Por editora, conta própria ou com a ajuda dos amigos: está fácil publicar um livro


Há cada vez mais opções para quem não faz questão de publicar um livro por uma editora tradicional

Conhecer o processo editorial deu serenidade para Vanessa C. Rodrigues, 31 anos, esperar. Foram 10 anos entre o início da escrita de Anunciação e seu lançamento agora.

No meio do caminho, surgiram algumas alternativas, como inscrever o original em prêmios como o do Sesc, porta de entrada para muitos autores estreantes. Mas o livro não tinha páginas suficientes para ser considerado um romance, conforme apresentado nos editais. Podia ter mexido nele, mas não. Com sua novela debaixo do braço, ela foi pesquisar quem estava aberto a novos autores. O livro acabou na Rocco e, embora não tenha sido contratado, aquela primeira leitura deu segurança para que ela continuasse tentando. E só encontrou portas fechadas. “Eu pensei em fazer autopublicação, mas era importante ter um selo, alguém apostando no livro. Se não tivesse dado certo agora, eu teria tentado mais, embora eu não seja conhecida”, conta.

Por um lugar ao sol. Biblioteca Nacional guarda todos os livros registrados

Por um lugar ao sol. Biblioteca Nacional guarda todos os livros registrados

Vanessa ainda não é conhecida; ela trabalha nos bastidores, como revisora e preparadora de livro, e seu nome aparece discreto na folha de rosto dessas obras. Mas ela tem um amigo escritor, André de Leones, que acreditava na novela, e ele tem uma agente literária, Marianna Teixeira. Ele pediu para a agente dar uma lida no Anunciação e ela gostou da obra. Por coincidência, a editora Oito e Meio estava atrás de uma nova autora e foi consultar Marianna. Pronto, Vanessa tinha uma editora. Ela não se viu diante de um contrato tradicional, mas tampouco teve de bancar parte da edição, como ocorreu [e isso é comum], com o Noturno e Cinza, volume de poemas de 2014. Mas se a primeira tiragem [de 80 exemplares] não se esgotasse num determinado período, ela teria de comprar os volumes. Deu tudo certo, a tiragem foi vendida e os novos pedidos – por ora, pelo site da editora – serão impressos sob demanda.

O pacote completo – edição, impressão, distribuição, divulgação – é geralmente oferecido pelas grandes casas e Carlos Andreazza, editor do Grupo Record, diz que não é impossível que estreantes ou aqueles que mandam seus originais para a editora sejam editados. Ele dá o exemplo de Marcos Bulcão. Seu livro O Filósofo Peregrino foi pinçado de uma lista de cerca de 20 originais recebidos mensalmente por correio e 30 por e-mail. “Ele chegou assim e foi publicado, mas é preciso ser franco: a melhor maneira de chegar a uma editora é ser recomendado por alguém”, comenta.

A Record tem lançado novos nomes, mas os números assustam. Pelas contas do editor, são cerca de 25 lançamentos de ficção nacional por ano de um total de mais de 400 títulos publicados por todos os selos. “Pensamos muito antes de publicar. Cada vez menos as livrarias acreditam em literatura brasileira, então o mercado impõe que sejamos conservadores.

Na Patuá, são cerca de 150 originais por mês. Mesmo editando muito, e só brasileiros, Eduardo Lacerda diz que não consegue ir além dos 10 lançamentos mensais. Uma outra opção entra as independentes é a temporada de originais da Grua. Mas será preciso esperar a terceira edição – em março, o editor Carlos Eduardo Magalhães anuncia os escolhidos entre os 240 trabalhos inscritos.

Desde 2010, decidimos não receber mais originais. A estrutura é muito pequena para uma recepção continuada”, explica. Mas, como um dos princípios é publicar literatura brasileira contemporânea, o concurso foi um bom meio termo. Dos 194 inscritos na primeira edição, quatro foram lançados.

Para além do mercado tradicional, o horizonte é mais democrático – e populoso. Criado em 2009, o Clube de Autores publicou 50 mil livros de brasileiros. Na verdade, eles mesmos publicaram as obras na plataforma em digital e/ou para impressão sob demanda. Dá para fazer isso sem gastar nada, mas quem quiser pode contratar revisores, capistas, etc, pelo site. O custo final varia de acordo com os serviços, mas Ricardo Almeida, um dos sócios, diz que ele pode custar entre 2 mil e R$ 3 mil. E é o autor que escolhe por quanto o livro será vendido. “Não tenho dúvidas de que o futuro está na autopublicação. E o futuro é justamente a quebra de intermediações. É deixar o público como responsável pela escolha dos livros que farão mais ou menos sucesso”, diz.

Nina Müller encontrou seu público – primeiro no Wattpad e agora no KDP, a plataforma gratuita de autopublicação da Amazon. Ela tem 7 livros [como Ardente Cativeiro da Fênix] à venda e no serviço de assinatura Kindle Unlimited. “Optei pela autopublicação por ser mais rentável do que a editora em que eu estava. Eu ouvia comentários sobre livros digitais e quis arriscar”, conta. Seus números: 8.200 de e-books vendidos e 2,5 mi de leituras.

Para quem tem o sonho de ver o livro na estante, promover uma noite de autógrafos, existe sempre a opção de fazer o livro com uma gráfica rápida, mas as decisões não são simples e é disso que depende o resultado: gramatura do papel, cola ou costura, A5 ou A4. Serviços como o do Clube acabam facilitando o processo. E ele não está sozinho.

Na Livrus, o escritor conta até com serviço de ghost writer e de gestão de carreira. Os pacotes começam em R$ 200, mas, segundo a publisher Chris Donizete, o gasto médio é de R$ 2.500 para livros de 96 a 128 páginas. Em três meses, ele está pronto.

No dia 30, às 15h30, a empresa anuncia, na Martins Fontes da Paulista, a parceira com o Catarse. “Percebemos que o valor era o que pesava mais na hora da publicação. Quando recebiam nossa proposta, ficavam satisfeitos, mas muitos não dispunham da quantia para a publicação.” Nesse sentido, a iniciativa se aproxima do Bookstart, plataforma de financiamento coletivo de projetos literários que também oferece serviços editoriais, comerciais e de eventos.

Por Maria Fernanda Rodrigues | Publicado originalmente em O Estado de S.Paulo | 23 Janeiro 2016, às 05h 00

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Vice-presidente de conteúdo do Kindle fala do futuro da leitura


David Naggar

David Naggar

O americano David Naggar é um dos protagonistas da revolução que atinge a indústria editorial e os hábitos de leitura. Sua ligação com o mercado de livros vem do berço – sua mãe, Jean, é escritora e agente de renome. Logo após se formar em marketing ele já passou a trabalhar em grandes editoras, como na nova-iorquina Random House. Em 2009, foi para a Amazon, onde ainda está, como vice-presidente de conteúdo do Kindle. Na nova casa, impulsiona a digitalização de livros, quadrinhos, revistas, tudo que se lê.

Sob seu comando, a empresa deixou de publicar e-books apenas em seu e-reader e passou a disponibilizar o catálogo em aplicativos para computadores, smartphones e tablets de concorrentes. Ele também investe na produção de “indies”, os autores que se autopublicam, sem o intermédio de editoras, pela internet. Esta, inclusive, é hoje uma das especialidades da Amazon, dona da plataforma KDP, por onde os escritores podem disponibilizar, gratuitamente, seus livros no Kindle. Daí nasceram best-sellers como 50 Tons de Cinza e Perdido em Marte.

Em visita ao Brasil, Naggar concedeu a seguinte entrevista ao site de VEJA. Nela, prevê como será o futuro da leitura e crava que não se trata do fim das tradicionais casas de publicação, mas, sim, de uma reconfiguração completa do mercado.

Como a digitalização de livros, revistas, tudo que se lê, transformou os hábitos de leitura?

De repente, passamos a ter em um único dispositivo, como o Kindle, ou tablets e smartphones, o acesso a milhões de títulos, possíveis de serem lidos depois de 60 segundos, o tempo que se leva para baixá-los. Esse imediatismo, o acesso quase instantâneo, democratizou a leitura como nunca antes ocorreu na história. Por exemplo, antes era muito difícil ter acesso a algumas obras estrangeiras, como as estritamente em inglês ou alemão, em países como o Brasil. Era preciso esperar anos pela tradução, ou meses para que uma encomenda chegasse com o livro. Agora, consegue-se o título em segundos. Além da facilidade do acesso, trata-se de uma revolução que também afeta diretamente a forma como lemos. É possível, por exemplo, ler em um smartphone enquanto se espera na fila do banco ou do dentista. Sem ter de lembrar de carregar um montante pesado de papel com si. Mais que isso, toda sua biblioteca poderá estar disponível em sua mão, no aplicativo do celular. Essa é uma transformação essencial, que adapta a leitura profunda, mesmo de livros complexos, ao mundo contemporâneo. Há vinte anos, um indivíduo ia a uma livraria com o único intuito de comprar livros. Não havia nada mais competindo por sua atenção. Hoje, ao ligar o smartphone, o tablet, o computador, escolhe-se se quer gastar tempo checando o Facebook, vendo um vídeo no YouTube, jogando Angry Birds ou lendo. A literatura passou a competir com um universo imenso de opções baratas, quando não gratuitas, de entretenimento. Para o livro ter chance de vencer nessa disputa por tempo e atenção, é necessário estar onde o leitor está. Ou seja, oferecer a ele, também, a opção de ler, de forma barata e prática, no mesmo dispositivo a que recorre continuamente para outras atividades.

Trata-se de uma mudança que afeta apenas o leitor, ou também a forma como escrevemos?

Pense no KDP, da Amazon (o sistema de autopublicação da marca, na qual escritores disponibilizam livros online sem intermédio de editoras). Desde que nasci vivo no mundo da escrita, já que minha mãe é agente literária. Antes de vir para a Amazon, fui alto-executivo em editoras tradicionais. Como sempre funcionava a lógica de publicar um livro? Quase todo mundo tem a ideia de escrever algo. Porém, poucos são aqueles que conseguem um agente para ajudar a publicá-lo. Digamos que seja 5% do total. Desses, uma porcentagem ainda menor convence uma editora a trabalhar com sua obra. Ou seja, era um negócio para poucos. Com a internet, e inovações como o KDP, os intermediários podem ser eliminados. Se uma editora não dá atenção ao que alguém escreveu, o autor pode simplesmente colocar a obra online, e disputar de igual para igual com best-sellers na Amazon.com. Isso muda a lógica do mercado literário. Sabia que J.K. Rowling, autora de Harry Potter, foi rejeitada trinta vezes antes de uma editora, pequena, aceitá-la? E se ela tivesse desistido no vigésimo “não”? Deixaríamos de ter as histórias de Harry Potter. Quantos não abdicam de seus projetos frente à rejeição? Com o mundo online, foram abertas novas alternativas. Best-sellers como 50 Tons de Cinza e Perdido em Marte surgiram nesse novo modelo, via KDP. Hoje, 30% dos e-books mais vendidos da Amazon são de “indies” (termo para “independentes”, os autores que se autopublicam). Pessoas que provavelmente nunca teriam espaço na velha forma de publicação ficaram ricas utilizando as possibilidades contemporâneas.

