Bibliotecas digitais vão democratizar acesso aos livros


Confira um bate-papo com Galeno Amorim, criador do Plano Nacional do Livro e Leitura

Galeno Amorim

Galeno Amorim

Galeno Amorim iniciou-se no jornalismo aos 15 anos. Trabalhou por quase duas décadas no jornal O Estado de São Paulo e acumulou passagens por algumas das principais redes de televisão do país. Nesse período, também foi professor do curso de Jornalismo
em Ribeirão Preto [SP], sua cidade natal. Envolvido desde sempre com projetos de fomento à leitura, ele próprio é autor de 17 livros e já realizou mais de 800 palestras no Brasil e no exterior em que busca estimular o debate sobre políticas públicas voltadas para o livro e a leitura. Além disso, tem seu nome ligado à criação de diversas instituições que lidam diretamente com o tema.

Já presidiu organizações internacionais como o Centro Regional para o Fomento do Livro na América Latina e Caribe [Cerlalc], o único na área do livro e da leitura ligado à Unesco, com sede na Colômbia. Também integrou a equipe do Ministério da Cultura durante o governo Lula, quando, em parceria com o Ministério da Educação, criou o Plano Nacional do Livro e da Leitura [PNLL], e presidiu a Fundação Biblioteca Nacional [FBN]. Nesta entrevista, realizada após a sua palestra Dos tablets de argila aos eBooks: Uma revolução na palma da mão, na UFMG, ele fala de sua infância, do engajamento em projetos relacionados à leitura no Brasil e das bibliotecas digitais, formato que, em sua avaliação, veio para ficar.

O sr. é um profissional engajado em ações que buscam incentivar a leitura. Como esse envolvimento começou?

Começou como leitor. Sempre gostei de ler muito. Fui crescendo e comecei a perceber o papel que o livro pode ter na vida das pessoas. Um papel transformador, enquanto ferramenta poderosa para abrir mentes e promover a cidadania. Quando me dei conta, já estava organizando concursos e projetos de incentivo à leitura. De repente, fui convidado a implantar um programa em minha cidade, por meio do qual foram abertas 80 bibliotecas em três anos, que fizeram aumentar muito o índice de leitura. A partir daí, as coisas foram acontecendo.

Como era a sua relação com a leitura na infância?

Minha mãe era analfabeta e meu pai trabalhava na zona rural. O livro não era algo tão presente em casa. Fui criado por uma família na cidade de Sertãozinho. Eis que uma das filhas dessa família quis ser professora e começou a levar um ou outro livro para casa. Quando ela se casou e mudou de lá, conseguiu montar uma coleção de livros do Monteiro Lobato. Eu viajava quilômetros e quilômetros por dia para poder ler esses livros. Até que um dia descobri uma biblioteca, que abriu um cenário maravilhoso pra mim. Eu não me recordo o nome do primeiro livro que li, mas era uma obra que tratava do cangaço. Era sobre um menino que sonhava ser cangaceiro e, de repente, se dá conta da triste situação do lugar em que morava.

Fale um pouco mais sobre a Árvore de Livros. Como funciona?

A Árvore de Livros é uma biblioteca digital que empresta e-books. É uma espécie de Netflix dos livros. Ela está implantada em mais de 500, quase 600 cidades em todos os estados brasileiros. Nessa plataforma, o leitor pode ler em tablets, smartphones e notebooks mais de 14 mil livros de variados gêneros, exceto didáticos.

É uma oportunidade fantástica de facilitar o acesso à leitura. Uma biblioteca que nunca fecha. Como surgiu a ideia?

Eu passo a vida pensando que existem cerca de 140 mil escolas sem bibliotecas no Brasil. Então, sempre pensei em maneiras de atender às demandas, acreditando que a tecnologia vem para resolver um problema concreto.

O que o bibliotecário precisa fazer para lidar melhor com essas novas plataformas digitais?

Primeiramente, o bibliotecário e o estudante de Biblioteconomia devem se dar a oportunidade de conhecer essa possibilidade de leitura. Hoje, há uma quantidade expressiva de leitores que aderem a esse formato, além de um número significativo de jovens que estão prontos para começar a ler digitalmente. Se o bibliotecário não se apodera dessa ferramenta, ele terá dificuldades em fazer a mediação. Então, o primeiro passo é esse: conhecer, se informar e começar a ler digitalmente.

Na palestra de hoje, o sr. questiona o preparo de nossas escolas e bibliotecas frente à chegada dos livros digitais. Acredita que as nossas instituições de ensino estejam prontas para receber e trabalhar com os e-books?

Na verdade, de certa forma, o mundo ainda não estava preparado para receber os livros digitais. Não se trata apenas das escolas. Ninguém estava preparado. Agora é hora de correr atrás do tempo perdido. E aí eu me refiro às próprias bibliotecas, às universidades, aos gestores, aos governos e a todos os setores.

Como avalia o comportamento dos leitores no Brasil, principalmente os jovens, em relação às novas plataformas de leitura, como os e-readers?

Os jovens adoram quando colocados frente a frente com essas oportunidades de leitura digital. Eles têm uma reação altamente positiva. Eu tenho sentido isso com crianças e adolescentes de diversas classes sociais e regiões do Brasil. É algo que tem feito parte da rotina deles. Gerações que acordam e dormem com smartphones e que são muito aderentes a essas tecnologias.

Uma pesquisa feita recentemente pela Bookwire, especializada em distribuição de e-books, diz que as vendas de livros digitais na América Latina devem saltar de 1% para 10% a 15% do total de livros comercializados até 2020. Como as editoras devem
se comportar frente a essa previsão?

Essa pesquisa confirma uma tendência que nós já podemos observar no dia a dia. O mercado editorial está cada vez mais aberto para o digital. Editoras tradicionais que até um ano atrás não se abriam para o e-book – seja para vender ou emprestar – agora já fazem parte de projetos de empréstimos. Elas estão percebendo que algo está acontecendo. As vendas de livros digitais dessas editoras podem representar apenas 3% ou 4% do faturamento, mas há uma tendência a aumentar. E se elas não se prepararem agora, serão atropeladas pela história.

O sr. acredita que há alguma diferença na incorporação dos e-books por escolas públicas e privadas? Se existe, qual é?

Há escolas particulares com problemas e outras que são formidáveis. Há escolas públicas que estão utilizando maravilhosamente bem e aquelas com dificuldades em aderir. Isso significa que o digital depende muito do papel do mediador de leitura. O bibliotecário tem um papel muito mais nobre nesse processo que começa a acontecer agora.

Do ponto de vista pedagógico, quais as vantagens e desvantagens do uso dos e-books nas escolas brasileiras?

Eu não vejo desvantagens. As vantagens que eu vejo são redução de custos, universalidade do acesso e aumento da quantidade de livros disponíveis.

Quais devem ser as estratégias dos governos para que a leitura seja parte efetiva e importante no projeto pedagógico das escolas?

Os governos precisam apoiar projetos de implantação de bibliotecas digitais nas escolas, que devem ser acompanhados de workshops, seminários e atividades de formação dos educadores e bibliotecários, além de dar suporte às políticas de fomento à leitura, como clubes de leitura digital nas redes sociais.

Uma pesquisa realizada pela Fecomércio RJ, divulgada recentemente, mostrou que 70% dos brasileiros não leram nenhum livro em 2014. O que precisa ser feito para melhorar esse cenário?

Essa é uma das pesquisas. Tem outras. Eu não conheço seus critérios e amostras. Mas posso dizer com propriedade sobre a Retratos da Leitura no Brasil, que eu conheço e cuja metodologia ajudei a desenvolver. Essa pesquisa mostrou que há uma pequena redução do índice de leitura, mas também um aumento da população leitora. Ou seja, tem mais gente lendo, porém, há também outras mídias disputando a atenção dos leitores por meio de outras oportunidades de entretenimento e lazer cultural. Temos que criar novas ações para mudar esse cenário, e as políticas públicas têm muita relevância nisso.

O sr. acredita que os índices de leitura no Brasil estão relacionados à renda da população?

Sim. Estão ligados a dois fatores, na verdade: à escolaridade, principalmente, e à renda. Isso não quer dizer que quem tem mais renda lê mais. Quem tem mais recursos tem também maior acesso a bens culturais, como teatro, televisão com canais pagos e livros. À medida que aumenta a renda e a escolaridade, aumenta o índice de leitura. As possibilidades de acesso a esse universo cultural tornam-se muito mais amplas.

Crê que a tecnologia é capaz de democratizar o acesso à leitura?

