Tendências contraditórias


Como sabem, trabalho com livro digitais, o que significa que estudos de webdesign se relacionam ao meu trabalho. Apesar do trabalho de produção de e-book não ser exatamente idêntico ao de produção de sites, muitos conhecimentos são partilhados, como noções de HTML e CSS.

Em algumas leituras e experiências com websites recentes percebi que existe uma tendência web para designs responsivos ou fluidos, assim como os comumente utilizados na produção de livros digitais baseados em texto. Isso me fez pensar no mercado de e-books, em especial, na persistente idealização de livros de layout fixo.

Livros de layout fixo geralmente são a solução para livros ilustrados, livros com formatação de almanaque e revista e quadrinhos. Muitas vezes estes livros precisam, além da formatação em layout fixo, de algum outro recurso em javascript para funcionarem perfeitamente, como os pop-ups da Amazon, por exemplo.

Vamos recapitular alguns assuntos já tratados. Já sabemos que existem variações na visualização de e-books de acordo com o player, o sistema operacional e o app utilizado para leitura, certo? Se isso acontece com um livro que é puramente HTML e CSS, com textos que correm fluidamente, se adaptando aos diferentes tamanhos de tela dos dispositivos, imaginem num livro cujos valores são todos fixos e que exige interpretação de outros códigos mais avançados?

Não estou aqui para negar a necessidade de livros em layouts fixos. Acredito que em muitos casos eles funcionam e até funcionam bem, mas os valores fixos que são intrínsecos ao formato parecem se opor à lógica web de adaptabilidade.

Hoje muitos sites possuem versão mobile ou design responsivo, e-mails marketing são feitos com templates igualmente fluidos e, aparentemente, o livro digital está indo contra esta tendência, buscando ainda uma similaridade com o livro impresso que não faz muito sentido manter.

Ok, eu compreendo. Um livro digital em layout fixo com uma diagramação fixa pode ser lindo visualmente e ser prático por estar sempre acessível, não representar peso e todas as vantagens relativas à mobilidade do meio digital. Mas não consigo enxergar essa diagramação como inerente ao formato. Parece forçado, como se não quiséssemos abrir mão de relacionar este estilo de formatação com a identidade do livro.

Na editora Rocco geralmente quando pensamos em layout fixo estamos falando de livros infantis em que gostaríamos de utilizar recursos de animação. Tenho pensado cada vez mais que talvez a saída sejam realmente os aplicativos que possam não necessariamente ser uma versão app do livro impresso, e sim ser algo complementar, como o app desenvolvido pela Spellbound [antiga Magic Book] para o livro Where the wild things are.

Vi que já existem revistas, como a ELLE, que estão usando essa tecnologia de integrar a mídia impressa com a digital. O problema é que o desenvolvimento de apps exige um investimento infinitamente superior ao de um livro de layout fixo, sem necessariamente aumentar a perspectiva de retorno. Talvez a tendência da transmídia também não seja a solução. Talvez a solução seja desapegar na mídia digital das exigências que criamos com a mídia impressa. O que sei é que, apesar de terminar este artigo cheio de incertezas, existem evidências por aí de que o layout fixo precisa ser repensado e seria besteira não prestarmos atenção nelas.

Por Lúcia Reis | Publicado originalmente em COLOFÃO | 6 de maio de 2015

Programas indies para edição, validação e testes de livros digitais


Normalmente, quando falamos em edição, validação e testes de livros digitais, falamos no Sigil, EpubCheck, Adobe Digital Editions e Readium. Para exportação: InDesign ou LibreOffice, — os mais radicais podem dizer Quark e/ou BlueGriffon Epub Edition –, certo?

Nada mais normal do que isso, afinal, são programas rotineiros no dia a dia dos desenvolvedores de e-books.
Hoje falarei brevemente sobre outras duas ferramentas não tão famosas quanto as citadas primariamente, todavia, muito interessantes tanto pelos diferentes funcionamentos quanto pelas possibilidades de serem usadas não apenas profissionalmente, mas também para estudo.

1. ePubChef

Trata-se de um projeto que tem a seguinte proposta: “acrescente os ingredientes na panela e ele cozinhará um ePub 3 para você” [impossível não lembrar do Fernando Tavares e suas analogias com comida].