É o fim das editoras tradicionais?

De forma alguma. As editoras têm um papel insubstituível e realizam um trabalho incrível junto aos autores. Entretanto, elas precisam, sim, se adaptar ao mundo moderno. Passou-se a ter mais alternativas a leitores e escritores. Logo, a concorrência é maior. São vários os efeitos disso. Por exemplo, no Brasil, historicamente, livros são muito caros. Hoje, essa estratégia não funciona mais. Há opções baratíssimas de entretenimento na internet, inclusive de leitura. Por isso, editoras brasileiras têm se visto compelidas a baixar preços. Valem, como sempre foi, as leis econômicas. Porém, repito, não é o fim para elas. O que ocorreu, em uma analogia, é que antes só tinha um restaurante na cidade, com 50 clientes. Com a digitalização, passaram a ser 1 000, com milhares de clientes. No caso, “restaurantes” são plataformas de publicação. Os “clientes” são os autores e leitores. O efeito, que sentimos agora, é que a indústria literária nunca esteve tão saudável quanto hoje.

Se os benefícios são para todos, por que algumas editoras, como a francesa Hachette, além de autores best-sellers, se queixam do modelo proposto pela Amazon?

Principalmente da estratégia de baixar preços radicalmente de e-books, em comparação com o valor de versões físicas. A resposta da Amazon a essas queixas é “olhem para o futuro”. Caso queiram competir para valer com tudo a que hoje o leitor tem acesso, a exemplo do Facebook, é preciso ser mais acessível. Isso inclui vender livros mais baratos, algo possível de se fazer, com bom lucro, no mundo online. Caso não baixe o preço, o leitor dedicará seu tempo a outra coisa.

Em resposta à chegada da Amazon nessa indústria, algumas editoras adotaram práticas como a publicação atrasada de títulos de e-books, em comparação com suas edições físicas. Essas estratégias realmente aumentam as vendas?

De forma alguma. Tanto que nenhuma grande casa de publicação manteve essa prática nos últimos anos, apesar de termos ciência de que algumas editoras brasileiras pensam em fazer isso. A questão é que, com esse método, a mensagem que se passa para o leitor é: “você precisa adaptar seus hábitos de leitura ao que queremos”. Acha, mesmo, que alguém, como um adolescente, acostumado a smartphones e tablets, irá transformar seu cotidiano para comprar um livro na livraria só porque não tem a opção online? Nossas estatísticas comprovam que isso não ocorre. Se não há a opção digital, o leitor que gosta deste formato toma uma de duas atitudes. Ou ele arranja uma versão pirateada na internet – e, garanto, há muitos sites que disponibilizam isso -, ou escolhe outra coisa para ler. Aí, ocorre um outro problema na estratégia. A editora vai lá e gasta um monte com marketing no lançamento de um título. Porém, só o disponibiliza em livrarias. Depois, quando finalmente decide ter uma versão digital, não há mais dinheiro para dar gás na divulgação. Ou seja, aquele cliente que não queria comprar a edição física, e optou por gastar seu tempo com outra atividade, nem fica sabendo quando o que queria ler chega à internet. Em resumo, a editora só perderá vendas com tal tática.

No Brasil, e-books representam cerca de 5% do mercado de livros. Por que aqui essa tal revolução da leitura não está ocorrendo tão rápido?

Não acredito nisso. Para começar, esse número, de 5%, não é bem interpretado. E-books não têm muito sucesso, por exemplo, no ramo educacional. Tenho certeza que se as porcentagens forem fatiadas, e se considerar somente literatura regular, haverá um aumento substancial de nossa penetração. Mais que isso, na conta não se consideram os “indies”. É outro fator que alteraria o cenário. Valeria acrescentar ainda as obras em língua estrangeira, muitas vezes disponíveis apenas pelo online. Por fim, de qualquer forma, a nossa representatividade no mercado tem aumentado 40% ao ano. Isso é surpreendente, principalmente quando se leva em conta o quão antiga e estabelecida é a indústria literária.

Há muitos críticos da leitura digital, como o escritor e pesquisador americano Nicholas Carr, para quem e-books e similares podem destruir o hábito de imergir em uma obra por horas. O senhor acredita que tablets e smartphones têm, mesmo, privilegiado apenas leituras rápidas e superficiais?

De forma alguma, pois as pessoas se adaptam. Quando se olha a nova geração, é notável como está se acostumando a ler em telas menores. Porém, ainda em leituras profundas, de livros extensos. Acredito, mesmo, que a escolha do que se lê no digital, ou no físico, caberá a cada cliente. Uns irão preferir obras de ficção digitais, e de não-ficção em versões tradicionais. Com outros, será o contrário. Iremos nos adaptar. E a tecnologia também se moldará a nós.

Para alguns, tablets e e-readers podem parecer fadados a perdurar por pouco tempo, frente a novos gadgets que surgem, como os relógios inteligentes ou os óculos computadorizados. O senhor acredita que, no futuro, os hábitos de leitura e escrita vão mudar novamente?

A lógica é, na verdade, simples. Quando a forma como as pessoas acessam conteúdo muda, é preciso também que o conteúdo se transforme. Ou ao menos sua apresentação. Na China, por exemplo, está em voga um novo tipo de literatura, onde escritores diversos se revezam para tecer uma mesma história, que nunca acaba e é divulgada restritamente online. Experiências assim surgem quando aparecem novas plataformas. Sempre será desta forma. Como vai ser no futuro? Não tenho ideia. Mas essa lógica não mudará.

Por Filipe Vilicic | Publicado originalmente em Veja | 05/12/2015

Amazon e Twitter promovem workshop gratuito para autores independentes


TwitterA Amazon e o Twitter promovem, na próxima quarta-feira [25], um workshop gratuito para autores independentes interessados em aprender as melhores práticas para a divulgação de seus livros no Twitter. O curso também terá dicas de como melhor utilizar a plataforma de autopublicação da Amazon, o Kindle Direct Publishing [KDP]. O curso terá participação de Gabriela Comazzetto, diretora de vendas do Twitter Brasil; Eduardo Di Pietro, executivo de contas do Twitter Brasil; Ana Souza, gerente de contas do Twitter Brasil, e Luciana Syuffi, Gerente do KDP Brasil. As vagas são limitadas e as inscrições acontecem até o dia 23 de novembro através do e-mail kdp-eventos@amazon.com. Os interessados devem enviar nome completo e RG. A aula acontece no Escritório do Twitter em São Paulo [Rua Atílio Innocenti, 642, Itaim Bibi].

PublishNews | 18/11/2015

Amazon faz workshop para autores independentes


Atividade gratuita acontece no dia 6 de outubro em SP

A Amazon programou para o dia 6 de outubro um workshop gratuito para profissionais interessados em publicar livros de não ficção de maneira independente através do Kindle Direct Publishing [KDP], plataforma de autopublicação da Amazon. O curso terá dicas de como melhor utilizar a plataforma de autopublicação, bem como um debate com autores sobre escrita criativa para livros de não ficção. Participam Eldes Saullo, autor de Seu livro no Kindle: como escrever e publicar seu livro na Amazon e no Kindle e Bernardo Guimarães, autor de A riqueza da nação no século XXI. As vagas são limitadas e as inscrições acontecem até o dia 2 de outubro através do e-mail kdp-eventos@amazon.com. A atividade acontece na sede da Amazon no Brasil [Avenida Presidente Juscelino Kubitschek, 2041 – Complexo JK, Torre E – 18º andar – São Paulo/SP].

PublishNews | 22/09/2015

Autopublicação – as maravilhas e agruras de cada plataforma


Por Maurem Kayna | Publicado originalmente em Colofão | 8 de julho de 2015

Para quem quer publicar e-books de modo independente no Brasil, há muitas opções, desde as plataformas mais conhecidas – como o Kindle Direct Publishing [KDP], da Amazon, o Kobo Writing Life [KWL], da Kobo, e o iTunes Connect, da Apple, para ficar naquelas que têm interface em português – até iniciativas locais que começam a surgir, como a Simplíssimo e a Bibliomundi. As promessas variam pouco: liberdade total para o autor; % expressivo do preço de capa; disponibilidade do seu e-book para muitas lojas virtuais mundo afora.

Depois de realizar uma série de testes com as principais plataformas, reparto aqui com vocês as experiências e aprendizados colhidos. Espero que possam ajudar a definir seu próprio plano de autopublicação.

Quais as opções?

Certamente há muitas alternativas que não experimentei, mas posso contar para vocês o que achei da Amazon, da Kobo, da Apple e da Smashwords, da qual desisti logo que as outras aportaram aqui no Brasil. Quanto às plataformas novas que estão chegando, vou me limitar a deixar os links para vocês, pois não as testei ainda.

Amazon KDP [Kindle Direct Publishing] – exclusividade ou poligamia?

Quando você vai iniciar o processo de publicação no KDP, de modo muito simples e rápido, como já expliquei aqui, perceberá a tentativa de sedução para aderir ao KDP Select. Aliás, recentemente a Amazon lançou um concurso literário para arrebanhar autores de contos, e um dos critérios para inscrição é que o conto / e-book seja publicado com adesão ao KDP Select.

São inúmeras as vantagens oferecidas: maior % de royalties, possibilidade de realizar promoções de distribuição gratuita do e-book [o que pode ser uma utilíssima estratégia de divulgação] e entrar na divisão do fundo global do KDP Select [em junho/15 o valor total a ser dividido entre os autores do KDP Select era de 8,7 milhões]. Parece óbvio que é melhor aderir, não né? Claro que não. Especialmente depois que o critério de pagamento relativo aos serviços de assinatura Kindle Unlimited [uma espécie de “Netflix de livros”] passou a ser feito pelo número de páginas do seu e-book efetivamente lido, ao invés do download simplesmente.

Aderir ao KDP Select significa que você só poderá colocar o seu e-book nessa plataforma. Ou seja, nada de facilitar a vida dos usuários da iBookstore nem agradar aos que já se acostumaram a compras online no site da Cultura.

Isso pode funcionar, entretanto, em alguns casos. Se o seu público-alvo [caso você conheça bem seus hábitos] prefere o Kindle a outros e-readers ou aplicativos de leitura, se ele é um fã dos bons serviços prestados pela Amazon, ou se sua obra está disponível em inglês e você tem chance de conseguir espaço na Amazon USA, talvez valha a pena.

Os relatórios de acompanhamento de vendas e leituras pelo serviço de assinatura são atualizados a cada hora, e o autor tem como saber em qual das lojas seu livro foi adquirido [mas pode haver desvios, pois eu, por exemplo, continuo comprando através de minha conta na Amazon USA].

Quanto ao processo de publicação em si, fiz há algum tempo uma resenha aqui [http://www.mauremkayna.com/publicando-na-amazon-com-br/]. É um artigo de 2013, mas o conteúdo todo continua válido.

