Digital Book World acontece em março


Conferência deve reunir 1.500 profissionais do livro para discutirem os rumos da indústria digital do livro

Digital Book WorldCerca de 1500 profissionais do livro devem se reunir na Digital Book World [DBW], marcada para acontecer entre os dias 7 e 9 de março, em Nova York. A conferência idealizada pelo colunista do PublishNews Mike Shatzkin discute os rumos do livro digital, as estratégias para a transformação digital da indústria do livro, apontando tendências e novas possibilidades para a indústria editorial. Entre os destaques da programação, estão John Ingram, presidente e CEO da Ingram; Scott Galloway, professor de marketing da Universidade de Nova York; Dominique Raccah, CEO da Sourcebooks; Virginia Heffernan, escritora que colabora dom a New York Times Magazine, e May Ann Naples, vice-presidente sênior da Rodale Books. Para mais informações e inscrições, acesse o site da DBW.

Redação PublishNews | 11/12/2015

As muitas estrelas da Digital Book World 2015


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 07/01/2015 | Tradução Marcelo Barbão

Metade da conferência DBW – Digital Book World [que começa na próxima semana, em Nova York] vai acontecer no palco principal para todos os presentes. Os palestrantes de 2015 compreendem o grupo mais ilustre que já tivemos. O ponto central é que conseguimos trazer palestrantes da Amazon e da Apple para nosso palco principal – algo que nenhuma outra conferência no mercado editorial já conseguiu fazer –, mas já estaria me sentindo orgulhoso desse programa mesmo se as duas empresas não estivessem! Além do varejo, temos três autores best-sellers, três executivos importantes de editoras [quatro se contarmos que o CEO da F+W, David Nussbaum, vai fazer o discurso de abertura], três especialistas em dados e dois líderes de indústrias próximas.

O programa vai começar com uma apresentação do autor de best-sellers Walter Isaacson, cujo livro mais recente é The innovators. Isaacson escreveu biografias importantes de Benjamin Franklin e Steve Jobs nos últimos anos, com muita repercussão no mercado editorial. Seu livro mais recente fala sobre a revolução digital em geral, o contexto em que ocorre a mudança no mercado, que é o tópico da DBW. Estabelecer contexto é sempre uma boa fomra de começar e é o que Isaacson vai fazer, sem dúvida.

Descobrimos o investidor em educação e tecnologia Matthew Greenfield durante o planejamento da DBW 2015 e pensamos que nossa audiência iria concordar que foi uma grande “descoberta”. A empresa de Greenfield, Rethink Education, investe em start-ups, que ele divide em três grupos: as que entregam livros aos leitores e conteúdo para uso em escolas; as focadas em leituras curtas, como notícias, e as que se relacionam com a escrita, o que provavelmente inclui coleções de leituras para ajudar a desenvolver escritores. Como o campo de tecnologia para educação tem muito a ver com criar novas plataformas cujo conteúdo é consumido em escolas e faculdades [assim como acrescentando valor com contexto e avaliações], ele vai incluir explicitamente conselhos para editores que vendem seu conteúdo para uso educativo e acham cada vez mais necessário vender através destas plataformas. Greenfield também faz algumas especulações interessantes sobre para onde vai a tecnologia educacional e o que podemos esperar ver em quem mais ameaça as editoras: a Amazon.

Não é possível tentar entender o futuro do mercado editorial sem conhecer o novo fenômeno do “marketing de conteúdo”. Então procurei o Fundador do Instituto de Marketing de Conteúdo, Joe Pulizzi, para que mostrasse um pouco de seu conheciento para os editores de livros. Comecei pensando que o negócio de marketing de conteúdo poderia ser bom para nosso conteúdo, mas ele me esclareceu bem rápido: esta não é a sinergia mais provável entre o que ele sabe e o que precisamos. Na verdade, Pulizzi é um especialista em como usar conteúdo para conquistar o consumidor e faz isso para organizações e marcas que precisam pagar para criar este conteúdo. Claro, nós, no mercado de livros já temos muito conteúdo e estamos prontos para ter acesso a mais dentro de nossas equipes e redes existentes. Nesta apresentação, Pulizzi vai falar sobre como podemos usar conteúdo para ganhar o consumidor e clientes leais para quem podemos fazer o marketing diretamente [pensando verticalmente]. Tudo que Pulizzi falar provavelmente vai provocar questões nos editores, por isso também demos a ele uma sessão de grupos para aqueles que quiserem ouvir mais e interagir com ele.

A primeira CEO de editora a subir ao palco será Linda Zecher da Houghton Mifflin Harcourt. Zacher dirige uma empresa que é grande no mercado educativo, mas possui livros na lista dos mais vendidos também, então é a única CEO que atinge estes dois segmentos editoriais. Ela também possui talentos raros para uma executiva do mercado editorial, já que vem da tecnologia [em seu caso, da Microsoft]. Esta entrevista com Michael Cader vai focar nas lições aprendidas do lado educacional que poderiam ser precursores dos ajustes que as editoras gerais também terão que fazer.

O seguinte será James Robinson, Diretor e Analista de Notícias do The New York Times. Robinson é, na verdade, o tecnólogo do Times na redação. Ele proporciona a visão que escritores e editores precisam para entender quem são seus leitores e, claro, não são os mesmos para todas as matérias. Ele também quer garantir que o máximo de pessoas possível veja cada história relevante, mesmo que seja uma surpresa para os leitores. Nem é preciso dizer que Robinson tem um background incrível. Ele passou vários anos trabalhando comigo na The Idea Logical Company antes de obter um Mestrado na NYU estudando com o importante líder, Clay Shirky. A forma como ele pensa em conteúdo e audiências para The Times contém lições para editores de não ficção e talvez para editores de ficção também.

