Fechamento da Oyster não tem nada a ver com a viabilidade da assinatura de eBooks


Não é que a assinatura fracassou, mas que um ator de negócios puramente de livros faliu

A notícia de que a empresa de assinaturas de e-books Oyster está jogando a toalha não foi realmente uma surpresa. O modelo de negócio que foram forçados a adotar pelas grandes editoras – pagar o preço total para cada uso de um livro com um gatilho de pagamento a bem menos que uma leitura completa enquanto, ao mesmo tempo, oferecendo aos consumidores uma assinatura mensal que não cobria a venda de um livro, muito menos dois – era inevitavelmente pouco lucrativa. A esperança deles era que iriam construir uma audiência grande o suficiente para que as editoras se tornassem dependentes, de alguma forma, deles [pelo menos da renda que produziriam] e concordariam com termos diferentes.

Seria um erro interpretar o fechamento da Oyster como uma clara evidência de que “assinaturas para e-books não funcionam”. Claro que isso pode funcionar. Safari tem sido um negócio bem-sucedido e lucrativo por quase duas décadas. A 24Symbols da Espanha está operando um serviço de assinatura de e-books, principalmente fora dos EUA e principalmente em outros idiomas além do inglês, há vários anos e exclusivamente com dinheiro de investidores. Scribd tem publicamente [e um pouco desastrosamente, na minha opinião] ajustado seu modelo de assinatura para acomodar o que eram segmentos pouco lucrativos em e-books de romance e audiobooks. Mas a inferência seria que para outros segmentos o modelo de negócios está funcionando bem. E também está o Kindle Unlimited da Amazon, que é sui generis porque eles controlam muitas partes, incluindo a decisão mais ou menos unilateral de quanto vão pagar pelo conteúdo.

O que parecia óbvio para muitos de nós dede o começo, no entanto, era que uma oferta de assinatura para livros gerais não poderia funcionar no atual ambiente comercial. As Cinco Grandes editoras controlam a parte dos livros comerciais que qualquer serviço geral iria precisar. Todas essas editoras operam em termos de “agência”, o que torna extremamente difícil, se não impossível, que um serviço de assinaturas disponibilize esses livros a menos que a editora permita. Os termos que as editoras exigiam para participar nos serviços de assinaturas, que eram, aparentemente, o pagamento total pelo livro depois que uma certa porcentagem tenha sido “lida” por um assinante, combinada com um número limitado de títulos oferecido [não os lançamentos], faz com que a oferta de assinatura seja inerentemente pouco lucrativa.

As editoras veem as ofertas de assinatura como um negócio arriscado para livros que estão atualmente vendendo bem à la carte. Não só ameaçariam essas vendas, ameaçam transformar os leitores de compras à la carte em usuários de serviços de assinatura. Para as editoras, parece outra Amazon em potencial: um intermediário que controlaria os olhos dos leitores e com força cada vez maior para reescrever os contratos.

Então eles só participaram de uma forma limitada. A Penguin Random House [a maior e sozinha com metade dos livros mais comerciais] e o Hachette Book Group nem fizeram a experiência com os serviços de assinatura, apenas com a Amazon. HarperCollins, Simon & Schuster e, de forma menos extensa, a Macmillan, participaram de forma muito limitada. Múltiplas motivações levaram à participação que aconteceu. O principal estímulo, provavelmente, foi simplesmente enfrentar a Amazon. Ter clientes aninhados em qualquer lugar, exceto perto do monstro de Seattle, pode parecer uma boa ideia para a maioria das editoras. Mas deveria receber pelo menos parte desse dinheiro de investidores colocado em modelos de negócios com poucas chances de funcionar antes de terminar. E como as editoras é que decidem quais livros incluir, poderiam escolher títulos de catálogo que não estavam gerando muito dinheiro e que poderiam se beneficiar da “descobertabilidade” dentro do serviço de assinatura.

[Carolyn Reidy, a CEO da Simon & Schuster, deu essa dica em seu discurso na semana passada durante o BISG Annual Meeting onde mencionou especificamente o valor da descoberta que S&S viu acontecer nas plataformas de assinatura.]

Mas nem todos os serviços de assinatura eram iguais. O estabelecido Safari está em um nicho de mercado, servindo principalmente a clientes B2B em empresas de tecnologia. [Eles recentemente fizeram uma expansão na oferta porque trabalhadores da Boeing e da Microsoft não precisam apenas de livros sobre programação; também são pais e cozinheiros e jardineiros então não-ficção de interesse geral pode ter um apelo para eles. Mas essa não é a base do negócio da Safari e não estão tentando oferecer ficção.] O Scribd foi criado como um tipo de “YouTube para documentos” que o negócio de assinatura de e-books tanto construiu quanto aumentou. Para a Amazon, o Kindle Unlimited só deu a eles outra forma de fazer transações com o cliente do livro e outra saída para o conteúdo exclusivo de conteúdo para Kindle.

