Autopublicação – uma “revolução” no mercado editorial?


Por Felipe Lindoso | Publicado originalmente em PublishNews | 23/07/2014

Certamente um dos fenômenos mais impactantes dos últimos anos na indústria editorial foi o desenvolvimento do mercado de e-books. Apesar de várias tentativas anteriores, esse mercado começou a existir de fato e a se desenvolver a partir do momento em que a Amazon lançou seu e-reader Kindle, em 2007.

O sucesso do Kindle se deveu, certamente, à pressão que a Amazon desenvolveu, nos meses prévios ao seu lançamento, para que as editoras disponibilizassem versões eletrônicas de seus títulos. A digitalização dos livros dos acervos editoriais não começou ali, entretanto. Há vários anos as editoras já vinham digitalizando os livros em função de dois fatores: a] facilidade de produção editorial. Era muito mais fácil e prático desenvolver a produção editorial a partir de arquivos eletrônicos, principalmente com o lançamento de softwares específicos para isso; 2] os sistemas de print-on-demand. Desde meados dos anos 1990 o mercado editorial dos EUA, principalmente, e também os europeus, já vinham usando os sistemas de POD para otimizar seus estoques e revitalizar o fundo de catálogo. A McGraw Hill foi pioneira nisso, e foi logo seguida pelas outras grandes indústrias.

O lançamento do Kindle e dos livros eletrônicos também deveram muito do sucesso à oferta de conteúdo com preços de capa substancialmente inferiores aos dos hard-covers, ou mesmo das edições de bolso, de capa mole e mais populares. A razão disso, evidentemente, era a eliminação dos custos de impressão e a substancial redução dos custos de logística. Para distribuir e-books, não era mais necessário ter caminhões atravessando o país, carregados de livros. Note-se, também, que o Kindle usa um formato específico. Na verdade, o que é particular é o tipo de DRM que a Amazon usa, que foi desenhado especificamente para facilitar o engajamento dos clientes dentro do seu ecossistema. O formato é o Mobi [que havia sido desenvolvido pela Palm e adquirido pela Amazon]. A empresa se recusou a usar o formato e-Pub, desenvolvido por um consórcio, o International Digital Publishing Forum e usado por todos os demais leitores.

Mas o tema que estou tratando aqui começa a tomar forma já nos aos 2000, quando surgem as primeiras plataformas de autopublicação. Em 2007 a Amazon lança o KDP – Kindle Direct Publish, que permite também que os autores publiquem em formato digital para venda direta na Amazon. Hoje, entretanto, existem talvez centenas de plataformas de autopublicação, algumas gigantescas como a Lulu.com nos EUA. O modelo se espalhou, e aqui mesmo no Brasil temos plataformas já com milhares de autores, como o Clube de Autores, a PerSe e mesmo editoras tradicionais que já se embrenharam no nicho, como a Saraiva e seu PubliqueSe. Não pretendo listar aqui, nem como exemplos, outros sites. Mas eles se multiplicam como fungos.

As duas questões que interessam aqui são:

– Isso é novidade?

– É uma revolução?

Novidade não é. A autopublicação tem uma longa história. O autor pagar para publicar, ou ele mesmo produzir sua obra é fenômeno antigo. A rigor, pode se dizer que a indústria editorial já tinha isso desde o começo. As gráficas se desenvolveram depois da invenção de Gutenberg, e publicavam as obras pagas pelos autores. O surgimento e o desenvolvimento das editoras, tal como entendemos hoje, foi um processo longo e complicado. Mesmo aqui no Brasil, por volta dos anos 1920, muitos autores fundamentais, como Oswald de Andrade, tiveram que pagar pela publicação de seus primeiros livros. E sempre existiram editoras-gráficas que produziam livros por conta dos autores. Nos EUA eram conhecidas como “Vanity Press”. Algumas daqui chegaram a ter bastante prestígio como a Massao Ohno. E a Scortecci continua aí, progredindo e trabalhando com equipamentos de impressão digital.

O segmento da autopublicação, até o advento do e-book, embora tivesse uma presença até significativa em número de títulos, era uma parte bem pequena do mercado editorial. Em alguns círculos, aliás, tinha certa conotação negativa, certamente estimulada pelas editoras constituídas. E, comparados com os de com hoje, os preços eram altos, e certamente não havia nada grátis. O conceito estava indissoluvelmente ligado a pagar para ser publicado. Além do mais, o problema da distribuição era insolúvel.