A primeira manhã nas apresentações do Palco Principal vai terminar com Cader e comigo entrevistandoRuss Grandinetti, SVP, Kindle, na Amazon. Grandinetti é um executivo articulado e direto que está com a Amazon desde o começo e que cuidou do Kindle desde sua criação. Com a Amazon sendo considerada a mais poderosa e perturbadora força no mercado editorial, todos estamos interessados em ouvir o que ele pensa sobre o futuro dos livros impressos versus digital, livrarias versus compras online, e quanto vão crescer os programas editoriais e de assinaturas da própria Amazon.

A segunda manhã vai começar com Michael Cader entrevistando o guru de Internet e de marketing Seth Godin sobre o assunto: “o que vem depois?” Godin, que viu – e escreveu sobre – a importância de construir marcas pessoais e listas de e-mails no começo da era da Web, é um bem-sucedido autor de livros que acompanha há várias décadas como as editoras funcionam e fazem marketing. Nesta conversa, ele vai dar conselhos intuitivos e lógicos que muitos podem seguir. Qualquer um que já ouviu Godin falar sobre “marketing de permissão” há 20 anos e seguiu seu conselho, agora possui uma enorme lista de e-mails, que é um bem valioso de marketing. Com certeza todos os editores sairão desta sessão com algumas novas ideias para aplicar.

Em seguida, para uma entrevista comigo, estará o CEO Brian Murray da HarperCollins. Sob a direção de Murray, a HarperCollins se estabeleceu como a segunda editora em língua inglesa no mundo. Duas recentes aquisições, a editora cristã Thomas Nelson e a editora de romances Harlequin, criaram fortes bases para desenvolver grandes comunidades verticais. Além disso, a Harlequin tinha uma infraestrutura global que a HarperCollins está usando como base para construir sua própria presença global – e não apenas em língua inglesa. Murray vai discutir como estas aquisições posicionam estrategicamente a HarperCollins para competir com a Penguin Random House, bastante maior, e construir a capacidade de chegar a novos leitores, além dos que conseguem através da Amazon, Barnes & Noble, e um número cada vez menor de parceiros no varejo.

Nos últimos anos, os ebooks foram tomando espaço dos impressos no mercado, chegando a provavelmente uns 25%. Mas isso não é distribuído de forma igual por gênero ou tipo de livro. Jonathan Nowell, o CEO da Nielsen Book, vai nos ajudar a entender como a mistura do que é vendido como impresso mudou como resultado desta situação. Entender como realmente anda o mercado de impresso vai ajudar editoras e livrarias a planejar o futuro, no qual veremos provavelmente menos livros impressos no geral, mas não em todas as áreas.

Ken Auletta da The New Yorker cobre tanto a indústria de conteúdo quanto a tecnológica há várias décadas. Ninguém entende melhor do que ele como funcionam as empresas nos dois setores – incluindo suas culturas. Entre seus cinco best-sellers está “Googled: The End of the World as We Know It”. Auletta vai falar sobre “Publicar no Mundo dos Engenheiros” e como as empresas de conteúdo menores se unem a seus novos parceiros que vêm do mundo da tecnologia. O choque cultural entre fornecedores de conteúdo há muito estabelecidos e as empresas de tecnologia que valorizam muito a “ruptura” é um tema que interessa a todos e Auletta certamente vai falar um pouco disso.

Hilary Mason é uma especialista em dados que afiou seu talento em análise durante o tempo que passou na Bit.ly. Mason passou anos aprendendo sobre indivíduos através do comportamento online deles. Nesta conversa, ela vai contar aos editores o que aprendeu sobre como conhecer indivíduos e audiências e como usar estas ideias para acumular interesse e afetar comportamentos. Como Pulizzi, antecipamos que Mason vai criar muitas questões nos participantes que vão querer aprofundar a discussão sobre seus interesses particulares. Então também demos uma sessão de grupo para ela à tarde, onde os que mais se interessarem podem explorar como usar dados e análise de forma eficiente.

Judith Curr é presidente e publisher do selo Atria da Simon & Schuster. Ela sempre teve admiração por empreendedorismo e há muito tempo autores independentes a atraem como editora. [Ela lembra que Vince Flynn começou como escritor autopublicado.] Assim Curr fez alguma pesquisa e tentou descobrir como fazer do seu selo um lugar no qual um autor independente quisesse estar. Nesta conversa, outros editores que veem a importância de trabalhar com autores que querem fazer eles mesmos o marketing, dirigir suas carreiras e publicar mais rápido [ou mais curto] do que o processo convencional, podem aprender de suas ideias e experiências.

A atividade no palco principal vai concluir com uma entrevista de Michael Cader com Keith Moerer, que dirige a iBooks Store da Apple. A iBooks Store se estabeleceu como a segunda maior vendedora global de ebooks e possui planos ambiciosos de crescimento. Nunca tivemos a sorte de recebê-los na programação da DBW antes. Ficamos muito felizes de sermos capazes de fechar o dia no palco principal com a Amazon e com a Apple, dando aos editores a chance de ouvir as duas maiores livrarias do mundo.

