O livro digital não morreu?


Os últimos meses foram marcados por uma onda de pessimismo em relação ao desempenho dos livros digitais no mercado: depois de diversas editoras relatarem um crescimento do digital menor do que o esperado em 2015, uma matéria no New York Times concluiu – com razão – que o livro impresso está longe de morrer. Como sabemos, notícias sobre e-books no mercado editorial tendem a ganhar tons apocalípticos: da mesma forma como o Kindle foi anunciado como o assassino do livro impresso – e a notícia de que a Amazon vendia mais livros digitais do que físicos, lá em 2012, foi alardeada como o último prego no caixão do papel –, a desaceleração do crescimento dos e-books nos EUA e no Reino Unido foi encarada por muitos como uma “revanche” do livro impresso. Mas afinal, o que está, de fato, acontecendo no mercado?

É verdade que muitas editoras vêm relatando estagnação ou queda nas vendas de e-books em relação ao ano passado. O último relatório da Association of American Publishers, que reúne dados de mais de 1200 editoras dos EUA, apontou uma queda de 6,7% nos e-books adultos e 30,9% nos infanto-juvenis em julho, em relação ao mesmo mês de 2014. Dados individuais de algumas das maiores editoras americanas – como Hachette, HarperCollins e Simon & Schuster – sugerem uma tendência semelhante. A participação dos e-books no faturamento das editoras parece ter se estabilizado entre 20 e 30%, uma porcentagem que, embora significativa, é muito menor do que o crescimento acelerado do digital poucos anos atrás permitia imaginar. Dito isso, algumas considerações:

1] Esta relação entre as vendas de livros impressos e de e-books – que, segundo a Nielsen, está em torno de 74% para 26% no mercado americano como um todo – é uma média do mercado, considerando todos os gêneros ou, dependendo da pesquisa, todos os e-books adultos. Dentro deste universo, existem alguns gêneros em que estas porcentagens são bem diferentes; de maneira geral, e-books tendem a ter desempenho melhor na ficção, fazendo com que esta relação possa chegar mais próxima de 50/50 ou até de uma vantagem para o digital em alguns casos. Em outros gêneros, o livro digital já sai em desvantagem simplesmente por ter recursos limitados para reproduzir determinados conteúdos; para livros de arte, por exemplo, o e-book ainda não se compara ao papel em termos de experiência e conforto.

2] Uma das explicações apontadas para a queda de desempenho dos e-books foi a alta dos preços causada pela volta do agency model para a maior parte das grandes editoras, que agora podem estabelecer seus próprios preços, sem descontos por parte das livrarias. Esta é uma hipótese que não se pode descartar: ainda segundo a Nielsen, o preço é um fator importante na escolha de formato para a maior parte dos leitores. A partir destes dados, alguns analistas concluem que o que está encolhendo não é o mercado de e-books, e sim a participação das grandes editoras nele, uma vez que o público, assustado com a alta de preços, tem preferido livros independentes, que costumam ser bem mais baratos. Esta hipótese vai contra os dados da Nielsen, que indicam, entre 2014 e 2015, um aumento da participação tanto dos livros autopublicados [de 14% para 18%] quanto das “Big Five” [de 28% para 37%], às custas das editoras pequenas e médias, que caíram de 58% para 45%. Mas é verdade que os números mais abrangentes que temos, que são os da pesquisa mensal da Association of American Publishers, consideram apenas os números de vendas fornecidos por editoras; os livros independentes são uma parte relevante do mercado que não é considerada nas pesquisas que apontam a queda dos e-books.

3] Outro fator a se considerar é o declínio dos e-readers em favor dos tablets e smartphones. Segundo a última pesquisa do Pew Research Center, a popularidade dos e-readers dedicados nos EUA caiu drasticamente em relação a 2014, com apenas 19% dos entrevistados tendo declarado possuir um, contra 32% no ano passado. Já os tablets e smartphones chegam a 45% e 68% da população, respectivamente. Embora estes últimos também sejam utilizados para leitura – os celulares, inclusive, vêm sendo apontados como a grande tendência para o mercado de e-books nos próximos anos –, eles são dispositivos multifuncionais, nos quais a leitura é apenas uma das muitas atividades possíveis. Considerando que os últimos grandes lançamentos de e-readers, o Kindle Voyage e o Kobo Aura H2O, aconteceram no ano passado, suponho [e dessa vez não tenho dados, é só especulação mesmo] que haja menos pessoas comprando e-readers este ano, o que implica menos leitores empolgados com o novo gadget e dispostos a comprar muitos e muitos e muitos novos e-books para encher suas prateleiras virtuais.

Isso significa que as editoras devem voltar a apostar todas as suas fichas no impresso e que os funcionários de seus departamentos digitais já devem começar a atualizar o LinkedIn em busca de um novo emprego no futuro próximo? Na minha humilde opinião, não. Significa que o mercado está mais maduro e que seus tempos de crescimento de dois ou até três dígitos ao ano chegaram ao fim. Agora, é importante que as editoras se empenhem, por um lado, em produzir e-books de qualidade – evitando que o digital continue a ser encarado simplesmente como um subproduto mais barato do livro físico e que novos leitores voltem correndo para o impresso depois de uma experiência com um e-book ruim –, e por outro, em inovar e aproveitar as vantagens específicas do digital. Dadas as limitações do ePub, esta tarefa nem sempre é fácil, mas, num mercado tão dinâmico, até isso pode mudar. Então, sugiro esperar mais um pouco antes de decretar a morte de qualquer formato.

Por Marina Pastore | Publicado originalmente em Colofão | 02/12/2015

Marina Pastore

Marina Pastore

Marina Pastore é jornalista formada pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Descobriu os e-books ainda na faculdade, em 2011, e foi amor ao primeiro download. Vem trabalhando com eles desde então, integrando o departamento de livros digitais da Companhia das Letras. Seu maior orgulhinho profissional foi ver toda a obra de seu autor preferido e muso inspirador, Italo Calvino, disponível em formato digital. Sua vida é basicamente um grande episódio de Seinfeld, mas com menos sucrilhos e mais [muito mais] gifs animados.

HarperCollins confirma acordo com Amazon


A HarperCollins entrou em acordo com a Amazon, e a varejista continuará vendendo os livros da editora versões impressa e digital. Os detalhes do novo contrato não foram revelados, mas o Wall Street Journal citou uma fonte familiarizada com o negócio, que relata que a HarperCollins irá definir os preços de venda dos seus livros digitais, com incentivos para que a editora forneça preços menores aos consumidores. Durante as negociações do contrato, a Amazon revelou que a sua oferta à HarperCollins foi semelhante à proposta oferecida a outras casas como Hachette, Simon & Schuster e Macmillan.

Por Joshua Farrington | The Bookseller | 14/04/2015

O calvário dos eBooks


Os livros digitais dão sinais de perda de fôlego nos países desenvolvidos e ainda não têm relevância nos negócios das editoras brasileiras

Em queda: as vendas do Kindle, lançado pela Amazon de Jeff Bezos, despencaram, segundo varejista inglês | Foto: Ben Margot

Em queda: as vendas do Kindle, lançado pela Amazon de Jeff Bezos, despencaram, segundo varejista inglês | Foto: Ben Margot

Poucos setores ficaram imunes ao avanço da tecnologia digital. A indústria fonográfica, por exemplo, foi a primeira a sentir os efeitos da digitalização, que levou as principais empresas da área quase à bancarrota no início dos anos 2000. A televisão sente os efeitos da internet, com o surgimento de um telespectador que quer assistir o que quer, na hora que desejar e no dispositivo que for mais conveniente. A Netflix é o grande expoente dessa nova era. Diante disso, muitos viram no Kindle, lançado em 2007, o começo do fim do livro impresso.

O aparelho da Amazon, de Jeff Bezos, tinha tudo para fazer para a indústria editorial o que o iPod fez para o setor musical. Ledo engano. Para surpresa geral, as editoras abraçaram os livros digitais [e-books]. E logo descobriram que a margem de lucro das versões digitalizadas era o dobro da tradicional, mesmo com um preço mais baixo. Era um sinal de que a transição, considerada inevitável, do livro de papel para o digital seria feita sem grandes solavancos. Só faltou combinar com o leitor. Nos países desenvolvidos, o livro digital começa a dar sinais da falta de fôlego.

Executivos da maior cadeia de livrarias da Inglaterra, a Waterstone, declarara ao jornal Financial Times que as vendas de Kindle simplesmente desapareceram. A perda de impulso já atingiu a Simon & Schuter, membro do “Big Five”, grupo dos cinco maiores conglomerados do mundo [Penguim Random House, Hachette, HarperCollins e Macmillan completam o time]. Subsidiária do grupo de mídia CBS, a S&S registrou queda nas vendas de 3,8%, para US$ 778 milhões. O lucro caiu 5,6%, para US$ 101 milhões. Uma razão para o ano ruim foi a redução no ritmo das vendas digitais.

A fatia diminuiu de 24,4% em 2013 para 23,2% no ano passado. Não se trata de casos isolados. A consultoria americana Gartner aponta que, em 2017, os e-readers como o Kindle venderão 10 milhões de unidades, número 50% menor do que as vendas do ano passado. Com a estagnação, a alternativa é ler e-books nos tablets, que também estão passando por um declínio de vendas, e smartphones. “São aparelhos que dispersam, oferecem opções demais de entretenimento e não são apropriados para a leitura longa”, afirma Eduardo Melo, fundador da consultoria de livros digitais Simplíssimo.

Por que aparelhos como o Kindle enfrentam esse calvário? O rechaço tem a ver com sua função única. O consumidor, ao que tudo indica, quer fazer mais tarefas com uma tela. Isso fez com que as principais empresas do segmento, como Amazon e Kobo, passassem a investir na produção de tablets. Se nos países ricos os e-books patinam, no Brasil, eles nunca deixaram o gueto editorial. Apenas 2% dos R$ 5,3 bilhões faturados com livro no Brasil vêm de ebooks, segundo levantamento da Fipe de 2013 [dado mais recente]. A Biblioteca Nacional, por exemplo, expediu 16.564 ISBNs [código de identificação dos livros] para e-books no ano passado, apenas 1% a mais que no ano anterior.

De 2012 para 2013, o crescimento havia sido de 10%. Diversas iniciativas voltadas para e-books foram abandonadas, como o selo Breve Companhia, da Companhia das Letras, empresa da Penguim Random House, que publicava obras inéditas direto na mídia digital. Ela foi descontinuada no fim do ano passado. “No momento, estamos repensando o enfoque”, diz Fabio Uehara, editor de e-books da empresa. “Temos outros lançamentos digitais previstos para este ano.” A fadiga também atinge o varejo. “Crescemos dois dígitos, mas esperava um crescimento muito maior”, afirma Sergio Herz, CEO da Livraria Cultura, que comercializa ebooks e e-readers da Kobo.

Apesar de ser muito novo, esse mercado já mostra certa saturação”. A japonesa Rakuten, dona da Kobo, ainda é otimista. A empresa aumentou sua aposta nos livros digitais ao comprar a distribuidora de e-books Overdrive por US$ 410 milhões, em março deste ano. Amazon, Saraiva e Livraria Cultura não fornecem dados de vendas no Brasil, mas quem acompanha o setor não vislumbra um grande apelo dos e-readers. “No Brasil a leitura acontece em smartphones”, afirma Tiago Ferro, fundador da E-Galáxia, plataforma de intermediação entre autores e profissionais do mercado editorial a fim de editar e publicar e-books.

ISTO É Dinheiro | Por João Varella | 07/04/2015, às 17:30

“Vendas de livros impressos sobem, enquanto digitais perdem popularidade”, diz Financial Times


Preferência de jovens por títulos convencionais mostra tendência que contraria previsão de especialistas, diz jornal britânico

RIO | Os livros de papel estão virando o jogo na guerra contra os e-books. Contrariando expectativas do mercado, as vendas de títulos impressos vendidas nas principais livrarias dos EUA, Reino Unido e Austrália subiram em 2014, segundo reportagem publicada neste sábado pelo “Financial Times”. Enquanto isso, o desempenho de publicações eletrônicas tem desapontado quem apostou que dispositivos como o Kindle substituiriam a mídia tradicional.

De acordo com o levantamento Nielsen BookScan, citado pelo jornal britânico, o número de livros físicos vendidos nos EUA subiu 2,4% no ano passado, alcançando 635 milhões. No Reino Unido, o setor encolheu 1,3%, mas a queda representa uma melhor ante 2013, quando as vendas recuaram 6,5%.

A rede de livrarias britânica Waterstones foi uma das companhias que se beneficiou com a retomada do setor no país. As vendas da empresa subiram 5% em dezembro, na comparação com o mesmo mês do ano passado. Não graças aos livros para Kindle, diz o diretor-executivo James Daunt, acrescentando que as vendas de títulos digitais “desapareceram”.

As coisas andam mal, mas já alcançamos o fundo do poço do mercado”, disse Sam Husain, diretor-executivo da rede de livrarias Foyles, que viu as vendas da empresa crescerem 8%, também puxadas pelos livros impressos.

PREFERÊNCIA ENTRE JOVENS

De acordo com especialistas ouvidos pelo “FT”, a tendência deve se manter nos próximos anos, já que a melhora no mercado de livros físicos tem sido influenciada fortemente pelo público mais jovem. As vendas de títulos de ficção para jovens adultos cresceram 12% em 2014, mais que os títulos voltados para adultos. Os destaques do segmento são títulos como a série “Crepúsculo” e o best-seller “A Culpa é das Estrelas”.

Jornais impressos são resistentes entre aqueles que cresceram com jornais impressos. Livros impressos são resistentes entre todos as idades”, disse Paul Lee, analista da Deloitte, que projeta que 80% das vendas de livros em 2015 serão de cópias físicas.

Pesquisa recente da Nielsen indica que a maioria dos adolescentes entre 13 e 17 anos preferem os livros de papel. O jornal não cita os percentuais do levantamento, mas a consultoria destaca que o resultado do estudo pode estar relacionado à falta de cartões de crédito entre os mais jovens. Mas também diz que a possibilidade de compartilhar os títulos preferidos conta pontos: é mais fácil compartilhar e emprestar livros impressos.

Apesar dos números melhores que o esperado frente ao mercado de ebooks, o “FT”, controlado pela editora Pearson, destaca que o setor ainda enfrenta desafios. Principalmente em relação à concorrência com a Amazon, que domina o mercado de livros digitais.

No ano passado, a empresa de Jeff Bezos e a editora francesa Hachette travaram uma longa batalha sobre o patamar dos preços dos livros. Enquanto a Amazon queria manter preços baixos, a editora queria elevar o valor dos títulos. Em novembro, as duas partes anunciaram que entraram em um acordo, para que a editora determine os preços dos livros.

O setor enfrenta várias ameaças estruturais. O domínio da Amazon significa que as negociações de preços continuarão a ser fontes de tensão. A publicação independente continua a crescer, e as editoras ainda estão esperando para ver se os modelos de assinatura — que transformaram a indústria de música — vão funcionar entre leitores”, avalia a reportagem do “FT”.

Publicado originalmente em O GLOBO | 10/01/2015, às 20:21 | Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A.

Macmillan faz acordo com Amazon, nos EUA


Nos EUA, Macmillan fechou acordo de longo prazo com a Amazon, incluindo o contrato dentro do modelo agência. Mas em seu blog, o presidente da Macmilann John Sargent criticou a incapacidade de se resolver “um dos grandes problemas no mercado digital”, ou seja, que a Amazon detenha a expressiva parcela de 64% das vendas de livros digitais da editora nos EUA. Sargent revelou ainda que a empresa planeja testar um modelo de assinatura nas próximas semanas, apesar de ter sido historicamente contrária ao modelo de subscrição. É que a editora notou que precisava de abrir “canais mais amplos com nossos leitores”. Macmillan é a terceira editora a tornar público um acordo com a Amazon. Antes dela, fecharam Simon & Schuster ] e Hachette.

Por Sarah Shaffi | The Bookseller | 18/12/2014

Amazon e Hachette entram em acordo


A Amazon e a Hachette finalmente colocaram um ponto final nas suas negociações que se arrastavam desde maio. Desde então, a Amazon tirou os produtos da Hachette da pré-venda, eliminou os descontos nos títulos publicados pela editora e começou a entregá-los com atraso. O acordo anunciado no início da tarde de ontem [13] contempla e-books e livros impressos.

No comunicado, assinado conjuntamente pelas duas empresas, Michael Pietsch, CEO da Hachette, disse que o anúncio é uma ótima notícia para os escritores. “O novo acordo beneficiará os autores. Ele dá à Hachette uma enorme capacidade de ações de marketing com um dos nossos mais importantes varejistas“, disse.