Só Oyster e outra start-up criada simultaneamente, Entitle [que tinha uma proposta que parecia mais um clube do livro do que um serviço de assinatura], estavam tentando transformar o fluxo de renda alternativa em um negócio independente. A Entitle faliu antes da Oyster. Librify, outra variação sobre o mesmo tema, foi comprada pelo Scribd.

Então o fracasso da Oyster é, na verdade, outra demonstração de uma “nova” realidade sobre a edição de livros, exceto que não é nova. A edição de livros — ea venda de livros — não são mais negócios independentes. Publicar e vender livros são funções, e podem ser complementares a outros negócios. E como adjuntos a outros negócios, não precisa realmente ser lucrativo para ser valioso. O que isso significa é que entidades tentando tornar os negócios lucrativo – ou pior, exigindo que seja lucrativo para sobreviver – começam com uma forte desvantagem competitiva.

A Amazon é grande mestre em tornar essa realidade bem óbvia. Lembramos que eles começaram como “loja de livros” e nada mais. Baseavam-se nos depósitos da Ingram no Oregon para permitir a existência de seu modelo de negócios, que era receber o pedido de um livro e aceitar pagamento, depois pegar esse livro da Ingram e enviar ao cliente, um pouco depois pagar a conta da Ingram. Esse modelo de fluxo de caixa positivo era tão brilhante que a Ingram poderia ter rapidamente permitido muitas cópias, e eles formaram uma divisão chamada Ingram Internet Support Services para fazer exatamente isso. Então a Amazon matou essa ideia ao cortar seus preços para o nível mais baixo possível e desencorajou outras pessoas a entrarem no jogo. Isso foi no final dos anos 1990.

Conseguiram fazer isso porque a comunidade financeira já tinha aceitado a estratégia da Amazon de usar livros para construir uma base de clientes e medir as perspectivas futuras dos negócios por LCV – o “lifetime customer value” das pessoas com quem faziam negócios. E ficou bastante claro rapidamente que podiam vender aos leitores de livros outras coisas, por isso vendas com baixa ou nenhuma margem era simplesmente uma tática de aquisição de clientes. Foi um jogo que a Barnes & Noble e a Borders não puderam disputar.

Agora as vendas de livros e e-books representam quase certamente apenas uma porcentagem de um dígito do total da renda da Amazon. Kindle Unlimited, como seus empreendimentos editoriais e ofertas de autopublicação, são pequenas partes de uma organização poderosa que possui muitas formas de ganhar com cada cliente que recrutam.

O Scribd não é tão poderoso quanto a Amazon, mas começaram com uma rede de criadores e consumidores de conteúdo. Isso deu a eles uma vantagem de marketing sobre a Oyster – nem todo cliente precisava ser adquirido a um custo alto já que muitos clientes potenciais já estavam “dentro da tenda”. Mas também deu a eles alguma estabilidade. Sobrancelhas foram levantadas recentemente quando o Scribd colocou os freios no empréstimo de romances e audiobooks. Mas ajustar o modelo de negócio para essas áreas verticais simultaneamente deixa aberto que o modelo na verdade está funcionando em outros nichos.

Podemos ver isso acontecendo de uma forma muito mais limitada nas lojas Barnes & Noble, onde os livros estão sendo substituídos nas prateleiras por brinquedos e jogos. Mas não é provável que haja diversificação suficiente no longo prazo. Certamente a B&N não vai chegar ao mesmo patamar da Amazon, onde bem mais de nove de cada dez dólares vem de algo que não são os livros. E a Barnes & Noble não está nem perto da Amazon: onde o lucro das vendas de livros é incidental se eles trouxerem novos clientes e também mantiverem a lealdade.

A história sobre a Oyster, ainda incompleta por enquanto, é que boa parte de sua equipe de gerência está indo para a Google, que, na verdade, “comprou” a empresa para tê-los. O Google parece estar tentando eliminar a ideia de que compraram a Oyster, só contrataram a equipe da Oyster. Obviamente, o Google se encaixa na descrição de uma empresa com muitos outros interesses nos quais os livros podem ser uma parte. No começo, tudo se resumia a buscas. Agora tudo tem a ver com o ecossistema Android e venda de mídia no geral. Um negócio de assinatura de e-books, ou até um negócio de assinatura de conteúdo, poderia fazer sentido no mundo do Google. Mas seria algo relativamente menor para eles. Meu palpite, e é só um palpite, é que eles estão pensando em algo mais do que um mero “serviço de assinatura de livros” e querem usar a equipe da Oyster nisso. Observadores mais inteligentes do que eu parecem acreditar que o pessoal que o Google recrutou vai fornecer conhecimento sobre a leitura móvel e a tecnologia de descoberta da Oyster. Claro, isso é informação essencial para o Google.

