O livro digital no Prêmio Jabuti


Por Antonio Hermida | Publicado original em Colofão | 17/06/2015

Na mais recente edição do Prêmio Jabuti, – a de número 57 –, a CBL “acrescentou”, em caráter experimental, livros digitais ao concurso. Com muitos “poréns” [e sem premiação], entusiastas, editores e autores ficaram, com alguma razão, desapontados.

Choveram críticas – como se pode ver nesta discussão no AED – à instituição e à maneira como se deu essa entrada inglória dos digitais. Todavia, uma coisa precisa ser dita: a iniciativa é válida e, mais do que isso, é valiosa.

Problemas vários, das categorias às impossibilidades técnicas e legais [para as quais a maioria das pessoas com quem falei não atentou], inviabilizaram os e-books de concorrerem ao Jabuti.
Deixarei meus dois tostões sobre isso abaixo, mas já adianto minha conclusão aproveitando a semana de spoilers por causa de GoT: bem, minha conclusão é que houve boa vontade e, quem sabe, até empolgação, em querer incluir os digitais, mas obviamente não se pensou o suficiente em como fazer isso de maneira realmente inclusiva.

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Categorias

Comecemos falando das categorias. Quais são elas? Eu mesmo respondo: a lista completa pode ser vista neste link. Se observarmos, as únicas categorias que não dizem respeito diretamente ao conteúdo são Projeto gráfico e Capa. As capas dos e-books, no geral, são adaptações [recortes ou reorganização de elementos] de suas versões impressas, mas o projeto gráfico, não. Bem, ao menos não deveria ser. Reparem no segundo exemplo [Luto e Melancolia] deste artigo que escrevi para o blog da Cosac Naify.

Caso o livro inscrito possua uma versão digital e a editora opte por assinalar a mesma, esta deveria concorrer numa subcategoria de Projeto gráfico, algo como: Adaptação de projeto gráfico para o digital.

[Outros exemplos de adaptação de projeto gráfico neste e neste link.]

Aonde estou querendo chegar com isso? Bem, com esse tipo de categorização não excluímos o que todas as outras categorias do prêmio têm em comum: o diálogo com o conteúdo e com o todo. E por que isso é importante? Porque já passou o tempo em que víamos o digital como um inimigo, como algo à parte, certo?

Se é para incluir, façamos uma inclusão de verdade, afinal, se todos os livros avaliados exigem atenção e preparo dos jurados, por que o julgamento do digital deve se limitar em clicar em músicas, vídeos e animações, que é como a coisa posta, no final das contas? A maioria dos livros digitais publicados não possui nada disso, enquanto muitos dos livros concorrentes ao prêmio possuem versão digital.

DRM e distribuição para júri

Também se falou da problemática relação entre distribuição para avaliação e DRM, devendo a editora fornecer “um arquivo livre de regras de DRM”. Como usuário e entusiasta de software livre acho que minha posição pessoal em relação aos DRMs é bastante clara. No entanto, como profissional, preciso respeitar contratos e posso afirmar que 99% dos contratos estrangeiros com que já me deparei são bem claros com relação a isso: o arquivo não pode ser distribuído sem proteção. Nem para imprensa, nem para jurados, nem para o dono da editora e nem para o autor. Então, a menos que os detentores dos direitos liberem por escrito ou adendo o uso e, em contrapartida, a outra parte assine um termo, a solução é perguntar aos jurados em que plataforma eles preferem acessar os e-books. Depois, entrar em contato com as editoras e solicitar promocodes [ou algo equivalente] da plataforma em questão [no Google Play Livros, por exemplo, acrescenta-se o usuário como revisor de conteúdo] para, através desses canais, liberar o acesso.

Outro problema em relação ao DRM é que em praticamente todas as lojas o e-book passa a ser interpretado de diferentes maneiras após a aplicação dele. Isso se dá porque cada aplicativo renderiza e adapta à sua própria maneira o código fonte do e-book [que deve ser pensado como uma equação que vá funcionar mais ou menos igual para todos]. Logo, o e-book sem DRM não representa o e-book entregue ao leitor.

