eBooks já foram lidos por 26% dos brasileiros, diz pesquisa


Pesquisa foi feita pelo Ibope, sob encomenda do Instituto Pró-Livro. Levantamento mostra evolução do total de leitores no Brasil.

Os livros digitais já foram lidos por 26% dos entrevistados ouvidos pela 4ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Ibope sob encomenda do Instituto Pró-Livro.

A pesquisa apontou que o número de leitores no Brasil cresceu 6% entre 2011 e 2015 , e que o total de livros lidos nos três meses anteriores à pesquisa foi de 2,54 obras.

Entre os chamados “Leitores” o percentual de quem já leu livro digital é 34%. E já entre quem gosta muito de ler, 38%. A metodologia da pesquisa considera como leitor, aquele que leu, inteiro ou em partes, pelo menos um livro nos últimos três meses.

O celular foi o dispositivo de leitura mais comum, usado por 56% dos leitores de livros digitais. Na sequência aparecem: computador [49%], tablet [18%], leitores digitais, como Kindle, Kobo e Lev [4%].

Entre as formas de acesso, 88% afirmaram ter baixado gratuitamente na internet e 15% disseram ter pago o download. Livros de literatura, como contos, romances ou poesias são os preferidos, com 47, logo depois seguidos por livros técnicos, para formação profissional, com 33%.

Entre aqueles que leem livros digitais, 91% são considerados leitores pelos critérios da pesquisa, ou seja, leram pelo menos um livro inteiro ou em partes nos 3 meses anteriores à pesquisa. Em relação à edição de 2011, houve um crescimento significativo da proporção de pessoas que já ouviram falar em livros digitais, 11 pontos percentuais. Entre esses, cerca de um quarto já leu algum livro digital“, aponta o estudo.

Metodologia

A edição 2016 é a quarta edição da pesquisa, que teve também outras publicações referentes a dados coletados nos anos de 2000, 2007, 2011. A pesquisa teve abrangência nacional, com 5012 entrevistas pessoais, feitas nos domicílios dos entrevistados entre 23 de novembro e 14 de dezembro de 2015. Foram ouvidos brasileiros a partir de 5 anos, alfabetizados ou não.

Perfil da amostra

Entre os ouvidos pela pesquisa em 2015, 8% se declarou “não alfabetizado” ou que “não frequentou escola formal”. Outros 21% disseram ter ensino fundamental I [1º ao 5º ano], 25% declararam ter o fundamental II [6º ao 9º ano], 33% o ensino médio e 13% o ensino superior.

Responsável pela pesquisa, o Instituto Pró-Livro [IPL] foi criado em 2006 pelas entidades do setor do livro – Associação Brasileira de Livros Escolares [Abrelivros], Câmara Brasileira de Livros [CBL] e Sindicato dos Editores de Livros [SNEL]. É mantido por contribuições dessas entidades e de editoras, com o objetivo principal de fomento à leitura e à difusão do livro.

Desde a segunda edição o Instituto adotou metodologia que considera as orientações do Centro Regional de Fomento ao Livro na América Latina e no Caribe [Cerlalc], da Unesco, e pela Organização dos Estados Ibero-americanos [OEI]. O objetivo foi buscar um padrão internacional de medição que permita eventuais comparações e estudos sobre a questão da leitura nos países da região.

Fonte: Publicado originalmente no portal G1, em São Paulo | Por Mariana Nogueira | 19/05/2016 12h12

Acervo defasado diminui interesse por bibliotecas, diz pesquisa


Pesquisa foi feita pelo Ibope, sob encomenda do Instituto Pró-Livro. Levantamento mostra evolução do total de leitores no Brasil.