Da mesma forma, a Apple, que agora tem um serviço de assinatura para música, também poderia pensar em fazer um para livros – ou para toda a mídia – no iOS em algum momento. Eles não têm as vantagens da Amazon – uma grande quantidade de propriedade intelectual que controlam – mas seu negócio é criar um ecossistema no qual as pessoas entram e não querem sair. A assinatura de livros poderia aumentar isso.

Mas o ponto central que eu tiraria disso não é que a assinatura fracassou, mas que um ator de negócios puramente de livros faliu. Uma pergunta óbvia que provoca é quando vamos ver alguns sinais de sinergia entre Kobo e seus donos na Rakuten, que presumivelmente têm ambições mais ao estilo da Amazon, mas não parecem ter usado o negócio de e-book para ajudá-los a seguir nessa direção.

E o que é verdade nas livrarias também é verdade na publicação de livros, como observamos nesse espaço há algum tempo. Tanto a publicação quanto a venda de livros vão se tornar, cada vez mais, complementos a empreendimentos maiores e cada vez menos atividades isoladas às quais as empresas podem se dedicar para ter lucro.

O The New York Times publicou um artigo de primeira página afirmando essencialmente que a onda dos e-books acabou, pelo menos por enquanto, e que o negócio dos impressos parece estável. Isso é uma ótima notícia para editoras se a tendência for real. Infelizmente, alguns poucos pontos importantes foram ou suprimidos ou ignorados, e poderiam minar a narrativa.

Um é que, enquanto as editoras informam as vendas de e-books como porcentagem do total de vendas de livros com resultados regulares ou levemente em declínio, a Amazon afirma [e Russell Grandinetti foi citado no artigo] que as vendas de e-books deles está crescendo. Assumindo que tudo isso é verdade, é talvez a diferença da migração das vendas das editoras [cujas vendas seriam informadas pelas estatísticas da AAP] e passando para títulos independente mais baratos disponíveis somente através da Amazon [quais vendas não passam por ela?].

Outro é que as editoras estão aumentando os preços em e-books. Toda a resistência às vendas criada por preços mais altos resulta em vendas de impressos, ou parte disso faz com que o livro seja rejeitado por algo mais barato? Em outras palavras, poderia ser que as vendas totais de muitos títulos sejam menores do que as procuravam antes? [Pelo menos um agente me diz que é isso.]

E outra é que o ressurgimento das livrarias independentes ocorreu nos anos seguintes à falência da Border’s e a mudança para uma mistura de vários produtos na Barners & Noble. Vale a pena perguntar se as independentes são beneficiárias temporárias de uma súbita deficiência de espaço nas prateleiras ou se estamos realmente vendo não só um aumento na leitura de impressos, mas um renovado interesse dos leitores de livros em ir às livrarias para comprar um impresso. Essa pergunta não está colocada nesse post.

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 25/09/2015

Mike ShatzkinMike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Organiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro. Em sua coluna, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era tecnológica. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin

Presidente da Hachette fala pela primeira vez sobre a briga com a Amazon


Em entrevista, Arnaud Nourry diz que faria tudo de novo se fosse preciso

Pela primeira vez, o diretor-presidente da editora francesa Hachette Livre, Arnaud Nourry faz um balanço do conflito entre a sua empresa e a Amazon, dos EUA. Ele justifica sua posição rígida na defesa de atribuições do editor na definição do preço dos livros e reafirma sua posição contrária ao modelo de subscrição de e-books. Nourry acredita que o livro eletrônico não substituirá o livro em papel, mas as duas versões – impressa e digital – coexistirão. Ele aproveita para convocar uma mobilização contra os projetos da Comissão Europeia que, segundo ele, enfraquecem os direitos autorais. Veja abaixo a íntegra da entrevista que Arnaud Nourry concedeu à Livres Hebdo, cedida ao PublishNews com exclusividade para o português.

Durante um ano, por conta das negociações que vocês tiveram com a Amazon, não houvimos falar de vocês. Essa disputa acirrada valeu a pena ?