Kobo Writing Life

Esta plataforma, embora disponível para autores brasileiros e com a grande vantagem de disponibilizar seus e-books na Livraria Cultura, não é toda disponível em português e tem uma chatice relevante quanto ao pagamentos dos royalties. Talvez o seu banco não esteja entre os bancos brasileiros pré-cadastrados no KWL, e então você precisará pedir help in English para o pessoal simpático da Kobo. Eles respondem relativamente rápido, mas talvez você tenha de se informar com seu banco a respeito do recebimento de remessas em moeda estrangeira. Você também precisará informar à plataforma o código Swift do seu banco para poder receber o pagamento, que é feito em dólar.

Outra peculiaridade é que os pagamentos só são enviados quando você acumular ao menos US$100 a receber. O registro da experiência que fiz com o KWL está aqui: http://www.mauremkayna.com/experiencia-de-auto-publicacao-kobo-writing-life/

iTunes Connect – Apple

Até bem pouco tempo atrás, vender na Apple exigia a obtenção de um número ITIN, um processo não tão complicado, mas que exigia realizar uma ligação internacional e se comunicar em inglês para prestar uma série de informações. Isso tudo tinha a ver com questões tributárias. Nunca tive paciência para fazer isso e acreditava que não venderia o bastante para recuperar o custo da ligação [é, não sou mesmo otimista quanto ao potencial de venda dos meus e-books, e não é por achá-los assim tão medíocres], por isso, só utilizava a plataforma para distribuição gratuita.

Como meus primeiros testes com a iBookstore começaram a partir da ferramenta [ótima, aliás] iBooks Author, tive uma série de dificuldades com o controle de qualidade da Apple. Contei a saga aqui: http://www.mauremkayna.com/tres-experiencias-de-auto-publicacao-parte-iii/

Superadas essas travas, o que posso comentar da Apple é que a visibilidade e a facilidade de venda, mesmo para autores desconhecidos, é muito grande em comparação com outros meios. Talvez pela facilidade oferecida aos usuários no processo de download e até de pagamentos. Tive um volume de downloads impressionante do e-book Contos.com para quem não investiu em divulgação, não escreve literatura Young Adult ou qualquer outro estilo pop e não é celebridade. Não, não acho que isso se deva à descoberta de meu talento, mas à penetração dos produtos Apple e ao modo intuitivo [e também compulsivo] como as pessoas podem comprar / fazer downloads na plataforma.

As outras

Esse título fica meio pejorativo, eu sei. Mas deixemos como provocação. Cheguei a acompanhar e fazer experiências com a Publique-se, da Saraiva [http://www.mauremkayna.com/outras-experiecias-de-auto-publicacao-publique-se/] e com Smashwords http://www.mauremkayna.com/tres-experiencias-de-auto-publicacao-parte-ii/.

Recentemente, vi que a Simplíssimo, que tem grande expertise na produção de e-books [lindos, aliás!], lançou uma plataforma para o autor. Agora com a possibilidade de conversão gratuita e distribuição nas principais lojas online e com royalties de 70% para o autor. Confesso que não testei, mesmo porque não tenho assim toneladas de textos disponíveis para publicação, mas o funcionamento é conceitualmente similar ao do Smashwords, pois seu livro é publicado nas lojas da Amazon, Google Play e Apple sem que você tenha de se cadastrar diretamente em cada uma.

Na Flip, houve o lançamento de uma outra plataforma chamada Bibliomundi, cuja proposta é similar, mas o site ainda está, parece, apenas captando e-mails.

Temos também a e-galáxia [http://e-galaxia.com.br/] que, além de fazer a publicação / disponibilização em várias lojas online, também oferece um catálogo de prestadores de serviço para revisão, edição e capa. Vale comentar que a e-galáxia conseguiu emplacar diversos e-books de contos avulsos como top list na iBookstore, graças a um bom trabalho de divulgação em um selo com curadoria.

Conclusões

A possibilidade de publicar sem intermediários é incrível. Nada de esperar meses pela negativa de uma editora ou amargar o silêncio perpétuo. Há algo, porém, que vale como dica para qualquer das plataformas que o autor venha a escolher [podem ser todas, simultaneamente, aliás]: é preciso ter senso de realidade! Com isso, quero dizer que esperar que o fenômeno E.L. James se repita com você pela simples disponibilização da sua obra para o mundo inteiro na Amazon ou na iBookstore é ingênuo. Se você acreditar que o fato de seu e-book estar disponível para venda em mais de 50 países fará com que o mundo se renda aos seus talentos, bastando postar o link para compra do seu e-book, penso que isso é quase caso de internação ou uso de medicamentos controlados. Ou, trocando em miúdos, vender livros em papel já não é fácil nem frequente se você não é conhecido, e vender e-books, no Brasil, é ainda mais difícil, especialmente dependendo do gênero que você escreve, pois a resistência de certos públicos ao formato ainda persiste.

Mas o objetivo desse parágrafo não é jogar um balde de água fria [ainda mais em pleno inverno!] na sua animação, e sim indicar que, se quiser seguir o caminho da autopublicação, vai ter que ralar. Pense, portanto, sobre o tempo de que você pode dispor para trabalhar com a publicação e a divulgação. Isso poderá fazer você decidir entre a opção de publicar em todas as plataformas ou traçar um plano específico para uma delas, ou ainda, se decidir por alguma aglutinadora como Simplíssimo ou Smashwords. Mas tenha uma certeza: publicar não é o último passo, e sim o primeiro.

Por Maurem Kayna | Publicado originalmente em Colofão | 8 de julho de 2015

Sou engenheira e escritora [talvez um dia a ordem se altere], bailo flamenco e venho publicando textos em coletâneas, revistas e portais de literatura na web, além de apostar na publicação “solo” em e-book desde 2010. A seleção de contos finalista do Prêmio Sesc de Literatura 2009 – Pedaços de Possibilidade, foi meu primeiro e-book; depois por puro exercício e incapacidade para o ócio, fiz outras experiências de autopublicação, testando várias ferramentas e plataformas para publicação independente.

Mil contistas já se inscreveram em concurso da Amazon


‘Brasil em Prosa’ recebe inscrições até 31 de julho

O concurso Brasil em Prosa, resultado da parceria entre Amazon, O Globo e Samsung, já passou de mil contos inscritos. Para participar, os autores deverão publicar seus contos inéditos e exclusivos na plataforma KDP da Amazon até dia 31 de julho. Os autores dos 20 contos finalistas ganharão um e-reader Kindle, 12 meses de acesso ao programa de aluguel de e-books Kindle Unlimited e uma assinatura do pacote digital do Globo por três meses. Os contos vencedores ainda serão publicados no caderno Prosa do jornal O Globo, traduzidos para o inglês e vendidos mundialmente nas lojas da Amazon.

PublishNews | 02/07/2015

Amazon pagará autores por páginas lidas


Autores autopublicados pela plataforma  Kindle Direct Publishing [KDP], da Amazon, foram surpreendidos com a notícia de que a varejista passará a remunerar seus autores pelo número de páginas lidas e não mais pelo número de vezes que o livro é emprestado, como é feito hoje. A medida passa a valer a partir do dia 1º de julho e afeta exclusivamente os autores que optaram pelo KDP Select, programa que coloca os e-books publicados pela plataforma nos programas de subscrição da Amazon: o Kindle Unlimited — para clientes dos EUA, Reino Unido, Alemanha, Espanha, Itália, França, Brasil, Canadá e México – e a Biblioteca de Empréstimo dos Proprietários Kindle [KOLL] — para clientes dos EUA, Reino Unido, França, Alemanha e Japão. Sempre bom ressaltar que os optantes pelo Kindle Select se comprometem a colocar o seu e-book com exclusividade na Amazon e ficam impossibilitados de distribuir o livro por qualquer outro canal.

Por Leonardo Neto | PublishNews | 24/06/2015

Amazon faz concurso literário


A Amazon brasileira se associou ao jornal O Globo e à Samsung para criar o concurso literário Brasil em Prosa. Podem concorrer contos inéditos publicados entre 13 de junho e 31 de julho em formato digital pela plataforma de autopublicação da Amazon, o Kindle Direct Publishing [KDP]. Os contos serão avaliados pela Amazon e pel´O Globo segundo vários critérios, como criatividade, originalidade e qualidade da escrita. Os autores dos 20 contos finalistas ganharão um e-reader Kindle, 12 meses de acesso ao programa de aluguel de e-books Kindle Unlimited e uma assinatura digital do jornal O Globo por três meses. Os três vencedores serão selecionados, dentre os 20 finalistas, por um júri de jornalistas literários de diário carioca. Os contos vencedores serão publicados no caderno Prosa do jornal O Globo, traduzidos para o inglês e vendidos mundialmente nas lojas da Amazon. Eles ganharão ainda, como prêmio, uma assinatura digital de um ano de O Globo. O primeiro lugar também levará um tablet Galaxy Tab A e o segundo e o terceiro, um Galaxy Tab E, da Samsung. Para acessar o regulamento e se inscrever, clique na página do Brasil em Prosa.

PublishNews | 15/06/2015

Amazon disputa com Wattpad os escritores de fanfic


O Wattpad tem seu lado sério como uma plataforma próspera de escrita original, com fluxo pequeno, mas constante de autores encontrando sucessos e conquistando as seis maiores editoras do mundo. O site já atraiu a atenção de 40 milhões de usuários ao redor do globo. Nenhuma surpresa que a Amazon decidiu querer um pedaço desse bolo. A varejista lançou recentemente sua própria plataforma de leitura social e escrita, a Kindle WriteOn, que atualmente funciona somente para convidados, ainda no etapa beta. Na primeira impressão, parece muito com o Wattpad. Mas o WriteOn está fazendo um jogo claro para escritores de ficção com ambições de publicar seus livros. Ele se intitula como um “laboratório de histórias”, no qual “você pode obter suporte e feedback durante todas as fases do processo criativo”. Enquanto os comentários dos leitores do Wattpad tendem a ser curtos e doces, os do WriteOn são críticas mais profundas. Com 150 milhões de contas, a Amazon espera que o WriteOn siga o mesmo sucesso do seu Kindle Direct Publishing Direct [KDP], plataforma para autores independentes, só que adicionando um elemento social a esse fenômeno editorial.

Por Victoria James | The Guardian | 18/12/2014

A assinatura de eBooks no Brasil


POR Marina Pastore | Publicado originalmente por  COLOFÃO | 17 de dezembro de 2014

Como qualquer pessoa com acesso à internet e interesse por livros já deve saber a essa altura, na última quinta-feira estreou no Brasil o Kindle Unlimited, serviço de assinatura de e-books da Amazon. A fórmula já é conhecida: por R$19,90 por mês, os assinantes têm acesso ilimitado a milhares de livros digitais. A estreia deste “Netflix dos livros”, à primeira vista bastante atraente para o leitor, dá novo fôlego à discussão sobre preços e modelos de negócio para os e-books no mercado editorial brasileiro.

