A criança, o livro digital e o futuro da leitura


Alunos do colégio Santa Maria, de São Paulo [Clayton de Souza/Estadão]

Alunos do colégio Santa Maria, de São Paulo [Clayton de Souza/Estadão]

A Feira do Livro de Frankfurt está no Brasil esta semana para debater temas como a tecnologia aplicada ao mercado editorial e à educação, a leitura infantojuvenil, o novo perfil das editoras e a interação entre empresas de tecnologia, editoras e escolas. Esta é a terceira vez que eles organizam, no País, a Contec. Hoje, a conferência está sendo realizada em Canoas, no Rio Grande do Sul. Na terça, os profissionais se reuniram em São Paulo.

Na edição paulista, houve quem defendesse, de forma ferrenha, o e-book e, principalmente, os aplicativos; quem pregasse a união entre papel e digital na criação de um produto híbrido e quem reforçasse a importância da relação da criança com o objeto livro e com os mediadores de leitura. Embora alguns dos palestrantes discordassem, o debate foi tranquilo e em nada lembrou o histórico bate-boca entre o escritor e crítico Alberto Manguel e a editora inglesa Kate Wilson, da Nosy Crow, na Jornada de Literatura de Passo Fundo, em 2011.

Só para lembrar: Ela tinha acabado de mostrar para a plateia um livro digital da Cinderela cheio de penduricalhos. Manguel, autor de Os Livros e os Dias e de Todos os Homens são Mentirosos, entre outros, se exaltou e disse: “Eu não sabia que faria parte dessa discussão a deformação do leitor defendida com argumentos comerciais, de vender este ou aquele produto. O livro não é um produto comercial. É nocivo que uma crianças de três ou quatro anos seja introduzida à leitura dessa forma, aprendendo a ler na tela. Aprender a ler é outra coisa”.

O jornalista americano Todd Oppenheimer, autor do livro The Flickering Mind: Saving Education from the False Promise of Technology, faria o papel de Manguel na Contec, mas em cima da hora ele cancelou sua viagem ao Brasil. Fiz uma pequena entrevista com ele na semana passada, que entraria na matéria Feira de Frankfurt debate o futuro do livro digital, publicada na terça-feira no Caderno 2. Com sua desistência, a entrevista não cabia mais na matéria. Mas vale a leitura:

Considerando o processo de aprendizagem e o desenvolvimento de consciência crítica, quais são os prós e contras do uso da tecnologia nas escolas e no dia a dia?

A internet é inegavelmente uma grande fonte de informação e com o passar do tempo só melhora e se enriquece. Mas seu surgimento aponta para um novo desafio que as escolas não têm prestado muita atenção: como avaliar com sabedoria a informação da internet. Computadores também podem ser boas ferramentas para despertar a criatividade – de novo, se usados da maneira correta. O problema é que a maior parte das escolas e dos alunos o usam do jeito errado. Nos primeiros anos, quando a experiência tátil é crucial, o uso é excessivo. Nos anos mais avançados [ensino fundamental e acima], os jovens deveriam aprender como os computadores funcionam, como programá-los, como construí-los, como consertá-los, etc. As escolas não fazem isso e simplesmente aceitam os computadores como sistemas de distribuição do que quer que esteja na moda ou de interesse comercial. É uma pena, e uma terrível ironia, já que o principal argumento para que haja computadores nas escolas é que eles ajudam a preparar o aluno para o futuro.

O uso de tecnologia nas escolas é irreversível?

Não acho que seja absolutamente irreversível, mas é pouco provável que diminua por enquanto. A longo prazo, porém, acredito que esse uso será menor. Isso, quando nós, aos poucos, formos percebendo a vasta gama de habilidades humanas que estamos perdendo e descobrirmos que estamos criando uma geração de autômatos que mal consegue ter relações pessoais ao vivo – e que geralmente tem medo disso.

Quais são os principais desafios para o sistema educacional na era da tecnologia?

