Construindo uma Biblioteca Digital Escolar


Por Ednei Procópio

Por Ednei Procópio

Atualmente, ouço muitas pessoas dizendo que “é preciso colocar a mão na massa” quando tratam do tema eBook. Por um lado, isso é realmente importante, verdade, mas, por outro, é a primeira vez, em anos, que percebo mais gente dizendo que “é preciso colocar a mão na massa“, do que gente que realmente colocou a mão na massa durante todo esse tempo.

Nascida na década de 1990, a Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro [mais tarde anexada ao Portal Domínio Público] foi uma das primeiras plataformas brasileiras, juntamente com a eBooksBrasil.org [e minha antiga eBookCult, nascida em 2001], a incentivar e tentar um modelo para operacionalização das chamadas bibliotecas digitais. Praticamente duas décadas depois, o tema volta ao cerne das discussões mais uma vez acompanhada de uma velha-nova tentativa de se testar e estabelecer um novo-velho modelo de mimetizar as tais bibliotecas em um cenário digital. Felizmente, porém, o cenário agora se mostra bem mais favorável. Tão favorável que praticamente a totalidade das ferramentas disponíveis são hoje commodities.

Em meu primeiro livro, “Construindo um Biblioteca Digital“, escrito em 2004 [ou seja, há exato uma década atrás] cito exemplos de bibliotecas que estavam no ar testando a internet, traço um cenário para o desenvolvimento de uma biblioteca digital usando as ferramentas disponíveis naquela época de web 1.0.

Aqui, este meu novo artigo [necessariamente extenso], escrito em meados de novembro de 2013, apenas reforço os itens que considero essenciais à construção de uma biblioteca digital, desta vez, voltada ao universo escolar. Este artigo é voltado também ao encorajamento daqueles que pretendem iniciar a criação de sua própria biblioteca digital escolar. Iniciativas de todos os lados são bem-vindos, é claro, mas considero ainda mais importante aprendermos a construir as nossas próprias soluções a fim de criarmos um ambiente bem mais pulverizado, menos concentrado, mais criativo e dinâmico.

O novo cenário

A tecnologia está focando a educação. Recentemente a Google lançou a plataforma educativa YouTube Edu, com 8 mil videoaulas gratuitas [de vinte e seis canais brasileiros]. A plataforma é voltada para estudantes, educadores e colégios do ensino médio, inicialmente.

Pouco tempo depois, a mesma Google também anunciou uma parceria com o governo de São Paulo para capacitar, em 2014, cerca de 300 mil professores da rede estadual dos ensinos fundamental e médio para que estes utilizem nas atividades complementares as ferramentas online como o Gmail e o Google Docs. Na época, não foi citado o Google Books [e deve haver uma razão bem particular para isto].

O governo paulista também anunciou, no final de outubro, através do projeto Escola Virtual de Programas Educacionais [EVESP] uma parceria com a norte-americana Microsoft Corp para utilizar o pacote Office gratuitamente na rede estadual.

Em um último exemplo, o empresário Nolan Bushnell, criador do antológico Atari, sugere uso de videogames e jogos eletrônicos nas escolas como ferramentas de aprendizagem.

Como dito, a tecnologia está focando na educação. Mas, e os livros? Como ficam os livros nesta história toda? O mercado de conteúdo digital e literário voltado à educação é, sem sombra de dúvida, um dos mais promissores negócios que envolvem os eBooks. Só para se ter uma ideia, a educação básica no Brasil possui pelo menos 50 milhões de alunos que necessitam de conteúdo de qualidade para seus estudos diários. E, segundo projeção do Ministério da Educação [MEC], até 2022 deve haver um incremento de 120 bilhões de reais no orçamento da educação.

Se o próximo grande desafio do Brasil é elevar a qualidade da educação, nosso País necessitará de um ecossistema de armazenamento e compartilhamento de conteúdo digital que seja de fácil entendimento e manuseio pelas partes que compõe os ambientes pedagógicos.

Mas como desenvolver um ecossistema de leitura digital voltado à educação?

Neste novo mercado prestes a se intensificar, a questão da interoperabilidade [entre o hardware, o software e o conteúdo] se mostra um dos itens mais importantes para que as bibliotecas digitais não se tornem estantes inacessíveis. O hardware, em sua maioria, são os dispositivos de leitura [reading devices] fabricados por empresas privadas com interesses mercantis bastante díspares. O software, o mediador entre a máquina e o leitor, oscila entre linguagens de programação proprietárias e os chamados códigos abertos [open source]. E o conteúdo, nosso principal item, sempre dependerá dos dois primeiros para ser efetivamente acessado e usado em sala de aula.

Para que os agentes envolvidos e interessados na utilização das bibliotecas escolares [governo, editoras, autores, professores, alunos, etc.] se beneficiassem igualitariamente de um repositório digital, o desenvolvimento de seu ecossistema pode se basear no conceito de open source. Ou seja, de código fonte aberto, de acesso livre e irrestrito. A open source permitiria a democratização do acesso aos eBooks e, a meu ver, é o caminho mais próximo do ideal em médio e longo prazos.

Os acervos digitais, porém, devem estar sustentados por modernos modelos de negócios, porque um dos principais entraves para a construção de bibliotecas digitais é o investimento para se montar sua estrutura de trabalho. O investimento inclui desde a aquisição, a digitalização de obras, quando houver esta necessidade, até o emprego da tecnologia de Digital Rights Management [DRM] empregada para os controles de acesso as obras.

Minha proposta, descrita a seguir, é simular um ecossistema de conteúdo digital voltado à educação. Nesta proposta de trabalho, iremos levar em conta o emprego da tecnologia da informação, porque ela ainda é central quando se fala livros digitais [didáticos, paradidáticos ou de leitura complementar]. Propomos criar uma alternativa, uma solução para a problemática do livro em repositórios bibliodigitais, para que os profissionais interessados possam enfim vislumbrar um projeto factível e voltar suas atenções ao que realmente importa: a formação e a aprendizagem.

Leitura e educação na era digital

Antes de avançar com uma parte mais técnica, vamos contextualizar o cenário de onde partiremos. Algumas ações gerais podem nos ajudar a permear uma escola de leitores, entre elas, o desenvolvimento de uma rotina de leitura e o estímulo à indicação de livros.

Para estas ações anteriormente descritas se desenvolverem na prática, faz-se necessária a criação e manutenção de diversos ambientes interativos, ou salas de leitura digitais e conectadas. E o principal investimento é a criação de um acervo misto de livros em versão digital disponibilizado através do que chamaremos de Biblioteca Digital Escolar que, entre outros benefícios, deve permitir:

O acesso aos livros através de um rico acervo.
A possibilidade dos próprios alunos escolherem os livros que desejam ler.
Atender mais leitores com menos títulos.
Retiradas, devoluções e recolocações automáticas nas prateleiras digitais.
Adicionar mais títulos ao acervo já criado, sem a necessidade de investimentos em espaço físico, infraestrutura ou dispêndio operacional.
Um mecanismo de busca de uma Biblioteca Digital Escolar que permita a pesquisa de palavras em uma obra ou em uma coleção inteira de livros.
Análise dos relatórios detalhados sobre a utilização da biblioteca, melhorando a qualidade das decisões de aquisição de novos títulos.
E deve permitir os mesmos dispositivos de direitos de propriedade dos livros impressos [através de um sistema de gerenciamento digital de Direitos Autorais, o já citado DRM].

Estes e outros benefícios antes descritos podem ser o atrativo para os leitores que estão mais dispersos em outras mídias digitais interativas, fora dos ambientes pedagógicos tradicionais. Uma Biblioteca Digital Escolar é a solução mais adequada para atender a alunos de cursos à distância, ou iniciativas de inclusão digital, por exemplo, que necessitam de acesso a uma biblioteca completa.

Nosso ecossistema terá um servidor central de conteúdo. Este servidor irá literalmente servir as estantes virtuais de eBooks que poderão ser criadas pelos próprios usuários. Estas estantes poderão ser temáticas conforme a necessidade de cada educador ou grupo de alunos. E estas estantes, por fim, irão alimentar as salas de leitura que serão formadas pelos usuários para que se possam realizar os trabalhos pedagógicos comuns a eles [como nas comunidades virtuais de ensino].

O servidor de conteúdo

Podemos utilizar se quisermos as soluções prontas, daquela empresa que quer dominar o mundo. Ou podemos desenvolver nossas próprias soluções. Iremos pelo caminho que nos trará mais aprendizado. Para construir nossa Biblioteca Digital Escolar precisaremos de um servidor de conteúdo, ele será o alicerce do nosso repositório, do nosso acervo central. Por servidor de conteúdo entende-se o sistema tecnológico que irá salvaguardar os objetos digitais e permitirá sua circulação para os usuários nas salas de leitura.

Tecnicamente, vamos chamar a base para a construção da nossa Biblioteca Digital Escolar de Library Content Server. O nome é apenas uma alegoria. Nossa biblioteca digital necessitará de um servidor de conteúdo escalonável e seguro, que pode ser um servidor dedicado ou podemos também, para minimizar os nossos custos, usar um servidor compartilhado de algum serviço de cloud computing [computação em nuvem].

No caso de projetos ligados às iniciativas públicas, há algumas instituições que já mantêm o seu próprio parque tecnológico que pode eventualmente ser usado para suportar nosso servidor. Como dito, o que realmente importa é que o nosso servidor de conteúdo digital será a base tecnológica da nossa biblioteca.

Ainda estamos no campo das ideias, mas o objetivo da nossa Library Content Server será tornar possível a customização de uma central de armazenamento e distribuição de eBooks para alunos e professores, com o controle dos usuários desde o login [ou seja, a entrada do leitor] até o acesso seguro aos conteúdos digitais [já que as editoras e autores fazem tanta questão]. Nossa proposta é uma solução que servirá para a hospedagem, armazenamento, distribuição, acesso e compartilhamento dos livros digitais.

Whitelabel pages

Para melhorar a rotina de utilização, nossa Library Content Server deverá permitir a criação de páginas customizadas para bibliotecas públicas e até particulares. Elas poderão ser usadas para a circulação de livros usando, neste módulo específico, o conceito de whitelabel. Ou seja, de páginas criadas de modo customizado conforme as necessidades e realidade do intermediador do conteúdo [que pode ser o próprio bibliotecário, já que uma lei assim impõe] ou do moderador da leitura [que pode, por exemplo, ser o educador].

Com esta ferramenta, cada escola pode criar a sua própria sala de leitura com suas estantes temáticas, a partir do repositório central, enchê-las de títulos e, mais tarde, permitir o compartilhamento das obras. Com este módulo, cada aluno ou educador poderá criar a sua própria página e organizar a sua própria estante de livros e também compartilhar conteúdo seguro através e com outras salas de leitura.

Através dos principais módulos, nossa Biblioteca Digital Escolar permitiria:

  • Criação de páginas customizadas [salas de leitura] para escolas, professores e alunos.
  • Criação de estantes e bibliotecas digitais portáteis e acessíveis.
  • Acesso ao painel de controle das salas, estantes e eBooks.
  • Acesso ao painel de controle dos Direitos Autorais em tempo real.

Open share

O código-fonte por trás da estrutura da nossa Library Content Server deve ser baseado em uma licença freeware, livre de pagamento de royalties. Os provedores de conteúdo [autores, editoras, distribuidores, etc.] podem obter lucro com a exploração comercial do conteúdo disponibilizado, como hoje ocorre com o mercado de livros impressos, mas não seria estimulada a exploração comercial em cima da plataforma em si [com exceção do suporte técnico necessário].

Há custos envolvendo o desenvolvimento do acervo digital, principalmente na instalação, configuração e manutenção do sistema. Mas instituições, escolas, bibliotecas públicas e entidades que cuidam da questão da leitura poderão desenvolver o servidor de livros digitais Library Content Server sem os altos custos de licenças geralmente existentes em sistemas de igual complexidade.