Estamos muito felizes com o novo acordo que inclui a possibilidade de entregar os produtos da Hachette a um preço menor, o que, nós acreditamos, será um grande ganho para os leitores, bem como para os autores“, disse David Naggar, vice-presidente para o Kindle no comunicado.

Pelo acordo, a Hachette terá a responsabilidade de adequar os preços finais para os consumidores. Amazon e Hachette devem retomar imediatamente a normalidade das vendas e os livros da Hachette poderão entrar em promoções. Na prática, a nova medida marca o retorno ao modelo agência, no qual as editoras definem os preços dos livros e a varejista recebe comissão de 30% sobre o valor.

O comunicado, embora coloque um ponto final na pendenga que se arrastava desde maio, não dá detalhes da negociação e nem como as empresas chegaram ao acordo.

Por Leonardo Neto | PublishNews | 13/11/2014

Sistema de assinaturas da Amazon para livros chega ao Reino Unido


Depois de ter estreado este modelo nos Estados Unidos, a Amazon lança agora no Reino Unido a sua versão ilimitada, através do pagamento de uma mensalidade.

O Kindle da Amazon é um dos aparelhos mais usados para a leitura de livros electrónicos Rui Gaudêncio

O Kindle da Amazon é um dos aparelhos mais usados para a leitura de livros electrónicos Rui Gaudêncio

A partir de agora, no Reino Unido também já se pode ter acesso a todo o catálogo da Amazon através do pagamento de uma mensalidade. O sistema é semelhante ao que já acontece na música [com o Spotify, por exemplo], nos filmes e nas séries televisivas [Netflix].

Foi em Julho que ficou disponível nos Estados Unidos a subscrição do Kindle Unlimited, que permite aos assinantes o acesso aos mais de 650 mil livros electrónicos, assim como aos mais de dois mil áudio-livros. Tipicamente, a Amazon lança os produtos e serviços no mercado norte-americano antes de os levar para outros países. Agora, este modelo de assinatura, cuja mensalidade custa 7,99 libras [cerca de dez euros], está também disponível no Reino Unido, não havendo ainda indicação de quando poderá chegar a outros países.

“Os nossos clientes dos Estados Unidos mostraram-nos o quanto gostaram da oportunidade de descobrir novos autores e novos géneros, e estamos encantados por oferecer a mesma liberdade aos nossos clientes no Reino Unido”, disse ao The Guardian Jorrit Van der Meulen, vice-presidente europeu da Amazon.

Para promover este novo serviço, a Amazon tem destacado exactamente a possibilidade de, com esta subscrição, se poder ler os grandes bestsellers, como ainda descobrir novos nomes da literatura.

O anúncio deste novo serviço, surgiu pouco depois da polémica entre a Amazon e o grupo editorial Hachette, depois de uma forte disputa contratual, cujos termos não foram até hoje divulgados. Por não conseguir chegar a acordo o grupo editorial, a Amazon dificultou o acesso aos títulos da Hachette, o que irritou muitos autores, despoletando diversas acções.

Agora, a Amazon defende-se, argumentando que com o sistema de assinatura contribuirá também para os autores. Este género de sistema já é frequente noutros tipos de conteúdo. O Spotify, por exemplo, é um dos conhecidos serviços de música que funciona num modelo de assinatura mensal. A própria Amazon já tinha um serviço de assinatura de vídeos.

À semelhança do que acontece no Spotify, em que os artistas recebem uma percentagem pequena de cada vez que as suas músicas forem ouvidas, também na Amazon, os autores serão pagos de cada vez que alguém ler mais de 10% dos seus livros através deste novo serviço. A quantia que recebem depende, no entanto, dos acordos entre as editoras e a Amazon.

Público | 24/09/2014, às 14h07

Authors United’ preparam nova investida contra Amazon


Há quase um mês, a Authors United, um grupo de mais de 900 autores preocupados com o envolvimento de escritores na disputa entre Amazon e Hachette, assinaram uma carta veiculada no New York Times. Agora, o grupo está se preparando para levar adiante mais uma investida contra as táticas de negociação da Amazon. Em um e-mail enviado na última quarta-feira aos signatários do anúncio no NY Times e de outros escritores que aderiram à causa posteriormente, o autor Douglas Preston escreveu: “Amazon continua sua sanção contra os livros da Hachette: 2500 autores e mais de sete mil títulos foram aparentemente afetados. Autores da Hachette viram as vendas de seus livros caírem mais de 50% na Amazon e em alguns casos, a perda chega aos 90%”. Preston está preocupado também com o que poderia acontecer aos autores da Simon & Schuster, outra editora que está em negociações com a Amazon. Ele concluiu escrevendo: “somos forçados a passar para a nossa próxima iniciativa”. Essa iniciativa pode ocorrer nos próximos dias.

Publishers Weekly | 08/09/2014

Amazon ‘recebe’ Orwell em seu último ataque


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 15/08/2014 | Tradução Marcelo Barbão

Qualquer um que leia o último ataque da Amazon na sua guerra contra a Hachette e depois a resposta de David Streitfeld no site do New York times vai saber que a Amazon – deliberadamente ou com incrível ignorância – distorceu uma citação de George Orwell para que parecesse que ele estava contra os livros de bolso baratos [papperbacks] quando, na verdade, ele estava a favor.

Isso lembra a ironia irrelevante, mas deliciosa, de que a única vez que a Amazon exercitou sua capacidade de recuperar e-books que tinha vendido foi quando descobriu que estava distribuindo e-books sem autorização de 1984 do próprio Orwell. A coisa certa a fazer era exatamente o que eles fizeram: retirar os e-books que violavam os direitos autorais e devolver o dinheiro aos compradores. Este evento [aparentemente] único é sempre citado como algum tipo de problema genérico com e-books, como se os vendedores fossem transformar isso numa prática comum. O que aumenta a ironia era que a Amazon foi atacada por todos os lados por fazer a coisa certa.

No entanto, o aspecto mais enganoso do texto da Amazon não é o tratamento orwelliano de Orwell, mas a metáfora distorcida na qual os e-books com preço baixo são os paperbacks de preço baixo de hoje. [Eu fiz esta analogia há uns três anos, acho que com um pouco mais de cuidado com os fatos.] Sim, os dois eram novos formatos com um custo menor, o que permitia um preço final mais baixo para produzir margens positivas. E há outra semelhança incrível: os dois lançaram uma avalanche de ficção de gênero para satisfazer a demanda pelo formato, principalmente porque os direitos de livros de maior valor não estavam disponíveis para o formato mais barato, mas também porque preços menores atraíam alguns leitores mais do que outros. Mas é onde as semelhanças terminam.

Este argumento contra a Hachette, tentando usar uma procuração dos escritores e preços menores para consumidores como um bem irrefutável, usa duas falácias lógicas que são centrais para o argumento deles de que a Hachette [e sua empresa controladora, invocada para dar a aparência de relativa igualdade de tamanho entre os combatentes, o que não é nem de longe o caso] é medrosa e cabeça-dura, enquanto que a Amazon está simplesmente lutando por direitos.

  1. A lógica da Amazon é inteiramente interna. Não tenta levar em conta, nem mesmo reconhecer, que editoras e seus autores dependem de outros canais além da Amazon. E, na verdade, as editoras e os autores sabem com certeza que quanto mais as vendas se concentrarem na Amazon, mais suas margens serão reduzidas.
  1. A estatística de elasticidade de preço que ela invoca [pela segunda vez em declarações públicas], que também é algo inteiramente interno à Amazon, são médias. A empresa não nos oferece o desvio padrão para podermos conhecer qual parte dos títulos medidos está perto da média, muito menos o ponto de corte de um gênero ou tópico específico, sem sombra de dúvida, e saber assim que muitos livros da Hachette não alcançariam a taxa de elasticidade média. Veja se você consegue encontrar alguém com uma grama de sofisticação estatística que acha que um livro de Malcolm Gladwell tem a mesma elasticidade de preço de um livro de romance ou de ficção científica escrito por um autor relativamente desconhecido.

A história real do paperback nos EUA contém vários elementos que concordam com o que diz a Amazon. Na verdade, esta história começa depois da II Guerra Mundial, não antes [apesar de que a Penguin entrou no país em 1939]. Durante a II Guerra Mundial, sob a direção do historiador e homem renascentista Philip Van Doren Stern, os militares levaram os paperbacks de 25 centavos para as tropas. Isso apresentou a ideia para as massas e depois da guerra foram abertas várias editoras de paperback mass-market.

Elas distribuíam através da rede de distribuição de revistas locais: distribuidores locais que “empurravam” cópias do material impresso para as bancas e outros intermediários que pegavam suas edições e as colocavam em prateleiras até que a edição seguinte da revista fosse publicada, e depois enviava de volta as capas para receber o crédito das que não tinham sido vendidas. Os primeiros livros paperback tinham uma vida curta similar nas prateleiras neste ambiente de distribuição.

Vários fatores fizeram com que fosse possível vendê-los a preços baixos:

  1. Os próprios livros frequentemente seguiam fórmulas e eram curtos, portanto baratos para as editoras. O universo dos títulos nos primeiros anos era, além dos clássicos em domínio público, um conjunto diferente de títulos dos que eram vendidos pelas editoras principais nas livrarias.
  1. Não havia uma negociação cara entre editoras e os canais de venda sobre pedidos para cada envio de livros. O distribuidor simplesmente decidia quantas cópias cada ponto receberia e, no começo, era distribuído o que a editora queria. O “método de verificação” era simples: a editora recebia as capas cortadas de volta pelos livros que não tinham sido vendidos e isso era o obstáculo contra exceder a publicação. Com o tempo, este aspecto foi modificado e a editora teve que trabalhar com os distribuidores para conseguir o que queria.
  1. Os livros em si eram mais baratos também: menos papel e menor custo, além da encadernação mais barata.
  1. A adoção do sistema de retorno igual às das revistas, apenas a capa, criou uma boa economia comparada com a prática dos livros gerais que exigia a devolução de todo o livro em boas condições para receber o crédito.
  1. O varejo ficava com uma parte consideravelmente menor do preço no varejo do que as livrarias recebiam nos livros gerais.

Ao mesmo tempo em que a revolução de mass-market estava começando, as editoras de livros gerais convencionais também começaram a experimentar com o formato paperback. A primeira incursão extensiva deste tipo foi feita pela Doubleday no começo dos anos 50, quando o menino prodígio Jason Epstein [mais tarde o fundador do NY Review of Books e ainda ativo como um dos visionários fundadores por trás da Espresso Book Machine] criou a linha Anchor Books.

Meu pai, Leonard Shatzkin, era Diretor de Pesquisa na Doubleday [hoje eles chamariam de “Desenvolvimento de Novos Negócios” ou “Gerência de Mudança”] na época. Ele geralmente contava sobre uma conferência de vendas em Bear Mountain onde Sig Gross, que liderava as livrarias Doubleday, atacou os paperbacks baratos porque as lojas não conseguiam ganhar dinheiro com eles! Então, é verdade que a indústria editorial estabelecida e o negócio inicial de paperbacks tiveram um período de quase duas décadas desenvolvendo-se de forma separada.

Foi nos anos 1960 – uma década e meia depois do início da revolução dos paperbacks – que duas empresas realmente começaram a se fundir em uma só. E o processo de integração das duas empresas demorou outra década e meia, finalmente concluindo no final dos anos 1970 quando a Penguin comprou a Viking, a Random House comprou a Ballantine e a Fawcett, e a Bantam começou a publicar livros com capa dura.

Meu primeiro emprego no mercado foi em 1962, trabalhando em vendas no departamento recém-aberto da Brentano’s Bookstore na 5ª Avenida. Mesmo então, os dois negócios operavam de forma separada. O departamento tinha prateleiras altas por todos os lados com o que chamamos hoje de “paperback gerais”, organizados por tópico. Eram principalmente acadêmicos. Em uma parede estavam as prateleiras de paperback mass-market e estavam organizados por editoras. Se você quisesse encontrar o paperbacks de um autor famoso cujos direitos tinham passado a uma editora mass-market, precisava saber qual editora tinha publicado o autor para encontrar o livro. [Isso era bom; dava trabalho aos vendedores!]

Havia uma simples razão para isso. Os dois tipos de paperbacks funcionavam com diferentes protocolos econômicos e de distribuição. Os paperbacks gerais eram comprados como capa-dura; tudo que chegava era porque um comprador da Brentano’s tinha feito um pedido. Os de mass-markets eram colocados em seus racks próprios enviados pela editora. Eles mandavam seus próprios representantes para verificar os estoques semanalmente e eles decidiam quais livros novos eram colocadas nos racks e qual estoque morto era retirado. Era para facilitar o trabalho das editoras que os mass-markets eram agrupados assim.

Os livros de muito sucesso comercial que se tornaram paperback mass-markets ficavam ali porque a editora dos livros com capa-dura, depois de terem ganhado a maior parte da renda esperada pelo livro, vendiam os direitos para o mass-market a fim de conseguir outro pedaço da maçã.

Não tem nada a ver com o que está acontecendo hoje. Pouco disto é comparável aos desafios que as editoras gerais encaram mantendo vivo um sistema de distribuição multi-canais e um mercado de livros impressos que ainda é responsável pela maior parte das vendas da maior parte dos livros.

Mas a diferença mais importante hoje é que um único varejo controla tudo que consegue do comércio, sozinho, influenciando o preço de toda uma indústria. O mero fato de que um único varejo possa tentar isso é um sinal de que temos um desequilíbrio na cadeia de valor, algo sem precedentes na história editorial.

Um outro aspecto de toda esta discussão que é mistificadora [ou reveladora] é o sucesso da Amazon em conseguir que os autores independentes estejam do lado dela enquanto bate nas editoras para diminuir os preços. [A nova declaração da Amazon é feita em uma carta enviada aos autores com livros na KDP]. Isso vai absoluta e indisputavelmente contra os interesses dos próprios autores autopublicados, para quem é muito melhor que os livros de editoras tenham preços maiores, deixando a faixa dos preços menores para eles. Isso já me parecia algo óbvio há vários anos. Mas a Amazon ainda consegue evocar a milícia dos autores independentes para apoiá-la quando luta por preços mais altos para a concorrência dos independentes!

A tática de publicar o nome e o endereço de e-mail de Michael Pietsch com um claro apelo a que os autores independentes encham o inbox dele é uma tática horrível, mas para ser justo com a Amazon, esta tática horrível foi iniciada pela publicidade da Authors United assinada por Douglas Preston que deu o endereço de e-mail de Bezos. Isto é algo que os dois lados deveriam evitar e, neste caso, não foi a Amazon que começou.

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 15/08/2014 | Tradução Marcelo Barbão

Mike Shatzkin

Mike Shatzkin

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].

Amazon conclama leitores a lutarem ao lado dela, contra editoras e escritores


Por Julio Silveira | Publicado originalmente em PublishNews | 12/08/2014

Amazon conclama leitores a lutarem ao lado dela, contra editoras e escritores. 

Neste fim de semana a Amazon deixou um “pedido importante” na caixa de e-mail de cada um de seus milhões de clientes, em nome dos “Leitores unidos”. O manifesto rogava a seus usuários que escrevessem desaforos ao megagrupo editorial Hachette, a quem acusava de “formação de quadrilha” [collusion] para manter os preços de e-books em um nível desnecessariamente alto, “prejudicando” o leitor, e toda a cadeia do livro. Era ainda um contra-ataque ao bombardeio dos “Autores unidos” que a acusavam de tomar os livros como reféns na pendenga comercial e incitavam a uma blitzkrieg de e-mails para jeff@amazon.com.

Na disputa entre editoras, livrarias, escritores e leitores, a guerra é de palavras. E parece que a arma da Amazon deu chabu. Ela foi escolher logo George Orwell, o humanista radical autor de 1984 como antiporta-voz. Comentando sobre o “elitismo” das editoras e comparando a revolução dos e-books à imensa popularização dos paperbacks [livros de bolso ou brochuras], a Amazon [mal]citou Orwell: “se os editores tivessem noção, se juntariam para acabar com [os paperbacks].” Para o eventual cliente Kindle que não saiba ler, a Amazon explicitou: “isso mesmo, ele estava sugerindo o conluio”.