Locais de estudo e pesquisa, frequentados eventualmente por estudantes e com acervos defasados. Esse é um panorama que os números da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil 2016 traçam sobre as bibliotecas no Brasil. Os três pontos aparecem no levantamento feito pelo Ibope sob encomenda do Instituto Pró-Livro. Os dados foram divulgados na quarta-feira [18].
A pesquisa apontou que o número de leitores no Brasil cresceu 6% entre 2011 e 2015 , e que o total de livros lidos nos três meses anteriores à pesquisa foi de 2,54 obras.

De acordo com a pesquisa, 37% do público que frequenta as bibliotecas do Brasil não é estudante. E do seu público frequentador, 73% as consideram espaço para estudo e pesquisa. As bibliotecas escolares ou universitárias são as mais citadas. Quando questionado sobre o tipo de biblioteca que frequentava, 55% citaram esses espaços, enquanto 51% disseram frequentar bibliotecas públicas.

Apenas 19% dos leitores costumam ler livros em bibliotecas.

Outros usos e associações que esse espaço poderia ter, o que concorreria para a ampliação de seu público frequentador, tiveram percentuais baixos de menções“, aponta a análise dos especialistas que avaliaram os dados da pesquisa.

Quando questionados sobre a avaliação das bibliotecas que frequentam, 41% dos leitores disseram não encontrar os livros que gostariam. Para os entrevistados, o interesse aumentaria com a renovação das prateleiras: 32% afirmaram que teriam maior interesse pelas bibliotecas se elas tivessem mais livros ou título novos, e 22% disseram esperar títulos mais interessantes.

Considerando os dados nacionais, mais da metade [55%] dos entrevistados disse que havia biblioteca pública no bairro, outros 33% disseram que não e 9% não souberam responder.

Quarenta por cento dos entrevistados disseram não ir a bibliotecas por falta de tempo. Apenas 5% dos entrevistados disse ir sempre a uma biblioteca. Outros 66% responderam que não frequentavam, 14% disseram que visitavam raramente, 15% costumavam ir às vezes.

Metodologia

A edição 2016 é a quarta edição da pesquisa, que teve também outras publicações referentes a dados coletados nos anos de 2000, 2007, 2011. A pesquisa teve abrangência nacional, com 5012 entrevistas pessoais, feitas nos domicílios dos entrevistados entre 23 de novembro e 14 de dezembro de 2015. Foram ouvidos brasileiros a partir de 5 anos, alfabetizados ou não.

Perfil da amostra

Entre os ouvidos pela pesquisa em 2015, 8% se declarou “não alfabetizado” ou que “não frequentou escola formal”. Outros 21% disseram ter ensino fundamental I [1º ao 5º ano], 25% declararam ter o fundamental II [6º ao 9º ano], 33% o ensino médio e 13% o ensino superior.

Responsável pela pesquisa, o Instituto Pró-Livro [IPL] foi criado em 2006 pelas entidades do setor do livro – Associação Brasileira de Livros Escolares [Abrelivros], Câmara Brasileira de Livros [CBL] e Sindicato dos Editores de Livros [SNEL]. É mantido por contribuições dessas entidades e de editoras, com o objetivo principal de fomento à leitura e à difusão do livro.

Desde a segunda edição o Instituto adotou metodologia que considera as orientações do Centro Regional de Fomento ao Livro na América Latina e no Caribe [Cerlalc], da Unesco, e pela Organização dos Estados Ibero-americanos [OEI]. O objetivo foi buscar um padrão internacional de medição que permita eventuais comparações e estudos sobre a questão da leitura nos países da região.

Fonte: Publicado originalmente em G1, São Paulo | 19/05/2016 12h08

“Livro vai se adaptar à revolução das plataformas digitais”, afirma especialista em literatura


O fim do livro impresso representa, para os apaixonados pelo cheiro e textura do papel, o apocalipse, sem exageros — mais aterrorizante que qualquer saga de zumbis ou vampiros. Mas os especialistas em mercado literário tranquilizam o público do livro impresso. De acordo com a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil — realizada pelo Ibope em parceria com o Instituto Pró-Livro — apesar da crescente ascensão dos tablets, os chamados e-books ainda não são muito populares entre os leitores brasileiros, uma vez que 82% afirmam nunca ter lido um.

