Len Riggio, com as lojas.

Apesar das esperanças e expectativas de empresas iniciantes como a Zola Books [que fez uma aquisição recente, tirando a Bookish das mãos das três editoras que a abriram], o Blio da Baker & Taylor, o Copia ou o projeto txtr, que antes se baseava em telefone, parece que estamos vendo o começo da consolidação do negócio do e-book. A verticalização pode funcionar, como parece acontecer com Allromanceebooks, mas só ser “administrado de forma independente” não foi suficiente para a Books on Board, uma empresa que terminou no ano passado, depois de muito tempo funcionando. [Até o momento, a Diesel, uma independente comparável, está se aguentando.]

A Sony é uma grande empresa com um negócio de e-books muito pequeno. Eles também foram realmente “os primeiros” na era moderna dos aparelhos de e-book. O Sony Reader e-ink é mais parecido com o Kindle e o Nook do que qualquer outra coisa que apareceu antes. Mas se o e-book já se encaixou em algum momento como objetivo maior para a Sony, não é claro qual foi.

A Apple abriu sua e-book store porque acharam que tinham um aparelho perfeito para o consumo de livros [o iPad], mas também tinham experiência com venda de conteúdo [iTunes]. Eles também veem potencial para iPads nos mercado escolar e universitário, então desenvolveram tecnologia para permitir que livros mais complexos – o tipo que ainda não conseguiu ter sucesso comercial – fossem desenvolvidos para a plataforma deles. Estabelecer seus aparelhos e o ecossistema do iOS no mercado educacional seria uma grande vitória.

O Google reconheceu há uma década que livros, sendo repositórios de informação que continham a melhor resposta para muitas buscas, eram um mundo no qual eles queriam estar. Com sua crescente posição em aparelhos – o celular Nexus 7 e os computadores Chromebook — e como os desenvolvedores do Android que compete com o iOS no mercado de apps, há muitas formas através das quais estar no negócio de e-books complementa outros esforços, incluindo talvez, concorrer com a Apple e o iOS nas escolas.

Eu já afirmei [entre outras coisas] que a venda de e-books não funcionaria como uma operação exclusiva; precisa ser um complemento a outros objetivos e atividades para fazer sentido comercial. A Sony descobriu que não servia para ela, quase certamente porque não acrescenta valor a nenhum dos seus outros negócios.

Claro, e-books certamente complementam o negócio central da Barnes & Noble. Você tem uma deficiência bastante óbvia se dirige uma livraria e não vende e-books, então todo mundo faz isso de uma forma ou outra. Entre os erros que a Borders é acusada de ter cometido antes de desaparecerem foi entregar seu negócio de e-books para a Kobo. Dúvidas sobre o futuro da Waterstones no Reino Unido incluem se foi inteligente entregar seu negócio de e-books para a Amazon. Se a Barnes & Noble não tivesse o Nook, eles teriam que fazer um acordo com quem tivesse o Nook ou com algum outro.

Tenho certeza que a Apple, a Kobo ou a Google ficariam encantadas em ter seus livros integrados nas ofertas da Barnes & Noble, e provavelmente a Amazon também, apesar de que o mais provável é que eles nunca seriam convidados. Todos eles mostraram interesse em se afiliar a lojas independentes, com o Google começando e desistindo, a Kobo agora tentando fechar algo, e, até a Amazon, que não conseguiu penetrar bem nas independentes com seus livros próprios agora oferece a elas um programa de filiação para vender e-books Kindle chamado Amazon Source. Mas certamente todos eles aproveitariam a chance de expandir sua distribuição aos clientes da Barnes & Noble.

