Os livros digitais do futuro?


Alguns textos atrás, escrevi aqui no Colofão sobre aplicativos. Dediquei alguns parágrafos aos apps que, para mim, usam o meio a seu favor e realmente acrescentam algo à experiência do leitor, ao invés de simplesmente tentar copiar o livro impresso [ou, inversamente, usar elementos interativos sem critério, a ponto de criar uma distração, e não um complemento, ao conteúdo]. Depois percebi que, tentando transformar aquele texto gigante em um post [mais ou menos] legível, acabei deixando de fora um aplicativo de que gosto muito: oComposition nº 1, de Mike Saporta.

A ideia central é simples: como a obra é formada por uma série de pequenos textos independentes, que podem ser lidos em qualquer ordem, a organização linear das páginas de um livro se torna desnecessária. Então, o app permite que o leitor navegue entre os textos de forma aleatória. Embora exista uma versão impressa também – na qual, seguindo a mesma ideia, as páginas não são encadernadas, e sim colocadas soltas numa caixinha –, para mim este é mais um caso de um livro que se adapta muito bem ao meio digital [sem contar que o app tem ainda algumas “surpresinhas”, como uma capa interativa e uma obra de “arte tipográfica” criada a partir do texto do livro].

Lembrei deste app porque caí neste post no site da sua editora, a Visual Editions, detalhando um novo projeto em parceria com o Google. A Visual Editions é uma editora inglesa conhecida por seus projetos ousados, criando livros que são verdadeiras obras de arte, mas não simplesmente porque são bonitos: as inovações de formato estão sempre muito ligadas ao conteúdo, tanto nos livros impressos quanto nos dois projetos digitais que a editora lançou até agora, o Composition nº 1 e o site Where You Are [que eu aconselho vocês a explorarem porque, além de os textos serem ótimos, o site em si é bem lindo]. Pensando nisso, a editora e o Creative Lab do Google fundaram o projeto Editions at Play, cuja ideia principal é criar livros “que sejam imersivos e que tenham sido escritos e desenvolvidos com a ideia de serem digitais”.

Uma das muitas variações do logo no site da Universal Everything

Em outro post com mais detalhes sobre o andamento do Editions at Play, há uma lista de critérios para avaliar este tipo de livro que sintetiza o que eu queria dizer, especialmente nos primeiros dois itens: a interação deve trazer o leitor para dentro do livro, e não distraí-lo; e o livro deve ser “inimprimível”, ou seja, deve ser feito em formato digital simplesmente porque não poderia existir de outra forma. A ideia de dinamismo e de usar ao máximo as possibilidades do meio digital já começa pelo próprio logo do projeto, que é móvel – e que, imagino eu, poderá ganhar uma cara diferente para cada obra.

Falando assim, soa tudo muito mágico e empolgante, mas é difícil imaginar como estes princípios se aplicariam a um livro real, uma vez que o projeto ainda está dando seus primeiros passos. Bem, é difícil de imaginar justamente porque a literatura digital – digital mesmo, no sentido de ser pensada para este meio e usar os recursos próprios dele – ainda precisa ser mais explorada. Neste post de dezembro de 2014, Tom Uglow, do Google’s Creative Labs, faz uma distinção importante entre o que chama de livro eletrônico – o e-book que conhecemos hoje, pouco mais do que uma reprodução do impresso – e o livro digital, capaz de “usar a infraestrutura digital do nosso novo mundo para criar novas maneiras de contar velhas histórias”. No final do texto, ele dá algumas pistas sobre de que maneira isto poderia ser feito, desde mudanças simples – como livros com texto contínuo ao invés de organizados em páginas, ou livros entregues diária, semanal ou mensalmente – até alterações na estrutura do conteúdo, como livros que usam uma segunda ou terceira tela para mostrar conteúdo extra, ou livros que são afetados pela presença de outros leitores nas proximidades. Alguns destes recursos passam por questões que vão além da literatura, como o acesso às ferramentas tecnológicas para produzi-los e, talvez o mais urgente, a questão da privacidade, que sempre vem à tona quando se fala em conteúdo personalizado [especialmente quando o projeto envolve uma empresa que tem acesso a tantas informações sobre seus usuários quanto o Google]. Mas o fato é que são recursos a serem explorados, e só saberemos se eles são ou não capazes de acrescentar algo à experiência de leitura até que alguém experimente.

Marina Pastore

Marina Pastore

Por Marina Pastore | Publicado originalmente em Colofão | 19/08/2015

Marina Pastore é jornalista formada pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Descobriu os e-books ainda na faculdade, em 2011, e foi amor ao primeiro download. Vem trabalhando com eles desde então, integrando o departamento de livros digitais da Companhia das Letras. Seu maior orgulhinho profissional foi ver toda a obra de seu autor preferido e muso inspirador, Italo Calvino, disponível em formato digital. Sua vida é basicamente um grande episódio de Seinfeld, mas com menos sucrilhos e mais [muito mais] gifs animados.

Produzindo eBooks pra criançada


Por Suria Scapin e Isabela Parada | Publicado originalmente em Colofão | 22 de julho de 2015

Apesar de ainda ser um mercado muito pequeno, há dois anos começamos a produzir livros digitais voltados ao público infantil. Mas por que apostamos em e-books infantis? Bom, vamos por partes.

Os livros infantis e suas diversas linguagens

O livro infantil sempre favoreceu a incorporação de outras linguagens, e isso desde o primeiro livro para crianças, que já apresentava a união da linguagem escrita com as ilustrações.

Orbis Pictus,1 escrito por Comenius, foi o primeiro livro produzido para crianças, em 1658. O próximo livro infantil foi escrito apenas depois de quase 40 anos, e ambos claramente continham lições de moral para as crianças

Orbis Pictus,1 escrito por Comenius, foi o primeiro livro produzido para crianças, em 1658. O próximo livro infantil foi escrito apenas depois de quase 40 anos, e ambos claramente continham lições de moral para as crianças

A ilustração do livro [infantil] nasceu com ele próprio”, já bem disse Rodrigues2, mas a sua importância cresceu muito no último século, e as ilustrações passaram a oferecer elementos de interpretação da história que dão informações narrativas e se somam às informações escritas. Em paralelo, vimos uma mudança no conceito do objeto livro, que passou a poder apresentar características como cortes especiais e pop-ups, fornecendo ainda mais elementos de interpretação da narrativa.

Todos esses recursos já vinham trabalhando o modo híbrido como o nosso pensamento funciona, mas no formato material, concreto. Santaella enfatizou essa característica do pensamento em sua palestra no lançamento do prêmio Jabuti deste ano: “Nosso pensamento não é só verbal. Ele é um pensamento que se desenvolve através de imagens, relações, às vezes tensões, polaridades, sentimentos, vontades… quer dizer, tudo isso compõe o nosso pensamento”.

A partir do desenvolvimento tecnológico, passamos a ter a possibilidade de fazer livros digitais com animações, interações, sonoplastia ou outros recursos. E já que, como disse Lajolo3, o livro infantil sempre foi pioneiro na inserção de novas linguagens, receber também a digital é um caminho que, historicamente, parece ser o natural dos livros infantis.

Os recursos digitais nos e-books infantis

Os recursos que a linguagem digital oferece têm muito a acrescentar aos livros infantis, mas, se é preciso ser criterioso na produção editorial infantil de livros impressos, no caso de livros digitais existe uma outra grande responsabilidade: a de inserir essa nova linguagem para enriquecer a história, que é o foco do livro, sem transformar a leitura em um jogo.

Primeiro, porque as crianças sabem muito bem quando querem jogar e quando querem ler; a leitura é uma atividade muito mais introspectiva do que o jogo, mais individual e onde o ritmo de cada um é fator importante. Segundo, porque elas já têm acesso a inúmeros jogos no ambiente digital, e, como os dispostitivos digitais vêm sendo usados cada vez mais cedo, é importante que as crianças também tenham acesso, ali, a conteúdos de outras naturezas, como a literária.