O primeiro é preservar, nos jovens, a capacidade de concentração, a criatividade e o esforço pessoal [ao invés de esperar que as informações e a diversão cheguem prontos, num click, até eles]. O segundo é preservar o interesse deles em outras pessoas [e não em aparelhos eletrônicos]. Este último item será mais importante na próxima década à medida que nossas vidas se tornam mais multiculturais e cruzadas. O profissional de sucesso de amanhã será aquele capaz de entender outras culturas e capaz de resolver problemas com criatividade e baseado num profundo conhecimento de história, filosofia, antropologia, entre outras ciências. A tecnologia ajuda em algumas dessas habilidades. Mas a maioria delas requer leitura, conversa inteligente [cara a cara, e não tela a tela] e trabalho paciente.

Com relação à experiência de leitura, o senhor acredita que aplicativos funcionam como livros tradicionais? Eles deixam espaço para imaginação?

Depende do aplicativo. A maioria não porque acaba fazendo muito do trabalho que a imaginação humana deve fazer por conta própria, tornando, assim, a imaginação de um jovem preguiçosa e deficiente. Pense nos programas de rádio. Por muito tempo eles foram chamados de “teatro da mente” porque provocam a imaginação ao invés de preenchê-la. Bons audiolivros também fazem isso – e aí está a boa tecnologia, e um bom jeito de ler. Além disso, acredito que devemos ser cuidadosos ao deixar a tecnologia bagunçar muito com a narrativa tradicional. Há um motivo para que essa narrativa seja o método dominante de contar história desde que os humanos começaram a conversar. Muitos aplicativos prometem romper com o modelo tradicional com a ideia de que se tornarão superiores. Na maioria dos casos, essas inovações não passam de novidade. E essas novidades não duraram por um simples motivo: elas são complicadas – ou, mais frequentemente, são simplesmente chatas.

Por Maria Fernanda Rodrigues | Publicado originalmente clipado à partir de O Estado de S. Paulo | 20/02/2014

O presente e o futuro da educação digital


Confira os principais destaques da Contec, conferência da Feira de Frankfurt que aconteceu ontem em São Paulo

Fotógrafo | Daniel Vorley

Fotógrafo | Daniel Vorley

A Contec – conferência realizada pela Feira de Frankfurt no Brasil – terminou ontem [18/02], em São Paulo, com uma certeza: a educação digital é uma necessidade e o caminho agora é aprender a lidar com ela. Nas palestras que ocuparam o SESC Vila Mariana durante todo o dia de ontem, foram discutidos temas aprendizado interativo, as ferramentas que estão revolucionando as formas de ensinar, as dificuldades para garantir e ampliar o acesso a este novo mundo digital, os diversos modelos de aprendizagem, a geração do compartilhamento, os jogos na escola e o acompanhamento dos alunos neste novo tempo.

Em sua avaliação final, Marifé Boix García, vice-presidente da Feira do Livro de Frankfurt, comentou: “Sabemos que os resultados na escola dependem da interação das crianças com os professores. A tecnologia poder facilitar o aprendizado e ajudar a ganhar maior atenção dos alunos, mas para estar pelo menos na mesma altura é indispensável que os educadores dominem as ferramentas tecnológicas”.

Um dos pontos altos da conferência foi o painel [R]Evolução do conteúdo: as últimas novidades em aprendizado interativo apresentado por Michael Ross, vice-presidente sênior e gerente geral da Britannica Digital Learning, divisão de educação de Encycloepaedia Britannica. Ele foi taxativo: “Estamos todos preocupados em ensinar e aprender, mas a forma e o meio estão mudando rapidamente. Todos queremos uma cidadania educativa e para isso é preciso estar aberto às mudanças. Os estudantes de hoje são os nativos digitais e todos os que têm mais de 25 anos podem ser considerados imigrantes nesse mundo. As editoras, as escolas, pais e professores precisam se adaptar a essas mudanças. De alguma maneira vamos manter o pé no passado, mas precisamos eliminar a exclusão digital”.

