Bibliotecas digitais vão democratizar acesso aos livros


Confira um bate-papo com Galeno Amorim, criador do Plano Nacional do Livro e Leitura

Galeno Amorim

Galeno Amorim

Galeno Amorim iniciou-se no jornalismo aos 15 anos. Trabalhou por quase duas décadas no jornal O Estado de São Paulo e acumulou passagens por algumas das principais redes de televisão do país. Nesse período, também foi professor do curso de Jornalismo
em Ribeirão Preto [SP], sua cidade natal. Envolvido desde sempre com projetos de fomento à leitura, ele próprio é autor de 17 livros e já realizou mais de 800 palestras no Brasil e no exterior em que busca estimular o debate sobre políticas públicas voltadas para o livro e a leitura. Além disso, tem seu nome ligado à criação de diversas instituições que lidam diretamente com o tema.

Já presidiu organizações internacionais como o Centro Regional para o Fomento do Livro na América Latina e Caribe [Cerlalc], o único na área do livro e da leitura ligado à Unesco, com sede na Colômbia. Também integrou a equipe do Ministério da Cultura durante o governo Lula, quando, em parceria com o Ministério da Educação, criou o Plano Nacional do Livro e da Leitura [PNLL], e presidiu a Fundação Biblioteca Nacional [FBN]. Nesta entrevista, realizada após a sua palestra Dos tablets de argila aos eBooks: Uma revolução na palma da mão, na UFMG, ele fala de sua infância, do engajamento em projetos relacionados à leitura no Brasil e das bibliotecas digitais, formato que, em sua avaliação, veio para ficar.

O sr. é um profissional engajado em ações que buscam incentivar a leitura. Como esse envolvimento começou?

Começou como leitor. Sempre gostei de ler muito. Fui crescendo e comecei a perceber o papel que o livro pode ter na vida das pessoas. Um papel transformador, enquanto ferramenta poderosa para abrir mentes e promover a cidadania. Quando me dei conta, já estava organizando concursos e projetos de incentivo à leitura. De repente, fui convidado a implantar um programa em minha cidade, por meio do qual foram abertas 80 bibliotecas em três anos, que fizeram aumentar muito o índice de leitura. A partir daí, as coisas foram acontecendo.

Como era a sua relação com a leitura na infância?

Minha mãe era analfabeta e meu pai trabalhava na zona rural. O livro não era algo tão presente em casa. Fui criado por uma família na cidade de Sertãozinho. Eis que uma das filhas dessa família quis ser professora e começou a levar um ou outro livro para casa. Quando ela se casou e mudou de lá, conseguiu montar uma coleção de livros do Monteiro Lobato. Eu viajava quilômetros e quilômetros por dia para poder ler esses livros. Até que um dia descobri uma biblioteca, que abriu um cenário maravilhoso pra mim. Eu não me recordo o nome do primeiro livro que li, mas era uma obra que tratava do cangaço. Era sobre um menino que sonhava ser cangaceiro e, de repente, se dá conta da triste situação do lugar em que morava.

Fale um pouco mais sobre a Árvore de Livros. Como funciona?

A Árvore de Livros é uma biblioteca digital que empresta e-books. É uma espécie de Netflix dos livros. Ela está implantada em mais de 500, quase 600 cidades em todos os estados brasileiros. Nessa plataforma, o leitor pode ler em tablets, smartphones e notebooks mais de 14 mil livros de variados gêneros, exceto didáticos.

É uma oportunidade fantástica de facilitar o acesso à leitura. Uma biblioteca que nunca fecha. Como surgiu a ideia?

Eu passo a vida pensando que existem cerca de 140 mil escolas sem bibliotecas no Brasil. Então, sempre pensei em maneiras de atender às demandas, acreditando que a tecnologia vem para resolver um problema concreto.

O que o bibliotecário precisa fazer para lidar melhor com essas novas plataformas digitais?

Primeiramente, o bibliotecário e o estudante de Biblioteconomia devem se dar a oportunidade de conhecer essa possibilidade de leitura. Hoje, há uma quantidade expressiva de leitores que aderem a esse formato, além de um número significativo de jovens que estão prontos para começar a ler digitalmente. Se o bibliotecário não se apodera dessa ferramenta, ele terá dificuldades em fazer a mediação. Então, o primeiro passo é esse: conhecer, se informar e começar a ler digitalmente.

Na palestra de hoje, o sr. questiona o preparo de nossas escolas e bibliotecas frente à chegada dos livros digitais. Acredita que as nossas instituições de ensino estejam prontas para receber e trabalhar com os e-books?

Na verdade, de certa forma, o mundo ainda não estava preparado para receber os livros digitais. Não se trata apenas das escolas. Ninguém estava preparado. Agora é hora de correr atrás do tempo perdido. E aí eu me refiro às próprias bibliotecas, às universidades, aos gestores, aos governos e a todos os setores.

Como avalia o comportamento dos leitores no Brasil, principalmente os jovens, em relação às novas plataformas de leitura, como os e-readers?

Os jovens adoram quando colocados frente a frente com essas oportunidades de leitura digital. Eles têm uma reação altamente positiva. Eu tenho sentido isso com crianças e adolescentes de diversas classes sociais e regiões do Brasil. É algo que tem feito parte da rotina deles. Gerações que acordam e dormem com smartphones e que são muito aderentes a essas tecnologias.

Uma pesquisa feita recentemente pela Bookwire, especializada em distribuição de e-books, diz que as vendas de livros digitais na América Latina devem saltar de 1% para 10% a 15% do total de livros comercializados até 2020. Como as editoras devem
se comportar frente a essa previsão?

Essa pesquisa confirma uma tendência que nós já podemos observar no dia a dia. O mercado editorial está cada vez mais aberto para o digital. Editoras tradicionais que até um ano atrás não se abriam para o e-book – seja para vender ou emprestar – agora já fazem parte de projetos de empréstimos. Elas estão percebendo que algo está acontecendo. As vendas de livros digitais dessas editoras podem representar apenas 3% ou 4% do faturamento, mas há uma tendência a aumentar. E se elas não se prepararem agora, serão atropeladas pela história.

O sr. acredita que há alguma diferença na incorporação dos e-books por escolas públicas e privadas? Se existe, qual é?

Há escolas particulares com problemas e outras que são formidáveis. Há escolas públicas que estão utilizando maravilhosamente bem e aquelas com dificuldades em aderir. Isso significa que o digital depende muito do papel do mediador de leitura. O bibliotecário tem um papel muito mais nobre nesse processo que começa a acontecer agora.

Do ponto de vista pedagógico, quais as vantagens e desvantagens do uso dos e-books nas escolas brasileiras?

Eu não vejo desvantagens. As vantagens que eu vejo são redução de custos, universalidade do acesso e aumento da quantidade de livros disponíveis.

Quais devem ser as estratégias dos governos para que a leitura seja parte efetiva e importante no projeto pedagógico das escolas?

Os governos precisam apoiar projetos de implantação de bibliotecas digitais nas escolas, que devem ser acompanhados de workshops, seminários e atividades de formação dos educadores e bibliotecários, além de dar suporte às políticas de fomento à leitura, como clubes de leitura digital nas redes sociais.

Uma pesquisa realizada pela Fecomércio RJ, divulgada recentemente, mostrou que 70% dos brasileiros não leram nenhum livro em 2014. O que precisa ser feito para melhorar esse cenário?

Essa é uma das pesquisas. Tem outras. Eu não conheço seus critérios e amostras. Mas posso dizer com propriedade sobre a Retratos da Leitura no Brasil, que eu conheço e cuja metodologia ajudei a desenvolver. Essa pesquisa mostrou que há uma pequena redução do índice de leitura, mas também um aumento da população leitora. Ou seja, tem mais gente lendo, porém, há também outras mídias disputando a atenção dos leitores por meio de outras oportunidades de entretenimento e lazer cultural. Temos que criar novas ações para mudar esse cenário, e as políticas públicas têm muita relevância nisso.

O sr. acredita que os índices de leitura no Brasil estão relacionados à renda da população?

Sim. Estão ligados a dois fatores, na verdade: à escolaridade, principalmente, e à renda. Isso não quer dizer que quem tem mais renda lê mais. Quem tem mais recursos tem também maior acesso a bens culturais, como teatro, televisão com canais pagos e livros. À medida que aumenta a renda e a escolaridade, aumenta o índice de leitura. As possibilidades de acesso a esse universo cultural tornam-se muito mais amplas.

Crê que a tecnologia é capaz de democratizar o acesso à leitura?

Eu acredito que a tecnologia é uma grande oportunidade que a civilização moderna tem para ampliar o acesso à leitura. É uma possibilidade também de diminuir o fosso social e, ao mesmo tempo, promover inclusão tecnológica, contribuindo para o acesso à educação.

Em tempos de vasto fluxo de informações na internet, ainda há espaço para o livro como ferramenta de consulta?

Eu acredito que sim. Mas esse questionamento entre físico e digital não tem a menor relevância. O que importa mesmo é o conteúdo.