As tecnologias que podem ser usadas na estrutura da Library Content Server são populares na internet e já amplamente difundidas e utilizadas por milhares de empresas no mundo todo. Nossa Library Content Server teria, salvaguardando alguns pormenores aqui ainda não detalhados, a seguinte estrutura tecnológica básica:

  • Servidor
  • Código fonte [linguagem de programação]
  • Scripts de segurança
  • Banco de dados
  • Front-end de leitura
  • Gateway de e-commerce
  • eBooks

As tecnologias devem ser de uso padrão e podem ser implantadas por profissionais facilmente encontrados em nosso mercado. Estes profissionais já estão familiarizados com estas tecnologias citadas e só precisam de um bom mapa de desenvolvimento para, enfim, construir o acervo central.

Por uma biblioteca descentralizada

Para que o projeto da nossa Biblioteca Digital Escolar não esbarre em corporativismos o e burocracias, precisamos criar mecanismos que criem a independência necessária principalmente para os casos em que nosso projeto esteja abaixo do poder público. Nada contra, creio apenas que o controle da nossa biblioteca deve ser feito de modo prático, descentralizado, com capacidade operacional plena.

Já existe hoje uma diversidade de programas governamentais, como é o caso do Programa Nacional Biblioteca da Escola [PNBE], Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Prossionais da Educação [Fundeb] e Plano de Ações Articuladas [PAR]. É possível levantar patrocínio através da iniciativa privada, que podem nos ajudar a enriquecer o nosso acervo sem precisarmos necessariamente ficar atrelados à supervisão ou controle que burocratize o projeto e torne os livros digitais tão inacessíveis quanto são hoje os livros impressos nas bibliotecas físicas em geral.

Vencido qualquer cenário burocrático neste sentido, há casos, e não é raro, em que o arquivo do livro, por conta de restrições contratuais e ou técnicas, não se encontrará ‘fisicamente’ dentro de nosso repositório central. Neste caso específico, nós poderíamos recorrer [se for o caso] aos metadados. A equação aqui é mais simples que lhe dar com burocratas. Precisamos estabelecer um padrão, de preferência aberto [um exemplo é a Onix for Books, mas, no Brasil, se usa geralmente o protocolo Marc 21] para os dados completos sobre o livro. Criamos uma rica indexação de obras com o objetivo único e final de levar o nosso usuário até os livros, independente de onde os arquivos estejam disponíveis.

Com o uso dos metadados, os dados sobre os livros, nossa biblioteca pode oferecer aos usuários comodidade na busca por títulos, assuntos, temas, escritores, coleções, e uma infinidade de palavras-chave que poderão direcioná-los até a estante mais próxima. O usuário poderá enfim encontrar o conteúdo que busca, mesmo que o material esteja longe do nosso próprio acervo.

Conforme dito, o servidor de nossa biblioteca pode ser construído em cloud computing [computação em nuvem], o mais importante, porém, é que os recursos da Library Content Server devam permitir que os objetos digitais armazenados possam ser acessados prioritariamente via web browsers [navegadores] a qualquer momento, a partir de qualquer dispositivo móvel.

O sistema das salas de leitura não deve restringir ou obrigar o usuário/leitor/aluno à instalação de nenhum aplicativo, componente ou plug-in em seu reading device [dispositivo de leitura]. O ideal é que os recursos de leitura e conteúdo estejam disponíveis dentro da própria solução e ambiente virtual de acesso. Os aplicativos, neste cenário, podem existir desde que não criem nenhum tipo de interferência [dependência] no acesso aos livros. Embora muitos aplicativos ajudem na exploração e experiência, muitos acabam criando muros maiores que os das bibliotecas físicas.

O front-end do sistema Library Content Server [ou seja, a interface final com o usuário — responsável pela montagem de cada estante, sala de leitura ou páginas dos livros] deve ser baseado no conceito de acessibilidade total. Isto quer dizer não só que os objetos digitais possam ser acessados e livremente lidos através principalmente dos navegadores que permitam o acesso à internet, mas que a rotina que permite a leitura deva obedecer às regras básicas da World Web Consortium [W3C] e do consórcio International Digital Publishing Forum [IDPF].

O front-end da biblioteca digital deve ‘rodar’ em qualquer navegador através de hardwares de leitura como desktops, notebooks, laptops, netbooks, ultrabooks, tablets, smartphones, e-readers e até nas lousas digitais. O sistema deve permitir, enfim, o acesso e a leitura de arquivos nos formatos já amplamente utilizados pelos provedores de conteúdo, como PDF, Daisy, HTML5 e, claro, ePub.

O gerenciamento de Direitos Autorais

Os eBooks armazenados na Library Content Server devem ser tratados como objetos independentes, o que permitirá o compartilhamento seguro entre os usuários previamente cadastrados [bibliotecários, professores, alunos, escola, etc.], cada um com o seu perfil de acesso, com login e senha.

Os eBooks devem ser completamente livres de criptografias restritivas para que, portanto, possam ser acessados à partir de qualquer suporte de leitura, bastando apenas haver no mínimo o navegador com conexão via web.

A segurança dos objetos digitais deverá existir, é claro, mas podem tecnicamente estar alocadas em cada biblioteca, estante ou sala de leitura que, por sua vez, estará atrelada a conta de usuário, que necessitará estar previamente registrado na biblioteca para ter acesso aos livros liberados. Livros digitais em regime de Domínio Público, por exemplo, podem ser armazenados no sistema sem a necessidade de criptografia, senhas ou segurança. E, portanto, podem ser acessados mais rapidamente pelos usuários cadastrados.

Muito se tem falado a respeito do empréstimo nas bibliotecas digitais, mas a equação para esta questão é simples. Se há, por exemplo, apenas 100 exemplares digitais de um determinado título, licenciados e a disposição na biblioteca, somente estes 100 exemplares digitais poderão ser emprestados para os usuários. O usuário de número 101 na fila de leitura deve aguardar a devolução de um exemplar para o acervo central de um dos exemplares já emprestados da obra.

Para os livros em regime de Direito Autoral, um gateway de pagamento atrelado a Library Content Server pode permitir os pagamentos. E o repasse dos Direitos Autorais, dos casos específicos, pode ser realizado em tempo real tanto para a editora ou distribuidor, quanto para o autor, que podem resgatar os valores através de um dashboard [painel de controle].

Nenhum livro, porém, deve ‘subir’ para o servidor da Library Content Server sem a autorização prévia da editora, autor, distribuidor ou do detentor dos Direitos Autorais [através de um contrato, de preferência por escrito, de autorização]. Desencorajamos qualquer ação contrária nesse sentido.

É importante incluir no projeto de desenvolvimento uma rotina de trabalho de convencimento dos detentores de conteúdo com relação às licenças, através de uma política de aquisições clara, objetiva e transparente.

Definindo a política de aquisições

Embora tenhamos o desafio nas aquisições dos títulos frente a um mercado carente de entendimento, a logística do livro digital é mais simples do que o problema enfrentado com relação à distribuição e logística dos livros físicos. No caso dos livros impressos, o trabalho do bibliotecário é realizado de modo mais tranquilo porque historicamente os autores e editoras já conhecem a finalidade das compras.

A aquisição de um eBook por parte de um bibliotecário torna-se, porém, um desafio na medida em que os detentores dos Direitos Autorais [editoras, distribuidores, autores] insistem em saber como, onde e de que forma os livros adquiridos serão acessados pelos usuários.

A questão que surge é que não há um nível seguro de conhecimento de todos os envolvidos que permita uma rápida tomada de decisão. O que pode tornar o processo mais lento. E para que o trabalho cotidiano do bibliotecário não se altere drasticamente, o ideal é que o profissional tenha em mãos os limites territoriais, de idioma e de temporalidade de sua biblioteca digital para que o detentor dos Direitos Autorais possa enfim licenciar as obras [e colaborar com o projeto].

Para obter uma quantidade maior de títulos, uma biblioteca não precisa necessariamente estar diretamente atrelada a, por exemplo, uma plataforma de autopublicação. É muito importante ponderar, em nosso projeto, a fase de aquisição de conteúdo digital, e o seu modelo, e separarmos da seção de oferta de títulos para o leitor. Ou seja, em uma ponta nós iremos adquirir os títulos, neste momento, poderíamos até eventualmente manter parceria com projetos de autopublicação; mas, na outra ponta, teremos a disponibilização dos títulos. Uma ferramenta de autopublicação atrelada a nossa biblioteca só iria atrapalhar a nossa curadoria de conteúdo.

Na hora de adquirirmos os títulos para o nosso repositório, temos de ter a clara noção do nosso modelo de oferta. Se a aquisição é perpétua, por meio de uma licença, por um longo ou curto período de tempo, o ideal é que esta aquisição esteja sempre vinculada à demanda e direcionada unicamente ao usuário. Lá na ponta, o usuário tem de estar bastante familiarizado com as possibilidades de acesso ofertadas [assinatura, aluguel, pay per view, etc].

Nossa biblioteca poderá adquirir os títulos através dos próprios autores, de suas respectivas editoras, ou de distribuidores, o que for melhor em cada caso, dependendo da oferta e da demanda do acervo central. Em cada um dos casos, o ideal é que haja um contrato firmado e registrado que estipule as regras mínimas de compartilhamento do conteúdo adquirido.

Para eliminar custos na aquisição de conteúdo, o ideal é que o nosso acervo central seja o próprio ‘agregador’ de conteúdo, dessa forma estaremos mais aptos a negociação com os detentores dos Direitos Autorais.

A aquisição do conteúdo digital será quase sempre orientada ao usuário [usando a aplicação do conceito patron driven acquisition] e independente da política de acesso dispensada ao leitor, o ideal é que esta aquisição do exemplar digital em si seja sempre perpétua.

O ideal também é que toda essa gestão de aquisições e do controle de acesso dos usuários seja realmente desenhada pelo profissional bibliotecário. Que deve estudar minuciosamente o seu público leitor antes de definir prioritariamente a política de acesso [que será obviamente baseada no modelo de negócios], para, enfim, definir o modelo de aquisição dos títulos.

A aquisição de conteúdo estará intimamente ligada com o nosso modelo de disponibilização. Ao mesmo tempo em que elaboramos de que modo podemos adquirir conteúdo para a nossa biblioteca digital, precisamos pensar também de que modo iremos compartilhar este conteúdo com o nosso usuário final [escola, professor, aluno, etc.].

Definindo a política de acesso

Conforme nossa biblioteca for crescendo em tamanho de títulos e usuários, outros desafios virão. A começar pela própria bibliodiversidade até o número de exemplares digitais disponíveis para cada título [que, como já dito, estará por sua vez automaticamente ligado ao modelo de permissão de acesso ao usuário].

A política de acesso de cada biblioteca digital estará intimamente ligada com o seu modelo de negócios. Ou seja, as aquisições e compras só poderão ser efetuadas se o modelo de acesso for bem especificado. Por exemplo, a biblioteca pode ter um modelo na qual o usuário pague uma assinatura [pay per view]. O usuário pode optar pelo empréstimo em curto ou longo prazo.

Cada biblioteca digital pode ter definidas as suas próprias políticas de acesso aos conteúdos. Cada política de acesso deve estar visivelmente bem clara a todos os atores do projeto para que a comunicação, desde a aquisição das coleções, até a sua disponibilização, se mantenha clara e objetiva.

Propomos enfim, em nosso projeto, uma política de acesso universal e irrestrita que mantenha ao mesmo tempo resguardados os Direitos Autorais, mas, principalmente, o direito do acesso à informação e ao conhecimento em primeiro plano.

Eis aqui o nosso check list básico:

  • Definição da política de acesso dos leitores/usuários.
  • Definição da política de compra dos eBooks.
  • Definição do modelo de negócios da biblioteca.

Estes três itens básicos irão melhorar o desempenho da nossa Biblioteca Digital Escolar na medida em que irá baixar o nível de convencimento dos detentores de Direitos Autorais e propiciará melhora na comunicação com o leitor, usuário, aluno, etc.