A interação, para um livro, no nosso entender, tem de ser opcional, pois, se imposta, a história é transformada em jogo — é como se a criança tivesse que passar por um desafio para poder prosseguir na leitura. É importante reconhecer que as interações oferecem uma possibilidade de enriquecer o livro quando permitem integrar ainda mais as linguagens presentes nele, como, por exemplo, neste livro em que os personagens se tornam alimentos.

Página do livro O que você quer ser quando comer?4 antes e depois da interação. O toque nos personagens faz com que eles se transformem em alimentos, ideia que é o mote central da história.

Página do livro O que você quer ser quando comer?4 antes e depois da interação. O toque nos personagens faz com que eles se transformem em alimentos, ideia que é o mote central da história.

Ou neste, em que é possível ler de modo linear, virando as páginas normalmente, ou de modo interativo, ao escolher aleatoriamente os olhos de um dos personagens que está no guarda-roupa.

Na interação do livro No meu guarda-roupa5, cada um dos olhos no guarda-roupa leva a uma página diferente do livro. Para voltar a esta página inicial, é preciso tocar no ícone do guarda-roupa, ao lado do texto.

Na interação do livro No meu guarda-roupa5, cada um dos olhos no guarda-roupa leva a uma página diferente do livro. Para voltar a esta página inicial, é preciso tocar no ícone do guarda-roupa, ao lado do texto.

Além do recurso interativo, há o sonoro. A contação da história, unida à sonoplastia, envolve escolhas que vão desde o tom da narrativa até sensações que os sons podem passar aos pequenos leitores. Podemos pensar em provocar uma ambientação ou em usar a linguagem sonora para enfatizar os sentimentos dos personagens. Ou, ainda, há a opção de inserir apenas uma trilha sonora ao livro. E, sim, os recursos sonoros também são opcionais.

Desta maneira, com os recursos ativos, as crianças procuram antever o que virá da interação ou conseguem imaginar com maior riqueza de detalhes os ambientes das histórias, por exemplo. Sem os recursos, a imaginação percorre outro caminho e é interessante que elas possam escolher se querem manter os recursos ativados ou não. A animação é o único recurso que, até agora, não pode ser opcional, o que exige que a escolha seja muito cuidadosa para não retirar a atenção que a criança dedicaria à história.

A criançada e os recursos

Com e-books em mãos, a criançada põe em movimento todo um processo imaginativo. De acordo com Vigotski6, elas pegam as memórias que vêm das experiências anteriores para reorganizá-las e, assim, criar algo novo. E esse novo, no caso dos livros, é uma história única7, que une a imaginação das crianças com a imaginação que foi materializada nos livros em forma de escrita, de imagens, de sons, de interações…
Quando as crianças são maiores, já têm mais experiências vividas, por isso temos em mente que produzir para crianças de 3 anos é completamente diferente de produzir para crianças [nem tão crianças mais] de 12 anos. Não dá para pensar da mesma forma na produção, mas quando os recursos são opcionais, fica mais fácil, também, que aquele livro possa ser lido por um público mais amplo: afinal, nada impede que alguém de 12 goste do livro que fizemos pensando na criança de 3, ou vice-versa!
Nós vemos os recursos dos e-books como uma maneira de nos comunicarmos de forma mais direta com os nativos digitais — eles nasceram imersos em uma tecnologia já desenvolvida para funcionar de forma que se assemelhe ao pensamento humano; para eles, o uso das novas tecnologias é absolutamente natural. Mas é preciso que cada projeto seja pensado com cautela, para que exista harmonia entre recursos e história, sem atrapalhar a leitura.

Entendemos que os e-books podem aproximar da leitura algumas crianças que não têm o hábito de ler, mas têm o hábito de usar tablets e smartphones, e é por isso que pensamos ser essencial o desenvolvimento do mercado de e-books infantis. As bibliotecas digitais podem ser um passo importante nesse sentido, mas isso seria assunto para um outro texto.


1. Imagem daqui: http://bit.ly/1UiqbxZ.
2. RODRIGUES, Maria Lúcia Costa. A narrativa visual em livros no Brasil: histórico e leituras analíticas. 2011. 192 f. Dissertação [Mestrado em Patrimônio Cultural e Sociedade] – Universidade da Região de Joinville, Joinville, 2011.
3. Marisa Lajolo deu a palestra “O pioneirismo dos livros infantis brasileiros – do livro ao tablet”, na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, em 2014, onde ela defendeu essa ideia que mencionamos. Nós aprofundamos esta questão em um texto publicado no blog Pipoca Azul: http://bit.ly/1ErDeSN.
4. Livro escrito por Marcelo Jucá com ilustrações do Otacoiza Estúdio.
5. Livro escrito por Carla Chaubet com ilustrações do Estúdio 1+2.
6. Lev Semenovitch Vigotski, psicólogo bielo-russo, produziu uma obra densa sobre a gênese das funções psicológicas superiores, sendo uma referência para estudos sobre desenvolvimento da imaginação infantil.
7. Assim disse Bartolomeu Campos de Queiróz: “O fenômeno literário, talvez, seja a fantasia do escritor dialogando com a fantasia do leitor e construindo uma terceira obra, que nunca vai ser escrita”. Aqui:http://bit.ly/1NCjsd5.

Por Suria Scapin e Isabela Parada | Publicado originalmente em Colofão | 22 de julho de 2015

Suria Scapin
Começou a trabalhar no mercado editorial com 16 anos e passou por editoras como Madras, Atual, Abril, Leya e Sarandi, além de ter atendido muitas mais pela S4 Editorial. Com formação em Desenho Industrial e em Língua Portuguesa e Literatura, ambas pelo Mackenzie, sempre revezou entre texto e arte, até que resolveu unir os dois conhecimentos e tornar-se a responsável editorial da Editora Pipoca.

Isabela Parada
Para buscar compreender como funciona a cabecinha dos pequenos, Isabela foi estudar Pedagogia na UEMG, onde encontrou seus fundamentos teóricos e participou do grupo de pesquisa e estudos Contra-Violência na Infância. Na Escola Pés no Chão [Belo Horizonte], aprofundou os estudos sobre a Pedagogia Freinet. Hoje é pedagoga da Pipoca e contadora de história na creche de Milho Verde [MG], pelo Instituto Milho Verde. Aprendeu que o crescimento das crianças é também o processo de criação delas mesmas e entende que essa criação é individual e única.

Autopublicação – as maravilhas e agruras de cada plataforma


Por Maurem Kayna | Publicado originalmente em Colofão | 8 de julho de 2015

Para quem quer publicar e-books de modo independente no Brasil, há muitas opções, desde as plataformas mais conhecidas – como o Kindle Direct Publishing [KDP], da Amazon, o Kobo Writing Life [KWL], da Kobo, e o iTunes Connect, da Apple, para ficar naquelas que têm interface em português – até iniciativas locais que começam a surgir, como a Simplíssimo e a Bibliomundi. As promessas variam pouco: liberdade total para o autor; % expressivo do preço de capa; disponibilidade do seu e-book para muitas lojas virtuais mundo afora.

Depois de realizar uma série de testes com as principais plataformas, reparto aqui com vocês as experiências e aprendizados colhidos. Espero que possam ajudar a definir seu próprio plano de autopublicação.

Quais as opções?

Certamente há muitas alternativas que não experimentei, mas posso contar para vocês o que achei da Amazon, da Kobo, da Apple e da Smashwords, da qual desisti logo que as outras aportaram aqui no Brasil. Quanto às plataformas novas que estão chegando, vou me limitar a deixar os links para vocês, pois não as testei ainda.

Amazon KDP [Kindle Direct Publishing] – exclusividade ou poligamia?

Quando você vai iniciar o processo de publicação no KDP, de modo muito simples e rápido, como já expliquei aqui, perceberá a tentativa de sedução para aderir ao KDP Select. Aliás, recentemente a Amazon lançou um concurso literário para arrebanhar autores de contos, e um dos critérios para inscrição é que o conto / e-book seja publicado com adesão ao KDP Select.