Esse caso que eu mesmo tomei frente ocupou uma boa parte do meu tempo. Não fiz declarações na época para não agravar a situação. Mas sim, valeu muito a pena, como a cada vez que as coisas essenciais entram em jogo. E nesse caso precisávamos saber quem, do editor até o revendedor, deveria definir os preços de venda dos livros no formato eletrônico e levar em conta o fato de que muitas coisas decididas nos EUA são depois repetidas em outros lugares. Sinto muito que essa decisão tenha virado um conflito, mas estou muito contente que tenhamos saído bem dessa. Mas, se fosse para fazer de novo, eu faria. Todos na indústria de mídia que não souberam manter o controle da produção no meio eletrônico estão em dificuldade. Se os livros eletrônicos fossem vendidos a US$ 5, bastaria alguns anos para que tudo estivesse mudado, com um mercado sem livrarias e um público acostumado a pagar quase nada. A música se adaptou, mas com um preço: uma alta concentração em três grandes atores mundiais. A diversidade sofreu com isso. A inovação no universo do som não é nada comparado ao que era 30 anos atrás. Não temos o direito de deixar fazer isso com os livros, que é a base das criação artística, da educação, da cultura e da democracia.

O acordo com a Amazon prevê melhores condições comerciais quando vocês abaixam os preços. Vocês o fazem ?

Não, somente se quisermos. O princípio é de não praticar os mesmos preços todo o tempo. Então, nós baixamos, depois subimos, nós testamos… Mas essa animação do mercado de operações comerciais não se dá em função das relações entre um distribuidor ou outro.

Nos EUA, o conflito revelou demanda inesperada por regulação de preços. A contribuição da Hachette Livre, que utilizou sua experiência na França, explicaria o fato de vocês serem os primeiros na mira da Amazon?

Hachette Livre desempenhou um papel especial desde 2009-2010, quando passou a existir o “contrato de agente” [1]. Mas se você me perguntar porque a Amazon abriu as negociações comerciais conosco primeiro, eu não tenho a resposta. Na verdade, eu ouço cada vez mais editores e donos de livrarias americanos elogirarem a Lei Lang [que regula direitos e obrigações relativos à propriedade intelectual]. Daí a pensar que seja possível fazer uma lei semelhante lá, é outra coisa!

Quais as lições que o senhor tiraria dessa disputa quanto às relações que mantém com Amazon e outros grandes operadores virtuais no mundo ?

Antes de mais nada, que essas grandes empresas trazem todas algo ao mercado editorial. É preciso esquecer os momentos conflituosos, e se dar conta que nós atingimos, graças a elas, clientes diferentes. A Amazon desempenhou um papel importantíssimo nesse sentido, da mesma forma como a Apple ou o Google. Não dá para menosprezar os benefícios que eles trouxeram. Em segundo lugar, em termos de relação, mesmo se eles são infinitamente maiores em tamanho do que nossa empresa, nossa capacidade de criação, com os autores, nos dá uma força simbólica que nos permite jogar com eles. Eu achei inclusive formidável que nos EUA, no ano passado, os autores tenham se mobilizado para nos ajudar a sair do conflito. O problema é o mesmo na França quando temos uma negociação com um parceiro. Isso me deixa confiante e otimista sobre o futuro dessa profissão. Mas é preciso ter condições para que possamos controlar o nível dos preços. Senão, de nada adianta deter os direitos exclusivos das obras dos nossos autores.

Que impacto teve esse caso no balanço anual da Hachette Livre do ano passado?

Eu não posso dar informações muito precisas. Obviamente pesou no faturamento das vendas online da nossa filial dos EUA, mas a baixa de 26 milhões de euros da nossa receita do ano passado só pode ser atribuída a isso de maneira marginal. Essa baixa se deve sobretudo aos efeitos do notro sucesso do ano anterior com a série Cinquenta tons ou Asterix, e as compressões na área de edição de livros escolares na França. E, no fundo, apesar de tudo isso, nós tivemos um ano sólido.

Hachette Book Group assim mesmo teve de deixar o escritório da Park Avenue, em Nova York, e desenvolver um plano econômico.

Nossa mudança não está relacionada a isso. Nós mudamos porque o proprietário tinha propostas muito diferentes das nossas em relação ao aluguel. Quanto ao plano econômico que nós conduzimos na primavera de 2014, ele é da mesma natureza do que todas as grandes editoras americanas fizeram alguns anos antes. Nós pudemos nos diferenciar um pouco porque, no período entre 2009 e 2011, época mais difícil pro mercado editorial americano, nós tivemos a sorte de nos beneficiar do sucesso da saga Crepúsculo.

No dia 7 de abril, a editora francesa Hachette Livre se muda para Vanves, no sudoeste de Paris. Ainda que vocês tenham construído um prédio muito elegante, essa mudança não afeta o grupo Hachette já que vocês saem do centro para irem à periferia de Paris?