Ele funciona via linha de comando a partir dos ingredientes que você adiciona às pastas dentro de uma estrutura pré-determinada, todavia, altamente customizável.

Esse caráter “customizável” do programa é extremamente útil para quem está interessado em estudar o formato e, de quebra, se estiver interessado em programação, você pode customizar o código da ferramenta em si, e não apenas os de seus arquivos. ;]

Após clonado o repositório, sua estrutura de diretórios é a seguinte:

Na pasta css você encontrará, bem, um CSS [bastante completo e cheio de comentários explicativos]. Nele, você poderá definir as diretrizes básicas do que espera do ePub a ser criado.

Se você estiver pensando em fazer alguns livros de uma mesma coleção, com valores similares, temos aí um bom começo: criar modelos de CSS.

Se você estiver pensando em fazer alguns livros de uma mesma coleção, com valores similares, temos aí um bom começo: criar modelos de CSS.

Mãos à massa: cook.py

Vá até a pasta [via terminal] e digite:

python cook.py mybook

Com esse comando ele criará os arquivos para o seu livro. Seguindo o exemplo da wiki usei o “mybook” [você é livre para escolher um nome mais criativo para o arquivo].

Você pode começar a editar e adicionar conteúdos, imagens, fontes na pasta mybook_raw e já preencher os metadados em mybook_recipe.yaml usando qualquer editor de textos simples [como o Bloco de Notas no Windows, por exemplo]. Nesse arquivo você ainda pode determinar a ordem, os nomes dos capítulos etc.

Já os conteúdos você acrescenta nos arquivos TXT. Exemplos de uso [tabelas, itálicos etc.] podem ser encontrados nos arquivos do exemplo [em demo_raw]. A cada edição, basta rodar o comando outra vez, e o programa recriará o arquivo atualizado.

Na página do projeto você encontra o tutorial da instalação e os primeiros passos para uso. Se você tem algum domínio de inglês e está interessado em aprender a fazer um e-book de dentro para fora, o ePubChef é um excelente caminho.

2. jeboorker

O jeboorker é um editor de metadados com algumas funcionalidades bastante úteis.
Para começar, ele permite a edição de metadados não apenas de arquivos ePub, mas também de CBR, CBZ e PDF, desde que os mesmos não se encontrem protegidos por DRM.

Diferente do ePubChef, o desenvolvedor já disponibiliza os pacotes de instalação para as plataformas Windows, Linux e Mac, diretamente na página do projeto no GIT.

A interface dele é bem simples, mas realiza bem o que se dispõe a fazer: editar metadados.

Uma das funções de que mais gostei no jeboorker foi o fato de poder importar diretamente uma pasta inteira em vez de um arquivo por vez, além da possibilidade de editar múltiplos arquivos de uma só vez, acrescentando a todos dados comuns presentes em um dos livros, tais como autor, coleção etc.

Outra coisa legal no programa é poder editar o UUID [arquivos exportados pelo InDesign em alguns casos apresentam um erro de validação referente a isso que, até então, eu corrigia na unha, diretamente no OPF e no NCX].

Além dessas funções, o programa permite fazer download dos metadados do título na internet a partir de dois bancos de dados [um é o do Google] e também editar os já existentes diretamente no XML.

Por fim, o programa é bem leve e não apresentou travamentos ou “comportamentos inesperados” [como fazer bagunça nos arquivos, por exemplo].

Para conhecer outras ferramentas relativas a e-books, vale verificar a listinha do EPUB Zone neste link.

  1. Ainda assim, recomendo que, no uso de Linux, a instalação seja feita diretamente através de repositórios [se disponível na sua distro]. Dessa forma você garante que receberá as atualizações automaticamente sem precisar entrar na página e baixar o programa outra vez. Se você, como eu, usa um derivado do Archlinux, no meu caso, o Manjaro, tem no AUR. ;]
Antonio Hermida

Antonio Hermida

Por Antonio Hermida | Publicado originalmente em Colofão |  29 de abril de 2015

Antonio Hermida cursou Análise de Sistemas [UNESA], Letras – Português-Latim [UFF] e Letras – Português-Literaturas [UFF]. Começou a trabalhar com e-books em 2009, na editora Zahar e, em 2011, passou a atuar como Gerente de Produção para Livros Digitais na Simplíssimo Livros, onde também ministrava cursos [Produzindo E-Books com Software Livre] e prestava consultorias para criação de departamentos digitais em editoras e agências. Atualmente, coordena o departamento de Mídias Digitais da editora Cosac Naify e escreve mensalmente para o blog da editora. Entre outras coisas, é entusiasta de Open Source e tem Kurt Vonnegut como guru.