São inúmeras as vantagens oferecidas: maior % de royalties, possibilidade de realizar promoções de distribuição gratuita do e-book [o que pode ser uma utilíssima estratégia de divulgação] e entrar na divisão do fundo global do KDP Select [em junho/15 o valor total a ser dividido entre os autores do KDP Select era de 8,7 milhões]. Parece óbvio que é melhor aderir, não né? Claro que não. Especialmente depois que o critério de pagamento relativo aos serviços de assinatura Kindle Unlimited [uma espécie de “Netflix de livros”] passou a ser feito pelo número de páginas do seu e-book efetivamente lido, ao invés do download simplesmente.

Aderir ao KDP Select significa que você só poderá colocar o seu e-book nessa plataforma. Ou seja, nada de facilitar a vida dos usuários da iBookstore nem agradar aos que já se acostumaram a compras online no site da Cultura.

Isso pode funcionar, entretanto, em alguns casos. Se o seu público-alvo [caso você conheça bem seus hábitos] prefere o Kindle a outros e-readers ou aplicativos de leitura, se ele é um fã dos bons serviços prestados pela Amazon, ou se sua obra está disponível em inglês e você tem chance de conseguir espaço na Amazon USA, talvez valha a pena.

Os relatórios de acompanhamento de vendas e leituras pelo serviço de assinatura são atualizados a cada hora, e o autor tem como saber em qual das lojas seu livro foi adquirido [mas pode haver desvios, pois eu, por exemplo, continuo comprando através de minha conta na Amazon USA].

Quanto ao processo de publicação em si, fiz há algum tempo uma resenha aqui [http://www.mauremkayna.com/publicando-na-amazon-com-br/]. É um artigo de 2013, mas o conteúdo todo continua válido.

Kobo Writing Life

Esta plataforma, embora disponível para autores brasileiros e com a grande vantagem de disponibilizar seus e-books na Livraria Cultura, não é toda disponível em português e tem uma chatice relevante quanto ao pagamentos dos royalties. Talvez o seu banco não esteja entre os bancos brasileiros pré-cadastrados no KWL, e então você precisará pedir help in English para o pessoal simpático da Kobo. Eles respondem relativamente rápido, mas talvez você tenha de se informar com seu banco a respeito do recebimento de remessas em moeda estrangeira. Você também precisará informar à plataforma o código Swift do seu banco para poder receber o pagamento, que é feito em dólar.

Outra peculiaridade é que os pagamentos só são enviados quando você acumular ao menos US$100 a receber. O registro da experiência que fiz com o KWL está aqui: http://www.mauremkayna.com/experiencia-de-auto-publicacao-kobo-writing-life/

iTunes Connect – Apple

Até bem pouco tempo atrás, vender na Apple exigia a obtenção de um número ITIN, um processo não tão complicado, mas que exigia realizar uma ligação internacional e se comunicar em inglês para prestar uma série de informações. Isso tudo tinha a ver com questões tributárias. Nunca tive paciência para fazer isso e acreditava que não venderia o bastante para recuperar o custo da ligação [é, não sou mesmo otimista quanto ao potencial de venda dos meus e-books, e não é por achá-los assim tão medíocres], por isso, só utilizava a plataforma para distribuição gratuita.

Como meus primeiros testes com a iBookstore começaram a partir da ferramenta [ótima, aliás] iBooks Author, tive uma série de dificuldades com o controle de qualidade da Apple. Contei a saga aqui: http://www.mauremkayna.com/tres-experiencias-de-auto-publicacao-parte-iii/

Superadas essas travas, o que posso comentar da Apple é que a visibilidade e a facilidade de venda, mesmo para autores desconhecidos, é muito grande em comparação com outros meios. Talvez pela facilidade oferecida aos usuários no processo de download e até de pagamentos. Tive um volume de downloads impressionante do e-book Contos.com para quem não investiu em divulgação, não escreve literatura Young Adult ou qualquer outro estilo pop e não é celebridade. Não, não acho que isso se deva à descoberta de meu talento, mas à penetração dos produtos Apple e ao modo intuitivo [e também compulsivo] como as pessoas podem comprar / fazer downloads na plataforma.

As outras

Esse título fica meio pejorativo, eu sei. Mas deixemos como provocação. Cheguei a acompanhar e fazer experiências com a Publique-se, da Saraiva [http://www.mauremkayna.com/outras-experiecias-de-auto-publicacao-publique-se/] e com Smashwords http://www.mauremkayna.com/tres-experiencias-de-auto-publicacao-parte-ii/.

Recentemente, vi que a Simplíssimo, que tem grande expertise na produção de e-books [lindos, aliás!], lançou uma plataforma para o autor. Agora com a possibilidade de conversão gratuita e distribuição nas principais lojas online e com royalties de 70% para o autor. Confesso que não testei, mesmo porque não tenho assim toneladas de textos disponíveis para publicação, mas o funcionamento é conceitualmente similar ao do Smashwords, pois seu livro é publicado nas lojas da Amazon, Google Play e Apple sem que você tenha de se cadastrar diretamente em cada uma.

Na Flip, houve o lançamento de uma outra plataforma chamada Bibliomundi, cuja proposta é similar, mas o site ainda está, parece, apenas captando e-mails.

Temos também a e-galáxia [http://e-galaxia.com.br/] que, além de fazer a publicação / disponibilização em várias lojas online, também oferece um catálogo de prestadores de serviço para revisão, edição e capa. Vale comentar que a e-galáxia conseguiu emplacar diversos e-books de contos avulsos como top list na iBookstore, graças a um bom trabalho de divulgação em um selo com curadoria.

Conclusões

A possibilidade de publicar sem intermediários é incrível. Nada de esperar meses pela negativa de uma editora ou amargar o silêncio perpétuo. Há algo, porém, que vale como dica para qualquer das plataformas que o autor venha a escolher [podem ser todas, simultaneamente, aliás]: é preciso ter senso de realidade! Com isso, quero dizer que esperar que o fenômeno E.L. James se repita com você pela simples disponibilização da sua obra para o mundo inteiro na Amazon ou na iBookstore é ingênuo. Se você acreditar que o fato de seu e-book estar disponível para venda em mais de 50 países fará com que o mundo se renda aos seus talentos, bastando postar o link para compra do seu e-book, penso que isso é quase caso de internação ou uso de medicamentos controlados. Ou, trocando em miúdos, vender livros em papel já não é fácil nem frequente se você não é conhecido, e vender e-books, no Brasil, é ainda mais difícil, especialmente dependendo do gênero que você escreve, pois a resistência de certos públicos ao formato ainda persiste.

Mas o objetivo desse parágrafo não é jogar um balde de água fria [ainda mais em pleno inverno!] na sua animação, e sim indicar que, se quiser seguir o caminho da autopublicação, vai ter que ralar. Pense, portanto, sobre o tempo de que você pode dispor para trabalhar com a publicação e a divulgação. Isso poderá fazer você decidir entre a opção de publicar em todas as plataformas ou traçar um plano específico para uma delas, ou ainda, se decidir por alguma aglutinadora como Simplíssimo ou Smashwords. Mas tenha uma certeza: publicar não é o último passo, e sim o primeiro.

Por Maurem Kayna | Publicado originalmente em Colofão | 8 de julho de 2015

Sou engenheira e escritora [talvez um dia a ordem se altere], bailo flamenco e venho publicando textos em coletâneas, revistas e portais de literatura na web, além de apostar na publicação “solo” em e-book desde 2010. A seleção de contos finalista do Prêmio Sesc de Literatura 2009 – Pedaços de Possibilidade, foi meu primeiro e-book; depois por puro exercício e incapacidade para o ócio, fiz outras experiências de autopublicação, testando várias ferramentas e plataformas para publicação independente.

Questões preliminares sobre ePub3


Por Josué de Oliveira | Publicado originalmente em COLOFÃO | 1 de julho de 2015

O ePub3 é uma atualização do formato ePub que permite criar publicações digitais que operam com base em HTML5 e CSS3. Na prática, isso significa que e-books nesse formato podem conter recursos mais avançados, como áudios, vídeos, animações e certas interatividades. O IDPF, consórcio internacional que define os padrões do formato, o tem como aprovado desde 2011.