CRB-6 Informa | n. 1/2015

Brasil ganha mais dois concorrentes na gestão de metadados


CBL anuncia, na Bienal do Rio, a Books in print, ligada à Frankfurt; e Eduardo Blucher lança a ferramenta Mercado Editorial

Metadados: o nó no mercado editorial que começa a ser desatado | © www.mercadoeditorial.org

Metadados: o nó no mercado editorial que começa a ser desatado | © http://www.mercadoeditorial.org

Não raro, os colunistas do PublishNews apontam que um dos maiores gargalos do mercado editorial brasileiro é, ainda, a gestão de metadados. Em 2011, por exemplo, Camila Cabete escreveu: “publicar um livro sem metadados é como ter um filho e não dar nome ao coitadinho”. Em 2012, ao participar do debate “Dilemas e conflitos do mercado editorial”, na Bienal de SP, Felipe Lindoso creditou à falha gestão dos metadados o problema da “descobertabilidade”: “o livro brasileiro não é achado, é patético descobrir algo que você não conhece em uma livraria”. Mais recentemente, o colunista voltou ao assunto ao escrever, em março passado: “o pior é que as editoras brasileiras simplesmente mal sabem o que são metadados, não têm ideia de como incluir tags significativos do conteúdo de seus livros”. O assunto, então, deixou de ser apenas a pauta das discussões e passou a fazer as engrenagens do mercado rodarem. Do início de 2014, para cá, o PublishNews noticiou a chegada da Bookwire, que, além da distribuição, faz também a otimização de metadados, e a mudança no modelo de negócios da Digitaliza Brasil que também passou a prestar o serviço. Em 2015, noticiamos a criação da Ubiqui, plataforma que promete reduzir custos com metadados em até 70%. Mais recentemente, a Bookpartners lançou o Portal do Editor, ferramenta pela qual editores podem revisar e atualizar produtos já cadastrados no sistema da holding. Agora, para os próximos dias, duas novidades prometem dar mais força a esse mercado. É que, ainda em agosto, Eduardo Blucher promete colocar no ar o Mercado Editorial e, no dia 2 de setembro, a CBL e a MVB [empresa coligada à Feira do Livro de Frankfurt] anunciam a chegada do serviço Books in Print Brasil.

Os serviços têm em comum um painel de controle por onde editores fazem o upload das informações dos seus livros e as ferramentas padronizam conforme as necessidades de cada um dos varejistas. A Books in print Brasil leva a chancela da MVB, subsidiária da Associação de Editores e Livreiros Alemães, e tem mais de 40 anos de experiência na Alemanha. A vinda da empresa para o Brasil é fruto da parceria entre CBL e a Feira do Livro de Frankfurt, que apresentaram, no começo da semana passada, o projeto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social [BNDES]. O modelo de negócios da nova empresa no Brasil ainda está em discussão. Na Alemanha, editores pagam por títulos cadastrados e distribuidores, atacadistas e quem quiser os metadados pagam por uma assinatura que varia de acordo com o tamanho da empresa. Os principais clientes lá na Alemanha são: Amazon, Nielsen, GfK e Bookwire. “O trabalho conjunto da Feira do Livro de Frankfurt com a MVB, em parceria com a CBL, vai trazer para o Brasil a mais completa e moderna plataforma de metadados do mercado. Um grande diferencial que a nossa plataforma tem é o uso de algorítimos que garante uma inteligência ao nosso banco de dados. Isso mantém o padrão de entradas, o que dá mais qualidade ao metadado cadastrado”, afirma Ricardo Costa, representante da Feira do Livro de Frankfurt no Brasil. A previsão é que a empresa comece a operar dentro de um ano.

No caso da Mercado Editorial, o serviço de disparo de metadados será gratuito. Eduardo Blucher disse ao PublishNews que estuda cobrar por serviços avançados. “Optamos pelo modelo freemium nesse primeiro momento. Nem editoras e nem livrarias pagarão pelo serviço. Após lançada a plataforma, vamos testar com o mercado as formas de cobrar pelo serviço”, aponta. Blucher prevê o início das operações ainda no mês de agosto.

ISBN
O projeto da CBL prevê que o Books in print seja, além de uma plataforma de gestão de metadados, também a entrada nos cadastros de ISBN no Brasil. Caso o projeto ande, as editoras farão o input dos dados pela plataforma que se responsabilizará pela inscrição dos metadados na Biblioteca Nacional. “É assim que funciona na Alemanha. É uma experiência já consagrada”, aponta Luis Antonio Torelli, presidente da CBL. Outros projetos já foram iniciados pela Câmara, mas sem grandes sucessos, lembra Torelli. “Há alguns anos, os espanhóis cederam uma plataforma que acabou não funcionando. Abandonamos o projeto. A obsolescência de projetos assim é muito grande. A atualização constante do serviço está no DNA da empresa alemã. A pergunta que devemos nos fazer é: vamos continuar tentando ou vamos partir para uma experiência já consagrada? Não podemos errar de novo”, define Torelli.

O Books in print será apresentado oficialmente no dia 2 de setembro, das 15h às 17h30, no Hotel Grand Mercure [Av. Salvador Allende, 6.555 – Rio de Janeiro/RJ]. Na ocasião, Ronald Schild, CEO da MVB, vai apresentar a ferramenta. Segundo disse Torelli ao PublishNews, o CEO fará também uma reunião com a Fundação Biblioteca Nacional para apresentação do projeto e das possibilidades de integrar a plataforma ao serviço de cadastro do ISBN. Para a apresentação do dia 2, é necessário confirmar presença pelo e-mail eventos@cbl.org.br até o próximo dia 28.

Por Leonardo Neto | Publicado originalmente em PublishNews | 24/08/2015

Bibliotecas de MT colocam consulta ao acervo na web


O acervo de nove bibliotecas públicas de Mato Grosso agora pode ser consultado online, por meio do site www.bibliotecasmt.com.br.

A ferramenta de pesquisa integra um projeto do Sistema Estadual de Bibliotecas, coordenado pela Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer [Secel], que contempla, entre outros objetivos, a democratização do acesso e o estímulo à leitura entre a população.

De acordo com a bibliotecária Ana Heloíza Farias Pereira, a proposta é integrar num único sistema o acervo de todas as bibliotecas do Estado, chegando a 25 instituições até o final deste ano.

Hoje são 152 bibliotecas cadastradas em Mato Grosso, dentre estaduais e municipais. Inicialmente, o projeto disponibiliza o acervo de instituições em Água Boa, Nova Mutum, Campinápolis, Marcelândia, Pontal do Araguaia, Vera, Peixoto de Azevedo, Barra do Bugres e Cuiabá. Parte delas já apresenta todo o conteúdo catalogado para consulta, outras estão em processo de inclusão das obras para pesquisa.

Em média, cada instituição possui 10 mil volumes.

Ana Heloíza explica que, antes de utilizar a ferramenta, os profissionais das instituições passaram por capacitação nos municípios, com supervisão e orientação feita por servidores da Secel.

De forma geral, as bibliotecas no Estado usavam o sistema de tombo, com registro e consulta manual das obras. A informatização do acervo, além de facilitar o acesso à informação, aumenta as possibilidades de pesquisa pelo cidadão. Após essa fase inicial, vamos ampliar a rede, oferecendo o suporte técnico e acompanhando o processo de integração de mais instituições”.

O sistema da rede de bibliotecas de Mato Grosso foi criado com base no programa Biblioteca Livre [Biblivre], um software de catalogação e difusão do acervo de bibliotecas públicas e privadas, coordenado pela Fundação Biblioteca Nacional e o Instituto Cultural Itaú.

A consulta do acervo é simples e didática. O cidadão acessa o site, escolhe a biblioteca de interesse e depois define as opções de busca, que pode ser feita por bibliografia, autoridade, vocabulário e distribuição.

Em cada link, a pessoa encontra explicação sobre o tipo de pesquisa que está acessando e as orientações sobre como encontrar o livro no site.

Além das informações de acervo, futuramente haverá possibilidade de interatividade com as instituições, por meio de um chat que está em fase final cadastro dos atendentes”, ressalta a bibliotecária.

Midia News | 25/06/2015

Site colaborativo vai ensinar o passo a passo para abrir uma editora


Ainda não é para já, mas vale a pena esperar. Eduardo Lacerda, proprietário da Patuá, uma das editoras independentes de maior destaque no País, está criando um site colaborativo, em formato wiki, para ajudar pessoas que queiram abrir uma editora. Entre as dicas, os melhores programas para diagramar os livros, as gráficas mais em conta, como iniciar um contato com a Biblioteca Nacional, o tipo de empresa a ser aberta – e como abri-la, etc. Aspirantes a escritor também serão beneficiados. Por exemplo, haverá uma lista de editoras com informações sobre os gêneros editados. A ideia é lançar a Public.Inc – Incubadora de Publicações e Editoras Independentes no final de maio. Algumas páginas serão fechadas, mas a maioria será editável [por qualquer pessoa que tenha informações práticas e atualizadas]. Lacerda vai procurar patrocínio pelo menos para a manutenção do site, mas diz não há interesse comercial na iniciativa.