Eu acredito que a tecnologia é uma grande oportunidade que a civilização moderna tem para ampliar o acesso à leitura. É uma possibilidade também de diminuir o fosso social e, ao mesmo tempo, promover inclusão tecnológica, contribuindo para o acesso à educação.

Em tempos de vasto fluxo de informações na internet, ainda há espaço para o livro como ferramenta de consulta?

Eu acredito que sim. Mas esse questionamento entre físico e digital não tem a menor relevância. O que importa mesmo é o conteúdo.

CRB-6 Informa | n. 1/2015

Centro Cultural São Paulo passa a emprestar eBooks


O Centro Cultural São Paulo, que possui uma das melhores e mais bem avaliadas bibliotecas públicas do País, agora também empresta eBooks virtualmente. A novidade foi anunciada na quinta-feira, 12 de março, durante as comemorações do Dia do Bibliotecário, e já começou a funcionar imediatamente, com o cadastro dos primeiros usuários que poderão ler os livros digitais em tablets, no computador ou no smartphone, mesmo com a internet desligada. A Biblioteca Digital do CCSP opera com a plataforma da Árvore.

Para celebrar a parceria com a Árvore de Livros, que inclui também ações em conjunto com a Associação Brasileira de Municípios, o Observatório do Livro e da Leitura e a Fundação Palavra Mágica, o CCSP promoveu uma palestra para seus funcionários e usuários da biblioteca, com transmissão online, com Galeno Amorim, ex-presidente da Biblioteca Nacional, que abordou o tema “Dos tabletes de argila aos eBooks, uma revolução na palma da mão”.

Palestra

Nada teve impacto tão grande ou deu tanta contribuição à edificação da civilização quanto os livros. Desde a pré-história até os dias atuais, eles armazenam e transmitem legados, o conhecimento acumulado pelas gerações e os valores de cada época. Dos tabletes de argila de seis mil anos atrás ao pergaminho, do papiro ao papel até os eBooks da atualidade, o que evoluiu mesmo, e de forma espetacular, foi o suporte no qual ele é impresso. Afinal, um livro é, essencialmente, o conteúdo que carrega. O digital começa a deflagrar uma profunda, embora silenciosa, revolução, em especial entre os mais jovens. E chega, enfim, ao Brasil. Mas será que nossas escolas e bibliotecas estão preparadas para isso?!

Esses foram assuntos abordados na quinta-feira [12 de março] por Galeno Amorim, professor, autor de 16 livros – entre os quais, Retratos da Leitura no Brasil – e consultor internacional em políticas públicas do livro e leitura, em palestra no Centro Cultural São Paulo.

Saiba mais sobre Galeno Amorim

Presidiu a Fundação Biblioteca Nacional e o Centro Regional de Fomento ao Livro na América Latina e no Caribe [Cerlalc/Unesco], único organismo internacional dedicado à questão da leitura. Foi o responsável pela criação do Plano Nacional do Livro e Leitura [PNLL], dos ministérios da Cultura e da Educação, e seu primeiro coordenador. Criou e dirigiu inúmeros programas e instituições de fomento à leitura no Brasil. Fundador do Blog do Galeno, especializado na questão da leitura, é presidente da Fundação Observatório do Livro e da Leitura e cofundador da Árvore de Livros.

Notícias do Blog do Galeno | Edição 389 | 13 a 19 de março de 2015

Mais livros na Árvore


Ibep adere à Árvore de Livros

Galeno Amorim, desde o início do ano, tem se dedicado pessoalmente na conquista de novas editoras para a sua biblioteca digital Árvore de Livros. Recentemente, a plataforma recebeu a adesão da Global e agora Galeno avisa que o Ibep também chegou à plataforma. Pelo que apurou o PublishNews, o Ibep – formado pelas editoras Ibep, Conrad, Base e pela lendária Companhia Editora Nacional, fundada por Monteiro Lobato – colocou à disposição da Árvore de Livros vinte títulos. Entre eles, It´s time, de Bruce Buffer; a trilogia Chamas na escuridão, de Sadie Matthews e o best-seller e clássico da auto-ajuda Como fazer amigos e influenciar pessoas, de Dale Carnegie. Além destes, o Ibep está selecionando alguns títulos de paradidáticos. A meta é alcançar 50 títulos na Árvore até o final desse ano.

Por Leonardo Neto | PublishNews | 29/10/2014

Prefeituras do Ceará aderem às bibliotecas digitais


O estado do Ceará já tem pelo menos 19 bibliotecas de acesso público prontas para começar a emprestar eBooks virtualmente, um serviço apontado por especialistas como solução para atrair os leitores mais jovens e estancar o esvaziamento que se verifica nos últimos anos. O estado aparece entre os cinco com maior número de bibliotecas digitais instaladas.

A novidade chegou, este ano, ao Brasil e já está presente em 26 estados brasileiros. No Ceará, existem bibliotecas digitais em 15 municípios, sendo três na capital Fortaleza e duas localizadas em Farias Brito e Itapipoca. Destacam-se ainda as cidades de Aruaru e Paraipaba, seguindo o exemplo do Estado, que ocupam a primeira posição, em número de leitores cadastrados, na Região Nordeste.

Os usuários podem pegar emprestados os livros digitais de qualquer lugar com internet e ler no computador, tablet, e-reader e até no celular, inclusive depois de desconectar [desde que o texto seja mantido na tela]. Para se cadastrar, os interessados devem ir pessoalmente a qualquer uma dessas bibliotecas e já pegar emprestados até três eBooks simultâneos pelo prazo de 15 dias, podendo renovar uma vez.

Por enquanto, estão à disposição dos leitores 1.000 eBooks de autores nacionais e estrangeiros em domínio público, da Coleção de Clássicos da Árvore de Livros, a plataforma de empréstimo digital que está operando nessas cidades. Futuramente, as bibliotecas poderão ampliar seu catálogo e passar a oferecer outros 14 mil títulos, incluindo lançamentos atuais.

A chegada das bibliotecas digitais ao estado do Ceará é o resultado de uma parceria entre a Associação Brasileira de Municípios [ABM], Observatório do Livro e da Leitura, Fundação Palavra Mágica e a Árvore S/A. “Investimentos em tecnologia costumam ser altos e, mesmo assim, rapidamente ficam defasados”, afirma o diretor do Observatório do Livro e da Leitura, Galeno Amorim, ex-presidente da Fundação Biblioteca Nacional.

Segundo ele, a iniciativa deve beneficiar principalmente as pequenas e médias cidades que, em geral, costumam ter dificuldades para aderir e implementar inovações tecnológicas justamente por causa dos custos. Para o presidente da ABM, Eduardo Tadeu Pereira, garantir maior acesso das populações aos livros “é um importante caminho para proporcionar avanços na área da educação e também democratizar o acesso à leitura”.

O acordo prevê também a manutenção da plataforma e o treinamento virtual dos bibliotecários e técnicos das bibliotecas municipais e comunitárias. As prefeituras e bibliotecas interessadas em receber gratuitamente sua biblioteca digital podem entrar em contato pelo e-mail bibliotecas@arvoredelivros.com.br.

Associação Brasileira de Municípios | 21/10/2014

Biblioteca digital passa a ter Cecília Meireles, Cora Coralina e Manuel Bandeira no acervo


Biblioteca digital capitaneada por Galeno Amorim passa a ter Cecília Meireles, Cora Coralina e Manuel Bandeira no seu acervo

Em junho passado, quando recebeu o PublishNews na sua casa da rua Pirapitingui, Luiz Alves Jr., proprietário da Global, falou do seu entusiasmo com a leitura digital. Ele contou na ocasião que tudo o que for publicado pela Nova Aguilar [a visita era para falar sobre a aquisição da Nova Aguilar pela Global] sairá também em digital e disse ainda que estava acompanhando o crescimento de bibliotecas digitais no Brasil. No papo disse: “A ideia de bibliotecas digitais como a Árvore de Livros, no Galeno [Amorim] é fantástica”. Agora, a Árvore de Livros anuncia que fechou com a Global e que parte do catálogo da Global passam a fazer parte do acervo da biblioteca digital. Sempre bem bom lembrar que a Global detém a obra completa de grandes figurões da literatura brasileira como Cecília Meireles, Cora Coralina, Manuel Bandeira e, mais recentemente, Bartolomeu Campos de Queirós. A seleção das obras que vão fazer parte da biblioteca ainda não está fechada.