Quatro anos, e ainda assim publicar em ePub3 ainda é um desafio. Se as plataformas/ambientes de leitura dão trabalho aos mais simples arquivos ePub2, um formato mais avançado não encontraria caminho menos árduo. Os padrões variantes podem tornar a experiência um tanto complicada.

O que segue abaixo é um conjunto de observações preliminares que podem ajudar na hora de tomar a decisão de produzir ou não em ePub3, e, em caso positivo, como organizar os processos envolvidos.

Observação: o foco serão livros de texto. Não entraremos no terreno do layout fixo, assunto deveras mais complexo que ficará para uma outra ocasião.

Se você ainda está pensando no assunto, há duas questões gerais a considerar:

Não vai funcionar em todos os lugares.
Não se aventure sem ter isso em mente. O formato não é suportado por todos os aplicativos, e há variação entre os que oferecem suporte: o aplicativo iOS de uma loja pode aceitar determinado recurso que não funciona no aplicativo Android da mesma loja. Há ainda os eReaders, onde jamais funcionará. É necessário considerar essa realidade.

Podem ser necessárias várias versões.
A Coleção Ditadura, da Intrínseca, é exemplo disso. As diferenças entre as plataformas obrigaram a equipe a produzir nada menos que cinco versões de cada arquivo, uma vez que a versão “simples” [ePub2/mobi, sem recursos avançados e com preço final menor] também precisava ser lançada. O trabalho de gerenciamento, bem como de produção em si, pode ter um aumento exponencial, dependendo dos recursos que se quer utilizar. Deve-se avaliar o escopo do projeto e ver se há estrutura [e recursos] para isso.

Se já se decidiu por fazer, considere o seguinte:

A dificuldade provavelmente não está onde você imagina.
Num ePub3, o difícil não é a conversão em si para o formato nem inserir vídeos ou áudios. A conversão pode ser feita pelo próprio InDesign ou por um plugin acionado pelo Sigil, e a linha de código para chamar um vídeo ou áudio é tão simples quanto a que serviria para uma imagem. A dificuldade maior está justamente no gerenciamento da produção, sobretudo se também é necessário lançar a versão ePub2/mobi [e ainda a versão avançada para a Amazon!1], como falado acima. As dificuldades técnicas existem, naturalmente, mas — e aqui falo da minha própria experiência — é a organização do workflow que nos pega pelo pé.

1 A Amazon tem seu próprio formato para livros avançados, o KF8, que se assemelha ao ePub3 em alguns pontos. Logo, isso significa mais uma versão do e-book, agora atendendo as especificações desta loja. Detalhe: recursos como áudios e vídeos não funcionam no aplicativo do Kindle para Android, apenas iOS e, naturalmente, no Kindle Fire.

Testes, testes e mais testes.
Testes são um exercício de descoberta, como falei em outro texto. Não existe outra forma de aprender o que funciona e o que não funciona, das muitas possibilidades abarcadas pelo ePub3. Áudios, vídeos, notas em pop-up, conteúdos não lineares, javascript: é essencial conhecer o que o formato permite e refletir, a partir disso, como esses recursos podem beneficiar o projeto.

Como observação mais geral, deixo esta última:

Muito se fala sobre o uso do ePub3 [geralmente associado ao layout fixo] para publicações digitais destinadas ao público infantil, e de fato o formato cai como uma luva para livros desse tipo. No entanto, livros “adultos”, sobretudo de não-ficção, podem ser servidos pelo ePub3 de maneiras igualmente empolgantes. Bons exemplos são a biografia deGetúlio Vargas e A Grande Orquestra da Natureza [baixe uma amostra da Apple, encaixe os fones de ouvido e veja do que estou falando], em que mídias diferentes dialogam com a escrita e expandem a experiência de leitura.

Bem, estas são questões gerais que se impõem quando o assunto é produção de ePub3. Espero que possam ajudar você, editor ou autor, que está pensando no assunto.


Josué de Oliveira

Josué de Oliveira

Por Josué de Oliveira | Publicado originalmente em COLOFÃO | 1 de julho de 2015

Josué de Oliveira tem 24 anos e trabalha com e-books há pouco mais de três. Integra a equipe de digitais da editora Intrínseca, lidando diretamente com a produção dos mesmos, da conversão à finalização. É formado em Estudos de Mídia pela Universidade Federal Fluminense. Gosta de ler, escrever, ver filmes esquisitos e curte bandas que ninguém conhece. Tem alguns contos publicados em antologias e um romance policial que, segundo rumores, um dia ficará pronto.

Qual é o valor do eBook?


Por Lúcia Reis | Publicado originalmente em Colofão | 10/06/2015

Eu sei, eu sei, não é a primeira vez que falamos de preço por aqui, mas é difícil não remeter a este assunto quando estamos falando de e-books. Mas agora, por mais que a questão perpasse o problema de precificação, a bola da vez é como o preço pode interferir na percepção de valor do produto.

Vamos lá, confessem. Quantos de vocês não pensaram por um segundo sequer que o e-book é caro demais? Tenho certeza de que muitos de vocês ao menos se questionaram a respeito do livro digital ser 30% mais barato do que um livro impresso, seja por conta própria ou através de terceiros. Afinal, de onde veio esta conta mágica dos 30%? O que ela representa? Por que esse é o padrão do mercado?

“Oras, porque a produção do e-book tem menos gastos que a do impresso!”

Vamos começar pelo fato de que ninguém que vende um produto o apresenta com o relatório de custos e percentual de lucro em anexo para o consumidor ponderar se é justo ou não o valor pago.

Vocês sabem quanto custou a produção do seu iPhone? A margem de lucro dele? Acho pouco provável que saibam e, mesmo que saibam, ainda assim o desejam como produto. Então, não, não aceito essa resposta. E nem você deveria aceitar.

Mas vamos manter o foco: a relação de insatisfação do consumidor em potencial NÃO se dá por conta da diferença de custos em sua produção. O que ocorre é que o e-book surge como um produto novo, ou seja, desconhecido pelo consumidor em potencial; portanto, é papel daqueles que o lançam no mercado tornar claro ao consumidor porque ele precisa daquele produto e quais são os valores agregados ao mesmo.

Isso seria o ideal, mas no mundo real basicamente o que houve foi insegurança com o produto lançado. Insegurança em relação ao que ele significaria para o mercado de livros, como ele o modificaria, como esse produto seria recebido etc. Ao invés de aproveitar o momento de incertezas para direcionar o mercado para uma previsão mais favorável à aceitação do produto, os atuantes do mercado [editoras, livrarias, distribuidoras, bibliotecas] deixaram transparecer sua insegurança, incentivando uma percepção de valor do e-book como produto menor.

Sendo bem direta: o e-book é caro porque ninguém explicou ao leitor qual é a vantagem dessa coisinha maravilhosa que é um ePub. E, portanto, o leitor o comparou com a mídia já conhecida que tinha função semelhante [perceba que usei a palavra semelhante e não igual] – o livro físico. Afinal, se esse é o referencial de quem o produz, como não seria o de quem o compra?

É aí que entramos na questão do posicionamento. Ao colocar o e-book com o preço inferior a 30% do preço de capa de sua versão impressa, o que a editora está dizendo a respeito desse novo produto? Quando surgiram o paperback a mensagem era “livro descartável”, portanto, mais barato. E com os e-books?

Novamente, não vou entrar no mérito de “custo reduzido” porque eu nunca vi marketing feito para diminuir os lucros. Então, não, não acho que foi isso.

Não tenho como saber qual foi de fato a estratégia, pois quando entrei no mercado esses valores já eram vistos como padrão e, mesmo que haja algum questionamento a respeito deste assunto, no geral todos seguem o que está sendo aplicado no mercado.