Nossa arquitetura bibliodigital

Independente do modelo de negócios por trás de um acervo [público ou privado], e para que o modelo a ser seguido obtenha um alto valor agregado, uma arquitetura bibliodigital deve ser inteiramente portátil, ou seja, deverá ser carregada através de qualquer dispositivo móvel.

Insisto [já pedindo desculpas pelas repetições] que essa arquitetura deva ser inteiramente acessível, ou seja, deve permitir o armazenamento e acesso de conteúdo através das tecnologias populares e já amplamente conhecidas.

Desenvolver uma arquitetura bibliodigital exigirá, do projeto e da equipe envolvida, interoperabilidade computacional, integração do ecossistema com outras soluções de ensino a distância, portais de conteúdo e plataformas de eBooks. Estes itens devem ser minuciosamente observados levando-se em conta àqueles tantos outros tão importantes já citados, como:

  • A computação em nuvem [ou seja, uso dos serviços de acesso sob demanda e utilizando-se de recursos computacionais compartilhados].
  • A mobilidade da biblioteca digital proposta.
  • A portabilidade do conteúdo através de diversos dispositivos de leitura.
  • A bibliodiversidade do conteúdo na biblioteca.
  • A acessibilidade total a biblioteca através do uso de softwares livres.

Professor também é leitor

Nossa Biblioteca Digital Escolar poderá ser utilizada não somente pelos alunos, mas também pelos professores, que também carecem muitas vezes de seu próprio hábito de leitura. Se o professor tem a oportunidade de melhorar sua leitura, se tornará ainda mais producente criar e incentivar este hábito no educando.

O educador não precisa substituir o profissional bibliotecário, em seu trabalho mais técnico, mas pode ser o agente de leitura nas salas que permitiremos criar. O educador pode ser o moderador das salas de leitura [comunidade de leitores].

Pensando em um cenário onde ambos os profissionais possam atuar em nosso ambiente de leitura, nós podemos contar com a colaboração tanto dos professores quanto dos bibliotecários nos aspectos que tangem:

A organização do acervo com uma variedade reconhecível de títulos.
Ajudar o leitor a desenvolver o senso crítico do mundo que o cerca.
Colaborar com o desenvolvimento intelectual do aluno.
Colaborar com a formação e o crescimento cultural e, portanto, social dos alunos através de uma leitura complementar.

Ao criar um espaço conectado, de livre frequência, estaremos possibilitando o acesso aos livros sem as intermediações que hoje criam obstáculos para a formação de novos leitores. O ideal é que a nossa biblioteca também crie para o professor a oportunidade de ter acesso a uma produção editorial, tanto quanto os alunos que farão uso para os mais variados objetivos.

Fazendo-se cumprir a lei

A Biblioteca Digital Escolar pode se transformar em uma coleção de livros, materiais e documentos registrados em suporte digital, destinado à consulta, pesquisa, estudo e leitura. Com a Biblioteca Digital Escolar, o professor pode ter em mãos uma poderosa ferramenta de estímulo ao desenvolvimento de jovens estudantes nos campos de leitura e um verdadeiro acervo para a construção da arte do saber e do conhecimento.

Segundo a Lei N°12.244, decretada pelo Congresso Nacional e sancionado pelo Governo em 25 de maio de 2010, todas as instituições públicas e privadas de todos os sistemas de ensino do País deverão contar com bibliotecas. Com a Biblioteca Digital Escolar, a instituição de ensino poderá se preparar e se antever a realidade da Lei N°12.244 que diz:

“Os sistemas de ensino do País deverão desenvolver esforços progressivos para que a universalização das bibliotecas escolares, nos termos previstos nesta Lei, seja efetivada num prazo máximo de dez anos”.

Segundo Dados do Censo Escolar, de 2009, há 99.896 escolas do Ensino Fundamental e 7.174 escolas do Ensino Médio sem bibliotecas. Segundo o Censo Escolar de 2011, seria 113.269 escolas públicas sem biblioteca. É fato que praticamente 80% das escolas públicas não têm bibliotecas. Mas é fato também que, para melhorar o nível de leitura nas escolas, não precisaríamos de novas leis [como é o caso daquela de número 12.244], se realmente colocássemos a mão na massa. Mas já que a lei foi criada, nós podemos usar de suas prerrogativas para ajudar a levar livros às escolas através das bibliotecas conectadas.

Em meados de agosto de 2013 foi aprovada no Congresso Nacional uma lei que destina 75% dos royalties do pré-sal para a educação. É importante lembrar que uma biblioteca digital também pode cumprir o papel de uma biblioteca pública. Um espaço de leitura conectado não deve substituir as tão sonhadas bibliotecas físicas escolares, mas podem criar um caminho alternativo para a construção de um País letrado.

Uma das metas do Plano Nacional de Educação é que pelo menos metade das escolas de educação básica seja de tempo integral até o início da década de 2020, quando se deve alcançar o incremento de 120 bilhões de reais oriundos dos royalties do pré-sal. Se estudantes das escolas públicas terão mais tempo dentro das escolas, precisaremos de mais ferramentas em quantidade e qualidade para aprender mais e melhor.

O País precisaria construir mais de 100 mil bibliotecas até 2020 para cumprir a Lei [mais de 30 unidades por dia]. Precisaremos investir ao mesmo tempo em mais bibliotecas, para atender a lei 12.244 e, ao mesmo tempo, precisaremos de mais laboratórios ou salas de informática. Poderíamos ganhar tempo com a construção das bibliotecas digitais e reinvestir o montante da diferença dos exemplares impressos em mais títulos digitais.

Uma biblioteca digital pode ajudar no desenvolvimento da educação com investimentos menores do que a construção de bibliotecas de tijolos. Nossa ideia, com o nosso projeto de instalação de ambientes de leituras conectados, é criar maneiras sustentáreis de se fazer cumprir a lei, e de colaborar com a expansão do número de leiturasem nosso País.

Inúmeras oportunidades de crescimento

A tecnologia está com seus olhos voltados para a educação e o mercado de conteúdo digital e literário voltado à educação é um dos mais promissores negócios que envolvem os eBooks.

Conforme registrado, os futuros royalties do pré-sal podem gerar um incremento da ordem de mais de 120 bilhões de reais no orçamento da educação até 2022, segundo projeção do próprio Ministério da Educação. Dados do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação [FNDE], autarquia do MEC responsável pelos programas do livro didático e da biblioteca da escola, mostram que as escolas públicas da educação básica receberam 43 milhões de livros de literatura infantil e infanto-juvenil, no período de2005 a 2010.

Outros números apontam que haverá um aumento de 42% no gasto por estudante da educação básica entre 2014 e 2022. No mesmo período, a média de alunos na pirâmide demográfica brasileira será de aproximadamente 50 milhões de jovens entre 5 e 19 anos.

Existem 5.564 secretarias municipais, e 27 secretarias estaduais, cuidando da educação no País com quem podemos firmar convênios para a construção das salas de leitura digital. Entre elas aquela já citada no início deste artigo que comporta a VESP. No geral, são 190 mil escolas públicas de ensino fundamental e médio. Com dois milhões de professores de educação básica.

Repositórios digitais no futuro

Embora os eBooks possam ser utilizados como ferramenta complementar no sistema de ensino aprendizagem, eles ainda não estão amplamente sendo utilizados na área da educação. Isto ocorre porque ainda estamos em uma fase onde inúmeros projetos ainda tentam de certo modo mimetizar os processos de acesso aos conteúdos já existentes, ao invés de criar um novo cenário utilizando as inúmeras possibilidades que a tecnologia da informação nos permitiria.

Um dos principais motores dessa transformação no modo de ‘ambientalizar’ o processo de aprendizagem é a disseminação dos recursos onipresentes da computação, entre eles a própria internet. Já existem boas alternativas, mas ainda há muitos entraves de ambos os lados, tanto pelo lado da educação, que ainda tenta testar o modelo nas escolas, quanto da própria tecnologia que ainda não se provou realmente eficiente na falta, muitas vezes, do equilíbrio entre a teoria e a prática.

Os impeditivos da utilização dos eBooks na educação passam também pela chamada exclusão digital, pelo analfabetismo funcional, pela falta de acesso e conexão à internet, entre outras questões ainda mais sérias e infelizmente não resolvidas. Os números da falta de leitura no Brasil, por exemplo, são alarmantes. Em qualquer pesquisa ou estudo que se analise, entre eles o indicador Ideb [Índice de Desenvolvimento da Educação Básica], o que se percebe é uma lentidão generalizada na construção de novas bibliotecas, na abertura de novas salas de leitura e na formação de novos leitores.

E é neste sentido que a tecnologia do livro digital pode ajudar na disseminação da literatura através de dispositivos móveis em lugares aonde as bibliotecas de tijolos não chegarão até 2020.

Um texto forma uma página. Uma página forma um livro. Um livro forma uma estante. Uma estante forma uma biblioteca. E uma biblioteca pode ajudar na formação de um leitor usando os ambientes virtuais como as salas de leitura aqui propostas.

Os eBooks devem transformar a realidade das bibliotecas no Brasil e no mundo. Com apenas um único dispositivo de leitura em mãos, o leitor pode acessar infinitas páginas, de diversos livros, de muitas estantes, de uma Biblioteca Digital Escolar. E a educação,em nosso País, deve se preparar para lidar com uma nova demanda que já foi criada com o advento do livro digital. Para isso, o reinvento das bibliotecas se torna o próximo desafio para toda a sociedade.

* Ednei Procópio, 37 anos, é empresário e um dos maiores especialistas em livros digitais no Brasil, atuando na área desde 1998.

Publicado originalmente em Notícias do Blog do Galeno | 31/01/2014

Biblioteca Digital Escolar


Por Ednei Procópio

Por Ednei Procópio

A tecnologia está focando a educação. Recentemente a Google lançou a plataforma educativa YouTube Edu, com 8 mil videoaulas gratuitas [de vinte e seis canais brasileiros]. A plataforma é voltada para estudantes, educadores e colégios do ensino médio, inicialmente.

Pouco tempo depois, a mesma Google também anunciou uma parceria com o governo de São Paulo para capacitar, em 2014, cerca de 300 mil professores da rede estadual dos ensinos fundamental e médio para que estes utilizem nas atividades complementares as ferramentas online como o Gmail e o Google Docs. Na época, não foi citado o Google Books [e deve haver uma razão bem particular para isto].

O governo paulista também anunciou, no final de outubro, através do projeto Escola Virtual de Programas Educacionais [EVESP] uma parceria com a norte-americana Microsoft Corp para utilizar o pacote Office gratuitamente na rede estadual.

Em um último exemplo, o empresário Nolan Bushnell, criador do antológico Atari, sugere uso de videogames e jogos eletrônicos nas escolas como ferramentas de aprendizagem.

Como dito, a tecnologia está focando na educação. Mas, e os livros? Como ficam os livros nesta história toda? O mercado de conteúdo digital e literário voltado à educação é, sem sombra de dúvida, um dos mais promissores negócios que envolvem os eBooks. Só para se ter uma ideia, a educação básica no Brasil possui pelo menos 50 milhões de alunos que necessitam de conteúdo de qualidade para seus estudos diários. E, segundo projeção do Ministério da Educação [MEC], até 2022 deve haver um incremento de 120 bilhões de reais no orçamento da educação.

Se o próximo grande desafio do Brasil é elevar a qualidade da educação, nosso País necessitará de um ecossistema de armazenamento e compartilhamento de conteúdo digital que seja de fácil entendimento e manuseio pelas partes que compõe os ambientes pedagógicos.

Mas como desenvolver um ecossistema de leitura digital voltado à educação?

Neste novo mercado prestes a se intensificar, a questão da interoperabilidade [entre o hardware, o software e o conteúdo] se mostra um dos itens mais importantes para que as bibliotecas digitais não se tornem estantes inacessíveis. O hardware, em sua maioria, são os dispositivos de leitura [reading devices] fabricados por empresas privadas com interesses mercantis bastante díspares. O software, o mediador entre a máquina e o leitor, oscila entre linguagens de programação proprietárias e os chamados códigos abertos [open source]. E o conteúdo, nosso principal item, sempre dependerá dos dois primeiros para ser efetivamente acessado e usado em sala de aula.