Vivemos em uma época de informação na ponta dos dedos, e este é justamente o negócio da Amazon. Como explicar então que ela não fez uma simples busca, ou, pior, não suspeitou que seus leitores iriam googlar a frase de Orwell. Quem o fez descobriu que o texto original é, na verdade, um elogio [ainda que cauteloso] aos paperbacks e aos livros baratos. Lá está a frase pinçada pela Amazon, um primor do understatement, querendo dizer o contrário do que está escrito. A frase inteira é “Os [paperback da] Penguin têm um valor [hoje diríamos “custo/benefício”] esplêndido, tão esplêndido que, se os outros editores tivessem noção, se juntariam para acabar com [eles]”.

Ainda que Orwell celebrasse os livros baratos, seu ensaio trazia argumentos diametralmente opostos ao do manifesto da Amazon. Comparem-se:

AMAZON: “Muitos dentro da caixa do setor editorial pensam pequeno. Acham que livros só concorrem com livros. Na verdade, livros concorrem com jogos de celular, televisão, cinema, Facebook, blogs, sites gratuitos de notícias e mais. Se quisermos uma cultura literária saudável, temos que trabalhar duro para garantir que livros sejam competitivos em relação aos outros meios, e uma parte desse trabalho duro é fazer com que os livros sejam menos dispendiosos”. Em seguida, a Amazon demonstra que uma redução de 33% do preço de capa aumentaria os royalties dos autores em 16% e o público, em 74%.

ORWELL: “É, evidentemente, um grave erro imaginar que livros baratos são bons para o comércio livreiro. Ocorre justamente o contrário. Quanto mais barato os livros se tornarem, menos se gastará em livros.” Ele predisse que quem comprava dois livros caros por mês passaria a comprar dois livros baratos e usar o troco para ir ao cinema. “Esta é uma vantagem, do ponto de vista do leitor, e não prejudica muito o mercado do livro em si, mas, para o editor, o diagramador, o escritor e o livreiro é uma catástrofe”.

Discussões sobre o impacto dos preços baixos à parte, a escolha de Orwell foi espetacularmente desastrosa para a Amazon porque fez lembrar, a muita gente, o primeiro episódio de “não-é-bem-assim” em meio à euforia libertária da leitura digital. Em 2009, a Amazon deletou, no Kindle de alguns clientes, dois livros de George Orwell que teriam sido vendidos “indevidamente”,  1984 e Revolução dos bichos [Animal farm]. É difícil imaginar dois títulos mais assustadoramente adequados para tratar de controle [externo] da leitura.

Em 1984, as pessoas são subordinadas a um partido de pensamento único, que mantém um departamento para descartar os livros e histórias que não servem a seus propósitos, “exércitos de arquivistas cujo trabalho era simplesmente fazer listas de livros e periódicos a serem” jogados no incinerador conhecido como “buraco da memória”. Já Animal farm conta a história de uma experiência radical de libertação. Os animais assumem a fazenda, têm livre acesso à informação e ao bem comum, e declaram-se iguais uns aos outros. Até que uma nova elite começa a comandar e assume privilégios, porque “são mais iguais que os outros”.

Até aqui a internet e o digital nos deixaram mais próximos da utópica aldeia global de McLuhan [a democratização radical do modo de expressão] do que da distopia orwelliana de informação controlada. Porém, para que ninguém torne-se “mais igual” e que não haja sombra de “monopólio da palavra”, precisamos achar o equilíbrio entre a Amazon — que faz o papel de “caos criador”, catalizando as rupturas trazidas pelo digital e estimulando editoras, leitores e editores à inovarem e se adaptarem — e o “investimento em talento” e a liberdade de escolha proclamados pela Hachette. Um cessar-fogo na guerra das palavras, para que o tempo mostre quem [ou o que] vai prevalecer, e o que vai acontecer com o livro… se ele continuar existindo.

Afinal, nem mesmo o visionário Orwell arriscou prever as consequências do barateamento dos livros [paperbacks ou e-books]. “Na posição de leitor, eu aplaudo. […] Na condição de escritor, eu abomino […] Seria uma coisa boa para a literatura, mas seria uma coisa má para o comércio livreiro. E, quando você tem que escolher entre arte e dinheiro, bem… termine a frase você mesmo”.

Tomara que a gente possa…

Por Julio Silveira | Publicado originalmente em PublishNews | 12/08/2014

Julio Silveira é editor, formado em Administração, com extensão em Economia da Cultura. Foi cofundador da Casa da Palavra em 1996, gerente editorial da Agir/Nova Fronteira e publisher da Thomas Nelson. Desde julho de 2011, vem se dedicando à Ímã Editorial, explorando novos modelos de publicação propiciados pelo digital. Tem textos publicados em, entre outros, 10 livros que abalaram meu mundo e Paixão pelos livros[Casa da Palavra], O futuro do livro [Olhares, 2007] e LivroLivre [Ímã]. Coordena o fórum Autor 2.0, onde escritores e editores investigam as oportunidades e os riscos da publicação pós-digital.

A coluna LivroLivre aborda o impacto das novas tecnologias na indústria editorial e as novas formas de relacionamento entre seus componentes — autores, agentes, editores, livrarias e leitores. Ela é publicada quinzenalmente às quintas-feiras.

Amazon lança biblioteca digital sem cinco maiores editoras americanas


Depois de meses de especulação, na sexta-feira [18] a Amazon lançou um serviço digital de assinaturas que oferece acesso ilimitado a livros eletrônicos e audiobooks digitais por US$ 9,99 ao mês.

O serviço, Kindle Unlimited, oferece uma abordagem em estilo Netflix que permite acesso a mais de 600 mil livros eletrônicos, entre os quais séries de sucesso como “Jogos Vorazes” e “Diário de um Banana”, obras de não ficção como “Flash Boys”, do jornalista Michael Lewis, clássicos e ficção literária.

Até o momento, nenhuma das cinco grandes editoras dos Estados Unidos está oferecendo seus livros.

A HarperCollins, a Hachette e a Simon & Schuster, por exemplo, estão fora.

A Penguin Random House e a Macmillan se recusaram a comentar, mas uma busca na Amazon sugere que os livros dessas editoras tampouco estão disponíveis.

Como resultado, alguns títulos populares eram notáveis pela ausência quando o serviço começou a operar.

E como muitos escritores oferecem livros por mais de uma editora, os assinantes podem descobrir que têm acesso a certos livros de Michael Chabon e Margaret Atwood, mas não a outros.

A introdução do serviço surge em um momento de crescente tensão no relacionamento entre a Amazon e as grandes editoras.

O grupo de varejo on-line está sofrendo escrutínio cada vez mais intenso por seu domínio do mercado de livros eletrônicos e pelas táticas duras que usa nas negociações com as editoras.

A Amazon e a Hachette estão envolvidas em um duradouro e público impasse sobre os termos de venda de livros eletrônicos da editora, e a situação não parece próxima de uma solução.

Entre as editoras que estão oferecendo títulos pela assinatura estão a Scholastic, da série “Jogos Vorazes”, e a Houghton Mifflin Harcourt.

As notícias sobre o Kindle Unlimited começaram a surgir semanas antes de seu lançamento, quando a Amazon postou acidentalmente um vídeo promocional sobre o modelo de assinatura. O vídeo foi retirado do site, mas não antes que blogs de tecnologia comentassem sobre ele.

Ao oferecer o serviço, a Amazon está ingressando em um mercado cada vez mais lotado. Concorrerá com empresas iniciantes de distribuição digital de livros que oferecem serviços semelhantes, como a Scribd e a Oyster.

A Scribd conta com cerca de 400 mil títulos, e cobra US$ 8,99 ao mês. A Oyster tem mais de 500 mil títulos e oferece acesso ilimitado aos leitores por US$ 9,95 ao mês.

Com modelos de preço semelhante, a concorrência entre os serviços de livros eletrônicos por assinatura pode ser decidida com base no conteúdo e autores disponíveis.

O serviço da Scribd inclui livros de mais de 900 editoras, entre as quais Simon & Schuster e HarperCollins.

A Oyster oferece títulos de seis das dez maiores editoras norte-americanas.

Ainda assim, a Amazon ingressa no segmento com uma imensa vantagem: seu predomínio na publicação de livros eletrônicos e sua vasta biblioteca de audiobooks, que ela está integrando ao seu serviço por assinatura.

Do “New York Times” | Publicado originalmente por UOL | 26/07, às 3:10 | Tradução de PAULO MIGLIACCI

Tudo o que você precisa saber sobre o Kindle Unlimited, o “Netflix de livros” da Amazon


Por Paulo Higa | Publicado originalmente em Tecnoblog | 18/07/2014 às 14h49

Kindle Unlimited oferece mais de 600 mil ebooks por 10 dólares mensais

A Amazon confirmou as expectativas e lançou, nesta sexta-feira [18], o Kindle Unlimited, um serviço que oferece acesso ilimitado a um catálogo de mais de 600 mil ebooks e milhares de audiobooks com uma assinatura mensal de US$ 9,99. Sem prazo de devolução, os livros podem ser lidos tanto nos leitores Kindle quanto nos smartphones, tablets e computadores com o aplicativo gratuito do Kindle.

Como funciona esse negócio?

Pensar no Kindle Unlimited como um “Netflix de livros” é a maneira mais fácil de entender como o serviço funciona. Na página da Amazon, há uma opção para degustar o Kindle Unlimited por 30 dias. Enquanto você for assinante, receberá uma cobrança mensal de 10 dólares no cartão de crédito e poderá ler quantos livros quiser nos dispositivos atrelados à sua conta. Ao cancelar a assinatura, os ebooks são automaticamente retirados da sua coleção.

Tanto no Kindle quanto na loja da Amazon, próximo ao botão de compra, haverá um botão para “ler de graça” em mais de 600 mil obras. Depois que o ebook for baixado, você pode lê-lo como se fosse seu: há sincronização com o Whispersync, o que significa que a página, as marcações e as anotações são sincronizadas entre todos os seus dispositivos.

Não há prazo de devolução, mas há um limite de 10 ebooks emprestados simultaneamente. Quando você tentar ler o décimo primeiro livro, a Amazon irá sugerir a devolução do ebook emprestado há mais tempo — mas é possível selecionar outro. A qualquer momento, um ebook emprestado anteriormente pode ser baixado novamente, inclusive com as marcações sincronizadas na nuvem.

Além de livros em texto, o Kindle Unlimited permite acessar pouco mais de 2 mil audiobooks, mas eles só podem ser ouvidos em dispositivos com som, o que não inclui nenhum dos leitores Kindle vendidos hoje [Kindle e Kindle Paperwhite], só os tablets Kindle Fire e dispositivos Android e iOS com o aplicativo oficial do Kindle. O tamanho dos arquivos varia; aqui, gastei 156 MB para baixar o audiobook de The Hobbit.

Não está disponível no Brasil, mas…

O Kindle Unlimited só foi lançado nos Estados Unidos, mas o serviço funciona no Brasil caso você possua uma conta americana da Amazon com um endereço americano. O cartão de crédito precisa ser internacional, mas não necessariamente emitido nos Estados Unidos.

Se você se enquadra no caso acima, não deve ter dificuldade para testar e assinar o serviço. Se a conta for brasileira, é possível migrá-la para uma americana sem perder as compras já realizadas [no entanto, você não poderá adquirir novos conteúdos na Amazon.com.br]. Basta entrar em Gerencie seu Kindle e selecionar “Configurações do país”. Em “Brasil”, clique no link “Mudar”, preencha com o endereço americano e salve as alterações. É possível voltar para uma conta brasileira a qualquer momento fazendo o caminho inverso.

Em comparação com a Amazon brasileira, a Amazon americana possui uma quantidade maior de ebooks [2,7 milhões contra 2,2 milhões], mas menos títulos em português [27 mil contra 35 mil]. Os preços não estão totalmente conectados: alguns livros são mais baratos na loja americana; outros, na brasileira.

Na Amazon americana, é possível comprar audiobooks e fazer assinaturas de jornais e revistas, como O GloboZero HoraThe New York TimesNational Geographic e Vogue. Estranhamente, mesmo com jornais brasileiros, a assinatura não está disponível no Brasil, por isso, se você fizer o caminho inverso [migrar uma conta americana para uma brasileira], suas assinaturas serão automaticamente canceladas.

E quando o Kindle Unlimited será lançado oficialmente no Brasil? Procurada pelo Tecnoblog, a Amazon declarou que “não comenta planos futuros”. Como o serviço ainda não funciona nem no Reino Unido, outro mercado grande para a Amazon, é bom esperar sentado.

O que tem de bom para ler?

No momento em que escrevo este parágrafo, há 639 mil livros disponíveis no Kindle Unlimited, pouco menos de um quarto dos 2,7 milhões de ebooks da loja americana. Muitos títulos não estão disponíveis, mas a Amazon destaca algumas obras conhecidas: dá para ler a trilogia de The Lord of The Rings, os sete livros de Harry Potter, bem como 2001: A Space OdysseyThe Hobbit e Life of Pi, por exemplo.

Todos os livros acima estão em inglês, mas também há pouco menos de 8 mil títulos em português no Kindle Unlimited.

O problema é que, assim como na Netflix, liberar os conteúdos exige acordos comerciais. E as cinco grandes editoras americanas [Hachette, HarperCollins, Macmillan, Penguin Random House e Simon & Schuster] não disponibilizaram muitos livros, logo, há uma série de títulos famosos faltando. Boa parte dos livros do Kindle Unlimited, incluindo as obras em português, são de pequenas editoras ou autores independentes.

Portanto, mesmo que 600 mil ebooks pareça muito, na prática a história é um pouco diferente, e o acervo ainda é fraco se você estiver interessado apenas nos best sellers.

Quão fraco? Entre a lista dos 20 ebooks Kindle mais vendidos, apenas 3 estão no Kindle Unlimited: My Mother Was Nuts, em 1º; Pines, em 13º; e One Lavender Ribbon, em 20º. Na categoria Computadores e Tecnologia, a situação melhora [10 dos 20 podem ser lidos gratuitamente], mas a maioria dos livros são guias e tutoriais — nada de ler de graça a biografia do Steve Jobs ou o novo livro de Glenn Greenwald, portanto.

Entre os livros em português, a coisa é ainda mais triste, mas isso é até compreensível se considerarmos que o serviço, oficialmente, nem funciona no Brasil. Da lista dos 20 mais vendidos, só um está no Kindle Unlimited. E, na verdade, esse único livro não é voltado para brasileiros, mas sim para estrangeiros que desejam aprender a língua portuguesa.

Vale a pena o esforço?

O preço de US$ 9,99 por mês é bem atraente. Se você considerar que muitos ebooks custam esse preço ou até mais, basta pedir apenas um ou dois livros emprestados e a assinatura mensal já valeu a pena.

Só que a Amazon ainda precisa melhorar o acervo para o Kindle Unlimited ser realmente vantajoso. 600 mil ebooks é muita coisa, mas uma parcela bem pequena desses livros representa o que as pessoas querem ler. Eu tenho certeza que grande parte dos que estão lendo este texto passariam tranquilamente 10 horas por mês assistindo a filmes e séries na Netflix, mas não gastariam a mesma quantidade de horas lendo livros aleatórios na Amazon.

Resta saber se a Amazon conseguirá aumentar a disponibilidade de livros e, mais importante, se será capaz de convencer as editoras de que o modelo de negócios é interessante. Estamos até acostumados com serviços de streaming de músicas ou filmes, mas não de livros — embora já existissem opções antes do Kindle Unlimited, como o Oyster. Eu, como leitor, acho ótimo pagar só 10 dólares para ler quantos livros quiser. Mas, se estivesse do outro lado, comandando uma editora, não sei se toparia receber só alguns centavos por usuário.

Por Paulo Higa | Publicado originalmente em Tecnoblog | 18/07/2014 às 14h49

Escritores entram na guerra da Amazon com a Hachette


500 autores assinam uma carta aberta pedindo que a gigante da internet dê fim ao enfrentamento

MADRI — Longe de uma trégua, o conflito qua a Amazon enfrenta contra editoras da Alemanha, dos EUA e do Reino Unido vai de mal a pior. Grandes nomes da literatura americana, como Paul Auster, Stephen King, Tobias Wolff e Donna Tartt, vencedora do último prêmio Pulitzer, entraram na batalha pela primeira vez com a divulgação de uma carta aberta promovida pelo autor de best-sellers Douglas Preston. Eles acusam a Amazon de “tratar os livros como reféns”. O último episódio da disputa foi a oferta da gigante de vendas na internet de pagar 100% do valor de venda de cada e-book, caso a Hachette esteja de acordo. Tanto o grupo editorial quando a associação de escritores recusaram a ideia.