Com mediação do diretor do PublishNews, Carlo Carrenho, a mesa O “novo” sempre quer dizer “melhor”  discutiu o papel do livro digital e das novas tecnologias na educação. Heather Crossley, editora do selo Ladybird da editora britânica Penguin Heather explicou que a empresa quer fornecer conteúdos para todas as idades: “No coração de tudo o que a gente faz está a vontade de contar histórias. Se a criança não lê, não consegue aproveitar o seu potencial completo, não pode aproveitar o que a vida tem a lhe oferecer. Tanto o livro físico quanto o digital trazem experiências para as crianças”. Udi Chatow, gerente de desenvolvimento de negócios mundiais em educação da HP,  expôs o ponto de vista da divisão de educação da empresa, um modelo híbrido, que combina as melhores possibilidades do modelo impresso aos aplicativos e outras tecnologias digitais. “Muitas vezes imprimir ainda é a melhor solução. Sabemos que os leitores leem mais rapidamente e a compreensão é melhor através de materiais impressos, preferidos pela maioria dos estudantes”. Colin Lovrinovic, gerente internacional de vendas da editora alemã Bastei Lübbe, disse que estão tentando entender o que os leitores estão procurando hoje: “Pegamos o mesmo livro e fazemos versões em e-books, apps e áudio”. Para Dolores Prades, editora da revista nacional Emília, temos um longo caminho pela frente: “ainda não há bibliotecas em muitas cidades, mas é positivo que a tecnologia esteja sendo inserida nas escolas públicas”.

No painel Sinais do Futuro… Hoje: inovação em educação uma perspectiva internacional, a jornalista e empreendedora Ana Penido, da Inspirade, acredita no ensino híbrido: “Mas para isso é necessária a formação de professores, apostamos na mediação deles. A curadoria do professor ganha ainda mais importância em um mundo de grande oferta de informações”.  O  jornalista André Gravatá, coautor do livro A volta ao mundo em 13 escolas  ressaltou a importância da participação dos professores: “Percebi que a gente acaba preocupado com a curadoria e esquece a cuidadoria, que é melhor técnica para realmente transformar a educação

A mesa O acesso é tudo também teve a mediação de Carrenho e nela foram discutidos a importância de estar atento às transformações e de buscar conteúdos interessantes e novas formas de compartilhar o conteúdo. Participaram da palestra o editor argentino e colunista do PublishNews Octavio Kulesz, o espanhol David Sánchez, da 24symbols e o brasileiro Flavio Aguiar, da Widbook. Juntos, eles concluíram que essa parece ser a fórmula para que os editores e provedores de mídia consigam facilitar o acesso aos conteúdos digitais de qualidade na educação.

A diretora do Center for Teaching through Children’s Book, Junko Yokota e consultor internacional de projetos literários britânico Neil Hoskins participaram do painel Qual é o limite? Quando o acesso digital se torna uma distração. A partir de exemplos práticos interativos de livros digitais, Juno reforçou como as imagens, animações e possibilidades interativas dos livros digitais aprofundam a compreensão da informação. Já Neil sugeriu um modelo híbrido de livro impresso com um livreto que serve como guia anexo em forma de aplicativo.

O painel Que os jogos se iniciem: a Gamificação na educação teve participação de Carminha Branco, diretora editorial da Editora Saraiva. Para ela,  “hoje revisitamos as estratégias do lúdico, através de nova roupagem, com apelo maior. Nem salvação, nem placebo. Os jogos são importantes na aprendizagem, combinam força e o lado da emoção“.  Para o co-fundador do Kiduca, Jorge Proença, “os jogos desenvolvem habilidades e representam uma das atividades favoritas das crianças, com retorno entusiástico e positivo”.