Por Maria Fernanda Rodrigues | Publicado originalmente em O Estado de S. Paulo | 02/05/2015, às 20:45

Governo do Acre planeja implantar biblioteca digital


O governador Tião Viana recebeu na Casa Civil na sexta-feira, 24/4, o especialista em políticas do livro e leitura, e co-fundador do projeto de biblioteca digital “Árvore da Leitura”, Galeno Amorim. Acompanhado pelo secretário de Comunicação do governo de Rondônia, Beni Domingues Júnior, o especialista fez uma demonstração do projeto ao governador e à equipe da Secretaria de Comunicação [Secom].

Aonde eu vou, as pessoas falam das bibliotecas do Acre, e falam muito bem. Virou modelo. Um projeto como esse irá fortalecer ainda mais essa referência, não só para o Norte, mas para o Brasil”, afirmou Amorim. O especialista garantiu inicialmente um projeto piloto gratuito, o qual o governador propõe levar a todos os municípios do Acre, já como início da experiência.

A biblioteca digital funciona com uma biblioteca virtual em que o cadastro pode ser feito nas bibliotecas públicas, escolas ou casas de leituras. Então o interessado se cadastra para pegar emprestados livros virtuais [ebooks]. Após o cadastro, o leitor recebe uma senha para acessar o ebook solicitado, que pode ser de, no máximo, três de cada vez, com prazo determinado para a conclusão da leitura. A biblioteca virtual permite ao sistema constatar se a pessoa que pegou o livro, de fato está lendo-o ou não.

O governador Tião Viana disse que um projeto inovador como esse será essencial e planeja avançar não só na oferta em áreas urbanas, mas rurais e até mesmo nas aldeias indígenas. “É um projeto revolucionário que irá promover a educação, a leitura de maneira prática e acessível a todos no estado”, concluiu.

Domingues Júnior contou que Porto Velho já vive a experiência inicial do projeto-piloto, mas no Acre a iniciativa será ainda mais impactante, considerando que será estendida a todos os municípios. “Junto com Rondônia, o Acre será modelo na Região Norte”, acrescentou.

A Árvore da Leitura

A “Árvore da Leitura” possui hoje 14 mil títulos disponíveis para os mais diversos públicos e leitores. O projeto consiste ainda, em palestras virtuais, clubes de leituras e seminários para a formação de professores que irão atuar em projetos específicos. Ela dispõe, ainda, de ferramentas para leitores cegos ou surdos, garantindo a inclusão digital, cultural e social.

O diferencial mais ousado da biblioteca virtual é que ela não fecha nunca e estará sempre disponível para as pessoas, oferecendo a possibilidade de pegar livros sem a necessidade de se deslocar, enfrentar filas, renovar prazos ou devolver o material solicitado. Tudo isso porque o acesso à biblioteca poderá ser feito pelo computador, tablets, e-readers ou smartphones.

Para a secretária de Comunicação, Andréa Zílio, este é mais um projeto que fortalece o incentivo à leitura no estado. “É uma oportunidade muito importante e inovadora pro Acre. Ela incentiva e oportuniza a inclusão do cidadão”, afirmou.

Galeno Amorim

Galeno Amorim é consultor internacional de políticas públicas do livro e leitura. Presidiu a Fundação Biblioteca Nacional [FBN] do Ministério da Cultura de 2011 a 2013, o Comitê Executivo em 2006 e o Conselho [2011/2013] do Centro Regional de Fomento ao Livro na América Latina e no Caribe [Cerlalc/Unesco]. É autor de 16 livros, entre ensaios [como Retratos da Leitura no Brasil] e literatura infanto-juvenil, e especialista em políticas públicas do livro e leitura de organismos internacionais como Unesco e OEI [Organização dos Estados Ibero-Americanos].

Por Ana Paula Pojo | Publicado originalmente em Agência de Notícias do Acre | 24/04/2015

As raridades da Biblioteca Nacional disponíveis a um clique


Biblioteca Nacional DigitalO que membros da corte brasileira comeram durante o último baile do Império na Ilha Fiscal? Como era a planta de um navio negreiro que transportava escravos ou o primeiro atlas impresso? Essas são algumas raridades guardadas na divisão de obras raras da Fundação Biblioteca Nacional [FBN]. Muitas delas estão disponíveis online, e outras podem ser consultadas na própria FBN. A divisão foi criada em meados do século 20, por decreto presidencial, a partir de uma seleção do acervo geral da FBN. Embora não haja número exato de obras, calcula-se que são tantos títulos nessa seção que eles ocupariam uma estante linear de 2,1 km. O exemplar mais antigo foi doado por uma família no século 19. Trata-se de um manuscrito do século 11 com os quatro Evangelhos [Matheus, Lucas, João e Marcos].

PublishNews | 11/02/2015

Escritor e músico Rodrigo Feres lança coleção de eBooks


A ficção científica foi o gênero escolhido pelo escritor e músico Rodrigo Feres para lançar a coleção Levir – junção das palavras Ler e Ouvir. É que, pela primeira vez no Brasil, alguém teve a ideia de juntar texto e música em um livro digital. O ineditismo do projeto de Feres foi atestado pela Fundação Biblioteca Nacional, onde o autor registrou o projeto. Composta por quatro títulos [Nahari, Naloyas, Rehumanos e Lola MTZ-01] e voltada para o público adulto, a Coleção Levir está disponível para download nas lojas Google Play e AppStore [USD 4.99 cada e-book]. Ao percorrer a narrativa, o leitor se depara com palavras destacadas e deve clicá-las para ouvir as canções. Até nove faixas compõe cada conto, todas criadas e interpretadas por Feres.

PublishNews | 03/12/2014

Escritor propõe difusão dos eBooks em programas sociais


O escritor e jornalista Galeno Amorim, ex-presidente da Biblioteca Nacional, veio a Curitiba esta semana para apresentar seus projetos de difusão dos livros digitais como instrumentos de políticas públicas para a área de literatura e incentivo à leitura. Nesta quarta-feira [03] esteve em reunião com a secretária municipal de Educação, Roberlayne Roballo, e com o presidente da Fundação Cultural de Curitiba, Marcos Cordiolli. Nesta quinta-feira [04], visitou a sede da Fundação Cultural e a Casa da Leitura Dario Vellozo [Praça Garibaldi].

Galeno Amorim é diretor do Observatório do Livro e da Leitura e considerado um dos maiores especialistas em políticas públicas do livro e leitura da América Latina. Atualmente desenvolve pesquisas no campo da literatura, especialmente analisando o reflexo das atuais tendências de suportes digitais [e-books] na formação de novos leitores. Ele considera Curitiba uma referência nacional em rede pública de bibliotecas e acredita que a cidade está apta a assumir a vanguarda no uso das plataformas digitais.

Amorim observa que as pessoas aceitam cada vez mais o suporte digital, que na sua opinião não é um substituto do livro e das bibliotecas físicas, mas certamente deve ser valorizado e considerado como mais um instrumento de apoio para os mediadores de leitura. “As pessoas estão tendo uma outra concepção sobre essa tecnologia. Um livro é um livro, não importa o suporte”, diz. O pesquisador acredita também que o papel do mediador de leitura continua sendo indispensável e que o contato humano é imprescindível para orientar e incentivar a leitura.

Galeno Amorim foi responsável pela criação do Plano Nacional do Livro e Leitura [PNLL], dos ministérios da Cultura e da Educação. Na ocasião, dirigiu a área do livro e leitura na Fundação Biblioteca Nacional e no Ministério da Cultura. Criou e dirigiu programas como o Fome de Livro [para zerar o número de cidades sem bibliotecas], o Ano Ibero-americano da Leitura [VivaLeitura], a Câmara Setorial, o Prêmio VivaLeitura e a desoneração fiscal do livro, entre outros. Também integrou os conselhos estaduais de leitura dos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro, e foi secretário municipal da Cultura em Ribeirão Preto, onde iniciou sua carreira. É autor de 16 livros, entre ensaios e literatura infanto-juvenil.

Em sua visita a Curitiba, também foi recebido pelo diretor de Patrimônio Cultural da Fundação Cultura, Hugo Tavares, pela coordenadora de Literatura, Mariane Filipak Torres, e pelo coordenador de Ação Cultural Getúlio Guerra.

Bem Paraná | 5/09/2014

Biblioteca Digital


O principal jornal econômico do País mostra que a Árvore prepara o início de suas operações no mercado nacional indicando Galeno Amorim, ex-presidente da Fundação Biblioteca Nacional, para assumir o comando da companhia. Anuncia investimentos e principais objetivos para 2014.

Valor Econômico | Coluna Avant-première | 17/04/2014, às 05h00

Oito questões sobre as bibliotecas digitais


Joana Monteleone, da Alameda Editorial, analisa o fenômeno que tem dado o tom do mercado editorial nesse momento

A mais recente tendência do mercado de livros eletrônicos, tanto no exterior  quanto no Brasil, é a busca de composição de acervos de bibliotecas digitais. A principal diferença em relação ao modelo de livrarias é que passamos da figura do consumidor de livros para a do usuário de bibliotecas.

Essa diferença não é irrelevante. Provavelmente, os dois modelos conviverão. Mas para que ambos deem certo, é preciso pensá-los em suas especificidades.