Para que os agentes envolvidos e interessados na utilização das bibliotecas escolares [governo, editoras, autores, professores, alunos, etc.] se beneficiassem igualitariamente de um repositório digital, o desenvolvimento de seu ecossistema pode se basear no conceito de open source. Ou seja, de código fonte aberto, de acesso livre e irrestrito. A open source permitiria a democratização do acesso aos eBooks e, a meu ver, é o caminho mais próximo do ideal em médio e longo prazos.

Os acervos digitais, porém, devem estar sustentados por modernos modelos de negócios, porque um dos principais entraves para a construção de bibliotecas digitais é o investimento para se montar sua estrutura de trabalho. O investimento inclui desde a aquisição, a digitalização de obras, quando houver esta necessidade, até o emprego da tecnologia de Digital Rights Management [DRM] empregada para os controles de acesso as obras.

Minha proposta, descrita a seguir, é simular um ecossistema de conteúdo digital voltado à educação. Nesta proposta de trabalho, iremos levar em conta o emprego da tecnologia da informação, porque ela ainda é central quando se fala livros digitais [didáticos, paradidáticos ou de leitura complementar]. Propomos criar uma alternativa, uma solução para a problemática do livro em repositórios bibliodigitais, para que os profissionais interessados possam enfim vislumbrar um projeto factível e voltar suas atenções ao que realmente importa: a formação e a aprendizagem.

Leitura e educação na era digital

Antes de avançar com uma parte mais técnica, vamos contextualizar o cenário de onde partiremos. Algumas ações gerais podem nos ajudar a permear uma escola de leitores, entre elas, o desenvolvimento de uma rotina de leitura e o estímulo à indicação de livros.

Para estas ações anteriormente descritas se desenvolverem na prática, faz-se necessária a criação e manutenção de diversos ambientes interativos, ou salas de leitura digitais e conectadas. E o principal investimento é a criação de um acervo misto de livros em versão digital disponibilizado através do que chamaremos de Biblioteca Digital Escolar que, entre outros benefícios, deve permitir:

O acesso aos livros através de um rico acervo.
A possibilidade dos próprios alunos escolherem os livros que desejam ler.
Atender mais leitores com menos títulos.
Retiradas, devoluções e recolocações automáticas nas prateleiras digitais.
Adicionar mais títulos ao acervo já criado, sem a necessidade de investimentos em espaço físico, infraestrutura ou dispêndio operacional.
Um mecanismo de busca de uma Biblioteca Digital Escolar que permita a pesquisa de palavras em uma obra ou em uma coleção inteira de livros.
Análise dos relatórios detalhados sobre a utilização da biblioteca, melhorando a qualidade das decisões de aquisição de novos títulos.
E deve permitir os mesmos dispositivos de direitos de propriedade dos livros impressos [através de um sistema de gerenciamento digital de Direitos Autorais, o já citado DRM].

Estes e outros benefícios antes descritos podem ser o atrativo para os leitores que estão mais dispersos em outras mídias digitais interativas, fora dos ambientes pedagógicos tradicionais. Uma Biblioteca Digital Escolar é a solução mais adequada para atender a alunos de cursos à distância, ou iniciativas de inclusão digital, por exemplo, que necessitam de acesso a uma biblioteca completa.

Nosso ecossistema terá um servidor central de conteúdo. Este servidor irá literalmente servir as estantes virtuais de eBooks que poderão ser criadas pelos próprios usuários. Estas estantes poderão ser temáticas conforme a necessidade de cada educador ou grupo de alunos. E estas estantes, por fim, irão alimentar as salas de leitura que serão formadas pelos usuários para que se possam realizar os trabalhos pedagógicos comuns a eles [como nas comunidades virtuais de ensino].

O servidor de conteúdo

Podemos utilizar se quisermos as soluções prontas, daquela empresa que quer dominar o mundo. Ou podemos desenvolver nossas próprias soluções. Iremos pelo caminho que nos trará mais aprendizado. Para construir nossa Biblioteca Digital Escolar precisaremos de um servidor de conteúdo, ele será o alicerce do nosso repositório, do nosso acervo central. Por servidor de conteúdo entende-se o sistema tecnológico que irá salvaguardar os objetos digitais e permitirá sua circulação para os usuários nas salas de leitura.

Tecnicamente, vamos chamar a base para a construção da nossa Biblioteca Digital Escolar de Library Content Server. O nome é apenas uma alegoria. Nossa biblioteca digital necessitará de um servidor de conteúdo escalonável e seguro, que pode ser um servidor dedicado ou podemos também, para minimizar os nossos custos, usar um servidor compartilhado de algum serviço de cloud computing [computação em nuvem].

No caso de projetos ligados às iniciativas públicas, há algumas instituições que já mantêm o seu próprio parque tecnológico que pode eventualmente ser usado para suportar nosso servidor. Como dito, o que realmente importa é que o nosso servidor de conteúdo digital será a base tecnológica da nossa biblioteca.

Ainda estamos no campo das ideias, mas o objetivo da nossa Library Content Server será tornar possível a customização de uma central de armazenamento e distribuição de eBooks para alunos e professores, com o controle dos usuários desde o login [ou seja, a entrada do leitor] até o acesso seguro aos conteúdos digitais [já que as editoras e autores fazem tanta questão]. Nossa proposta é uma solução que servirá para a hospedagem, armazenamento, distribuição, acesso e compartilhamento dos livros digitais.

Whitelabel pages

Para melhorar a rotina de utilização, nossa Library Content Server deverá permitir a criação de páginas customizadas para bibliotecas públicas e até particulares. Elas poderão ser usadas para a circulação de livros usando, neste módulo específico, o conceito de whitelabel. Ou seja, de páginas criadas de modo customizado conforme as necessidades e realidade do intermediador do conteúdo [que pode ser o próprio bibliotecário, já que uma lei assim impõe] ou do moderador da leitura [que pode, por exemplo, ser o educador].

Com esta ferramenta, cada escola pode criar a sua própria sala de leitura com suas estantes temáticas, a partir do repositório central, enchê-las de títulos e, mais tarde, permitir o compartilhamento das obras. Com este módulo, cada aluno ou educador poderá criar a sua própria página e organizar a sua própria estante de livros e também compartilhar conteúdo seguro através e com outras salas de leitura.

Através dos principais módulos, nossa Biblioteca Digital Escolar permitiria:

  • Criação de páginas customizadas [salas de leitura] para escolas, professores e alunos.
  • Criação de estantes e bibliotecas digitais portáteis e acessíveis.
  • Acesso ao painel de controle das salas, estantes e eBooks.
  • Acesso ao painel de controle dos Direitos Autorais em tempo real.

Open share

O código-fonte por trás da estrutura da nossa Library Content Server deve ser baseado em uma licença freeware, livre de pagamento de royalties. Os provedores de conteúdo [autores, editoras, distribuidores, etc.] podem obter lucro com a exploração comercial do conteúdo disponibilizado, como hoje ocorre com o mercado de livros impressos, mas não seria estimulada a exploração comercial em cima da plataforma em si [com exceção do suporte técnico necessário].

Há custos envolvendo o desenvolvimento do acervo digital, principalmente na instalação, configuração e manutenção do sistema. Mas instituições, escolas, bibliotecas públicas e entidades que cuidam da questão da leitura poderão desenvolver o servidor de livros digitais Library Content Server sem os altos custos de licenças geralmente existentes em sistemas de igual complexidade.

As tecnologias que podem ser usadas na estrutura da Library Content Server são populares na internet e já amplamente difundidas e utilizadas por milhares de empresas no mundo todo. Nossa Library Content Server teria, salvaguardando alguns pormenores aqui ainda não detalhados, a seguinte estrutura tecnológica básica:

  • Servidor
  • Código fonte [linguagem de programação]
  • Scripts de segurança
  • Banco de dados
  • Front-end de leitura
  • Gateway de e-commerce
  • eBooks

As tecnologias devem ser de uso padrão e podem ser implantadas por profissionais facilmente encontrados em nosso mercado. Estes profissionais já estão familiarizados com estas tecnologias citadas e só precisam de um bom mapa de desenvolvimento para, enfim, construir o acervo central.

Por uma biblioteca descentralizada

Para que o projeto da nossa Biblioteca Digital Escolar não esbarre em corporativismos o e burocracias, precisamos criar mecanismos que criem a independência necessária principalmente para os casos em que nosso projeto esteja abaixo do poder público. Nada contra, creio apenas que o controle da nossa biblioteca deve ser feito de modo prático, descentralizado, com capacidade operacional plena.

Já existe hoje uma diversidade de programas governamentais, como é o caso do Programa Nacional Biblioteca da Escola [PNBE], Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Prossionais da Educação [Fundeb] e Plano de Ações Articuladas [PAR]. É possível levantar patrocínio através da iniciativa privada, que podem nos ajudar a enriquecer o nosso acervo sem precisarmos necessariamente ficar atrelados à supervisão ou controle que burocratize o projeto e torne os livros digitais tão inacessíveis quanto são hoje os livros impressos nas bibliotecas físicas em geral.

Vencido qualquer cenário burocrático neste sentido, há casos, e não é raro, em que o arquivo do livro, por conta de restrições contratuais e ou técnicas, não se encontrará ‘fisicamente’ dentro de nosso repositório central. Neste caso específico, nós poderíamos recorrer [se for o caso] aos metadados. A equação aqui é mais simples que lhe dar com burocratas. Precisamos estabelecer um padrão, de preferência aberto [um exemplo é a Onix for Books, mas, no Brasil, se usa geralmente o protocolo Marc 21] para os dados completos sobre o livro. Criamos uma rica indexação de obras com o objetivo único e final de levar o nosso usuário até os livros, independente de onde os arquivos estejam disponíveis.

Com o uso dos metadados, os dados sobre os livros, nossa biblioteca pode oferecer aos usuários comodidade na busca por títulos, assuntos, temas, escritores, coleções, e uma infinidade de palavras-chave que poderão direcioná-los até a estante mais próxima. O usuário poderá enfim encontrar o conteúdo que busca, mesmo que o material esteja longe do nosso próprio acervo.

Conforme dito, o servidor de nossa biblioteca pode ser construído em cloud computing [computação em nuvem], o mais importante, porém, é que os recursos da Library Content Server devam permitir que os objetos digitais armazenados possam ser acessados prioritariamente via web browsers [navegadores] a qualquer momento, a partir de qualquer dispositivo móvel.

O sistema das salas de leitura não deve restringir ou obrigar o usuário/leitor/aluno à instalação de nenhum aplicativo, componente ou plug-in em seu reading device [dispositivo de leitura]. O ideal é que os recursos de leitura e conteúdo estejam disponíveis dentro da própria solução e ambiente virtual de acesso. Os aplicativos, neste cenário, podem existir desde que não criem nenhum tipo de interferência [dependência] no acesso aos livros. Embora muitos aplicativos ajudem na exploração e experiência, muitos acabam criando muros maiores que os das bibliotecas físicas.

O front-end do sistema Library Content Server [ou seja, a interface final com o usuário — responsável pela montagem de cada estante, sala de leitura ou páginas dos livros] deve ser baseado no conceito de acessibilidade total. Isto quer dizer não só que os objetos digitais possam ser acessados e livremente lidos através principalmente dos navegadores que permitam o acesso à internet, mas que a rotina que permite a leitura deva obedecer às regras básicas da World Web Consortium [W3C] e do consórcio International Digital Publishing Forum [IDPF].

O front-end da biblioteca digital deve ‘rodar’ em qualquer navegador através de hardwares de leitura como desktops, notebooks, laptops, netbooks, ultrabooks, tablets, smartphones, e-readers e até nas lousas digitais. O sistema deve permitir, enfim, o acesso e a leitura de arquivos nos formatos já amplamente utilizados pelos provedores de conteúdo, como PDF, Daisy, HTML5 e, claro, ePub.