Por Leonardo Neto | PublishNews | 17/09/2014

Escritor propõe difusão dos eBooks em programas sociais


O escritor e jornalista Galeno Amorim, ex-presidente da Biblioteca Nacional, veio a Curitiba esta semana para apresentar seus projetos de difusão dos livros digitais como instrumentos de políticas públicas para a área de literatura e incentivo à leitura. Nesta quarta-feira [03] esteve em reunião com a secretária municipal de Educação, Roberlayne Roballo, e com o presidente da Fundação Cultural de Curitiba, Marcos Cordiolli. Nesta quinta-feira [04], visitou a sede da Fundação Cultural e a Casa da Leitura Dario Vellozo [Praça Garibaldi].

Galeno Amorim é diretor do Observatório do Livro e da Leitura e considerado um dos maiores especialistas em políticas públicas do livro e leitura da América Latina. Atualmente desenvolve pesquisas no campo da literatura, especialmente analisando o reflexo das atuais tendências de suportes digitais [e-books] na formação de novos leitores. Ele considera Curitiba uma referência nacional em rede pública de bibliotecas e acredita que a cidade está apta a assumir a vanguarda no uso das plataformas digitais.

Amorim observa que as pessoas aceitam cada vez mais o suporte digital, que na sua opinião não é um substituto do livro e das bibliotecas físicas, mas certamente deve ser valorizado e considerado como mais um instrumento de apoio para os mediadores de leitura. “As pessoas estão tendo uma outra concepção sobre essa tecnologia. Um livro é um livro, não importa o suporte”, diz. O pesquisador acredita também que o papel do mediador de leitura continua sendo indispensável e que o contato humano é imprescindível para orientar e incentivar a leitura.

Galeno Amorim foi responsável pela criação do Plano Nacional do Livro e Leitura [PNLL], dos ministérios da Cultura e da Educação. Na ocasião, dirigiu a área do livro e leitura na Fundação Biblioteca Nacional e no Ministério da Cultura. Criou e dirigiu programas como o Fome de Livro [para zerar o número de cidades sem bibliotecas], o Ano Ibero-americano da Leitura [VivaLeitura], a Câmara Setorial, o Prêmio VivaLeitura e a desoneração fiscal do livro, entre outros. Também integrou os conselhos estaduais de leitura dos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro, e foi secretário municipal da Cultura em Ribeirão Preto, onde iniciou sua carreira. É autor de 16 livros, entre ensaios e literatura infanto-juvenil.

Em sua visita a Curitiba, também foi recebido pelo diretor de Patrimônio Cultural da Fundação Cultura, Hugo Tavares, pela coordenadora de Literatura, Mariane Filipak Torres, e pelo coordenador de Ação Cultural Getúlio Guerra.

Bem Paraná | 5/09/2014

Novo modelo, novas formas


Por Gustavo Martins de Almeida | Publicado originalmente em Publishnews | 13/08/2014

Ao se tornar dono de um livro físico, duas circunstâncias decorrem para o leitor, no campo dos fatos, [a] ele estará sempre ao seu dispor para a leitura, e [b] você poderá ler uma página, uma linha, ou todo o livro de uma jornada só. “Irra, mas que talento!” para fazer essas observações dignas do Pacheco [personagem de Eça de Queirós, característico por suas obviedades].

Num segundo plano, o da destinação do preço pago pelo leitor, geralmente 10% vão para o autor e o restante é dividido entre a livraria, distribuidor e editora, que por sua vez paga o papel, impressão, tradutor, revisor, capista, diagramador, etc…

Mudo o canal para o livro digital, mais especificamente o lançamento do Kindle Unlimited, sistema em que o leitor paga US$ 9,99 por mês e lê tudo o que quiser no acervo, por ora disponível somente nos EUA.

Em discussão recente – parabéns ao Galeno Amorim pelo debate transmitido on line sobre livro digital; deve ser repetido com outros temas – foi abordada a remuneração do uso do livro digital, nessa modalidade de serviço que a Amazon lançou.

Surgem então dois conceitos que, no plano digital, justificarão a obviedade do primeiro parágrafo este artigo. As editoras seriam remuneradas [a] pela mera disponibilidade do livro na plataforma digital, para que os leitores possam lê-lo, se e quando quiserem, ou [b] pela efetiva leitura do livro, desde que ao menos um leitor lesse mais que 10% da obra.

A rapidez da evolução tecnológica altera os conceitos e novos critérios vão surgindo em função dos novos hábitos. Os e-readers [aparelhos de leitura] abundam e ficam cada vez mais baratos; as novas gerações leem muito mais na telinha e menos no papel; é muito prático carregar um tablet e ter milhares de livros à disposição, em qualquer lugar, a qualquer hora.

Mas se a ponta da leitura muda, o miolo do setor editorial também se transforma. Essa fase de acomodação de critérios, que se desenrola muito rapidamente, permite acompanhar em ritmo de notícia de jornal a evolução das novas peças na engrenagem do publishing. Quais seriam as mudanças, em termos de remuneração das editoras?

Se prevalecer o critério da disponibilidade, basta o provedor de leitura – no caso o Kindle, mas pode ser qualquer outro – ter um exemplar de cada livro em seu “estoque” ou “livraria”, ou “acervo”, para que seja acessado pelos leitores. Nesse caso, supõe-se, o provedor comprará um exemplar de cada título, de modo que, se disponibilizar 600 mil títulos, por certo terá adquirido 600 mil exemplares. Esse é o critério que poderíamos qualificar, também, de potencial.

O segundo critério, o da leitura efetiva, é um pouco mais complexo. Se o serviço de leitura compra apenas um exemplar de cada título, teoricamente somente um leitor pode ler o livro escolhido de cada vez. Do contrário, o Kindle compra um exemplar daquele título da editora e, eventualmente, mil leitores podem ler o mesmo livro simultaneamente.

Duas soluções intermediárias: [a] a editora estipularia um preço especial de venda – melhor dizendo, de licença de leitura – para os provedores de leitura, ou, [b] haveria uma conjugação de fatores para determinar o preço do livro, [i] o preço fixo pela disponibilidade, mais [ii] o preço variável pelo número de leituras efetivas, pago a cada leitura.

São conjecturas feitas no rebuliço do lançamento do produto, que tende a alterar a equação de remuneração provedor-editoras. Daí surgirão várias indagações e comentários, inclusive a ponderação de que se o cliente nada ler aquele mês, os US$ 9,99 iriam somente para o provedor.

Por ora, a reflexão contribui para se encontrar o melhor modelo de negócio para essa inovação tecnológica, mas ainda perdura o mistério sobre o “missing link”, o contrato que ligará as editoras ao Kindle Unlimited, tudo indica baseado nas licenças. Vamos aguardar.

Só para lembrar que ainda falta lançar luz sobre outros aspectos, temos o critério de remuneração do autor, mas isso fica para outro artigo.

Por Gustavo Martins de Almeida | Publicado originalmente em Publishnews | 13/08/2014

Gustavo Martins de Almeida

Gustavo Martins de Almeida

Gustavo Martins de Almeida é carioca, advogado e professor. Tem mestrado em Direito pela UGF. Atua na área cível e de direito autoral. É também advogado do Sindicato Nacional dos Editores de Livros [SNEL] e conselheiro do MAM-RIO. Seu e-mail é gmapublish@gmail.com.

Na coluna Lente, Gustavo Martins de Almeida vai abordar os reflexos jurídicos das novas formas e hábitos de transmissão de informações e de conhecimento. De forma coloquial, pretende esclarecer o mercado editorial acerca dos direitos que o afetam e expor a repercussão decorrente das sucessivas e relevantes inovações tecnológicas e de comportamento.

Assinatura mensal de eBooks promete mudar relação com livros e elevar tensão com editoras


Amazon inicia serviço que é considerado o ‘Netflix dos livros’

RIO | A Amazon está habituada a lançar serviços destinados a destruir seu próprio negócio, e o Kindle é exemplo disso. Quando apresentou seu leitor de livros digitais, em 2007, a empresa de Jeff Bezos já faturava bilhões vendendo cópias em brochura e capa dura e sabia que os e-books iriam canibalizar parte considerável da receita. Porém, a companhia julgava que era melhor aniquilar seu modelo do que permitir que outra o fizesse. Sete anos após se estabelecer como força hegemônica dos e-books, a Amazon volta a recorrer à destruição criativa nesse mercado, lançando um produto que pode tornar obsoleta a venda avulsa de livros digitais — mas não sem antes aprofundar a já tensa relação com editoras, inclusive no Brasil.