Não falei neste post nem no anterior que nas sessões de grupos da DBW estará o excelente programa Launch Kids organizado por nossa amiga e frequente colaboradora, Lorraine Shanley da Market Partners International. O mundo dos livros juvenis e jovens provavelmente é o que mais vai mudar entre todos os segmentos editoriais e há legiões de atores, além dos que vemos no mercado editorial, trabalhando para isso. Lorraine juntou vários deles — nomes familiares como Google, Alloy, Wattpad e Amplify da NewsCorp, além de inovadores como Kickstarter, Speakaboos, Paper Lantern Lit, I See Me e o novo sucesso da Sourcebooks, Put Me In The Story. Se publicar para jovens está no seu radar, você vai querer planejar ficar nos três dias conosco e começar com Launch Kids no dia anterior ao começo da DBW 2015.

Através da seção de comentários deste blog, conheci Rick Chapman, que é um escritor autopublicado de livros sobre software [e, agora, algo de ficção também]. Os comentários de Chapman no blog foram tão inteligentes que eu o chamei para falar em um painel na DBW [citado no último post]. Ontem, Rick publicoueste artigo desafiando a sabedoria convencional de que a Amazon é a melhor amiga do escritor independente. Ele até começou uma pesquisa com autores independentes para reunir dados para sua apresentação na DBW. Independente do que pensemos sobre a Amazon, o post de Chapman é provocador e interessante. Se você ler o post, provavelmente vai querer vê-lo em seu painel na DBW.

[Mike Shatzkin é presidente da conferência DBW – Digital Book World, marcada para acontecer entre os dias 13 e 15 de janeiro, em Nova York [EUA]. O PublishNews é media sponsor do evento e os seus assinantes têm desconto especial na inscrição. Para garantir o direito ao desconto, basta informar o código PNDBW15 no ato da inscrição].

Mike Shatzkin

Mike Shatzkin

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].

A infraestrutura de apoio para que entidades possam publicar está crescendo


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 21/11/2014 | Tradução Marcelo Barbão

Lembro de uma letra de música do começo dos anos 70 cuja linha de abertura era: “não precisamos de mais marinheiros, precisamos de um capitão.” Aquela música poderia estar falando do novo mercado editorial que está crescendo a partir do fenômeno da“atomização”, livros que poderiam sair de quase qualquer lugar [este é o “nós”]. São apoiados pelo “desempacotamento”, a disponibilidade de quase todos os serviços exigidos [estes são os “marinheiros”] na complexa tarefa de publicar livros.

Isto é o que deveríamos chamar de “entidade de autopublicação”, ao contrário de “autor de autopublicação”. O sucesso de autores independentes foi muito analisado ultimamente, parcialmente pela disputa Amazon-Hachette que mostrou que os autores podem ganhar a vida se autopublicando – principalmente explorando os recursos da Amazon – sem precisar de uma organização grande por trás. Mas entidades autopublicadas são, na verdade, muito mais ameaçadoras para o mundo editorial tentando lucrar porque poderiam, com o tempo, trazer muito mais conteúdo no mercado com muito mais força de marketing por trás do que os autores individuais. E às vezes, as motivações destes fornecedores de conteúdo não incluem a necessidade de ter lucro.

[Também pode ser visto como uma oportunidade ao mercado, se as editoras acharem produtivo oferecerem seus serviços como parceiros flexíveis das entidades.]

Há muitas empresas que oferecem os serviços centrais que dão apoio à publicação. Grandes organizações como Ingram e Perseus são fornecedores com um conjunto completo de recursos, inclusive o de colocar livros impressos nas prateleiras das livrarias. [Na verdade, se você for grande o suficiente, consegue que uma das Cinco Grandes faça isso para você.] Distribuidores digitais como Vook, INscribe e ePubDirect podem transformar um arquivo em e-book e distribuí-lo no mundo todo. Lulu e Blurb também podem entregar livros impressos para você. Os serviços de assinatura como Scribd e Oyster [sem mencionar Amazon, Ingram, Overdrive e as outras livrarias] farão a distribuição. E, tanto como parte de ofertas maiores ou como serviços individuais, como BiblioCrunch, é cada vez mais fácil para um autor [ou uma entidade autopublicada] encontrar editoras, designers de capa, especialistas em marketing e criadores de website], assim como qualquer outro conjunto de habilidades específicas necessárias para publicar com êxito um livro. Na verdade, as próprias editoras há anos usam freelancers para muitas outras funções.

Mas entidades possuem desafios que autores individuais não possuem.

Um autor individual sabe o que será publicado: o que eles escrevem. E como a maioria dos autores se sente mais confortável em um gênero particular, eles não precisam se preocupar muito com consistência enquanto constroem uma audiência. São inerentemente consistentes. [Autores que querem mudar de gênero ou escrever fora do que são mais conhecidos enfrentam maiores dificuldades para conseguir sucesso comercial com a autopublicação].

Claro, eles têm muitos desafios fora de seu conjunto de habilidades de escrita: edição, design de capa, até preço e marketing. E aqueles desafios são suficientes para fazer muitos autores preferirem ter uma editora que vai cuidar deles, mesmo se de outra forma estivessem dispostos a abrir mão da influência em marketing e da  distribuição de uma editora profissional. Há grandes vantagens na margem por cópia vendida para fazer sozinho assim como ficar livre das restrições e atrasos que surgem de trabalhar com uma organização maior. Existe ainda muitas perguntas “como”, mas há poucas perguntas “o quê”.

Mas quando uma entidade se compromete com a autopublicação, mesmo que seja um jornal ou uma revista que sabe como criar a propriedade intelectual, eles de repente precisam tomar decisões que não estão equipados para fazer e isso começa com “o quê” publicar.