De cara, a estreia do Unlimited trouxe dois desdobramentos importantes para a loja Kindle brasileira. O primeiro é o impacto do serviço sobre a lista de mais vendidos: tudo indica que, assim como nos EUA, cada leitura de um e-book “emprestado” conta como uma venda. Assim, títulos disponíveis no serviço entram na lista de mais vendidos muito mais facilmente; no dia seguinte ao do lançamento, dos 20 primeiros colocados no ranking, 18 podiam ser lidos no Kindle Unlimited [incluindo todos os dez mais vendidos]. A segunda consequência é uma jogada de marketing bem típica da Amazon [e quero dizer isso no melhor sentido possível]: ao fazer a busca por um título que participe do Unlimited, acima do preço das versões digital e impressa, aparece um belo “R$0,00”, evidenciando a economia que se faz ao assinar o serviço:

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No caso de um e-book que custa mais do que a assinatura mensal, esse zerinho começa a parecer bem atraente.

Mas, marketing à parte, vamos olhar mais de perto para o que o serviço oferece. Em termos de tamanho, o catálogo é bem respeitável: são quase 12 mil títulos em português, ou seja, quase 30% do total de e-books disponíveis neste idioma na loja Kindle brasileira [pouco mais de 42 mil]. Mas a maior parte do catálogo é mesmo formada por e-books em inglês: são cerca de 650 mil, número que se aproxima até do catálogo do Kindle Unlimited americano [pouco mais de 700 mil].

De qualquer maneira, mesmo 12 mil livros já seriam um número mais do que suficiente para manter qualquer leitor satisfeito. O problema é a seleção de títulos disponíveis: como já era esperado, poucas das grandes editoras brasileiras aderiram ao serviço no momento do lançamento. Numa consulta rápida ao catálogo, fiquei com a impressão de que as participantes estão aproveitando este momento inicial para experimentar com alguns títulos: a Vergara y Riba, por exemplo, entrou com os dois primeiros volumes da série Diário de um banana, mas não os demais; a Leya incluiu muitos de seus livros mais conhecidos, como seus Guias Politicamente Incorretos, mas apenas o primeiro volume de A Guerra dos Tronos; a Globo incluiu títulos importantes, como Casagrande e seus demônios e Ágape, mas deixou de fora a maior parte do seu catálogo – inclusive alguns títulos disponíveis na concorrente Árvore de Livros, como as biografias de Andre Agassi e Amy Winehouse. É bom lembrar que mesmo nos EUA, onde o mercado de assinatura de livros já está melhor estabelecido, nenhuma das “Big 5″ ainda arriscou embarcar no Kindle Unlimited – a força do seu catálogo vem, em grande parte, de autores independentes publicados pelo Kindle Direct Publishing [KDP]; então, não é nenhuma surpresa que as editoras brasileiras estejam começando com cautela.

A meu ver, a grande diferença entre o cenário que o Unlimited enfrenta nos EUA e aqui é mesmo a maturidade do mercado. Por lá, a Amazon enfrenta a concorrência não só de serviços similares, como o Oyster e o Scribd, que já conseguiram a adesão de grandes editoras [Simon & Schuster e HarperCollins], mas também de um serviço bem completo e gratuito: as bibliotecas públicas. Nos EUA, cerca de 95% destas instituições oferecem e-books aos leitores, e todas as Big 5 disponibilizam pelo menos parte de seu catálogo para elas. No Brasil, a situação é bem diferente: o único concorrente mais ou menos similar ao Kindle Unlimited é a Nuvem de Livros, que conta com um catálogo pequeno, mas bem variado, incluindo livros de diversas editoras brasileiras, audiolivros e vídeos educacionais. A Árvore de Livros, embora ofereça um serviço parecido, por enquanto disponibiliza assinaturas apenas para instituições como escolas e bibliotecas. Aliás, por aqui, são poucas as bibliotecas que oferecem e-books; algumas, ligadas a faculdades e universidades, até contam com um catálogo de livros digitais, mas com limitações [tanto em termos de catálogo quanto no próprio uso: em algumas só é possível acessar os e-books a partir dos computadores da própria biblioteca, por exemplo]. Por isso, um serviço com preço atraente e catálogo razoável tem mais chances de sucesso.

Para dominar este mercado por aqui, resta à Amazon conseguir convencer o maior número possível de editoras de que este é um modelo de negócios viável para os e-books. Não será uma tarefa fácil: olhando mais uma vez para os EUA, por lá, embora boa parte do próprio mercado editorial acredite que o modelo de assinatura para e-books é inevitável, três das cinco maiores editoras ainda hesitam em disponibilizar seus livros em qualquer serviço deste tipo [sendo que a maior de todas, a Penguin Random House, já se pronunciou veementemente contra eles]. Na música, mercado em que serviços de assinatura são mais antigos [e em que certamente há demanda por eles], artistas já vêm reagindo contra o tipo de remuneração que recebem por participar deles – sendo o caso mais famoso o da Taylor Swift, que recentemente tirou todas as suas músicas do Spotify.

É claro que são mercados diferentes: editoras e autores não são remunerados exatamente da mesma maneira que gravadoras, cantores e compositores. Especula-se que, no Kindle Unlimited, existam basicamente dois tipos de remuneração: para os autores independentes publicados pelo KDP, a Amazon estabelece uma quantia fixa no início de cada mês; este valor é, então, dividido entre os participantes com base no número de empréstimos dos livros de cada um [o que nem sempre é vantajoso, mesmo para autores populares]. Para editoras, a princípio o valor pago é o mesmo de uma venda; assim, a curto prazo, é um bom acordo tanto para elas quanto para seus autores. Caso seja este o modelo aplicado no Brasil, é provável que ele não se sustente por muito tempo: afinal, do ponto de vista do leitor, o serviço vale a pena justamente porque é mais barato do que boa parte dos e-books vendidos por aqui. Assim, me parece razoável supor que, uma vez construído um catálogo atraente, o próximo objetivo da Amazon seja tornar o serviço mais rentável. Depois de atrair uma base de clientes significativa, ela terá um forte argumento para pressionar as editoras a modificar algo nesta relação: ou o modelo de remuneração e/ou o próprio preço dos e-books.

POR Marina Pastore | Publicado originalmente por  COLOFÃO | 17 de dezembro de 2014

Marina Pastore

Marina Pastore

Marina Pastore é jornalista formada pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Descobriu os e-books ainda na faculdade, em 2011, e foi amor ao primeiro download. Vem trabalhando com eles desde então, integrando o departamento de livros digitais da Companhia das Letras. Seu maior orgulhinho profissional foi ver toda a obra de seu autor preferido e muso inspirador, Italo Calvino, disponível em formato digital. Sua vida é basicamente um grande episódio de Seinfeld, mas com menos sucrilhos e mais [muito mais] gifs animados.

Adolescente cearense é best seller na Amazon


Nita Cairu e a Espada de Gohayó

Nita Cairu e a Espada de Gohayó

Após sucesso de venda no Brasil, o escritor cearense Gabriel Damasceno, de 16 anos, entra na lista de mais vendidos do site Amazon em vários países. O romance Nita Cairu e a espada de Gohayó aparece neste domingo como o livro infanto-juvenil mais vendido na Amazon na Itália, em segundo lugar no ranking de best-sellers do Canadá, 12º nos Estados Unidos e 41º na Alemanha.

“Chequei minha conta na Amazon e vi que estava dólar, euro… eu pensei ‘Valha-me, de onde está vindo esse dinheiro?’. E só depois vi a lista dos mais vendidos nos outros países e vi meu livro na lista dos mais vendidos”, relata Gabriel.

Com as vendas em alta e repercussão na imprensa, Gabriel diz que começa a receber propostas de editoras e convites para o lançamento da obra. Neste mês ele estará em Fortaleza [18 de novembro, no Shopping Iguatemi], Quixelô [19], Quixadá [21] e em Quixeramobim [28] para sessão de autógrafo. Ele também já recebeu convite para o lançamento de Nita Cairu na Bienal do Livro de Fortaleza, em 2014, no Maranhão.

O romance é inspirado nas aulas de história do Brasil colonial, após a chegada dos portugueses ao território nacional. Nita Cairu une fatos e personagens históricos com aventura e romance fictícios.

“Nas aulas de história, me interessei bastante pelo assunto do Brasil colonial e estudei tudo o que podia. Como me aprofundei muito no assunto, achei que podia contar a história de uma forma agradável”, relata o escritor.

A personagem que dá título ao livro é uma adolescente da idade do escritor que teve a família assassinada em um ataque português. Após viver um tempo sozinha, ela se torna um vértice de um triângulo amoroso com um português e um índio.

Damasceno diz que fez questão de manter alguns fatos fiéis à história brasileira, mas não podia deixar de acrescentar um toque de inventividade. “Há um personagem, o Martin Afonso, que é idolatrado na primeira vila colonial do Brasil, da mesma forma como no livro, mas alterei a personalidade dele para dar aventura à minha história”, diz.

Gabriel Damasceno

Gabriel Damasceno

Trilogia

Inspirado em dois grandes sucessos mundiais da literatura infanto-juvenil, Harry Potter e Percy Jackson, Damasceno criou seu romance em formato de trilogia. O primeiro livro foi lançado no dia do aniversário de sua mãe, 24 de julho deste ano; as continuações já têm data de lançamento marcada: o próprio aniversário, 11 de março; e o dia de nascimento do pai, 9 de outubro.

“Quando pensei na história, pensei muito nos livros que gostei. Ele se encaixa muito bem no formato de trilogia, porque fica o mistério do sumiço de um espada sagrada, espada de Gohayó, no primeiro livro. Também tem a questão do marketing, não posso negar. Com três livros, espero ter uma boa repercussão em cada lançamento”, diz.

Publicado originalmente em G1 | 16/11/2014

O conteúdo exclusivo da Amazon é o próximo grande desafio para o mercado editorial?


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 26/09/2014 | Tradução Marcelo Barbão

Alguém mais inteligente [ou mais paciente para verificar todos os dados] do que eu poderia provavelmente descobrir em que ponto se encontra esta bifurcação, mas a Amazon está fazendo o máximo para construir uma quantidade importante de conteúdo que é desejável e não está disponível para mais ninguém a não ser ela mesma.

Isto é algo que você consegue fazer quando controla perto de 70% das vendas de e-books e já tem mais da metade das vendas totais de muitos trabalhos de ficção, que é onde o mundo da autopublicação é mais forte. Não é uma oportunidade que está disponível para nenhuma outra livraria. A Apple tentou explorar e-books mais complexos para os quais forneceram ferramentas de construção de e-books e, supostamente, oferecem o ambiente de distribuição mais produtivo para conteúdo complexo. Mas estão trabalhando em um solo menos fértil e não têm nada parecido a um setor importante da audiência necessário para avançar muito com esta estratégia.

É difícil, se não for impossível, imaginar que qualquer outro ecossistema de e-books poderia oferecer os benefícios que fariam com que alguém evitasse a Amazon.

Dois acontecimentos recentes chamam a atenção para isso.

David Streitfeld informa no New York Times que a Amazon tem formado um conclave privado, apenas por convite, com escritores nos últimos quatro anos. Eu sabia disso antes porque sou assinante do Publishers Lunch e eles informaram sobre isso há uns três anos. [Gosto de falar que você deve seguir meu sócio na organização de conferências, Michael Cader, proprietário do Publishers Lunch, quando quiser informações e depois pode me seguir para ver as opiniões.]

