Oito questões sobre as bibliotecas digitais


Joana Monteleone, da Alameda Editorial, analisa o fenômeno que tem dado o tom do mercado editorial nesse momento

A mais recente tendência do mercado de livros eletrônicos, tanto no exterior  quanto no Brasil, é a busca de composição de acervos de bibliotecas digitais. A principal diferença em relação ao modelo de livrarias é que passamos da figura do consumidor de livros para a do usuário de bibliotecas.

Essa diferença não é irrelevante. Provavelmente, os dois modelos conviverão. Mas para que ambos deem certo, é preciso pensá-los em suas especificidades.

No Brasil, há pelo menos três projetos privados significativos em andamento. Todos focam, essencialmente, possíveis compras do poder público, mas também estão em busca do usuário individual, em e-readers, tablets e telefones celulares. São eles o da Nuvem de Livros, da Gol Mobile [em operação]; o Biblioteca Xeriph, ligado ao grupo Abril [em lançamento]; e o Árvore de Livros, representado por Galeno Amorim, ex-presidente da Fundação Biblioteca Nacional [em gestação].

Listamos abaixo oito questões que consideramos relevantes para pensar as bibliotecas digitais.

1. Biblioteca digital não substitui biblioteca física. Ambas são experiências importantes, mas complementares. O Ministério da Educação, que tem a missão de conduzir o cumprimento da Lei da Biblioteca Escolar [12.240/10], sancionada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a gestão de Fernando Haddad como ministro da Educação, não pode abusar do artigo 2º, que permite o uso de vários suportes, para ignorar o fato de que escola sem biblioteca física operando é escola ruim. O grande desafio de melhorar a educação nacional passa por não fingir que gadgets eletrônicos são uma espécie de emplastro Brás Cubas, que tudo cura.

2. Quando o consumidor ou o governo compra um livro, ele adquire um conteúdo específico, unitário. Quando o assunto é biblioteca, busca-se um acervo. Uma livraria vive muito dos livros da estação, que todos querem ler; uma biblioteca é útil quando sua coleção é representativa, seja pela especificidade, seja pela variedade. Uma livraria não deve ignorar a bibliodiversidade [muitos autores, editores, públicos e coleções diferentes], se quer manter um público cativo; uma biblioteca simplesmente não pode.

3. Os editores independentes, boa parte deles reunidos na Libre, mas não apenas, representam o maior e mais diversificado acervo de livros comprados pelas melhores bibliotecas públicas e privadas. Qualquer modelo de livraria digital sério tem de reconhecer este valor, dialogar com esses editores e remunerá-los pela qualidade e importância de seus catálogos. Quem privilegiar apenas os grandes grupos se parecerá com um catálogo de best-sellers, não com uma biblioteca.

4. Livraria não é mídia, é ponto de venda. Biblioteca não é ponto de venda, é espaço de consulta e estudo, muito mais do que de lazer. E isso é bom. Biblioteca que seguir a lógica de ponto de venda não vai funcionar, assim como crescem rápido, mas paradoxalmente afundam, sobretudo culturalmente, mas também do ponto de vista de sustentabilidade econômica, livrarias que vendem espaços como se fossem outdoor.

5. Remunerar bem apenas quem é mais acessado é reproduzir na biblioteca a lógica da livraria que vende espaço de mídia. Ou seja, o pior dos mundos.

6. Um dos motivos do fracasso relativo da biblioteca pública como instituição nacional, amplamente difundida no território do país, é que muitos políticos as entendem como depósito de livros, e o usuário é visto primeiro como potencial ladrão de exemplares do que como alguém que acessa o serviço público. O mínimo que se espera do universo eletrônico é que ele proporcione conforto ao usuário, e excesso de restrições não vai ajudar as bibliotecas digitais a se popularizar.

7. Numa biblioteca digital, o usuário não pode ter as mesmas restrições que numa biblioteca física, como pegar fila para acessar um livro ou ter pouco tempo para ler uma obra. Aliás, o ideal é que nesse novo mundo, o tempo não seja uma questão.

8. A prestação de contas aos fornecedores e usuários tem de ser, ao mesmo tempo, a mais simples e detalhada possível. As bibliotecas são, tradicionalmente, um espaço de questionamento e transparência. Criar uma relação de confiança entre todos os envolvidos é fundamental.

Por Joana Monteleone | PublishNews | 21/02/2014 | Joana Monteleone, historiadora, é editora da Alameda.

Nuvem de Livros expandirá biblioteca virtual à América Latina


A biblioteca virtual Nuvem de Livros ganhará sua versão em espanhol em meados de 2014 no México, na Colômbia, no Peru e no Chile, anunciou nesta sexta-feira o fundador e presidente do grupo Gol Mobile, Jonas Suassuna, durante a Campus Party Brasil que finalizou hoje sua sétima edição em São Paulo.

