Atores locais e plataformas locais


Por Octavio Kulesz | Publicado originalmente em PublishNews | 17/02/2012

Em 2011, a Aliança Internacional de Editores Independentes e a Fundação Prince Claus patrocinaram uma pesquisa sobre a edição digital nos países em desenvolvimento, com um duplo objetivo: por um lado, avaliar o impacto das tecnologias sobre a indústria do livro nessas regiões e, por outro, estabelecer propostas de ação pensadas para os editores locais.

Os resultados do trabalho podem ser conhecidos aqui. Como fruto desse estudo, desde janeiro de 2012 funciona o Lab, uma unidade de experimentação e formação que tem o apoio da Aliança, da Fundação Prince Claus e da Organização Internacional da Francofonia. Entre as diversas iniciativas do Lab está a atualização da conta @digisouth no Twitter, criada para difundir as principais notícias referentes à edição digital nos países em desenvolvimento: fusões, movimentos sigilosos e tantas outras novidades que sugerem que a edição eletrônica no Sul constitui um cenário de extraordinário dinamismo.

Mês a mês, o Lab oferece entrevistas, artigos e resumos das principias informações divulgadas pela conta @digisouth. Todos os leitores estão convidados a entrar em contato por e-mail ou pelo Twitter para contribuir com novos dados e perspectivas.

Continuemos, então, com nosso panorama sobre janeiro de 2012, um mês marcado tanto pelo crescimento de atores locais quanto por uma nova tática por parte de jogadores internacionais. Talvez ainda seja cedo para avaliar o alcance de tal mudança estratégica, mas vale a pena questionar suas possíveis consequências.

Panoramas locais

Janeiro foi um mês cheio de novidades no Brasil. À informação de que hoje seis em cada dez brasileiros fazem parte da classe média, somam-se as notícias que indicam que existe no país uma grande propensão a comprar pela internet. Os e-books mostram um desempenho interessante, conforme reconhecem as editoras e os agregadores locais. No que diz respeito aos hardwares, alguns tablets nacionais, como o Ypy, da Positivo, estão se tornando verdadeiros concorrentes dos modelos estrangeiros, graças ao seu preço e adaptabilidade. O Estado brasileiro, por sua vez, continua mostrando interesse em transformar o país em um centro mundial de produção de tablets – fabricadas tanto por empresas nacionais como por companhias globais –, o que permite supor que as notícias neste campo continuarão se multiplicando. Finalmente, a Câmara Brasileira do Livro [CBL] anunciou a intenção de realizar o terceiro congresso internacional do livro digital e outras iniciativas de capacitação, mais um indício de que o gigante latino-americano aspira ser um hub da edição eletrônica regional.

Em relação à África subsariana, as notícias mais produtivas giram em torno dos celulares, em sintonia comalgumas tendências que já havíamos apontado no estudo 2011. Graças a uma elevada penetração da rede de telefonia celular ao longo do continente, estão surgindo atores que pulam a etapa da internet fixa e alcançam um grau notável de aceitação entre os clientes. Um exemplo é a rede social móvel Eskimi, originária da Lituânia, que na Nigéria conta com mais de dois milhões de usuários. Além disso, a operadora Orange anunciou seu projeto de distribuir verbetes da Wikipédia por meio de telefones celulares. Por sua vez, o dinheiro móvel – sistema que permite pagamentos via dispositivos móveis e que em nossa visão é fundamental para a formação de mercados digitais nos países em desenvolvimento – acelera sua expansão na África e segue um caminho bastante atípico. Talvez sejam estas singularidades da região que expliquem o fato de que a banda larga móvel da África do Sul é mais rápida do que a dos Estados Unidos. Os empreendimentos no continente dão a impressão de que alcançam um maior dinamismo quando abandonam soluções do tipo deux ex machina e passam a tomar seu contexto concreto como ponto de partida. Julgamos que isto pode explicar o êxito dos projetos centrados nos telefones celulares e em outras ferramentas informais ou low tech.

No mundo árabe, continua chamando atenção a falta de conteúdo em idioma local. No entanto, alguns atores relativamente novos começam a se consolidar no terreno da edição e distribuição de publicações eletrônicas. Já existem várias empresas que produzem aplicativos para iPhones e iPads, como a Flagship, de Dubai, com sua loja Rufoof. Vale a pena esclarecer que, no mundo árabe, os dispositivos da Apple são caros demais para as massas, o que talvez explique por que os principais produtores de apps se concentram na zona do Golfo, de maior poder aquisitivo. Além disso, na região encontramos iniciativas relacionadas à leitura do Corão e de textos tradicionais, como é o caso do tablet eAlim EL 1000, conhecido como o “iPad do Islã”. Será necessário continuar prestando atenção a esses jogadores hi tech, mas também àqueles que – como na África subsariana – apostam em inovações low tech, especialmente nesta época de efervescência cultural e política.