Meu amigo Márcio Souza há anos fez uma piada, dizendo que é mais fácil se livrar de um cadáver que de mil exemplares de um livro. O sujeito publicava seu título, recebia os mil exemplares [as tiragens em máquinas planas eram necessariamente maiores, por conta do custo básico de composição, diagramação, etc.], atochava tudo na sala da sua casa e saía com os exemplares debaixo do braço para dar de presente para amigos, conhecidos, quem pintasse pela frente. Distribuir mil exemplares é uma tarefa hercúlea. Os amigos começavam a trocar de calçada quando viam o indigitado autor no horizonte, e de longe diziam “Já tenho, você já me deu três exemplares de presente”.

Isso mudou.

Os programas de automáticos de editoração são fáceis de usar, e essas plataformas penduram os títulos nos servidores e os colocam no site. Sentadinhos à espera de compradores. As melhores e mais sofisticadas oferecem também a possibilidade de impressão sob demanda, tanto para o autor quanto para o eventualíssimo comprador, que pode optar por receber o exemplar impresso em vez de e-book.

É uma revolução?

Sinceramente, não acredito.

As razões são várias.

Primeiro, o fato é que certamente abriu um segmento de mercado para os editores que vendem, sob demanda, os mais variados serviços. Desde editar o texto – no sentido de corrigir, emendar, dar coerência e um mínimo de estrutura narrativa ao material entregue pelos pretensos autores, até a elaboração de capas, providências para registro na BN [os autores amadores acham isso fundamental, para evitar serem plagiados posteriormente…] e inscrição no ISBN. Quando algum exemplar é vendido no site, a comissão é cobrada.

Em segundo lugar, a ideia de que a distribuição [isto é, a venda] deixou de ser problema porque o livro está disponível na web revelou-se uma completa ilusão. Aliás, essa também foi um aprendizado para as editoras tradicionais.

Estar disponível não significa ser descoberto e lido. Muito pelo contrário. Com o crescimento geométrico do número de títulos, fica cada vez mais difícil que um título seja descoberto por seu possível leitor para além do círculo família e das amizades. E esses querem o livro de graça.

Na verdade, os custo de marketing, divulgação e “descobribilidade” [ainda não descobri, literalmente, uma palavra menos esdrúxula para o problema, e aceito sugestões], no âmbito das editoras tradicionais, hoje às vezes ultrapassam os custos agora inexistentes de impressão e logística. E essa é uma das razões pela qual há cada vez mais resistência por parte das editoras estabelecidas a diminuir ainda mais o preço dos e-books.

Certamente isso pode ser compensado,  pelo menos em parte, pelos autores autopublicados, por um intenso esforço de divulgação nas redes sociais. Mas, com certeza, a taxa de sucesso é baixíssima.

Essa questão da descobribilidade dos livros já provocou até um mercado “subprime” de resenhas picaretas. Os espaços para resenhas dos leitores começaram a ser ocupados por “resenhadores” profissionais, pagos por autores para elogiar seus livros. Quando o assunto foi divulgado, a Amazon colocou no seu sistema que só podia postar resenha alguém que houvesse comprado o livro. Parece que só aumentou o custo dos “resenhadores” profissionais, que passaram a incluir o preço da compra do livro no pacote de serviços…

A análise do DigitalBook World do novo programa da Amazon, o Kindle Unlimited, publicado no dia 21/7, diz que, dos 600 mil títulos disponíveis no programa, mais de 500 mil são do programa KDP. Ou seja, autopublicados. As plataformas Oyster e Scribd também incluem um número considerável desses títulos, mas as grandes editoras têm optado por elas em vez do programa amazonian.

Certamente, no meio dessa profusão, aparecem autores que fazem sucesso, e esses são os escolhidos como exemplos para atrair os demais. É o mesmo processo de “peneira” que acontece na edição tradicional.