A proposta da Amazon está dirigida a autores da Hachette — que faz parte do grupo francês Lagardère —, agentes literários e à presidente da Associação de Escritores dos EUA, Roxana Robinson. “Enquanto dure a disputa, os autores receberão 100% do valor de venda de qualquer e-book que a gente venda. Tanto a Amazon quanto a Hachette renunciarão a todos os lucros por seus livros até que se chegue a um acordo. Se vendermos um livro a US$ 9,99, o autor receberá US$ 9,99, muito mais do que normalmente recebe. Se a Hachette estiver de acordo, podemos aplicar a oferta em 72 horas”, afirma o texto, liberado por um porta-voz da Amazon.

A Associação de Escritores dos EUA recusou a proposta em uma carta assinada por seu vicepresidente, o romancista Richard Russo, que foi duro com a companhia de Seattle e com o mercado das grandes editoras, a quem acusa de “não ter sido justo com os benefícios do e-book”. “Ao passar dos anos, nossa associação se opôs às táticas da Amazon, não porque somos anti-Amazon, mas porque acreditamos que a companhia passou dos limites e agora ameaça o ecossistema editorial, já que põe em risco tanto o modo de vida dos autores quanto o futuro do que representa ser um escritor. Acreditamos que o ecossistema do livro tem que ser o mais diverso possível, que abrigue grandes e pequenos editores, Amazon, Apple, Barnes & Noble, livrarias independentes, e-books e livros impressos. Mas acreditamos que este ecossistema não pode sobreviver se alguma das entidades que o formam quer destruir as outras”, diz a carta, difundida pela própria associação.

Já a carta apresentada por Douglas Preston, que reuniu a assinatura de 500 escritores, pede diretamente a Jeff Bezos que mude a sua estratégia. “Como escritores — alguns, mas não todos publicados pela Hachette — acreditamos firmemente que nenhum livreiro deve bloquear a venda de livros, impedir ou dissuadir seus clientes de comprar os livros que queiram”, diz o texto. “Proporcionamos à Amazon muitos milhões de dólares e, nos últimos anos, colaboramos de forma gratuita com a empresa. Essa não é a maneira de tratar um sócio comercial. Tampouco é a maneira correta de tratar os seus amigos. Sem tomar partido na disputa contratual entre Hachette e Amazon, pedimos que a Amazon ponha fim a seu enfrentamento, que prejudica o sustento dos escritores que ajudaram a construir o seu negócio. Nenhum de nós, nem leitores nem autores, se beneficia quando os livros são tomados como reféns.

A guerra comercial entre a Amazon e as editoras se divide em várias frentes de batalha. Nos EUA, há um conflito com a filial do grupo Hachette sobre a divisão das porcentagens entre o vendedor e o editor dos livros. Com a falta de um acordo, a Amazon tomou uma série de medidas — atrasar o envio, subir o preço ou retirar o botão de pré-venda — contra os volumes da editora, afetando autores tão conhecidos como J.K. Rowling. Na Alemanha, há um enfrentamento similar com as filiais do grupo sueco Bonnier. A Amazon já controla em torno de 60% do mercado de livros nos EUA e cerca de 25% na Alemanha. No caso dos livros eletrônicos, o domínio é ainda maior: 65%.

A revista britânica “The Bookseller” revelou no fim de junho que a guerra comercial chegou ao Reino Unido. Desta vez, no entanto, o problema afeta pequenos editores. Segundo a publicação, a Amazon mudou as cláusulas dos acordos que fecha com editoras independentes, adicionando um preocupante adendo: se um editor fica sem exemplares de um determinado título, a Amazon poderia enviá-lo a um possível comprador através de um sistema de impressão por demanda.

Alguns personagens da indústria do livro acreditam que a estratégia da Amazon é reduzir paulatinamente o papel das editoras. Ofertas como a de pagar 100% do valor de venda aos escritores em meio a uma disputa comercial ou imprimir diretamente os livros que uma pequena editora não tenha em estoque formaria parte, segundo diferentes editores, deste plano. “Os editores temem que a cláusula de impressão por demanda permitiria à Amazon controlar os seus estoques”, escreve a revista.

A Amazon insiste que uma disputa nestes termos é algo normal. “A negociação é o pão nosso de cada dia de qualquer comerciante. Estamos sempre em contato com milhares de fornecedores, com os quais ajustamos constantemente nossos acordos financeiros”, afirmou o presidente da Amazon alemã, Ralf Kleber, à revista Spiegel. Sobre a carta dos escritores, um porta-voz da Amazon disse ao jornal britânico “The Guardian”: “Nós lamentamos muito que uma disputa comercial tenha impacto sobre os autores.

Por Guilhermo Altares | El País | Publicado originalmente em O Globo | 14/07/2014 11:06

Amazon: ataques e defesas; mitos e realidade


Por Felipe Lindoso | Publicado originalmente em PublishNews | 08/07/2014

Semana passada a polêmica acerca do comportamento da Amazon em relação à disputa com a Hachette [prólogo para as próximas negociações com as grandes editoras] teve novas movimentações. Na Europa, dois lances colocaram a varejista em cheque e nos EUA, provocou novas manifestações, desta vez da própria Amazon e de autores.

Tentemos examinar um pouco esses desdobramentos, e também desmistificar alguns discursos.

Na Europa, a Amazon sofreu dois reveses importantes. O primeiro foi a aprovação final da extensão da “Lei do Preço Fixo – Lei Lang” ao comércio eletrônico, inclusive de e-books. Como sabemos, a legislação francesa já há décadas protege as livrarias independentes, estabelecendo um limite de descontos nos meses iniciais após o lançamento de um livro, a 5% sobre o preço de capa.

A legislação aprovada estendeu esse limite de descontos ao comércio eletrônico em geral, incluindo os e-books. Dito seja, o limite de 5% inclui também o custo do frete. Ou seja, o total do custo do chamado “frete grátis” – uma das grandes armas da Amazon – deve ser computado. Evidentemente a legislação não afeta tão somente a Amazon, como os demais varejistas do comércio eletrônico.

A segunda medida foi a demanda formal de explicações, por parte da Comissão Europeia junto ao governo de Luxemburgo, do nível de impostos pagos pela Amazon, que tem ali sua “sede” europeia oficial. A Amazon tem armazéns espalhados por vários países – e se aproveita inclusive de incentivos específicos para instalar esses armazéns de distribuição, como o que a Escócia concedeu. Mas paga o IVA segundo a altamente complacente legislação luxemburguesa, por volta de 2%, com o pretexto de que as vendas são feitas, faturadas e computadas pela filial luxemburguesa. Esse é um dos pontos contenciosos mais fortes das livrarias de outros países onde o livro não tem isenção, em particular no Reino Unido. A Comissão Europeia pode impor restrições a essa operação, tornando homogênea a tributação “amazonian”, que não vai gostar nada disso.

O segundo grupo de novidades aconteceu lá mesmo nos EUA. A Amazon é conhecida por ser extremamente parca em suas declarações sobre políticas comerciais, e sobre suas operações em geral. Tanto assim é que só temos estimativas sobre a proporção do faturamento dos e-books no seu faturamento.

Pois bem, Russ Grandinetti, vice-presidente sênior de conteúdo para o Kindle, deu entrevista para o Wall Street Journal sobre a disputa com a Hachette. Dois pontos importantes nessa rara declaração pública: 1] A Amazon está “disposta a sofrer algum dano em sua reputação” por conta da disputa; e 2] Faz o que faz por conta do “interesse a longo prazo de seus clientes”, e que “os termos em que negociamos determinarão quão bons serão os preços que poderemos oferecer aos nossos clientes”. Já houve anteriormente disputa do mesmo tipo com a Macmillan, em 2010, quando a editora tentou, pela primeira vez, emplacar o chamado “sistema de agenciamento” e viu o botão de compra desparecer do lado de seus títulos. A Macmillan resistiu apenas pouco mais de uma semana, e fez nova tentativa mais adiante, com as outras grandes, para instituir o sistema de agenciamento, sendo todas obrigadas a desistir diante da ação judicial feita pelo Departamento de Justiça dos EUA. Só a Apple – também ré, e condenada – continua na batalha judicial.

Grandinetti afirmou, na entrevista, que a empresa “luta pelo que pensamos ser o certo para os nossos clientes”. O que comentarei mais adiante.

O outro round aconteceu do lado dos autores.

A Amazon tem sido alvo da ira de autores, e por variadas razões. Scott Turrow, ex-presidente da Authors Guild [e publicado pela Hachette] qualificou a varejista de “Darth Vader do mundo literário”, logo depois apoiado por sua sucessora na presidência do sindicato dos autores, Roxana Robinson, que disse que “tentar negociar com a Amazon é como tentar negociar com Tony Soprano”, enfatizando “é coisa da máfia mesmo”. O coro foi engrossado por James Patterson, autor de mega best-sellers, que discursou na BookExpo America vituperando a varejista, e afirmou que “se a Amazon é o novo modo de ser americano, então talvez esse tenha que ser mudado”, sugerindo legislação ou outro tipo de ação que regule a atividade livreira/editorial. Patterson afirmou que a tática da Amazon impedirá que as editoras invistam em obras literárias que demandam tempo e dedicação de autores. Se é discutível que Patterson possa ser incluído na categoria de autores literários, o fato é que ele é um firme defensor das livrarias independentes, e recentemente abriu a carteira para tirar um milhão de dólares e distribuir para projetos apresentados por livrarias independentes.

A última movimentação desse lado anti-Amazon do ringue foi feita por um grupo de autores encabeçados por Douglas Preston, também autor de romances “techno-thrillers” populares, que lançou uma carta aberta a Jeff Bezos, acusando a empresa de boicotar os autores da Hachette, não fazer descontos de seus livros e, com isso, prejudicar esses autores e seus leitores antes de mais nada, negando o lema de ser uma empresa “centrada no cliente”. A carta já foi assinada por dezenas de autores, dos mais variados gêneros e qualificações literárias, entre os quais se incluem Paul Auster, David Baldacci, Anthony Beevor, Philip Caputo, Lee Child, Jeffery Deaver, Elizabeth Gilbert, Claire Messud, Sara Paretsky, Nora Roberts e um monte de outros.

A reação a favor da Amazon veio de um segmento que não tem grandes nomes, mas uma quantidade muito significativa de autores independentes que publicam diretamente com a Amazon. Como todas as suas informações, a empresa não divulga o número total de autores e títulos existentes no programa, mas certamente somam várias dezenas de milhares. Alguns desses autores conseguem alcançar um nível de vendas muito satisfatório, e são evidentemente a ponta de lança do programa. Os autores independentes publicaram sua carta um dia depois que Douglas Preston divulgou a sua dirigida a Jeff Bezos. A carta dos independentes foi postada através do site de petições online Change.org e contava, até o dia 7 de julho, com 5.510 assinaturas.

O abaixo-assinado vitupera contra a indústria editorial tradicional, particularmente as sediadas em Nova York, que “decidiam que histórias permitiriam que vocês lessem”, e a Amazon “ao contrário quer que você decida o que quer ler” e prossegue nas louvações à varejista, e vários dos que assinam a primeira leva comentam sobre sua relação com a empresa. Alguns desses comentários, francamente, são patéticos: “Trabalho de cuecas, graças aos meus leitores e à Amazon” – Hugh Howey; “Agora posso pagar o seguro de saúde da minha família” – J.A. Konrath; “Amazon me ajuda a alcançar meus sonhos” – Darren Wearmouth; “Por causa da Amazon, fui capaz de publicar 53 livros nos últimos três anos, sob três diferentes pseudônimos” – Lealea Tash; “Meus leitores e a Amazon mudaram completamente minha vida” – Nina Levine.

E vai por aí. Todos autores que conseguiram alcançar “o sonho americano” graças a Amazon. Não se sabe a porcentagem do total de autores representados por esses 5.500 subscritores do sonho americano. De qualquer maneira, são um número muito maior dos que subscreveram a carta de Preston, o que cola muito bem com a mentalidade de “um homem, um voto”. No caso, a contraposição é entre o “peso” dos autores anti-Amazon e a quantidade dos favoráveis.

O que está em jogo?

Em primeiro lugar, é necessário desmistificar o assunto.

A Amazon é uma empresa dentro do sistema capitalista – tal como as editoras e livrarias pelo mundo afora. Como tal, seu objetivo não é “satisfazer os clientes”. É, simplesmente dar lucro. Isso de “defender a longo prazo o interesse dos clientes” é, pura e simplesmente, cascata. Bullshit, diriam os americanos. É a forma ideológica de esconder seus verdadeiros objetivos, que são os de toda empresa capitalista. É apenas uma ferramenta ideológica de marketing.

O que está realmente em jogo, independentemente do palavreado de uns e outros, é a possibilidade muito concreta da Amazon vir a se tornar uma empresa virtualmente monopolista. Hoje, com a Apple, a Kobo, a Barnes & Noble, faz parte, no mercado norte-americano, de um oligopólio.

Na definição mais clássica, oligopólio corresponde a uma estrutura de mercado de concorrência imperfeita, no qual este é controlado por um número reduzido de empresas, de tal forma que cada uma tem que considerar os comportamentos e as reações das outras quando toma decisões de mercado. Os oligopólios ou são uma etapa da formação do monopólio ou uma imposição de ações regulatórias do estado para deter sua formação. A concorrência intra-oligopólio se dá, principalmente, na área de serviços. E a Amazon tem se mostrado imbatível nisso. Seu lema de “centrada no consumidor” expressa precisamente essa abordagem.

Só que, mesmo em uma situação oligopólica, se uma das empresas que faz parte do consórcio alcança uma posição dominante, passa inevitavelmente a buscar melhorar sua rentabilidade. Ou seja, controlar os preços no sentido de aumentá-los. E nisso será acompanhado em grande medida pelas demais, que também se impuseram sacrifícios para manter os preços baixos para ganhar, ou manter, sua faixa do mercado.

É certo que, no caso dos EUA, a Apple tem condições financeiras de manter preços baixos caso a Amazon resolva usar sua predominância para aumentá-los. Mas aí passa a entrar em consideração a competição nos serviços. Ou seja, a qualidade nos serviços reforça a posição da empresa, e essa posição melhora as condições para que esta busque melhorar sua rentabilidade.

Essa dinâmica provoca intensas disputas e rupturas nos sistemas e métodos anteriores de produção, distribuição e venda. É isso que o crescimento da Amazon já provocou. Principalmente com o lançamento do Kindle, a Amazon se transformou em um motor de transformações na indústria editorial e livreira.

Ora, se transformações e rupturas fazem parte também da dinâmica do capitalismo [daí as famosas “crises” que assustam periodicamente o sistema], também podem provocar rupturas muito mais sérias que a simples transformação interna de um segmento produtivo. Por isso mesmo a sociedade capitalista já aprendeu, a duras penas, que sistemas de regulamentação da concorrência para evitar a monopolização são importantes, sim, para a manutenção a longo prazo da saúde do sistema.

A busca por fatias cada vez maiores do mercado é uma dinâmica própria e inexorável do sistema capitalista. Não depende da “boa vontade” dos agentes econômicos. É intrínseca ao sistema e o passo seguinte é a busca do aumento da lucratividade.

E esse momento está chegando para a Amazon.

Os investidores cobram maiores taxas de retorno da empresa, já não mais simplesmente satisfeitos com a continuada valorização das ações que não pagavam dividendos. Agora querem lucros.

Os europeus, de certa maneira, já aprenderam e tem uma mentalidade mais consolidada de que a concorrência desregulamentada pode ser extremamente perigosa para o sistema, e aceitam que o Estado exerça uma capacidade regulatória muito maior que a aceita pelos EUA.

Até quando essa desregulamentação prevalecerá no mercado dos EUA? Na área de bancos, que já foi muito mais regulamentada, o abandono dessa perspectiva deu no que deu. Talvez o Patterson tenha mesmo razão em pedir uma ação regulatória mais presente.

Só que, por enquanto, o Departamento de Justiça dos EUA continua totalmente favorável ao “livre desenvolvimento do mercado”, sejam lá quais forem as consequências.

Quem sobreviver, verá o resultado.

Aqui pela Pindorama, onde a legislação reguladora sempre favoreceu o que parecia ser o “benefício do consumidor”, e que era defendido pelo SNEL para combater qualquer tentativa de regulamentação, a situação nos EUA já está tornando nossos editores mais cautelosos, como foi noticiado mais recentemente. Mas, sobre isso, voltarei em outra ocasião.