O gerenciamento de Direitos Autorais

Os eBooks armazenados na Library Content Server devem ser tratados como objetos independentes, o que permitirá o compartilhamento seguro entre os usuários previamente cadastrados [bibliotecários, professores, alunos, escola, etc.], cada um com o seu perfil de acesso, com login e senha.

Os eBooks devem ser completamente livres de criptografias restritivas para que, portanto, possam ser acessados à partir de qualquer suporte de leitura, bastando apenas haver no mínimo o navegador com conexão via web.

A segurança dos objetos digitais deverá existir, é claro, mas podem tecnicamente estar alocadas em cada biblioteca, estante ou sala de leitura que, por sua vez, estará atrelada a conta de usuário, que necessitará estar previamente registrado na biblioteca para ter acesso aos livros liberados. Livros digitais em regime de Domínio Público, por exemplo, podem ser armazenados no sistema sem a necessidade de criptografia, senhas ou segurança. E, portanto, podem ser acessados mais rapidamente pelos usuários cadastrados.

Muito se tem falado a respeito do empréstimo nas bibliotecas digitais, mas a equação para esta questão é simples. Se há, por exemplo, apenas 100 exemplares digitais de um determinado título, licenciados e a disposição na biblioteca, somente estes 100 exemplares digitais poderão ser emprestados para os usuários. O usuário de número 101 na fila de leitura deve aguardar a devolução de um exemplar para o acervo central de um dos exemplares já emprestados da obra.

Para os livros em regime de Direito Autoral, um gateway de pagamento atrelado a Library Content Server pode permitir os pagamentos. E o repasse dos Direitos Autorais, dos casos específicos, pode ser realizado em tempo real tanto para a editora ou distribuidor, quanto para o autor, que podem resgatar os valores através de um dashboard [painel de controle].

Nenhum livro, porém, deve ‘subir’ para o servidor da Library Content Server sem a autorização prévia da editora, autor, distribuidor ou do detentor dos Direitos Autorais [através de um contrato, de preferência por escrito, de autorização]. Desencorajamos qualquer ação contrária nesse sentido.

É importante incluir no projeto de desenvolvimento uma rotina de trabalho de convencimento dos detentores de conteúdo com relação às licenças, através de uma política de aquisições clara, objetiva e transparente.

Definindo a política de aquisições

Embora tenhamos o desafio nas aquisições dos títulos frente a um mercado carente de entendimento, a logística do livro digital é mais simples do que o problema enfrentado com relação à distribuição e logística dos livros físicos. No caso dos livros impressos, o trabalho do bibliotecário é realizado de modo mais tranquilo porque historicamente os autores e editoras já conhecem a finalidade das compras.

A aquisição de um eBook por parte de um bibliotecário torna-se, porém, um desafio na medida em que os detentores dos Direitos Autorais [editoras, distribuidores, autores] insistem em saber como, onde e de que forma os livros adquiridos serão acessados pelos usuários.

A questão que surge é que não há um nível seguro de conhecimento de todos os envolvidos que permita uma rápida tomada de decisão. O que pode tornar o processo mais lento. E para que o trabalho cotidiano do bibliotecário não se altere drasticamente, o ideal é que o profissional tenha em mãos os limites territoriais, de idioma e de temporalidade de sua biblioteca digital para que o detentor dos Direitos Autorais possa enfim licenciar as obras [e colaborar com o projeto].

Para obter uma quantidade maior de títulos, uma biblioteca não precisa necessariamente estar diretamente atrelada a, por exemplo, uma plataforma de autopublicação. É muito importante ponderar, em nosso projeto, a fase de aquisição de conteúdo digital, e o seu modelo, e separarmos da seção de oferta de títulos para o leitor. Ou seja, em uma ponta nós iremos adquirir os títulos, neste momento, poderíamos até eventualmente manter parceria com projetos de autopublicação; mas, na outra ponta, teremos a disponibilização dos títulos. Uma ferramenta de autopublicação atrelada a nossa biblioteca só iria atrapalhar a nossa curadoria de conteúdo.

Na hora de adquirirmos os títulos para o nosso repositório, temos de ter a clara noção do nosso modelo de oferta. Se a aquisição é perpétua, por meio de uma licença, por um longo ou curto período de tempo, o ideal é que esta aquisição esteja sempre vinculada à demanda e direcionada unicamente ao usuário. Lá na ponta, o usuário tem de estar bastante familiarizado com as possibilidades de acesso ofertadas [assinatura, aluguel, pay per view, etc].

Nossa biblioteca poderá adquirir os títulos através dos próprios autores, de suas respectivas editoras, ou de distribuidores, o que for melhor em cada caso, dependendo da oferta e da demanda do acervo central. Em cada um dos casos, o ideal é que haja um contrato firmado e registrado que estipule as regras mínimas de compartilhamento do conteúdo adquirido.

Para eliminar custos na aquisição de conteúdo, o ideal é que o nosso acervo central seja o próprio ‘agregador’ de conteúdo, dessa forma estaremos mais aptos a negociação com os detentores dos Direitos Autorais.

A aquisição do conteúdo digital será quase sempre orientada ao usuário [usando a aplicação do conceito patron driven acquisition] e independente da política de acesso dispensada ao leitor, o ideal é que esta aquisição do exemplar digital em si seja sempre perpétua.

O ideal também é que toda essa gestão de aquisições e do controle de acesso dos usuários seja realmente desenhada pelo profissional bibliotecário. Que deve estudar minuciosamente o seu público leitor antes de definir prioritariamente a política de acesso [que será obviamente baseada no modelo de negócios], para, enfim, definir o modelo de aquisição dos títulos.

A aquisição de conteúdo estará intimamente ligada com o nosso modelo de disponibilização. Ao mesmo tempo em que elaboramos de que modo podemos adquirir conteúdo para a nossa biblioteca digital, precisamos pensar também de que modo iremos compartilhar este conteúdo com o nosso usuário final [escola, professor, aluno, etc.].

Definindo a política de acesso

Conforme nossa biblioteca for crescendo em tamanho de títulos e usuários, outros desafios virão. A começar pela própria bibliodiversidade até o número de exemplares digitais disponíveis para cada título [que, como já dito, estará por sua vez automaticamente ligado ao modelo de permissão de acesso ao usuário].

A política de acesso de cada biblioteca digital estará intimamente ligada com o seu modelo de negócios. Ou seja, as aquisições e compras só poderão ser efetuadas se o modelo de acesso for bem especificado. Por exemplo, a biblioteca pode ter um modelo na qual o usuário pague uma assinatura [pay per view]. O usuário pode optar pelo empréstimo em curto ou longo prazo.

Cada biblioteca digital pode ter definidas as suas próprias políticas de acesso aos conteúdos. Cada política de acesso deve estar visivelmente bem clara a todos os atores do projeto para que a comunicação, desde a aquisição das coleções, até a sua disponibilização, se mantenha clara e objetiva.

Propomos enfim, em nosso projeto, uma política de acesso universal e irrestrita que mantenha ao mesmo tempo resguardados os Direitos Autorais, mas, principalmente, o direito do acesso à informação e ao conhecimento em primeiro plano.

Eis aqui o nosso check list básico:

  • Definição da política de acesso dos leitores/usuários.
  • Definição da política de compra dos eBooks.
  • Definição do modelo de negócios da biblioteca.

Estes três itens básicos irão melhorar o desempenho da nossa Biblioteca Digital Escolar na medida em que irá baixar o nível de convencimento dos detentores de Direitos Autorais e propiciará melhora na comunicação com o leitor, usuário, aluno, etc.

Nossa arquitetura bibliodigital

Independente do modelo de negócios por trás de um acervo [público ou privado], e para que o modelo a ser seguido obtenha um alto valor agregado, uma arquitetura bibliodigital deve ser inteiramente portátil, ou seja, deverá ser carregada através de qualquer dispositivo móvel.

Insisto [já pedindo desculpas pelas repetições] que essa arquitetura deva ser inteiramente acessível, ou seja, deve permitir o armazenamento e acesso de conteúdo através das tecnologias populares e já amplamente conhecidas.

Desenvolver uma arquitetura bibliodigital exigirá, do projeto e da equipe envolvida, interoperabilidade computacional, integração do ecossistema com outras soluções de ensino a distância, portais de conteúdo e plataformas de eBooks. Estes itens devem ser minuciosamente observados levando-se em conta àqueles tantos outros tão importantes já citados, como:

  • A computação em nuvem [ou seja, uso dos serviços de acesso sob demanda e utilizando-se de recursos computacionais compartilhados].
  • A mobilidade da biblioteca digital proposta.
  • A portabilidade do conteúdo através de diversos dispositivos de leitura.
  • A bibliodiversidade do conteúdo na biblioteca.
  • A acessibilidade total a biblioteca através do uso de softwares livres.

Professor também é leitor

Nossa Biblioteca Digital Escolar poderá ser utilizada não somente pelos alunos, mas também pelos professores, que também carecem muitas vezes de seu próprio hábito de leitura. Se o professor tem a oportunidade de melhorar sua leitura, se tornará ainda mais producente criar e incentivar este hábito no educando.

O educador não precisa substituir o profissional bibliotecário, em seu trabalho mais técnico, mas pode ser o agente de leitura nas salas que permitiremos criar. O educador pode ser o moderador das salas de leitura [comunidade de leitores].

Pensando em um cenário onde ambos os profissionais possam atuar em nosso ambiente de leitura, nós podemos contar com a colaboração tanto dos professores quanto dos bibliotecários nos aspectos que tangem:

A organização do acervo com uma variedade reconhecível de títulos.
Ajudar o leitor a desenvolver o senso crítico do mundo que o cerca.
Colaborar com o desenvolvimento intelectual do aluno.
Colaborar com a formação e o crescimento cultural e, portanto, social dos alunos através de uma leitura complementar.

Ao criar um espaço conectado, de livre frequência, estaremos possibilitando o acesso aos livros sem as intermediações que hoje criam obstáculos para a formação de novos leitores. O ideal é que a nossa biblioteca também crie para o professor a oportunidade de ter acesso a uma produção editorial, tanto quanto os alunos que farão uso para os mais variados objetivos.

Fazendo-se cumprir a lei

A Biblioteca Digital Escolar pode se transformar em uma coleção de livros, materiais e documentos registrados em suporte digital, destinado à consulta, pesquisa, estudo e leitura. Com a Biblioteca Digital Escolar, o professor pode ter em mãos uma poderosa ferramenta de estímulo ao desenvolvimento de jovens estudantes nos campos de leitura e um verdadeiro acervo para a construção da arte do saber e do conhecimento.

Segundo a Lei N°12.244, decretada pelo Congresso Nacional e sancionado pelo Governo em 25 de maio de 2010, todas as instituições públicas e privadas de todos os sistemas de ensino do País deverão contar com bibliotecas. Com a Biblioteca Digital Escolar, a instituição de ensino poderá se preparar e se antever a realidade da Lei N°12.244 que diz:

“Os sistemas de ensino do País deverão desenvolver esforços progressivos para que a universalização das bibliotecas escolares, nos termos previstos nesta Lei, seja efetivada num prazo máximo de dez anos”.

Segundo Dados do Censo Escolar, de 2009, há 99.896 escolas do Ensino Fundamental e 7.174 escolas do Ensino Médio sem bibliotecas. Segundo o Censo Escolar de 2011, seria 113.269 escolas públicas sem biblioteca. É fato que praticamente 80% das escolas públicas não têm bibliotecas. Mas é fato também que, para melhorar o nível de leitura nas escolas, não precisaríamos de novas leis [como é o caso daquela de número 12.244], se realmente colocássemos a mão na massa. Mas já que a lei foi criada, nós podemos usar de suas prerrogativas para ajudar a levar livros às escolas através das bibliotecas conectadas.

Em meados de agosto de 2013 foi aprovada no Congresso Nacional uma lei que destina 75% dos royalties do pré-sal para a educação. É importante lembrar que uma biblioteca digital também pode cumprir o papel de uma biblioteca pública. Um espaço de leitura conectado não deve substituir as tão sonhadas bibliotecas físicas escolares, mas podem criar um caminho alternativo para a construção de um País letrado.