É algo inteligente e sensível que a Amazon está fazendo. A empresa tem se mostrado bastante preocupada com a capacidade dos escritores de promover seus próprios livros para suas audiências, mas também de promover o Kindle Direct Publishing entre seus pares. Trazer autores para uma conversa privada a fim de trocar ideias não é apenas adulador para os convidados [um benefício para a Amazon], quase certamente também mostra como ter maior sucesso cortejando autores no futuro. Isso não deveria ser visto pejorativamente, apesar de que a matéria de Streitfeld e um post no blog da empresa parecem posicionar a coisa desta forma.

O outro é a ruminação em público de Hugh Howey sobre se ele deveria aceitar a exclusividade com a Amazon, na qual Howey se pergunta em voz alta se deveria continuar exclusivo com a Amazon depois do período de teste de 90 dias baseando-se em seu cálculo de que sua audiência [talvez de forma contraintuitiva] vai aumentar enquanto sua renda vai sofrer um pequeno golpe. Tive uma conversa off-line com Hugh na qual ele enfatizou o que seu post afirma: ele realmente não sabe que caminho seguir.

[Vale a pena notar, como faz Hugh, que quando ele tomar estas decisões, elas são compromissos de 90 dias de cada vez. Claro, cada vez que ele muda acaba tendo trabalho, seja colocando os títulos em outras livrarias ou tendo que retirá-los. Mas ele pode receber os benefícios da exclusividade da Amazon em porções de 90 dias sem compromissos além destes dias, podendo entrar e sair quantas vezes quiser. Hugh faz o que na minha opinião é uma comparação inválida e inútil com os acordos de direitos autorais por toda a vida que as editoras pedem em troca de adiantamentos contra royalties e investimentos em inventário que a Amazon e outras livrarias não fazem com os autores autopublicados, mas ele está certo de que é muito mais fácil tomar uma decisão quando você só tem que viver com ela por três meses.]

Seu processo de pensamento aberto se tornou o assunto de um post de Chris Meadows no Teleread. Uma coisa que Hugh estava pensando era se ele precisava ajudar a manter alternativas à Amazon viáveis contribuindo com seu conteúdo. Meadows diz que “isso não é seu problema” e concordo com ele. Cada escritor deveria tomar as decisões editoriais que são melhores para sua marca pessoal e carreira. A primeira decisão – se uma editora oferecer alguma escolha – é se deve aceitar um adiantamento e um acordo ou se deveria se autopublicar. Se preferirem a autopublicação, precisam decidir se querem ser exclusivos da Amazon ou tentar uma distribuição mais ampla possível.

A escolha reflexiva e intuitiva é conseguir a maior distribuição possível. Há certos leitores que não compram nunca na Amazon, preferindo outras livrarias. O número destas pessoas poderia até crescer por causa da recente publicidade sobre a disputa com a Hachette e os ataques contra a Amazon feitos por Authors United. Certamente há algumas pessoas que acham importante não comprar na Amazon ou comprar o mínimo possível deles. [Eu até sou amigo de algumas dessas pessoas.]

Mas com a enorme fatia de mercado da Amazon, a capacidade que ela possui de promoção tanto através do comércio normal quanto da exposição especial como seu serviço de assinatura Kindle Unlimited, e sua disposição a dar uma força nas escalas financeiras [autores do KDP Select recebem royalties maiores; recebem bônus para os que mais vendem e os maiores títulos do KU], podem compensar o que poderia ser perdido ao evitar outros canais de distribuição.

A ideia de que ter conteúdo que não está disponível em outro lugar pode fortalecer uma livraria, não é algo exclusivo da Amazon. Foi um componente central da estratégia originalmente anunciada pela livraria iniciante Zola Books.

A Amazon ainda não sugeriu que “conteúdo só disponível aqui” era parte importante de sua estratégia de marketing. [Atualização: Fui corrigido aqui. Na verdade, eles promovem sim o conteúdo exclusivo, tanto em comunicados de imprensa quanto em sua promoção online Kindle Unlimited. Eles anunciam “mais de 500 mil títulos digitais que você não encontra em nenhum outro lugar”]. A conversa sobre exclusividade ou não esteve principalmente [deveria ser: amplamente] confinada ao diálogo deles com os autores. Na verdade, o resto do mundo editorial empurrou a empresa nesta direção ao resistir a estocar livros da Amazon Publishing. Se, em um primeiro momento, o recrutamento de autores pela Amazon poderia ter significado a esperança de uma distribuição ubíqua de seus livros, o caminho para as livrarias foi efetivamente bloqueado pois os concorrentes de tijolos não quiseram apoiar o programa deles.

A revolução da autopublicação, apesar do entusiasmo de seus maiores defensores [que definitivamente incluem Hugh Howey], só conseguiu fazer pequenas incursões entre autores que possuem a opção de um substancial adiantamento pelas editoras tradicionais. Por este motivo, o conjunto de autores exclusivos da Amazon conta com poucos que poderiam mudar a escolha do consumidor de livros [exceto talvez com algum livro em particular].

Mas se alguém que vende bastante como Hugh Howey acha que poderia estar melhor aceitando os termos padronizados de exclusividade da Amazon, é um sinal perigoso para todo o resto do ecossistema editorial. Uma editora tradicional ainda oferece visibilidade em livrarias de tijolos e ganhos que a Amazon e qualquer esforço de autopublicação não consegue oferecer. A transferência de parte do mercado das lojas para online e de impresso a digital não terminou. Toda porcentagem do mercado que muda fortalece a proposta da Amazon de exclusividade e aumenta a possibilidade de que um autor de alta visibilidade fará o salto para a autopublicação. A combinação dos dois – autores com muita marca pessoal e exclusividade com a Amazon – está entre as inevitabilidades menos desejadas que o resto da indústria terá que enfrentar provavelmente nos próximos anos, se não forem meses.

A questão é que a Amazon já está juntando um repositório de conteúdo que ninguém mais tem. Quando isso vai chegar ao ponto de começar a influenciar um grande número de consumidores é outra história.

Está programada para a Digital Book World uma apresentação de Judith Curr, muito relevante para este post, presidenta da divisão Atria da S&S, sobre a matemática da decisão que o autor deve fazer para decidir se deveria procurar uma editora ou autopublicar. A divisão de Curr trabalha muito para recrutar novos autores e, na verdade, Peter K. Borland, que dirige a Keywords Press da Atria, uma parceria com a UTA para publicar livros de “influenciadores digitais” de sucesso [pessoas com grandes audiências no YouTube], participará de um painel de “novas editoras” que estão criando suas marcas. Os outros participantes naquele painel – Entangled e Georgia McBride Media – não possuem raízes nas Cinco Grandes.

Quando estávamos prontos para subir este post, começou a correr um rumor sobre um novo programa da Amazon para recrutar mais autores autopublicados. A ideia é que as apresentações de manuscritos e capas recebam uma resenha a partir do crowd-source; então os mais votados são “considerados” para um novo tipo de contrato de publicação da Amazon. Isso não parece ter sido anunciado “oficialmente”, mas dizem que a fonte foi uma conversa com uma pessoa da Amazon e quem informou, The Digital Reader, é normalmente um lugar confiável. Esta iniciativa seria uma evidência ainda maior de que a Amazon está usando sua plataforma para controlar a distribuição do conteúdo gerado pelos autores.

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 26/09/2014 | Tradução Marcelo Barbão

Mike Shatzkin

Mike Shatzkin

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].

A obsessão da Amazon


Country manager da Amazon no Brasil falou com exclusividade ao PN

Em entrevista concedida com exclusividade ao PublishNews no fim da tarde de ontem, Alex Szapiro, country manager da Amazon no Brasil, repetiu a palavra obsessão quatro vezes. Isso demonstra a forma com que a varejista começa a operar com livros físicos no Brasil. No papo de ontem, encontramos um Alex relaxado, bem humorado e falante. Ele falou um pouco sobre a relação da Amazon com as editoras, sobre como foi montar o gigantesco catálogo de mais de 150 mil títulos em português e, finalmente, respondeu a uma pergunta que o PublishNews fez em 2012, quando a Amazon começou as vendas de livros digitais por aqui. Leia abaixo a íntegra do papo com o executivo.

PublishNews – Finalmente, a Amazon começa a vender os livros físicos no Brasil…

Alex Szapiro – Pois é… A gente está extremamente feliz de estar lançando a loja de livros físicos. Acho que mais do que lançar, tem alguns pontos que a gente tem que trazer à tona. Estamos lançando a loja com o maior catálogo de livros em português do Brasil. Isso é uma coisa importante. Tem mais de 150 mil títulos. Acho que vocês acompanharam a Amazon e sabe da nossa obsessão em ter certeza de que a gente vai ter um catálogo muito bom, não só dos best-sellers, mas também de títulos de cauda longa, de backlist. A gente é bem obsessivo nesse aspecto. O segundo ponto é a logística. Em alguns CEPs da cidade de São Paulo, para pedidos feitos até as 11h da manhã, a gente entrega no dia seguinte. Isso é uma coisa importante.

PN – E há prazos máximos para entrega?

AS – Não sei te dizer. Pode ser mais de dois dias mesmo dentro da cidade de São Paulo. Depende da área, da rota… Mas mais importante que o prazo, tem duas coisas da Amazon. Uma que a gente tem certeza daquilo que a gente promete é o que a gente pode cumprir. Isso não acontece só agora com o início da loja de livros. Mas isso já acontecia desde antes, quando começamos a oferecer um produto físico no Brasil que foi em fevereiro, quando a gente começou a vender o Kindle da própria Amazon. A gente é muito conservador nessa questão. Ou seja, o prazo pode ser de sete a nove dias, mas eu prefiro falar que é nove. A segunda coisa, a gente está lançando uma promoção: para compras acima de 69 reais, frete grátis para todo o Brasil. Se você está comprando dois ou três livros, não importa em que parte do Brasil você esteja, o frete sairá gratuito nas compras acima de R$ 69.

PN – É uma promoção ou é uma política?

AS – É uma promoção. A gente pode mudar a qualquer momento. Não tem uma data. Nesse momento, não sei quanto tempo vai durar

PN – Há planos para praticar frete grátis no Brasil?

AS – A gente não fala de nenhum plano futuro. O plano para agora é frete grátis para compras acima de R$ 69. Uma outra coisa é a vantagem de todas as ferramentas e tecnologia de descoberta e de recomendação de livros que a Amazon tem. Não é que a gente começa do zero. A gente começa com quase dois anos de experiência. Já tem toda uma história com os consumidores digitais. Para essa experiência, a gente não usa só dados do Brasil, mas de todo o mundo. Dados de correlação de compra, de produto, de título, de gênero, etc e tudo isso está aplicado na loja de livros físicos. Isso é uma coisa muito muito importante.

PN – A legislação brasileira garante a devolução de produtos em um prazo bem menor do que o oferecido pela Amazon, de 30 dias.