Eles precisam de um editor. Na metáfora da letra da música, eles precisam de um “capitão”.

A posição de “editor” existe dentro do mundo das revistas e dos jornais também, mas significa algo um pouco diferente do que nos livros. Nos dois casos, o editor governa todo o empreendimento, não apenas as decisões editoriais. Como a renda das revistas e jornais vêm principalmente dos anunciantes, o tempo do editor e foco são dirigidos para lá. A editora certamente tem a responsabilidade por coisas como marketing e distribuição, mas estes tendem a não exigir muita atenção.

Mas a natureza da edição de livros é que cada livro é um desafio de marketing separado assim como editorial, e os dois estão interrelacionados. Se o livro certo para um mercado deveria custar $15, você faz um livro diferente do que se o livro certo fosse $30 ou $8. Se o livro está pronto para publicação em setembro, mas o momento certo para levar este livro ao mercado é fevereiro, é um editor que decide para adiá-lo.

E se há 20, 30 ou 100 livros que uma entidade poderia fazer, é um editor que decide fazer cinco por mês ou cinco por temporada, qual fazer primeiro, e qual deveria sempre sair em junho.

Em um post de um ano atrás, eu citei o exemplo do que o editor Bruce Harris fez com o audacioso [e bem-sucedido] livro de receitas do fundador da Microsoft, Nathan Myhrvold que custava $625. Myhrvold tinha o conceito e a propriedade intelectual e a perspicácia de negócios para tomar decisões chaves. Mas foi preciso Bruce, ou alguém com sua considerável experiência e sofisticação editorial, para orquestrar a contribuição de especialistas em marketing e publicidade, coordenar com as realidades do calendário editorial, e fornecer a direção para fazer o melhor uso dos serviços do Ingram.

Este tipo de conhecimento é ainda mais importante estruturar listas dentro de um programa editorial em andamento.

Vook certamente experimentou um pouco disto. O website deles ainda anuncia que são “centrados em autor”, mas eles estão abertos à ideia de que entidades são uma grande parte do futuro da autopublicação. Eles forneceram serviços de infraestrutura crítica para permitir a publicação de e-books para The New York Times, Forbes, Thought Catalog, Fast Company, US News & World Report, Frederator Studios e The Associated Press.

Fornecer inteligência de negócios é uma parte crucial de estratégia Vook para trabalhar com entidades. Matt Cavner da Vook me contou:

Estamos rastreando dados de mais 4 milhões de livros – impresso e digital – e usamos esta informação para gerar recomendações de preços para maximizar renda para os livros que nossos parceiros publicam, para então ajustar os livros dentro dos mercados, e encontrar categorias específicas onde será mais provável criar um ranking de listas de best-sellers. Também coordenar o marketing digital padrão e merchandise com as livrarias. Assim, estamos agindo como a infraestrutura e a plataforma da parte traseira dos dados para estes parceiros terem o mais bem-sucedido possível – permitindo que mantenham o foco no lado criativo e de desenvolvimento de seu programa editorial.

Mas, claro, estes dados precisam ter a ação por um editor no outro lado. A lista de clientes da Vook é importante, com organizações de mídia que podem fornecer alguma versão desta decisão título a título, lista a lista para usar as ferramentas de Vook. Porque Vook começou na vida oferendo serviços a autores, Cavner sabe como era focar direção e reconhece a questão.

Está certo. Aquele que toma decisão coordenada/criativa sobre o lado parceiro joga o papel do autor em certo sentido.

A notícia chegou no fim de semana: Blurb, a companhia de serviços editoriais que saiu de uma oferta inicial print-on-demand, tinha contratado editores veteranos Molly Barton e Richard Nash para ajudá-los a construir uma rede de serviços de apoio que eles vão, presumivelmente, operar como negócio autônomo e como uma rampa para seu negócio central. Blurb viu que isso ia acontecer e o movimento fez sentido: dois editores com vasta experiência sabem como encontrar e verificar as ofertas de serviço para todos os componentes necessários para publicar um livro com sucesso.

Mas eu suspeito que para a maioria dos novatos que encontram editores e designers de capa e especialistas em marketing de livros na rede, Barton e Nash vão ajudar a Blurb a entregar [e ficamos imaginando quanto se sobrepõe e qual a distinção qualitativa que haverá entre o que eles prometem com o que uma busca em BiblioCrunch ou no Google poderia mostrar], seriam os próprios Barton e Nash, e pessoas como ele e Bruce Harris e outros veteranos com experiência com muitos livros e muitas listas, que seriam os fornecedores de serviço mais valiosos. O mais ambicioso dos novos estreantes no mercado editorial, entrando para construir sobre o conhecimento e a reputação estabelecidos em alguns outros ecossistemas [até um que é “mídia”], seria inteligente se visse que, como em todas as outras tarefas, a orquestração de um programa editorial é realizado de forma melhor por alguém com experiência. E as pessoas que fornecem isso não precisam estar necessariamente na equipe.

E outro pensamento não relacionado.

No mundo fora do mercado editorial, muito conteúdo está sendo gerado por “marketing de conteúdo”. Foi parte da minha tarefa na programação da DBW – Digital Book World entender como o mundo do marketing de conteúdo e o mundo da edição de livros se conectam.