Durante a apresentação da Nuvem na Campus Party, Suassuna delineou o crescimento da plataforma digital para tablets, telefones celulares e computadores que pretende chegar com baixo custo e literatura e ciência às crianças das escolas públicas e privadas.

A qualificação profissional é um dos requisitos do mundo atual. Estamos no caminho do crescimento tanto no Brasil como em outros países da América Latina e o conhecimento é o caminho para entrar no mundo de melhores empregos e melhor qualidade de vida“, disse Suassuna.

O Grupo Gol, proprietário da Nuvem de Livros, desembarcará nos quatro países latino-americanos com mais de 3.000 títulos e o arquivo da Biblioteca Miguel de Cervantes, no marco de um acordo já em funcionamento na Espanha com a empresa Telefônica.

No Brasil, a plataforma que atua em telefones da operadora Vivo, pretende preencher o vazio da falta de bibliotecas nas escolas públicas e outorgar uma plataforma de nuvem, sem downloads, para leitores em geral.

A Nuvem de Livros tem também o conteúdo informativo da Agência Efe.

Agência EFE | 01/02/2014, às17h31

Contec fala sobre educação e tecnologia na Bienal do Rio


Evento aconteceu na última sexta-feira, 30/08

Aconteceu na última sexta-feira [30/8], durante a XVI Bienal do Livro do Rio de Janeiro, a segunda edição da Contec Brasil, a Conferência sobre Educação e Tecnologia da Feira do Livro de Frankfurt, que teve como proposta discutir as novas formas de se ensinar proporcionadas pelas novas tecnologias, como redes sociais, bibliotecas digitais, smartphones e livre acesso à informação.

A primeira palestra da conferência foi ministrada por Carlos Spezia, da UNESCO, com o apoio da LitCam. A mensagem de Spezia enfatizou que 60% das residências brasileiras não possuem acesso à internet, portanto os professores devem pensar em usar tecnologias que não excluam essa parcela da população do processo de aprendizagem.

Em seguida, vários palestrantes mostraram como as novas tecnologias estão impactando a educação em escolas e comunidades. Rafael Parente, subsecretário de novas tecnologias educacionais da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, explicou as iniciativas que estão sendo experimentadas pela prefeitura em escolas, que envolvem desde redes sociais e o uso de materiais didáticos interativos, até a própria reorganização da sala de aula e da escola em um novo modelo que personaliza a aprendizagem. Ricardo Prado Schneider, da Mobile Brain, mostrou um aplicativo para dispositivos móveis que auxilia a criação e elaboração de textos, que pode auxiliar os professores a melhorar as habilidades de escrita de seus alunos.

O professor José Luis Poli, da IES2 – Inovação, Educação e Soluções Tecnológicas, apresentou o aplicativo para celulares PALMA [Programa de Alfabetização na Língua Mãe], projetado para auxiliar na alfabetização de jovens e adultos – cerca de 12,9 milhões de pessoas hoje no Brasil são analfabetas segundo o IBGE. Já Roberto Bahiense, diretor da Gol Mobile, explicou como as bibliotecas virtuais podem ajudar a suprir a falta crônica de bibliotecas nas escolas do país.

As editoras universitárias também tiveram seu espaço dentro da Contec. Flavia Costa, Diretora Editorial da Universidad Pedagógica, na Argentina, participou de uma mesa juntamente com Elsa Cristina Robayo, Presidente da Asociacíon de Editoriales Universitarias da Colômbia, e João Carlos Canossa, Editor-Executivo da editora Fiocruz e presidente da Associação Brasileira das Editoras Universitárias. A discussão girou em torno de como as editoras universitárias podem aumentar sua visibilidade dentro de seus países e da América Latina. Os componentes da mesa elogiaram a profissionalização das editoras, mas se perguntaram como elas podem concorrer com as editoras comerciais sem deixar de lado a qualidade de seu conteúdo. A resposta, segundo os participantes, é que os livros precisam ser editados para que possam ser relevantes para o público geral, e não somente para o meio acadêmico.

A conferência também contou com a presença de Michael Healy, diretor executivo responsável pelas relações entre autores e editoras do Copyright Clearance Center. Ele focou sua apresentação em uma pergunta fundamental: por que os direitos autorais são importantes? Para ele, os direitos autorais incentivam a inovação, protegem os inovadores, e encorajam um ambiente de competição saudável. Mas, apesar disso, também podem impedir a livre concorrência e aumentar os preços. Esse aparente paradoxo deve ser estudado cuidadosamente. Healy afirmou que, dentro na nova realidade em que estamos vivendo, as leis de diretos autorais devem ser repensadas a fim de continuar cumprindo seu papel de proteger e incentivar as inovações, mas sem sufocar a criatividade.

Por Matheus Perez | PublishNews | 02/09/2013