AS – O que o Procon fala que você pode devolver um item em até sete dias, a Amazon tem dá 30 dias. Mostra como a gente pensa. Se alguém ligar para mim daqui a vinte dias e falar que comprou um livro e quer devolver, nós vamos aceitar.

PN – E você não acha que as pessoas vão abusar dessa facilidade?

AS – Evidentemente a gente tem tecnologia para saber se um cliente faz isso uma, duas, três ou quatro vezes. A gente trabalha em prol do consumidor. Se isso acontecer, não é por causa de um ou outro caso como esse que a gente tem que prejudicar todas as outras pessoas honestas. É assim que a Amazon trabalha.

PN – Qual o efeito a Amazon espera em suas vendas digitais com o início das vendas físicas? Consumidores de livros físicos serão convertidos ao digital?

AS – Isso é uma coisa muito importante que está no DNA da Amazon e que não tenho visto por aí. A experiência digital e física ao mesmo tempo. No mundo todo, a nossa visão é dar a escolha ao cliente. A escolha entre o físico e o digital é uma escolha do cliente. A gente sabe que o digital traz uma série de vantagens. A gente sabe também que a pessoa que lê no digital acaba lendo mais. A história nos diz que quando um cliente não Kindle e passa a ser um cliente Kindle, ele não para de comprar livros físicos, mas ele passa a comprar, em média 3,9 vezes mais livros. Então é uma coisa muito salutar. E, claro, o livro digital tem uma série de outros benefícios: não tem estoque, não tem impressão, não tem frete. Se ele virou obsoleto, a partir do pressuposto que não terá mais nenhuma tiragem, mas a editora ainda tem os direitos autorais, ele pode ser vendido para sempre. Ou talvez, você acaba de vender um livro físico e as vendas foram muito maiores do que você esperava. Até você fazer a reimpressão e etc… se você tem um livro digital, você não perde a venda. Um exemplo disso é o livro Assassinato de reputação, de Romeu Tuma Jr. Ele lançou o livro no final do ano passado e teve uma cobertura da mídia. O livro esgotou em horas. A editora [TopBooks] então colocou o livro a venda via KDP, via autopublicação, e o livro não parava de vender. É uma ótima maneira de muita gente que nunca tinha testado o digital, testar. Não importa se você vem pelo livro ou pelo livro digital, a experiência é a mesma. Os metadados, e você tem sempre a opção de comprar o livro físico ou o livro digital. Baseado nisso, a gente está lançando uma coisa interessante. Junto com o lançamento da loja, a gente está oferecendo uma funcionalidade que a gente chama de Leia Enquanto Enviamos. Isso é uma coisa muito legal para o brasileiro. Não é para todo o catálogo. Dos mais de 150 mil títulos, temos mais ou menos 13 mil nessa disponibilidade. Quando você fechar o pedido, ele vai te perguntar se você quer começar a ler o livro enquanto a gente te manda o livro. E aí você começa a lê-lo no Cloud Reader e aí, evidentemente, você pode começar a ler pelo Kindle App, pelo seu smartphone, no seu tablet ou no seu Kindle. Essa é a mentalidade que a gente está trazendo para a abertura da loja.

PN – E há planos para expandir esse número de 13 mil títulos dentro dessa funcionalidade?

AS – Sem dúvidas. E essa expansão se dá dentro do crescimento do catálogo digital. Quando a gente abriu a loja há 20 meses, a gente abriu a loja digital com 13 mil títulos. Hoje temos mais de 35 mil. Então, se você analisar, em 20 meses, quase que triplicou. A nossa obsessão é estar sempre melhorando o catálogo. Pode ter certeza de que esse catálogo está crescendo.

PN – E por falar em catálogo, foi muito difícil levantar esses 150 mil títulos? Foi mais trabalhoso do que o esperado?

AS – O que você chama de muito difícil? Eu recebi muitas perguntas quando a gente lançou a loja de livros digitais e eu não tenho nenhum problema em responder isso. Toda as vezes que você vai começar uma relação comercial. Em especial para a Amazon que não estava no País. E toda negociação comercial, até você chegar no que é bom para ambas as partes, tem um Delta T, um esforço. E isso aconteceu há vinte meses. Como os publishers veem a relação com a Amazon, o que eles acham da forma como tratamos os livros digitais, eles é que precisam responder. Eu não posso julgar. Quem tem que julgar é o nosso consumidor e talvez alguns dos nossos fornecedores. Sempre faço um paralelo: se você vai comprar uma casa amanhã, eu imagino que você vá fazer uma negociação até fechar preço, contrato etc… Você não vai chegar e falar: vou comprar essa casa e pronto. Você fala que quer assim ou quer assado. Então, isso aconteceu muito há dois anos. Foram negociações que fazem parte até que a gente começasse a vender. Nós trabalhamos para o bem comum que atender ao consumidor que quer comprar um livro. Seria estranho se uma editora falasse que não quer vender. É claro que ela tem a opção de falar “olha, eu não quero vender para esse fornecedor”. E para você ter ideia, estamos lançando e o total do nosso catálogo representa mais de 2.100 editoras.

PN – Por que o Matchbook, programa da Amazon que permite que leitores que adquirem o livro físico comprem o digital com um preço que é uma fração do valor, não está sendo oferecido aqui? Há planos para oferecê-lo?

AS – A gente não comenta planos futuros. Você poderia me perguntar também se vamos oferecer o Kindle Unlimited. A gente não fala disso.

PN -Então perguntando algo do passado. Quando, há vinte meses, a Amazon chegou vendendo os e-books e lançando o Kindle no Brasil, o PublishNews perguntou para você o que era ser livreiro no Brasil. Na época, você disse que não dava para responder ainda a essa pergunta. Passados esses vinte meses, você tem uma resposta para essa pergunta?

AS – A gente é mais do que livreiro (risos). O que eu posso te responder é que a Amazon tem essa obsessão e a gente trabalha muito nisso. A gente tem a premissa de começar pelo cliente e, a partir dele, a gente vai para trás. Tudo o que a gente faz, a gente olha o que o cliente quer e como a gente pode atendê-lo. A forma como a gente bola nossos serviços e nossos produtos está baseado muito no cliente. Para mim, a minha visão de ser livreiro é o que a gente tem para fazer para atender o leitor. É ter certeza de que a gente tem um catálogo completo e catálogo é uma coisa viva, precisa estar sempre crescendo. Ter certeza de que a gente tem uma facilidade de busca. A maneira como coloco o gênero, a maneira como faço o merchandising é realmente a melhor maneira? Não tem coisa mais chata do que você estar procurando um livro, entra na loja e não encontra. Não vou dizer que isso não acontece na Amazon. Acontece com a gente também, mas a gente tem que trabalhar para que isso não acontecer. Outra coisa é: está tudo funcionando? A experiência é uma experiência fácil? Ou seja, eu não tenho que colocar cinquenta passos para que a pessoa compre o que quer. A terceira coisa é a “descobertabilidade”, a facilidade de descoberta. A pergunta é: a gente está fazendo o papel do bom livreiro que é ajudar você a descobrir produtos, de ter boas ofertas e ter certeza de que a minha tecnologia funciona? Se a resposta for sim, isso é ser um bom livreiro no Brasil. Para mim esse é o DNA do livreiro.

Por Leonardo Neto | PublishNews | 21/08/2014

Com 150 mil títulos, Amazon começa a vender livros físicos no Brasil


No lançamento, varejista oferece frete grátis em compras acima de R$ 69

A partir dessa quinta-feira [21], os brasileiros poderão finalmente comprar livros físicos pela Amazon. Para o início das operações, a varejista compôs um catálogo de 150 mil títulos. Para marcar o lançamento, a Amazon oferecerá frete grátis para compras acima de R$ 69 e entrega no dia seguinte para compras feitas antes das 11h da manhã por consumidores de algumas localidades da cidade de São Paulo. Em entrevista que concedeu nesta quarta-feira, com exclusividade ao PublishNews, Alex Szapiro, country manager da Amazon no Brasil, disse que outra funcionalidade estará disponível imediatamente aos brasileiros. É o Leia Enquanto Enviamos, que permitirá que o cliente comece a ler o livro no digital – por meio do Kindle Cloud Reader – enquanto é feito o envio do livro físico. Essa funcionalidade está disponível para 13 mil títulos, com possibilidade de expansão. “Essa experiência que transita entre o digital e o físico ao mesmo tempo está no DNA da Amazon”, disse ao PublishNews.

Catálogo

O catálogo de 150 mil títulos é composto por obras de 2.100 editoras. Os títulos vão desde os best-sellers até livros de fundo de catálogo. “Estamos lançando a loja com o maior catálogo de livros em português do Brasil. Quem acompanha a história da Amazon sabe da nossa obsessão em ter certeza de que temos um catálogo muito bom, não só composto por best-sellers, mas também por títulos de cauda longa e de backlists”, disse Szapiro.

Logística

De acordo com Szapiro, outa obsessão da Amazon é pelo cumprimento de prazos prometidos. Para alguns CEPs da cidade de São Paulo, para pedidos feitos até as 11h da manhã, a Amazon promete entregar no dia útil seguinte. Para as demais localidades, a Amazon trabalha com prazos distintos. “A gente tem certeza de que aquilo que a gente promete é aquilo que a gente pode cumprir”, defendeu. “Isso já acontecia desde antes, quando começamos a oferecer o Kindle”, completou o executivo. O frete grátis para compras acima de R$ 69 vale para todo o território nacional. Outra inovação apresentada pela Amazon é a possibilidade de o cliente devolver o livro dentro do período de 30 dias, caso o produto não atenda às suas expectativas. Ao ser perguntado sobre a possibilidade de alguns clientes se aproveitarem dessa facilidade para comprar livros, ler e depois devolver, Szapiro disse que usará a tecnologia contra esses casos: “a gente tem tecnologia para saber se um cliente faz isso uma, duas, três ou quatro vezes. A gente trabalha em prol do consumidor. Não é por causa de um ou outro caso como esse que a gente tem que prejudicar todas as outras pessoas honestas. É assim que a Amazon trabalha”.

Retrospecto da Amazon no Brasil

A Amazon começou a operar no Brasil em dezembro de 2012, com o lançamento da Amazon.com.br, da loja Kindle Brasil, do Kindle Direct Publishing [KDP] e dos e-readers Kindle que eram oferecidos em lojas da Livraria da Vila e do Pontofrio.com. No ano passado, a varejista lançou a Amazon Appstore no Brasil e, no começo de 2014, iniciou as vendas de Kindle e Kindle Paperwhite diretamente pelo seu site. Agora, além do lançamento da loja de livros físicos, a Amazon fará o seu debut em uma bienal. Pela primeira vez, a varejista terá um estande na Bienal do Livro de São Paulo, que começa na próxima sexta-feira [22].

Por Leonardo Neto | PublishNews | 21/08/2014

Autopublicação – uma “revolução” no mercado editorial?