Mas, se me perguntassem o que eu interpreto dessa iniciativa de redução no preço de capa, eu diria que se relaciona com a necessidade de um investimento inicial na aquisição de um dispositivo que proporcione a experiência de leitura – computador, tablet, celular etc. O posicionamento de preço abaixo da referência do consumidor também o torna mais propenso a testar a nova mídia, o que também é uma lógica de raciocínio válida.

Ok, falamos de posicionamento e preço, mas e os valores?

Estou há dias pensando neste assunto e não consigo responder a esta pergunta. Sei responder quais valores o e-book possui para mim [mobilidade, facilidade, bolsa mais leve, leitura noturna etc.], mas quais são os valores que o mercado transmite para este produto? Raramente se vê uma campanha de livro digital que não se concentre em promoção de preço e sim em valores. E isso depõe contra o produto, pois parece que nem quem produz os e-books considera que este produto tem seu valor.

O discurso de que o e-book custa menos para ser produzido muito provavelmente chegou aos leitores através de pessoas relacionadas ao negócio do livro, que acreditavam que sim, esse produto valia menos. Perceba, utilizei o verbo valer e não custar, porque no final o que faz um produto ser caro ou barato é a percepção de valor atribuída para aquele produto em específico.

Antes da Amazon, da Apple, do Google e da Kobo, as editoras brasileiras já produziam livros digitais e os disponibilizavam por meio das livrarias nacionais, mas foi só após a entrada dessas estrangeiras que o mercado verdadeiramente se estruturou e passou a compreender e-book como produto. O problema é que o leitor já tinha entendido que existia o e-book e viu que o mesmo estava sendo desprezado por aqueles que o produziam e o distribuíam. Se quem quer vender não acha lá grande coisa, porque eu, consumidor, deveria achar que esse produto vale algo?

Bom, acho que agora você deve estar pensando: é, agora nos resta abaixar para o preço que o consumidor considera justo [ou que eu acho que o consumidor considera justo, também conhecido como R$9,90 ou pechincha]. E lá vou eu discordar de você, porque eu sou assim, teimosa. Mas além de teimosa eu sou uma leitora de livros digitais e eu verdadeiramente acredito que o e-book tem seu valor e seu espaço no mercado. Já vi, muitas vezes, pessoas mudando de opinião a respeito de e-books depois de superarem preconceitos. Portanto, o que eu gostaria de deixar com este texto é um questionamento para vocês, responsáveis pelo marketing de e-books. Na próxima campanha elaborada para divulgar livros digitais, pense com carinho: qual é o valor que está sendo atribuído ao seu produto? Não se enganem, o consumidor não é sensível só a preço.

Lúcia ReisPor Lúcia Reis | Publicado originalmente em Colofão | 10/06/2015

Lúcia Reis é formada em Letras: Português/Literaturas, pela Universidade Federal Fluminense, trabalha com livros digitais desde 2011 e hoje atua como Coordenadora de Livros Digitais na editora Rocco. Como todo bom leitor compulsivo, tem mais livros do que a prateleira comporta, e possui muitos mais em sua biblioteca virtual! Lê e-books todo dia no trajeto para casa, ao som de sua banda favorita, Thin Lizzy.

Pense nos detalhes


Por Josué de Oliveira | Publicado originalmente em COLOFÃO | 1 de abril de 2015

O diabo, como dizem, mora nos detalhes. Naquelas coisas pequenas nas quais – pensamos, um tanto inocentes – ninguém vai reparar.

Em se tratando de e-books, há uma vasta gama de moradas possíveis. Já falamos sobre algumas: as variações de visualização entre plataformas, as gradações de cor numa capa, como adaptar títulos, formas de lidar com páginas de crédito de imagens… Não são questões que saltam aos olhos logo que se pensa sobre o todo da produção, mas estão lá e se impõem a qualquer desenvolvedor de e-books.

Vou falar sobre outra, agora –, para que fique ainda mais claro — , e vou usá-la para ilustrar um ponto que julgo importante:

Remissões

As remissões são trechos de um livro que fazem referência a outros trechos, anteriores ou posteriores, do mesmo livro. As formas como se apresentam podem variar muito.

Por exemplo, digamos que, num livro de não-ficção, o autor faça referência a um conceito apresentado na página 125. Ou que relembre o que disse no subtópico X do capítulo Y. Pode ser que a referência seja bem direta (“Ver página X” ou “ver nota 45?), pode ser que não.

O que o desenvolvedor e-book tem nas mãos aqui é uma questão semelhante a das notas e dos créditos de imagens: há um local sendo apontado e o leitor precisa chegar a ele. Como proporcionar isso?

Questão semelhante, resposta idem: links.

(Sim, sei que soa repetitivo, mas esse é um trabalho que depende muito de rotinas e práticas bem definidas. Soluções que abrangem mais de um problema são suas melhores amigas, então nunca é demais enfatizá-las.)

Num livro impresso, a reação de um leitor que queira seguir a indicação apresentada é voltar ou avançar até a página, tópico ou capítulo que é remetido. No e-book, simplesmente manter como está não faz sentido, tanto por uma razão negativa quanto por uma positiva.

A negativa: o número da página no livro impresso perde o sentido no meio digital; será uma informação inútil para o leitor. A positiva: o formato permite um tipo de movimentação pelo livro, através dos hiperlinks, que o impresso é incapaz de proporcionar. Trata-se, portanto, de uma questão de evitar as limitações e exaltar as potencialidades.

De que forma isso pode ser feito? Bem, vou dar apenas um exemplo, o da Intrínseca, onde trabalho. Quando há referências a outras páginas, substituímos o texto original por um que indique a presença do link.

Ver página X –> Ver aqui;

Ver nota Y –> Ver aqui;

Ver tópico XY ou

Como vimos no ponto Z… ou

Veja na nota XXX –> Ver tópico XY / Como vimos no ponto Z / Veja na nota XXX

Como dá para notar, o sublinhado é o elemento de destaque, chamando a atenção para o link.

Nosso padrão é esse. Referências com outro tipo de configuração são analisadas caso a caso, mas é pouco provável que se afastem deste princípio geral.

Voltando aos detalhes

O ponto que quero ilustrar é justamente este: por menores que sejam, não se pode fugir destas questões. Elas sempre estarão ali, e saber resolvê-las pode ser a diferença entre oferecer uma experiência razoável e uma muito boa.

O que me ajuda a estar pronto para lidar com alguns desses detalhes é ter um manual de estilo, desenvolvido com a ajuda do editorial, em que diversos padrões e soluções são descritos. Outras coisas “pequenas” que este manual contempla: padrão para legendas em encartes de imagens, padrão para lidar com tabelas longas, padrão para lidar com elementos separados por barras, padrão para adaptar com mapas… Um manual para o cotejo do e-book, explicando o que deve ser marcado para futuras correções, também é uma ótima pedida, já que o cotejador pode ficar atento a coisas que você sabe que podem estar lá.

A tentativa é ser o mais amplo possível, pescar cada pequeno detalhe e tentar dar a ele uma solução. O objetivo sempre é oferecer a melhor experiência, mesmo naquilo que passa despercebido.

Josué de Oliveira

Josué de Oliveira

Josué de Oliveira tem 24 anos e trabalha com e-books há pouco mais de dois. Integra a equipe de digitais da editora Intrínseca, lidando diretamente com a produção dos mesmos, da conversão à finalização. É formado em Estudos de Mídia pela Universidade Federal Fluminense. Gosta de ler, escrever, ver filmes esquisitos e curte bandas que ninguém conhece. Tem alguns contos publicados em antologias e um romance policial que, segundo rumores, um dia ficará pronto.

Os títulos no livro digital


POR Joana De Conti | Publicado originalmente por COLOFÃO | 19 de novembro de 2014

O texto desta semana vai tratar de um assunto aparentemente simples, mas que muitas vezes apresenta desafios bastante interessantes para a produção do livro digital: os títulos dos capítulos. Sem dúvida a primeira imagem que evocamos quando falamos do assunto é a reunião de algumas poucas palavras centralizadas e no topo de uma página, escritas em caixa alta e com um tamanho de fonte maior do que o do corpo do texto. Muitas vezes este padrão é modificado e/ou decorado com imagens, o que pode tornar o livro mais atraente e agradável de ser lido. Entretanto, são nestas variações de diagramação que residem os desafios para a produção do livro digital. Neste texto pretendo apresentar três possíveis modelos de título e as respectivas soluções apresentadas ao se produzir a versão digital de cada um deles.