Porque um código bom é um código limpo


POR Antonio Hermida | Publicado originalmente por COLOFÃO | 12 de novembro de 2014

Antes de qualquer coisa…

Este artigo não tem pretensões de ensinar HTML ou CSS, mas de mostrar sua lógica de funcionamento e apontar o porquê de um código limpo e bem estruturado ser importante. Dito isso, seguimos:

O que você precisa saber sobre o código é o seguinte: ele é importante e quase tudo relacionado a sistemas computacionais existe a partir de suas linhas. Exemplo inocente: você já viu um arquivo docx1, do Word,  por dentro?

Ele é mais ou menos assim:

 

A importância de um código bem estruturado, além de ajudar na compreensão imediata do conteúdo [e de sua renderização], funciona como garantia de integridade do mesmo para o futuro.

Vamos supor que, em alguns anos aconteça ao ePub algo similar ao que aconteceu com os arquivos que eram produzidos com o Ventura. Digamos que a indústria adote outro formato para publicações digitais.

Um código limpo, bem construído, te permite a exportação com integridade de forma e conteúdo, evitando surpresas desagradáveis ou a necessidade de refazer todo o trabalho a partir do zero.

Por exemplo, quem está pegando os arquivos do Ventura hoje para reimprimir um livro de fundo de catálogo, tem grandes chances de ter que refazer o livro todo, usando o InDesign, provavelmente. E, nesse caso [do Ventura e do InDesign], ainda temos outro agravante: formatos proprietários não são editáveis fora de suas plataformas, no geral.

Em relação ao ePub, isso é algo com o que não precisamos nos preocupar, pois, diferentemente do mobi, da Amazon, o ePub não é um formato proprietário, pelo contrário, tem base no HTML, que é amplamente utilizado. Logo, a exportação para outro formato é viável no cenário hipotético onde ele não seria mais o padrão para publicações eletrônicas.

De qualquer forma, ter um arquivo que parece ok para quem olha num dispositivo de leitura, mas que, por baixo desta visualização, se encontra um código cheio de remendos e informações redundantes e/ou desnecessárias, pode se tornar um complicador não apenas para uma futura exportação como também para simples correções ou atualizações de conteúdo.

Lógica de funcionamento

Grosso modo, o ePub é composto por HTMLs +CSS dentro de um ZIP. Como uma página web empacotada.

O HTML [Hyper Text Markup Language] é uma linguagem de marcação, enquanto o CSS [Cascade Style Sheet] funciona como uma página de instruções para essas marcações, uma folha de estilos, por assim dizer.

Essas marcações são bastante visíveis no exemplo abaixo, reparem como o 1[body] marca o início do corpo, o h1 [Header 1] denomina o título 1, o h3,  o segundo, e o p [4] o início de um “parágrafo”.

 

Dentro do p, temos os números 5 e 6,  respectivamente, itálico [<em>, deemphasys] e negrito [<strong>].

As marcas amarelas estão sobre a barra “/” que determina o final de cada marcação.

Essa hierarquia define bem a lógica de funcionamento do HTML.

Alterando valores e classes

Tendo o CSS linkado ao arquivo HTML, podemos alterar os valores padrão de cada item e acrescentar outros que os diferenciem através das classes.

Por exemplo:

Especificamos a cor vermelha no item 1; o alinhamento para a direita, no 2; o tamanho da fonte e o tipo de fonte [3 e 4];

Não se preocupem, se vocês leram até aqui, estamos chegando ao ponto que eu estou tentando mostrar.