A sessão interativa Alimento para o pensamento e modelos de aprendizado híbridos teve a participação de Udi Chatow, especialista em educação da HP,  e  Hamilton Terni Costa, diretor, AN Consulting, Brasil. Os dois concordaram que é importante escolher a tecnologia certa para cada situação para conseguir engajar os alunos no aprendizado. O modelo híbrido é o melhor dos mundos.

No painel Tendências na Educação. A sociedade muda rapidamente, e a educação?, a doutora  Lucia Dellagnelo, coordenadora da Educação do Tec Project, Brasil, enfatizou que, na verdade, estamos buscando novas soluções para velhos desafios intrínsecos ao processo de  aprendizagem Segundo ela, a Internet trouxe muitas transformações e desafios para o setor educacional, mas faz uma ressalva : “Se compararmos com outros instituições, a escola não sofreu tantas mudanças, mas temos que pensar em um novo ecossistema  em que pesquisadores, desenvolvedores de tecnologia e professores trabalhem dentro da escola. O acesso rápido à informação e à inovação mudaram, mas o  processo de aprendizagem pode ser realizado em qualquer momento e em qualquer lugar”.

Avaliando o sucesso do aluno – O que significa ser um estudante bem sucedido no século 21? Para responder essa pergunta e aprofundar o tema foram convidados a polonesa Jolanta Galecka, especialista em Marketing Online, Young Digital Planet; Sean Kilachand, co-fundador da startup brasileira EduSynch  e Claudio Sassaki, cofundador da Geekie, Brasil. Eles falaram sobre as novas plataformas que podem ajudar na avaliação dos alunos. Aprender é um processo bem complexo e que depende de diferentes sentidos. Testes de múltipla escolha não dão essas respostas”, disse Jolanta.

Encerrando a programação da Contec em São Paulo, o painel A geração do compartilhamento: aprendizado e mídia social contou com a participação do chefe de pesquisa da Edmodo, Vibhu Mittal, e de Brasiliana Passarelli, da Escola do Futuro da Universidade de São Paulo [USP].   Brasiliana discorreu sobre a revolução trazida pela internet, “com ambiente multimídia e narrativas não lineares, normais para os nativos digitais mas não para os imigrantes digitais. Quando criamos conteúdo para tablets em escolas, não basta apenas pensar no conteúdo, mas também em uma logística de por quanto tempo os alunos vão acessar o conteúdo e de que forma

A Contec terá uma nova edição na próxima quinta-feira [20/02], na cidade gaúcha de Canoas. Informações e inscrições pelo site da Contec.

PublishNews | 19/02/2014 | Com informações da assessoria de imprensa

PNLD e Bienal: realidades digitais bem distintas


Por Gabriela Dias | Publicado e clipado originalmente de PublishNews | 28/08/2013

O fim de agosto está contrapondo, sem querer, realidades digitais bem distintas. No último dia 23, acabou o prazo de entrega dos e-books do PNLD 2015 [Programa Nacional do Livro Didático]; no dia 29, começa a 16ª Bienal do Livro, que em 2013 comemora 30 anos quase sem falar de livro digital.

Com o PNLD 2015, o segmento didático parece ter dado um salto à frente do resto do mercado no que tange à cultura digital. Instigadas pelo MEC a entregar livros digitais enriquecidos, as editoras didáticas tiveram que aprender [ainda que aos trancos e barrancos] o que significa fazer um e-book – que não basta produzir no formato X ou Y, por exemplo; que há que se considerar também o peso dos arquivos, a[s] forma[s] como eles serão distribuídos e a[s] plataforma[s] de leitura nos diversos dispositivos.

Tudo isso significou um primeiro semestre muito duro para essas editoras: horas extras, incontáveis reuniões, muito investimento e experimentação. O trabalho foi tão intenso que tanto o prazo de entrega dos livros físicos quanto o dos digitais teve que ser adiado – o que, na prática, quer dizer que o segundo semestre será tão ou mais puxado que o anterior.