O Kindle Unlimited estreou no fim de semana passado e é uma espécie de Netflix dos livros. O usuário paga US$ 9,99 por mês e pode acessar quantos livros quiser. O preço chamou atenção, já que é comum um único exemplar de e-book custar mais que isso no site. Por enquanto, o serviço só está disponível nos Estados Unidos, mas qualquer cliente que se registre no site como americano pode assiná-lo.

Grandes editoras não aderem

O catálogo tem 600 mil livros, incluindo dois mil em áudio, mas os consumidores sentirão falta de vários best sellers: as cinco maiores editoras dos EUA — que travam uma guerra contra a Amazon e já foram acusadas de formar cartel com a Apple para combater a empresa — não aceitaram participar. Embora não tenham se posicionado oficialmente, elas temem que o modelo dê ainda mais poder à Amazon sobre o preço das obras. A paciência dos investidores pode atrapalhar: as ações caíram 9,6% na sexta-feira, depois de a empresa divulgar prejuízo de US$ 126 milhões por causa do volume de investimentos.

— Será bom para as editoras se serviços de assinatura de e-books vingarem em todo o mundo. Mas será péssimo se a Amazon atingir uma posição quase monopolista, como já tem na venda de e-books nos EUA e no Reino Unido — afirma Dougal Thomson, diretor de comunicação da Associação Internacional dos Editores [IPA, sigla em inglês]. — A relação da Amazon com as editoras é cada vez mais tensa, com algumas disputas públicas sobre remuneração, como com a Hachette nos EUA e a Bonnier na Alemanha. Mas, se as assinaturas derem certo, e eu acho que vão dar, as editoras perceberão que se trata de uma fonte importante de receitas.

Nesta seara, porém, a Amazon não é pioneira. Algumas start-ups já oferecem acesso ilimitado a milhares de e-books. A principal é a americana Oyster, fundada em 2012, que cobra US$ 9,95 por mês e dá acesso a 500 mil obras, inclusive da gigante HarperCollins. A Scribd abrange 400 mil livros por US$ 8,99 ao mês. Mas, com a Amazon entrando na disputa, a coisa ganha outra proporção, avalia Carlo Carrenho, fundador do site PublishNews. A questão é se as editoras verão vantagem financeira em colaborar com a companhia.

A Amazon mantém segredo sobre o modelo de remuneração do Unlimited, mas Thomson diz que ele é semelhante ao do Oyster. Editores receberão valor equivalente à venda de uma cópia no atacado sempre que um leitor ultrapassar certo percentual de páginas de um de seus livros. No Oyster, especula-se que pelo menos 10% da obra devem ser consumidos. Um quarto da receita será repassada aos autores. Títulos independentes devem receber valor fixo, como US$ 2 por livro lido. Para Carrenho, o formato traz mudança importante na economia do setor:

— Hoje, remunera-se o livro comprado, lido ou não. No novo modelo, só gerarão receita aqueles efetivamente lidos. Isso traz grande eficiência ao processo, mas pode provocar perda absurda às editoras.

Indagada sobre quando o Unlimited chegará ao Brasil, a empresa se limita a dizer que o serviço está disponível nos EUA e que não especula sobre planos futuros. No Brasil, as editoras estão cautelosas. Procuradas, várias preferiram não se pronunciar alegando desconhecer detalhes do modelo. Para a presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros [Snel], Sônia Machado Jardim, a Amazon terá que discutir com elas novos contratos para inclusão dos e-books no novo serviço.

— Os contratos assinados em 2012, quando a empresa entrou no Brasil, não contemplam esse formato de assinatura. Não sabemos como será a remuneração. Se o leitor não ler nenhum livro no mês, o valor da assinatura fica todo com a Amazon? A empresa não conversou com o setor sobre isso — observa Sônia, que também é vice-presidente do grupo Record.

Convencer consumidor é desafio

Segundo ela, o maior receio é que a Amazon negocie maiores descontos no valor dos livros para viabilizar o novo modelo. Foram discussões sobre a precificação dos e-books que atrasaram a chegada da loja virtual ao país. Para impedir que a companhia vendesse obras por valor muito inferior ao das cópias em papel, as editoras brigaram e conseguiram ter controle sobre o preço do e-book, com a Amazon recebendo comissão pelas vendas. A Amazon preferia comprar títulos no atacado e vender por quanto quisesse.

Gustavo Stephan

Gustavo Stephan

Sem incentivo. O designer Gustavo Peres usa o leitor digital, mas não está entusiasmado com o novo serviço: “Não terei interesse, não gasto nem US$ 10 por mês com livro eletrônico” – Gustavo Stephan
Embora não tenha conversado com as editoras brasileiras, o Unlimited já possui 8.402 livros em português. Segundo a Amazon, isso acontece porque obras cadastradas no KDP Select — programa de exclusividade da plataforma de autopublicação da empresa — entram automaticamente no serviço. Entre os títulos disponíveis está o best seller “Assassinato de Reputações”, de Romeu Tuma Junior. Procurada, a editora Topbooks disse que não sabia que o livro estava no Unlimited.

Questões comerciais à parte, especialistas afirmam que o formato de assinatura pode se tornar o futuro dos livros. Conseguindo atrair o catálogo de grandes editoras com um modelo atraente, esses serviços elevam a média de leitura dos usuários, afirma Galeno Amorim, diretor-executivo da Árvore de Livros. Criada em abril, a empresa vende acesso ilimitado de e-books a escolas e bibliotecas de 25 cidades, com catálogo de 14 mil obras.

Como poucas pessoas leem mais de um livro por mês, o desafio de serviços como o Unlimited é convencer o consumidor a comprometer um valor mensal com leitura. Na média, o brasileiro lê quatro livros por ano, segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil de 2012. Lorena Piñeiro, de 24 anos, está testando o Unlimited e, mesmo acostumada a devorar três obras por mês, teme não ser capaz de dar conta da oferta:

— É ótimo para conhecer novos autores, já baixei sete livros, mas só continuarei usando se conseguir absorver o que baixo.

Mesmo apaixonado pelo Kindle, o designer Guilherme Peres é menos otimista:

— Não terei interesse nem se chegar ao Brasil porque não gasto US$ 10 por mês com livros eletrônicos.

Para Susanna Florissi, diretora da Câmara Brasileira do Livro [CBL], a evolução para o modelo de assinatura vai tirar o mercado editorial da zona de conforto:

— Mas é apenas um dos modelos que, no futuro, coexistirão. A experiência será cada vez mais fragmentada — avalia.

Por Rennan Setti | Publicado originalmente em O Globo – 27/07/2014, às 9:19

Nova regra de ‘Netflix para livros’ enfurece escritores independentes


O escritor inglês Dave Robinson, 50, é um dos leitores que aderiram a um novo tipo de serviço para consumo de livros digitais que pode revolucionar o mercado.

Ele assinou o Kindle Unlimited, que a varejista on-line Amazon lançou no último dia 18, apenas nos EUA.

O funcionamento é simples: por US$ 9,99 [R$ 22,26] ao mês, o leitor tem acesso a mais de 600 mil títulos. O produto vem sendo chamado de Netflix para livros, em referência ao serviço em que é possível assistir a séries e filmes on-line por um valor mensal.

Para o inglês, a vantagem é a variedade de séries de ficção científica. “Mesmo a quatro dólares por um livro impresso, uma série inteira de oito volumes acaba ficando cara. Por dez dólares eu posso ler tudo e ainda tentar outros“, escreve ele num fórum dedicado a discutir e-books.

A Amazon não revela quantos leitores já fizeram a assinatura nem quando o serviço deverá vir ao Brasil.

A chegada de uma gigante do varejo movimenta um setor ainda pouco explorado. As iniciativas mais antigas na área –a Oyster e a Scribd–, nos EUA, são de 2013.

Editoria de Arte/Folhapress

Para o analista Carlo Carrenho, fundador do Publishnews, os próprios editores ainda não sabem qual será o impacto nas vendas. “Isso altera o modelo de negócio.

A mudança é na remuneração às editoras e aos autores, que deixam de ganhar por livro comprado e passam a receber por livro lido. No caso da Amazon, o leitor tem de atravessar pelo menos 10% do exemplar para que os autores tenham retorno.

A discórdia cresceu especialmente entre independentes, segundo o fundador da Smashwords, empresa que distribui e-books autopublicados para lojas virtuais.

Segundo o americano Mark Coker, 49, a forma de pagamento “imprevisível” da Amazon e o tratamento preferencial dado a grandes editores enfureceu os autopublicados.