O professor da Unesp, João Ceccantini, especializado em literatura e mercado, acredita se tratar de uma “falsa guerra”. Ceccantini admite ter lido estimativas bem apocalípticas que apontam para a extinção do livro impresso. Mas, para ele, a tendência é que cada tipo de leitura se adapte à plataforma mais adequada e que tanto o eletrônico quanto o papel terão espaço no mercado.

O escritor está muito ligado às práticas contemporâneas e a trama conta muito na hora de escolher o tipo de suporte de leitura. Se o livro impresso vai acabar, o tempo vai dizer. Porém, o que eu vejo é uma falsa guerra, porque, se alguns gêneros precisam de recursos eletrônicos para que as pessoas tenham acesso, há os gêneros que se encaixam melhor no impresso. Por exemplo, muitas pessoas preferem ler poesia no papel.

A pesquisa sobre o perfil dos leitores brasileiros — realizada entre junho e julho de 2011 — foi apresentada neste ano na Bienal Internacional do Livro de São Paulo. De acordo com o estudo, o brasileiro lê, em média, quatro livros por ano, entre literatura, contos, romances, livros religiosos e didáticos. A presidente da Câmara do Livro, Karine Pensa, avalia que os resultados podem ser considerados bons.

Muitos fatores têm contribuído para conscientizar a população sobre a importância do hábito da leitura, como a queda constante nos preços, o aumento do poder aquisitivo, principalmente da chamada nova classe média — que reflete na melhora do percentual de aquisições de obras registrado pela pesquisa, de 45% em 2007 para 48% em 2011 —, e o crescimento das novas tecnologias, como os e-books, que apresentam mais familiaridade com os jovens“, afirma ela.

Correio Braziliense | Publicado em Diário de Pernambuco | 08/09/2014

O futuro não é o fim, ainda


Por João Luiz Rosa, de São Paulo | Publicado originalmente e clipado à partir de Valor Econômico | © 2000 – 2012. Todos os direitos reservados ao Valor Econômico S.A. |  28/06/2013

Javier Celaya, vice-presidente da Associação Espanhola de Revistas Digitais: “A grande pergunta de todo mundo é onde está o dinheiro na internet” | Foto: Claudio Belli/Valor

Javier Celaya, vice-presidente da Associação Espanhola de Revistas Digitais: “A grande pergunta de todo mundo é onde está o dinheiro na internet” | Foto: Claudio Belli/Valor

Há dois anos, parecia que o livro impresso começava a tomar o caminho da extinção. Em abril de 2011, a Amazon anunciou que a venda de livros eletrônicos superara pela primeira vez a de papel – 105 volumes digitais para cada 100 tradicionais – e a Borders, uma das maiores cadeias de livrarias dos Estados Unidos, baixou as portas, em setembro, apenas sete meses depois de entrar com um pedido de recuperação judicial. Das 511 lojas que tinha um ano antes restavam 399.

Agora, os sinais são diferentes. As vendas dos aparelhos eletrônicos para leitura de livros, ou e-readers, que pareciam os substitutos naturais do livro em papel, vão cair dos 5,8 milhões de unidades projetadas para este ano para 2,3 milhões em 2017, prevê a consultoria Forrester. O interesse do público parece tão morno que nesta semana a Barnes & Noble, outra gigante americana das livrarias, anunciou que vai abandonar parte da produção do seu e-reader, o Nook, depois de a receita com o negócio cair 34% no trimestre, duplicando as perdas na área.

Ainda mais significativo é que as próprias vendas dos livros digitais não seguiram o ritmo espetacular que se esperava a princípio. Em uma década, entre 2002 e 2012, os e-books saíram de invisíveis 0,05% da receita do mercado editorial americano, o mais avançado na área digital, para 20% das vendas. Em outros países, permanece longe desse patamar – 10% na Espanha, 3% na Itália, pouco mais de 2,5% no Brasil.