1. Títulos alternados entre o lado direito e esquerdo das páginas

Para fazer uma correspondência com o lado do livro no qual o capítulo começa, que por vezes pode se alternar entre os números pares ou ímpares de página, o título é alinhado também em alternância entre os lados esquerdo e direito, como no exemplo abaixo.

Para a versão digital destes livros eu escolho alinhar o texto apenas de um lado, já que os aparelhos de leitura de modo geral não possuem o formato de página dupla e, portanto, os capítulos começam sempre no mesmo ponto.

 

Nas imagens acima há uma segunda característica que precisa ser respeitada e adaptada: a existência de uma imagem decorando o título. Seguindo o meu padrão de adaptação, coloquei a imagem sempre ao lado esquerdo do título, diminuindo-a de tamanho para que ficasse posicionada corretamente em relação ao texto.

2. Títulos grandes

Por conta dos possíveis adornos ao redor do título ou mesmo pelo tamanho deste, algumas vezes os títulos podem ocupar um
espaço grande no início do capítulo, chegando a tomar 50% da página do livro. Ao transpor isto para um aparelho de leitura pequeno, como um celular, pode tornar a leitura e visualização bastante incômodas. O título pode, inclusive, acabar ficando dividido entre várias páginas. Sugiro, nestas situações, quebrar o HTML do capítulo, separando o título do texto. Assim não haverá, por exemplo, a chance de termos uma página visualizada apenas com o título e uma linha solitária de texto no final da página.

 

3. Proporção desarmônica entre imagem e texto no título

Como é possível ver no exemplo abaixo, às vezes o título aparece inserido numa imagem que ocupa um espaço bem maior do que o texto. A solução mais óbvia seria colocar a imagem como fundo [usando para isso a propriedade background-image], deixando o texto escrito por cima dela. Porém as chances de isso apresentar erros e o texto se deslocar para fora da imagem em muitos dos aparelhos de leitura é grande. Nestes casos o ideal não é óbvio. O mais correto seria manter o texto como imagem, adaptando o seu tamanho para que ele fique maior e mais encorpado. Deste modo, o título continuará legível se a imagem for redimensionada e reduzida para se adaptar às diferentes telas.

Como é possível notar, nenhum destes modelos apresenta problemas na versão impressa. São propostas de diagramação que enriquecem o livro e dialogam com o conteúdo do texto de maneira fluída e orgânica. É importante, ao desenvolver o projeto da versão digital do livro, pensar neste diálogo e buscar soluções que o preservem, mesmo que para isso seja necessário fugir um pouco do projeto gráfico do livro impresso. Adaptações bem pensadas tornam o livro tão atraente na versão impressa quanto na digital, até mesmo quando surgem diferenças notáveis entre elas. Estudar a primeira para desenvolver a segunda é fundamental, assim como consumir livros nos dois formatos, analisando as soluções encontradas para cada desafio que se apresentou à produção de ambos.

POR Joana De Conti | Publicado originalmente por COLOFÃO | 19 de novembro de 2014

“O que fazer, então?”, indagou o editor


Ok, acho que já deixei bem claro que o editorial precisa se envolver com o setor de e-books. Agora vamos começar a pensar em como você pode mudar a sua rotina para inserir os livros eletrônicos nela.

ATENÇÃO! Este post está sob a perspectiva de uma pessoa que trabalha sobretudo com livros de literatura de massa: capa 4/0, miolo preto e branco, essas coisas. Se você tem necessidades de adaptação diferentes [trabalha com didáticos, acadêmicos, livros para nichos muito específicos], colabore com essa discussão! Mesmo que você não consiga escrever um post inteiro, só de nos falar da sua rotina e o que te desafia ou intriga com e-books já é um bom passo para chegarmos juntos a conclusões que facilitarão a vida de todo mundo. [:

Quando o editorial manda um livro para a produção gráfica, geralmente algumas coisas já foram conversadas e acertadas entre os dois lados. A capa terá alguma cor especial? Que acabamento usaremos? O livro está fechando caderno? Será necessário buscar uma gráfica que faça cadernos de tamanhos menores? O miolo tem cores? Alguma imagem sangra? Se você está há algum tempo no mercado, tenho certeza que o procedimento para cada questão já veio à mente no automático. Na verdade, várias editoras já têm alguns padrões predefinidos que agilizam boa parte das respostas. “Só fechamos cadernos de 16 páginas”, “imagens sangrando exigem 3 mm além da marca de corte”, “projetos coloridos deverão ter provas de cor ao longo do processo”.

O e-book também tem algumas questões que precisam estar delineadas antes que a produção do livro continue no setor responsável por essa parte. Aos poucos, seremos capazes de pensar em procedimentos de maneira tão automática quanto para o impresso. No entanto, agora é a hora de experimentar. O que é mais desafiador na sua editora? Dentro de um projeto específico, o que deve obrigatoriamente ser fiel em ambos os suportes? Do que se pode abrir mão na hora da adaptação? Existe algum elemento no livro que possa gerar problemas em alguma plataforma?

Deixo aqui uma sugestão de lista de elementos que, desde a preparação do texto e escolha do projeto gráfico, devem estar na mente do editor que verá seus livros publicados nos dois formatos. São eles:

– Há elementos em cores no livro? Eles são determinantes a ponto de atrapalhar a leitura em dispositivos de eInk [só preto e branco]? Caso sejam, é possível demarcar esses trechos de outra forma ou é melhor inserir um aviso indicando que a obra é melhor visualizada em telas coloridas?

– A tipografia é importante? Há variações na fonte, na entre letra ou na entrelinha que são propositais e devem ser reproduzidas? Nesse caso, vale avisar ao setor de e-books e ao responsável pela revisão do arquivo, já que não é tão simples reproduzir essas nuances e alguns dispositivos sequer interpretam as informações relativas às escolhas tipográficas originais.

– Há ilustrações no livro? Gráficos? Tabelas? É possível ler as informações nessas imagens em smartphones? Recomendo uma olhada rápida em alguns posts: o da Joana sobre imagens em e-books e um do blog da Cosac, sobre a outra opção de transformar as tabelas muito longas em texto corrido, como listas. Perde-se a formatação, mas é mais fácil visualizar o conteúdo. Também vale ressaltar que as ilustrações que sangram no impresso devem ser cortadas para ficar com as medidas exatas da visualização correta.

– Como as quebras narrativas foram demarcadas? Asteriscos? Pequenas ilustrações? Um espaço maior entre os parágrafos e a primeira linha sem indentação? Em alguns casos, isso pode ser um ponto confuso no e-book. Por exemplo, há editoras que colocam um símbolo gráfico quando uma quebra narrativa calha com o final ou o começo de uma página, mesmo que no resto do livro só haja espaço. No e-book essa medida perde o sentido, já que a fluidez do formato não permite saber em que ponto da tela ficará a quebra. E então? Vale adicionar um símbolo em todas as quebras ou, ao contrário, removê-las?

– O livro inclui referências internas? E com isso vou além de notas de rodapé ou no final do volume: há alguma referência a um capítulo anterior, ou uma imagem que já foi citada? Pode ser interessante criar hiperlinks para que o leitor possa “navegar” pelo livro com mais facilidade. Mas esteja atento à necessidade de retomar a leitura do ponto onde foi interrompida com facilidade. Às vezes esse recurso pode deixar a leitura mais confusa que explicativa. Acredito que a não linearidade é uma propriedade muito interessante e mal explorada nos livros eletrônicos.

Novamente, essas são só algumas sugestões e não cobrem as necessidades de todos os tipos de publicações. Claro que você não precisa inserir essas mudanças no livro diagramado, mas só de redigir um pequeno relatório apontando onde a produção do e-book poderá encontrar problemas e possíveis soluções já contribui para um trabalho mais eficiente e agradável para o leitor. A partir do momento que as rotinas estiverem mais bem definidas, será mais fácil inclusive criar projetos nativos do digital.