A forma como um editor instintivamente quer pensar sobre isso é “se as pessoas estão sendo pagas para produzir conteúdo, posso vendê-lo?” Das três possíveis interações com o mundo do marketing de conteúdo, esta provavelmente é a menos produtiva. O marketing de conteúdo tem a ver com criar precisamente o conteúdo correto para a necessidade de marketing de uma marca. Não é especialmente uma postura eficiente procurar o mundo do conteúdo existente para isso, depois ter que licenciá-lo e viver com as restrições de licenciamento, e quase certamente precisar modificá-lo para uso no marketing. Assim, com algumas limitadas exceções, risque isso.

Outra interação potencial poderia ter a ver com distribuir o que é ou produzir conteúdo de marketing como e-books. Eu fiz esta sugestão a um escritório de advocacia que tinha criado um white paper sobre Lei de Marcas Registradas. Por que não publicar como e-book, falei? Eles disseram, para que ter o trabalho? Pensei, não querem aparecer para as pessoas que buscam na Amazon por “lei de marcas registradas”?

Mas quando falei com Joe Pulizzi, o chefe do Content Marketing Institute, sobre e-books, ele disse, “bem, claro, eles poderiam fazer sentido em alguns casos, mas há tantas outras coisas mais importantes para alguém de marketing.” Ele está falando sobre blogs, Pinterest e YouTube e a web e apps onde o conteúdo pode ser feito para mostrar para as pessoas que estariam mais interessadas nisso, exatamente quando elas precisam. Em outras palavras, “entendo sua visão, mas francamente, em geral temos peixes muito maiores para fritar”.

E isso aponta para como as editoras podem ganhar mais dentro do negócio de marketing de conteúdo. As editoras possuem toneladas de conteúdo, mas estão longe de ter descoberto a melhor forma de usar este conteúdo para marketing. Esta é uma ciência adjacente para nós, não algo que temos muita experiência. É por isso que temos Pulizzi falando precisamente sobre este assunto – usando conteúdo para construir uma audiência e como aplicar estas coisas que funcionam melhor que e-books – no palco principal do Digital Book World. Até demos a ele uma sessão dupla porque haverá muitas perguntas de editores [e seus especialistas em marketing] que vão querer incluir estes recursos em seus arsenais.

Muitas das empresas mencionadas neste post vão falar na Digital Book World, 14-15 de janeiro de 2015.Blurb e ePubDirect são patrocinadores que também estarão no programa. Palestrantes da Forbes, Ingram,Overdrive, Oyster, Penguin Random House, Perseus, Scribd, US News & World Report e Vook estão nos painéis. No palco principal, vamos ouvir uma apresentação de James Robinson, que faz análise de web na redação do The New York Times, e Michael Cader e eu vamos conversar com Russ Grandinetti da Amazon.

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 21/11/2014 | Tradução Marcelo Barbão

[Mike Shatzkin é presidente da conferência DBW – Digital Book World, marcada para acontecer entre os dias 13 e 15 de janeiro, em Nova York [EUA]. O PublishNews é media sponsor do evento e os seus assinantes têm desconto especial na inscrição. Para garantir o direito ao desconto, basta informar o código PNDBW15 no ato da inscrição].

Mike Shatzkin

Mike Shatzkin

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].

Enhanced eBooks


Por Felipe Lindoso | Publicado originalmente em PublishNews o no Blog O Xis do Problema | 11/11/2014

Recentemente a newsletter DBW – Digital Book World Daily publicou extenso artigo sobre as razões pelas quais os chamados livros digitais enriquecidos [enhanced] não haviam ganhado impulso. O artigo, The Real Reason Enhanced Ebooks Haven’t Taken Off [Or, Evan Schnittman Was Right… For the Most Part], escrito por Peter Constanzo, destacava palestra de Evan Schnittman, pensador da indústria digital e diretor de vendas da Hachette Book Group na Feira de Londres em 2011. Nessa apresentação, Schnittman disse que o formato estava praticamente morto e era um beco sem saída para os editores.

O fato é que, alguns anos antes disso, inclusive em um dos Congressos do Livro Digital da CBL, essa moda do livro digital enriquecido – que permitia a inserção de áudio e vídeo de modo dinâmico – havia sido apresentado como a evolução mais importante do setor editorial. Esse segmento da indústria editorial, o dos livros eletrônicos, apesar de bem recente, já viveu alguns modismos que desapareceram rapidamente, como o das “leituras sociais” [quem tem paciência, mesmo, de ficar lendo em conjunto com um bando de desconhecidos?] e os apps autônomos para a publicação de livros, que só subsistem hoje para alguns livros ilustrados infantis.

Mas voltemos ao assunto.

Schnittman assinalava um ponto indiscutível, e que até hoje representa um entrave considerável. Os formatos enhanced não podem ser lidos com a mesma eficácia em todas as plataformas. O que funciona bem para tablets, e em especial para o iPad, mesmo que distribuído pela Amazon [suponho que também funcione bem para o Kindle Fire]. O formato não é “trans-plataforma”. Comparando com música e jogos, Constanzo assinala que podemos escutar a música baixada online em qualquer aparelho digital, assim como se pode jogar “Call of Duty” em várias plataformas, com o mesmo resultado. O mesmo vale para filmes vistos em streaming ou nos DVDs comprados ou alugados. Mas isso não acontecia com os livros “transmedia” elaborados com o ePub3.

Eu já havia observado publicações transmedia e em ePub 3 [ou desenvolvidos com HTML5] muito eficazes em publicações científicas. Acreditava que as editoras de CTP estavam mais bem capacitadas para usar esses formatos com grande eficiência, inclusive porque a maior parte de suas publicações era mesmo lida em desktops ou tablets, e online.