No Brasil, há pelo menos três projetos privados significativos em andamento. Todos focam, essencialmente, possíveis compras do poder público, mas também estão em busca do usuário individual, em e-readers, tablets e telefones celulares. São eles o da Nuvem de Livros, da Gol Mobile [em operação]; o Biblioteca Xeriph, ligado ao grupo Abril [em lançamento]; e o Árvore de Livros, representado por Galeno Amorim, ex-presidente da Fundação Biblioteca Nacional [em gestação].

Listamos abaixo oito questões que consideramos relevantes para pensar as bibliotecas digitais.

1. Biblioteca digital não substitui biblioteca física. Ambas são experiências importantes, mas complementares. O Ministério da Educação, que tem a missão de conduzir o cumprimento da Lei da Biblioteca Escolar [12.240/10], sancionada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a gestão de Fernando Haddad como ministro da Educação, não pode abusar do artigo 2º, que permite o uso de vários suportes, para ignorar o fato de que escola sem biblioteca física operando é escola ruim. O grande desafio de melhorar a educação nacional passa por não fingir que gadgets eletrônicos são uma espécie de emplastro Brás Cubas, que tudo cura.

2. Quando o consumidor ou o governo compra um livro, ele adquire um conteúdo específico, unitário. Quando o assunto é biblioteca, busca-se um acervo. Uma livraria vive muito dos livros da estação, que todos querem ler; uma biblioteca é útil quando sua coleção é representativa, seja pela especificidade, seja pela variedade. Uma livraria não deve ignorar a bibliodiversidade [muitos autores, editores, públicos e coleções diferentes], se quer manter um público cativo; uma biblioteca simplesmente não pode.

3. Os editores independentes, boa parte deles reunidos na Libre, mas não apenas, representam o maior e mais diversificado acervo de livros comprados pelas melhores bibliotecas públicas e privadas. Qualquer modelo de livraria digital sério tem de reconhecer este valor, dialogar com esses editores e remunerá-los pela qualidade e importância de seus catálogos. Quem privilegiar apenas os grandes grupos se parecerá com um catálogo de best-sellers, não com uma biblioteca.

4. Livraria não é mídia, é ponto de venda. Biblioteca não é ponto de venda, é espaço de consulta e estudo, muito mais do que de lazer. E isso é bom. Biblioteca que seguir a lógica de ponto de venda não vai funcionar, assim como crescem rápido, mas paradoxalmente afundam, sobretudo culturalmente, mas também do ponto de vista de sustentabilidade econômica, livrarias que vendem espaços como se fossem outdoor.

5. Remunerar bem apenas quem é mais acessado é reproduzir na biblioteca a lógica da livraria que vende espaço de mídia. Ou seja, o pior dos mundos.

6. Um dos motivos do fracasso relativo da biblioteca pública como instituição nacional, amplamente difundida no território do país, é que muitos políticos as entendem como depósito de livros, e o usuário é visto primeiro como potencial ladrão de exemplares do que como alguém que acessa o serviço público. O mínimo que se espera do universo eletrônico é que ele proporcione conforto ao usuário, e excesso de restrições não vai ajudar as bibliotecas digitais a se popularizar.

7. Numa biblioteca digital, o usuário não pode ter as mesmas restrições que numa biblioteca física, como pegar fila para acessar um livro ou ter pouco tempo para ler uma obra. Aliás, o ideal é que nesse novo mundo, o tempo não seja uma questão.

8. A prestação de contas aos fornecedores e usuários tem de ser, ao mesmo tempo, a mais simples e detalhada possível. As bibliotecas são, tradicionalmente, um espaço de questionamento e transparência. Criar uma relação de confiança entre todos os envolvidos é fundamental.

Por Joana Monteleone | PublishNews | 21/02/2014 | Joana Monteleone, historiadora, é editora da Alameda.

Novo capítulo


Chegada dos livros eletrônicos da Amazon e do Google Play abre nova fase na venda de conteúdo digital. Mas o Brasil está preparado?

SÃO PAULO | Os livros digitais ou e-books chegaram de vez ao Brasil, país que não só ainda tem uma baixa penetração de e-readers e tablets como também índices baixíssimos de leitura. Amazon, Google, Apple e Kobo estão ansiosos para ver suas lojas virtuais jorrando livros digitais, mas há dúvidas sobre se ou quando isso realmente acontecerá.

O brasileiro em geral lê pouco. Mas a gente pode atingir um novo público atraído pelo digital”, diz Fabio Uehara, responsável pelos negócios digitais da Companhia das Letras. “Se não tem tantas livrarias quanto se deveria, agora com um ponto de internet e um tablet ou e-reader é possível comprar qualquer livro, e tanto faz se estou em São Paulo ou no Oiapoque.

Kindle | FOTO: Helvio Romero | Estadão

Kindle | FOTO: Helvio Romero | Estadão

As livrarias estrangeiras levaram mais tempo para chegar do que o planejado e chegaram com preços não tão baixos quanto o esperado.

Boa parte da responsabilidade é das editoras. Elas se debruçaram sobre os imensos contratos, refizeram alguns acordos mais antigos com autores [de quando não se previa o formato digital], bateram o pé para o preço não ser menor do que 70% do valor do livro físico e demoraram para aprender a converter seu catálogo da forma correta.

Acho que as editoras brasileiras foram muito espertas ao negociar com esses players internacionais”, diz Edward Nawotka, editor do site Publishing Perspectives, especializado no setor. “Elas conseguiram obter contratos de vendas realmente decentes da Amazon. Problemas podem surgir se a Amazon adquirir muita fatia de mercado, então eles passarão a exercer pressão sobre as editoras por acordos melhores para eles, como aconteceu nos Estados Unidos.

Por aqui, a Associação Nacional das Livrarias também se arma. Em uma carta aberta, ela defendeu que lançamentos demorem 120 dias para chegar ao digital. “É bom que o livro digital venha, mas é importante que as livrarias sobrevivam”, diz o vice-presidente da ANL, Augusto Kater. A medida, para a presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros, Sônia Machado Jardim, só incentivaria mais a pirataria que, para ela, é o “maior inimigo”. “Se o livro que estiver bombando não estiver no digital, as pessoas vão escanear e lerão do mesmo jeito.

Na questão do preço, o Brasil seguiu uma espécie de convenção internacional que limita em 30% o desconto do livro físico para o digital. Isso garante competitividade ao papel, mas não anima o consumidor.

Para analistas, o mercado de e-books deverá ficar restrito a um pequeno público, composto basicamente de pessoas de renda mais alta e que já tenham tido contato com dispositivos móveis de leitura. “Quem compra livros impressos hoje, com preços médios de R$ 50, não terá dificuldade em adquirir e-readers”, diz Gerson Ramos, consultor de mercado editorial para a Nielsen e para a Fundação Biblioteca Nacional. “Estamos falando de um poder aquisitivo bem maior do que a média – grande parte inclusive já possui tais aparelhos.

Ramos diz ainda que o e-reader da Amazon oferece os melhores preços de e-books no Brasil – mas tem limitações. “O Kindle, por ser um aparelho de uso exclusivo tende a ter um alcance menor, pois além de tudo, ele não permite outras funcionalidades além da leitura de e-books.

Há quem aposte no fracasso dos e-readers [que tiveram suas vendas reduzidas em 75% entre o fim de 2011 e o início de 2012] diante dos tablets. Além de serem multifuncionais, os aparelhos estão ficando mais baratos – caso do Kindle Fire e do Google Nexus 7, com preço inicial de US$ 200 – e não demoraram para aterrissar por aqui.

Sai ganhando o aparelho mais amigável e o que oferecer conteúdo mais barato. A Livraria Cultura e seu Kobo, Google e Apple aceitam ler e-books de outras empresas [basta baixar o respectivo aplicativo]. Resta saber se Kindle, restrito apenas ao formato da Amazon e preço de R$ 300 no Brasil, terá aqui a mesma adesão que tem lá fora.

Estantes

Por Murilo Roncolato | Publicado originalmente em LINK | 9 de dezembro de 2012, às 19h21

Brasil, eBooks, educação e tecnologia


Por Octavio Kulesz | Publicado originalmente em PublishNews | 17/09/2012

Non ducor, duco

Com seus 11 milhões de habitantes – 20 milhões, se incluirmos as cidades ao redor – e um PIB de mais de 300 bilhões de dólares, São Paulo representa o principal polo industrial e financeiro da América do Sul. Cerca de 6 milhões de automóveis transitam por sua gigantesca rede de estradas, avenidas, túneis, pontes e viadutos. Escapando do trânsito,incontáveis passageiros são transportados pelas diferentes linhas de metrô, enquanto no ar, um enxame de helicópteros aguarda o momento propício para descer no terraço de algum arranha-céu.

A cidade transmite uma intensidade extraordinária, é absolutamente multicultural e absorve tudo o que chega de fora – costumes, roupas, comidas e até palavras – com a mesma naturalidade que uma selva tropical assimila espécies novas. No entanto, tal facilidade não deveria criar nenhuma confusão: longe de adaptar-se passivamente às tendências da moda, São Paulo transforma todas a seu favor, o que talvez explique a máxima em latim que adorna sua bandeiranon ducor, duco – “não sou conduzido, conduzo”.