[Para saber mais sobre DRM, leia este artigo]

3.19 INFANTIL DIGITAL

Caso não tenham lido o regulamento, fiz uma cópia do PDF neste link. Pulem diretamente para 3.19 INFANTIL DIGITAL e sigam lendo até a 3.19.1.5. Minha leitura do trecho foi: “gentileza não enviar nada desse tipo para a gente”.

O problema já começa no 1º parágrafo, onde esbarramos em Ficha catalográfica. Para começar, o modelo de ficha digital [2012] proposto pela CBL já chegou um pouco atrasado [3 anos atrasado, para ser mais exato].

Fato 1: em 2012 a maioria das médias e grandes editoras já havia começado a converter seu catálogo e, na ausência de regulamentação, informação e possibilidade, elas já haviam também estabelecido seu fluxo de trabalho sem levar isso em conta.

Fato 2: o primeiro modelo de ficha catalográfica proposto pela CBL não fazia o menor sentido, técnica e semanticamente falando.

Fato 3: Eu mesmo liguei para lá algumas vezes entre 2009 e 2012 e ninguém sabia responder às minhas perguntas. A “pessoa que entende disso” nunca estava lá ou retornou minhas ligações. Assim fica difícil cobrar, né?

Fora tudo isso [fatos que se limitam a um item, composto apenas por duas palavras localizadas no primeiro parágrafo], a regra que diz que apenas livros infantis que “Possuam conteúdo textual integrado a elementos multimídia, interativos e hipertextuais” podem participar exclui trabalhos maravilhosos, como o da Intrínseca com os e-books do Gaspari [veja aqui] e e-books infantis de layout-fixo sem animação que são bem bonitos.

E-books interativos deveriam entrar em uma categoria à parte? Com certeza, mas só infantis deveriam entrar nessa categoria? Acho que não, eim. Apenas um palpite.

Em vez de termos restritivos e confusos, e a reiteração de “tudo que vai dar errado e desclassificar o livro porque alguma coisa acontecerá no caminho e nos impedirá de abrir esse arquivo”, o regulamento deveria ser minimamente claro para o concorrente sobre como ele deve enviar o livro e que quesitos serão, de fato, avaliados, como é feito em qualquer concurso de qualquer tipo.

A conclusão está supracitada, mas complementando, nenhum desses tropeções invalida a tentativa da CBL. Trata-se de um órgão importante traçando um caminho inédito, talvez sem volta; não há discussão quanto a isso, a meu ver. Não fosse esse um passo ousado, não teria gerado a expectativa que gerou.

Como tentei mostrar, não é tão simples quanto parece querer acrescentar e-books num concurso como o Jabuti. Esbarra-se num monte de questões que demandam tempo, planejamento, testes e simulações. A CBL tem 1 ano para ponderar sobre esses tropeções e superá-los se decidir bancar o posicionamento e levar isso adiante.
De minha parte, torço para que o faça e espero ter colaborado de alguma forma.

PS. Seria interessante colocar uma categoria de Qualidade técnica com avaliação de código. Já pensei nos quesitos de avaliação e até numa maneira de viabilizar isso sem infringir contratos. Mas acho que isso pode esperar para o de 2017, se me deixar falando disso, o texto não acaba…

Por Antonio Hermida | Publicado original em Colofão | 17/06/2015

Antonio Hermida

Antonio Hermida

Antonio Hermida cursou Análise de Sistemas [UNESA], Letras – Português-Latim [UFF] e Letras – Português-Literaturas [UFF]. Começou a trabalhar com e-books em 2009, na editora Zahar e, em 2011, passou a atuar como Gerente de Produção para Livros Digitais na Simplíssimo Livros, onde também ministrava cursos [Produzindo E-Books com Software Livre] e prestava consultorias para criação de departamentos digitais em editoras e agências.
Atualmente, coordena o departamento de Mídias Digitais da editora Cosac Naify e escreve mensalmente para o blog da editora.

Entre outras coisas, é entusiasta de Open Source e tem Kurt Vonnegut como guru.