Escrito por Mariana Calil | Publicado originalmente em COLOFÃO | 5/11/2014

Mariana Calil

Mariana Calil

Mariana Calil é formada em Produção Editorial na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Passeou pela produção gráfica, fez uma breve visita ao comercial e hoje é assistente editorial. Vive a utopia de que dá para trazer para o mercado a teoria da faculdade e levar para a academia a prática do cotidiano.

Dicas de prepraração de eBooks para Amazon


POR Lúcia Reis | Publicado originalmente por COLOFÃO | 29 de outubro de 2014

No processo de produção de livros digitais, como já mencionado anteriormente, nem sempre a mesma linha de código terá uma mesma visualização nos diferentes aplicativos e dispositivos de leitura. No caso da Amazon, no entanto, não estamos lidando só com uma questão de renderização diferente dos códigos: se trata de outro formato de livro digital com diferentes potencialidades e limitações. Dessa forma, o processo de produção do livro digital para a Amazon acrescenta algumas etapas que não são necessárias para a venda nos demais players.

Neste post, resolvi enumerar as algumas questões que podem surgir e tentar explicar através delas o padrão utilizado pela Amazon.

1. Table of Contents [TOC]:

1.1] HTML de TOC

Nos ePubs nós temos um arquivo toc.ncx que serve como um sumário navegável que pode ser acessado através de um atalho do app de leitura ou e-reader. Como no formato da Amazon esse arquivo não consegue criar mais de 2 níveis hierárquicos [ou seja, é possível ter capítulos e subcapítulos, mas, se for aberto um subcapítulo do subcapítulo, esse link é perdido no toc.ncx da Amazon], se faz necessária a criação de um HTML de sumário, com a mesma função do toc.ncx.

1.2] Ordem de elementos no toc.ncx:

Mesmo após a criação deste HTML, o arquivo toc.ncx ainda precisa existir. No processo de conversão, se este arquivo estiver mal formatado, é possível que apareça o seguinte relatório de erro no Kindlegen:

Error(prcgen):E24011: TOC section scope is not included in the parent chapter:1: GENEALOGIA PATERNA
Error(prcgen):E24001: The table of content could not be built.
(…)
Warning(prcgen):W14001: Hyperlink not resolved: /tmp/mobi-fy53Lm/OEBPS/Text/chapter03.html#ch3
Warning(prcgen):W14002: Some hyperlinks could not be resolved.

Este relatório acontece quando a indicação dos elementos do toc.ncx não está seguindo a ordem de leitura dos HTMLs que formam o miolo.

Para explicar este caso específico, preciso antes explicar a relação entre HTMLs, ids e links dentro dos e-books. O texto do e-book está dividido em diversos arquivos HTML. Digamos que cada HTML contenha um capítulo de seu livro. No entanto, é possível que, dentro deste capítulo, existam subcapítulos, os quais são importantes de serem linkados no seu sumário. Os links de sumário geralmente apontam para um HTML. No exemplo selecionado, ele está apontando para o capítulo 3, que está no HTML chapter03.html. Para apontar para subcapítulos, é necessário criar um link, identificado pela tag <a>, que possui um identificador ou idpara que seja possível criar um link apontando para aquele exato ponto no HTML.

No exemplo, foi criado um id=”ch3? para marcar a subdivisão do chapter03.html.

Todo id está atrelado a um HTML, o que faz com que o id seja inferior hierarquicamente ao HTML. No relatório de erro do Kindlegen acima, essa hierarquia foi quebrada, tornando impossível de se criar o TOC. Para resolver este problema, basta utilizar o programa Sigil e seguir o caminho Tools > Table of Contents > Edit Table of Contents e inverter os links de ordem: primeiro o chapter03.html e depois o chapter03.html#ch03 e demais identificadores, na ordem em que aparecem no HTML, para que a hierarquia e a ordem de leitura sejam mantidas.

2. Semânticas

2.1] Capa

O formato da Amazon também não suporta a capa em formato HTML. Ele indica a capa apenas pelo arquivo de imagem. Para conseguir fazer isso corretamente, ele precisa que o arquivo .jpg de capa seja indicado com a semântica “Cover”, ou o Kindlegen dará o seguinte Warning:

Warning[prcgen]:W14016: Cover not specified

Para acrescentar semânticas pelo Sigil, basta clicar no arquivo que você deseja acrescentar a semântica, clicar com o botão direito do mouse e clicar em Add Semantics e selecionar, no caso, “Cover Image”.

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2.2] Texto

Outra semântica importante de ser acrescentada é a “Text”, que marca o início do texto. Quem usa o Kindle já percebeu que geralmente, quando se abre um livro nele, ele já inicia no primeiro capítulo. Esse recurso é possível pelo acréscimo desta instrução. O problema é que, se o editor não marcar a semântica de texto, o Kindle marca automaticamente o primeiro HTML com mais de algumas poucas linhas de texto. Ou seja, qualquer elemento pré-textual, como dedicatórias ou epígrafes, podem ser perdidas, uma vez que dificilmente o leitor vai voltar para ver se não tinha nada antes do primeiro capítulo. Portanto, é recomendado adicionar esta semântica para se certificar que informações importantes [e sim, epígrafes são importantes] não sejam perdidas.

Para adicionar semânticas nos HTMLs, basta seguir o mesmo caminho utilizado para o .jpg de capa. No caso dos HTMLs aparecerão mais opções, como é possível visualizar na imagem acima.

2.3] TOC

É necessário também adicionar a semântica de “Table of Contents” no HTML de TOC. Quando criado pelo Sigil, a semântica já é acrescentada automaticamente, mas, de todo modo, é bom checar. Senão o link de sumário que existe nos Kindles fica inativo e, surpreendentemente, o Kindlegen não mostra Warning quando a semântica de TOC não está indicada.

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3. Media Queries

A media query é um recurso de formatação direcionada. Você basicamente diz ao seu e-book: se estiver lendo numa tela de celular, mostre meu texto com a formatação x, mas se for num tablet, mostre ele com a formataçãoy. Se você tiver sorte, ele te obedece, mas nem sempre é o caso.

Antigamente eu utilizava media queries para retirar as capitulares dos e-books da Amazon, pois o recurso float: left, que deixa a capitular flutuando à esquerda, fazia a linha quebrar na primeira letra nos Kindles antigos, que não suportavam o recurso. Este problema já foi corrigido e não ocorre mais quebra de linha; no entanto, nos Kindles que suportam float, as capitulares são visualizadas de forma muito diferente do que nos demais e-readers e apps.

Pelos testes que fiz, deduzi que o problema é uma diferença no line-height, que indica o alinhamento do texto e/ou da capitular. Modificando o line-height da classe de capitular é possível fazê-la funcionar adequadamente nos diferentes dispositivos de leitura. O que é uma saída mais confíavel do que a media query.

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Apesar do Guidelines da Amazon apresentar a media query como opção, meus testes mostraram que, na prática, o que ocorre atualmente é uma mescla do que está no código principal com o indicado na media query, ao invés de utilizar somente o código direcionado especificamente para o formato da Amazon. Como é possível ver na imagem abaixo, ele manteve a formatação em float, mas acrescentou a informação de bold, contida na media query.

Conclusão

Bom, acho que a conclusão é a mesma de sempre: é muito importante testar os arquivos, por mais que pareça que não há nada que possa dar errado com aquele livro de texto simples. Nunca se sabe quando o arquivo pode apresentar problemas inesperados ou quando atualizações de firmware criaram um novo bug que você nunca viu antes. Teste sempre, é mais seguro.

POR Lúcia Reis | Publicado originalmente por COLOFÃO | 29 de outubro de 2014

Lúcia ReisLúcia Reis é formada em Letras: Português/Literaturas, pela Universidade Federal Fluminense, trabalha com livros digitais desde 2011 e hoje atua como Coordenadora de Livros Digitais na editora Rocco. Como todo bom leitor compulsivo, tem mais livros do que a prateleira comporta, e possui muitos mais em sua biblioteca virtual! Lê e-books todo dia no trajeto para casa, ao som de sua banda favorita, Thin Lizzy.