O grupo vai continuar fiel à tradicional diversidade uma vez que muitas das nossas filiais continuam no coração de Paris. Para as equipes atualmente situadas no chamado Quai de Grenelle [Cais de Grenelle, no 15º arrondissement de Paris], a mudança para Vanves não fará grandes modificações: o novo prédio é perto do metrô; do canal de TV France 3, do grupo Bayard e da editora La Martinière. Todos estão próximos do nosso novo prédio. E para a empresa dona do terreno onde será nossa sede é uma aventura incrível poder se lançar num projeto para, pelo menos, os próximos 50 anos. Na verdade, Grenelle sim é onde nós nunca nos sentimos “em casa”. Foi pra nós como “um longo parênteses” entre a sede histórica du boulevard Saint-Germain, que tem suas raízes no século XIX, e o novo prédio.

Como o senhor, que fez dois terços de faturamento no exterior, analisa a evolução dos mercados mundiais do livro?

É interessante constatar que os mercados de língua inglesa, que se transformaram profundamente, encontram-se hoje em crescimento. O mercado americano progride há dois anos e o mercado britânico há um ano. Isso quer dizer que a leitura continua sólida. Na França e na Espanha, seguimos a conjuntura econômica. Isso foi flagrante de 2011 a 2013, e em menores proporções em 2014. Na França, o mercado perdeu 10% em cinco anos, e perdeu também lojas como Virgin e Chapitre. Mas, em um país de leitores como a França, não vejo porque a atividade não se recuperar como nos EUA ou na Inglaterra.

O senhor prevê investimentos na França?

Nós temos uma presença e uma diversidade que não nos torna o investidor mais ativo, ainda que, se houvessem oportunidades, nós as examinaríamos. Nossa prioridade continua sendo o mercado internacional. Ano passado, nós fizemos cinco novas aquisições na Inglaterra e uma nos EUA ainda que nenhuma delas seja espetacular. Há menos oportunidades na Europa Continental mas, se houvesse mais, nós olharíamos lá também.

Diante da livraria virtual, o que pode ser feito para melhorar a distribuição física do livro na França?

Esse não é nosso papel. Nós participamos da Adelc [2]. Começamos a apoiar o plano Filippetti para a livraria. Isso é prova do nosso compromisso com a rede de livrarias, que nos reconhece, acredito. Eu sou muito otimista em relação às livrarias independentes. Nos EUA, elas tiveram de se submeter ao desenvolvimento do livro eletrônico, que começou a recuar, mas elas saíram da crise mais sólidas. A venda online é funcional e prática, mas não é o suficiente para os leitores assíduos.

Hoje se tem distanciamento suficiente para fazer uma análise da etapa atual de desenvolvimento do livro eletrônico? Qual o seu balanço?

No universo anglo-saxão, me parece que eles atingiram um patamar, em torno de 25% do mercado, mas com importantes disparidades entre o ilustrado, onde ele é acessório, e a literatura do grande público, onde ele está a 40%, 50%. O livro O pintassilgo, de Donna Tartt, tem mercado 50% eletrônico, 50% venda nas lojas. Essa proporção de 25% [do mercado para os livros eletrônicos] não se modifica há 18 meses nos EUA e está chegando a isso na Inglaterra. Eu tiro cinco lições. Um: nós não partimos para uma reviravolta do livro eletrônico, mas para uma co-habitação entre os dois modelos. Dois: o livro eletrônico, infelizmente, não aumentou o mercado, ele não permitiu o acesso a outros públicos; é substituição. Três: é uma mudança da nossa profissão que nos obriga a acolher novas competências, a modificar nossa organização para a fabricação ou o marketing, mas que não muda em nada na nossa base, que é ter o talento de encontrar os textos, de prepará-los e de vendê-los. É o que justifica a assinatura de apoio de mil autores na capa do New York Times do ano passado. Quatro: o livro eletrônico não degrada a economia dos editores e, quando olhamos as contas de Simon & Schuster ou HarperCollins, se vê que eles não sofreram tanto assim. Cinco: o livro eletrônico permite, graças a um aumento da margem de lucro deles, de manter a remuneração dos autores, contrariamente ao que se passou na música no qual o sistema de assinatura baixou o valor repassado aos artistas. É essencial que os autores ganhem tão bem no eletrônico quanto no impresso.

Como se explica o fato de o livro eletrônico não encontrar o mesmo sucesso fora do mundo de língua inglesa?

Nos EUA e na Grã-Bretanha, os grandes operadores tiveram a opção de quebrar os preços, o eletrônico se impôs durante um tempo, tornando-se atraente. Isso não foi possível em nenhum país da Europa Continental, por questões de regulamentação [preço único] ou contratuais [contrato de agente]. Finalmente, quando não há uma vantagem de preço interessante, o livro eletrônico fica menos atraente ao consumidor. Um livro em papel é facilmente transportável e não quebra. Na França, o livro eletrônico continuará a crescer, mas lentamente, e seu índice de penetração será sensivelmente inferior ao previsto no mundo de língua inglesa, pelo menos com a tecnologia constante que se tem, já que a pesquisa continua por todos os lados e é bem possível acontecer uma nova ruptura tecnológica.