Uma das metas do Plano Nacional de Educação é que pelo menos metade das escolas de educação básica seja de tempo integral até o início da década de 2020, quando se deve alcançar o incremento de 120 bilhões de reais oriundos dos royalties do pré-sal. Se estudantes das escolas públicas terão mais tempo dentro das escolas, precisaremos de mais ferramentas em quantidade e qualidade para aprender mais e melhor.

O País precisaria construir mais de 100 mil bibliotecas até 2020 para cumprir a Lei [mais de 30 unidades por dia]. Precisaremos investir ao mesmo tempo em mais bibliotecas, para atender a lei 12.244 e, ao mesmo tempo, precisaremos de mais laboratórios ou salas de informática. Poderíamos ganhar tempo com a construção das bibliotecas digitais e reinvestir o montante da diferença dos exemplares impressos em mais títulos digitais.

Uma biblioteca digital pode ajudar no desenvolvimento da educação com investimentos menores do que a construção de bibliotecas de tijolos. Nossa ideia, com o nosso projeto de instalação de ambientes de leituras conectados, é criar maneiras sustentáreis de se fazer cumprir a lei, e de colaborar com a expansão do número de leiturasem nosso País.

Inúmeras oportunidades de crescimento

A tecnologia está com seus olhos voltados para a educação e o mercado de conteúdo digital e literário voltado à educação é um dos mais promissores negócios que envolvem os eBooks.

Conforme registrado, os futuros royalties do pré-sal podem gerar um incremento da ordem de mais de 120 bilhões de reais no orçamento da educação até 2022, segundo projeção do próprio Ministério da Educação. Dados do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação [FNDE], autarquia do MEC responsável pelos programas do livro didático e da biblioteca da escola, mostram que as escolas públicas da educação básica receberam 43 milhões de livros de literatura infantil e infanto-juvenil, no período de2005 a 2010.

Outros números apontam que haverá um aumento de 42% no gasto por estudante da educação básica entre 2014 e 2022. No mesmo período, a média de alunos na pirâmide demográfica brasileira será de aproximadamente 50 milhões de jovens entre 5 e 19 anos.

Existem 5.564 secretarias municipais, e 27 secretarias estaduais, cuidando da educação no País com quem podemos firmar convênios para a construção das salas de leitura digital. Entre elas aquela já citada no início deste artigo que comporta a VESP. No geral, são 190 mil escolas públicas de ensino fundamental e médio. Com dois milhões de professores de educação básica.

Repositórios digitais no futuro

Embora os eBooks possam ser utilizados como ferramenta complementar no sistema de ensino aprendizagem, eles ainda não estão amplamente sendo utilizados na área da educação. Isto ocorre porque ainda estamos em uma fase onde inúmeros projetos ainda tentam de certo modo mimetizar os processos de acesso aos conteúdos já existentes, ao invés de criar um novo cenário utilizando as inúmeras possibilidades que a tecnologia da informação nos permitiria.

Um dos principais motores dessa transformação no modo de ‘ambientalizar’ o processo de aprendizagem é a disseminação dos recursos onipresentes da computação, entre eles a própria internet. Já existem boas alternativas, mas ainda há muitos entraves de ambos os lados, tanto pelo lado da educação, que ainda tenta testar o modelo nas escolas, quanto da própria tecnologia que ainda não se provou realmente eficiente na falta, muitas vezes, do equilíbrio entre a teoria e a prática.

Os impeditivos da utilização dos eBooks na educação passam também pela chamada exclusão digital, pelo analfabetismo funcional, pela falta de acesso e conexão à internet, entre outras questões ainda mais sérias e infelizmente não resolvidas. Os números da falta de leitura no Brasil, por exemplo, são alarmantes. Em qualquer pesquisa ou estudo que se analise, entre eles o indicador Ideb [Índice de Desenvolvimento da Educação Básica], o que se percebe é uma lentidão generalizada na construção de novas bibliotecas, na abertura de novas salas de leitura e na formação de novos leitores.

E é neste sentido que a tecnologia do livro digital pode ajudar na disseminação da literatura através de dispositivos móveis em lugares aonde as bibliotecas de tijolos não chegarão até 2020.

Um texto forma uma página. Uma página forma um livro. Um livro forma uma estante. Uma estante forma uma biblioteca. E uma biblioteca pode ajudar na formação de um leitor usando os ambientes virtuais como as salas de leitura aqui propostas.

Os eBooks devem transformar a realidade das bibliotecas no Brasil e no mundo. Com apenas um único dispositivo de leitura em mãos, o leitor pode acessar infinitas páginas, de diversos livros, de muitas estantes, de uma Biblioteca Digital Escolar. E a educação,em nosso País, deve se preparar para lidar com uma nova demanda que já foi criada com o advento do livro digital. Para isso, o reinvento das bibliotecas se torna o próximo desafio para toda a sociedade.

* Ednei Procópio, 37 anos, é empresário e um dos maiores especialistas em livros digitais no Brasil, atuando na área desde 1998.

Publicado originalmente em Notícias do Blog do Galeno | 31/01/2014

Planejamento de bibliotecas digitais é tema de curso


Aula ocorrerá no dia 7 de dezembro, em São Paulo

Estão abertas as inscrições para o curso “Planejamento de bibliotecas digitais”. A atividade, com abordagem prática, enfatizará as etapas de planejamento necessárias para criação de projetos de bibliotecas digitais. O foco é oferecer aos participantes orientações diversas sobre questões como escolha de tecnologia, de repositório, seleção de documentos, digitalização, aquisição de conteúdos digitais, direitos autorais, preservação digital, DRM [Digital Rights Management] etc. Serão apresentados os conceitos de bibliotecas digitais, virtuais, eletrônicas e híbridas, apresentando os modelos existentes. A aula ocorrerá no dia 7 de dezembro, sábado, das 8h30 às 18h, na FESPSP [Rua General Jardim, 522, Vila Buarque, São Paulo], e será ministrado por Liliana Giusti Serra, mestranda no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação na Escola de Comunicações e Artes na Universidade de São Paulo [ECA/USP]. O curso custa R$ 150. Informações e inscrições, acesse o site.

PublishNews | 26/09/2013

Atheneum oferece simplificação na distribuição de eBooks


O mercado de livros digitais não pára de crescer pelo mundo. No Brasil, não poderia ser diferente. Diariamente, grandes nomes passam a aderir a esse meio, convertendo seus livros ou realizando lançamentos já no formato digital. Pesquisas recentes mostram a crescente venda de tablets e outros readers para a população, que passa a vê-los como um meio precioso para carregar com facilidade seu material de leitura para qualquer lugar.

Percebendo essa tendência, e visando suprir uma necessidade emergente no país, em 2009 surgiu o projeto Atheneum. Suas características de inclusão e o conceito de comunidade, que alia o acesso à leitura com as possibilidades de compartilhamento de grupos, e também via redes sociais, chamou a atenção da FINEP – Financiadora de Estudos e Projetos do Governo Federal, que aprovou a sua subvenção e, assim, viabilizou o projeto. Naquele momento, iniciou-se o desenvolvimento da plataforma que, no decorrer do tempo e com a evolução da tecnologia, foi ganhando novas funcionalidades e agora está sendo disponibilizada para o mercado editorial.

O Atheneum é um produto desenvolvido pela Mobiltec – Sistemas de Computação Móvel Ltda., que visa oferecer uma solução completa para a publicação, venda, distribuição, proteção de direitos autorais, leitura de livros digitais, em formatos ePUB e PDF, além da possibilidade de compartilhamento e comentários sobre o conteúdo entre grupos de leitores.

As funcionalidades do Atheneum podem ser adotadas em conjunto ou de forma isolada. Por exemplo, ele contempla toda a estrutura de um e-commerce, desde a inclusão de produtos, precificação, carrinho de compras, relatórios gerenciais e tudo mais que se necessita para comercializar e entregar livros digitais pela internet. Porém, se a empresa que for utilizá-lo já tiver um e-commerce, ele poderá será integrado à solução já existente sem conflitá-la.

E, falando em livros digitais, é impossível não nos deparar com um grande problema, que é a proteção dos direitos autorais. Temos aí outro grande destaque do Atheneum, que traz uma solução própria de DRM [Digital Rights Management], que visa criar barreiras de proteção ao conteúdo, evitando sua difusão não autorizada. Vale destacar que hoje em dia as empresas brasileiras que oferecem livros digitais vêm utilizando soluções estrangeiras, que são bastante onerosas e fora do seu controle.

O Atheneum cumpre plenamente o papel da proteção, a custos compatíveis, porque oferece os seus próprios leitores digitais para todas as plataformas de dispositivos móveis.

Não podemos também deixar de destacar a funcionalidade de autopublicação, ou self-publishing, a qual permite que autores independentes, utilizando os recursos do Atheneum, publiquem suas obras, com ou sem a intervenção direta da editora, mas podendo ter auxilio e o suporte desta. Trata-se de uma importante evolução na forma de relacionamento dentro do mercado editorial, desde a criação até a venda e entrega dos livros digitais.

Outro ponto de destaque do Atheneum é que ele possui leitores digitais próprios [aplicativos para leitura], disponíveis para os principais dispositivos do mercado, tais como: tablets, smartphones, desktops ou notebooks, operando com os principais sistemas operacionais, como: Android, iOS, Windows, Windows Phone e, brevemente, o Windows 8. Isso garante ao leitor a possibilidade de carregar, com segurança, sua biblioteca particular em múltiplos e diferentes dispositivos, para fazer a leitura como lhe for mais conveniente, dispondo de funcionalidades que permitem tornar essa leitura mais agradável. Esta característica permite que o usuário do Atheneum, além do Portal, também ofereça os leitores digitais com a sua própria marca.

O Atheneum foi totalmente desenvolvido aqui no Brasil para funcionar em ambientes de internet de baixa velocidade e só exige a conexão para fazer a compra e baixa do[s] livro[s] adquirido[s]. Depois de carregado no dispositivo, o livro pode ser lido em modo off-line, a menos que o leitor queira compartilhar citações nas redes sociais, o que também é possível. Por exemplo, um professor pode criar uma comunidade de seus alunos para compartilharem comentários e experiências de leitura de uma determinada obra apenas entre eles.

Enfim, o Atheneum é uma solução única, muito completa, e que oferece muitos recursos para serem explorados. Vale à pena conhecê-lo.

Por Roni Silveira, Presidente da Mobiltec

Sobre e-incunábulos, marcas d’águas digitais e ex-libris eletrônicos


Por Julio Silveira | Publicado originalmente em PublishNews | 05/04/2012

Uma bruxaria pode acabar com o medo dos e-books e salvar o mercado digital

Recém-surgidos, os livros digitais já têm história. E, em poucos anos de existência, sua evolução tem passado pelas mesmas etapas que seus correlatos, os livros impressos, levaram seis séculos para cruzar.

É justo dizer que ainda não sabemos o que é um livro digital, ou o que pode vir a ser um livro digital. Os e-books atuais deveriam se chamar, mais apropriadamente, de e-incunábulos. Assim como seus equivalentes do século 15 — os primeiros livros produzidos com a então revolucionária tecnologia de imprensa —, os incunábulos eletrônicos estão primeiramente preocupados em imitar, emular, simular. Os e-books têm “páginas” folheáveis, “capas” e, na maioria das vezes, dão as costas aos recursos digitais, tentando parecer o mais possível como um livro que acabasse de se tirar da estante. E os editores de e-books muitas vezes ainda se comportam como se vendessem pesados blocos de polpa de papel, e não informação e entretenimento imateriais.

Seis séculos atrás, a Bíblia impressa por Gutenberg tinha que parecer como se fosse manuscrita por um monge caprichoso. Um pouco mais tarde, quando a evolução da imprensa propiciou que todos os exemplares fossem iguais e, mais importante, tornou viável que uma pessoa pudesse comprar livros e montar uma biblioteca, foi criado um outro recurso para personalizar e proteger o livro, o ex-libris, uma marca em cada exemplar deixando bem claro quem era o dono do livro.