Da mesma forma que utilizamos os parâmetros para o <h1>, podemos podemos fazê-lo com o <p>, todavia, dificilmente um livro terá apenas um tipo de parágrafo. Nos mais simples, podemos observar pelo menos dois tipos: com recuo e sem recuo [ou, com indentação e sem indentação]. Nesses casos, criamos uma classe separada, por exemplo, “indent”.

Minha ideia aqui é unicamente deixar claro o porquê é importante manter um código bem estruturado e livre de incongruências. Como eu disse, além de garantir que seu conteúdo se apresente mais fielmente nos vários dispositivos e aplicativos de leitura, caso seja preciso exportá-lo para outro formato ou mídia, toda informação sobre seu conteúdo estará salva e legível.

Não digo que todo mundo precisa saber HTML ou CSS, mas é bom que, ao fornecer um e-book ou contratar um serviço de conversão, alguém possa analisar a qualidade do que foi entregue, afinal, é o produto que vai para o leitor.

Por fim, uma última imagem, um único parágrafo, para que meditemos a respeito da importância da beleza interior.

POR Antonio Hermida | Publicado originalmente por COLOFÃO | 12 de novembro de 2014

Antonio Hermida cursou Análise de Sistemas [UNESA], Letras – Português-Latim (UFF) e Letras – Português-Literaturas [UFF]. Começou a trabalhar com e-books em 2009, na editora Zahar e, em 2011, passou a atuar como Gerente de Produção para Livros Digitais na Simplíssimo Livros, onde também ministrava cursos [Produzindo E-Books com Software Livre] e prestava consultorias para criação de departamentos digitais em editoras e agências. Atualmente, coordena o departamento de Mídias Digitais da editora Cosac Naify e escreve mensalmente para o blog da editora. Entre outras coisas, é entusiasta de Open Source e tem Kurt Vonnegut como guru.

Livros em 2020


Por Greg Bateman | Publicado originalmente em Publishnews| 12/11/2014

Apesar de uma queda notável no número de participantes, festas com champanha e hors d’oeuvres, além do burburinho de livros, eu achei que este ano a Feira do Livro de Frankfurt foi mais inspiradora que nunca. O digital estava no ar [literalmente] já que livros didáticos conectados e startups de big data substituíram os fornecedores de serviços terceirizados nos Hotspots por toda Frankfurt Messe.

Vou mostrar algumas das tendências digitais que acho que vão transformar a palavra escrita nos próximos cinco anos.

Livros Didáticos “Context-Aware”
LearnFwd, uma empresa de tecnologia romena com sede em Londres deu incríveis saltos em sua plataforma de livros didáticos colaborativos no último ano. Todos os queixos de uma sala de conferência caíram quando seus próprios celulares foram conectados a uma sala de aula especial através de um livro no browser, simples de usar. LearnFwd é pioneira em uma tecnologia que eles chamaram de livros didáticos “context-aware”. Usando funcionalidades de padrões abertos como JavaScript e CSS, eles desenvolveram mais de 15 widgets ou “mix-ins” que você pode usar no HTML5 com um design receptivo [pense num ePub3 sem o envoltório]. Estes mix-ins transformam o conteúdo em um livro didático context-aware que sabe quando está numa sala de aula, que pode funcionar perfeitamente online e offline e que conecta as salas de aula [diretamente dentro do próprio livro]. Salva seu progresso, suas respostas, além de permitir trabalho em grupos. E tudo dentro do melhor “reader” do mundo: seu próprio browser. Realmente algo do futuro, mas com tecnologia de hoje.

Aprendizado Adaptativo
Apesar de que os Learning Management Systems [LMS] e SCORM já existem há anos, o uso deles se limitava a capturar respostas de testes e uso de estatísticas de uma forma bastante estática. Aquafadas, ao usar a próxima geração de SCORM, chamado TIN CAN ou API de Experiência está provando que o mundo não precisa ser desse jeito. Em Frankfurt, eles mostraram o aprendizado adaptativo, onde a experiência de leitura de um livro didático ou conteúdo educativo muda dependendo das entradas dos usuários. As possibilidades são literalmente infinitas, pois cada estudante pode aprender a seu próprio ritmo, ser desafiado segundo o nível apropriado dele e recompensado pelas respostas corretas. Ao mesmo tempo, a plataforma pode capturar dados sobre os padrões de aprendizado assim as escolas e as editoras podem adaptar as entregas de conteúdo, melhorando continuamente.