Isso poderá alterar a estratégia de vocês?

Não. Na França, eu esperava que o livro eletrônico atingisse entre 12 e 15 % do mercado editorial. No ritmo em que estamos, vai demorar mais alguns anos, mas isso não nos incomoda. Temos atualmente um ecosistema que funciona. Aliás, é por isso que eu me posicionei contra os serviços de subscrição de e-books, mesmo se no caso da música elas continuem a ganhar terreno. No caso do livro, criar ofertas de assinatura com um preço mensal inferior ao do livro é um absurdo. Para o consumidor, não faz sentido. As pessoas que lêem dois ou três livros por mês representam uma ínfima minoria. E para descobri-los existem as livrarias. Sei que tenho um ar de dinossauro dizendo isso, mas eu assumo. Meus colegas da Penguin Random House dizem a mesma coisa.

O senhor acredita que a modificação nas regras europeias sobre o setor eletrônico seja um objetivo alcançável?

Eu não quero renunciar a isso. Os ministros de quatro países europeus se pronunciaram juntos no dia 19 de março. É preciso dar uma chance para o bom senso prevalecer.

A tentativa da Comissão Europeia de questionar os direitos autorais o inquietou?

E muito! Esta nova comissão colocou como prioritária a harmonização dos direitos autorais. Não se deixe enganar: aqui harmonização significa enfraquecimento. Senão, começaria por uma análise aprofundada das situações de diferentes países para fazer sair as vantages e as desvantages da situação atual e ver quais as modificações realmente necessárias. E não houve, nesse caso, nem um começo de discussão. Uma coisa é certa: os lobbys acontecem em Bruxelas há anos para pedir um enfraquecimento dos direitos autorais. Eles conseguiram até repassar o relatório sobre o assunto a única deputada que representa o partido pirata! É preciso então continuar a batalhar e isso nos tomará um certo tempo. Nos EUA, a medida do fair use, solicitada no relatório Reda, permitiu ao Google scanear nossos livros sem autorização! A Europa quer mesmo fazer o mesmo? As indústrias culturais europeias existem porque nós temos um direito autoral sólido. Não é uma abordagem tecnocrática que pagará: precisamos fazer barulho.

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[1] O contrato do agente permite ao editor organizar a comercialização dos seus títulos com o revendedor sob forma de uma licença de exploração pela qual ele conserva a decisão dos seus preços públicos.

[2] Associação para o desenvolvimento da livraria de criação [Adelc], por meio da qual editores e poder público apoiam os donos de livrarias, geralmente sob a forma de empréstimos sem juros e participação no capital.

 Por Fabrice Piault | ©Livres Hebdo 2015 | Tradução Nara Anchises | Publicado em português em PublishNews | 07/04/2015 |

Feira de livros de Frankfurt celebra o digital


Editores mudam foco de tecnologia para o enredo das histórias

FRANKFURT | O livro do futuro poderá ser financiado por crowdfunding, ser publicado pelo próprio autor ou estar vinculado a um videogame — o leitor poderá inclusive votar numa virada do enredo. Seja como for, há uma grande chance de que ele será lido em sua versão impressa.

A tônica da versão deste ano da Feira de Livros de Frankfurt, a maior feira editorial do mundo, foi a busca por novos modelos de negócios para um setor que vem sendo confrontado pela digitalização de livros e pelo aumento da supremacia da Amazon.com. À proporção que os hábitos de leitura mudam e os e-books tomam o lugar central do palco, o apetite por boas narrativas ficcionais está mais forte do que nunca.

O controverso serviço de assinatura de e-books da Amazon, em que o cliente paga uma mensalidade para ter direito a acessar livros – ANDY CHEN / NYT

A Verlag Friedrich Oetinger GmbH, uma editora de livros infantis que vende a série “Hunger Games” na Alemanha, é um exemplo. Ao mesmo tempo em que investe pesadamente em produtos digitais, chegando mesmo a criar sua própria unidade de codificação, o diretor-executivo Till Weitendorf não está dando as costas ao setor impresso.

— Não importa se você tem um livro ou um iPad nas mãos — disse ele em entrevista no estande de sua editora na feira, encerrada no último domingo. — Você precisa de uma grande história. Isso não mudou; foi o mundo em volta que mudou.

À medida que a leitura das pessoas evolui, também evolui a forma como as histórias são contadas. Nos Estados Unidos e no Reino Unido, 45% dos leitores já leram pelo menos parte de um e-book em seus smartphones, segundo uma pesquisa realizada pela Publishing Technology.