Por Felipe Lindoso | Publicado originalmente em PublishNews | 23/07/2014

Certamente um dos fenômenos mais impactantes dos últimos anos na indústria editorial foi o desenvolvimento do mercado de e-books. Apesar de várias tentativas anteriores, esse mercado começou a existir de fato e a se desenvolver a partir do momento em que a Amazon lançou seu e-reader Kindle, em 2007.

O sucesso do Kindle se deveu, certamente, à pressão que a Amazon desenvolveu, nos meses prévios ao seu lançamento, para que as editoras disponibilizassem versões eletrônicas de seus títulos. A digitalização dos livros dos acervos editoriais não começou ali, entretanto. Há vários anos as editoras já vinham digitalizando os livros em função de dois fatores: a] facilidade de produção editorial. Era muito mais fácil e prático desenvolver a produção editorial a partir de arquivos eletrônicos, principalmente com o lançamento de softwares específicos para isso; 2] os sistemas de print-on-demand. Desde meados dos anos 1990 o mercado editorial dos EUA, principalmente, e também os europeus, já vinham usando os sistemas de POD para otimizar seus estoques e revitalizar o fundo de catálogo. A McGraw Hill foi pioneira nisso, e foi logo seguida pelas outras grandes indústrias.

O lançamento do Kindle e dos livros eletrônicos também deveram muito do sucesso à oferta de conteúdo com preços de capa substancialmente inferiores aos dos hard-covers, ou mesmo das edições de bolso, de capa mole e mais populares. A razão disso, evidentemente, era a eliminação dos custos de impressão e a substancial redução dos custos de logística. Para distribuir e-books, não era mais necessário ter caminhões atravessando o país, carregados de livros. Note-se, também, que o Kindle usa um formato específico. Na verdade, o que é particular é o tipo de DRM que a Amazon usa, que foi desenhado especificamente para facilitar o engajamento dos clientes dentro do seu ecossistema. O formato é o Mobi [que havia sido desenvolvido pela Palm e adquirido pela Amazon]. A empresa se recusou a usar o formato e-Pub, desenvolvido por um consórcio, o International Digital Publishing Forum e usado por todos os demais leitores.

Mas o tema que estou tratando aqui começa a tomar forma já nos aos 2000, quando surgem as primeiras plataformas de autopublicação. Em 2007 a Amazon lança o KDP – Kindle Direct Publish, que permite também que os autores publiquem em formato digital para venda direta na Amazon. Hoje, entretanto, existem talvez centenas de plataformas de autopublicação, algumas gigantescas como a Lulu.com nos EUA. O modelo se espalhou, e aqui mesmo no Brasil temos plataformas já com milhares de autores, como o Clube de Autores, a PerSe e mesmo editoras tradicionais que já se embrenharam no nicho, como a Saraiva e seu PubliqueSe. Não pretendo listar aqui, nem como exemplos, outros sites. Mas eles se multiplicam como fungos.

As duas questões que interessam aqui são:

– Isso é novidade?

– É uma revolução?

Novidade não é. A autopublicação tem uma longa história. O autor pagar para publicar, ou ele mesmo produzir sua obra é fenômeno antigo. A rigor, pode se dizer que a indústria editorial já tinha isso desde o começo. As gráficas se desenvolveram depois da invenção de Gutenberg, e publicavam as obras pagas pelos autores. O surgimento e o desenvolvimento das editoras, tal como entendemos hoje, foi um processo longo e complicado. Mesmo aqui no Brasil, por volta dos anos 1920, muitos autores fundamentais, como Oswald de Andrade, tiveram que pagar pela publicação de seus primeiros livros. E sempre existiram editoras-gráficas que produziam livros por conta dos autores. Nos EUA eram conhecidas como “Vanity Press”. Algumas daqui chegaram a ter bastante prestígio como a Massao Ohno. E a Scortecci continua aí, progredindo e trabalhando com equipamentos de impressão digital.

O segmento da autopublicação, até o advento do e-book, embora tivesse uma presença até significativa em número de títulos, era uma parte bem pequena do mercado editorial. Em alguns círculos, aliás, tinha certa conotação negativa, certamente estimulada pelas editoras constituídas. E, comparados com os de com hoje, os preços eram altos, e certamente não havia nada grátis. O conceito estava indissoluvelmente ligado a pagar para ser publicado. Além do mais, o problema da distribuição era insolúvel.

Meu amigo Márcio Souza há anos fez uma piada, dizendo que é mais fácil se livrar de um cadáver que de mil exemplares de um livro. O sujeito publicava seu título, recebia os mil exemplares [as tiragens em máquinas planas eram necessariamente maiores, por conta do custo básico de composição, diagramação, etc.], atochava tudo na sala da sua casa e saía com os exemplares debaixo do braço para dar de presente para amigos, conhecidos, quem pintasse pela frente. Distribuir mil exemplares é uma tarefa hercúlea. Os amigos começavam a trocar de calçada quando viam o indigitado autor no horizonte, e de longe diziam “Já tenho, você já me deu três exemplares de presente”.

Isso mudou.

Os programas de automáticos de editoração são fáceis de usar, e essas plataformas penduram os títulos nos servidores e os colocam no site. Sentadinhos à espera de compradores. As melhores e mais sofisticadas oferecem também a possibilidade de impressão sob demanda, tanto para o autor quanto para o eventualíssimo comprador, que pode optar por receber o exemplar impresso em vez de e-book.

É uma revolução?

Sinceramente, não acredito.

As razões são várias.

Primeiro, o fato é que certamente abriu um segmento de mercado para os editores que vendem, sob demanda, os mais variados serviços. Desde editar o texto – no sentido de corrigir, emendar, dar coerência e um mínimo de estrutura narrativa ao material entregue pelos pretensos autores, até a elaboração de capas, providências para registro na BN [os autores amadores acham isso fundamental, para evitar serem plagiados posteriormente…] e inscrição no ISBN. Quando algum exemplar é vendido no site, a comissão é cobrada.

Em segundo lugar, a ideia de que a distribuição [isto é, a venda] deixou de ser problema porque o livro está disponível na web revelou-se uma completa ilusão. Aliás, essa também foi um aprendizado para as editoras tradicionais.

Estar disponível não significa ser descoberto e lido. Muito pelo contrário. Com o crescimento geométrico do número de títulos, fica cada vez mais difícil que um título seja descoberto por seu possível leitor para além do círculo família e das amizades. E esses querem o livro de graça.

Na verdade, os custo de marketing, divulgação e “descobribilidade” [ainda não descobri, literalmente, uma palavra menos esdrúxula para o problema, e aceito sugestões], no âmbito das editoras tradicionais, hoje às vezes ultrapassam os custos agora inexistentes de impressão e logística. E essa é uma das razões pela qual há cada vez mais resistência por parte das editoras estabelecidas a diminuir ainda mais o preço dos e-books.

Certamente isso pode ser compensado,  pelo menos em parte, pelos autores autopublicados, por um intenso esforço de divulgação nas redes sociais. Mas, com certeza, a taxa de sucesso é baixíssima.

Essa questão da descobribilidade dos livros já provocou até um mercado “subprime” de resenhas picaretas. Os espaços para resenhas dos leitores começaram a ser ocupados por “resenhadores” profissionais, pagos por autores para elogiar seus livros. Quando o assunto foi divulgado, a Amazon colocou no seu sistema que só podia postar resenha alguém que houvesse comprado o livro. Parece que só aumentou o custo dos “resenhadores” profissionais, que passaram a incluir o preço da compra do livro no pacote de serviços…

A análise do DigitalBook World do novo programa da Amazon, o Kindle Unlimited, publicado no dia 21/7, diz que, dos 600 mil títulos disponíveis no programa, mais de 500 mil são do programa KDP. Ou seja, autopublicados. As plataformas Oyster e Scribd também incluem um número considerável desses títulos, mas as grandes editoras têm optado por elas em vez do programa amazonian.

Certamente, no meio dessa profusão, aparecem autores que fazem sucesso, e esses são os escolhidos como exemplos para atrair os demais. É o mesmo processo de “peneira” que acontece na edição tradicional.

Em conclusão, penso que esse fenômeno da autopublicação reflete, efetivamente, uma abertura de possibilidades com os e-books. Mas está muito, muito longe de ser qualquer tipo de revolução. Continua sendo, na verdade, um espaço para quem quer brincar de ser autor. Uma matéria recente publicada na Folha é exemplar: o bancário aposentado Toshio Katsurayama, de 71 anos, escreveu um livro sobre sua mãe. Escreveu, procurou várias editoras e não achou quem o publicasse. Contratou a consultoria “Tire Seu Livro da gaveta”, gastou cinco mil reais e realizou seu sonho de “brincar de ser escritor”. Toshio ficou feliz, e deixou também feliz o Cássio Barbosa, dono da consultoria e do Reino Editorial, que preparou a editoração e publicou o Toshio. Barbosa faz parte desse ainda pequeno mas crescente segmento de editores que presta serviços para os autores que querem ser auto-publicados, que não pagam mais pela impressão, mas pagam por esse tratamento de seus textos.

Todos felizes.

Mas isso não é nenhuma revolução. Só ficou mais fácil cumprir a antiga máxima que rezava que todos na vida deveriam ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro. Mas ninguém fala incluía no ditado que o livro só existe mesmo se for lido e disser algo relevante para um público, mesmo que pequeno.

Por Felipe Lindoso | Publicado originalmente em PublishNews | 23/07/2014

Felipe Lindoso

Felipe Lindoso é jornalista, tradutor, editor e consultor de políticas públicas para o livro e leitura. Foi sócio da Editora Marco Zero, diretor da Câmara Brasileira do Livro e consultor do CERLALC – Centro Regional para o Livro na América Latina e Caribe, órgão da UNESCO. Publicou, em 2004, O Brasil pode ser um país de leitores? Política para a cultura, política para o livro, pela Summus Editorial. Mantêm o blogwww.oxisdoproblema.com.br

A coluna O X da questão traz reflexões sobre as peculiaridades e dificuldades da vida editorial nesse nosso país de dimensões continentais, sem bibliotecas e com uma rede de livrarias muito precária. Sob uma visão sociológica, este espaço analisa, entre outras coisas, as razões que impedem belos e substanciosos livros de chegarem às mãos dos leitores brasileiros na quantidade e preço que merecem.

Rose Marie Muraro lança livro digital


Autora utilizou plataforma de autopublicação da Amazon

A mulher no terceiro milênio [R$ 19,90], de Rose Marie Muraro, acaba de ser lançado como livro digital na Loja Kindle Brasil, que pode ser acessada pelo site amazon.com.br, e está disponível a usuários dos e-readers Kindle e dos aplicativos gratuitos de leitura Kindle para smartphones, tablets e computadores. A autora está utilizando a plataforma Kindle Direct Publishing [KDP] da Amazon, que permite a autores publicarem com facilidade suas obras sem custos e garantindo ganhos de até 70% em royalties Segundo Rose, 12 livros de sua coleção serão oferecidos como e-books pelo KDP, os demais serão publicados ao longo do ano.