Grandes [e pequenos] dados
O Google Analytics já existe há anos. Mas só recentemente os fornecedores da plataforma alavancaram esta captura analítica tanto online quanto offline para que todos na cadeia de valor da indústria editorial pudessem se beneficiar. Alguns poucos fornecedores de apps de leitura começaram a abrir o acesso a estas chamadas estatísticas “big data” como a porcentagem de tempo gasto em um capítulo. Certamente as implicações destes dados são profundas já que também fornecem acesso a “small data” onde os resultados não são necessariamente anônimos e os dados do usuário final [quem lê qual livro] também podem ser expostos. Os riscos de tais posturas ficaram claras com o escândalo Adobe Digital Editions – onde padrões de leitura específicos de usuários eram enviados de volta em texto sem encriptação para um servidor centralizado. No entanto, o uso responsável pode fornecer informações importantes para a indústria de conteúdo, como a Kobo nos mostra aqui.

Animado? Eu estou. Vou apresentar estas tendências e os planos da Hondana para usá-las no Ciclo de Palestras do Centro de Inovação C.E.S.A.R em Recife nesta semana. No espírito da “captura de dados”, seu feedback é sempre bem-vindo! greg@hondana.com.br.

Por Greg Bateman | Publicado originalmente em Publishnews| 12/11/2014

Greg Bateman

Greg Bateman

Greg Bateman, expert em tecnologia e empreendedor do negócio de e-books, é conhecido pelo seu envolvimento na criação de produtos extremamente bem-sucedidos, como os smartphones da Samsung e o Kindle, da Amazon. Na Vook, ele desenvolveu uma eficiente cadeia de produção de centenas de e-books por semana. Greg, que nasceu nos Estados Unidos, viveu nove anos no exterior, onde intermediou várias parcerias envolvendo Coreia, China, Japão e EUA. Hoje mora no Brasil, em São Paulo. Ele é pesquisador visitante da Universidade de Tóquio, tem duas graduações pela Universidade da Califórnia em Berkeley [engenharia elétrica/ciência da computação e literatura japonesa] e um MBA pela Columbia Business School.

A coluna E-Gringo discute a fundo o negócio e o lado técnico dos e-books a partir de uma perspectiva global. Às quartas-feiras, quinzenalmente, ela vai apresentar plataformas e tendências do mundo todo e, claro, do Brasil. Para enviar comentários, escreva para greg@hondana.com.br .

Saiba mais sobre o ePub, um formato em constante evolução


Por Octavio Kulesz | Publicado originalmente em PublishNews | 15/08/2012

Cada elo da indústria do ebook experimenta um processo de mudanças profundas, desde as plataformas até os dispositivos e os formatos. O EPUB – estabelecido pelo Fórum Internacional de Edição Digital [IDPF na sigla em inglês] – é considerado o padrão mais promissor para arquivos de ebooks. Este formato redimensionável conta com grandes vantagens em relação a outros concorrentes; em especial, é gratuito e de código aberto. A seguir reproduzimos nossa conversa com Liz Castro sobre o formato EPUB e outros temas atuais vinculados aos ebooks. Liz, com uma trajetória de quase 25 anos no terreno digital, publicou mais de uma dezena de livros sobre EPUB, CSS, HTML e Blogger, e são uma referência obrigatória para qualquer editor ou escritor interessado em explorar a era eletrônica. Seu blog Pigs, Gourds, and Wikis e sua conta de Twitter [@lizcastro] são seguidos por milhares de leitores em nível mundial.

Octavio Kulesk | Um dos obstáculos para a edição digital em línguas não-latinas é que o formato EPUB nem sempre funciona adequadamente. Você já teve experiência com este tipo de idioma? O EPUB3 melhorou as coisas?

Liz Castro | O EPUB3 agora tem um bom suporte para as línguas asiáticas, como japonês. Acabo de voltar do Japão onde participei da primeira conferência do IDPF na Ásia – tratando do EPUB3 – e apresentamos vários ebooks não só com caracteres japoneses, mas também com escrita vertical, caracteres ruby, tate-chu-yoko, kenten e outras partes essenciais da tipografia japonesa. A coisa melhorou tanto que a Rakuten/Kobo oferecerá todos os livros em japonês no formato EPUB3.