A Amazon remunera os pequenos por meio de um fundo global variável. Escritores independentes ganham uma porcentagem a partir do montante total desse fundo.

A varejista também exige exclusividade deles. Já as grandes editores recebem o valor sobre o preço de capa do livro vendido.

No Brasil, por enquanto, o momento das editoras ainda é de observação do modelo, diz a presidente do sindicato da categoria, Sônia Jardim.

Me parece interessante no caso de livros universitários. Quem sabe não iniba a xerox.

Esse gênero de biblioteca tem exemplos aqui. A Nuvem de Livros e a Árvore de Livros são iniciativas com estratégias financeiras mais amigáveis às editoras: a remuneração não está condicionada à leitura.

A Nuvem paga autores e editoras um valor mensal. Já o contrato de remuneração da Árvore conjuga empréstimo e número de exemplares.

Para o presidente da Árvore, Galeno Amorim, a ampliação de bibliotecas digitais aumentará o número de leitores.

POR ALAN SANTIAGO | Publicado originalmente em Folha de S. Paulo | 26/07/2014, às 02h32

Empréstimo de eBooks: A Revolução na Palma da Mão


Quem quiser conhecer de perto, ao vivo e em cores, os resultados obtidos até aqui nos projetos pilotos pioneiros de empréstimos de eBooks, realizados pela Árvore e seus parceiros, o Congresso de Leitura do Brasil, o COLE, será uma ótima oportunidade. Galeno Amorim, CEO da Árvore, vai apresentar, na primeira sessão especial Perspectivas da Leitura no Brasil, o painel “Empréstimo de eBooks: A Revolução na Palma da Mão”. Será no dia 22/07 [terça-feira], das 15 às 16h30, no Auditório II do Centro de Convenções da Unicamp, em Campinas [SP]. Leia mais.

COLE | 07/2014 

Árvore de Livros


Biblioteca digital deve adquirir 200 mil e-books para atender mais de 170 mil alunos brasileiros, numa iniciativa que promete revolucionar a leitura no Brasil. É a Árvore de Livros, uma biblioteca digital que estará a disposição de alunos das redes públicas e privadas do Brasil a partir de março

Encabeçado por Galeno Amorim, ex-presidente da Biblioteca Nacional; João Braga e Roberto Leal, ambos da Florescer Distribuidora de Livros, o projeto vai cobrar uma assinatura anual de governos, prefeituras, escolas e empresas para que os usuários acessem a plataforma que estará disponível para computadores, smartphones e tablets.

Por ele, usuários vão emprestar e ler livros de forma ilimitada. A expectativa é adquirir acervo inicial de 200 mil e-books para atender mais de 170 mil alunos do Ensino Fundamental 2 e Médio.

Revista Lusofonia | 06/2014

Primeira biblioteca comunitária digital do país é lançada em Ribeirão Preto


A Fundação Educandário Cel. Quito Junqueira abriu na quarta-feira [23], Dia Mundial do Livro e dos Direitos do Autor, a primeira biblioteca comunitária digital do país a fazer empréstimos de eBooks.

A Biblioteca Digital do Educandário vai atender os jovens e adolescentes do Complexo do Aeroporto, que já são atendidos pela instituição. O projeto-piloto, que é pioneiro no País, terá seis meses de duração e contará com um acervo digital básico de 10 mil eBooks: serão 1.000 diferentes títulos de diversos gêneros da literatura, com destaque para as obras de literatura infantil e juvenil.

A leitura dos livros digitais será feita em tablets a partir de uma conexão com a internet e pode ocorrer também em smartphones, notebooks, computadores e eReaders [dispositivos de leitura digital]. Cada usuário terá login e senha para acessar a biblioteca digital de qualquer aparelho, inclusive de outros lugares.

A biblioteca funciona como uma espécie de “Netflix [a empresa que empresta filmes pela internet] dos livros”. Porém, com uma vantagem adicional: ao carregar o eBook na tela, o usuário pode até desconectar a internet que mesmo assim pode ler o conteúdo offline.

A Fundação Educandário disponibilizou, inicialmente, 13 tablets. Além do uso nos projetos que acontecem no local, também poderão ser emprestados dispositivos para leitura em casa. Os eBooks com até 42 páginas podem ser emprestados por uma semana [com possível prorrogação de mais uma] e os demais por 15 dias, com direito a uma prorrogação. Aqueles eBooks que têm acima de 200 páginas podem ter o empréstimo prorrogado mais de uma vez.

A era digital vai promover uma verdadeira revolução na leitura no Brasil, com impactos extraordinários na educação”, afirma o presidente da Árvore de Livros S.A., Galeno Amorim, que até o ano passado presidiu a Fundação Biblioteca Nacional e também foi secretário municipal de Cultura em Ribeirão. A Árvore desenvolveu um modelo de negócios pioneiro e vai atuar em todo território nacional junto a redes de ensino públicas e escolas privadas, bibliotecas e empresas.

Com esse projeto, vamos ampliar o acesso aos livros aos adolescentes que participam do nosso programa, com uma disponibilidade ampla de títulos”, diz o presidente da Fundação Educandário, Marcos Awad. “Seria muito mais difícil reunir tantos títulos de papel, enquanto os eBooks facilitam muito o acesso, agilizando o aprendizado”, completa Awad.

Ribeirão Preto Online | 23/04/14

Primeira biblioteca comunitária digital do país é lançada hoje em Ribeirão


A princípio, a biblioteca será direcionada aos 300 alunos do Educandário, mas futuramente poderá ser aberta à população

Para os novos leitores

O acervo digital conta com 13 tablets, 10 mil eBooks e 1.000 títulos | Foto: Divulgação

O acervo digital conta com 13 tablets, 10 mil eBooks e 1.000 títulos | Foto: Divulgação

Hoje é o Dia do Livro e a Fundação Educandário tem um bom motivo para comemorar. Às 14h será lançada a primeira biblioteca comunitária digital do País a fazer empréstimos de eBooks. A biblioteca faz parte do projeto Árvore de Livros S.A., presidida por Galeno Amorim, que já implantou espaços parecidos na Favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, e no Parque da Juventude, em São Paulo. A princípio, a biblioteca será direcionada aos 300 alunos do Educandário, mas futuramente poderá ser aberta à população. O acervo digital conta com 13 tablets, 10 mil e-books e 1.000 títulos.

Jornal A Cidade | 23/04/2014, às 09:42

Biblioteca Digital


O principal jornal econômico do País mostra que a Árvore prepara o início de suas operações no mercado nacional indicando Galeno Amorim, ex-presidente da Fundação Biblioteca Nacional, para assumir o comando da companhia. Anuncia investimentos e principais objetivos para 2014.

Valor Econômico | Coluna Avant-première | 17/04/2014, às 05h00

O impacto dos livros digitais nas bibliotecas


O Observatório do Livro e da Leitura divulgou nesta segunda-feira [14/04] o resultado da pesquisa Bibliotecas e Leitura Digital no Brasil, encomendada pela Árvore de Livros S.A. Respondida por bibliotecários e responsáveis por bibliotecas brasileiras, o estudo priorizou as bibliotecas públicas municipais que, segundo a pesquisa estão na quase totalidade dos municípios brasileiros, representando 52,5% das entrevistas realizadas. Participaram ainda da pesquisa bibliotecas comunitárias, universitárias e escolares. Foram entrevistados 503 representantes de bibliotecas de todas as unidades da federação em março de 2014.

Segundo Galeno Amorim, coordenador geral do Observatório, “a pesquisa foi feita para avaliar o estado das bibliotecas que atendem o publico, seja ela municipal, estadual, comunitária, rural, escolar, de universidade e até de empresas e órgãos da administração pública e, com isso, aproveitar para chamar a atenção sobre a necessidade de se criar políticas mais robustas e permanentes de financiamento desses equipamentos que podem ter um papel cada vez mais importante no momento em que a educação parece prestes a ganhar um novo destaque no cenário nacional para construir um novo futuro para o país”.

O estudo buscou compreender também como as bibliotecas se posicionam e se preparam para entrar na era do livro digital e passar a prestar esse tipo de serviço aos seus leitores e a muitos outros que poderão tornar-se usuários delas também”, acrescentaou Galeno.