Contra as probabilidades, os números parecem indicar que o livro é mais resistente ao tsunami digital que a música. Segundo a IFPI, principal organização mundial da indústria fonográfica, o segmento digital representou 37% da receita total do setor no ano passado, mas os números só levam em consideração as vendas legais. O que é obtido por meio da pirataria fica fora do levantamento, o que distorce o cenário. Foram as vendas ilegais, afinal, que destroçaram as regras estabelecidas no setor, cujos personagens ainda estão em busca de novos formatos comerciais viáveis. No mercado editorial, talvez por não ter ocorrido o mesmo efeito devastador, fica a impressão de que a maré digital está fraca, mas muitos especialistas acham que a grande onda ainda está por vir.

Há 500 anos, desde a invenção da imprensa por Gutenberg, não se via uma revolução da mesma ordem e magnitude na indústria da informação“, disse o professor Silvio Meira, da Universidade Federal de Pernambuco [UFPE], na abertura do IV Congresso do Livro Digital, ocorrido neste mês em São Paulo. Meira, que também é cientista-chefe do Cesar, centro de inovação com sede no Recife, contou que algum tempo atrás um executivo perguntou se as mudanças viriam antes de sua aposentadoria, daqui a dez anos. “Dez anos? Ih, pode ter certeza de que você vai enfrentar turbulência“, respondeu o professor.

Tempo, portanto, ocupa um papel especial na digitalização do livro. “Eu não diria que o ritmo [de vendas dos livros digitais] está lento ou abaixo das expectativas“, afirma Karine Pansa, presidente da Câmara Brasileira do Livro [CBL] e sócia-diretora da Girassol Brasil Edições. Embora o assunto esteja em discussão há anos, as vendas de e-books no país só começaram para valer no fim do ano passado, com uma resposta positiva tanto da indústria quanto do consumidor, avalia Karine. Pelas contas da CBL, o número de títulos em formato digital triplicou no Brasil em um ano, passando de 5 mil em 2011 para 15 mil no ano passado.

A expectativa é que a redução dos preços dos tablets dê um forte impulso aos livros digitais. Enquanto os e-readers, voltados basicamente para leitura, sofrem uma redução prematura das vendas, os tablets – que também permitem navegar na internet, ver filmes, ouvir música etc. – ficam mais baratos e ganham consumidores de mais classes sociais. A previsão da consultoria IDC é que as vendas mundiais de tablets vão chegar a 229,3 milhões de unidades neste ano, superando pela primeira vez a de notebooks, de 187,4 milhões de unidades. O preço médio vai ficar quase 11% mais baixo, em US$ 381. É por isso que, apesar do desinteresse pelos e-readers, os livros digitais teriam espaço para crescer. Em vez de aparelhos exclusivos para leitura, o consumidor estaria preferindo os tablets na hora de ler.

 

Além dos Livros de Papel

A competição acirrada pode contribuir para a adoção mais rápida dos e-books. Companhias como a Amazon, dona do Kindle, estão lançando equipamentos básicos a preços reduzidos, com margens baixíssimas de lucro, na expectativa de vender livros digitais e recuperar o investimento mais tarde. É uma manobra que tomou emprestada do setor de tecnologia da informação: fabricantes de impressoras, por exemplo, também vendem máquinas com margens apertadas para ganhar dinheiro com tinta e papel.

O problema do tablet é que se trata de um meio individual. Cada pessoa precisa ter o seu. Mas a TV também era algo raro nos anos 50 e 60 e hoje cada casa tem duas ou três TVs“, diz o italiano Mario Pireddu, professor da Universidade de Roma III e da Universidade IULM de Milão. “Com o tablet, multipliquei minha capacidade de leitura. Se tenho um voo de 12 horas, posso ver filmes e ouvir música, mas conto com 40 livros à disposição.

