Conheça a eBooks Patagonia


Por Octavio Kulesz | Publicado originalmente em PublishNews | 18/07/2013

A América Latina se converteu em um território fértil para a edição digital e a experimentação com novos formatos. O Brasil é, sem dúvida, o líder na região, mas já surgem atores inovadores em outros países. Nesta ocasião conversamos com Javier Sepúlveda Hales, diretor de Ebooks Patagonia, uma editora eletrônica de Santiago de Chile.

OK: Você poderia apresentar brevemente seu perfil e o da Ebooks Patagonia?
JSH: Fundei a Ebooks Patagonia em 2010. Sou engenheiro civil industrial, tenho um mestrado em negócios pela Thunderbird School of Global Management e outro em gestão da Universidad de Chile. Ebooks Patagonia é uma editora digital de autores latino-americanos que hoje colabora com autores e editoras da região para levá-los às principais lojas e bibliotecas do mundo. Alcançamos um catálogo que chega perto dos 50 e-books, com autores da Argentina, Uruguai, Chile, Colômbia, México, Nicarágua, Guatemala e Peru. Oferecemos também serviços de diagramação digital em formato Epub, distribuição digital global para editoras e autores, design e criação de aplicações culturais, bibliotecas digitais para colégios e consultoria em planificação estratégica digital.

OK: Qual foi até agora a atitude dos leitores chilenos em relação ao livro eletrônico?
JSH: Devemos levar em conta que os níveis de leitura no Chile são muito baixos há muito tempo. Não tenho dados atuais, mas posso contar minha percepção e o que resgato de conversas na rua e nas redes sociais. Vi uma grande militância a favor do livro impresso, por suas virtudes como objeto; ao mesmo tempo, o livro digital é frequentemente apresentado como uma ameaça, como um ataque… Mas às vezes vi grandes leitores adotarem o e-book por questões de comodidade, sem deixar de comprar exemplares em papel. Um segmento importante são os maiores de 50 anos, que valorizam a possibilidade de aumentar o tamanho da letra.

A cada dia eu me encontro com mais pessoas no metrô de Santiago lendo em e-readers; alguns até leem em seus celulares. Há uns anos, eu até me atrevia a me aproximar de quem tinha um e-reader e interrompia sua leitura para conversar com eles. A queixa era a falta de livros em espanhol, e eu aproveitava para recomendar a Ebooks Patagonia!

Em relação ao DRM, foi impressionante a quantidade de vezes que tivemos que enviar instruções sobre como abrir o texto no dispositivo depois da compra. Lembro uma vez em 2011 quando tive que ajudar por Skype uma usuária de Porto Rico que tinha comprado um e-book nosso e não conseguia carregá-lo em seu tablet de jeito nenhum. Com o tempo produzimos vídeos tutoriais para explicar cada passo. Contudo, nossa experiência indica que se o cliente sobrevive à primeira compra de um e-book protegido, já não há como voltar atrás. Depois que o leitor autentica seu dispositivo com usuário e senha de DRM, tudo é simples: o primeiro download é complexo, mas os seguintes fluem com um clique.

Finalmente, sabemos que os e-books vendidos são lidos principalmente nos EUA, México e Chile.

OK: E a atitude dos editores?
JSH: Os editores no Chile geralmente têm a mente colocada no dia-a-dia e nas compras do Estado. As aquisições do setor público são consideráveis e explicam boa parte do ingresso das editoras. Há anos, quando pedia uma reunião com as editoras para trabalhar com elas em temas digitais, me solicitavam mais tempo para pensar. Hoje todos consideram o digital como algo que devem fazer em algum momento, mas o certo é que as urgências consomem o tempo deles. São poucos os que estão migrando seu catálogo para Epub e é frequente que façam isso mais por pedido de seus autores do que por inciativa própria.

Vejo com entusiasmo o surgimento de novas editoras que graças aos e-books e à impressão sob demanda conseguem publicar e tornar seus autores conhecidos. Também está ficando massivo a autopublicação digital no mercado chileno: isso acontece porque as editoras estão investindo pouco em novos autores ou que já têm programado seu ano de produção.