Por Felipe Lindoso | Publicado originalmente em PublishNews | 08/07/2014

Felipe Lindoso

Felipe Lindoso é jornalista, tradutor, editor e consultor de políticas públicas para o livro e leitura. Foi sócio da Editora Marco Zero, diretor da Câmara Brasileira do Livro e consultor do CERLALC – Centro Regional para o Livro na América Latina e Caribe, órgão da UNESCO. Publicou, em 2004, O Brasil pode ser um país de leitores? Política para a cultura, política para o livro, pela Summus Editorial. Mantêm o blogwww.oxisdoproblema.com.br

A coluna O X da questão traz reflexões sobre as peculiaridades e dificuldades da vida editorial nesse nosso país de dimensões continentais, sem bibliotecas e com uma rede de livrarias muito precária. Sob uma visão sociológica, este espaço analisa, entre outras coisas, as razões que impedem belos e substanciosos livros de chegarem às mãos dos leitores brasileiros na quantidade e preço que merecem.

Autores independentes lançam petição pró-Amazon 


Uma segunda petição relacionada à disputa entre Amazon e Hachette acaba de ser lançada. Dessa vez uma carta pró-Amazon escrita por um grupo de escritores independentes. A petição assinada por “seus autores” e dirigida aos “queridos leitores” argumenta que a Amazon “construiu sua reputação na valorização de autores e leitores”. A petição foi lançada poucas horas depois de uma outra carta — escrita por Douglas Preston e assinada por vários autores convocando a Amazon a resolver a sua disputa com a Hachette e sugerindo que leitores enviassem e-mail ao diretor da Amazon, Jeff Bezos, com seus protesto – viesse a público.

Por Philip Jones | The Bookseller | 04/07/2014

Amazon se defende no Wall Street Journal 


Russ Grandinetti, VP of Kindle Content

Russ Grandinetti, VP of Kindle Content

A disputa entre Amazon e Hachette entrou no seu terceiro mês e um executivo sênior da Amazon “defendeu a companhia contra as críticas de que está usando a sua influência crescente no e-book para intimidar uma grande editora em termos contratuais” no Wall Street Journal nessa terça-feira [02] e disse que está simplesmente trabalhando para obter melhores preços para seus clientes. Em entrevista ao jornal,  Russ Grandinetti, vice-presidente sênior da Amazon, disse que, embora a companhia tenha sofrido algum dano à sua reputação, estava disposto a aguentar o tranco em nome do “interesse de longo prazo dos nossos clientes”.

Por Dennis Abrams | Publishing Perspectives | 03/07/2014

Combate pelo futuro do livro


Por Guillermo Altares | Publicado originalmente em El Pais | 26/06/2014

Centro logístico da Amazon em San Fernando de Henares | FOTO: ÁLVARO GARCÍA [EL PAÍS]

Centro logístico da Amazon em San Fernando de Henares | FOTO: ÁLVARO GARCÍA [EL PAÍS]

A disputa da Amazon com editoras dos Estados Unidos e Alemanha é muito mais do que um conflito comercial pelas margens de lucro sobre os livros eletrônicos. Para muitos profissionais do setor se trata de uma guerra cujo resultado definirá o futuro do livro. “Isso é muito importante, muito mais do que acreditamos”, afirma uma editora com anos de experiência e que, como muitas pessoas consultadas na elaboração desta reportagem, prefere não ser citada pelo nome porque os acordos que as editoras firmam com a Amazon estão protegidos por uma cláusula de confidencialidade ou por não quererem entrar em um debate público com a gigante das compras na Internet.

Chegamos a um ponto no qual o que está em jogo é a sustentabilidade de todo o ecossistema do livro, Pode parecer uma declaração dramática demais, mas é assim”, diz Antonio Ramírez, proprietário da rede de livrarias La Central.

“A resolução desse conflito vai criar um precedente em todo o mundo”, afirma Javier Celaya, responsável pelo portaldosdoce.com e especialista em livro eletrônico. “Isso vai definir o futuro do mercado e, sobretudo, o dos livros eletrônicos”, declarou ao The New York Times o agente alemão Matthias Landwehr, que trabalha com vários autores afetados pela disputa. A Espanha ainda não foi envolvida na primeira guerra mundial do livro, mas, como afirma um editor alemão que também pediu anonimato, “chegará quando a Amazon tiver a força suficiente”. O preço fixo não nos protege porque não se trata de uma guerra de preços, mas das margens que ficam com o editor e o vendedor. Se a pessoa depende muito de um vendedor, tem tudo a perder. Se a Amazon ganha, tratará de estender a disputa a outros países”, acrescenta Celaya.

O que é que aconteceu? Por que desta vez é tão importante? A resposta a essa segunda pergunta tem a ver com seu poder: a Amazon já controla em torno de 60% do mercado do livro nos EUA e cerca de 25% na Alemanha. No caso dos livros eletrônicos, em 2010 controlava quase 90% do mercado norte-americano, embora nestes últimos quatro anos a Apple se tenha transformado em um concorrente importante e tenha reduzido o seu domínio até os 65%. Não é fácil conhecer os detalhes de sua presença no mercado espanhol porque a Amazon é uma empresa muito sigilosa: não divulga dados sobre as cifras de venda do Kindle, seu leitor de livros eletrônicos, nem sobre a porcentagem que os livros representam em suas vendas totais nem sobre a divergência com seus competidores nem, na realidade, sobre quase nada. Os dados que é obrigada a entregar nos EUA revelam que em todo o mundo suas vendas líquidas em 2013 foram de 74,45 bilhões de dólares [163,8 bilhões de reais], 22% a mais do que em 2012. O lucro mundial foi de 274 milhões. Na Espanha, a Amazon fatura por intermédio de Luxemburgo, por isso não é possível nem conhecer as suas vendas, mas sua filial espanhola, que congrega o resultado do faturamento de produtos a partir de seu centro logístico de San Fernando de Henares, em 2013 aumentou em 64% a cifra do negócio [de 10,56 a 17,46 milhões] em relação ao exercício anterior. Somente uma pequena parte dessa porcentagem corresponde à venda de livros. Em todo o mundo, de acordo com uma pesquisa da revista The New Yorker, representam 7% de suas vendas.

No mercado do livro eletrônico existem duas fórmulas para fixar os preços. A denominada “do agente” implica que o editor fixe o preço do livro e divida o dinheiro com o vendedor [70% para a editora, que por sua vez paga o autor; 30% para o vendedor é a porcentagem habitual]. O segundo sistema, chamado reseller, funciona nos países sem preço fixo: o editor pactua o preço pelo qual vende o livro e depois o vendedor põe o preço que quiser. Os editores asseguram que a empresa de Jeff Bezos chega a vender o livro com perda em dinheiro para oferecer preços mais baixos que a concorrência. A guerra comercial atual, sempre segundo fontes do setor e a imprensa norte-americana e alemã, porque um porta-voz da Amazon não quis fazer comentários, ocorre porque querem mudar as porcentagens –segundo o blogue Futurebook, que analisa o mercado do livro nos EUA, seu objetivo é ficar com 50% de cada título– ou comprar os títulos pelo preço mais barato possível. Quando a negociação não corresponde a seus interesses, então a empresa penaliza as editoras: os prazos de envio se alongam indefinidamente, o botão na página da Internet para poder encomendar um livro com antecedência [muito útil para o vendedor, mas também para o editor, que pode prever muito melhor suas tiragens] desaparece, os preços disparam…

É algo que está ocorrendo desde maio com a filial norte-americana da Hachette – quarta empresa do setor nos EUA–, mas também na Alemanha com a Bonnier Media Group, uma empresa sueca que tem quatro editoras, Pipper, Ullstein, Carlsen e Berlim Verlag. A questão também chegou ao DVD e afeta atualmente a Time Warner com o lançamento sensação do verão, Lego, o filme. Já tinha ocorrido algo semelhante em 2010 com uma distribuidora, a Independent Publisher Group, e com a Macmillan, mas o impacto foi menor porque na época o livro eletrônico era bem menos importante.
As críticas da imprensa norte-americana e alemã foram contundentes: diários como The New York Times e Frankfurter Allgemeine Zeitung a acusaram de utilizar práticas intimidatórias e chantagistas enquanto lembravam em diferentes eventos uma célebre frase que o livro A Loja de Tudo. Jeff Bezos e a Era da Amazon, do jornalista Brad Stone, atribui ao fundador da empresa: “Temos de olhar para as editoras como um leopardo contempla uma gazela doente”. O escândalo foi tão grande – entre outros lançamentos afetou a última obra de J.K. Rowling, The Silkworm, escrita com o pseudônimo de Robert Galbraith — que a Amazon rompeu seu tradicional silêncio e se pronunciou por meio de um post em sua página na web. Reconhecia o motivo da disputa assim como o tipo de represálias, e concluía: “Se você necessita com rapidez de qualquer dos títulos afetados, lamentamos o incômodo e lhe recomendamos que compre uma versão por intermédio de algum de nossos parceiros ou com qualquer um de nossos concorrentes”.

A Comissão Europeia, por intermédio do comissário da Concorrência, Joaquín Almunia, se limitou a garantir em maio que “estava tratando de entender o que ocorria”, enquanto a ministra da Cultura da França, Aurélie Fillippetti, que nunca procurou conter suas críticas à empresa de Seattle, foi contundente e pediu que a Comissão “vigie as tentações da Amazon de abusar de sua posição dominante”. “Chantagear os editores ao restringir o acesso do público aos livros de seus catálogos para impor-lhes condições comerciais mais duras não é tolerável. O livro não é um produto como outro qualquer”, afirmou. O preço pago pelas editoras afetadas é enorme. A revista Publishing Perspectives publicou na semana passada que a Hachete vende no Reino Unido 78% de seus livros eletrônicos através da Amazon e 60% nos Estados Unidos. Sua margem de negociação é, portanto, muito pequena.

Pacotes em fila no centro logístico da Amazon em Madri | FOTO:  ÁLVARO GARCÍA

Pacotes em fila no centro logístico da Amazon em Madri | FOTO: ÁLVARO GARCÍA

A maioria das editoras espanholas consultadas compartilha uma opinião sobre a livraria virtual –e distribuidora de todo tipo de produtos, que honra o velho lema da Harrod’s, “oferece desde um elefante até um alfinete”– : a Amazon é um vendedor importante –para muitos, é o quinto ou sexto cliente– com o qual, por ora, não vêm tendo maiores problemas. Mas olham para o futuro com uma inquietude cada vez maior. A crítica mais generalizada é que sua principal obsessão é o preço. “A máxima da Amazon é que quanto mais barato, mais se vende, não importa se forem cafeteiras ou livros”, afirma Paula Canal Huarte, de Anagrama, a maior das editoras independentes espanholas, que tem em seu catálogo desde Rafael Chirbes até Roberto Bolaño ou Ian McEwan. “Mas com os livros não funciona exatamente assim, já que por mais baratos que sejam a maioria não vai vender mais, mas o lucro do editor ficará tão reduzido que para ele não será possível continuar publicando livros que vendem menos, caros para traduzir ou editar,” Para ilustrar sua forma de operar, o analista Javier Celaya explica que a Amazon muda os preços em todo o mundo duas milhões de vezes por dia.

O mercado do livro eletrônico, onde a Amazon é mais forte, representa, segundo os últimos dados da Federação de Associações de Editores da Espanha [FGEE, na sigla em espanhol], 3% do total, mas em 2013 subiu 8% em relação ao ano anterior. “No mundo analógico, não tem uma posição majoritária, mas no livro digital controlam em torno de 40%”, diz Antonio María Ávila, secretário da Federação de Editores. A cifra de 3% é enganosa por causa da pirataria, um problema especialmente grave na Espanha: segundo diferentes fontes, vendem-se muitos leitores eletrônicos e muito poucos livros eletrônicos, o que quer dizer que, como diz um livreiro, “as pessoas consomem títulos gratuitos ou se pirateia muito, ou um pouco de cada coisa”. Editores e livreiros consultados também dizem que a Amazon é uma empresa que funciona bem, paga no prazo e conforme o combinado, e envia milhões de títulos com muita rapidez – 90% dos títulos que vende não estão na lista de best sellers. No caso do Kindle, que chegou ao mercado em 2007 e se impôs rapidamente aos concorrentes, trata-se de um dispositivo que torna muito simples a compra de livros e oferece um catálogo enorme e crescente.

A disputa na Alemanha preocupa especialmente os editores espanhóis porque, ao contrário dos EUA e do Reino Unido, onde o preço é completamente livre, ali como aqui os livros têm um preço fixo [é o editor que o estabelece e isso não pode mudar, a não ser por um desconto de 5% nos hipermercados e de 10% em feiras ou no Dia do Livro, e até mesmo presentear o valor da remessa é considerado um desconto e por isso não é permitido]. “O preço fixo é a maior garantia que podemos ter” , afirma Antonio Ramírez, de La Central, que no entanto acredita que o conflito acabará chegando ao nosso país. “A Alemanha é um país com uma rede de livrarias muito densa, com um sistema de distribuição muito bom, com muitos leitores e, apesar disso, controlam 25% do mercado. Ninguém pode dar-se ao luxo de perder um quarto de seus clientes”, prossegue.

Dois editores independentes consultados garantem que seus negócios dependem do apoio das livrarias e dos leitores, que num mundo de constantes guerras de preços nunca sobreviveriam, e que muitos projetos culturais de grande fôlego seriam afetados. Todos os profissionais consultados consideram que o preço fixo é vital para a sobrevivência do mundo do livro. O preço fixo do livro de papel está muito claro: um livro vale o que vale em sua capa ou em seu ISBN. Mas com os eletrônicos o assunto é muito mais complexo. “O preço é fixo, mas variável”, define um editor. Preço fixo significa que é o editor que põe o preço e que pode mudá-lo, desde que o faça para todo mundo [não é legal oferecer um preço especial a um vendedor]. Outra possibilidade é que, considerando que o preço vai associado a um número ISBN, basta fazer uma nova edição para ter um novo número e um novo preço. Isso em papel é complexo e caro; em um livro digital não.

Qual a consequência disso? Que os vendedores de livros eletrônicos, não só na Amazon, mas também na Casa do Livro, oferecem promoções e descontos de acordo com os editores, como Kindle Flash ou Tagus Today. Vários editores explicam que, quando se baixa muito o preço do livro, as vendas sobem e ele pode ficar entre os mais vendidos, o que impele também as vendas quando retorna ao preço normal [de novo, um porta-voz da empresa não quis pronunciar-se sobre essa estratégia de vendas]. Outra vantagem da Amazon sobre seus concorrentes espanhóis é a engenharia fiscal. Não se trata somente dos truques para pagar menos impostos, como fazem os principais gigantes da Internet [uma questão que a Comissão Europeia está estudando com lupa para enfrentá-la], mas que, neste caso, tem um efeito muito concreto: ao ter sua sede em Luxemburgo, aplica o IVA desse país aos livros eletrônicos [3%], enquanto na Espanha é de 21%.

As guerras de preços “nos conduzem por um caminho perigoso”, afirma uma editora. “Muito provavelmente estamos depreciando o valor do que criamos. Nós podemos fazer isso porque o livro eletrônico representa uma fração mínima de nosso faturamento e aplicamos seus custos ao que recebemos pelo livro de papel. Se a situação se altera e os livros eletrônicos passam a representar a maior parte de nossas vendas, seria insustentável”, prossegue. “A Amazon vive em um mundo onde só há consumidores, mas os consumidores são também cidadãos, que devem zelar pela riqueza cultural”, diz Paula Canal Huarte, da Anagrama. Os escritores consultados ainda notam muito pouco a presença da Amazon em suas vendas, embora digam, como Javier Moro, autor de Pasión india, que “influiu sim no preço dos livros eletrônicos”. “Quanto mais barato, menos te pirateiam. Prefiro o 25% do pouco ao 25% do nada”, acrescenta. O poeta e romancista Carlos Pardo, que foi livreiro por muitos anos, critica “seus métodos de trabalho [a Amazon teve conflitos trabalhistas por causa das condições de trabalho], mas sobretudo o perigo que as condições sobre os preços possa vir a representar para as “pequenas editoras”, que encarnam atualmente uma das apostas mais claras pela cultura. Paco Roca, Prêmio Nacional de Quadrinhos, que publicou recentemente Los surcos del azar, diz que mal nota as vendas digitais, mas se preocupa, sim, com os efeitos dos gigantes da Internet sobre a cultura – esclarece que não se referem somente à Amazon, mas também à Apple – : “Os monopólios da distribuição da cultura dão certo medo porque podem chegar a influir sobre os conteúdos”.

Enquanto o debate prossegue, a empresa de Jeff Bezos continua crescendo e se estendendo a novos setores – acaba de lançar um celular e um serviço de música online. A distorção provocada pela pirataria e a ausência de dados divulgados pela própria empresa, somados ao fato de que a Amazon ainda não completou nem três anos na Espanha [chegou em setembro de 2011], tornam difícil se conhecer com precisão qual é seu efeito em nosso mercado. Mas uma coisa está clara: todo o setor está preocupado com cada um de seus movimentos.