É provável que a B&N acredite que o negócio do Nook só pode ser realmente bem-sucedido se continuarem investindo em aparelhos melhores e criarem uma presença global. Isso pode ser verdade, mas também poderia ser que a Nook seja útil para seu negócio de livrarias sem acrescentar continuamente aparelhos ou criar uma presença fora dos EUA onde não existem lojas da B&N. Cada vez mais pessoas estão se sentindo confortáveis lendo em aparelhos multi-funcionais através de apps. Talvez a B&N pudesse manter um negócio lucrativo com sua audiência usuária de Nook enfatizando mais as sinergias com as lojas [unindo impressos e e-books, como a Amazon faz com sua iniciativa Matchbook e como já foi tentado em escala menor por algumas editoras, seria uma forma] e não se preocupar tanto com tornar o Nook competitivo com as outras livrarias de e-books como um negócio independente.

O imprevisível aqui é se alguma empresa grande – sendo o Walmart uma das mais mencionadas — visse benefícios em participar do negócio de e-books [ou até todo o negócio de livros] em seu portfólio. Isso acontece no Reino Unido, onde uma rede de supermercados, a Sainsbury’s, comprou a maioria das ações da Anobii [uma startup iniciada por editoras inglesas, análoga à Bookish nos EUA] e a Tesco comprou a Mobcastporque o negócio do livro aparentemente combinava bem com suas ofertas e a base de seus clientes. [Tanto a Sainsbury’s quanto a Tesco fizeram declarações sobre fortalecer seu “entretenimento digital” e as propostas de varejo online. A Tesco está investindo em aparelhos também.] A Kobo tem como pilar de sua estratégia encontrar parceiros em livrarias físicas ao redor do mundo.

Em base global, fora do mundo da língua inglesa, o negócio do e-books ainda está na infância. Mas é difícil ver como qualquer empresa sem uma presença em inglês poderia desenvolver a escala para competir com aqueles que têm. Toda nação e linguagem terá livrarias locais que seriam as “primeiras” para os leitores daquela localidade. Algumas poderiam até ter a ambição de também dominar o negócio local de e-books, especialmente quando fica cada vez mais claro que os e-books canibalizam o espaço em prateleira das livrarias. Mas o custo de tempo e dinheiro, combinado com a vantagem competitiva de ter livros em língua inglesa em oferta não importa qual idioma seu mercado alvo lê, vai fazer com que uma estratégia “crie tudo sozinho” seja muito pouco atraente. Então pareceria que a Amazon, Apple, Google e Kobo estão posicionadas para crescer organicamente e fazer parcerias em todos os lugares. E isso vai exigir algum evento sério, como o Walmart comprando a Barnes & Noble, para quebrar o poder que este quarteto tem sobre o mercado global de e-books na próxima década.

Um acontecimento potencialmente perturbador que este artigo ignora é a possibilidade de que os e-books se tornem um negócio de assinaturas na próxima década. Tenho dois pensamentos abrangentes sobre isso.

Um é que o hábito de compra de livro a livro está bastante arraigado e não será mudado drasticamente com os e-books nos próximos dez anos. Não tenho ideia de qual porcentagem do mercado de e-books agora funciona por meio de assinaturas, mas acho que é seguro dizer que “bem menos do que 1%”. Então meu instinto é que seria necessário um sucesso incrível para chegar aos 10% nos próximos dez anos.

A outra coisa que devemos lembrar é que qualquer livraria de e-books sempre pode desenvolver uma oferta de assinaturas. A Amazon realmente começou isso com o Kindle Owners Lending Library. Você pode ter certeza que se Oyster ou 24Symbols começarem a juntar uma quantidade importante de mercado, todos os Quatro Grandes, que vimos aqui, encontrarão uma forma de competir por este segmento. [É bastante mais difícil acontecer o contrário; é muito menos provável que a Oyster ou a 24Symbols abram lojas normais.]

Então se a assinatura crescer ou não, as gigantes de vendas de e-books vão continuar as mesmas.

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 13/02/2014

Mike Shatzkin

Mike Shatzkin

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].