OK | Como você acha que evoluirão os padrões no mundo do ebook, por causa da pressão da Amazon para impor seu próprio formato – o MOBI –, os esforços do IDPF e da maioria das editoras para padronizar o EPUB, além das tentativa de sobrevivência do PDF?

LC | Acho que as novas características do EPUB3 – e em particular seu suporte a línguas não-latinas – podem ser a chave para impor o formato e acabar definitivamente com o MOBI. A própria Amazon já está substituindo o MOBI por KF8, um formato tão parecido ao EPUB3 que poderia ser considerado algo como sua versão proprietária [combina os mesmos HTML5 e CSS3]. A Amazon já aceita arquivos EPUB3 em seu sistema e os converte automaticamente. É claro, a Amazon quer manter seu próprio formato, mas será interessante ver se as editoras estão dispostas a permitir isso. Também vimos que com a diagramação fixa – que já é padrão no EPUB3 – os grandes fabricantes de e-readers estão apoiando o novo padrão. As editoras não têm tempo nem os recursos econômicos para fazer múltiplas versões de um livro para cada leitor. O estabelecimento de um padrão permite que as editoras criem um só arquivo para todos os leitores, e assim tenham tempo para aumentar a qualidade e a quantidade de livros oferecidos.

OK | O InDesign constitui um software fundamental para a diagramação de livros em papel e no digital. No entanto, para a edição pura de livros eletrônicos, não seria mais conveniente partir de outras ferramentas [inclusive mais simples], sem ter que usar o InDesign como intermediário?

LC | O InDesign, como você explicou, é um programa potente, mas complicado e caro. Como a grande maioria das editoras nos Estados Unidos, Europa e Japão usa este programa para a diagramação de livros impressos, é uma opção natural para a criação de livros eletrônicos. Além disso, com cada nova versão, realiza este trabalho cada vez melhor. Mas nos casos em que não seja utilizado para os impressos e que não seja conhecido, nem tenha sido comprado anteriormente, suas vantagens diminuem consideravelmente. Para a criação de livros puramente eletrônicos, ainda não existem ferramentas gráficas muito boas, mas não acho que vão demorar muito para chegar. No entanto, é verdade que são necessárias ferramentas de baixo custo para criar livros eletrônicos sem precisar tocar o código de EPUB que se encontra por trás.

OK | Nestes últimos anos, você viajou por muitos países. Como vê a evolução do ebook no mundo?

LC | Vejo que todo o mundo está entendendo a utilidade de poder ler em dispositivos eletrônicos. Acho que o preço dos dispositivos é chave para sua adoção. Nos EUA, o Kindle só diminuiu de preço quando saiu o iPad – uma concorrência de verdade. Em poucos meses, foi de $400 a menos de $100. Isso está a ponto de acontecer no Japão agora, com o lançamento do leitor Kobo por menos de $100 e com a apresentação do suporte para escrita vertical. Na Argentina, onde estive em abril, acho que a falta de um e-reader acessível é uma das coisas que está segurando o mercado de livros eletrônicos. Há muita gente que lê ali, mas quem quer comprar um e-reader por 300 dólares? Então as editoras, que costumam ser mais conservadoras – e que, além disso, se acham numa situação delicada por causa da crise mundial –, têm medo de investir dinheiro para fazer as conversões necessárias e há uma falta de conteúdo. Tudo é um círculo. Mas vejo a coisa começando a girar.

OK | Que conselhos daria aos editores de países em desenvolvimento que estão querendo experimentar com o digital?

LC | Acho que é preciso levar em conta os dispositivos móveis que as pessoas já têm em sua mão ou sobre suas mesas. É possível ler EPUB gratuitamente num computador ou em muitos celulares existentes. Com isso já dá para começar. Depois, aconselharia que se relacionem diretamente com os clientes leitores, que sejam receptivos a suas necessidades e que não os tratem como piratas. Se as editoras fizerem com que seja mais cômodo e mais fácil comprar um livro que pirateá-lo – com a consequente perda de tempo e preocupações que este ato implica para o usuário –, as pessoas se comportarão corretamente. Estou convencida disso. E atuo em cima desta convicção: vendo todos meus livros sem proteção DRM e eles continuam vendendo tanto em países onde se diz que todo mundo é pirata como nos que não. Também acho que é boa ideia continuar criando livros em papel e digital ao mesmo tempo. Podem ser formatos complementares, não precisam ser exclusivos. Nestes dias, quando muita gente ainda não está acostumada a ler em formato digital, o papel continua sendo necessário para divulgar um livro.