Por Guillermo Altares | Publicado originalmente em El Pais | 26/06/2014

Hachette UK tem recorde de vendas digitais


O mês de agosto foi de recorde de vendas de e-books para Hachette UK, com um aumento de vendas de 80% em relação a agosto de 2012. A editora atribuiu o crescimento entre julho e setembro aos megasellers O chamado do Cuco, de Robert Galbraith/J.K. Rowling, Is it just me? De Miranda Hart e O Manipulador, de John Grisham. Em julho, as vendas de e-books cresceram 32% em volume, em comparação a julho de 2012. Apesar dos bons resultados dos e-books, o grupo Lagardère, do qual a Hachette faz parte, apresentou resultados de vendas de literatura geral “desiguais” internacionalmente, com Reino Unido e França apresentando queda em relação ao ano anterior. Nos Estados Unidos, porém, o trimestre foi ‘dinâmico’, com um aumento de vendas de 11%.

Por Lisa Campbell | The Bookseller | 12/11/2013

Simon & Schuster lança projeto piloto para vender eBooks em sala de aula


Simon & Schuster se juntou à Hachette e Random House na busca pelo mercado de e-books para o ensino escolar. A editora lançou projetos pilotos com 4 distribuidoras de livros de educação – Booksource, Follet, Mackin e Perma-Bound – para vender e-books do jardim de infância até a 12ª série [do sistema educacional americano]. Em agosto, Hachette e Random House formaram parcerias com a distribuidora Follet para vender no mesmo mercado.

Digital Book World | 24/09/2013

Departamento de Justiça americano quer punir Apple


Departamento de Justiça americano quer punir Apple ainda mais. Apple chama propostas de ‘draconianas’

A juíza Denise Cote julgou em julho que a Apple é culpada de conluio no caso de precificação de e-books. Agora, o Departamento de Justiça americano (DOJ) quer que ela imponha sanções rígidas à empresa e a mantenha sob supervisão do governo pelos próximos anos. Na última sexta-feira (02/08), o DOJ colocou o pedido para que a juíza obrigue a Apple a acabar com o modelo de agenciamento pelos próximos cinco anos, não só com as editoras, mas com todos os fornecedores do iTunes, que passariam a vender conteúdo (música, vídeo, programas de TV etc.) através da app store sem pagar a taxa de 30% à Apple.

Se Cote acatar a proposta, ela estaria basicamente descartando o acordo que fechou com as editoras Hachette, HarperCollins, Simon & Schuster, Macmillan e Penguin. O argumento do DOJ toca justamente neste ponto: ele defende que, após o fim do acordo com a Justiça, em dois anos, as editoras da Defesa voltarão a negociar contratos de e-books como antes. Segundo o site Publishers Lunch, o DOJ ressaltou em seu argumento a opinião de que “vários CEOs das editoras da Defesa deram testemunhos não críveis em apoio à Apple”, e destacou ainda o CEO da Macmillam, John Sargent, que declarou “estar até mesmo orgulhoso das suas ações, não só na época como ainda hoje também.” Para o DOJ, o fato da conduta ilegal da Apple ter sido conduzida nos níveis mais altos da direção mostra uma vontade da empresa de adotar práticas de fixação de preços ilegais.

A Apple não demorou a se manifestar. Ainda na sexta-feira, à tarde, ela respondeu dizendo que as propostas do DOJ eram “uma intrusão draconiana e punitiva nos negócios da Apple, loucamente fora de proporção de qualquer mal ou prejuízo potencial julgado”. A Apple acredita que a observância do Governo seria aplicada somente à empresa e ultrapassaria “as questões julgadas no caso, ferindo a competição e consumidores e violando princípios básicos de justiça e processo legal”. Como o fantasma da gigante varejista de Seattle está sempre por perto, a Apple aproveitou para cutucar e dizer que, caso as medidas fossem adotadas e a empresa prejudicada, a “Amazon poderia usar seu poder de mercado para conseguir termos mais favoráveis que a Apple seria capaz” nos e-books. De um modo geral, a Apple defende que a sua conduta unilateral (ou seja, se não houvesse tido participação das editoras) nunca foi o problema em si, portando as imposições abrangentes não fazem sentido.

Por enquanto não houve manifestação por parte da Juíza Denise Cote, mas sua tendência favorável ao DOJ pode vir a mudar drasticamente a indústria da venda de conteúdo na internet.

Por Iona Teixeira Stevens | PublishNews | 05/08/2013

Editoras lançam Bookish


Site é resultado de parceria da Simon & Schuster, Penguin e Hachette

BookishAs editoras Simon & Schuster, Penguin e Hachette, 3 das chamadas Big Six internacionais, juntaram forças e lançaram o Bookish, uma mistura de rede social, site de recomendação de livros [com recomendações “inteligentes”, segundo o portal] e livraria online, com livros de outras editoras além das 3 parceiras. Além disso, o Bookish também pretende ser uma publicação online, com conteúdo editorialmente independente sobre livros e autores de diversas editoras.

PublishNews | 07/02/2013

Empréstimo de livros digitais opõe bibliotecas e editoras


As primeiras querem oferecer e-books para seus leitores, mas enfrentam resistência das segundas.

Em meio à tendência de revitalização de bibliotecas e sua adequação às novas demandas dos leitores, muitas passaram a adquirir dispositivos [como Kindle] e livros digitais [e-books].

Na Biblioteca de São Paulo [zona Norte da cidade], por exemplo, Kindles estão disponíveis para os usuários, mas só podem ser usados dentro da própria biblioteca.

Nos EUA e em países da Europa e da Oceania, já existem empresas como a Public Library Online, que prestam serviço a bibliotecas, disponibilizando acervo digital para os usuários destas.

Com isso, usuários das bibliotecas que adquirem o serviço podem emprestar livros digitais pela internet, baixando-os para lê-los em seus próprios dispositivos eletrônicos.

Nesse modelo, o livro só pode ser baixado por um aparelho de cada vez e, passado o prazo de validade do aluguel, o arquivo se fecha.

Ainda assim, a questão envolve uma polêmica a respeito de direitos autorais das obras emprestadas online e coloca bibliotecas e editoras de livros em campos opostos nos EUA.

Em seu relatório mais recente, a Associação de Bibliotecas da América [ALA, na sigla em inglês] diz que “o crescimento dos e-books estimulou a demanda, mas as bibliotecas têm acesso limitado a eles por causa de restrições das editoras”.

Limitações

O relatório diz que grandes editoras, como Macmillan, Simon and Schuster e Hachette, têm se recusado a fornecer livros digitais às bibliotecas.

A editora Harper Collins, por sua vez, limita a 26 o número de vezes que um livro digital pode ser emprestado [ou baixado] pela biblioteca que o adquirir. E a editora Random House aumentou o preço dos e-books vendidos às bibliotecas, também segundo o relatório.

Em um momento de duras restrições orçamentárias, aumentos nos preços impedem na prática o acesso de muitas bibliotecas [ao e-book]“, diz o texto.

As editoras, por sua vez, dizem estar defendendo os direitos dos autores e argumentam que os limites de acesso levam em conta a vida útil que um livro em papel teria.

Maureen Sullivan, presidente da ALA, disse à BBC Brasil que há conversas com as editoras para chegar a um acordo e que algumas bibliotecas estão testando modelos alternativos.

Um exemplo ocorre no condado de Douglas, no Estado americano do Colorado, onde as bibliotecas firmaram contrato diretamente com as editoras, evitando as distribuidoras de livros e passando a ser donas dos arquivos dos e-books.

Segundo Sullivan, o setor bibliotecário está disposto a aceitar limites de downloads como os impostos pela Harper Collins, “desde que o preço seja razoável“.

No Brasil, onde o acervo nacional em e-books é menor, ainda não há portais como a Public Library Online provendo serviço de empréstimo às bibliotecas nem conversas avançadas entre o setor e as editoras, segundo Adriana Ferrari, coordenadora da unidade de bibliotecas da Secretaria da Cultura paulista.

O Estado de S. Paulo | 25 de janeiro de 2013, às 9h 33 | BBC Brasil – Todos os direitos reservados.

W3C finalmente entra na jogada


POR EDNEI PROCÓPIO

W3C [a principal organização de padronização da World Wide Web] está apoiando a padronização dos livros eletrônicos. Para dar o start à iniciativa, a W3C criou uma comissão e o resultado inicial é um Workshop que será ministrado em fevereiro próximo. A ideia do Workshop é promover o livro eletrônico dentro de um padrão que eles chamam de Plataforma Open Web. Basicamente o que eles querem é introduzir no mercado a ideia de se trabalhar com padrões tecnologias abertas como HTML, CSS, SVG, XML, XSLT, XSL-FO, PNG, etc.

O projeto está sendo tocado em parceria com a International Digital Publishing Forum [IDPF] e Book Industry Study Group [BISG]. E fazem parte da comissão empresas como Adobe, Barnes & Noble, o consórcio DAISY, Google, Hachette, Ingram, O’Reilly, Pearson, Rakuten, Safari Books, Samsung, Sony e por aí vai.

Embora alguns players como por exemplo, a Amazon e Apple, através de suas grandes influências, força a barra tentando impôr os seus próprios formatos ao mercado, esta não é a primeira vez que a indústria se junta para tentar algo neste sentido. Como eu descrevi em meu primeiro livro, “Construindo uma Biblioteca Digital“:

O ideal seria se os livros eletrônicos fossem criados sob formatos padrões [abertos ou livres] utilizados na Internet.

O formato ePub, por exemplo, teve sua gênese de desenvolvimento baseada em uma especicação padrão chamada OeB. A especicação OeB [Open eBook] era um formato cuja estrutura já atendia a uma especificação aberta, baseada em XML [eXtensible Markup Language – linguagem de marcação extensível].

Citando Mckinley, “Do papel até a Web”, ninguém pode monopolizar os formatos abertos. E nenhuma pessoa ou entidade comercial tem controle sobre seus destinos. Os documentos XML, OeB, ePub, etc., pertencem aos seus proprietários. Eles não fazem parte de nenhum aplicativo, configuração de hardware ou sistema operacional. Além disso, assim como a XML, o HTML e o ePub, os documentos Open Web serão inteligentes e úteis por muito tempo, mesmo após os formatos de processadores de texto binários de propriedade dos dias de hoje terem se tornado obsoleto.

Considere a seguinte situação, um livro de papel de conteúdo romântico permanecerá legível por 20, 50, ou, quem sabe, 100 anos. Qual é a probabilidade dos formatos de processadores de textos binários de propriedade atuais permanecerem legíveis por 10 anos, ou até 100 anos? Novos sistemas operacionais e programas aparecem e somem, mas a Open Web é permanente. Desse modo, utilizar formatos padrões abertos para disponibilizar livros digitais garante que o leitor não precise, por exemplo, adquirir duas ou mais vezes o mesmo livro quando migrar para hardwares de plataformas diferentes.

Com Open Web, o conteúdo de um eBook torna-se independente de qualquer sistema de formatação em particular. Por toda sua existência, um eBook poderá se transformar em muitos diferentes formatos e tamanhos. Por todo o tempo, entretanto, a estrutura e o conteúdo podem ser retidos de forma independente, permitindo assim que o livro seja reformatado várias vezes para grande variedade de e-readers existentes hoje e para os que ainda serão inventados.

POR EDNEI PROCÓPIO

Hachette adere ao formato ePub3


O grupo Hachette está planejando lançar livros digitais em EPub3 e começará com 16 títulos no formato, que é um padrão interativo e focado em multimídia para e-books enhanced, entre novembro 2012 e março 2013. O lançamento marca o compromisso da Hachette com o formato, e a casa planeja lançar todos seus títulos de ficção em EPub3 até março 2013. […] Além de facilitar o desenvolvimento de conteúdo interativo e multimídia para e-books enhanced, o presidente do grupo Ken Michaels disse que o padrão EPub3 permite que o conteúdo seja lido em qualquer suporte. “A indústria precisa de formatos como o EPub3, que permitem uma maior gama de criatividade editorial no tratamento de layouts complexos, capacidades de mídia e interatividade ricas”, disse Michaels.

Publishers Weekly | 15/11/2012

Amazon oferecerá reembolso de editoras a clientes do Kindle


Multa foi definida após um acordo judicial em uma ação contra editoras por um caso de fixação de preços

Amazon, a gigante do comércio eletrônico, disse que as quantias exatas não serão divulgadas até que a justiça finalize o acordo

Amazon, a gigante do comércio eletrônico, disse que as quantias exatas não serão divulgadas até que a justiça finalize o acordo

Nova York | A Amazon anunciou que oferecerá reembolsos aos clientes que compraram livros eletrônicos, após um acordo parcial em uma ação contra editoras por um caso de fixação de preços.

O gigante do comércio eletrônico disse que as quantias exatas não serão divulgadas até que a justiça finalize o acordo, mas indicou que os reembolsos provavelmente oscilem entre 0,30 e 1,32 dólares para certos livros para Kindle comprados entre abril de 2010 e maio de 2012.

Nas notificações aos clientes nos últimos dias, a Amazon informou que as editoras Hachette, Harper Collins e Simon and Schuster aceitaram um acordo em uma ação judicial do governo dos Estados Unidos, em que se alegava uma conspiração de fixação de preços com a Apple, prejudicial à gigante do varejo.

Os acordos criam um fundo de 69 milhões de dólares para reembolsos.

As autoridades disseram que o plano buscava terminar com os descontos da Amazon, que vendeu a maioria dos e-books a 9,99 dólares até que as editoras impusessem o novo plano de preços.

Publicado originalmente e clipado à partir de EXAME.COM | 15/10/2012, às 21:05

Palmas para a Amazon


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 11/09/2012 | Tradução: Marcelo Barbão

Mike Shatzkin

Quando escreverem a história de como a Amazon conseguiu dominar o mercado de consumo de livros, daqui a dez anos, haverá um capítulo intitulado “6 de setembro de 2012”.

Claro, este foi o dia em que a juíza Cote aprovou o acordo entre a HarperCollins, Hachette e Simon & Schuster, e começou a desfazer o regime de preços criados pela editora, que ficou conhecido como modelo de agência. Este modelo foi criado, na verdade, para liberar amplos descontos no mercado dos e-books e acho que logo veremos provas de que será bem-sucedido neste objetivo, muito além do que qualquer pessoa pode imaginar. [Eu muitas vezes expressei minhas preocupações sobre o que acho serão as consequências inevitáveis desta situação.]

Mas não foi só isso que a Amazon conquistou em 6 de setembro de 2012. Nem de longe. Na verdade, a única coisa que não foi boa em relação ao anúncio do juiz foi que ele tirou a atenção do feitos que não precisam da ajuda do governo.

Um dia após a concorrente Kobo tentar superá-los anunciando atualizações em seu conjunto de aparelhos, a Amazon combinou melhor desempenho e menores preços em seus aparelhos, superando não só a Kobo, mas também o Nook, Apple e Google. Não foi nem a inovação dos aparelhos que mais me impressionou. Houve várias outras inovações que vão exigir muito mais de todo mundo para competir com o ecossistema Kindle.

1. Alavancando sua propriedade da Audible, a empresa dominante em audiobooks para download, a Amazon apresentou um recurso Whispersync que permite a mudança simples entre ler um e-book e ouvir a versão audiobook. Uma das minhas cunhadas, que é professora de crianças com dificuldades de leituras e ajuda outras professoras que fazem o mesmo, me perguntou a alguns meses por que ninguém tinha feito isso antes. Perguntei por aí e me disseram que “é complicado”. Editoras não podem fazer porque não controlam os ecossistemas de entrega. Outras livrarias de e-book não podem fazer isso por que não entregam áudio.

Só a Amazon poderia ter feito. Agora, fizeram.

1A. Além do uso do Whispersync para permitir a mudança entre ler e ouvir, Kindle apresentou um recurso chamado “Immersion Reading” que permite que você leia e ouça ao mesmo tempo.

Está claro que isso cria um forte motivo para comprar tanto um audiobook quanto um e-book do mesmo título? Autores e editores podem celebrar.

Esta inovação específica é especialmente irônica se nos lembramos da seguinte história: nos primeiros dias do Kindle, Amazon queria colocar num recurso text-to-speech que entregasse um audiobook através de automação de todo e-book. Agentes e editores criaram problemas por causa dos óbvios problemas de direitos; audiobooks são uma fonte de lucros separados para todos, e ninguém com algum interesse comercial quer ver isso ameaçado, apesar de que muitos acham que a leitura automática não vai realmente satisfazer um cliente de audiobook.