Amazon ainda não representa ameaça para os principais títulos das grandes editoras


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 01/11/2012 | Tradução: Marcelo Barbão

Mike Shatzkin

Quando Larry Kirshbaum, o chefe da Time Warner Publishing [comprada pela Hachette logo depois que ele saiu em 2007 e que agora se chama Hachette Book Group USA] se uniu à Amazon, muitas pessoas pensaram – eu entre elas – que a Amazon estava a ponto de se tornar uma ameaça às grandes editoras, podendo roubar seus principais títulos e, ao fazer isso, colocar pressão sobre as livrarias concorrentes que, ou teriam que comprar da Amazon, ou ficariam sem os principais livros.

Um artigo da semana passada no The Wall Street Journal mostra como têm sido fúteis os esforços da Amazon até agora para derrubar a Seis Grandes. As duas maiores aquisições – um biografia da celebridade Penny Marshall e o último livro do escritor de best-sellers de não-ficção Tim Ferriss – estão com vendas baixas fora da própria Amazon, de acordo com as medições da BookScan.

Michael Cader fez mais algumas pesquisas para sugerir que não é nos livros de alto perfil que encontraremos os sucessos da Amazon. Eles estão publicando muita ficção de gênero e comprando alguns catálogos.

Mas não consigo acreditar que esta pequena produção tenha a ver com as expectativas originais da Amazon ou de Kirshbaum. Se eles calcularam errado o impacto que poderiam ter, talvez tenha sido pela mesma razão que eu. Houve uma abrupta queda na mudança para e-books mais ou menos no mesmo momento em que começou a era Kirshbaum na Amazon. As grandes editoras estão informando que as vendas de e-books agora estão se aproximado aos 30% da receita, o que significa um aumento de 50% em relação ao ano passado. Isso depois de vários anos nos quais o e-book aumentava cerca de 100% ou mais.

[É importante notar que os números informados são uma porcentagem de toda a receita. Muitos títulos não são “e-bookáveis”: são os livros ilustrados ou livros para crianças pequenas que, mesmo se tiverem um equivalente a e-book, não vendem nem perto daquela porcentagem. Então as vendas digitais de leitura imersiva seriam uma porcentagem um pouco maior do que isso.]

A Amazon é uma editora que possui vantagens e desvantagens em relação aos concorrentes mais tradicionais. Possuem as vantagens do contato direto com o consumidor, que é bom de duas formas. Eles podem mandar um email divulgando um livro como a próxima escolha lógica dependendo do que você acabou de ler; editoras em geral não conseguem fazer isso. E, como editora, eles possuem mais margem tanto para pagar mais ao autor quanto cobrar menos do cliente o que, de todas as formas, aumenta a receita do autor através dos canais online.

Mas as desvantagens também são importantes. Para a maioria dos livros, e especialmente para os de não-ficção [como são os lançamentos que o Wall Street Journal cita], mais da metade das vendas ainda vem de livrarias de tijolos. Apesar da tentativa de assegurar a exposição através de um contrato de licenciamento com a Houghton Harcourt, a resistência à Amazon por parte da Barnes & Noble e de muitas livrarias independentes e dos comércios de massa tem reduzido esta distribuição.

Aparentemente, a Amazon levou algumas pessoas a acreditar, com o sucesso no recente livro de Barry Eisler, que podiam vender mais cópias através de seus próprios canais do que as grandes editoras através de toda a rede. A afirmação de que eles tinham vendido mais que todos os best-sellers anteriores do NY Times foi feita a agentes literários em uma carta que também citava outros grandes sucessos, todos com ficção de gênero. Sem questionar os números de ninguém, eu estava cético sobre o significado das vendas relativas de Eisler porque, me parecia, o que eles puderam fazer por Eisler [que eles publicaram], não poderiam fazer por qualquer outro livro que quisessem, seja publicado por eles ou não. Então, parece ilógico para mim que eles, de alguma forma, conseguiriam vender magicamente mais do que todo o mercado combinado de um livro só porque tinha sido publicado pela Amazon. Parece aparente que a Amazon não está conseguindo persuadir agentes de que o caso Eisler, mesmo como foi mostrado, é replicável.

Vi relatórios com comentários amargos de Tim Ferriss, reclamando sobre o boicote aparentemente eficiente da Barnes & Noble do programa de publicação do concorrente. Talvez ele reclamasse mesmo se a Amazon conseguisse vender mais do que sua antiga editora convencional. Mas eu duvido.