De acordo com a pesquisa, os responsáveis pelas bibliotecas identificaram os diversos dispositivos de leitura, incluindo computadores, como sendo apropriados para serem utilizados pelos usuários em seus espaços de leitura. Os tablets, com 53,3%, um índice que chega a 70,5% no caso das escolares, lideram a preferência, mas os computadores aparecem logo em seguida, em situação de empate técnico, com 56,8%, seguido pelos notbooks [53,3%]. A pesquisa aponta que embora dedicados especificamente à leitura digital, os eReaders só aparecem em penúltima lugar, com 14,9%, só um pouco à frente dos smartphones [12,2%].

Que tipo [s] de aparelho [s] você considera mais apropriado [s] para os usuários lerem um eBook na sua biblioteca?
grafico001

Para a maioria absoluta dos bibliotecários e responsáveis pelas bibliotecas brasileiras [77,9%] que atendem diferentes públicos leitores, o tablet é o aparelho mais adequado para os usuários lerem eBooks quando estiverem fora da biblioteca. O notebook aparece como o segundo melhor colocado com 60,5% do total.

O impacto dos eBooks sobre a leitura e as bibliotecas

A pesquisa estimulou os entrevistados a responderem sobre o que acreditam que poderá acontecer com a chegada dos eBooks às bibliotecas. A grande maioria [82% dos que respondera] apontam que os dois tipos de suportes [o livro impresso e o eBook, sua versão digital] deverão conviver juntos em harmonia. No caso das bibliotecas universitárias esse tipo de resposta esteve na boca de 100% entrevistados.

Galeno acredita que este resultado indica que os bibliotecários e os responsáveis pelas bibliotecas estão percebendo que a tecnologia, em vez de representar mais trabalho e dispêndio de energia para eles, pode servir como uma alavanca para a atuação das bibliotecas. “É extraordinariamente importante esse posicionamento dos dirigentes e profissionais da área, que intuem que colocar o pé no futuro pode significar mais usuários, mais leitura e, com isso, certamente maior reconhecimento e apoio. Este ano será marcado pela chegada da era digital às bibliotecas no Brasil. Isso é altamente positivo para gerar leitura, leitores e, sobretudo, maior inclusão cultural e tecnológica na sociedade brasileira”, diz entusiasmado.

O que você acha que poderá acontecer com a chegada de aparelhos e eBooks na sua biblioteca?

Para Moreno Barros, bibliotecário do Centro de Tecnologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro [UFRJ] e colunista da Revista Biblioo, não há dúvida de que os diferentes suportes continuarão a coexistir uma vez que, segundo sua opinião, “bibliotecário não trabalha com suporte, trabalha com conteúdo, documentos e informação, então essa discussão pra gente não faz sentido”. O assunto foi tema de artigo recente de Moreno: “O que os bibliotecários devem saber sobre os ebooks”.

Por outro lado, temos a responsabilidade da guarda, então é importante que estejamos atentos às mudanças de padrões tecnológicos [a escrita sendo a primeira tecnologia, os ebooks a mais recente]”.

Para Moreno, o que os bibliotecários não podem fazer é argumentar que não estão preparados para a mudança. “Basta entrar em qualquer linha de metrô nas grandes cidades e perceber como as pessoas consomem informação em seus celulares. Basta entrar em qualquer biblioteca universitária e perceber que os alunos estão mais com laptops à tira colo do que livros. Basta visitar qualquer biblioteca pública e perceber que as crianças estão mais interessadas nos computadores do que nos livros, os adultos mais preocupados com o uso de espaço público do que o acervo”.

Na concepção do bibliotecário, quem dita essas transformações é o mercado [tendo os avanços tecnológicos como sustentação] e depois os usuários. Os bibliotecários funcionariam apenas como receptáculo e eventualmente exercendo o papel de intermédio entre criadores e distribuidores de conteúdo.

Em determinado momento, bastará que uma editora decida comercializar seus livros em formato apenas eletrônico, para toda uma cadeia de distribuição logística ser alterada, simplesmente porque para ela é muito mais barato produzir e comercializar seus livros em formato digital, trabalhando em conjunto com outras empresas tecnológicas que mantêm o monopólio sobre a disseminação do conteúdo”.

Biblioo | 14/04/14

Oito questões sobre as bibliotecas digitais


Joana Monteleone, da Alameda Editorial, analisa o fenômeno que tem dado o tom do mercado editorial nesse momento

A mais recente tendência do mercado de livros eletrônicos, tanto no exterior  quanto no Brasil, é a busca de composição de acervos de bibliotecas digitais. A principal diferença em relação ao modelo de livrarias é que passamos da figura do consumidor de livros para a do usuário de bibliotecas.

Essa diferença não é irrelevante. Provavelmente, os dois modelos conviverão. Mas para que ambos deem certo, é preciso pensá-los em suas especificidades.

No Brasil, há pelo menos três projetos privados significativos em andamento. Todos focam, essencialmente, possíveis compras do poder público, mas também estão em busca do usuário individual, em e-readers, tablets e telefones celulares. São eles o da Nuvem de Livros, da Gol Mobile [em operação]; o Biblioteca Xeriph, ligado ao grupo Abril [em lançamento]; e o Árvore de Livros, representado por Galeno Amorim, ex-presidente da Fundação Biblioteca Nacional [em gestação].

Listamos abaixo oito questões que consideramos relevantes para pensar as bibliotecas digitais.

1. Biblioteca digital não substitui biblioteca física. Ambas são experiências importantes, mas complementares. O Ministério da Educação, que tem a missão de conduzir o cumprimento da Lei da Biblioteca Escolar [12.240/10], sancionada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a gestão de Fernando Haddad como ministro da Educação, não pode abusar do artigo 2º, que permite o uso de vários suportes, para ignorar o fato de que escola sem biblioteca física operando é escola ruim. O grande desafio de melhorar a educação nacional passa por não fingir que gadgets eletrônicos são uma espécie de emplastro Brás Cubas, que tudo cura.

2. Quando o consumidor ou o governo compra um livro, ele adquire um conteúdo específico, unitário. Quando o assunto é biblioteca, busca-se um acervo. Uma livraria vive muito dos livros da estação, que todos querem ler; uma biblioteca é útil quando sua coleção é representativa, seja pela especificidade, seja pela variedade. Uma livraria não deve ignorar a bibliodiversidade [muitos autores, editores, públicos e coleções diferentes], se quer manter um público cativo; uma biblioteca simplesmente não pode.

3. Os editores independentes, boa parte deles reunidos na Libre, mas não apenas, representam o maior e mais diversificado acervo de livros comprados pelas melhores bibliotecas públicas e privadas. Qualquer modelo de livraria digital sério tem de reconhecer este valor, dialogar com esses editores e remunerá-los pela qualidade e importância de seus catálogos. Quem privilegiar apenas os grandes grupos se parecerá com um catálogo de best-sellers, não com uma biblioteca.

4. Livraria não é mídia, é ponto de venda. Biblioteca não é ponto de venda, é espaço de consulta e estudo, muito mais do que de lazer. E isso é bom. Biblioteca que seguir a lógica de ponto de venda não vai funcionar, assim como crescem rápido, mas paradoxalmente afundam, sobretudo culturalmente, mas também do ponto de vista de sustentabilidade econômica, livrarias que vendem espaços como se fossem outdoor.

5. Remunerar bem apenas quem é mais acessado é reproduzir na biblioteca a lógica da livraria que vende espaço de mídia. Ou seja, o pior dos mundos.

6. Um dos motivos do fracasso relativo da biblioteca pública como instituição nacional, amplamente difundida no território do país, é que muitos políticos as entendem como depósito de livros, e o usuário é visto primeiro como potencial ladrão de exemplares do que como alguém que acessa o serviço público. O mínimo que se espera do universo eletrônico é que ele proporcione conforto ao usuário, e excesso de restrições não vai ajudar as bibliotecas digitais a se popularizar.

7. Numa biblioteca digital, o usuário não pode ter as mesmas restrições que numa biblioteca física, como pegar fila para acessar um livro ou ter pouco tempo para ler uma obra. Aliás, o ideal é que nesse novo mundo, o tempo não seja uma questão.

8. A prestação de contas aos fornecedores e usuários tem de ser, ao mesmo tempo, a mais simples e detalhada possível. As bibliotecas são, tradicionalmente, um espaço de questionamento e transparência. Criar uma relação de confiança entre todos os envolvidos é fundamental.

Por Joana Monteleone | PublishNews | 21/02/2014 | Joana Monteleone, historiadora, é editora da Alameda.