Mas ninguém terá problemas com esta solução. O consumidor compra duas vezes.

E, incidentalmente, mais alguém pode escrever todo um post de blog sobre como este conjunto de recursos pode ser usado para criar oportunidades nos mercados estudantis!

2. Alavancando sua propriedade do IMDb [o banco de dados de filmes e programas de TV], a Amazon está melhorando a experiência de assistir vídeos ao fazer com que as informações sobre filmes e atores esteja disponível com um clique. No mês passado, os blogueiros estavam explicando que a Google comprou a Frommer’s de Wiley porque queriam transformar conteúdo em metadados. Agora a Amazon está demonstrando muito bem por que isso é útil e importante.

3. Alavancando seus recursos de publicação e seu papel como a única livraria com uma audiência grande suficiente para distribuir uma massa crítica de leitores sozinha, estão apresentando a serialização por assinatura com o Kindle Serials. A investida inicial é modesta: uma seleção de oito romances em série com preço baixo distribuídos em pedaços de pelo menos 10.000 palavras. Mas este “teste”, o modelo de conseguir pessoas para comprar algo antecipadamente sabendo que será entregue em partes.

[Quando explorei a viabilidade do modelo de assinatura para ebooks, especulei que a única empresa que realmente poderia montar um esquema assim para leitores em geral seria a Amazon. Agora isso parece que está começando.]

Por um lado, isso lembra o sucesso do romance parcialmente autopublicado, chamado “Wool” de Hugh Howey. Mas também poderia ser a base para algo como o modelo “publicação ágil” de Dominique Raccah, que é um experimento ativo agora em sua empresa, a Sourcebooks, com o autor David Houle. A Amazon teria a grande vantagem de possuir uma audiência muito maior para “convidar” a uma experiência deste tipo e, quando você estiver dependendo da participação para o sucesso, poder apelar a mais pessoas é uma enorme vantagem.

4. A Amazon está subsidiando todos seus aparelhos com anúncios que funcionam como telas de proteção. Eles estavam inicialmente planejando mudar a prática anterior de oferecer aparelhos com preços mais altos para que os consumidores pudessem evitar os anúncios. O primeiro anúncio afirmou que todos os aparelhos vinham com propagandas, e sem uma opção “pague mais” para evitar isso. Apesar de a reação inicial ter aparentemente forçado uma mudança, e eles agora estarem oferecendo o Kindle Fire sem anúncios por $15 a mais, isso ainda abre uma série de outros pensamentos e perguntas.

Como alguém pode competir em termos de preços de aparelhos com um concorrente que não só tem o contato mais direto com clientes, mas que também consegue anúncios para subsidiar preços mais baratos?

Isso significa que a Amazon “sabe” que a maioria dos consumidores escolheriam economizar dinheiro e não ligariam para os anúncios?

Estão montando uma rede de comunicação para promover conteúdo e cobrar os criadores de conteúdo pelo equivalente a vitrines e balcões de entrada da nova geração?

Achei que a Google era a campeã de publicidade. Por que não pensaram primeiro nisso para o Nexus 7?

5. O recurso X-Ray da Amazon, que basicamente coleta metadados [caracteres, cenas] de livros e filmes, é um bloco de construção para distribuir resumos e esboços que poderiam ser um incrível recurso adicional único da plataforma. Poderia também ser um começo de conteúdo estilo “Cliffs Notes” de geração automática que poderia ter até uma taxa de compras separada.

6. A Amazon tinha construído um recurso de controle de pais em seu ecossistema Kindle chamado FreeTime, assim as crianças podem usar o aparelho e até obter conteúdo, mas só se for aprovado. Há iniciativas novas como Storia de Scholastic e a já veterana marca da PBS, Reading Rainbow, para o qual uma das propostas centrais é criar um ambiente de leitura para crianças com controles para adultos. Estas plataformas voltadas para crianças foram obviamente criadas para apresentar ambientes que pais e professores verão como superiores para incentivar a leitura de crianças. Eles, de repente, terão concorrência mais séria vinda da plataforma mais séria que existe.

E a Amazon inseriu uma app incrível, e que os outros provavelmente nem imaginaram: eles conseguem aparentemente controlar a quantidade de tempo que uma criança pode passar fazendo várias atividades em seu aparelho, assim os pais podem organizar o tempo de leitura, o tempo de filmes e de jogos. Tenho certeza que alguns pais vão ficar maravilhados com isso.

********

A decisão da juíza Cote também é uma boa notícia para a Amazon e foi por isso que os jornalistas ligaram no dia da conferência de imprensa que anunciou tudo que escrevi acima. A análise completa de Michael Cader [sobre a qual escrevi umas poucas palavras a mais acima] esclarece o que ainda não sabemos sobre a velocidade e a complexidade da implementação, inclusive sobre se haverá um apelo e se a implementação será adiada de acordo com isso.

Mas parece que há boas chances de que muitos dos controles, que evitaram que a Amazon desse descontos nos livros de alto perfil nos últimos 18 meses, terminarão em um ou talvez dois meses, antes do Natal.

Acho que a Amazon vai dar descontos agressivos. Sua “marca” tem, entre outras coisas, a ver com “baixos preços para o consumidor”. E eles sempre usaram o preço como uma ferramenta para mercado. É provável que continuem assim.

O estabelecimento de preços não será feito por humanos; será feito por bots e algoritmos, respondendo ao que está acontecendo no mercado entre seus concorrentes todo dia. A Amazon é muito boa nisso; é o que fazem há anos. É presumível que a BN.com tem um conjunto similar de habilidades e ferramentas. É presumível que todo mundo exceto a Apple tenha de precificar competitivamente pelo menos seus livros comprados de distribuidoras.

A Apple foi protegida pelos MFNs que permanecem igual para todos, menos as editoras que firmaram o acordo. Mas sem esta proteção, como a Apple vai competir? Eles nunca tiveram de trabalhar com preços competitivos de produtos antes. Eu vou ficar bem impressionado se a Apple conseguir sair desta briga de preços que está por acontecer sem um olho roxo bem óbvio. Eles não foram treinados para isso.

No geral, isso poderia significar outra explosão de crescimento no mercado de e-books, que viu uma queda importante em sua taxa de crescimento no último ano. Não veremos os ebooks crescendo em dobro novamente, mas estamos a ponto de ver uma luta de preços digitais agressiva, que irá fazer com que todos os consumidores de livros impressos se perguntem se deveriam considerar fazer a mudança que os leitores pesados já fizeram.

Quando o acordo for implementado, as três editoras que assinaram o acordo terão os preços de seus livros cortados pelas livrarias, independente de seus preços de listas, e não importa o que negociem a próxima rodada de termos comerciais. Mas as três editoras que ainda podem usar os preços de agência – Random House, e a Macmillan e a Penguin, que ainda continuam o litígio – provavelmente descobrirão que serão forçadas a baixar os preços para manter seus principais livros competitivos. Pelo menos essa é a minha expectativa. Será muito interessante ver como isso vai funcionar nos próximos meses.

Preciso agradecer a meu sócio na Publishers Lunch Conference, Michael Cader, e suas habilidades como repórter do cenário editorial. Seus quatro posts na sexta-feira: sobre a decisão da juízasobre o que acontecerá como resultadosobre o novo hardware e sobre os vários recursos de leitura e consumo que foram assunto da maior parte deste post, comprimiram – de longe – a mais clara e mais profunda explicação de um conjunto incrível de informações complexas. Claro, Michael é mais do que um repórter do setor; ele é parte dela nos últimos 25 anos.

Eu realmente não entendo como os jornalistas que não têm o benefício desta base podem justificar não lê-lo. [Paga-se $20 por mês para fazer uma assinatura. Qualquer um que trabalha no mercado editorial não terá problemas com esta proposição de valor.] Eles certamente fariam um trabalho melhor se assinassem.

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 11/09/2012 | Tradução: Marcelo Barbão

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].

Aprovado acordo de precificação de eBook nos EUA


A juíza Denise Cote aprovou semana passada o acordo entre os promotores americanos e as editoras Hachette, HarperCollins, e Simon & Schuster no caso da precificação de e-book. Segundo o site Publishers Weekly, a aprovação do acordo era esperada, apesar de ter sido relativamente rápida. A American Booksellers Association se mostrou desapontada, “estamos colossalmente desapontados pois a juíza não conseguiu entender como os consumidores serão negativamente afetados por esta decisão”, informou a ABA ao site Publishers Weekly. Para quem não entendeu muito bem do que se trata exatamente, o site Paid Content colocou o caso em formas de quadrinho, que você pode ver aqui.

Por Iona Teixeira Stevens | PublishNews | 10/09/2012

Lista dos eBooks mais vendidos nos EUA


A Digital Books World, newsletter especializada em livros eletrônicos dos EUA, divulgou várias listas de mais vendidos do setor naquele país. A DGB , associada com a Iobyte Solutions, preparou uma lista geral dos vinte e cinco mais vendidos e quatro listas segmentadas pelo preço.

A curiosidade a ser notada é que, dos vinte e cinco títulos mais vendidos, 21 foram publicados pelas “seis irmãs”, as maiores do setor, e praticamente a metade [12 títulos] foram publicados por editoras que aplicam o modelo de agenciamento, e com preços acima de US$ 10,00 [US 12,00 é o mais comum], e apenas quatro estão no segmento de preço mais baixo [de Us$ 0,00 a 2,99].

Outro detalhe significativo é que apenas dois títulos foram publicados por editoras fora do grupo das seis maiores editoras americanas [Random House, Penguin, Macmillan, Simon & Schuster, Hachette, HarperCollins]. A Scholastic – que não está entre as seis, mas é uma grande editora [publicou o Harry Potter nos EUA] emplacou dois títulos, e a Soho Press, essa sim, independente, um título.

Ao observar as listas divididas por categorias de preço, verifica-se que apenas no segmento de preço de US$ 3. a US$ 7,99 é que começam a aparecer as independentes, com três posições. E somente no segmento mais barato [de US$ 0,0 a Us$ 3] aparecem dois autores autopublicados, Sidney Landon e Lynda Chance. Esses dois, pelo título dos romances, aparentemente produzem “romance novels”, um segmento diferenciado nos EUA, por aqui representado pelos livros de banca tipo “Sabrina”. Etc.

Por Felipe Lindoso | Publicado originalmente em O Xis do Problema | 20 de agosto de 2012

Hachette continuará agarrada ao DRM


Hachette pede a seus autores para entrar na briga pelo DRM

A Hachette, uma das Big Six do mundo editorial, se envolveu em uma polêmica essa semana, ao colocar um de seus autores no meio de uma briga sobre DRM em territórios onde ela não possui os respectivos direitos autorais.

Um colunista do site Publishers Weekly afirmou ter visto uma carta, assinada por Ursula Mackenzie, CEO da Little, Brown U.K. [que pertence à Hachette] a um de seus autores explicando que, como a editora Tor, da MacMillan, publica o título dele sem DRM em outros países, seria difícil os direitos acordados à Hachette serem devidamente protegidos, e pede ainda que o autor insista para que a Tor volte a usar DRM. “A Hachette tem bolas do tamanho de Marte se ela acha que pode ditar o que outros publishers fazem em territórios onde ela não tem direitos” disse o colunista Cory Doctorow. Em resposta, a Hachette U.K. declarou que o DRM está funcionando muito bem e que mudará os contraltos autorais para deixar mais claro a posição do autor em relação ao DRM.

Por Iona Teixeira Stevens | PublishNews | 16/08/2012

O mercado do eBook está a ponto de mudar… muito


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 08/08/2012 | Tradução: Marcelo Barbão

Mike Shatzkin

Shatzkin explica a decisão da Justiça americana, e prevê suas conseqüências.

A resposta do Departamento de Justiça aos comentários públicos demonstra que é bastante provável que o acordo negociado com a Hachette, HarperCollins e Simon & Schuster será aceitado pelos tribunais. É hora de contemplar as mudanças que veremos no mercado de e-books nos dois próximos meses.

O acordo exige que as três editoras informem as livrarias trabalhando sob modelo de agência que elas podem mudar se quiserem. Isso deve ocorrer dez dias após a decisão do tribunal. As livrarias têm 30 dias para terminar o acordo, e depois as editoras têm mais 30 dias, a partir do recebimento deste aviso, para terminar de vez com o contrato.

Assim, o processo pode ser quase instantâneo, se as editoras forem notificadas imediatamente, as livrarias responderem imediatamente e as editoras reagirem à resposta imediatamente. Ou pode demorar uns 70 dias a partir do julgamento do tribunal, se todos usarem o tempo inteiro destinado pelo julgamento.

Assumindo que a Amazon vá agir com competência e rapidez em seus próprios interesses [e eu tenho certeza que irão], todo o processo pode acontecer entre 40-45 dias. Isso deve liberar a Amazon da maioria das restrições de preços sobre os livros das três editoras que aceitaram o acordo a partir do meio de setembro.

Há uma certa confusão na linguagem do acordo aqui. No mesmo parágrafo, em IV-B, que coloca as exigências de 10, 30 e 30 dias como descritos acima, também diz que 30 dias após a “entrada no julgamento final” [o início de tudo], os réus devem tomar “cada passo” para terminar ou não renovar ou estender o acordo. Talvez a linguagem faça sentido a um advogado, mas eu estou confuso. Parece que estão pedindo resultado antes do primeiro período de 30 dias ter expirado.

O acordo judicial, que não elimina diretamente o modelo de agência [apesar de distorcê-lo muito], não permite que as editoras ditem os preços de vendas finais em novos acordos, exceto para colocar um máximo [vamos analisar isso mais à frente]. Ele também impede a existência de cláusulas que protejam qualquer livraria do impacto das decisões de precificação de seus concorrentes. Estas restrições são especificadas para durar dois anos para cada livraria, a partir da data em que o velho contrato for acertado, seja pelo fim do contrato, ou por uma notificação da editora.

Novos contratos devem ser pensados. Podem ser acordos de “agência”, onde a editora coloca um preço e paga uma comissão pelas vendas baseando-se neste preço. Mas, como os contratos de agência eram atrativos porque conseguiam o que agora é uma paridade ilegal de preços no mercado, estas editoras devem repensar a eficácia do modelo. Eu faria isso.

Assim, novos contratos entre as três editoras que fazem parte do acordo judicial e todas as livrarias deverão ser escritos, negociados e assinados dentro de um prazo máximo de 70 dias.

Qualquer um que se lembra da combinação de maratona e prova de velocidade que foram essas negociações em 2010 não estará planejando suas férias para os próximos meses.

Existe uma enorme questão em aberto no acordo. As editoras têm permissão de negociar com as livrarias acordos limitando descontos a partir dos preços [agora] sugeridos pelas editoras. O acordo permite que a editora proíba descontos em seus livros que, no agregado de mais de um ano, exceda a margem que a livraria ganhou nestes livros.

Em princípio, isso não é complicado. Se uma livraria “A” vende e-books por $1 milhão num ano e ganha $300.000 em comissões, ela precisa cobrar pelo menos $700.000 dos clientes por estes livros, senão estaria violando o contrato que o acordo judicial.

Na prática, monitorar e forçar isso poderia ser um pesadelo. Exige informar ou acompanhar as vendas de e-books, e os preços que estão sendo vendidos, de uma forma ainda mais exigente do que tem sido feito até agora. Mas mesmo com dados perfeitos, ainda é extremamente difícil garantir conformidade, especialmente se uma livraria estiver disposta a “gastar” toda sua margem de desconto.

Isso também significa que as livrarias não podem trabalhar apenas com bots para estabelecer preços. Não basta a Livraria “A” monitorar os preços da Livraria “B” e automaticamente ajustar o seu preço, pois as Livrarias A e B não estão vendendo a mesma quantidade de outros livros de cada editora e, portanto, não possuem o mesmo “orçamento” para desconto. É um jogo da velha tridimensional. As livrarias precisam monitorar os concorrentes e, ao mesmo tempo, comparar como seus descontos aos consumidores estão somando às compensações que estão ganhando com as vendas acima do custo para cada uma das três editoras incluídas no acordo judicial.

E as editoras precisam acompanhar as vendas de cada uma das livrarias, presumindo que receberão os dados que agora não têm acesso, para ter certeza que cada uma permanece abaixo do teto.

Não podemos assumir muitas coisas aqui. As regras do acordo permitem que uma editora negocie um teto de desconto baseando-se na margem total, mas não exige que uma livraria concorde com ele. E não há nenhuma punição especificada para uma livraria que não respeite o teto, então isso terá de estar nos contratos que serão negociados.