CONTEC: educação e tecnologia

Felizmente, a cidade conta com espaços de serenidade. O Parque Ibirapuera é um dos mais importantes de São Paulo: possui belíssimos lagos, fontes e árvores, assim como uma rica oferta cultural. No centro dele ergue-se o Auditório Ibirapuera, concebido há várias décadas pelo genial arquiteto Oscar Niemeyer e atualmente administrado pelo Instituto Itaú Cultural.

O Auditório destina-se geralmente a grandes espetáculos musicais, mas durante os dias 7 e 8 de agosto serviu de sede para o evento CONTEC, uma conferência internacional sobre educação e tecnologia organizada pela Feira do Livro de Frankfurt [FBF] – em especial por suas divisões LitCam e Frankfurt Academy –, que contou com o apoio de atores locais como PublishNewsAbeu, o Instituto Itaú Cultural, a Câmara Brasileira do Livro [CBL] e a Positivo, entre outros. Quase 700 pessoas, majoritariamente jovens, assistiram a debates atuais sobre a questão do analfabetismo, os planos de leitura do Estado brasileiro, as iniciativas de empresas locais e as incursões das empresas internacionais.

Pelo que se pôde ver, o Brasil se prepara para um grande salto tanto em educação quanto em tecnologia. Como deixou claro Karine Pansa – diretora da CBL – na abertura do evento, o Brasil ainda é um país desigual, mas a universalização da educação primária, o investimento em qualidade educativa e as novas tecnologias acabarão sendo fatores decisivos na consolidação de um mercado leitor. Para conseguir estes objetivos, o país “terá que aprender das nações que já deram esse salto”.

Um Estado poderoso

André Lázaro – que foi secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade durante a presidência de Lula da Silva – enumerou as conquistas e desafios dos planos nacionais de luta contra o analfabetismo, assim como a necessidade de trabalhar com força neste âmbito, a fim de conseguir uma democracia melhor. Como lembrou Lázaro, ainda persistem fortes diferenças entre o rico sudeste e o nordeste mais pobre, assim como entre as cidades e o campo.

Lúcia Couto – atual coordenadora geral de Ensino Elementar do Ministério da Educação – descreveu as diferentes ferramentas utilizadas pelo Estado para universalizar a alfabetização das crianças. O Brasil está discutindo atualmente os detalhes do Plano Nacional de Educação, que poderia elevar o investimento educativo a 10% do PIB nos próximos 10 anos.

Os esforços do setor público também vêm da área da cultura. Galeno Amorim – presidente da Fundação Biblioteca Nacional – expôs detalhes do Plano Nacional do Livro e da Leitura. Como apontou o presidente da FBN, o Ministério da Cultura designou quase 200 milhões de dólares a diversas iniciativas de fortalecimento das bibliotecas e de estímulo à leitura que serão realizadas até o final do ano.

Brasil na vanguarda tecnológica

Se o setor público dá sinais de se mover com decisão, as empresas privadas não ficam atrás, embora sejam conscientes de que falta muito por fazer. Cláudio de Moura Castro – assessor do poderoso grupo Positivo – afirmou que apenas 18% dos universitários possuem o hábito da leitura e que um número significativo de alunos são, na verdade, analfabetos funcionais; de fato, em todo o Brasil existem tantas livrarias quanto na cidade de Paris.

O matemático José Luís Poli – do Programa de Alfabetização em Língua Materna [PALMA], desenvolvido pela empresa IES2 – confirmou o diagnóstico negativo a respeito dos milhões de analfabetos plenos e funcionais, mas se mostrou otimista sobre as soluções aportadas pelas novas tecnologias. PALMA funciona como um conjunto de aplicativos para celulares e oferece diferentes ferramentas de escrita e compreensão de textos. É importante lembrar que no Brasil existem mais de 250 milhões de celulares – o que equivale a uma penetração de 130% – dos quais ao redor de 54 milhões são 3G. Por outro lado, os fortes investimentos em infraestrutura 4G que se avizinham permitem supor que a telefonia móvel desempenhará um papel ainda mais vital na comunicação brasileira.

Brasil 2.0

As redes sociais constituem outro dos fatores decisivos no mundo da comunicação do Brasil. O país conta com mais de 55 milhões de contas de Facebook – segundo, depois dos EUA, no ranking global de usuários. A rede social Orkut, que no Brasil é administrada pela Google, perdeu sua liderança no final de 2011, mas ainda conta com uma considerável massa de seguidores. Em relação ao Twitter, o Brasil também segue os EUA no número total de usuários, sendo São Paulo a quarta cidade com maior número de tweets do mundo, só atrás de Jacarta, Tóquio e Londres. Durante a conferência CONTECa escritora carioca mais de 200.000 leitores que a seguem.

Os meios sociais do Brasil vão, inclusive, além do Facebook, Orkut ou Twitter. Já surgiram redes locais organizadas por núcleos de interesse, que mostram uma atividade notável. Na mesa que tive a oportunidade de moderar, Viviane Lordello deu algumas cifras do Skoob, a maior rede social de leitores do Brasil: uns 600.000 internautas trocam recomendações, notas e até livros físicos que são enviados por correio postal; estes usuários são de todo o território brasileiro, no entanto mais de 45% vive em São Paulo. Também é preciso destacar o trabalho realizado pela Copia, uma plataforma de conteúdos digitais dependente do grupo DCM dos EUA; Marcelo Gioia – CEO do Copia Brasil – enumerou durante a CONTEC os planos da empresa em nível local, especialmente depois de ter fechado uma aliança com o Submarino, a principal empresa de comércio eletrônico da América Latina: desta união de forças surgiu o Submarino Digital Club, uma rede social na qual os usuários podem compartilhar anotações assim como comprar e descarregar e-books.

Local e global. CONTEC 2013

A necessidade de estabelecer alianças locais foi em parte discutida durante a sessão “Visão panorâmica: olhando a bola de cristal”, na qual participaram Tânia Fontolan – do conglomerado brasileiro Abril Educação – e Hegel Braga – diretor da Wiley Brasil – sob a coordenação de Holger Volland. Fontolan começou explicando a forma como a Abril Educação vê o mercado educativo local nos próximos anos: crescimento dos conteúdos na nuvem; proliferação de tablets e celulares; aprendizagem baseada em videogames e conteúdo aberto. Braga, por seu lado, ofereceu detalhes sobre as ações da Wiley no Brasil: a empresa abriu um escritório próprio em São Paulo há poucos meses: dali espera desenvolver acordos com sócios locais e trazer tecnologia do exterior para ajustá-la ao cliente brasileiro. Tânia Fontolan concordou com a importância de trabalhar com alianças locais, embora tenha se mostrado cética a respeito da ideia de implantar soluções tecnológicas fechadas, pois em muitas ocasiões estas se mostraram simplesmente inadaptáveis.

Jurgen Boos e Marifé Boix García – respectivamente diretor e vice-diretora da FBF – sublinharam seu compromisso de longo prazo com o Brasil e a América Latina, ao mesmo tempo em que anunciaram uma nova edição da CONTEC para junho de 2013, desta vez na forma de uma feira internacional de conteúdos e educativos e multimídia, com dias diferenciados para os profissionais e para o público. A FBF já conta com delegações de Nova Délhi, Moscou, Beijing e Nova York, e logo abrirá um escritório em São Paulo. Segundo Jurgen Boos, as redes e o know how da FBF podem ser de grande ajuda para a indústria editorial brasileira:

“O Brasil tem um mercado interno enorme, com quase 200 milhões de pessoas. No entanto, está muito focado no local, ainda carece de contatos internacionais e é aí onde acho que nós podemos desempenhar um papel importante. Gostaríamos também de trabalhar com as universidades brasileiras, porque considero que tudo que fizermos deverá ser local. Podemos trazer nossa experiência, mas são necessários profissionais do mercado local.”

eBooks na Bienal: um futuro entre o EPUB e a nuvem

No dia 9 de agosto, a uns 12 quilômetros do Parque Ibirapuera – no centro de exposições do Anhembi – foi inaugurada a 22ª Bienal do Livro de São Paulo, sob o lema “Os livros transformam o mundo, os livros transformam as pessoas”. A exposição durou 11 dias e foi visitada por mais de 750.000 pessoas, confirmando o dinamismo de uma indústria editorial que fatura quase 2,5 bilhões de dólares anuais.

Em comparação com os estandes de livros impressos, o espaço dedicado aos e-books era bastante limitado, o que acaba sendo coerente com a baixa faturação que apresenta o segmento digital: na verdade, os livros eletrônicos equivalem hoje a menos de 1% do total de ingressos da indústria editorial brasileira. Apesar disso, algumas tendências permitem antecipar um crescimento acelerado do novo mercado.

Como afirmamos antes, são numerosas as empresas estrangeiras que trabalham com aliados nativos para oferecer conteúdos digitais cada vez mais adaptados aos leitores locais. Graças ao lançamento de sua rede social de livros digitais – resultado do acordo com a Copia – o estande da Submarino foi um dos mais concorridos da Bienal.

Por outro lado, a considerável capacidade de investimento dos players autóctones possibilitou o surgimento de plataformas originais como Nuvem de Livros, desenvolvida pelo Grupo Gol, em associação com a operadoraVivo-Telefônica: durante a Bienal, os estudantes puderam se informar sobre as funcionalidades e custos desta plataforma na nuvem, que conta com 800.000 usuários e que por menos de 2 reais por semana oferece acesso a cerca de 6.500 títulos.