No Brasil, a arrancada do livro digital também estaria ligada a um ponto particular: o peso dos livros didáticos no mercado editorial e nos hábitos de leitura da população. Divulgada no ano passado, a mais recente edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil mostra que o número de leitores no país caiu de 95,6 milhões de pessoas em 2007, ou 55% da população, para 88,2 milhões em 2011, o equivalente a 50%. Elaborado pelo Instituto Pró-Livro e o Ibope Inteligência, o levantamento considerou como leitor a pessoa que tivesse lido pelo menos um livro nos três meses que antecederam a pesquisa. Em média, foi lido 1,85 livro no período, sendo 1,05 por iniciativa própria e 0,81 – uma participação considerável – por indicação da escola. Desse número, 0,63 encaixava-se na categoria livro didático, deixando à literatura apenas 0,18 livro.

Ler ficou na sétima posição entre as preferências no tempo livre, com 28% das respostas, bem abaixo de ver TV [85%], o passatempo favorito dos brasileiros. Em uma pergunta que admitia até três respostas, a maioria [64%] afirmou que ler é adquirir conhecimento para a vida, mas as respostas seguintes – útil para a atualização profissional [41%] e para o conhecimento na escola [35%] – mostram que a leitura é vista muito mais como uma obrigação do que como uma fonte de prazer. A resposta “uma atividade interessante” ficou com apenas 21% das preferências e “uma atividade prazerosa”, com menos ainda: 18%.

O quadro permite deduzir que para onde a escola se dirigir no Brasil o hábito de leitura vai se mover, e essa direção, em parte, é o livro digital. “Já foi definido que a partir de 2015 todos os livros didáticos que o governo adquirir terão de ter uma versão digital”, diz Karine, da CBL.

A questão que começa a se discutir – e provavelmente vai dominar os debates e as ações nos próximos anos – é que tipo de livro digital chegará às salas de aula, e quais serão os ecos nos demais ramos da indústria, incluindo a ficção. Até agora, o e-book tem sido pouco mais que a transposição do livro em papel para a tela de um dispositivo eletrônico. Mas um novo conceito de publicação digital está em gestação: é a ideia de transformar o livro em componente de um sistema mais amplo, com uma forte contribuição das redes sociais. É o livro como serviço ou, numa proposição ainda mais radical, o livro como software.

Bibliotecárias sempre tiveram pavor de que usuários mais rebeldes grifassem ou fizessem anotações nas orelhas dos livros que tomavam emprestados, mas no mundo digital saber as opiniões dos outros não só é útil como tem valor econômico, defende o professor Meira. Essa concepção já seria dominante na internet, na qual as pessoas procuram pelas opiniões dos outros antes de fazer compras, decidir para onde viajar nas férias ou em que hotel ficar. O livro digital, sob esse ponto de vista, não só pode estimular que mais pessoas leiam, mas também escrevam, como prenunciam os blogs.

Pireddu, professor da Universidade de Roma III: “Creio que o tablet será o meio dominante. O problema é que cada pessoa precisa ter o seu. Mas a TV também era algo raro nos anos 50 e 60” | Foto: Claudio Belli/Valor

Pireddu, professor da Universidade de Roma III: “Creio que o tablet será o meio dominante. O problema é que cada pessoa precisa ter o seu. Mas a TV também era algo raro nos anos 50 e 60” | Foto: Claudio Belli/Valor

A reclamação de muitos críticos é qual a relevância de tudo isso que está sendo escrito. A maior parte dos blogs, na verdade, passa despercebida – e desaparece com a mesma facilidade com que foi criada. “Você está falando do problema do lixo [cultural], mas essa não é uma questão nova”, diz Pireddu. No século XV, informa o professor, um livro publicado na Itália por um contemporâneo de Gutenberg já questionava se as facilidades proporcionadas pelos tipos móveis não cobririam a Europa de obras descartáveis. “O argumento de que os monges copistas faziam uma seleção do que deveria ser publicado era semelhante ao usado hoje”, afirma o especialista. “Vai haver mais lixo, mas esse é o preço a pagar pela democratização [da produção de conteúdo]. E não é verdade que bem antes da internet as editoras já publicavam muita literatura de baixo valor?”