Mas será que valeu a pena?

Depois da tempestade, vem a bonança

Passada a tempestade de oito meses de incertezas e dúvidas, minha impressão é que esse “intensivão” teve saldo positivo. O período de reorganização de fluxos e processos não só agregou o digital de vez às estruturas produtivas das editoras didáticas, como também fez dele moeda corrente entre os funcionários em geral.

Se até 2012 o digital ainda era visto como “aquela coisa estranha que um departamento específico faz”, em 2013 ele passou a ser assunto de todos e para todos. Essa mudança de mentalidade se refletiu no organograma de algumas editoras, em que o departamento digital deixou de ser algo à parte para ser incorporado às estruturas editorais já existentes.

Pudemos sentir isso na primeira turma do curso Alt+Tab, em maio. Pensado para profissionais de qualquer setor editorial, o curso “Livro Digital: o que você sempre quis saber [mas tinha medo de perguntar]” acabou atraindo 80% de pessoas oriundas de editoras didáticas em sua edição inicial. A ansiedade era grande, e a avidez por informação também – o que se refletiu no engajamento da turma no ambiente online do curso, mesmo após as aulas terminarem.

A mudança é tão forte que até os autores de livros educativos estão começando a se preparar para a nova era. Sua associação, a Abrale, começa este mês uma série de eventos destinados ao debate sobre o livro digital.

Por enquanto, a transformação é mais intensa nas equipes ligadas à criação e à produção dos livros. Mas é questão de tempo para que a mudança se intensifique em áreas como marketing e vendas – basta chegar a hora apropriada, seguindo-se o calendário do PNLD.

Os números [não] mentem

O avanço digital do segmento didático não se refletiu ainda nos números de vendas. Na pesquisa “Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro” referente a 2012, divulgada em julho pela Câmara Brasileira do Livro [CBL] e Sindicato Nacional dos Editores de Livros [SNEL], o setor aparece como o último do mercado em número de e-books e aplicativos vendidos e o penúltimo em faturamento com conteúdo digital.

Mas como interpretar esses dados quando a prática do setor tem sido “dar” o digital como acessório na compra do livro impresso? E como medir a penetração do conteúdo didático digital sem considerar o uso nos sistemas de ensino, cuja venda não se baseia apenas em e-books e apps?

É por essas e outras que, quando me perguntam dos números digitais do setor, sempre digo que não há estatísticas confiáveis. Na verdade, se não nos prepararmos para fazer essa medição de modo apropriado aos novos modelos de negócio trazidos pelo digital, pode ser que continuemos tendo números irrelevantes por um tempo – o que renderia uma coluna à parte.

Enquanto isso, na Bienal…

Apenas seis dias separam a entrega dos e-books do PNLD da Bienal no Rio, mas parecem anos de distância. Só como exercício, tentem buscar a palavra “e-book” no site oficial da feira e vejam o que acontece.

Após muito esforço, consegui descobrir que o evento reservou o digital para públicos como o jovem [no#acampamentonabienal] e o profissional [com a Contec e o colóquio “O acesso à biblioteca no clique do mouse: a Mediateca Digital”]. O mesmo ocorreu na Flip em julho, quando o digital só apareceu em eventos paralelos como os da Casa Kobo Livraria Cultura.

Pelo visto, as iniciativas digitais na Bienal 2013 ficarão por conta dos expositores – Kobo [no pavilhão Azul], Amazon e Google [ambas no pavilhão Verde] terão estandes pela primeira vez. Detalhe: o IBA, plataforma digital da Abril, é patrocinador do Café Literário.

Considerando que o evento é o ponto alto do ano para os setores de obras gerais; religiosas; e científicas, técnicas ou profissionais, e que há apostas de que as vendas de e-books no Brasil cheguem a 3 milhões de unidades já em 2013, será que ainda deveria ser assim?