Por Octavio Kulesz | Publicado originalmente em PublishNews | 15/08/2012

Octavio Kulesz é formado em Filosofia pela Universidade de Buenos Aires e atualmente dirige a Teseo, uma das

Octavio Kulesz

principais editoras digitais acadêmicas da Argentina. Em 2010, criou a rede Digital Minds Network, junto com Ramy Habeeb [do Egito] e Arthur Attwell [da África do Sul], com o objetivo de estimular o surgimento de projetos eletrônicos em mercados emergentes. Em 2011, escreveu o renomado estudo La edición digital en los países en desarrollo, com apoio da Aliança Internacional de Editores Independentes e da Fundação Prince Claus.

Sua coluna Sul Digital busca apresentar um panorama dos principais avanços da edição eletrônica nos países em desenvolvimento. Tablets latino-americanos, leitura em celulares na África, revoluções de redes sociais no mundo árabe, titãs do hardware russos, softwares de última geração na Índia e colossos digitais chineses: a edição digital no Sul mostra um dinamismo tanto acelerado quanto surpreendente.

BISG [Book Industry Study Group] apoia ePub3


Formato deverá ser adotado para conteúdo web

Book Industry Study Group, BISG, anunciou o endosso à utilização do EPUB 3 como o formato preferível para “representar, condicionar e codificar conteúdo web” que inclui XHTML, CSS, SVG, imagens etc., informa o site Publishers Weekly. Segundo a declaração, o EPUB3 “aborda a necessidade da indústria editorial mundial de adotar um padrão para a criação de conteúdo digital, a fim de impedir casos de fragmentação, que começam a se infiltrar na cadeia produtiva”. O site conta ainda que Andrew Savikas, membro do conselho do BISG e CEO da Safari books, apoiou o formato EPUB como o preferido para entrega e distribuição e que está comprometido com a sua extensão. O Bisg lançou ainda uma grade informativa para ajudar a indústria a se adaptar à transição, informa oPublishers Weekly. A última versão pode ser baixada aqui.

Por Iona Teixeira Stevens | PublishNews | 08/08/2012

Vagas limitadas para segunda turma do Curso Prático de Produção de EPUBS


Fernando Quaglia

Devido à grande demanda a Escola do Livro realiza mais uma turma do curso Prático de Produção de EPUBS, que acontecerá nos dias 20 e 21 de setembro, na sede da Câmara Brasileira do Livro. O objetivo é abordar a produção de EPUBS e suas vantagens, como produzir e quais ferramentas utilizadas. Atualmente, existem diversas formas para a leitura de e-books, como os e-readers, smartphones ou softwares. O ePub possibilita o aumento do tamanho da fonte e o ajuste da dimensão das páginas de acordo com o dispositivo utilizado para leitura, adequando o e-book às necessidades do usuário. Importante: as vagas são limitadas, o aluno tem que trazer seu notebook com os softwares instalados: InDesign CS5, Word, Sigil, Calibre, Oxigen [podem ser as versões de teste]. É imprescindível que o participante tenha bons conhecimentos em InDesign e noções de CSS.

As aulas serão ministradas por Fernando Quaglia e Rones Lima. Quaglia é fundador da eBook Company, e coordenador da área de negócios internacionais da editora do Conselho Espírita Internacional. Rones é graduado em Desenvolvimento de Sistemas para a Internet, com Pós Graduação em Objetos, Sistemas Distribuídos e Internet pela UnB. É especialista na conversão de livros para o formato eBook mesclando sua experiência em design gráfico ao conhecimento de códigos, obtidos na graduação e pós-graduação. Para mais informações encaminhe seu e-mail para: escoladolivro@cbl.org.br.

CBL Informa | 30 de Agosto de 2011