BN debate o papel das bibliotecas no empréstimo de eBooks


A Biblioteca Nacional realiza, hoje e amanhã, na Bienal do Livro, o colóquio E-books e a democratização do acesso – Modelos e experiências de bibliotecas, onde especialistas da Alemanha, Espanha, França, Inglaterra e Brasil discutirão o papel das bibliotecas nacionais e o serviço de empréstimos de ebooks, o crescimento da demanda deste tipo de serviço, assim como os desafios impostos pelas novas tecnologias.

O evento, realizado em parceria com o Goethe-Institut Rio de Janeiro, Maison de France e Instituto Cervantes do Rio de Janeiro, faz parte de um grande ciclo de palestras que a Biblioteca Nacional realizará ao longo do segundo semestre deste ano em São Paulo e Recife, no qual diversos especialistas e pensadores se juntarão para debater o tema.

Para o presidente da Fundação Biblioteca Nacional [FBN/ MinC], Galeno Amorim, o papel da instituição é pensar o setor como um todo, levantando questões relevantes sobre livros, leitura e literatura para discuti-las com a sociedade, o que inclui o futuro dos livros e seus pares digitais, os e-books. “A BN, como principal órgão responsável pela criação de políticas públicas para o setor, deve sempre estar atenta a questões relevantes para a sociedade. No mundo de hoje, a estagnação significa a morte. Temos que estar atentos a todas as mudanças, em especial as que chegam por conta das novas tecnologias”, afirma.

Sobre os serviços de empréstimos de e-books pelas bibliotecas, Galeno acredita que, uma vez que tablets e leitores de digitais já são uma realidade, as bibliotecas devem se preparar para oferecer o serviço da melhor maneira. “E a melhor forma de nos prepararmos é aprender com quem já sabe, com aqueles que já têm o know-how. Assim, poderemos unir o conhecimento à experiência que temos na administração de bibliotecas em um país continental para chegarmos a um modelo que atenda às nossas necessidades”, avalia o presidente da FBN.

Nesta segunda-feira, serão discutidas questões de acesso, oferta e negociação de livros no formato digital nos mercados espanhol, francês e alemão, além de um perfil geral de como editores europeus têm se comportado em matéria de e-books.

Entre os participantes está o analista de mercado na divisão de entretenimento da GfK SE [Gesellschaft für Konsumforschung – Sociedade para Pesquisa de Mercado Consumidor], Christoph Freier, que falará sobre “E-books: um belo e novo mundo de livros; fatos e novidades sobre o mercado editorial digital“. Freier tem como linhas de pesquisa os desenvolvimentos nos campos de entretenimento [música, video, cinema, jogos e livro] e de comércio eletrônico e download.

Ainda hoje, o diretor do Departamento de Serviços Escolares e Serviços Eletrônicos da Stadtbibliothek Köln, Frank Daniel, apresentará o tema ‘‘Experiências com e-books na Biblioteca Pública de Colônia“. Para Daniel, cada vez menos, a nova geração compreende o sentido e a finalidade das bibliotecas. Na Internet pode-se obter informações atuais gerais e especializadas, em qualquer hora e lugar. Além disso, há um crescente aumento do uso de Smartphones, iPads, Tablet-PCs e e-Readers móveis. As ferramentas, somadas às lojas virtuais de e-books da Amazon, Apple e Google, se tornaram uma ameaça real para o conteúdo tradicional das bibliotecas.

Frank Daniel acredita que para continuar realizando sua tarefa clássica, uma biblioteca também deve disponibilizar na Internet fontes eletrônicas atrativas aos seus leitores, não acessíveis de forma gratuita.

O segundo dia abordará as experiências do Brasil e Inglaterra na área, com destaque para a participação de Aquiles Alencar-Brayner, brasileiro e primeiro estrangeiro a assumir o cargo de curador digital da British Library. Ele participa do colóquio “Digitalização e modelos de acesso a e-books na biblioteca pública da Inglaterra”.

Para Brayner, o rápido avanço das tecnologias digitais traz consigo inúmeros desafios para instituições que lidam com o gerenciamento de informação e serviços bibliográficos. “No caso dos livros eletrônicos, a questão torna-se ainda mais complexa devido a uma série de fatores que restringem o acesso ao conteúdo de um formato que vem ganhando cada vez mais adeptos. Minha apresentação, centrada na perspectiva da British Library, se propõe a analisar alguns dos obstáculos encontrados por bibliotecas públicas no manejo e empréstimo de ebooks para os seus usuários”, explica o curador.

Dentre os tópicos abordados por ele estão: a atual legislação britânica de depósito legal para publicações eletrônicas, os problemas de identificação, armazenameno e acesso a conteúdos digitais com que se deparam as bibliotecas públicas reinounidenses, e a miríade de formatos de suporte para a leitura de tais conteúdos que quase sempre impede a interoperabilidade entre sistemas. “Também apresentarei alguns dos serviços e plataformas eletrônicas criados pela British Library para acesso remoto ao acervo digitalizado da biblioteca”, completa.

A cerimônia de abertura, às 9h, contará com a participação do presidente da Fundação Biblioteca Nacional, Galeno Amorim, de Jean-Claude Moyret, Cônsul Geral da França no Rio de Janeiro; Alfonso Palazón Español, Cônsul Geral da Espanha no Rio de Janeiro; e Michael Worbs, Cônsul Geral da República Federal da Alemanha no Rio de Janeiro.

Publicado originalmente no Jornal do Brasil | 05/09/2011

Do papel ao suporte digital


Galeno Amorim

Apaixonado por livros desde a infância, o jornalista e escritor Galeno Amorim é, desde o início do ano, presidente da Fundação Biblioteca Nacional. Ainda menino e dotado de grande imaginação, pensou que a Casa de Livros, em sua cidade natal, Sertãozinho, no interior de São Paulo, era toda feita de livros. “Achei que poderia levar comigo pedaços dessa casa. Depois, era só devolver”, recorda. Esse foi o seu primeiro contato com uma biblioteca pública. A paixão foi imediata e definitiva. Autor de 16 obras, entre ensaios e literatura infanto-juvenil, o leitor/escritor faz do amor aos livros uma trajetória profissional e política, exemplo seguido em casa pelos filhos, que são hoje dois jovens leitores. “Li para eles até a adolescência. É bem verdade que, em seus primeiros dias de vida, eu lia para mim mesmo – gostava de ler Neruda em espanhol. Mas, ao fazer isso, estava criando uma cumplicidade, um vínculo afetivo muito forte e poderoso através da leitura“, conta.

Ex-Diretor do Observatório do Livro e da Leitura e especialista em políticas públicas do livro e leitura há mais de 20 anos, Galeno Amorim já foi também secretário da Cultura em Ribeirão Preto. Criou e dirigiu diversas instituições ligadas a essa área, presidiu o Comitê Executivo do Centro Regional de Fomento ao Livro na América Latina e no Caribe [Cerlalc/Unesco] e foi ainda consultor de políticas públicas do livro e leitura da Organização dos Estados Íbero-Americanos para a Educação, Ciências e Cultura [OEI], com sede na Espanha.

No trabalho e na vida, ele pode conciliar sua paixão pelos livros de papel e as novas ferramentas tecnológicas. Blogueiro entusiasmado, com 80 mil leitores no blogdogaleno.com.br e milhares de seguidores no Twitter e no Facebook, tem sempre fôlego para falar de livros.

Pátio – Sabemos que há hoje poucas bibliotecas públicas bem-aparelhadas e que elas são inexistentes em grande parte das escolas públicas. Qual é a estrutura de disponibilização de livros pelo Estado à população brasileira?

Galeno – Nos últimos 8 anos, o Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas [SNBP], da Fundação Biblioteca Nacional/MinC, distribuiu cerca de 4,5 milhões de livros para bibliotecas públicas do país. À Fundação Biblioteca Nacional cabe distribuir somente para as bibliotecas atendidas pelo SNBP, o que não inclui as escolares, que estão vinculadas ao Ministério da Educação.

O que deverá ser feito a curto e médio prazo nesse sentido?
Tenho conversado com os dirigentes do MEC sobre a importância de se criar no país, no âmbito do SNBP, um sistema de bibliotecas escolares e também sobre como podemos cooperar com esse ministério para que o Brasil possa cumprir, até 2021, a lei assinada pelo presidente Lula, que obriga todas as escolas a terem pelo menos uma biblioteca escolar. Acredito que faremos grandes progressos nesse tema.