Da mesma forma, as editoras nacionais estão trabalhando ativamente na digitalização de seus catálogos, embora ainda haja muito a melhorar: segundo a especialista Camila Cabete, mais de 60% dos arquivos EPUB brasileiros apresentam erros de estruturação. De qualquer forma, a migração já começou: os títulos publicados em formato digital chegaram, em 2011, a 9% do total de obras registradas. Diversas editoras passaram à ofensiva comercial, em especial no terreno do livro científico: Atlas, GENEditora Saraiva e Grupo A uniram forças para oferecer seus títulos através do Minha Biblioteca, uma plataforma de conteúdo digital pensada para o mercado acadêmico.

Quem quer colocar [Kindle] um fogo [Fire] na Amazônia?

O dia 10 de agosto foi a data chave para os e-books durante a Bienal. Ao longo de toda essa jornada – “o dia D” – o público pôde escutar diferentes protagonistas da cena digital: Andrew Lowinger da Copia, Marie Pellen da OpenEdition, Jesse Potash da Pubslush, Júlio Silveira da Imã, Eduardo Melo da Simplíssimo, Marcílio Pousada da Livraria Saraiva e Russ Grandinetti da Amazon Kindle. Depois da primeira conferência, os organizadores foram obrigados a mudar o evento para uma sala maior, já que o número de participantes tinha superado as expectativas.

Quando chegou a vez de Russ Grandinetti, nem sequer a nova sala foi suficiente para conter os interessados, e um grande número de ouvintes ficou de fora. O executivo esclareceu logo no começo que não daria nenhuma data para o desembarque da Amazon no Brasil e se limitou a enumerar os pontos positivos do e-reader Kindle e o tablet Fire. Carlo Carrenho – diretor do PublishNews – coordenou o diálogo entre Grandinetti e o público, e no final lembrou uma frase de Jeff Bezos: “Quero ir à lua… e ao Brasil”, o que levou a uma pergunta que o público celebrou com gargalhadas: “Quando pensam em abrir essa filial lunar, então?” É que o lançamento da Amazon no Brasil já demorou muito – talvez um sinal de que as coisas não eram tão simples quanto pareciam. Às complexidades impostas somam-se obstáculos impensados: por exemplo, até muito pouco tempo, o domínio amazon.com.br era propriedade de uma empresa local; demorou 7 anos para a Amazon EUA conseguir um acordo com sua contraparte brasileira – porque não era simples para os norte-americanos alegarem seu direito sobre a marca, já que o rio Amazonas [“Amazon” em inglês] se encontra precisamente no Brasil. Em todo caso, a empresa de Seattle parece disposta a fazer o que for necessário para se estabelecer na América do Sul – desde adquirir empresas nativas até operar sob uma denominação diferente, entre outras alternativas.

Imediatamente depois da Amazon, chegou a vez da livraria Saraiva. Nesse momento, eram tantas as pessoas na sala que a situação se assemelhava mais a um show de rock do que a uma conversa sobre e-books. Marcílio Pousada lembrou a importância de contar com 102 lojas em todo o território brasileiro e de ser um dos principais vendedores de tablets e de livros a nível nacional. Vale a pena sublinhar que a Saraiva possui mais de 2 milhões de clientes ativos em sua divisão eletrônica. Graças a uma equipe de 60 pessoas dedicadas ao desenvolvimento digital, implementou seu próprio aplicativo de leitura e outras iniciativas pensadas especificamente em função do leitor local. Este potencial concorrente da Amazon oferece hoje em torno de 10.000 títulos em língua portuguesa e espera somar outros 5.000 até dezembro.

Quem manda no baile

No Brasil, confluem hoje forças muito poderosas, provenientes tanto do interior quanto do exterior. Como rios caudalosos que se interconectam, o setor público, as empresas locais e as empresas globais formaram um ecossistema rico e dinâmico. Este diagnóstico poderia ser aplicado a diferentes áreas da economia, por exemplo a de infraestrutura de transportes, tal como pôde ser visto nos recentes anúncios do governo para a construção de ferrovias e estradas.

No âmbito das publicações digitais, a sinergia entre os players públicos e privados, locais e globais, é especialmente clara. A envergadura dos atores envolvidos permite supor um crescimento acelerado tanto da oferta de conteúdos quanto dos ingressos econômicos. O país tem tudo para ganhar com o desembarque das multinacionais do e-book: as empresas brasileiras recebem uma forte transferência de tecnologia do exterior, ao mesmo tempo em que os consumidores nacionais têm acesso a plataformas e dispositivos de primeiro nível.

Apesar disso, também é preciso avisar que existe o perigo de uma saturação da oferta. Na verdade, muitos de meus interlocutores brasileiros estavam surpresos pelo otimismo excessivo manifestado pelas empresas internacionais, que acham que este mercado é um novo Eldorado, a ansiada fuga da crise econômica que afeta suas matrizes. E o certo é que – tal como sublinharam os criadores de políticas durante a conferência CONTEC– o Brasil continua enfrentando desafios cuja solução exigirá muito tempo e grande esforço.

De qualquer forma, apesar de todas as dificuldades, o país ganhou uma relevância ineludível e já dialoga de igual para igual com os titãs da indústria eletrônica global. E o Brasil – com seu ativo setor público, suas poderosas empresas e seu povo extraordinário – está decidido a conduzir o baile, não a ser conduzido.

Por Octavio Kulesz | Publicado originalmente em PublishNews | 17/09/2012

Octavio Kulesz é formado em Filosofia pela Universidade de Buenos Aires e atualmente dirige a Teseo, uma das

Octavio Kulesz

principais editoras digitais acadêmicas da Argentina. Em 2010, criou a rede Digital Minds Network, junto com Ramy Habeeb [do Egito] e Arthur Attwell [da África do Sul], com o objetivo de estimular o surgimento de projetos eletrônicos em mercados emergentes. Em 2011, escreveu o renomado estudo La edición digital en los países en desarrollo, com apoio da Aliança Internacional de Editores Independentes e da Fundação Prince Claus.

Sua coluna Sul Digital busca apresentar um panorama dos principais avanços da edição eletrônica nos países em desenvolvimento. Tablets latino-americanos, leitura em celulares na África, revoluções de redes sociais no mundo árabe, titãs do hardware russos, softwares de última geração na Índia e colossos digitais chineses: a edição digital no Sul mostra um dinamismo tanto acelerado quanto surpreendente.

Biblioteca Nacional Digital


A BNDigital foi criada com uma dupla missão: preservar a memória documental; permitir o acesso múltiplo, simultâneo e sem fronteiras ao acervo em domínio público da Biblioteca Nacional. Oficialmente lançada em 2006. A BNDigital integra coleções que desde 2001 vinham sendo digitalizadas no contexto de exposições e projetos temáticos, em parceria com instituições nacionais e internacionais. O ambiente virtual da BNDigital, além do acervo digitalizado, que já atingiu a faixa de mais de 25.000 itens ou 6.000.000 de páginas, reúne também exposições virtuais, sites temáticos e projetos com parcerias nacionais e internacionais. Para conhecer a BNDigital clique aqui.

Patrimônio Cultural | quinta-feira, 23 de agosto de 2012

CBL investe R$ 197 mil no CANAL


Um projeto da Câmara Brasileira do Livro [CBL] que começou a ser desenhado há cerca de dois anos começa a sair do papel agora, com o objetivo de instituir um novo padrão de cadastramento para todos os livros publicados no Brasil, como já acontece em outros países. A promessa é que, a partir dessa iniciativa, as editoras passem a atualizar informações completas sobre seus catálogos seguindo as mesmas diretrizes e disponibilizando os dados de forma eletrônica e instantânea a todos os interessados: canais de venda, bibliotecas, leitores etc. Em resumo, a ideia é fazer com que o mercado editorial tenha acesso a informações atuais e precisas, de maneira mais prática e eficiente do que acontece hoje.

Batizada de Cadastro Nacional do Livro [CANAL], a plataforma recebeu até agora investimentos de R$ 197 mil por parte da CBL, de acordo com Karine Pansa, presidente da entidade. Ela destaca que o aporte é significativo, comparável ao custo do Censo do Livro, que é realizado anualmente pela Fipe com recursos da CBL e do Snel, o sindicato dos editores.

Este mês, o CANAL entra em período de testes com a participação de cinco editoras selecionadas pela CBL – entre elas a Saraiva, Gente e Loyola –, que começam a experimentar a plataforma. A expectativa da entidade é que a fase “beta” do projeto aponte o que precisa ser corrigido, para que o lançamento oficial do mesmo aconteça no segundo semestre do ano.

De forma simplificada, o CANAL é um software que estabelece uma série de campos que devem ser alimentados com os dados de cada livro – os “metadados”, em linguagem técnica. As editoras deverão preencher no mínimo 17 campos obrigatórios [como título e ISBN], mas há até 170 que elas podem utilizar, o que permite montar um banco de dados bastante refinado – há a possibilidade de incluir a capa e trechos da obra, por exemplo. As informações também seguem uma ordem definida.