Ainda não está claro como o conceito da rede social pode ajudar o leitor, mas Pireddu dá uma pista. “Você pode não ter interesse em saber a opinião de um leigo sobre um livro de Shakespeare, mas e se a editora montasse um grupo que lhe permitisse compartilhar as opiniões de um crítico de teatro ou de um ator reconhecido por interpretar Shakespeare?“, pergunta.

A ideia, portanto, é ligar o livro a outras fontes de conhecimento, combinando-as em um único serviço. Em vez de só ler sobre um filme de Fellini, por exemplo, o leitor poderia ver trechos do filme como extensão do livro e discutir com outras pessoas sobre o que está sendo abordado.

É nessa linha que vai o próximo livro de Meira. Com lançamento previsto para setembro, a obra terá palavras-chave associadas a cada parágrafo. Um aplicativo poderá ajudar na leitura do livro. Toda vez que uma informação nova for publicada sobre o termo em questão, o leitor será avisado pelo software, com indicações de como obter os complementos. Na prática, o livro vai se tornar uma espécie de obra aberta e atualizada constantemente, como ocorrem com alguns programas de computador. “Em determinado momento, precisei parar de escrever o livro e passei a escrever o software“, contou Meira.

Se mudanças como essas se tornarem padrão, outras questões ganharão urgência, como os direitos autorais – em um ambiente coletivo, quem será remunerado pelo quê? – e os meios para financiar criações que vão requerer um aparato tecnológico para oferecer ao leitor o que prometiam a princípio. Será a hora, também, de definir quem vai pagar a conta e que modelos comerciais serão capazes de oferecer o retorno necessário para sustentar o investimento.

A grande pergunta de todo mundo é onde está o dinheiro na internet“, diz Javier Celaya, vice-presidente da Associação Espanhola de Revistas Digitais e diretor da Associação Espanhola de Economia Digital.

Até agora, os produtores de conteúdo, como autores de livros e jornalistas, criam bens culturais pelos quais os leitores pagam. Esse cenário se baseia em uma espécie de economia da escassez, na qual os produtores de informação são poucos, o que aumenta o valor do que é produzido. A internet alterou esse modelo ao multiplicar as fontes de informação, sem entrar no mérito da qualidade da produção cultural ou no fato de que muitos sites exibem propriedades pelas quais deveriam pagar.

Para não perder relevância, afirma Celaya, as empresas ligadas à informação terão de cobrar por serviços, em vez de conteúdo. Não é só o livro que será transformado em serviço, mas também os jornais, as revistas e outros meios noticiosos. E, como no livro, a carga tecnológica para promover essa transformação será intensa.

Pense em empresas como o Google e a Amazon, que ganham dinheiro porque conhecem muito bem seus usuários“, diz Celaya. As empresas jornalísticas poderiam adotar uma abordagem semelhante, afirma o especialista. Ao saber quais artigos o leitor lê por dia, quantos deles são lidos até o fim e outras informações do gênero, obtidas por meio de softwares, as companhias poderiam criar versões pessoais de suas publicações.

O Brasil é um dos países com mais bancas de jornal, mas elas não têm muitos recursos tecnológicos“, afirma Celaya. Com investimento na cadeia de distribuição, um jornal ou revista poderia identificar, por sistemas de geolocalização, que um leitor está a poucos metros de uma banca e mandar um aviso para o celular dele, com o resumo de uma notícia particularmente interessante e a sugestão de que passe pela banca no caminho.

Por enquanto, essa parece uma cena de ficção científica, mas, se o caminho se mostrar correto, finalmente será impossível dissociar meio e mensagem.

