Questões preliminares sobre ePub3


Por Josué de Oliveira | Publicado originalmente em COLOFÃO | 1 de julho de 2015

O ePub3 é uma atualização do formato ePub que permite criar publicações digitais que operam com base em HTML5 e CSS3. Na prática, isso significa que e-books nesse formato podem conter recursos mais avançados, como áudios, vídeos, animações e certas interatividades. O IDPF, consórcio internacional que define os padrões do formato, o tem como aprovado desde 2011.

Quatro anos, e ainda assim publicar em ePub3 ainda é um desafio. Se as plataformas/ambientes de leitura dão trabalho aos mais simples arquivos ePub2, um formato mais avançado não encontraria caminho menos árduo. Os padrões variantes podem tornar a experiência um tanto complicada.

O que segue abaixo é um conjunto de observações preliminares que podem ajudar na hora de tomar a decisão de produzir ou não em ePub3, e, em caso positivo, como organizar os processos envolvidos.

Observação: o foco serão livros de texto. Não entraremos no terreno do layout fixo, assunto deveras mais complexo que ficará para uma outra ocasião.

Se você ainda está pensando no assunto, há duas questões gerais a considerar:

Não vai funcionar em todos os lugares.
Não se aventure sem ter isso em mente. O formato não é suportado por todos os aplicativos, e há variação entre os que oferecem suporte: o aplicativo iOS de uma loja pode aceitar determinado recurso que não funciona no aplicativo Android da mesma loja. Há ainda os eReaders, onde jamais funcionará. É necessário considerar essa realidade.

Podem ser necessárias várias versões.
A Coleção Ditadura, da Intrínseca, é exemplo disso. As diferenças entre as plataformas obrigaram a equipe a produzir nada menos que cinco versões de cada arquivo, uma vez que a versão “simples” [ePub2/mobi, sem recursos avançados e com preço final menor] também precisava ser lançada. O trabalho de gerenciamento, bem como de produção em si, pode ter um aumento exponencial, dependendo dos recursos que se quer utilizar. Deve-se avaliar o escopo do projeto e ver se há estrutura [e recursos] para isso.

Se já se decidiu por fazer, considere o seguinte:

A dificuldade provavelmente não está onde você imagina.
Num ePub3, o difícil não é a conversão em si para o formato nem inserir vídeos ou áudios. A conversão pode ser feita pelo próprio InDesign ou por um plugin acionado pelo Sigil, e a linha de código para chamar um vídeo ou áudio é tão simples quanto a que serviria para uma imagem. A dificuldade maior está justamente no gerenciamento da produção, sobretudo se também é necessário lançar a versão ePub2/mobi [e ainda a versão avançada para a Amazon!1], como falado acima. As dificuldades técnicas existem, naturalmente, mas — e aqui falo da minha própria experiência — é a organização do workflow que nos pega pelo pé.

1 A Amazon tem seu próprio formato para livros avançados, o KF8, que se assemelha ao ePub3 em alguns pontos. Logo, isso significa mais uma versão do e-book, agora atendendo as especificações desta loja. Detalhe: recursos como áudios e vídeos não funcionam no aplicativo do Kindle para Android, apenas iOS e, naturalmente, no Kindle Fire.

Testes, testes e mais testes.
Testes são um exercício de descoberta, como falei em outro texto. Não existe outra forma de aprender o que funciona e o que não funciona, das muitas possibilidades abarcadas pelo ePub3. Áudios, vídeos, notas em pop-up, conteúdos não lineares, javascript: é essencial conhecer o que o formato permite e refletir, a partir disso, como esses recursos podem beneficiar o projeto.

Como observação mais geral, deixo esta última:

Muito se fala sobre o uso do ePub3 [geralmente associado ao layout fixo] para publicações digitais destinadas ao público infantil, e de fato o formato cai como uma luva para livros desse tipo. No entanto, livros “adultos”, sobretudo de não-ficção, podem ser servidos pelo ePub3 de maneiras igualmente empolgantes. Bons exemplos são a biografia deGetúlio Vargas e A Grande Orquestra da Natureza [baixe uma amostra da Apple, encaixe os fones de ouvido e veja do que estou falando], em que mídias diferentes dialogam com a escrita e expandem a experiência de leitura.

Bem, estas são questões gerais que se impõem quando o assunto é produção de ePub3. Espero que possam ajudar você, editor ou autor, que está pensando no assunto.


Josué de Oliveira

Josué de Oliveira

Por Josué de Oliveira | Publicado originalmente em COLOFÃO | 1 de julho de 2015

Josué de Oliveira tem 24 anos e trabalha com e-books há pouco mais de três. Integra a equipe de digitais da editora Intrínseca, lidando diretamente com a produção dos mesmos, da conversão à finalização. É formado em Estudos de Mídia pela Universidade Federal Fluminense. Gosta de ler, escrever, ver filmes esquisitos e curte bandas que ninguém conhece. Tem alguns contos publicados em antologias e um romance policial que, segundo rumores, um dia ficará pronto.