Tal como observávamos no relatório de 2011, as dimensões extraordinárias do mercado indiano estimularam o surgimento de gigantes da venda on-line; nos últimos meses, a concorrência entre os jogadores locais como Flipkart ou Infibeam desencadeou uma feroz guerra de preços que faz cambalear o circuito de livrarias históricas. Da mesma forma que na África subsaariana, os telefones celulares são na Índia uma plataforma crucial, ao ponto de o governo subsidiar as conexões nas zonas rurais. Mas são talvez os tablets os que vão dominar a atenção nos próximos meses, dado o grande interesse manifestado pelo Estado indiano pela possibilidade de distribuir dispositivos de leitura aos estudantes de todo o país. O aparelho vencedor se chama Aakash, que significa “céu” em híndi; custa apenas US$ 35 e é fabricado pela Datawind, uma empresa anglocanadense fundada pelos irmãos Raja e Suneet Singh Tuli,  oriundos do Punjab. Para além das idas e vindas que caracterizaram o projeto, a tendência parece ser irreversível: o Estado indiano está disposto a massificar os tablets projetados para a população nativa, o que resultará numa poderosa plataforma de distribuição de conteúdos – claro que os modelos de negócios para autores e editores ainda estão para ser inventados. Se a experiência decolar, seguramente será exportada a outros países em desenvolvimento.

Na China também assistimos a transformações de grande alcance. O mercado de aplicativos móveis, buscas on-line, redes sociais e conteúdos digitais cresce num ritmo vertiginoso e está se transformando num campo de batalha entre colossos – como Tencent, Sina, 360Buy, DangDang, Baidu, Shanda, entre tantos outros – que chegam a apequenar até os principais jogadores do Norte. Vale recordar que a plataforma de mensagens Weibo – da Sina – recentemente superou o Twitter em seu recorde de mensagens escritas por segundo. Em breve, as empresas e o próprio setor público – sob a égide do GAPP e de outros organismos – se preparam para ultrapassar as fronteiras chinesas. A Baidu não esconde suas intenções de incluir conteúdos em outras línguas, e também são conhecidas as pressões que o conglomerado Alibaba exerce para apossar-se do Yahoo!

Plataformas globais: uma mudança de estratégia?

Até relativamente pouco tempo atrás, a estratégia de jogadores como Amazon ou Apple nos países em desenvolvimento dava a impressão de ser inflexível. Essas empresas não pareciam estar muito interessadas em adaptar seus formatos, idiomas, conteúdos, políticas de preços, de cobrança ou de pagamentos em função das realidades locais. Dessa forma, para um usuário latino-americano, um Kindle era um Kindle, vendido a um preço determinado em dólares, a partir da Amazon nos Estados Unidos. O resto dos problemas – como pagar com cartão de crédito internacional, retirar a mercadoria da alfândega, solucionar a questão dos impostos, obter material em idioma próprio etc. – cabia ao usuário resolver. Ao invés de seguirem a célebre máxima “pensar globalmente, atuar localmente”, essas plataformas tendiam a guiar-se muito mais pelo inverso: “pensar localmente – isto é, exclusivamente nos termos de um usuário americano – e atuar globalmente”. Por isso, em nosso estudo de 2011, indicávamos que, ceteris paribusnão seria tão simples  para as empresas do Norte massificar seus produtos nos países do Sul, que davam sinais crescentes de autonomia.

Recentemente, contudo, talvez como consequência da acelerada crise financeira e do declínio da Europa como destino comercial, a diversificação dos mercados se transformou não apenas em uma opção, mas em uma necessidade para qualquer empresa global. Sendo assim, assistimos uma mudança dramática na estratégia das plataformas globais, que agora parecem estar mais dispostas a repensar seus modelos em função de cada contexto. Para começar, a Apple lançou com grande sucesso seu iPhone 4S na China, por meio da operadora China Unicom; a apresentação do aparelho foi tão multitudinária que acabou em distúrbios e no próprio cancelamento do evento. Também foi significativo o acordo de isenção firmado entre a Foxconn e o governo brasileiro para a fabricação de iPads em território local, dentro do quadro da política tecnológica brasileira que destacávamos anteriormente.

Merecem ser ressaltados os avanços realizados pela Amazon, que deixou claro seu plano de criar centros de operações em Nanning, na China, e em Bombay,  isto é, sua primeira incursão relevante na Índia. Da mesma forma, logo após o fracasso da primeira rodada de negociações com editores brasileiros em 2011, a Amazon contratou um ex-funcionário da Livraria Cultura para acelerar o lançamento do Kindle na América do Sul.

Finalmente, o Yahoo! anunciou a oferta de conteúdo em 8 idiomas da Índia, o Twitter aceitou adaptar sua plataforma aos “requerimentos” de diferentes Estados nacionais e o Google, depois de incontáveis choques com o governo chinês, já avalia a possibilidade de “flexibilizar” as condições de seu serviço para se adaptar às regras do país.

Desafios e oportunidades

Sendo assim, é especialmente interessante nos perguntarmos sobre o que se ganha e o que se perde com essa mudança de estratégia levada a cabo por companhias que – como Amazon, Apple ou Twitter – até há pouco tempo não haviam feito muitas concessões aos contextos próprios de cada lugar. Na nossa opinião, essa virada acarreta inúmeros riscos para essas empresas, que tendem a subestimar as complexidades locais, e em certo sentido abre-se uma boa oportunidade para os empreendedores locais.