Em conclusão, penso que esse fenômeno da autopublicação reflete, efetivamente, uma abertura de possibilidades com os e-books. Mas está muito, muito longe de ser qualquer tipo de revolução. Continua sendo, na verdade, um espaço para quem quer brincar de ser autor. Uma matéria recente publicada na Folha é exemplar: o bancário aposentado Toshio Katsurayama, de 71 anos, escreveu um livro sobre sua mãe. Escreveu, procurou várias editoras e não achou quem o publicasse. Contratou a consultoria “Tire Seu Livro da gaveta”, gastou cinco mil reais e realizou seu sonho de “brincar de ser escritor”. Toshio ficou feliz, e deixou também feliz o Cássio Barbosa, dono da consultoria e do Reino Editorial, que preparou a editoração e publicou o Toshio. Barbosa faz parte desse ainda pequeno mas crescente segmento de editores que presta serviços para os autores que querem ser auto-publicados, que não pagam mais pela impressão, mas pagam por esse tratamento de seus textos.

Todos felizes.

Mas isso não é nenhuma revolução. Só ficou mais fácil cumprir a antiga máxima que rezava que todos na vida deveriam ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro. Mas ninguém fala incluía no ditado que o livro só existe mesmo se for lido e disser algo relevante para um público, mesmo que pequeno.

Por Felipe Lindoso | Publicado originalmente em PublishNews | 23/07/2014

Felipe Lindoso

Felipe Lindoso é jornalista, tradutor, editor e consultor de políticas públicas para o livro e leitura. Foi sócio da Editora Marco Zero, diretor da Câmara Brasileira do Livro e consultor do CERLALC – Centro Regional para o Livro na América Latina e Caribe, órgão da UNESCO. Publicou, em 2004, O Brasil pode ser um país de leitores? Política para a cultura, política para o livro, pela Summus Editorial. Mantêm o blogwww.oxisdoproblema.com.br

A coluna O X da questão traz reflexões sobre as peculiaridades e dificuldades da vida editorial nesse nosso país de dimensões continentais, sem bibliotecas e com uma rede de livrarias muito precária. Sob uma visão sociológica, este espaço analisa, entre outras coisas, as razões que impedem belos e substanciosos livros de chegarem às mãos dos leitores brasileiros na quantidade e preço que merecem.

Indústria gráfica precisa repensar modelo de negócios, mas produção de impressos continua viva


Ednei Procópio aponta preferência do mercado editorial digital, mas destaca a soberania dos leitores

Para Ednei Procópio, os equipamentos totalmente dedicados à leitura se ajustam melhor ao mercado editorial

O IMPORTANTE É O CONTEÚDO

A questão do conteúdo é soberana na discussão sobre o avanço dos tablets sobre os velhos e bons livros de papel. As pranchetinhas digitais, é claro, só farão sentido à medida que houver o que se ler nelas – de maneira fácil e acessível. Polêmicas com as estratégias de produção, distribuição, divisão dos direitos autorais e incertezas diversas são marcas dessa história recente no Brasil, enquanto a indústria gráfica ainda é recalcitrante diante do tema. O especialista Ednei Procópio, autor de O livro na era digital, esteve em Belo Horizonte na última semana, para debater o assunto com profissionais da indústria gráfico-editorial, educadores e interessados, a convite da Câmara Mineira do Livro. Em conversa com o Estado de Minas, Procópio apostou na preferência pelos e-readers em relação aos tablets por parte das editoras. Elas, aliás, na opinião dele, já passaram da hora de repensar seus velhos modelos de negócios.

E-readers

Os leitores de e-books têm tela opaca, que imitam o contraste de papel, para garantir conforto na leitura. São normalmente dedicados à leitura de documentos.

Quando o .MP3 surgiu comercialmente, nos anos 1990, a indústria fonográfica duvidou do potencial do formato. E hoje ela paga um preço alto por isso. O mesmo pode ocorrer com a indústria gráfica diante dos e-books?

O .MP3 se tornou, naturalmente, o arquivo padrão de tráfego de músicas na internet sim, mas o formato .MP3 foi apenas, digamos, o catalisador de todo um cenário que já vinha se desenhando não só para a indústria fonográfica. Ela, na verdade, já estava com um modelo de negócios que não acompanhava os novos cenários da digitalidade. E não podemos nos esquecer dos programas de compartilhamento entre usuários, o que facilitou o tráfego do formato .MP3. Já a indústria gráfica voltada à produção de livros especificamente falando precisa sim repensar o seu modelo de negócios na era da internet. Mas façamos jus à verdade: a produção de material impresso continua ainda viva, independentemente do advento dos e-books, que já somam 10 anos de um mercado incipiente.

Tablets | Os aparelhos são mais compactos que os netbooks e capazes de realizar quase tudo que um computador portátil realiza. Em contrapartida, a tela brilha.