Por João Luiz Rosa, de São Paulo | Publicado originalmente e clipado à partir de Valor Econômico | © 2000 – 2012. Todos os direitos reservados ao Valor Econômico S.A.

Quase todos alunos da rede estadual do Rio têm acesso à internet, mas apenas 10% têm hábito da leitura


Pesquisa efetuada pelo Instituto Mapear para a Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro indica a necessidade de se reforçar os programas governamentais para estimular o hábito da leitura entre alunos da rede pública de ensino no estado. Para o governo fluminense, o histórico familiar explica, em boa parte, o baixo interesse pela leitura entre alunos do ensino médio.

A pesquisa Escolas Estaduais do Rio do Janeiro – Percepções e Expectativas de Alunos revela que 92% dos estudantes do ensino médio da rede estadual estão conectados à internet, mas o hábito de ler não faz parte da vida deles. De modo geral: 14% dos 4 mil alunos consultados disseram não ter lido nenhum livro nos últimos cinco anos. Um livro foi lido no período por 11% dos estudantes; dois ou três livros por 26% e quatro ou cinco livros por 17%.

Entre os alunos que leram mais que um livro em média nos últimos cinco anos, a pesquisa registrou que 14% leram entre seis e dez livros, 8% entre 11 e 20 e 10% leram mais que 20 livros em cinco anos.

A pesquisa Retrato da Leitura no Brasil, divulgada em março deste ano pelo Instituto Pró-Livro, registra que, na faixa etária entre 5 e 10 anos, as crianças brasileiras leram 5,4 livros, no ano passado. Entre os pré-adolescentes, de 11 a 13 anos, a taxa de leitura ficou em 6,9 livros por ano e entre adolescentes de 14 a 17 anos [mesma faixa etária da pesquisa realizada no estado do Rio de Janeiro] foram lidos 5,9 livros em 2011.

Os números são menores do que os registrados na pesquisa Retratos da Leitura no Brasil realizada em 2007, mas, segundo o Instituto Pró-Livro, a queda se deve a uma diferença de metodologia em relação ao estudo deste ano, não necessariamente à uma queda no número de leitores no país.

O baixo índice de leitura entre os alunos do ensino médio da rede pública estadual fluminense pode ser atribuído a um fator histórico, disse hoje [10] à Agência Brasil o subsecretário de Gestão do Ensino, Antonio Neto. O subsecretario informou que 70% dos pais de alunos não têm o ensino fundamental completo. “No ambiente familiar o aluno não encontra estímulo para a leitura”, disse.

Nas famílias de classe média, que costumam assinar jornais e periódicos, os estudantes conseguem ter mais acesso a algum tipo de leitura. “No caso das famílias mais pobres, nós não vemos isso. Vemos grandes dificuldades. O papel da escola passa a ser mais importante, porque é um quadro que tem que ser revertido desde os anos iniciais da educação”, disse Neto. A pesquisa foi pautada no ensino médio e mostra que a leitura tem que ser fortalecida desde os anos iniciais do ensino fundamental, “para que no ensino médio, o aluno tenha uma convivência com o livro muito maior”.

Incentivo à Leitura – Antonio Neto observou que, “como o mundo ideal não existe”, é preciso trabalhar com a realidade. Para fomentar ações que incentivem o gosto pela leitura entre os alunos, a Secretaria Estadual de Educação do Rio utiliza várias ferramentas. Uma delas, iniciada este ano, foi a Semana de Artes das escolas públicas estaduais, encerrada no último dia 6, no Píer Mauá.

A Semana de Artes foi resultado de trabalhos efetuados por escolas da rede estadual que envolveram várias linguagens, entre as quais música, dança, pintura, literatura, vídeo e teatro. “Essa ação de fomento à arte está necessariamente ligada à leitura”, disse. Foram cinco dias de ações escolares, o que levou a secretaria a decidir ampliar o evento no próximo ano.