Uma recente pesquisa mostrou que os estudantes brasileiros têm, em média, menos de 10 livros em casa, enquanto os de países mais bem-colocados em exames internacionais têm mais de 100 livros. O que é preciso para que os brasileiros leiam mais?
Hoje, o índice de leitura por habitante é de 4,7 livros ao ano. Existem no mínimo 95 milhões de pessoas que leram ao menos um livro nos últimos três meses. Precisamos ultrapassar a marca de 100 milhões de leitores. É importante que o Estado brasileiro crie ações para que isso se efetive. O Plano Nacional do Livro e da Leitura funciona com base em quatro eixos que, integrados, formam o motor para estímulo à leitura no país. Estamos estimulando a abertura de milhares de novos pontos de venda de livros, negociando novas linhas de crédito e também preparando editais de compra de livros populares para as bibliotecas municipais e comunitárias. A Fundação Biblioteca Nacional está implementando uma série de mudanças para acelerar os processos de acesso à leitura no país. O Programa Nacional de Incentivo à Leitura [PROLER], por exemplo, terá um papel importantíssimo no enraizamento do PNLL através da sinergia com os vários projetos do governo federal na área da leitura. A principal sinalização desse processo é o montante de recursos a ser anunciado para os próximos 12 meses: será algumas vezes maior do que o valor investido nos últimos anos.

O livro digital já é uma realidade, mas no Brasil ainda não chegamos nem à fase do livro de papel, uma vez que o índice de leitura é muito baixo. O senhor acredita que para a nova geração, a dos chamados nativos digitais, o livro de papel será obsoleto, considerando-se tanto os cidadãos com mais recursos financeiros quanto os de baixa renda?
O livro impresso manterá sua tradição e seu simbolismo. Ele pode conviver com os formatos digitais, que permitem outras possibilidades de uso. O importante é dar acesso ao leitor a boas leituras, seja em bibliotecas tradicionais, multimídia ou através de novos formatos, como os empréstimos de e-books, uma realidade em países da Europa, cuja dinâmica queremos trazer para o Brasil.

As tecnologias digitais podem ser uma alternativa para democratizar o acesso à leitura?
Penso que sim. Hoje, podemos dar acesso a milhões de usuários, com grande facilidade, a um livro da Idade Média existente na Biblioteca Nacional em um formato simples como o pdf. É importante ampliar ações desse tipo. Estamos começando a preparar a Biblioteca Nacional Digital para que ela também possa, em breve, emprestar e-books. Vamos iniciar a digitalização de 4.500 títulos importantes da literatura brasileira que estão em domínio público, dos quais serão selecionados 100 para que sejam, a partir do início de 2012, colocados à disposição dos leitores para empréstimo gratuito.

Há muito tempo se fala que no Brasil não se lê porque o livro é caro e que o livro é caro porque não se lê. Portanto, as tiragens são baixas, o que encarece o processo. Qual é a sua opinião sobre isso e como sair desse círculo vicioso?
É possível fazer com que o livro no Brasil seja vendido a preços mais baixos. Estamos trabalhando para criar as condições necessárias para que as dezenas de milhões de brasileiros que ascenderam socialmente nos últimos anos também passem a consumir livros, assim como já consomem mais eletrodomésticos, serviços bancários ou passagens aéreas. Queremos colocar os livros na cesta da classe C. Estamos estimulando a abertura de milhares de novos pontos de venda de livros, negociando novas linhas de crédito e preparando editais de compra de livros populares para as bibliotecas municipais e comunitárias.

Muitos estudantes não têm a oportunidade de manter contato com a leitura em casa. Vale lembrar que muitos professores também não têm o hábito de ler e, por isso, não podem transmitir o gosto pelos livros. Como virar esse jogo?
A sala de aula deve ser reconhecida como um espaço de leitura. O “professor leitor” é a figura que mostra ao aluno a importância do livro para a formação do cidadão. Uma das práticas do PROLER é atualizar o conhecimento de professores e estimular, por meio de cursos de formação, a inserção de novas ações em sala de aula. O PROLER atua em 71 comitês regionais em todo o país e, desde a sua criação, em 1992, já formou mais de 65 mil mediadores de leitura, beneficiando cerca de 270 mil pessoas. A continuidade e a dinamização desse trabalho é o que nos possibilita crer em uma “virada de jogo”.

Em sua opinião, quais são os principais programas de incentivo à leitura que realmente fizeram ou estão fazendo a diferença no Brasil?
A criação do Plano Nacional do Livro e da Leitura é um marco na história do Brasil e hoje suas ações constituem uma referência para outros países. Os últimos 10 anos certamente entram para a história como os mais importantes na área, pois representaram um grande avanço. A Lei do Livro, o Prêmio Vivaleitura e a desoneração fiscal dos livros são exemplos concretos de incentivo à leitura.

No âmbito mundial, o senhor conhece exemplos de países que conseguiram aumentar seus índices de leitura, com repercussão na qualidade da educação, que poderiam servir de modelo para o Brasil?
O Ministério da Cultura ajudou a construir no Rio de Janeiro, em 2010, a Biblioteca Parque de Manguinhos, nos moldes das existentes na Colômbia. Medellín e Bogotá, naquele país, são exemplos de cidades marcadas pelo narcotráfico e pela violência. Com a inauguração de equipamentos que integravam leitura e programas culturais em apenas um lugar, essas cidades conseguiram diminuir os índices de violência e aumentar os de educação. Um belo exemplo a ser seguido em programas de leitura mundo afora.

Qual a situação do Brasil em termos de leitura se comparado a outros países emergentes e aos vizinhos latino-americanos?
Apesar dos avanços dos últimos anos, ainda há muito a fazer para melhor a posição do Brasil no ranking de leitura. Em 2010, ficamos em 53º lugar no Programa Internacional de Avaliação de Alunos [Pisa], realizado pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico [OCDE], que avaliou o conhecimento de cerca de 470 mil alunos em leitura, ciências e matemática no ano anterior. Os melhores resultados foram apresentados por alunos de Xangai, na China. Na América Latina, ficamos à frente de países como Argentina, Panamá e Peru, mas vizinhos como Chile, Uruguai e Colômbia apresentaram índices melhores. Já com relação aos índices de leitura, somente quando os países vizinhos realizarem suas pesquisas utilizando a metodologia do Brasil, desenvolvida pelo Cerlalc/Unesco, é que teremos condição de estabelecer essas comparações na América Latina.

Como é ser presidente de uma das bibliotecas mais importantes do mundo?
Dirigir a Fundação Biblioteca Nacional é uma dupla responsabilidade. Primeiro, porque a instituição é responsável pela gestão da Biblioteca Nacional, que tem 200 anos e nove milhões de peças. Passaram por seus cargos de direção nomes importantíssimos da literatura e da intelectualidade do Brasil. Segundo, porque a fundação tem sob sua responsabilidade o comando da formulação e execução das Políticas Públicas do Livro e da Leitura do país. Mas eu me sinto preparado levar adiante esses desafios.

No dia 9 de junho, o senhor teve um encontro muito importante com o presidente do Senado, José Sarney, ao qual pediu apoio às Políticas Públicas do Livro e da Leitura. Esse encontro foi produtivo?
O presidente José Sarney assumiu alguns compromissos. O primeiro deles foi reapresentar um projeto de lei que estende às pequenas livrarias e editoras a desoneração fiscal para aquelas empresas que são optantes do simples. Para as outras editoras, livrarias e distribuidoras, a desoneração acontece desde 2004. Nessa época, estava no governo e já havia conduzido esse processo com a ajuda do senador José Sarney. O Senado fará uma sessão solene no Congresso para homenagear os 200 anos da Biblioteca Nacional. Estaremos lá com uma exposição de obras raras na sede do Congresso Nacional. O presidente do Senado também assumiu o compromisso de apoiar os projetos de lei de interesse da nossa área no Congresso Nacional, como, por exemplo, a criação de uma nova instituição para gerir as Políticas Públicas Setoriais, a criação de um Plano Nacional do Livro e da Leitura e a criação do Fundo Nacional Pró-Leitura. Discutimos outras questões, como o apoio ao Programa do Livro Popular e a criação das Livrarias Populares. Contaremos com o apoio do Senado para a Lei das Biografias. Vamos tentar dar fim a essa onda de proibições de biografias não autorizadas que, infelizmente, assola o país.

Com tanto trabalho e responsabilidade, ainda sobra algum tempo para a leitura?
O volume de trabalho é significativo. Em geral, começo a trabalhar às 9 horas da manhã e vou até as 21 horas, mas eu leio muito. Sempre publico no Twitter o que estou lendo. Este ano, já li cerca de 14 livros. Preciso da leitura e da literatura para viver.

Pátio | Revista Pedagógica | 30/08/2011