É curioso que a volta do ex-libris aos livros [digitais] venha pelas artes de uma figura tão medieval quanto um bruxo. Na semana passada, após meses de espera e muitas unhas roídas por parte dos fãs, finalmente foram lançadas as versões digitais dos livros de Harry Potter. E com elas novidades importantes para o mercado editorial, uma delas candidata a pedra filosofal: a marca d’água, que promete derrotar o maléfico DRM.

Para fins de marketing, pelo menos, seria mais apropriado chamar a watermark, esse registro individualizado eletrônico, por outra metáfora editorial, o ex-libris. Afinal, a marca d’água tradicional foi um recurso inventado pelos papeleiros e editoras para garantir a todos que o livro era feito por eles, enquanto que o ex-libris era um recurso que o leitor tinha para garantir a todos que o livro era dele. De fato, é isso o que acontece com a marca d’água digital: cada livro comprado [obrigatoriamente no site Pottermore, ainda que a compra em si seja feita no site da Amazon ou outra livraria], é individualizado com um código. Se esse e-book for passado adiante, levará o registro de dono. Se for encontrado, por exemplo, em um site de torrentes ilegais, como o Piratebay, ficará fácil enquadrar o bucaneiro responsável. Mal comparando, é como se alguém tentasse vender uma obra rara que trouxesse, na folha de rosto, um ex-libris dizendo “Acervo da Biblioteca Nacional”.

A diferença fundamental é que, enquanto os ex-libris tradicionais eram criados e colados pelos proprietários dos livros, a marca d’água digital é “embutida” pela editora. Por outro lado, para o leitor, não há qualquer constrangimento quanto a onde e quando ele pode ler. E aí reside a imensa evolução em relação ao que existia antes, o DRM.

O Gerenciador de Direitos Digitais, na sigla em inglês, é um resquício do tempo em que o mercado de conteúdo cultural [livros, música, filmes] ainda acreditava firmemente que as pessoas queriam comprar os suportes, e não o conteúdo. Ele define onde [em que aparelho, ou por quanto tempo] você pode desfrutar daquilo que você, por ter comprado, achava que era “seu”. O medo era de que cópias digitais, que quase nada rendiam às editoras, acabassem com o núcleo do negócio, os livros impressos. O sistema do DRM funciona basicamente na presunção de que o leitor/ouvinte/espectador vai cometer pirataria.

É evidente que essa abordagem, principalmente quando se tenta introduzir um novo produto ou formato, como é o caso dos e-books, já nasce viciada. Se você entra em uma relação com o cliente já desconfiando dele, que razões ele vai ter para confiar em você?

Em um contrato que assinei recentemente com uma das maiores redes brasileiras para distribuir meus e-books, havia uma cláusula que afirmava que o editor [eu] “expressamente reconhece que o DRM [Digital Rights Management] é eficaz para realizar a gestão de direitos digitais e restringir a difusão por cópia desautorizada de conteúdos digitais”. A cláusula deve ter sido escrita para tranquilizar editores temerosos, porém, quando a assinei, senti-me como um ateu forçado a rezar o Credo. Acho mais científico acreditar na “ressurreição da carne” do que na eficácia do DRM. Por pelo menos dois motivos simples: o primeiro é porque fracassou. Fracassou no caso dos CDs [os que sobreviveram não têm DRM] e fracassou no caso dos DVDs, onde o código foi imediatamente hackeado. Essa é a segunda razão: tentar restringir alguma coisa no mundo digital serve apenas para entreter um batalhão de hackers anônimos, como os que, segundo a Macworld, quebraram o código protetor dos DVDs “como se abrissem uma melancia com uma motossera”. [De fato, qualquer pessoa que saiba googlar e tenha algum tempo livre saberá desabilitar o DRM de um e-book.] Em 2007, o finado Steve Jobs escreveu uma singela carta à indústria fonográfica, apelando para que dessem um salto de fé e suspendessem o DRM nas músicas vendidas pela Apple — “em prol de um mercado verdadeiramente interoperável”. A indústria fonográfica resistiu, mas enfim aquiesceu, e a iTunes Store, a primeira loja a vender música sem DRM, é hoje sua maior fonte de renda.

Voltando ao Harry Potter, foi registrado que, entre o lançamento oficial e a primeira cópia em um site pirata pronta para download, passaram-se meras 48 horas. A boa notícia é que este primeiro exemplar pirateado trazia para quem soubesse ler a marca do comprador original, que está à distância de um e-mail [registrado no site Pottermore] de ser processado judicialmente. Mas a melhor notícia é que, para um e-book chegar a um site pirata, levou-se o dobro do tempo para que lá chegasse um livro impresso. Os lançamentos de J. K. Rowling em papel costumavam ser escaneados e convertidos em texto ou PDF e, em menos de um dia, estavam à disposição para download ilegal. [No caso do Brasil, traduções feitas em regime colaborativo faziam os livros chegarem à web antes da publicação pela Rocco]. Quero crer que isso é um sinal de que editores e leitores estão começando a ter um relacionamento mais respeitoso [e prazeroso] de ambas as partes: aqueles dão a esses a liberdade para ler, esses retribuem aqueles comprando. Mas nesse wishful thinking há um porém. Um detalhe que pode fazer toda a diferença: no caso do Pottermore, não é bem a editora quem está fazendo o mercado evoluir. É a autora. J. K. Rowling, que tem os recursos financeiros [e a inteligência] para prescindir das editoras [e de suas restrições] e ainda conseguiu subjugar uma gigante como a Amazon [você pode chegar ao livro por lá, mas a compra será efetuada diretamente no site da autora].

Mais poder ao autor e ao leitor?

Desintermediação? Ou simplesmente bruxaria?

Por Julio Silveira | Publicado originalmente em PublishNews | 05/04/2012

Julio Silveira é editor, formado em Administração, com extensão em Economia da Cultura. Foi cofundador da Casa da Palavra em 1996, gerente editorial da Agir/Nova Fronteira e publisher da Thomas Nelson. Desde julho de 2011, vem se dedicando à Ímã Editorial, explorando novos modelos de publicação propiciados pelo digital. Tem textos publicados em, entre outros, 10 livros que abalaram meu mundo e Paixão pelos livros[Casa da Palavra], O futuro do livro [Olhares, 2007] e LivroLivre [Ímã]. Coordena o fórum Autor 2.0, onde escritores e editores investigam as oportunidades e os riscos da publicação pós-digital.

A coluna LivroLivre aborda o impacto das novas tecnologias na indústria editorial e as novas formas de relacionamento entre seus componentes — autores, agentes, editores, livrarias e leitores. Ela é publicada quinzenalmente às quintas-feiras.

DLD inicia operações até o dia 4 de abril


Por Maria Fernandes Rodrigues & André de Lima | Publicado originalmente em PublishNews | 22/03/2011

Roberto Feith, que além de comandar a Objetiva, é o presidente do conselho da DLD | Fotógrafo: Divulgação/Bruno Veiga

Anunciada em março e criada em agosto de 2010, a Distribuidora de Livros Digitais [DLD] está prestes a iniciar sua operação de distribuição de e-books. Os seis sócios são os mesmos desde sua criação – Objetiva, Record, Sextante, Rocco, Planeta e L&PM – e o início das operações se dará inicialmente com as lojas de e-books da Saraiva e Cultura. A empresa, dirigida por Roberto Vaz Moreira, vinha trabalhando discretamente e em silêncio, sendo comum ouvir no mercado comentários que duvidavam do desenvolvimento e mesmo do início das operações da DLD. Nesta entrevista exclusiva, Roberto Feith, que além de comandar a Objetiva é presidente do conselho da DLD, desmistifica esta visão e mostra que a DLD está a todo vapor ao falar abertamente dos planos, expectativas e cronograma de lançamento da distribuidora digital.

PublishNews: Quando a DLD começa a operar?
Roberto Feith: A DLD concluiu a customização do seu software e está na fase final dos testes operacionais com Saraiva e Cultura. Ela começa a operar com estes dois parceiros até o dia 4 de abril. Além disto, concluiu acordos com mais duas empresas de comércio virtual. Estes dois projetos, desenvolvidos por grupos empresariais nacionais, vão estrear até o final do primeiro semestre. Além disto, a distribuidora está em conversações com outros potenciais parceiros, brasileiros e internacionais.

PN: Quantos e-books ela vai oferecer quando começar sua operação?
RF: Estreamos com 350 títulos, sendo que a maioria deles, livros de grande giro. As editoras participantes da DLD estão comprometidas com o aumento contínuo deste acervo. Ele vai crescer semana a semana. A meta é chegar ao final de 2011 com 1500 títulos.

PN: Os livros distribuídos pela DLD terão DRM [Digital Rights Management]?
RF: Com DRM, para proteção dos autores, leitores e editores.

PN: Como a DLD hoje está estruturada? Qual o tamanho da equipe
RF:A DLD foi criada em agosto de 2010 e estruturada para utilizar de forma integrada a tecnologia mais avançada possível. As próprias editoras clientes realizam o upload dos livros digitas e dos respectivos metadados. Elas também podem acessar em tempo real, e com diversos recortes, as informações relativas às vendas. As livrarias podem fazer o mesmo. Deste modo, parte da operação fica a cargo dos próprios clientes, editoras e livrarias. O software da plataforma está integrado ao sistema de gestão, de modo que funções como o faturamento e prestações de conta também são automatizadas.

Para tocar esta estrutura, temos uma equipe enxuta, de quatro pessoas. Serviços como contabilidade e apoio jurídico são terceirizados. Outras pessoas trabalharam no projeto, prestando consultoria em diferentes etapas, como, por exemplo, na elaboração do Plano de Negócios, e este tipo de consultoria continuará a ser utilizada sempre que oportuno.

Foram também realizadas algumas sessões de treinamento para as equipes técnicas das editoras clientes, especialmente no que concerne a conversão de arquivos para o formato EPub, utilizado pela plataforma.

PN: Quais são as habilidades necessárias para se trabalhar com o livro digital?
RF: As habilidades necessárias para trabalhar com o livro digital são as mesmas do que nos outros formatos; conhecimento, visão e criatividade, tal como no livro impresso, falado, gravado, micro filmado ou em qualquer outro suporte.

PN: Como a DLD imagina o mercado dos livros digitais em 5 anos?
RF: Difícil prever com exatidão. Existem muitas variáveis e algumas delas provavelmente ainda não deram o ar da graça. Ainda assim, elaboramosum Plano de Negócios para a DLD com as informações disponíveis. Este plano prevê que até 2015 a venda de dispositivos de leitura no Brasil vai ultrapassar um milhão de aparelhos por ano; a venda de livros digitais vai superar oito milhões de exemplares por ano e isto vai representar cerca de 7% do mercado. Se estas previsões estiverem erradas, será porque foram conservadoras.

PN: Quais são os desafios?
RF: O maior desafio tem sido compreender todas as transformações em curso – em termos tecnológicos, nos hábitos do consumidor e na cadeia de valor do livro – e as suas respectivas implicações e, desta reflexão, elaborar uma estratégia eficaz de atuação. A DLD é um dos resultados desta reflexão.

Por Maria Fernandes Rodrigues & André de Lima | Publicado originalmente em PublishNews | 22/03/2011

O incompreensível mercado dos e-books


Por Vicente Escudero, de Campinas | Publicado originalmente em Digestivo Cultural | 3/3/2011

Então você comprou seu Kindle acreditando que a revolução dos livros digitais economizaria seu dinheiro, permitindo que no final do mês o número de livros na sua conta fosse muito maior do que aqueles restos de árvores mortas guardados na estante. Hmm… parece que sua ideia não deu muito certo, não é mesmo? A entrega dos e-books pela rede 3G em breve vai ganhar apenas da FedEx no quesito tempo de entrega, porque os preços dos livros nos dois formatos parecem estar caminhando para um estranho empate, com os bits se igualando ao custo do livro impresso com capista, ilustrador e papel. O minimalismo dos e-books equivale ao custo de produção de um livro?