Outra ação de incentivo ao hábito de ler entre os estudantes é o Salão do Livro das Escolas Estaduais,. O evento é anual e constitui uma oportunidade de as unidades escolares adquirirem novos livros para os estudantes. Cerca de 141 unidades participaram da última edição, que teve uma verba de R$ 8 milhões.

É uma espécie de feira de livros, só voltada para nossas escolas estaduais, onde elas, por meio dos seus programas de leitura, vão a essa feira para melhorar o seu acervo de livros”. Os professores fazem a seleção dos títulos, bem como os alunos dão sugestões, porque são eles quem vão conviver com esse ambiente de leitura, explicou o subsecretário.

Futuro – Novas ações estão sendo formatadas com o objetivo de serem introduzidas na rede de ensino em 2013. Antonio Neto esclarece que a secretaria não trabalha com o conceito de bibliotecas, mas de salas de leitura nas escolas. O acervo dessas unidades considera uma proporção média de três livros, “pelo menos”, por aluno, conforme determina a legislação atual para bibliotecas.

O subsecretário disse que só o livro na escola não resulta em uma ação de leitura. Para reverter esse quadro, a secretaria criou, no ano passado, a função de “professor agente de leitura”. Esse profissional começará a ser colocado nas escolas ainda neste semestre com a função de fomentar a leitura. Ele terá também a atribuição de criar estratégias para que o aluno “utilize e trabalhe com esses livros”.

Essa função se dará por adesão entre os professores e não existia anteriormente na secretaria. Antonio Neto explicou que o governo teve o cuidado de preservar a característica de regência, de trabalho pedagógico, ao contrário do que ocorre em alguns estados, em que o professor, ao exercer uma função fora da sala de aula, perde o benefício.

A ideia é levar a figura do professor agente de leitura, de forma gradual, a todas as 1.437 escolas públicas dos 92 municípios fluminenses. Todas elas têm algum tipo de sala de leitura ou espaço dedicado a livros, como bibliotecas inclusive. “Nós queremos atingir todas elas. Mas esse é um passo gradual, porque nós temos uma deficiência de pessoal na rede ainda grande”, disse Antonio Neto.

Por Alana Gandra | Agência Brasil | 10/07/2012 | Edição: Fábio Massalli

Livros digitais ainda são desconhecidos pela maioria dos brasileiros


A leitura de livros digitais, também conhecidos como e-books, ainda é pouco disseminada no país. Dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada hoje [28] pelo Instituto Pró-Livro mostram que 70% dos entrevistados nunca ouviram falar dos livros eletrônicos que podem ser lidos em equipamentos como tablets [computadores de prancheta] e e-readers [livros digitais].

Dos 30% que já ouviram falar em e-books, 82% nunca leram um livro eletrônico. De acordo com o levantamento, as pessoas que têm acesso aos livros digitais ou leram pelo computador [17%] ou pelo celular [1%]. A maioria dos leitores [87%] baixou o livro gratuitamente pela internet, e desses, 38% piratearam os livros digitais. Apenas 13% das pessoas pagaram pelo download.

Os leitores aprovam o formato eletrônico dos livros digitais, segundo a pesquisa. A maior parte dos entrevistados lê de dois a cinco livros por ano. No entanto, mesmo que muitos sejam adeptos dos livros digitais, a maioria dos leitores acha difícil a extinção do livro de papel.

Os livros digitais são mais populares entre o público de 18 a 24 anos. A maioria dos leitores de e-books pertence à classe A e tem nível superior completo. De acordo com a pesquisa, 52% dos leitores são mulheres e 48% homens.

O levantamento avaliou que a leitura de livros digitais no Brasil é considerada uma tendência. Nos Estados Unidos, a venda de e-books supera a de livros impressos. De acordo com a Associação Americana de Editores, as vendas dos livros digitais cresceram 117,3%, em 2011. Ainda segundo a associação, o mercado cresceu mais de 100% em três anos.

Por Daniella Jinkings | Agência Brasil | 28/03/2012