PROJETOS PROMISSORES

Novas tecnologias são apenas parte do quadro geral. Kladde Buchverlag, uma startup com sede Freiburg, na Alemanha, recorre ao crowdfunding para financiar a publicação de seus livros, oferecendo designs de alta qualidade, papéis de luxo e assessoria profissional para autores que querem editar seus próprios livros.

Ela pré-seleciona projetos promissores e usuários de internet decidem quais livros serão publicados por meio de suas doações. Os doadores generosos podem até ganhar o direito de opinar na forma como a trama se desenrola ou sobre o destino de uma personagem, disse Lea Nowak, uma das fundadoras da companhia.

Britta Friedrich, diretora de eventos e programas da Feira de Frankfurt, afirmou que após anos correndo atrás da mais recente novidade tecnológica — de CDs a e-readers e tablets — o setor agora está focando em como explorar essas inovações.

— Os editores veem que não é preciso pular em cada novo vagão — disse ela. — Editores precisam pensar não apenas em novos equipamentos, mas igualmente em novas formas de contar histórias.

Pela primeira vez, disse ela, representantes de companhias de game, tais como Ubisoft Entertainment, estiveram presentes na feira em busca de parceiros. E a tendência já está decolando. “Endgame”, um livro do escritor americano James Frey, está sendo transformado em um game de realidade aumentada pelo Niantic Labs, do Google.

PLATAFORMA DE E-BOOKS

Enquanto publica a tradução alemã de “Endgame”, Oetinger está também tentando aliviar a passagem da leitura offline para on-line com o Tigercreate, uma plataforma para transformar livros ilustrados para crianças em e-books animados e interativos. O processo usado exige uma programação cara para cada novo livro e dispositivo, segundo Weitendorf. Cerca de 40 editores já se alinharam para usar a plataforma, disse ele.

O próximo passo é um serviço de assinatura mediante o qual as crianças poderão acessar os livros, disse Weitendorf, em meio à tentativa da Oetinger de criar um nicho de produto num mercado dominado pela Amazon.

A varejista on-line americana, qua ajudou a criar o mercado de e-book com o lançamento do seu leitor Kindle em 2007, lançou seu serviço de assinatura de e-book, o Kindle Unlimited, na Alemanha um dia antes da abertura da Feira de Frankfurt. Nos Estados Unidos, ela oferece acesso a mais de 700 mil títulos por US$ 9,99 por mês.

MODELOS DE ASSINATURA

A investida da Amazon no mercado de assinatura tornou-a alvo de críticas na feira deste ano, à medida que os autores questionaram o poder da companhia americana sobre lançamentos e preços, ao passo que os editores mostraram uma visão mais otimista.

Harper Collins, da News Corp., é uma das editoras que já colocou parte de seu catálogo disponível para assinatura digital.

— Cerca de 80% dos editores com quem falamos foram positivos — disse Len Vlahos, diretor-executivo do Book Industry Study Group. — Eles dizem que as assinaturas abriram novos mercados para eles, deram a eles nova alavancagem para seus conteúdos e acima de tudo, deram a eles dados muitos valiosos.

AMAZON DIVIDE SETOR

O domínio da Amazon foi demonstrado mais cedo este anos, em meio à disputa com a Hachette Book Group sobre os preços de e-book. Isso levou a Amazon a vetar livros e impedir pré-encomendas, atrasando a entrega e reduzindo descontos. Escritores nos Estados Unidos e na Alemanha fizeram cartas públicas protestando contra a companhia americana.

— A um risco nisso para a Amazon, à medida que as pessoas começaram a pensar: “qual é o meu valor como consumidor?” — disse Michael Norris, um consultor do setor. — Isto pode abrir um ângulo de oportunidade de concorrência.

Por outro lado, a tendência de oferecer acesso do tipo Nerflix a centenas de milhares de livros por um preço baixo cai muito bem com a publicação pelo próprio autor. A maioria dos títulos disponíveis do tipo Amazon Unlimited são do gênero ficção, de histórias policiais a romances de ficção científica.

E, embora analistas estejam descrentes com milhares de livros sendo lançados on-line a cada dia, os autores que estão publicando seus próprios livros discordam.

Nika Lubitsch, cujo romance policial “The 7th Day” [“O sétimo dia”] superou “Cinquenta tons de cinza” do topo da lista dos mais vendidos da Amazon alemã, afirmou que vender on-line permitiu a ela ganhar mais e se conectar melhor com seus leitores.

Ela vendou 470 mil exemplares de seu e-book desde que começou a usar a plataforma on-line da Amazon há dois anos. A companhia americana paga aos autores de 35% a 70% do preço de venda, consideravelmente mais do que os autores recebem tradicionalmente das editoras.