Dicas de marketing digital para tornar seu eBook visível


POR Marina Pastore | Publicado originalmente por  COLOFÃO | 22 de outubro de 2014

No maravilhoso mundo dos livros impressos, existe um conjunto de ações que já são rotina quando se trata do marketing de determinado título: noites de autógrafo, anúncios, envio de provas a jornalistas, contato com blogs, negociação de espaço em livrarias, enfim. Já no mundo dos e-books, as práticas ainda não são tão rotina assim: afinal, quando se trata de um lançamento em formato impresso e digital, presume-se que as ações planejadas para o primeiro sirvam também para divulgar o segundo; quando se trata de um título lançado exclusivamente em e-book, nosso mercado ainda pequeno torna difícil justificar um investimento razoável. No primeiro caso, é mesmo importante que as equipes de marketing e vendas do impresso e do digital trabalhem em conjunto, divulgando a obra e o autor independentemente do formato [especialmente quando o livro é lançado simultaneamente em e-book]. No segundo, temos um problema.

Como eu repito basicamente em todo post [desculpem!], embora seja mais fácil tornar um e-book disponível [no sentido de que a livraria não precisa decidir quantos exemplares de quais títulos ela vai ou não estocar], torná-lovisível é sempre um desafio. Numa livraria física, depois que passa o esforço de divulgação que acompanha o lançamento, um livro costuma sair das pilhas de destaque nas mesas da frente da loja e ir passando para lugares cada vez menos nobres, até chegar ao seu cantinho na prateleira – onde só sua lombada fica visível, mas ele ainda pode ser descoberto por alguém que esteja casualmente passando os olhos por lá. Já numa livraria virtual, se um livro não estiver na [concorridíssima] página inicial, com a exceção de ações pontuais [como newsletters, em geral ligadas a descontos], o leitor tem basicamente três jeitos de chegar até ele: buscar especificamente pelo autor ou título, vê-lo na seção de obras relacionadas a outro livro ou navegar em certa categoria e acabar se deparando com ele.

Vamos examinar estas possibilidades. A primeira, levar as pessoas a procurar o seu livro, é o cenário ideal. Aqui, a chance de conseguir um cliente realmente interessado – e não necessariamente motivado apenas pelo preço – é maior. Porém, o investimento necessário também é maior, já que, é claro, o leitor precisa ouvir falar do livro por outros meios antes de buscá-lo. Neste ponto, ações online [posts em redes sociais, booktrailers, resenhas em blogs] têm certa vantagem por já estarem no ambiente onde a busca será feita: abrir uma nova aba para fazer a busca é bem mais imediato do que, por exemplo, ver um anúncio numa revista impressa e pensar em procurar aquele livro mais tarde. Mas nem por isso as mídias tradicionais devem ser esquecidas: o fato de a própria Amazon ter uma seção do site [ainda que meio escondida] dedicada a livros que apareceram em jornais e revistas é um sinal de que elas têm pelo menos algum impacto sobre as vendas.

Sobre o segundo ponto, vou ter que voltar à minha obsessão e falar de metadados [desculpem! [2]]. Hoje em dia, bons algoritmos encontram obras relacionadas não apenas calculando quais itens foram mais comprados juntos, mas também avaliando quais têm temas em comum, quais estão na mesma categoria, quais são do mesmo autor, enfim. Por isso as palavras-chave [pertinentes, ok? Não adianta colocar “Cinquenta tons de cinza” nas palavras-chave de tudo só para ser popular] e as categorias são tão importantes. Na hora de defini-las, é sempre bom fazer uma busca pelos termos nas livrarias para ver o que aparece. Na dúvida entre duas palavras-chave ou categorias, a dica é ver quais livros aparecem em cada uma. Entre quais outros livros você quer que o seu livro esteja? Parece um detalhe, mas é uma ferramenta de marketing poderosa no ambiente digital.

Nem sempre funciona, mas tudo bem

Nem sempre funciona, mas tudo bem

Por fim, vamos à terceira possibilidade: a de um cliente que não saiba exatamente o que quer e por isso faz uma busca mais genérica ou vai navegar pelos livros de determinada categoria. Para que o seu livro tenha mais chances de ser escolhido nesta situação, ele precisa de: 1] um bom título, 2] uma boa capa [adaptada para o digital, se necessário/possível] e 3] de preferência, estar entre os primeiros resultados – quer dizer, a página 37 de cada categoria certamente é menos visualizada do que a 1. Aqui temos uma bela de uma questão Tostines [o livro vende mais porque está em destaque ou está em destaque porque vende mais?], mas é possível dar uma ajudinha com bons metadados [de novo. Desculpem! [3]] e ações de marketing mais pontuais. Em primeiro lugar, é claro que nem todos os livros permitem isso, mas, em geral, é bom escolher a categoria mais específica possível por causa do seguinte:

Vejam que o livro ganhou uma bela faixinha de primeiro lugar, mesmo estando nesta posição só dentro de uma categoria menor – é possível que ele nem estivesse tão bem no ranking geral de mais vendidos, mas o fato de estar no topo de uma categoria diz algo ao leitor [e ao todo-poderoso algoritmo]. Sobre ações pontuais, aqui entram os descontos, que encaro como uma ferramenta de marketing justamente por isso: mesmo que o desempenho do livro não melhore tanto assim, qualquer venda a mais gerada no período da promoção não só ajuda na divulgação do título naquele momento, mas também pode fazer com que ele se torne mais visível mesmo depois de voltar ao preço normal. Num caso mais ousado, disponibilizar um livro gratuitamente por um período curto funciona ainda melhor para isso – especialmente se ele fizer parte de uma série, incentivando o leitor a conhecê-la e depois, se gostar, comprar os próximos volumes.

Esta última estratégia serve para ilustrar um ponto importante: oferecer algum tipo de conteúdo gratuito tem se tornado especialmente relevante para a estratégia das editoras [que, afinal, precisam se diferenciar justamente pela qualidade do conteúdo que produzem]. O marketing digital vai além de fazer perfis nas redes sociais e publicar posts chamando para a compra dos seus livros o tempo todo; é por isso que é cada vez mais comum que editoras não só divulguem o conteúdo de revistas, jornais, blogs e outros sites, mas também mantenham seus próprios blogs com textos que nem sempre são diretamente relacionados aos livros que publicam. Este é um trabalho constante de construção de marca, que, se bem feito, facilita e fortalece qualquer outra ação de marketing que venha depois.

POR Marina Pastore | Publicado originalmente por COLOFÃO | 22 de outubro de 2014

Marina Pastore

Marina Pastore

Marina Pastore é jornalista formada pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Descobriu os e-books ainda na faculdade, em 2011, e foi amor ao primeiro download. Vem trabalhando com eles desde então, integrando o departamento de livros digitais da Companhia das Letras. Seu maior orgulhinho profissional foi ver toda a obra de seu autor preferido e muso inspirador, Italo Calvino, disponível em formato digital. Sua vida é basicamente um grande episódio de Seinfeld, mas com menos sucrilhos e mais [muito mais] gifs animados.

Os bastidores do eBook


Interessados no processo de produção de livros digitais terão, a partir de segunda, uma nova fonte de informação: o blog Colofão [www.colofao.com.br]. Lá, serão publicados textos de profissionais que trabalham com e-books dentro das editoras brasileiras como Antonio Hermida [Cosac Naify], Joana De Conti e Lúcia dos Reis [Rocco], Josué de Oliveira [Intrínseca] e Marina Pastore [Companhia das Letras].

*

Aqui ou no exterior, a discussão acerca do livro digital é quase sempre feita por especialistas que não participam do dia a dia das editoras – e por isso a iniciativa do Colofão é ainda mais bem-vinda.

Por Maria Fernanda Rodrigues | O Estado de S. Paulo | 22/02/2014