Tenho a impressão de que os editores locais estão muito focados no papel, ou no máximo em migrar seu catálogo a uma loja que recebe PDF. Faltam mais projetos pensados diretamente em digital, que não dependam do papel.

OK: Como trabalham com as editoras?
JSH: Basicamente nos ocupamos de externalizar sua área digital, em especial a distribuição. Quando uma editora tem mais de 20 títulos em digital [Epub ou PDF], bonificamos o custo de upload dos títulos: nós simplesmente ganhamos uma porcentagem das vendas. Aí está nosso incentivo e nos esforçamos ao máximo para vender.

OK: Amazon, Apple e outras empresas internacionais começaram a vender e-books na América Latina. Você vê estas empresas como aliados ou como concorrentes?
JSH: Estas empresas são aliadas para nós. Elas nos ajudam a massificar a leitura digital através de seus dispositivos. Temos acordos comerciais e trabalhamos estreitamente com elas para aumentar o conteúdo latino-americano no mercado global.

Acho que a chegada desses atores deveria preocupar os que são simplesmente livreiros. Um pouco na linha da queda da Blockbuster depois do surgimento da Netflix. Ou a bancarrota da Borders e ainteressante aposta da Barnes & Noble pelo futuro eletrônico.

OK: Em uma ocasião você comentou que o digital “nivela a partida e muda as regras do jogo”. Em geral, qual o futuro que você vislumbra para o e-book na América Latina?
JSH: Vislumbro o melhor dos futuros. O livro eletrônico permitirá a integração de nossas culturas e facilitará que um leia a produção do outro. Um exemplo: com a editora Resistencia do México criamos umconcurso binacional de contos para autores com pelo menos um livro publicado onde o jurado era totalmente externo às editoras, e publicamos uma antologia digital com os contos ganhadores, quatro contos de cada país. No Facebook pude ler como um dos jurados expressava sua alegria por ter conhecido dois autores chilenos muito bons.

Na editora publicamos, além disso, uma coleção de contos de autores latino-americanos de maneira exclusiva na iBookstore e na Amazon. Chama-se “Ebooks Patagonia Singles” e cada conto é vendido a US$ 0,99. Entre os autores estão Mario Benedetti [Uruguai], Andrés Neuman [Argentina], Pablo Simonetti[Chile], Tryno Maldonado [México] e Carlos Wynter [Panamá].

Quando afirmo que o digital “nivela a partida e muda as regras do jogo”, penso especialmente nas grandes corporações editoriais dirigidas da Espanha ou dos EUA e do uso que podemos fazer da tecnologia. Imaginemos o poder acumulado pela recente fusão de Penguin e Random House em relação aos autores, agentes, distribuidores e demais atores tradicionais da cadeia do livro.

Na minha opinião, a única via livre para uma editora independente latino-americana enfrentar uma megacorporação editorial é o livro eletrônico. Os custos de publicar um livro novo caíram e agora trata-se na verdade de ver como fazer uma boa divulgação do livro nas redes especializadas ou nos círculos de potenciais leitores. No mundo digital, as diferenças entre uma pequena editora e uma multinacional não estão mais tão marcadas.

Octavio Kulesz

Octavio Kulesz é formado em Filosofia pela Universidade de Buenos Aires e atualmente dirige a Teseo, uma das principais editoras digitais acadêmicas da Argentina. Em 2010, criou a rede Digital Minds Network, junto com Ramy Habeeb [do Egito] e Arthur Attwell [da África do Sul], com o objetivo de estimular o surgimento de projetos eletrônicos em mercados emergentes. Em 2011, escreveu o renomado estudo La edición digital en los países en desarrollo, com apoio da Aliança Internacional de Editores Independentes e da Fundação Prince Claus.

Sua coluna Sul Digital busca apresentar um panorama dos principais avanços da edição eletrônica nos países em desenvolvimento. Tablets latino-americanos, leitura em celulares na África, revoluções de redes sociais no mundo árabe, titãs do hardware russos, softwares de última geração na Índia e colossos digitais chineses: a edição digital no Sul mostra um dinamismo tanto acelerado quanto surpreendente.