Minha experiência com leitores de e-books – tanto o Kindle como o Kobo – deixava evidente as limitações para visão de fotografias [mesmo em preto&branco] e, principalmente, de mapas e diagramas. É realmente difícil. E por isso mesmo mantinha em reserva minhas dúvidas quanto aos formatos transmedia.

Bom: Constanzo desenvolve o artigo dizendo que, em absoluto, não é o caso de desprezar os empreendimentos editoriais em ePub3 de livros enriquecidos. Diz ele que, especialmente “para livros de não-ficção selecionados, podem ser muito bem combinados com áudio e vídeos selecionados com curadoria”.

Na recente II Conferência Revolução e-Book, promovida pelo Eduardo Melo e sua equipe da Simplíssimo, assisti a uma amostra de que essa observação é realmente correta. Em casos específicos, os e-books avançados podem realmente proporcionar ao leitor uma experiência diferenciada.

A palestra de Cindy Leopoldo e Maria de Fátima Fernandes, da Intrínseca, sobre a Coleção Ditadura – a reedição dos livros do jornalista Elio Gaspari sobre o golpe civil-militar de 1964, sua evolução e dissolução final – foi muito esclarecedora.

Os livros do Gaspari  tiveram novas edições em papel e em vários formatos de e-books, como podemos ver nesta tabela que extraí da apresentação de Cindy Leopoldo durante a conferência:

Fonte: Apresentação de Cindy Leopoldo

Fonte: Apresentação de Cindy Leopoldo

A simples tabela mostra como o conteúdo foi muito enriquecido com o formato mais avançado.

Entretanto, as limitações para leitura nos aparelhos comuns são evidentes. A tabela abaixo, também retirada da apresentação de Cindy, explicita isso:

Fonte: Apresentação de Cindy Leopoldo

Fonte: Apresentação de Cindy Leopoldo

Como se vê, os livros vendidos pela Amazon só podem ser plenamente desfrutados se abertos nos apps da varejista no iPad [talvez no Kindle Fire]. Na loja brasileira da Amazon, esse tal de KEAV é acrônimo para Kindle Editions with Audio/Video. Lá diz também que esse tipo de arquivo pode ser aberto em todos os formatos do Kindle, mas eu testei e, de fato, no Kindle Paperwhite, nem o áudio nem o vídeo funcionam. Outro aviso da Amazon diz que “o título tem layouts complexos e foi otimizado para leitura em dispositivos com telas maiores”, mas não explicita suas deficiências de leitura nos Kindle normais. Pegadinha… Ou, como escreveu Erick Schonfeld no TechCrunc,“se você quiser essas características adicionais, a Amazon está basicamente lhe dizendo que compre um iPad”.

Um ponto muito importante na palestra da Cindy e da Maria de Fátima é que a produção do ePub3 e os acréscimos foram realmente objeto de uma cuidadosa curadoria, e colocados de modo que o leitor tenha acesso opcional a esses materiais adicionais. Segundo as duas, o autor fazia questões que a fluidez da leitura do texto não fosse prejudicada. Ao contrário, que pudesse ser enriquecida para os leitores que procurassem conhecer documentos originais, gravações de áudio e vídeo que estão referidos ou mencionados no texto.

Para que isso fosse possível, a Intrínseca teve que contratar assessoria específica para elaborar um verdadeiro roteiro da inserção desse material adicional. O trabalho foi muito grande, apesar das dificuldades propriamente técnicas não serem exatamente difíceis, usando as ferramentas disponíveis no HTML5.

Cindy teve a gentileza de me enviar links promocionais para baixar os livros na loja da Apple e, realmente, os livros são muito enriquecidos com esses anexos. As notas aparecem em pop-up, as transcrições de áudio e vídeo funcionam corretamente.

Na palestra, Cindy Leopoldo foi questionada sobre o resultado das vendas para a editora. Declinou responder, afirmando que não tinha informações da área comercial da editora.

Os quatro livros foram produzidos internamente na Intrínseca. O processo é realmente complexo, e no total foram produzidas vinte versões [cinco para cada tomo]. Evidentemente trata-se de um investimento de vulto que, com certeza, só poderá ser recuperado a longo prazo.

O conjunto do trabalho corrobora as observações de Constanzo. O esforço só compensa para certo tipo de livros de não ficção [ou quem sabe, algumas versões bem especiais de livros de ficção, e me ocorre particularmente a possibilidade de uma versão em ePub3 do romance The select works of T. S. Spivet, de Leif Larsen – The Penguin Press [O mundo explicado por T.S. Spivet – Nova Fronteira. Não li em português, mas a edição em inglês é belíssima e curiosa, e o livro virou filme em cartaz]. E, certamente, os livros técnico científicos.

São produções caras e trabalhosas, que produzem resultados muito interessantes. Mas as limitações para sua expansão são bem reais. Só lamento não haverem completado o esforço e os recursos do HTML5 e do ePUB3 para lançar de vez em formato acessível para deficientes visuais. Segundo Cindy, houve pressão de prazo para não perder o aniversário do triste golpe. Mas esse mercado está aí, ansioso por conteúdo.

De qualquer maneira, parabéns à Intrínseca pela iniciativa corajosa, e à Cindy Leopoldo e sua equipe pelo belo trabalho.

Comentários e observações são bem vindas no blog www.oxisdoproblema.com.br.