Por Bloomberg News | Publicado originalmente em O Globo | 13/10/2014 19:45

Amazon pressiona para novos termos no Reino Unido


Editoras do Reino Unido estão preocupadas com os novos arranjos contratuais da Amazon. A varejista tem pressionado para melhorar os termos de uma série de editoras ao mesmo tempo em que o impasse com a Hachette Book Group continua nos EUA. Além de descontos maiores, a Amazon introduziu uma série de novas cláusulas nos contratos com as editoras, uma delas em especial tem tirado o sono dos editores britânicos: a Amazon passaria a ter o direito de suprir suas próprias cópias para os clientes, por meio de suas instalações de impressão por demanda, em caso de livros esgotados ou fora dos estoques das editoras.

Por Benedicte Page | The Bookseller | 24/06/2014

Editora francesa Hachette revela o peso da Amazon na venda dos seus eBooks


Grupo está em disputa com a gigante americana do varejo sobre margens de lucro

Livros da filial do grupo francês nos Estados Unidos aparecem como indisponíveis no site da varejista | Karen Bleier/AFP/9-12-2010

Livros da filial do grupo francês nos Estados Unidos aparecem como indisponíveis no site da varejista | Karen Bleier/AFP/9-12-2010

RIO – O grupo francês Hachette revelou, pela primeira vez, o peso da Amazon na venda de seus e-books nos Estados Unidos e no Reino Unido: 60% e 78% do total, respectivamente. O número foi divulgado no site da companhia numa apresentação para investidores e mostrou como as contas da editora estão sendo afetadas pela disputa com a gigante americana do varejo. Há um mês, a Amazon retirou o botão “encomendar por antecipação com um só clique” dos livros do Hachette Book Group [a filial americana do grupo] e ainda impôs prazos de entrega de “três a cinco semanas” na venda de seus livros eletrônicos.

A medida, chamada de “opção nuclear”, foi uma resposta da Amazon pela Hachette — a menor das cinco grandes editoras americanas — não ter aceitado diminuir suas margens de lucro em favor da gigante do varejo online. O mesmo já tinha acontecido com a Macmillan em 2010. Pouco se sabe sobre os termos da negociação, mas é notório que a Amazon pegou pesado. A retaliação atinge best-sellers, como a escritora J.K. Rowling, cujo último livro, “The Silkworm” [“O bicho da seda”, em tradução livre], começará a ser vendido no dia 19 pela Hachette.

Segundo analistas, a situação do grupo francês pode ficar ainda mais delicada se as restrições impostas pela Amazon no mercado americano forem estendidas ao britânico. Em comunicado, a empresa apontou que o equilíbrio entre as vendas de livros virtuais devem representar entre 25% e 35% das vendas totais nos Estados Unidos e 35% no Reino Unido em 2017. “Editoras estão agora lidando com gigantes da tecnologia que possuem considerável poder de barganha”, diz o texto, “uma lógica econômica diferente dos revendedores tradicionais”. E complementa: “As editoras precisam de tamanho e musculatura para manter controle das relações com os autores e sobre preços e distribuição”.

No comunicado, a Hachette também se mostrou confiante que as editoras tradicionais permanecerão mais atrativas para os autores por causa dos “serviços exclusivos” que podem oferecer, como adiantamentos, expertise editorial e marketing e deu o exemplo de autores que começaram na auto-publicação e depois migraram para grandes grupos.

O Globo | 13/06/2014

Amazon e Apple dão desconto nos EUA


Apple e outras cinco editoras foram processadas pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos sob a alegação de terem conspirado para aumentar o preço dos e-books

Rio de Janeiro | A Amazon e a Apple anunciaram que compradores de e-books receberão créditos para compras futuras de livros. A ação é fruto de um acordo assinado entre três grandes editoras para solucionar um processo de fixação de preços.

Consumidores de e-books Kindle receberão descontos que variam entre US$ 0,30 e US$ 1,32 por livro, segundo estimativas da Amazon. A Apple ainda não especificou os valores.

Segundo a CNN, em abril, a Apple e outras cinco editoras foram processadas pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos sob a alegação de terem conspirado para aumentar o preço dos e-books.

Três das editoras – Hachette Book Group, CBS Simon & Schuster e News Corp ‘s HarperCollins – firmaram um acordo para devolverem US$ 69 milhões aos consumidores afetados.

O ressarcimento é válido para quem comprou os livros eletrônicos entre 1 de abril e 21 de maio de 2012 e não será necessário solicitar os créditos, que serão utilizados automaticamente em compras posteriores.

Os clientes da Amazon também poderão usar os descontos para livros impressos.

Por Leticia Muniz | Publicado originalmente e clipado de Exame | 15/10/2012