Todo esse modelo é dado pelo Onix for Books, um padrão de intercâmbio de dados que surgiu em 2000 e, hoje, em sua terceira versão, é considerado o padrão internacional de informação eletrônica para a indústria do livro. Os mercados editoriais dos Estados Unidos, Inglaterra, Espanha e Alemanha já utilizam o Ônix de forma corrente, segundo Karine Pansa. A adoção do Ônix foi definida dentro do grupo de trabalho de metadados do Cerlalc, órgão de fomento do livro na América Latina ligado à Unesco, do qual a CBL participa.

De acordo com a presidente da entidade, a utilização do CANAL por parte das editoras oferecerá uma série de vantagens. “O editor poderá gerir todo o seu catálogo por meio dessa plataforma, atualizando as informações e indicando, por exemplo, quais livros estão disponíveis ou esgotados”, afirma. “Essas informações estarão acessíveis ao mesmo tempo às livrarias, sites de comércio eletrônico, bibliotecas, enfim, a todos os interessados.” Segundo Karine, hoje, no país, esse processo acontece “manualmente”. “As livrarias têm equipes de funcionários só para receber relatórios mensais das editoras e atualizar os sistemas com as informações atualizadas.” Com o CANAL, a editora poderá atualizar as informações e as mesmas estarão disponíveis, ao mesmo tempo, para todo o mercado.

Karine destaca que a Biblioteca Nacional também vai ser beneficiada pelo uso da plataforma, pois poderá receber de volta, com mais facilidade, as informações corretas sobre os livros publicados – isso porque muitos dos dados informados pelas editoras ao pedir o ISBN dos livros ainda não são os definitivos.

O CANAL deverá ir ao ar com 450 mil títulos já cadastrados, cujos dados são provenientes da BN. Mas caberá às editoras atualizar todo esse mar de informações. A partir do lançamento oficial do projeto, a CBL informa que iniciará uma programação de cursos e palestras para ensinar e conscientizar o mercado sobre o uso da plataforma.

Para conhecer melhor o projeto, você pode acessar dois sites: o http://www.cbl.org.br/canal e o http://www.canal.org.br.

Por Roberta Campassi | PublishNews | 16/02/2012

Com tablets, empréstimo de e-books é desafio para bibliotecas


Com a popularização dos tablets, o empréstimo de livros virtuais virou um desafio para as bibliotecas

Com a popularização dos e-readers [leitores eletrônicos] entre alunos, o empréstimo de livros nas escolas brasileiras passa por um processo de adaptação. Colégios públicos e particulares investem e incentivam o uso de tablets e similares, e os estudantes começam a se familiarizar com a leitura de textos virtuais em dispositivos portáteis. Mas como as bibliotecas estão lidando com essa nova plataforma de leitura? Na 15ª Bienal do Livro, no Rio de Janeiro, ocorrida no início de setembro, dois dias foram dedicados à discussão do papel da biblioteca no empréstimo de e-books, da democratização no acesso à leitura e dos desafios impostos com o surgimento de novas tecnologias, um cenário inimaginável há menos de duas décadas, quando existiam poucos aparelhos e eles ainda eram grandes e caros.

Conforme explica o presidente da Fundação Biblioteca Nacional, Galeno Amorim, há duas linhas principais em estudo que se apresentam como possibilidades para implantação de uma biblioteca para empréstimo de e-books no Brasil. “Uma delas, que vigora na Europa e nos Estados Unidos, indica o empréstimo de livros que são baixados e, depois de alguns dias, desaparecem do suporte utilizado, fazendo com que termine o prazo de uso. A outra se daria por meio do ciberespaço, da chamada ‘nuvem’. Dentro desse conceito, os livros ficariam em uma rede disponível a todos e o leitor não chega a baixar os arquivos. Neste caso, haveria a necessidade de pagar uma mensalidade para que o usuário acessasse as obras“.

Desde o último dia 5, a Gol Editora já disponibiliza uma biblioteca virtual no endereçowww.nuvemdelivros.com.br. “Temos dados que nos propiciam fazer uma biblioteca em nuvem no Brasil, e fazendo com que isso seja popular. O País é o terceiro mercado de computadores do mundo e tem a quinta maior planta de celulares, com mais aparelhos do que habitantes. Esses são fatores que favorecem a implantação de uma rede para a leitura virtual“, afirma Jonas Suassuna, presidente do grupo, que pretende disponibilizar seis mil obras a partir de outubro ao custo de R$ 0,99 por semana. Esse modelo, no entanto, não é unanimidade. “O Brasil é um muito País muito grande e com peculiaridades bem distintas em cada região. Creio que para alcançarmos a tão falada inclusão digital, o ideal seria que o empréstimo de livros virtuais fosse gratuito, como nas bibliotecas convencionais“, detalha a professora do curso de biblioteconomia da Universidade Federal de Brasília [UnB], Mônica Regina Perez.

Os piratas do Brasil – Segundo dados da Associação Brasileira de Direitos Reprográficos, quase 200 mil downloads ilegais de livros foram realizados no País nos últimos dois anos por meio de 50 mil links “alternativos”. “Na França, em 2010, o número de livros pirateados foi de, no máximo, 3%. Ou seja, existe segurança para que o empréstimo e a comercialização não sejam irregulares“, comenta Amorim. Sócia-proprietária do site de hospedagem e gerenciamento virtual de livros Alexandria Online, Raquel Mattes acredita que o download ilegal é “uma resposta ao preço caríssimo das obras“.

“Durante o governo Lula, os livros foram desonerados de qualquer imposto e, mesmo assim, os preços não baixaram. Esse tipo de pirataria só pode ser combatida quando tivermos preços acessíveis à população”, diz.

Para Suassuna, a utilização da nuvem seria uma forma de combater a pirataria, já que não é possível baixar o livro e, assim, não daria para copiá-lo. Livros na rede sem qualquer custo – Enquanto se discute a melhor forma de distribuição do conteúdo, projetos como o Domínio Público [www.dominiopublico.gov.br], do governo federal, que disponibiliza, por exemplo, a obra completa de Machado de Assis, e o Gutenberg [www.gutenberg.org], em inglês,  que busca a democratização da leitura por meio da distribuição gratuita de livros em formato digital, ganham espaço. Em ambos os casos, são colocados à disposição do internauta obras cujos direitos autorais já estão liberados para uso. Com uma proposta um pouco diferente, o Scridb [pt.scribd.com] se anuncia como “o maior clube do livro do planeta”. Nele, o leitor compartilha textos com outras pessoas e pode, assim como nos sites já citados, encontrar algumas obras de livre circulação. O problema segue sendo as obras “fechadas”, cujo interesse econômico por trás ainda vigora.

Empreste um livro para um amigo – Para esses casos, ainda existe a possibilidade de uma troca entre amigos, que segue viva nas plataformas virtuais. O mais popular leitor de e-books da atualidade, o Kindle, da Amazon, permite o empréstimo de livros virtuais desde novembro do ano passado. O processo é feito de um equipamento para o outro. O usuário que empresta fica 14 dias sem acesso à obra para que o amigo possa ler. Depois desse tempo, ela é bloqueada para quem pegou emprestado e “devolvida” ao dono. Processo muito semelhante a um empréstimo de um livro de papel.

Independentemente da postura adotada, o importante é procurar uma adequação às mudanças que a tecnologia impõe ao hábito de ler. “A biblioteca precisa buscar alternativas para se adaptar a esse processo. A tecnologia está disponível em qualquer lugar e a qualquer momento, e não necessariamente onde está a biblioteca. Logo, ela não pode mais esperar que o usuário vá até a instituição para buscar títulos ou realizar pesquisas, ela precisa ir onde o leitor estiver, disponibilizado obras raras e coleções exclusivas, para atrair o mesmo”, ressalta o professor de tecnologia da informação da Universidade Federal do Espírito Santo [Ufes], Antônio Luiz Mattos. A biblioteca da Ufes já começou a selecionar obras para compor seu acervo de livros virtual.

Terra Educação | 26/09/2011

“É hora de o Brasil pensar nos seus acervos digitais”


Ao tentar fazer uma anotação, Aquiles Alencar-Brayner, de 40 anos, apalpa o paletó, instintivamente, procura algo nos bolsos, mas logo ri do próprio gesto. Há tempos não carrega caneta. Saca então o telefone e, em instantes, escreve o lembrete. Entusiasta das possibilidades da informação digital, o curador do acervo eletrônico da British Library esteve no Brasil para participar do seminário “Ebooks e a democratização do acesso”, na 15ª Bienal do Livro. Antes de voltar para Londres, onde vive há 13 anos, e dar uma passadinha em Fortaleza para matar as saudades da família, o cearense teve uma reunião com o presidente da Biblioteca Nacional, Galeno Amorim, a portas fechadas. Literalmente. Com a greve dos servidores do Ministério da Cultura, a biblioteca não abre desde 22 de agosto. Aquiles emprestará seu know how a projetos que vão ampliar o acesso ao conteúdo digital da instituição, o que inclui o empréstimo de leitores digitais (ereaders) e ebooks ao público. Entre um compromisso e outro no Rio, conversou com a Revista O GLOBO.

REVISTA O GLOBO: O que ficou acertado nesta reunião com Galeno Amorim?