Pense nos detalhes


Por Josué de Oliveira | Publicado originalmente em COLOFÃO | 1 de abril de 2015

O diabo, como dizem, mora nos detalhes. Naquelas coisas pequenas nas quais – pensamos, um tanto inocentes – ninguém vai reparar.

Em se tratando de e-books, há uma vasta gama de moradas possíveis. Já falamos sobre algumas: as variações de visualização entre plataformas, as gradações de cor numa capa, como adaptar títulos, formas de lidar com páginas de crédito de imagens… Não são questões que saltam aos olhos logo que se pensa sobre o todo da produção, mas estão lá e se impõem a qualquer desenvolvedor de e-books.

Vou falar sobre outra, agora –, para que fique ainda mais claro — , e vou usá-la para ilustrar um ponto que julgo importante:

Remissões

As remissões são trechos de um livro que fazem referência a outros trechos, anteriores ou posteriores, do mesmo livro. As formas como se apresentam podem variar muito.

Por exemplo, digamos que, num livro de não-ficção, o autor faça referência a um conceito apresentado na página 125. Ou que relembre o que disse no subtópico X do capítulo Y. Pode ser que a referência seja bem direta (“Ver página X” ou “ver nota 45?), pode ser que não.

O que o desenvolvedor e-book tem nas mãos aqui é uma questão semelhante a das notas e dos créditos de imagens: há um local sendo apontado e o leitor precisa chegar a ele. Como proporcionar isso?

Questão semelhante, resposta idem: links.

(Sim, sei que soa repetitivo, mas esse é um trabalho que depende muito de rotinas e práticas bem definidas. Soluções que abrangem mais de um problema são suas melhores amigas, então nunca é demais enfatizá-las.)

Num livro impresso, a reação de um leitor que queira seguir a indicação apresentada é voltar ou avançar até a página, tópico ou capítulo que é remetido. No e-book, simplesmente manter como está não faz sentido, tanto por uma razão negativa quanto por uma positiva.

A negativa: o número da página no livro impresso perde o sentido no meio digital; será uma informação inútil para o leitor. A positiva: o formato permite um tipo de movimentação pelo livro, através dos hiperlinks, que o impresso é incapaz de proporcionar. Trata-se, portanto, de uma questão de evitar as limitações e exaltar as potencialidades.

De que forma isso pode ser feito? Bem, vou dar apenas um exemplo, o da Intrínseca, onde trabalho. Quando há referências a outras páginas, substituímos o texto original por um que indique a presença do link.

Ver página X –> Ver aqui;

Ver nota Y –> Ver aqui;

Ver tópico XY ou

Como vimos no ponto Z… ou

Veja na nota XXX –> Ver tópico XY / Como vimos no ponto Z / Veja na nota XXX

Como dá para notar, o sublinhado é o elemento de destaque, chamando a atenção para o link.

Nosso padrão é esse. Referências com outro tipo de configuração são analisadas caso a caso, mas é pouco provável que se afastem deste princípio geral.

Voltando aos detalhes

O ponto que quero ilustrar é justamente este: por menores que sejam, não se pode fugir destas questões. Elas sempre estarão ali, e saber resolvê-las pode ser a diferença entre oferecer uma experiência razoável e uma muito boa.

O que me ajuda a estar pronto para lidar com alguns desses detalhes é ter um manual de estilo, desenvolvido com a ajuda do editorial, em que diversos padrões e soluções são descritos. Outras coisas “pequenas” que este manual contempla: padrão para legendas em encartes de imagens, padrão para lidar com tabelas longas, padrão para lidar com elementos separados por barras, padrão para adaptar com mapas… Um manual para o cotejo do e-book, explicando o que deve ser marcado para futuras correções, também é uma ótima pedida, já que o cotejador pode ficar atento a coisas que você sabe que podem estar lá.

A tentativa é ser o mais amplo possível, pescar cada pequeno detalhe e tentar dar a ele uma solução. O objetivo sempre é oferecer a melhor experiência, mesmo naquilo que passa despercebido.

Josué de Oliveira

Josué de Oliveira

Josué de Oliveira tem 24 anos e trabalha com e-books há pouco mais de dois. Integra a equipe de digitais da editora Intrínseca, lidando diretamente com a produção dos mesmos, da conversão à finalização. É formado em Estudos de Mídia pela Universidade Federal Fluminense. Gosta de ler, escrever, ver filmes esquisitos e curte bandas que ninguém conhece. Tem alguns contos publicados em antologias e um romance policial que, segundo rumores, um dia ficará pronto.