PublishNews | 19/02/2014

Piratas à venda


Plataforma de autopublicação da Amazon dá margem ao comércio de obras que lesam detentores de direitos autorais e consumidores

A ferramenta de autopublicação da varejista Amazon, que tanto facilita a vida de escritores interessados em publicar e-books sem intermédio de editoras, tem estimulado um mercado que prejudica detentores de direitos autorais e consumidores.

A plataforma Kindle Direct Publishing [KDP], cuja versão nacional estreou no fim de 2012 no site Amazon.com.br, permite a autores pôr livros no ar em minutos, ganhando de 35% a 70% do valor de capa da obra, enquanto no mercado tradicional o autor fica com até 10%.

Mas a facilidade também dá margem para usuários da maior loja de e-books do mundo ganharem algum dinheiro sem esforço, simplesmente pegando obras disponíveis gratuitamente na rede, formatando-as sem cuidado e colocando-as para venda.

Para facilitar a vida desses editores improvisados, a loja mantém a privacidade de quem vende e-books pelo sistema de autopublicação. Ou seja, o consumidor não sabe de quem está comprando, a não ser que o responsável resolva se identificar.

A Amazon ressalta, nos termos do contrato do KDP, que os interessados só podem oferecer obras cujos direitos detenham ou que estejam em domínio público, ou seja, cujos autores tenham morrido há mais de sete décadas.

Mas é comum que aqueles que usam o sistema para vender obras alheias não chequem se suas traduções para o português também estão em domínio público –os tradutores também são protegidos pela Lei de Direito Autoral.

Assim, quem procurar “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, de Goethe, na Amazon, achará a obra na tradução de Marcelo Backes pela L&PM [R$ 6,65], mas também em uma edição mal diagramada, sem identificação de editora nem de tradutor, e mais cara que a da L&PM, a R$ 8,32.

A tradução não creditada é a do mineiro Galeão Coutinho [1897-1951], que só cai em domínio público em 2022.

A tradutora Denise Bottmann, que há anos denuncia fraudes envolvendo traduções no blog Não Gosto de Plágio, destaca que a falta de dados lesa o consumidor.

“No caso do Werther’, parece-me relevante que os leitores saibam que se trata de uma tradução dos anos 1940 de Galeão Coutinho. Isso permite inferir que foi feita [indiretamente] do francês [e não direto do alemão], que o estilo é o que prevalecia 70 anos atrás; aos interessados, o fato de o tradutor ser quem é há de ser relevante, por sua envergadura intelectual.”

Uma avaliação de leitor no site da Amazon, feita em dezembro de 2012, destaca que a edição é “mal formatada e malfeita”, mas a obra ainda estava à venda até ontem.

À Folha a Amazon informou que “respeita os direitos de propriedade intelectual”.

POR RAQUEL COZER | COLUNISTA DA FOLHA | Publicado originalmente em Folha de S. Paulo | 08/02/2014

Qual o preço justo de um eBook?


O Caminho do ArcoAs lojas de e-books da Kobo, Amazon e Google mal abriram suas portas virtuais e já começaram as reclamações sobre o preço dos livros digitais. “Livros a R$ 9,90 já!”, alguém postou no twitter. Outros acusavam os editores, mantendo-se a tradição de computar aos editores toda a responsabilidade pelo preço do livro considerado alto – infelizmente, o público leigo e até jornalistas costumam esquecer as altas margens das grandes redes que abocanham de 50 a 60% do preço de capa de um livro.

Os livros digitais estão caros demais?

Mas afinal, os livros digitais estão caros ou não? Para início de conversa, pegamos o preço dos 64 livros da lista de mais vendidos do PublishNews que estão no catálogo da Amazon brasileira e comparamos com os preços de capa das edições de papel. Jogando uma média simples, os livros digitais estão 36,2% mais baratos. Mas isto é pouco, muito ou o suficiente? Para analisarmos esta questão, precisamos entender melhor como a receita se distribui entre os vários agentes e custos da cadeia do livro físico e, então, comparar os resultados com a realidade digital.

Os custos de papel, impressão e logística física situam-se entre 20 e 25% do preço de capa de um livro. Vamos então considerar uma média de 22%. Os descontos para distribuidores e varejistas oferecidos pelas editoras situa-se entre 40 e 60%, então vamos trabalhar com 50% em média. E os direitos autorais giram em torno dos tradicionais 10% sobre o preço de capa. Ficamos assim para um livro com preço de capa de R$ 50:

O Livro Físico

Vale lembrar que são números aproximados e que podem variar de editora para editora. Acredito, no entanto, que estejam perto da realidade. Mas vejam que, neste modelo, a editora ficar com 18% do preço de capa ou R$ 9,00. E isto está longe de ser o lucro, pois desta contribuição a editora ainda precisa retirar os recursos para pagar seus custos fixos de salários, administração etc., além dos próprios custos fixos da produção editorial como tradução, revisão, diagramação etc.

E no mundo digital, como ficamos? Vamos a princípio manter o preço de capa de R$ 50 para o digital, mas agora o custo logístico desaba e o desconto comercial diminui. Obviamente não existe mais custo com impressão e papel, mas há custo logístico de distribuição, de DRM, de armazenagem. Vamos estimá-los em 2,5% do preço de capa. Ainda não se sabe bem qual a amplitude de desconto comercial que Kobo, Google e Amazon fecharam com os editores. A Apple costuma ficar nos 30% inspirada no modelo agência que ajudou a implementar nos EUA. A Kobo deve ter mantido mais ou menos o que era exercido por sua parceira Livraria Cultura. A Google não deve ter sido muito agressiva, já que o e-book em si não é seu principal negócio. A DRM, sempre procurou manter os mesmos descontos do físico, mas com certeza os editoras conseguiram aumentar sua fatia do bolo. E quanto a Amazon, cercada de mais NDAs [Non-DisclosureAgreements; Acordo de Não-Revelação] que o Neymar de fãs, ainda não é possível ter uma ideia clara de seus contratos. Mas como NDAs no Brasil não duram mais que um romance de verão, logo, logo todos já saberão sua faixa de descontos. Acho, no entanto, razoável imaginarmos os descontos concedidos para livrarias e distribuidores digitais na faixa dos 35 a 45%, e vou trabalhar aqui com uma média de 40%. Já os direitos autorais possuem forma de cálculo diferenciada, são negociados em cima do preço líquido e podem até aumentar. Por hora, vamos considerá-los na faixa dos 25%. Ficamos assim:

O Livro Digital

Como pode se observar, se o livro digital tiver o mesmo preço que o livro físico, a margem das e a fatia das editoras aumentam quase 150%, e realmente é injustificável que o preço digital seja igual ao físico. Se fossemos manter a mesma margem por livro digital vendido do modelo físico, ou seja, em R$ 9,00, o preço do e-book deveria ser R$ 21,18. Veja abaixo:

O Livro Digital com a Mesma Contribuição

Ou seja, neste nosso modelo, o livro poderia custar 57,64% a menos. Mas é claro que nada é tão simples assim. Como pode se ver, os autores teriam uma queda razoável de receita de R$ 5,00 [no livro físico] ou R$ 7,50 [no livro digital com mesmo preço de capa] para R$ 3,18. E em um momento em que a Amazon oferece até 70% de royalties em seu programa de self-publishing, o KDP, e em que outras empresas chegam até a 85%, como a americana SmashWords, acho difícil que os autores aceitem facilmente uma diminuição do valor bruto por livro vendido ainda que a porcentagem de direitos autorais fique fixa nos 25%. Outra questão é que o custo logístico tem um limite de redução em valores absolutos. Por isso, fiz o exercício de readequar a tabela mantendo os R$ 5,00 de direitos autorais e reduzindo a logística digital a apenas 1%. Ficamos assim:

O Livro Digital com Royalties e logística Ajustados

Portanto, se as premissas deste estudo estiverem corretas, os editores poderiam reduzir os preços dos livros digitais em 50%, de R$ 50,00 para R$ 25,00 e, ainda assim, manter a mesma contribuição em valores financeiros absolutos que têm no modelo físico.

Mas e se os descontos digitais não forem assim tão baixos?

Ainda a título de estudo, considerei um modelo em que o desconto comercial permanecesse em 50%:

O Livro Digital com a Mesma Contribuição 2

Ou seja, ainda que o desconto digital seja 50%, que os autores mantenham a mesma receita de 10% do preço de capa físico e que a logística seja fixada em R$ 1,00 por livro, os livros digitais poderiam ser vendidos a preços 40% inferiores ao preço de capa físico.

E por que isto não acontece?

A principal razão é que os editores ainda estão mais preocupados com seus negócios físicos do que digitais. E eles têm toda a razão em agir assim. Afinal, o mercado de livros digitais representa hoje menos que 0,5% do mercado de livros. Ao decidir qualquer coisa, portanto, o editor sempre pensa nas consequências para seus livros físicos e para o estoque no qual tanto capital ele investiu. E qual o maior medo do editor? Que uma queda do preço do livro digital mude a percepção de valor dos livros em geral por parte do consumidor-leitor e leve-o a exigir preços semelhantes ao digital para o livro físico sob a pena de não comprá-los. O pesadelo do editor seria ter de vender seu estoque físico a preços digitais para se livrar dele. Ou seja, as editoras têm receio, justificado, de que ao baixarem consideravelmente os preços dos livros digitais, haja uma canibalização radical, os leitores migrem radicalmente para o digital, e a percepção de valor dos livros seja o novo preço de capa digital. Considerando que todas as editoras possuem estoques razoáveis e grandes capitais investidos em papel e tinta, algo assim poderia até colocar em risco sua própria existência. Voltemos ao modelo, aplicando o preço digital de R$ 25,00 na tabela do livro físico:

O Livro Físico com Preço Digital

Como é possível notar, se a percepção de valor do livro físico alcançar os patamares dos possíveis preços digitais, as editoras passam a ter uma margem de apenas R$ 1,50 em suas vendas físicas. Entende-se, então o medo dos editores.

Conclusão

O livro digital pode custar de 40% a 50% a menos que o livro físico, mantendo-se a margem de contribuição em valores absolutos que vai para as editoras – eles ficam com uma fatia digital do mesmo tamanho que a fatia física. Os editores, no entanto, ainda têm o foco no mundo físico, responsável por 99,5% de seu faturamento, e temem o que grandes variações nos preços dos livros digitais podem causar na percepção do valor dos livros físicos. A queda do preço do livro digital, portanto, será um processo. Quanto maior for a fatia digital do mercado de livros, menos inseguros estarão os editores para baixar seus preços. E quanto mais o tempo passar, mais experiências de preço forem feitas e mais pressão os leitores exercerem, mais os preços tenderam a cair.

A queda do preço do livro digital em relação ao seu primo físico será um processo. E os preços cairão no máximo algo entre 40% e 50%. Mais do que isso, é utopia para a atual estrutura do mercado de livros.

Ainda falta falar do baixo custo marginal do livro digital e de como ele permite experiências rápidas com o preço dos livros, mais isto fica para um próximo post.

Por Carlo Carrenho | Publicadi originalmente no Blog Tipos Digitais | EM 11/12/2012 | Contribuíram Iona Teixeira Stevens e Matheus Perez