Por Felipe Lindoso | Publicado originalmente em PublishNews o no Blog O Xis do Problema | 11/11/2014

Felipe Lindoso

Felipe Lindoso é jornalista, tradutor, editor e consultor de políticas públicas para o livro e leitura. Foi sócio da Editora Marco Zero, diretor da Câmara Brasileira do Livro e consultor do CERLALC – Centro Regional para o Livro na América Latina e Caribe, órgão da UNESCO. Publicou, em 2004, O Brasil pode ser um país de leitores? Política para a cultura, política para o livro, pela Summus Editorial. Mantêm o blogwww.oxisdoproblema.com.br

A coluna O X da questão traz reflexões sobre as peculiaridades e dificuldades da vida editorial nesse nosso país de dimensões continentais, sem bibliotecas e com uma rede de livrarias muito precária. Sob uma visão sociológica, este espaço analisa, entre outras coisas, as razões que impedem belos e substanciosos livros de chegarem às mãos dos leitores brasileiros na quantidade e preço que merecem.

O futuro das livrarias e o futuro do mercado editorial


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 05/02/2014

Um dos assuntos que estamos examinando já há muito tempo é o inevitável impacto que o aumento das compras online de livros terá nas prateleiras do comércio e o que isso vai significar para as editoras de livros gerais. [Você vai ver que este discurso que já tem mais de uma década também diz que as editoras terão que se centrar em sua audiência, ou atuar de forma vertical, também.]

Claro, já ocorreu um choque no sistema – um evento “Cisne Negro” – que foi o fechamento da Borders em 2011. Isso, de repente, tirou umas 400 livrarias bem grandes da cadeia. Desde então, a história sobre as independentes – que inclui informações financeiras encorajadoras, mas sem comprovação do Bureau de Análise Econômica [BEA/EUA] e muitos hurras de independentes bem-sucedidas [jogamos um pouco de gasolina nesse fogo com uma importante sessão na DBW que aconteceu na semana passada] – tem sido bastante otimista [apesar de que os dados da Bowker parecem sugerir que a Amazon ganhou mais com a morte da Borders do que qualquer outro player]. E apesar de a Barnes & Noble continuar a mostrar alguma queda de vendas, seus retrocessos mais sérios foram no negócio do Nook, não nas vendas em lojas.

Um fator que distrai a atenção dos analistas pensando nesta questão tem sido a aparente desaceleração no crescimento das vendas de e-books, sugerindo que há leitores de impressos persistentes que não querem mudar. O fato encorajador acaba distraindo porque é incompleto quando se trata de prever o futuro do espaço de prateleira no comércio, que é a questão existencial para as editoras, distribuidoras e livrarias [e, portanto, por extensão, para os autores]. Precisamos saber quais são as mudanças na divisão destas vendas entre online e offline para ter um quadro completo. Se a aceitação do e-book diminuir, mas a mudança para compras online continuar, as livrarias vão sofrer mesmo assim.

Este problema das vendas online versus offline, no lugar de vendas de livros impressos versus livros digitais é central e é a que estamos martelando há anos. Foi ótimo ver Joe Esposito enfatizar o problema em um recente post ao tratar algumas as minhas perguntas favoritas sobre a Amazon. Realizamos na DBW um painel de quatro livrarias independentes bem-sucedidas. Uma das participantes, Sarah McNally da McNally-Jackson, recentemente foi citada dizendo que está preocupada com o futuro de sua livraria no Soho quando seu aluguel terminar. [Os aluguéis aumentam rapidamente naquela parte da cidade.] Enquanto isso, ela está se movendo para não ficar só nos livros e vender bens com muito design e talvez mais duradouros como arte e móveis. [E, neste sentido, McNally-Jackson segue o exemplo da Amazon, não se limitando a ser uma marca de livraria.]

Um amigo meu que, há muito tempo, é representante de vendas independente diz que até mesmo as independentes bem-sucedidas estão sentindo a necessidade de vender livros e outras coisas [cartões, presentes, enfeites] para sobreviver. As mega-livrarias com 75 mil ou mais títulos foram um ímã para os clientes nas décadas de 1970 a 1990. Não é mais assim porque uma livraria com muitos milhões de títulos está disponível em computadores de todo mundo. Isto é um fato que faz com que o número de lojas bem-sucedidas seja um indicador fraco do potencial de distribuição disponível para as editoras. Se os sebos possuem metade do inventário que são publicados, podemos ter muitas histórias de sucesso entre as livrarias independentes, mas mesmo assim temos um ecossistema encolhendo, dentro do qual as editoras distribuem seus livros.

Em geral, os proprietários de livrarias independentes bem-sucedidas e sua associação, a American Booksellers Association, pintam o momento como favorável para livrarias independentes. Eles rejeitam o ceticismo de pessoas, que como eu, acreditam que a atual onda de aparente boa sorte é causada por uma janela de tempo [agora] em que o fechamento da Borders removeu espaço na prateleira mais rápido que a Amazon e os e-books removeram a demanda por livros nas lojas.

Tem sido uma profissão de fé silenciosa achar que as livrarias não passariam pelo que aconteceu com as lojas de discos ou de aluguel e venda de vídeos, dois segmentos que desapareceram quase completamente. O livro físico tem usos e virtudes que um CD, um disco de vinil, um DVD ou uma fita de vídeo não possuem, sem falar que um livro físico é seu próprio player. Mas também fornece uma experiência de leitura qualitativamente diferente, enquanto que outros formatos “físicos” não mudam o modo de consumo. Claro, isso só ajuda as livrarias se as vendas continuarem offline. As pessoas comprando livros online têm grandes chances de comprar da Amazon. Em outras palavras, é perigoso usar a capacidade do livro para resistir garantindo a capacidade das livrarias de se sustentar. As duas coisas não estão conectadas de forma indissociável.