Em primeiro lugar, há a questão das línguas próprias de cada lugar, que constituem uma mediação irredutível, mas frequentemente deixada de lado. A Apple pôde apresentar o iPhone 4S na China, mas para isso deveria ter se assegurado de que seus aplicativos funcionariam tão bem em chinês como em inglês. Lamentavelmente, não foi esse o caso, como podemos ver na paródia “Siri não entende chinês” – ou nasdesventuras de um usuário japonês que por causa do seu sotaque não consegue fazer com que a Siri lhe obedeça.

Também surgem obstáculos toda vez que se minimizam as diferenças culturais e políticas. Comentávamos que o lançamento do iPhone 4S na China teve que ser suspenso por ter sido tão disputado: a Apple tentou mostrar o episódio como um indicador de sua popularidade – dado que havia tanta gente –, ainda que devido aos resultados haveria de tomá-lo como sinal de grande imperícia. Nos Estados Unidos ou na Europa, um bando de gente amontoada na frente de uma loja pode se passar por um grupo ocioso de fãs, mas na China – não só por causa das condições atuais do governo, mas também por uma tradição milenar de harmonia social – essa multidão inquieta é interpretada como princípio de revolta. Aliás, assim foi como o evento terminou, com pancadaria, gritos e ovadas em direção à loja, algo que dificilmente poderia ser considerado um sucesso de marca.

Por outro lado, existem problemas referentes ao que poderíamos chamar de a “perda do efeito de rede”. Originalmente, uma plataforma como o Twitter pôde ser pensada como uma forma de comunicação direta e horizontal entre usuários heterogêneos – um estudante tunisiano podia seguir as mensagens publicadas por um professor egípcio, por exemplo. E, certamente, se o Twitter se sobrepôs a outras ferramentas foi devido ao número crescente de usuários que aderiram a ele, graças a um efeito de rede internacional que se retroalimenta permanentemente. Não obstante, toda plataforma precisa ser rentável em algum momento e é aí que as variáveis locais começam a se manifestar – idiomas, preços, formas de cobranças e pagamentos, governos etc. –, o que obriga a fazer concessões que ameaçam jogar por terra o efeito de rede inicial. Por certo, que utilidade teria, para um internauta egípcio, continuar usando uma plataforma em que ele não poderá ter um contato fluido com colegas de Tunes, se sabe que devido a acordos entre o Twitter e os governos dos dois países suas mensagens poderiam ser bloqueadas e manipuladas? Neste ponto, já não se vê qual vantagem o Twitter poderia ter em relação a outras iniciativas locais vernáculas.

Finalmente, a respeito dos diferentes “convites” que as empresas internacionais recebem para produzir seus dispositivos localmente, longe de eles serem um indício de passividade dos países do Sul podem significar, ao contrário, que várias dessas nações – de tradição industrialista, como o Brasil – se preparam para um contexto de maior protecionismo global e querem garantir a tecnologia e o know how necessários para abastecer tanto o seu mercado interno quanto o de seus parceiros regionais. Vale a pena salientar que o governo brasileiro não se contenta com a fabricação local de iPads por parte da Apple e da Foxconn, mas, sim, exige que as empresas invistam 4% da receita líquida em projetos de pesquisa e desenvolvimento, o que representa, direta ou indiretamente, uma transferência tecnológica de peso.

Tempos interessantes

Se os países em desenvolvimento abrigam atores locais cada vez mais relevantes e se as empresas do Norte enxergam a necessidade de adaptar seus modelos de acordo com os diferentes mercados, o futuro da edição digital no Sul anuncia-se tão fascinante quanto imprevisível. As plataformas internacionais contam com alta tecnologia, poder econômico e marcas reconhecidas. Os empreendimentos locais, por sua vez, têm ao seu alcance a possibilidade de fortalecer ecossistemas digitais em conjunto com outros atores domésticos, têm conhecimento muito mais apurado de seu próprio contexto e podem unir forças com um setor público poderoso que precisa urgentemente reduzir a lacuna digital.

O cenário está montado. Que comece a ação.

Por Octavio Kulesz | Publicado originalmente em PublishNews | 17/02/2012

Octavio Kulesz é formado em Filosofia pela Universidade de Buenos Aires e atualmente dirige a Teseo, uma das

Octavio Kulesz

principais editoras digitais acadêmicas da Argentina. Em 2010, criou a rede Digital Minds Network, junto com Ramy Habeeb [do Egito] e Arthur Attwell [da África do Sul], com o objetivo de estimular o surgimento de projetos eletrônicos em mercados emergentes. Em 2011, escreveu o renomado estudo La edición digital en los países en desarrollo, com apoio da Aliança Internacional de Editores Independentes e da Fundação Prince Claus.

Sua coluna Sul Digital busca apresentar um panorama dos principais avanços da edição eletrônica nos países em desenvolvimento. Tablets latino-americanos, leitura em celulares na África, revoluções de redes sociais no mundo árabe, titãs do hardware russos, softwares de última geração na Índia e colossos digitais chineses: a edição digital no Sul mostra um dinamismo tanto acelerado quanto surpreendente.