Tradicionalmente, a indústria gráfica e o mercado editorial privilegiam títulos que possam se tornar sucesso. Todo mundo quer publicar um best-seller que cubra os altos custos de produção e, claro, garanta um bom lucro. O barateamento da produção, no caso dos e-books, que dispensam papel e impressão, pode impactar na democratização da atividade?

O mercado editorial privilegia títulos que têm um apelo comercial maior e cujo nível de interesse possa atingir um público-alvo identificável. Isso facilita o trabalho de comunicação da editora e até o seu contato com a imprensa. Portanto, é natural haver títulos best-sellers. Afinal, os leitores os querem, embora a maioria do catálogo das editoras continue circulando de um modo mais modesto e com um timing diferenciado. O e-book não tem toda a sua cadeia produtiva barateada. Quando a editora decide publicar um livro na versão digital – por exemplo, no formato ePub –, os custos de seleção de originais, leitura crítica, copidésque, revisão, diagramação, imagens, capa, ficha catalográfica e composição final [com ou sem uma estética multimídia] estão todos lá. E há um custo que dobra quando se faz um livro em dois formatos distintos, o .PDF [para impressão] e o ePub [para e-readers]. Investir em best-sellers, tanto na versão impressa em papel quanto na versão eletrônica, continua, sim, sendo lucrativo. O que diferencia é o custo, que determina o maior ou menor lucro.

Como você avalia o ritmo de adesão da indústria gráfica brasileira aos novos formatos?

A indústria gráfica já aderiu há algum tempo à tecnologia por meio das máquinas portáteis de impressão sob demanda. O sistema de print on demand, que utiliza arquivos digitais em versão .PDF para a impressão sob demanda de livros, tem recebido altos investimentos de toda a indústria gráfica há uma década. Com a democratização da tecnologia e a miniaturização das máquinas, é possível hoje que um único exemplar de um determinado título seja impresso utilizando-se a tecnologia digital.

O ePub, o formato padrão proposto pelo International Digital Publishing Forum [IDPF], é um consenso?

O padrão ePub já tem uma história de 10 anos. Nasceu em 1998, de um consórcio firmado por empresas de tecnologia da informação e outras empresas do ramo editorial. Hoje, felizmente, o ePub é, para o mercado editorial, tecnicamente, um consenso. Mas ainda há dúvidas com relação aos custos de conversão de livros para esse novo formato, o que é caro por conta da falta de mão de obra identificada no mercado.

Por um lado, o Kindle busca trazer uma experiência de leitura confortável, com a tecnologia da tinta eletrônica. Por outro, o iPad procura assumir que é uma tela brilhante, colorida e vira espaço para os livros que exploram a interatividade, o toque do dedo, a narrativa marcada pelos hiperlinks. As diferenças entre a experiência de leitura digital e a leitura no papel devem ser amenizadas, como no Kindle, ou supervalorizadas, como no iPad? Quem ganha a briga?

O Kindle, assim como o Sony Reader, é equipamento dedicado inteiramente à leitura de livros digitais. O iPad não é um e-reader, não é um leitor dedicado. O iPad cai numa outra categoria de produtos, os tablets, cujo conceito, há mais de 10 anos, a indústria de tecnologia tenta inserir no mercado como um novo modo, portátil, de consumir mídia em geral. O Kindle não é o único leitor dedicado do mercado e nem foi o primeiro; assim como iPad não é o único e nem foi o primeiro tablet a ser lançado na história da indústria de tecnologia. Para o bem do mercado editorial, o mais interessante são os produtos da linha e-reader. Porém, no final, quem define qual produto se tornará mais popular para a leitura de livros é o consumidor, é o usuário.

Por Frederico Bottrel | Estado de Minas | 04/11/2010, às 17:27

Evento pré-Frankurt esquenta os tamborins digitais


É possível aproveitar a terça-feira antes da Feira de Frankfurt para se atualizar nas novas tendências digitais

Tools of Change for Publishing

Tools of Change for Publishing

Desde 2007, acontece em Nova Iorque, sempre no início do ano, o evento Tools of Change for Publishing, conhecido no mercado como TOC e organizado pela O’Reilly. O objetivo do evento é discutir práticas, soluções e tendências digitais que estão afetando a indústria de livros. Em 2009, a empresa norte-americana se juntou com a Feira de Frankfurt para organizar a conferência TOC Frankfurt, sempre na terça-feira, às vésperas da maior feira de livros do mundo. O evento de um dia ganhou força e se encaminha agora para sua terceira edição.