Esta não é uma resposta final. A parte da Amazon no mercado – e-books e impressos vendidos online combinados – ainda está crescendo e não mostra sinais de diminuição. A maioria das editoras ainda informa que a Amazon é a conta que mais cresce.

Mas a erosão no espaço nas prateleiras – uma métrica sem nenhum índice confiável em lugar nenhum – parece ter diminuído. Isso significa que, no momento, temos um mercado editorial mais estável do que tivemos nos últimos cinco anos. É menor, mas é mais estável. Nos EUA, pelo menos, nosso mercado dos três grandes players de e-book [Amazon, B&N, Apple] e upstarts robustas e persistentes [Kobo e Google] ainda está recebendo estreantes, Zola eBooks, prometendo algumas interessantes inovações em merchandising, e Bookish – o esforço repetidamente adiado de três grandes editoras – são esperadas para se unirem à briga em breve. Sony, Copia e Blio ainda estão tentando ganhar impulso, mas também estão aí.

A Amazon definitivamente possui mais vantagens. O ecossistema Kindle ainda é o que melhor funciona, possui mais títulos e se beneficia, de muitas formas, de ter mais leitores e vender mais e-books [e livros, também] do que qualquer outro. O crescimento no número de títulos de gêneros que Cader aponta aumenta a fatia de mercado deles de leitores de gênero, que leem outras coisas também. Eles possuem a maioria dos títulos autopublicados e o melhor ecossistema para que autores autopublicados ganhem dinheiro. E o crescimento de grandes títulos permite que criem capacidades de assinatura como KOLL [Kindle Owners Lending Library] que tiram os clientes de todos os outros players.

Com sua fatia de mercado crescendo – enquanto ela continua a crescer – o argumento deles para convencer os autores vai ficando mais forte.

Mas, por enquanto, parece que a B&N realmente fez a coisa certo ao boicotar os títulos da Amazon. E, por enquanto, parece que a maioria dos autores que a Amazon vai conseguir para sua lista geral será aqueles que estão chateados com a estrutura editorial, como Konrath e Eisler, ou curiosos sobre como trabalhar com uma editora orientada à tecnologia como Ferriss.

Autores que querem exposição em livraria ou maximizar suas vendas totais por todo o universo de venda de livros continuarão difíceis de serem convencidos, por um bom tempo ainda. Mas provavelmente cada vez menos a cada dia que passa.

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 01/11/2012 | Tradução: Marcelo Barbão

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].

Receita maior, lucro menor, e Amazon destaca self-publishing


Vinte dos cem livros mais vendidos para Kindle foram autopublicados em programa da gigante virtual

A Amazon anunciou ontem, 26/7, seus resultados para o segundo trimestre de 2012. A gigante de Seattle registrou forte crescimento de sua receita, mas seu lucro foi baixo. A receita da empresa alcançou 12,83 bilhões de dólares no período, uma alta de 29 por cento em relação ao mesmo período do ano passado. Já o lucro líquido no trimestre foi de 7 milhões de dólares, ou 0,01 dólar por ação, enquanto que no segundo trimestre de 2011 o lucro foi de 191 milhões de dólares, ou 0,41 dólar por ação.

Entre os destaques do anúncio dos resultados, que pode ser acessado em inglês, está o sucesso do Kindle Fire que, segundoa Amazon, é o produto mais vendidos da empresa entre todos os milhões de itens de seu catálogo Outro destaque é o projeto Kindle Owners’ Lending Library – que permite a proprietários de Kindle com conta Prime emprestarem e-books gratuitamente – tem agora um catálogo de mais de 170 mil títulos. A empresa ainda ressaltou que durante o segundo trimestre do ano, 20 dos 100 e-books mais vendidos para o Kindle eram de autoria de participantes do programa de autopublicação Kindle Direct Publishing.

Por Carlo Carrenho | PublishNews | 27/07/2012