Mas o destino de quase todas as editoras gerais está inextricavelmente conectada ao destino das livrarias. Só há duas exceções. A Penguin Random House é uma, porque é grande o suficiente para criar livrarias próprias apenas com seus livros. A outra são as editoras verticais com suas audiências o que abre a possibilidade de criarem pontos de vendas que não sejam exatamente livrarias. Livros infantis e de artesanato são possibilidades óbvias para isso; não há muitos outros.

O sentimento que eu tive na Digital Book World é que a maioria das pessoas na indústria ou rejeitou ou quer ignorar a possibilidade de que haverá uma erosão ainda mais séria da indústria nos próximos anos e que isso ameaçaria as práticas centrais da indústria. Com mais da metade das vendas de muitos tipos de livros – ficção na área geral, claro, mas também muitos tópicos especializados, profissionais e acadêmicos – já online, muitos parecem sentir que qualquer “ajuste” necessário já foi feito. Eles receberam apoio para seu otimismo na Digital Book World. O guru do mercado de ações Jim Cramer apresentou sua visão do futuro da Barnes & Noble [porque ela é a última rede de livrarias] e, do palco principal, foi apresentada a ideia de que o Walmart poderia comprar e operar a B&N como parte de uma estratégia anti-Amazon.

Tudo isso é possível e não tenho dados para refutar a noção de que chegamos a algum tipo de nova era de estabilidade da livraria, só uma sensação que não me abandona de que nos próximos anos não será assim. Não quero ignorar os sinais positivos que vimos no último ano mais ou menos. E o declínio geral nas compras em livrarias versus online afeta todo o comércio, não só livros, então é possível – alguns poderiam dizer que é provável – que o aperto dos aluguéis vá diminuir. Não é só o espaço em prateleiras que parece estar sobrando em comparação com a demanda; esta é uma verdade em todo o comércio. Então sua impressão pode diferenciar e teria alguma lógica para apoiar um ponto de vista contrário.

Mas meu palpite [e isso não é uma “previsão” como em “isso vai acontecer; corram para o banco”] é que o espaço de prateleira para impressos na Barnes & Noble e em outras livrarias poderia muito bem diminuir uns 50% nos próximos cinco anos. Qual CEO ou CFO de uma editora geral consideraria prudente não levar em conta esta possibilidade em seu próprio planejamento?

Obviamente, menos espaço em prateleira e mais compras online mudam as práticas de cada editora de muitas formas. Elas vão querer implementar mais recursos para o marketing digital e menos para a cobertura de vendas. Vão querer ter menos espaço de estoque e menos inventário, mudando a economia geral de seu negócio. Como estamos falando há anos, elas vão achar importante a consistência vertical: adquirir títulos com apelo consistente à mesma audiência. A própria base de dados de consumidores de cada editora vai se tornar um componente cada vez mais importante de seu lucro: ativos que fornecem valor operacional hoje e valor de balanço se forem compradas.

Mas, acima de tudo, as editoras terão que pensar em como elas manterão seu apelo frente aos autores se colocar livros nas livrarias se tornar o componente menos importante da equação geral. Ainda é verdade que colocar livros nas lojas é necessário para chegar perto da penetração total entre a audiência potencial de um livro. Ignorar o mercado de livrarias obviamente custa vendas, mas também tem um custo de percepção que reduz as vendas online. [Afinal, as lojas estão muito conscientes do efeito “showroom”: clientes que cruzam suas prateleiras com smartphones na mão, fazendo pedidos da Amazon no ato!]

Mas isso acontece hoje quando a divisão online-offline pode estar perto de 50-50 no geral e 75-25 para certos nichos. Se estes números chegarem a 75-25 e 90-10 nos próximos cinco anos, o mercado de livrarias realmente não vai importar muito para a maioria dos autores. Seja pela autopublicação ou por alguma editora nova que não tem as capacidades das grandes editoras de hoje, mas também não possui toda a estrutura de custo, os autores vão sentir que as grandes organizações são menos necessárias do que são agora para ajudá-los a realizar todo seu potencial.

Taxas de royalties mais altas para e-books, pagamentos mais frequentes e contratos mais curtos são todas formas pouco atrativas, da perspectiva da editora, para resolver esta questão. Até agora o mercado não forçou as editoras a oferecer isso. Se as livrarias conseguirem se manter, a necessidade de usá-las não será muito forte por algum tempo. Mas se não conseguirem, a maioria das editoras terá poucos elementos para continuar a atrair autores para suas fileiras.

Já estamos vendo grandes editoras afastando-se aos poucos dos livros que não demonstraram grande capacidade de vender bem no formato de e-book: livros ilustrados, livros de viagem, livros de referência. Isso implica uma expectativa que o componente online – especialmente o segmento de e-book – já mudou o mercado ou certamente vai mudar em pouco tempo. Ajustes aos termos padrão com autores é outra questão que ainda não foi resolvida, mas se o mercado continuar a mudar, poderia ficar muito difícil manter as coisas como estão.

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 05/02/2014 | Texto originalmente publicado no The Shatzkin File | Tradução: Marcelo Barbão

Mike Shatzkin

Mike Shatzkin

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].