O Departamento de Justiça acertou ao considerar que todo o modelo de agência não funciona se não for aplicado entre as Seis Grandes. A Random House mostrou isso no primeiro ano de agência, quando ficou de fora e colheu os frutos imediatos. Ao manterem seu modelo de preço de distribuição [no qual a livraria fica com 50% de um preço alto e pouco realista de e-book], eles ganharam mais dinheiro por cada cópia vendida do que teriam feito sob o modelo de agência [através do qual a livraria só recebe 30%, mas de um preço mais baixo e realista]. E, ao mesmo tempo, os e-books da Random House se beneficiaram dos agressivos descontos [liderados pela Amazon, mas seguido por outras livrarias] com os quais seus títulos mais populares, únicos entre o conjunto competitivo das Seis Grandes, eram oferecidos ao consumidor.

Na verdade, a Apple deixou claro para as editoras, quando foram recrutadas pela iBookstore, que a loja só abriria se pelo menos quatro delas assinassem o contrato. A Apple provavelmente estava pensando que sem ter uma massa crítica de títulos mais vendidos, a loja não teria apelo e não valeria a pena entrar em operação. O que as editoras podem ter pensado é que, se houvesse muitos títulos das Seis Grandes com desconto porque eles não estivessem cobertos pelas regras de agência, os que não estivessem perderiam muito.

Parece que a necessidade de uma ação combinada para fazer o modelo de agência funcionar é um elemento central no pensamento do Departamento de Justiça de que houve um conluio entre as editoras para que ele fosse implementado. Mas as alegações específicas do conluio [a reunião de Picholine que aconteceu muito antes de que alguém estava pensando em modelo de agência ou numa livraria da Apple e os vários exemplos onde as editoras supostamente contaram um ao outro se eles iam entrar ou sair do programa] parecem muito fracas, especialmente quando sabemos que todas elas conheciam “todas as lojas”.

Com a leitura do acordo judicial, temos a impressão de que veremos muitas diferenças nos contratos substitutos. As suspeitas do Departamento de Justiça foram levantadas pela grande similaridade entre os contratos de modelo de agência, e eles parecem estar pedindo para que não sejam tão parecidos quando forem renegociados.

Isto poderia levar a um bom número de mudanças. As editoras poderiam voltar ao modelo de distribuição. Ou poderiam tentar mudar a comissão do modelo de agência, agora fixados de forma uniforme em 30%. Até parece que está sendo dito às editoras que as comissões não precisam ser uniformes entre todas as livrarias [apesar de que negociar termos diferentes parece violar o espírito da Lei Robinson-Patman que uma geração anterior de editores cresceu acreditando que deveriam dar os mesmos termos a todas suas livrarias. Entretanto, há uma exceção na lei para relacionamentos contratuais.]

Na verdade, há uma linguagem no acordo que parece voltada a impedir que as editoras revelem os detalhes desses acordos para que os concorrentes não possam descobri-los. [Pode-se assumir que um agente com clientes em mais de uma editora seria capaz de descobrir os termos comerciais dos pagamentos de royalties. Na verdade, poderíamos assumir que um agente responsável não estaria esperando o pagamento de royalties para descobrir isso.]

As editoras terão de negociar novos contratos. As outras editoras trabalhando com modelo de agência [Macmillan e Penguin, que continuam lutando judicialmente e não aceitaram o acordo, e a Random House, desfrutando de mais um grande benefício por ter ficado de fora do modelo no início e portanto não podendo ser incluída no argumento de conluio] terão de repensar seus preços quando virem o que acontece com as mudanças no mercado.

Seguramente, uma das histórias do Natal de 2012 será sobre até que ponto as editoras com modelo de agência diminuiram os preços, em relação ao que lhes foi permitido, para encarar a concorrência, lideradas pela Amazon.

Lembrem-se que a restrição de desconto permitida é um número anual. Há um bom número de estratégias que a Amazon poderia seguir [e presumo que são espertos para escolherem a correta], mas se escolherem aproveitar ao máximo este Natal, poderiam cortar muito os preços – digamos abaixo “do custo” — e tentar criar a margem nos 9 meses que irão sobrar deste primeiro ano do contrato.

Independente do que fizerem, as editoras com modelo de agência terão de responder em seus preços também.

É uma previsão igualmente segura de que uma consequência disto será que o autores novatos vivendo dos baixos preços perderão espaço no mercado. Isso não será tão óbvio e ninguém realmente vai perceber.

Naturalmente, B&N e Kobo também terão que descobrir uma estratégia de preços e uma forma para executá-la.

A Apple precisa repensar completamente o que vai fazer como livraria, porque os preços estabelecidos por editoras foram bastante prejudicados, e eles parecem que nunca quiseram fazer isso.

E eu tenho de repensar novamente se minha convicção de que as editoras precisam vender diretamente ao consumidor final se sustenta num mundo onde a Amazon é livre para virar suas armas dos preços contra qualquer concorrente e fazer com que se pareçam a mafiosos realizando extorsões, não importa qual preço cobrem dos consumidores por seus ebooks.

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 08/08/2012 | Tradução: Marcelo Barbão

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].

Reino Unido incrível


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 13/06/2012

Mike Shatzkin

anúncio de que a Waterstones, cadeia de livrarias no Reino Unido equivalente à Barnes & Noble nos EUA, começará a vender Kindle em suas lojas foi um choque para muita gente. Inclusive porque havia rumores de que a B&N estava fechando um acordo para fazer uma parceria com a Waterstones em relação ao Nook.

A dificuldade em fazer acordos em relação a aparelhos de leitura e ao “ecossistema” de conteúdo é que a venda de conteúdo subsidia a venda de aparelhos. É tudo parte de uma equação total ao redor da “vida útil” do cliente. O fornecedor do aparelho realmente necessita das vendas de e-books para fazer com que a venda do aparelho seja lucrativa.

Assim, quando a Kobo fez um acordo com a WH Smith e não com a Waterstones no Reino Unido (e a FNAC na França)  no ano passado, fez sentido para mim porque, naquele momento, a Waterstones estava dizendo que iria produzir o seu próprio aparelho.

Mas sempre achei que isso era muito para a Waterstones, pois sei o quanto a B&N teve de investir em desenvolvimento para fazer o Nook funcionar com uma base de lojas e orçamento várias vezes maior do que o da Waterstones. Para mim não foi surpresa quando a Waterstones começou a adiar a data de lançamento do seu e-reader, e nem quando os rumores mudaram e se dizia que estavam fazendo um acordo com outra empresa. Como a Kobo já estava trabalhando com seu maior competidor, a lógica dizia que seria com o Nook o acordo da Waterstones.

Não conheço ninguém que previu que seria com o Kindle.

Michael Cader – Publishers Lunch – e eu entendemos pelo press release da cadeia de lojas britânica, que os únicos e-books que a Waterstones vai ter participação na renda são os que forem comprados através da rede wifi dentro das suas lojas – essa rede ainda não existe; está sendo construída agora e é por isso que ainda vai demorar uns meses para vender Kindles.

Cader cita Tim Hely Hutchinson, da Hachette, que afirmou “apoiar totalmente” o acordo. Como seus dois maiores clientes acabaram de juntar forças, posso imaginar que seus pensamentos velados estão um pouco mais preocupados do que seus pronunciamentos em público demonstram. Mas eu também não brigaria em público com minhas maiores fontes de renda.

Como a Waterstones vai se beneficiar deste acordo? Bom, vão ganhar alguma margem com os Kindles que venderem. Não vão ganhar muito vendendo e-books, se só receberem pelos que forem comprados dentro de suas lojas. Já vi alguma especulação, numa lista de e-mails de discussão, de que vão usar a conexão da Amazon para ganhar uma fatia maior do investimenro das editoras em promoção e marketing, mas como já as editoras dão descontos consideráveis, não tenho certeza de quanto sangue pode ser tirado dessa pedra.

De qualquer forma, seria ruim criticar um acordo quando não se tem muita ideia dos detalhes. E pode ser que a Amazon poderia tenha feito uma oferta à Waterstones que teria sido uma loucura para a Barnes & Noble tentar equiparar ou para a Waterstones recusar.

Mas é difícil fugir da conclusão de que esse acordo vai acelerar a adoção dos e-books pelos leitores britânicos e, ao mesmo tempo, fortalecer o que já é a maior plataforma de vendas de e-books. O domínio do mercado de livros impressos online e a fatia de mercado dos e-books da Amazon só vai aumentar [hoje dizem que eles dominam 90%, mas não sei se isso está certo].

As afirmações da Waterstones de que seu negócio de vendas de livros on-line vai crescer e de que terão uma loja de e-books própria pode até ser sincera, mas é quase impossível de ser levada a sério.

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 13/06/2012 | Tradução: Marcelo Barbão

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].

Rede de livrarias critica acordo contra cartel de eBooks


DE SÃO PAULO – A rede de livrarias Barnes & Noble criticou ontem, em carta, o acordo fechado em abril entre o governo dos Estados Unidos e as editoras de livros Hachette, HarperCollins e Simon & Schuster.

O acordo fora assinado após processo judicial em que cinco editoras foram acusadas de participar de um cartel com a Apple que elevava preços dos e-books de US$ 2 para US$ 5 ao introduzir um modelo de negócios de “agência”, no qual preços são fixados pelas editoras mediante proteção à Apple, que recebe 30% sobre cada venda.

Para a Barnes & Noble, impor regras a esse modelo é ruim ao futuro da indústria do livro e pune livrarias independentes, autores e editores que não são parte do processo, assim como fere a livre concorrência, atingindo uma indústria emergente e “prejudicando os consumidores“.

Folha de S. Paulo | 08/06/2012

A Amazon é “predatória”, diz a Penguin


Editoras se defendem das acusações de cartel para fixar preços de e-books

A Penguin e a Macmillan, as únicas editoras que resolveram enfrentar nos tribunais as acusações do Departamento de Justiça dos Estados Unidos de que, junto com a HarperCollins, Simon & Schuster, Hachette e Apple, fizeram um conluio ao adotar o modelo de agenciamento e fixar os valores dos e-books, impedindo a redução de preços praticada especialmente pela Amazon, enviaram documentos com suas defesas na terça-feira, 29 – as outras editoras fizeram acordos com a Justiça americana.

Nos documentos, a Penguin acusou a Amazon de ter um comportamento “predatório” e “monopolista”, que poderia vir a prejudicar a indústria editorial no longo prazo. A editora argumentou ainda que a maior parte das conversas entre as editoras, usadas pela Justiça americana como prova de que elas fizeram um cartel, eram na verdade discussões sobre o “Projeto Z” – agora revelado como o aNobii – e o “Projeto Muse”, que é o Bookish.

A Macmillan também negou qualquer comportamento anticoncorrencial e afirmou que não há “nenhuma prova direta de conspiração”. Na semana passada, a Apple, que também não fez acordo e foi para os tribunais, argumentou em sua defesa que o governo estava se aliando ao “monopólio, e não à concorrência”. Com informações do site da The Bookseller.

PublishNews | 31/05/2012

Acusação “não é verdadeira”, diz Apple


Empresa diz que iBookstore quebrou o controle monopolista da Amazon

Depois de ser alvo de um processo aberto na quarta-feira pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos junto com cinco das maiores editoras do mundo, a Apple se defendeu das acusações de que o grupo de empresas fez um conluio para evitar a redução do preço dos e-books por meio da adoção do modelo de agenciamento na venda dos livros. A empresa foi a última entre as acusadas a se pronunciar.

Em comunicado assinado pelo porta-voz Tom Neumayr, a Apple afirmou que as acusações “simplesmente não são verdadeiras”. “O lançamento da iBookstore em 2010 estimulou inovação e concorrência, quebrando o controle monopolista da Amazon sobre a indústria editorial. Desde então os consumidores se beneficiam de e-books que são mais interativos e atrativos. Da mesma forma como permitimos que os desenvolvedores definam os preços na App Store, as editoras definem os preços na iBookstore”, diz a companhia.

Estima-se que a Amazon tenha 60% do mercado norte-americano de e-books, enquanto a Barnes & Noble fica com cerca de 30%. Acredita-se que a participação da Apple não passe de 5%.

Enquanto as editoras HarperCollins, Simon & Schuster e Hachette fizeram acordo com a Justiça americana para encerrar o caso, a Apple, junto com as editoras Penguin e Macmillan, vão enfrentar o tribunal.

Por Roberta Campassi | PublishNews | 13/04/2012

Processo contra editoras muda o jogo do preço do eBook


Justiça dos EUA conclui que adoção conjunta do modelo de agenciamento por grandes editoras foi concorrência desleal; Amazon sai fortalecida

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos indiciou a Apple e cinco das maiores editoras do mundo, ontem, sob a acusação de que as empresas fizeram um conluio para evitar a redução no preço dos e-books quando passaram a usar o “modelo de agenciamento”, em 2010, que visou especialmente impedir que a Amazon vendesse livros a preços reduzidos. A ação judicial é um revés para as editoras envolvidas, que podem vir a pagar milhões de dólares em ressarcimento aos consumidores, e uma vitória para o modelo comercial defendido pela Amazon, empresa que domina o mercado de livros nos EUA.

A Justiça americana concluiu que a Apple junto com a HarperCollins, Hachette, Simon & Schuster, Macmillan e Penguin praticaram concorrência desleal ao adotar um sistema em que são as próprias editoras que definem os preços dos e-books e que de fato realizam a venda, enquanto o varejista atua apenas como um “agente” da venda. É diferente do modelo tradicional de distribuição, em que quem define o preço final e faz a venda é a empresa varejista. Na prática, livros que poderiam ter custado US$ 9,99 por decisão da Amazon, por exemplo, com o modelo de agência ficavam entre US$ 12,99 e US$ 14,99, os preços impostos pelas editoras. Você pode ver a íntegra do processo e seus detalhes [em inglês] aqui.

Como resultado da alegada conspiração, acreditamos que os consumidores pagaram milhões de dólares a mais por alguns dos títulos mais populares“, disse Eric Holder, promotor geral dos EUA, durante uma entrevista coletiva em Washington onde ele anunciou o processo.

Acordos

As editoras Hachette [do grupo Lagardère], Simon & Schuster [da CBS] e HarperCollins [da News Corp.], já fecharam acordos com o Departamento de Justiça para não enfrentar o processo judicial. Ontem, as duas primeiras soltaram comunicados rebatendo as acusações e afirmaram não ter agido ilegalmente, mas de qualquer forma já se comprometem a encerrar os contratos nos moldes do agenciamento com a Apple. Pelo acordo, elas também ficam proibidas de impor pelo prazo de dois anos quaisquer restrições aos preços dos e-books definidos por varejistas.

Já a Penguin [grupo Pearson], a Macmillan [grupo Georg von Holtzbrinck]e a Apple não fizeram acordos e vão enfrentar a ação na Justiça – o principal executivo da Macmillan, John Sargent, escreveu uma carta em que faz veemente defesa da empresa, e o principal executivo da Peguin, John Mackinson, também assinou comunicado afirmando que a empresa não fez “nada errado”. Segundo ele, a ação americana “contém uma série de distorções e omissões materiais, que nós esperamos ter a oportunidade de corrigir no tribunal“.

As editoras que fizeram o acordo conseguiram garantir pelo menos uma limitação contra as agressivas políticas de descontos da Amazon: a de que a gigante varejista não possa vender todo o catálogo de uma editora a preços abaixo do que custa o e-book para ela. No entanto, de acordo com uma reportagem do The Wall Street Journal, se a Amazon vender um best-seller abaixo do custo e compensar com o lucro de outra venda, as editoras não poderão fazer nada.

Restituição milionária

Embora os acordos fechados pela Harper, S&S e Hachette não incluam compensação financeira, duas dessas editoras podem vir a ter que pagar restituições milionárias devido a uma ação aberta ontem por um grupo de 16 estados americanos, liderados por Connecticut e Texas, contra a Apple, a HarperCollins e a Hachette.

Segundo informações do The Wall Street Journal, já há tentativa de acordo em andamento com as duas últimas empresas. Elas já teriam concordado, a princípio, em pagar nada menos do que US$ 51 milhões em ressarcimento a consumidores, também segundo o jornal.

Investigação na Europa

Na Europa, as investigações contra as empresas, que começaram antes do que nos Estados Unidos, continuam em andamento pela Comissão Europeia. O The Wall Street Journal informou que, segundo o comissário de concorrência do órgão, Joaquin Almunia, a Apple já propôs mudanças e que quatro editoras internacionais propuseram acordos para encerrar a questão.

Por Roberta Campassi | PublishNews | 12/04/2012