Questões comuns na formatação dos eBooks


Semana passada li no The Digital Reader um artigo que, por sua vez, comenta um texto publicado no Science Blog, no qual o leitor Martin Rindkvist compartilha uma experiência frustrante com leitura de e-books no app Google Play Livros. Rindkvist relata que diversos caracteres desapareceram nas versões digitais de dois de seus livros e associa essa omissão a um defeito do app do Google.

Já Nate Hoffelder, do The Digital Reader, supõe que é possível que seja um bug causado pelo conflito da linguagem do usuário com a linguagem do e-book. Eu pessoalmente apostaria em erros de fonte embutida com problemas de mapeamento, causando desaparecimento de caracteres quando a opção de fonte da editora está marcada.

Suposições à parte, acho que a maioria das pessoas que consomem livros digitais já se depararam com problemas de formatação de e-books. Apesar da necessidade de conhecimentos técnicos para identificar causa e solução, não é preciso ser nenhum especialista para percebê-los.

Com esta afirmativa em mente, pensei em expor brevemente alguns problemas muito comuns em conversões de livros digitais, os quais geralmente podem ser evitados através do processo de revisão de e-books ou no processo de diagramação dos livros impressos.

1. Hifenização

No processo de produção do livro muitas vezes colocamos hífens em palavras que coincidem com quebra de linhas. Esse hífens, que fazem total sentido na diagramação de um livro impresso, não são necessários no livro digital, uma vez que e-books têm quebra fluida de linha e/ou hifenização automática.

Se você acha esse erro irritante, deve ficar ainda mais incomodado quando, além de hifenização indevida, a hifenização que de fato é necessária não está sendo respeitada no livro. Pois é, acontece. E é irritante. Agora, por que acontece?

Isso geralmente acontece porque o sistema de conversão quer retirar os hífens desnecessários e acaba retirando os necessários. Esses erros podem ser evitados de acordo com os recursos utilizados na diagramação do livro, mas nem sempre o arquivo-base está perfeitinho do jeito que gostaríamos.

2. Espaços

Assim como a hifenização, temos erros de espaços entre palavras, tanto pela ausência quanto pela presença. A ideia é a mesma, surgem espaços onde não há necessidade, geralmente pela utilização de ligaduras ou apóstrofes.

Na eliminação de espaço entre palavras, isso ocorre porque muitas vezes estes espaços não são diagramados com uma “barra de espaço”, e esta outra formatação para o espaço não é respeitada na conversão de formatos. Ocorre às vezes desses espaços aparecerem como uma interrogação ou um quadrado no ADE antigo e no LEV.

3. Caracteres

Fontes são problemáticas, gente! São lindas e ajudam no projeto gráfico do seu livro, mas podem dar muita dor de cabeça. Os problemas geralmente são desaparecimento ou troca de caracteres e possuem a mesma origem: arquivo mal mapeado. É possível ajeitar através do FontForge, fico devendo novamente um tutorial.

4. Quebra de linha

Por fim, muitas vezes na diagramação do impresso é utilizada uma quebra de linha no meio de um parágrafo para ajeitar os espaçamentos de palavras. Esses espaçamentos são interpretados no código do e-book como tags <br /> que quebram a fluidez do texto.

Conclusão

Bom, esses erros são extremamente comuns, portanto, não se desespere se encontrá-los em seu livro. Todos eles têm solução, mais ou menos trabalhosas. Algumas já foram abordadas aqui mais minuciosamente, e outras, de maneira mais genérica. A dica que dou é: prepare bem seu arquivo antes da exportação do e-book, seja no InDesign ou no LibreOffice. E nunca elimine de sua rotina de produção uma avaliação de qualidade do produto final, pois é nela que aparecerão erros que a produção e a revisão podem ter deixado passar.

Por Lúcia Reis | Publicado originalmente em Colofão | 15 de abril de 2015

Lúcia Reis é formada em Letras: Português/Literaturas, pela Universidade Federal Fluminense, trabalha com livros digitais desde 2011 e hoje atua como Coordenadora de Livros Digitais na editora Rocco. Como todo bom leitor compulsivo, tem mais livros do que a prateleira comporta, e possui muitos mais em sua biblioteca virtual! Lê e-books todo dia no trajeto para casa, ao som de sua banda favorita, Thin Lizzy.