Por Gabriela Dias | Publicado e clipado originalmente de PublishNews | 28/08/2013

Gabriela Dias

Gabriela Dias

Gabriela Dias [@gabidias] é formada em Editoração pela ECA-USP e transita desde 1996 entre o papel e o virtual. Atualmente, presta consultoria e realiza projetos nas áreas de educação e edição digital.

A coluna Cartas do Front é um relato de quem observa o mercado educacional no Brasil e no mundo. Periodicamente, ela traz novidades e indagações sobre o setor editorial didático – e sobre o impacto da tecnologia nos livros escolares e na sala de aula.

Contec coloca educação e tecnologia em pauta


Evento da feira de Frankfurt abre discussão sobre como criar novos leitores

Ontem foi o primeiro dia da conferência sobre tecnologia, alfabetização, educação ecross media, a Contec, no auditório do Ibirapuera, em São Paulo. Claudio de Moura Castro, do grupo Positivo, participou de um dos debates mais interessantes do dia, sobre a contribuição do mercado literário para a alfabetização mundial. “Eu queria falar aqui de livros e leitores. Infelizmente no Brasil não há nem livros, nem leitores” abriu o palestrante. Ele apresentou em seguida alguns resultados de pesquisas sobre formação de leitores, mostrando, por exemplo, que não apenas a escolaridade, como também a presença de bibliotecas em casa, influe na aquisição do hábito da leitura.

O economista mostrou que, apesar da escassez de estatísticas confiáveis sobre leitura e analfabetismo, os dados disponíveis revelam um panorama muito insatisfatório: apenas 18% dos universitários de São Paulo possuem o hábito da leitura, o Brasil possui apenas 26 milhões de leitores e, talvez o mais assustador, metade dos alunos na quarta série é considerada analfabeto funcional.

Como solucionar esse problema então? Claudio de Moura Castro provocou um “frisson” no auditório quando colocou um slide com as fotos de Paulo Coelho e Harry Potter. Um tem 150 milhões de leitores, o outro é personagem do livro que vendeu 9 milhões de cópias em um dia: “Eles sabem o que fazer para conseguir um leitor” disse Claudio. E sua argumentação seguiu por esse caminho: “importa mais o fato de ler do que ‘o que’ leu” afirmou, “o importante é adquirir o hábito”. Claudio continuou provocando sua plateia com frases de efeito como “A escola tem uma lei inviolável: se não é chato, não é bom para a educação” e “livro é para os ricos, computadores são para os pobres” se referindo ao fato de que um computador novo é mais barato que o total de livros de um ano letivo. Concluiu sua fala fazendo apelo a uma mudança do modelo de negócio, para se adequar a um futuro onde os livros estarão todos no computador. A cética Sônia Machado Jardim, presidente do sindicato nacional dos editores de livros, a SNEL, completou lembrando que esse novo modelo de negócio deve remunerar a cadeia produtiva.

Outro destaque do primeiro dia da Contec foi a apresentação de Brij Kothari, da ONG Planet Read, da Índia, sobre o efeito das “legendas em mesmo idioma” na diminuição do analfabetismo funcional. Os dados apresentados indicam que, não somente há um aumento no hábito de leitura, como também é uma opção vantajosa para os programas de televisão, pois há uma maior ‘retenção’ de espectadores em seus programas. O palestrante ressaltou a viabilidade de implementação do projeto no Brasil, principalmente por causa do baixo custo. Segundo Brij Kothari, na Índia, o custo (por pessoa, por ano) é de US$ 0,0002, enquanto os programas de alfabetização custam US$ 3. Ele usa o exemplo do vídeo musical da Shakira, da Copa do mundo de 2010: “Esse vídeo foi visto por meio bilhão de pessoas no Youtube. Se ela tivesse colocado legenda, 500 milhões de pessoas teriam lido um pouco com ele. Por favor, se alguém conseguir falar com ela, passe o recado” brinca o Sr. Kothari.

Por Iona Teixeira Stevens | PublishNews | 08/08/2012