AQUILES ALENCAR-BRAYNER: Estou ajudando a desenvolver o programa para ampliar o acesso ao acervo digital da Biblioteca Nacional, em comemoração aos 200 anos da instituição, agora em 2011. Galeno tem uma visão muito interessante sobre essa área digital. O que a gente quer fazer é ampliar o acesso ao material digitalizado que já existe na biblioteca e implementar o serviço de empréstimo de ebooks.

Qual será o primeiro passo?

A questão do armazenamento. É preciso ter um servidor potente que possa responder à demanda dos usuários. Se a gente pensar em liberar mais documentos, temos que pensar nessa estrutura antes.

O empréstimo de ebooks não tiraria leitores da biblioteca?

Fala-se muito da morte da biblioteca, que é possível buscar a informação que você quiser de qualquer lugar. Mas acho que hoje em dia a biblioteca deve ser, antes de tudo, uma prestadora de serviços. Ela tem de reunir a informação e oferecer um contexto onde esta informação possa circular. A biblioteca não é só um espaço físico, é um serviço. Que pode nem existir fisicamente.

Como é seu trabalho na British Library?

Eu já desenvolvia projetos digitais dentro do acervo latino (Aquiles entrou na BL em 2006, como curador do acervo latino-americano da instituição), quando fiz minha tese de doutorado sobre arquivos de páginas web. Abriram esta vaga de curador digital no ano passado, que até então não existia. Fiz o concurso interno e passei. E o trabalho é basicamente gerenciamento de projetos digitais. É pensar no usuário que a gente vai servir no futuro. A biblioteca é muito visionária neste sentido. Como o pesquisador vai acessar este conteúdo daqui a 20 anos? Já se fala hoje em dia na morte da World Wide Web, então temos que pensar que o futuro serão os aplicativos. E já estamos montando estes aplicativos (no mês passado, a BL lançou 45 mil clássicos em formato de aplicativo para iPad).

Esta tecnologia é viável no Brasil?

É uma tecnologia cara, sim, mas a gente conta com a expertise de colegas. A minha vinda aqui tem a ver com isso, também. Venho contribuir com a minha experiência de fora.

Não é precipitado discutir empréstimo de e-books numa biblioteca que não tem ainda nem internet para o pesquisador?

Se a gente for pensar assim, ninguém tem estrutura para nada. Estrutura a gente cria. É preciso pensar agora, já. Os formatos mudam o tempo todo, os consumidores, no caso, os usuários, mudam as mentalidades. Se a gente não for atrás disso agora, vai ficar obsoleto, e aí, sim, vai ser o fim. Mas é claro que é preciso fornecer a estrutura básica que vai oferecer ao usuário esta conexão.

De que maneira a sua experiência à frente da curadoria do acervo latino-americano da BL pode ser aproveitada nesses projetos para o Brasil?

Basicamente, network. Quero convidar colegas de bibliotecas latino-americanas para colaborar. Um dos projetos que tenho com Galeno é fazer um catálogo integrado de acervos latino-americanos. Juntar as coleções e já disponibilizar tudo digitalizado. Difunde-se a ideia de um continente unido ao mesmo tempo em que possibilita a troca intercultural. Como faz a Europeana, por exemplo.

Você acredita que esse fôlego digital possa trazer mais usuários à BN?

Não necessariamente para o espaço físico da biblioteca, mas usuários do serviço, sim.

O acervo eletrônico pode ser uma solução para a falta de espaço das bibliotecas?

Ele gera outro problema de espaço, que é o espaço eletrônico. Para caber isso tudo são necessários servidores potentes. Você não põe um livro digital na estante, você mantém um sistema funcionando. Tem que fazer atualizações constantes, migrar formatos. Por isso, já é hora de o Brasil pensar nos seus acervos digitais.

Em que medida o acervo digital é mais democrático?

Ter acesso a um conteúdo onde quer que você esteja é democratização. Mas claro que esta democratização pode ser questionada na questão da conectividade. Quem tem acesso? A Inglaterra tem um plano de inclusão digital bem estruturado para os próximos anos. Aqui é preciso pensar, também, em como as pessoas vão acessar os documentos a longo prazo. A democratização se torna cada vez mais ampla, não só em acesso, mas em diálogo: cada vez mais pessoas publicam suas ideias na rede. A gente está dividindo mais conteúdo, a própria criação do Creative Commons responde ao nosso tempo.

Você é um entusiasta do Creative Commons (sistema de licenciamento mais livre e flexível dos direitos autorais)?

Completamente. Sobretudo em relação ao conteúdo de instituições públicas.

Por Mariana Filgueiras | mariana.filgueiras@oglobo.com.br | O Globo | 18/09/2011

Para gostar de eBook


A partir de 2012, 100 livros digitais serão oferecidos pela Biblioteca Nacional

Enquanto no Brasil o mercado de e-books é incipiente, em metrôs, ônibus e aeroportos das grandes cidades norte-americanas e europeias é relativamente comum ver gente lendo em seus smartphones, tablets e e-readers, como antes se fazia com as edições de bolso.

Nos EUA, que vive o “verão do Kindle”, a fatia do mercado está em 13,5% quando se fala em obras de ficção. Na Alemanha, segundo dados da Sociedade para Pesquisa de Mercado Consumidor, desde fevereiro foram vendidos 350 mil leitores digitais.

No Brasil, onde o acervo ainda é escasso e os aparelhos saem por no mínimo R$ 800, não há números a respeito. Nas capitais, não se vê nada parecido.

Mas a Fundação Biblioteca Nacional, à qual cabem as políticas de livro e leitura, quer olhar adiante, e realizou, durante a Bienal do Livro do Rio, o colóquio E-books e a Democratização do Acesso – Modelos e Experiências de Bibliotecas. A feira se encerra hoje à noite.

No início de 2012, o presidente da FBN, Galeno Amorim, já espera ter para empréstimo cerca de cem títulos digitalizados [literatura brasileira em domínio público]. A ideia agora é aprender com a experiência de quem já vive a era digital nas bibliotecas, e pensar o modelo mais adequado à nossa realidade, seja o download ou o sistema nuvem, em que o livro fica disponível só por um período.

Aqui, inexiste esse tipo de serviço. Nem os livros de papel chegam a todos. Ainda falta atingir a marca desejada há anos: ter uma biblioteca instalada em cada um dos 5.565 municípios.

O colóquio marca os 200 anos da BN, criada numa então colônia de analfabetos para guardar a biblioteca real trazida de Portugal, e, com o tempo, transformada em centro de pesquisa. Hoje, o público tem acesso, pela internet, à parte do acervo digitalizada. “O e-book é um evento novo para todos. Não podemos ficar na rabeira. Queremos discutir qual é o melhor caminho, o que é viável”, diz Galeno, ao justificar a realização dos debates.

Na Inglaterra, contou Aquiles Alencar-Brayner, curador digital [cearense] da British Library, as editoras resistem a ceder e-books para empréstimo. Mas uma lei poderá enquadrá-las ano que vem. Frank Daniel, da Biblioteca Pública de Colônia, relatou que nos últimos quatro anos foram computados 120 mil downloads de 8.600 e-books. A biblioteca oferece aplicativos para iPhones e iPads.

Essa é a Bienal mais tecnológica de todas, a primeira em que foram oferecidos “para degustação” tablets e e-readers. O espaço da Bienal Digital ficou cheio de curiosos que nunca tiveram um desses nas mãos.

Por Roberta Pennafort | O Estado de S. Paulo | 11/09/2011

Seminário discutirá empréstimo de livros digitais


Como as bibliotecas estão se preparando para passar a emprestar também os livros digitais, seja para ser lido em suas salas de leitura como para ser baixados e lidos pelos seus usuários onde eles estiverem. Para estimular essa discussão e mostrar experiências desenvolvidas em diversas bibliotecas, a Fundação Biblioteca Nacional se associou ao Instituto Goethe, Instituto Cervantes e Maison de France para trazer especialistas da Alemanha, Espanha, França, Inglaterra e Brasil. O E-books e a democratização do acesso – Modelos e experiências de bibliotecas. Será realizado nos dias 05 e 06, no auditório José Lins do Rego, dentro da Bienal, com tradução simultânea.

Boletim da Biblioteca Nacional nº200

Clássicos em eBook


Os cem clássicos brasileiros mais populares vão ser escolhidos pela Fundação Biblioteca Nacional para lançá-los em e-book. Em até dois anos, cerca de 4.500 obras de referência adquirem esse formato para serem lidas por empréstimo on-line. Em outra frente, a casa tem como meta digitalizar, no mesmo prazo, dez vezes o volume de títulos que está on-line. São hoje 23 mil peças, entre obras raras e periódicos em domínio público -ainda é pouco, ante os 9 milhões que constituem seu acervo. O começo da entrega, em lotes, será em setembro, quando entram no ar obras do historiador argentino Pedro de Angelis, do século 19. Desconhecido por aqui, é ilustre em seu país natal, que faz tempo pede acesso a esses títulos. O gesto simpático à Argentina é para lembrar o nosso “protagonismo” na América do Sul, diz Galeno Amorim, o presidente.

Por Josélia Aguiar | Folha de S. Paulo | 16/07/2011