No ano passado, a conferência contou com a participação de cerca de 500 pessoas de 35 países diferentes, e este ano a TOC Frankfurt traz novamente um time de conferencistas renomados. Serão mais de 30 sessões com palestrantes como Jonathan Nowell, presidente da Nielsen Books; Mark Bide, Diretor Executivo da EDitEUR – organização que controla o padrão Onix de banco de dados de livros –; William Chesser, vice-presidente da VitalSource, plataforma da Ingram para livros universitários digitais; Dan Franklin, publisher digital da Random House UK; Bill McCoy, diretor executivo do International Digital Publishing Forum; e Ken Michaels, vice-presidente da Hachette Book Group, entre outros. Eles abordarão temas como o futuro do e-commerce, captação e utilização de dados de consumidores e mudanças nos modelos de negócios e de distribuição. Durante o evento, a EDItEUR organiza uma série de painéis com uma perspectiva diferente, focando nos desafios operacionais enfrentados pela cadeia do livro e dos livros digitais.

O PublishNews fará dobradinha no evento, participando como media partner e também com a presença de seu sócio-fundador, Carlo Carrenho, em um dos painéis. As inscrições para a TOC Frankfurt custam € 599,00 (mais taxas). Para fazer sua inscrição e saber mais sobre o evento, acesse o site:http://tocfrankfurt.com.

PublishNews | 14/09/2012

eBook não é assunto de editor


Por Cindy Leopoldo | Publicado originalmente em Publishnews | 26/07/2011

Alguém já me falou há anos que e-book não é assunto de editor, mas só agora confirmo. Faço zilhares de buscas por dia sobre o assunto e não é comum achar alguém de dentro das editoras usando com propriedade as novas palavras editoriais, tais como tablet, ePub, DRM etc.

Vejo que alguns amigos meus acham que as editoras estão inventando isso para lucrar ainda mais, mas, na verdade, assim como a indústria fonográfica queria continuar vendendo CDs, as editoras no geral queriam [e algumas ainda querem] continuar fazendo apenas os impressos. E-book é assunto de sites e revistas de tecnologia, se localiza mais ou menos entre a seção de smartphones e a de games, e é curioso ver a lista de tablets e e-readers à venda no mercado, porque, no Brasil, parece haver mais e-book readers do que e-books para serem lidos. Por quê? Simples, os e-readers são feitos por livrarias e por grandes empresas de tecnologia, e os e-books são feitos pelas editoras [pelo menos enquanto a pirataria não entra no jogo…]. E esse assunto pertence tanto à indústria mundial de tecnologia que o próprio ePub foi criado pelo consórcio IDPF [International Digital Publishing Fórum], formado por empresas como Google, Adobe etc.

Há quem compre a ideia de que a tecnologia melhora o mundo, e eu acho que ela o torna mais prático em muitos aspectos mesmo, mas sinceramente o mundo continua a mesma aristocracia de sempre. Um grupinho decide como a vida dos outros vai mudar para melhor, quando, através de que aparelho e por qual valor. As revoluções ocorridas no mundo da música e do livro são financiadas por empresas que querem vender seus iPods, Kindles etc. Essa aristocracia do moletom quer o mesmo que as outras quiseram: vencer. De alguém. Contabilizando essa vitória em dólares.

E como as editoras ficam no meio disso? Reféns? De certa forma. Mas são também uma grande indústria, baseada há anos nas também aristocracias cultural e / ou artísticas. Sabendo avaliar e usar bem as potencialidades da tecnologia e buscando ouvir seu consumidor, pode até vender mais que antes e alcançar novos patamares de lucro, vencendo até mesmo a considerada mais poderosa e destrutiva aristocracia da pirataria.

Por Cindy Leopoldo | Publicado originalmente em Publishnews | 26/07/2011

Cindy Leopoldo é graduada em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro [UFRJ] e pós-graduada em Gerenciamento de Projetos pela Universidade Federal Fluminense [UFF]. Trabalha em departamentos editoriais há 7 anos. Escreve quinzenalmente para o PublishNews, sempre às terças-feiras.
A coluna Making of trata do mundo que existe do lado de dentro das editoras. Mais especificamente, dentro de seus departamentos editoriais.