Não se trata de ser aquele cara chato que sai por aí pechinchando o preço das meias. Esta discussão é importante, pois havia uma expectativa de redução dos preços dos livros e do aumento dos royalties dos autores com o crescimento das vendas de e-books. Difícil de acreditar que o custo do livro de papel, dividido entre a matéria-prima de seu suporte e os detalhes de uma edição caprichada, se equipara aos valores de uma edição digital preto e branco editada num software que cria dezenas de milhares de cópias armazenáveis em um único pen drive. Defensoras desta tese, as editoras alegam que apenas 15% do custo de produção dos livros em papel refere-se ao gasto com seu suporte físico. O restante seria dividido entre o editor, autor, revendedoras, distribuidoras e publicidade. Até o livro chegar à prateleira, muitas mãos trabalharam para produzir seu resultado.

Entre os argumentos para essa equivalência de valores existe o da necessidade de adaptação das versões digitais para os diferentes formatos de sistemas operacionais, como o Android, iOS, Blackberry e o próprio Kindle. Embora já esteja disponível um formato compatível com a maioria dos leitores, exceto o Kindle, chamado EPUB, a distribuição desses arquivos pelas livrarias virtuais é realizada com a utilização da proteção chamada DRM [Digital Rights Management], que é incorporada no e-book e impede sua cópia e utilização em dispositivo diverso daquele em que foi adquirido. Este sistema já é utilizado em arquivos MP3 e AAC e parece que terá vida longa nos e-books enquanto não houver um consenso entre as grandes livrarias, os produtores de readers e o bolso do público.

Existem outros custos específicos das versões digitais que ainda não alcançaram um patamar razoável para estabilizar seu preço final: programação de softwares antipirataria, armazenamento digital e suporte jurídico. Todos esses custos, somados às parcelas do editor e do autor equivaleriam aos gastos de produção do livro de papel, fazendo com que você olhe de cara feia para o preço estampado na internet. Alguns desses valores já estão claros para o leitor. A Amazon divulgou na última ocasião em que aumentou os royalties dos autores independentes que o custo de envio dos livros pela rede 3G, em todo o mundo, não passa de 6 cents por livro, o equivalente a 10 centavos no Brasil. Essas moedas que você deixou cair no carro pagariam um ano do frete virtual do Kindle.

Ainda não dá para morrer de paixão pelo esforço das editoras em distribuir os livros digitais entre tantas dificuldades. Corre por aí o boato sobre o temor do mercado editorial ser forçado a reduzir o preço das edições em papel, sua maior fonte de renda, em caso de queda dos preços das edições digitais. A piada, segundo o escritor Larry Doyle, é que os preços dos e-books não são menores porque as editoras temem desvalorizar a ideia que as pessoas têm sobre os livros. Melhor que isso seja mentira. Enquanto a relação entre autores e editoras vive um momento de transição, envolvendo até processos judiciais sobre os direitos de publicação de edições antigas no formato eletrônico, outros arranjos para a publicação começam a surgir para competir e preocupar o mercado editorial tradicional.

Os maiores competidores das editoras neste novo mercado são a Apple, Amazon e Barnes & Noble. Não surpreende o fato de que cada um deles tenha desenvolvido seu próprio suporte para leitura de e-books com sistemas fechados, já pensando na possibilidade de controlar o mercado utilizado pelo usuário. As editoras também não esperavam que a Amazon e a Apple começariam ocupando o espaço de produção de e-books. Hoje, a margem de lucro que o autor independente encontra para vender seu livro diretamente através da Amazon ou da iBooks está próxima dos 70%, percentual muito acima do oferecido pelas editoras tradicionais que começa a atrair autores de peso.

Talvez a única vantagem das editoras tradicionais sobre este novo sistema de autopublicação seja a presença do editor intermediando a relação entre o leitor e o autor. Entretanto, para aterrorizar ainda mais as editoras, já surgem notícias de agentes literários trabalhando um novo sistema de publicação e divulgação que utiliza as ferramentas oferecidas pela Apple e a Amazon e conta com editores independentes ou vinculados a agentes. No meio dessa tempestade, parece difícil enxergar como será o mercado daqui a cinco anos. Só não dá para ter dúvida de uma coisa: um milhão de livros iguais em papel não custam o mesmo que um milhão de e-books. Dos e-books, só o Kindle e o iPad vêm na caixa, pelo correio…

Por Vicente Escudero, de Campinas | Publicado originalmente em Digestivo Cultural | 3/3/2011

O que os poderosos pensam do DRM e uma explicação do conceito de nuvem


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 16/02/2011

Um dos meus últimos posts teve como base só uma coisa: minha frustração com o que sinto ser a tendência daqueles que se opõem ao uso do DRM de afirmar que os defensores da proteção acreditam que ela evita, ou ao menos desencoraja bastante, a pirataria. Sei que não é verdade comigo e suspeito que não seja verdade entre os poderosos da indústria de livros, tanto do lado das editoras quanto dos agentes.

Concordo com a opinião dos oponentes do DRM de que o apoio a esse tipo de proteção não tem muita base em dados significativos apesar de que, na verdade, não existem muitos dados em nenhum lugar. Por alguma razão, parece que o lado anti-DRM acha que você precisa ter provas convincentes para justificar o apoio para manter o DRM, mas não é uma exigência para defender sua remoção. Mas está claro que minha proposta – de que é bastante impreciso acusar todos os apoiadores da DRM de acreditarem que é possível acabar com a pirataria com o uso da proteção – pode ser pesquisada. Então foi isso que fiz.

Nove executivos de alto nível em sete editoras top, mais quatro agentes literários com clientes muito conhecidos [um deles também tem experiência do lado editorial], responderam às três perguntas que mandei por e-mail.

1. Você acha que DRM é necessário para proteger as vendas de e-books dos títulos mais comerciais?
2. Você acha que o DRM é eficiente contra a pirataria?
3. Você acha que o principal benefício do DRM é prevenir a troca informal de livros?

Fui transparente: Falei às pessoas que minha opinião era “sim”, “não”, “sim”. Tenha quase certeza de que minhas opiniões não influenciaram nenhuma dessas pessoas.

Onze dos 13 concordaram comigo que DRM é necessário para proteger as vendas. Dez dos 13 concordaram comigo que DRM não é um método eficiente contra a pirataria. E 12 dos 13 concordaram comigo que o principal benefício do DRM é evitar a troca informal!

Não sei quantos oponentes do DRM tem o interesse ou a paciência para ler esse blog, mas notem. Ou é pouco confiável ou pouco sofisticado [ou os dois] usar “isso não acaba com a pirataria” como argumento contra o DRM. A maioria das pessoas que apoia o uso de DRM sabe disso e concorda. Não é nenhuma novidade. Você poderia também tentar persuadir o outro lado dizendo que DRM não cura o câncer. Concordamos nesse ponto também.

Os dados me deram uma grande surpresa. Dois dos quatro agentes disseram que não acreditam que o DRM é necessário [de nenhum jeito] para proteger as vendas dos e-books. [Nenhum dos editores votaram dessa forma.] Quatro é uma pequena amostra para chegar a qualquer conclusão, mas poderia demonstrar que minha suposição de que editores promovem o uso universal do DRM porque os agentes os obrigam é um pouco exagerada.

Muitos dos que responderam deram, voluntariamente, pensamentos adicionais e detalhes que também continham alguma informação interessante. Um alto executivo de uma das Big Six americanas, que é uma pessoa analítica e que sempre se baseia em dados, informou que “dos principais títulos nossos que foram pirateados, todos foram escaneados, nenhum era de e-books protegido por DRM.” [Acho isso bastante surpreendente. Ele mina a alegação frequente – que sempre tive a tendência a aceitar – que o DRM é uma barreira fútil contra a pirataria por ser tão facilmente quebrada. Se isso for verdade, por que as versões pirateadas que os editores encontram não vem de e-books com a DRM destravada? Algo está errado aqui.]

E outro executivo, provavelmente ecoando a mesma observação a partir de provas em sua editora, disse que achava que eu estava errado e que DRM realmente diminuía a pirataria, mas acrescentou que “DRM precisa começar muito antes na cadeia de produção para ser eficiente.”

Claro, essas observações exigem mais pesquisas como aquelas que o Brian O’Leary defende. Versões pirateadas feitas de manuscritos não podem ser lidas tão bem quanto uma cópia destravada de um e-book preparado a partir da versão final revisada. Será que algumas pessoas que começam a ler um livro pirata depois decidam comprar o e-book legítimo? Essas cópias poderiam estimular as vendas e os editores seriam mais inteligentes se não as perseguissem? Acho que não temos essa resposta.

Um dos dois agentes que descartou o DRM e respondeu “não” disse o seguinte [algo que na verdade o coloca mais perto da minha posição, apesar de que a nossa interpretação é que sua resposta foi diferente]: “Devemos também perceber que as trocas informais sempre foram uma prática comum com livros físicos. Os únicos títulos que poderiam valer a pena colocar DRM seriam enormes best-sellers onde poderia existir alguma erosão nas vendas. [Um parênteses aqui: Nós concordamos que a troca informal seria mais complicada entre os livros com maior venda.] Todo o resto – especialmente os menores títulos – na verdade se beneficiaria de trocas informais porque precisam de uma base mais ampla de leitores para construir uma pirâmide decente de vendas. Nos títulos menores, duvido que os “trocadores informais” comprem os títulos, mas eles poderiam recomendá-lo se tivessem um exemplar. Sei que muitos editores agora estão distribuindo [ou vendendo bem mais barato] títulos de autores de seu catálogo com a esperança de construir seus nomes. Se há uma lição em tudo isso, é que o meio digital pode ser usado numa variedade de formas e não deveríamos ficar paralisados pelo DRM, exceto para os grandes autores, como notamos acima.”

Recebi as melhores respostas de um executivo que acredita, como eu, que os problemas de pirataria e a necessidade de DRM vão diminuir quando adotarmos cada vez mais e-books baseados na nuvem sem que seja necessário fazer download. Numa frase bastante provocativa, esse executivo disse que apoiava o DRM para vendas de e-books com download porque “se você lançar o Código Da Vinci sem DRM ele passaria de mão em mão como uma prostituta barata numa festa de estudantes!” Mas sua explicação da nuvem se encaixa melhor para audiências familiares.

“Não existe realmente um problema de pirataria, mas não existe nenhuma alternativa verdadeira ao DRM que não seja a nuvem. A nuvem significa que você compra um produto [PS: Eu pessoalmente diria que você “licencia algum conteúdo”, não que “compra um produto”] e ganha o direito de acessar em todo aparelho que possui – conquanto que forneça as credenciais de propriedade. A nuvem significa que você trabalha somente dentro de uma plataforma e que a plataforma exige suas credenciais para acessar seus trabalhos – então isso é, na verdade, DRM – mas não é, exatamente. Dito isso, para que a nuvem funcione, precisa proteger os arquivos quando são baixados – e isso acaba sendo DRM.

O mundo todo está se afastando do download, então o DRM está se tornando irrelevante – somente os fanáticos de bibliotecas e os digerati se importam com isso. Os caras da biblioteca estão loucos por entenderem que não existe lugar para eles num mundo que torna todo o conteúdo acessível aos usuários em qualquer lugar, em qualquer momento – e acham que o DRM é o inimiga de tudo que é bom. Os digerati odeiam o DRM porque, bem, acreditam que está atrapalhando seu reino digital utópico.

Então, a nuvem nos afasta do “download e posse”. Isso pode funcionar? Bom, se você usa gmail e acha que funciona, aí está sua resposta. Por que não funcionaria para acessar, da mesma forma, o conteúdo que licenciou? E por que não funcionaria para proteger material com direitos autorais se dar acesso a outra pessoa para o que você possui direito a ver seria o equivalente a dar acesso a seu e-mail? Baseando-me nessa experiência, isso seria proteção suficiente para me satisfazer. Qualquer compartilhamento que acontecesse sob essas condições não seria informal.

Por Mike Shatzkin | PublishNews | 16/02/2011