Brasil ganha mais dois concorrentes na gestão de metadados


CBL anuncia, na Bienal do Rio, a Books in print, ligada à Frankfurt; e Eduardo Blucher lança a ferramenta Mercado Editorial

Metadados: o nó no mercado editorial que começa a ser desatado | © www.mercadoeditorial.org

Metadados: o nó no mercado editorial que começa a ser desatado | © http://www.mercadoeditorial.org

Não raro, os colunistas do PublishNews apontam que um dos maiores gargalos do mercado editorial brasileiro é, ainda, a gestão de metadados. Em 2011, por exemplo, Camila Cabete escreveu: “publicar um livro sem metadados é como ter um filho e não dar nome ao coitadinho”. Em 2012, ao participar do debate “Dilemas e conflitos do mercado editorial”, na Bienal de SP, Felipe Lindoso creditou à falha gestão dos metadados o problema da “descobertabilidade”: “o livro brasileiro não é achado, é patético descobrir algo que você não conhece em uma livraria”. Mais recentemente, o colunista voltou ao assunto ao escrever, em março passado: “o pior é que as editoras brasileiras simplesmente mal sabem o que são metadados, não têm ideia de como incluir tags significativos do conteúdo de seus livros”. O assunto, então, deixou de ser apenas a pauta das discussões e passou a fazer as engrenagens do mercado rodarem. Do início de 2014, para cá, o PublishNews noticiou a chegada da Bookwire, que, além da distribuição, faz também a otimização de metadados, e a mudança no modelo de negócios da Digitaliza Brasil que também passou a prestar o serviço. Em 2015, noticiamos a criação da Ubiqui, plataforma que promete reduzir custos com metadados em até 70%. Mais recentemente, a Bookpartners lançou o Portal do Editor, ferramenta pela qual editores podem revisar e atualizar produtos já cadastrados no sistema da holding. Agora, para os próximos dias, duas novidades prometem dar mais força a esse mercado. É que, ainda em agosto, Eduardo Blucher promete colocar no ar o Mercado Editorial e, no dia 2 de setembro, a CBL e a MVB [empresa coligada à Feira do Livro de Frankfurt] anunciam a chegada do serviço Books in Print Brasil.

Os serviços têm em comum um painel de controle por onde editores fazem o upload das informações dos seus livros e as ferramentas padronizam conforme as necessidades de cada um dos varejistas. A Books in print Brasil leva a chancela da MVB, subsidiária da Associação de Editores e Livreiros Alemães, e tem mais de 40 anos de experiência na Alemanha. A vinda da empresa para o Brasil é fruto da parceria entre CBL e a Feira do Livro de Frankfurt, que apresentaram, no começo da semana passada, o projeto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social [BNDES]. O modelo de negócios da nova empresa no Brasil ainda está em discussão. Na Alemanha, editores pagam por títulos cadastrados e distribuidores, atacadistas e quem quiser os metadados pagam por uma assinatura que varia de acordo com o tamanho da empresa. Os principais clientes lá na Alemanha são: Amazon, Nielsen, GfK e Bookwire. “O trabalho conjunto da Feira do Livro de Frankfurt com a MVB, em parceria com a CBL, vai trazer para o Brasil a mais completa e moderna plataforma de metadados do mercado. Um grande diferencial que a nossa plataforma tem é o uso de algorítimos que garante uma inteligência ao nosso banco de dados. Isso mantém o padrão de entradas, o que dá mais qualidade ao metadado cadastrado”, afirma Ricardo Costa, representante da Feira do Livro de Frankfurt no Brasil. A previsão é que a empresa comece a operar dentro de um ano.

No caso da Mercado Editorial, o serviço de disparo de metadados será gratuito. Eduardo Blucher disse ao PublishNews que estuda cobrar por serviços avançados. “Optamos pelo modelo freemium nesse primeiro momento. Nem editoras e nem livrarias pagarão pelo serviço. Após lançada a plataforma, vamos testar com o mercado as formas de cobrar pelo serviço”, aponta. Blucher prevê o início das operações ainda no mês de agosto.

ISBN
O projeto da CBL prevê que o Books in print seja, além de uma plataforma de gestão de metadados, também a entrada nos cadastros de ISBN no Brasil. Caso o projeto ande, as editoras farão o input dos dados pela plataforma que se responsabilizará pela inscrição dos metadados na Biblioteca Nacional. “É assim que funciona na Alemanha. É uma experiência já consagrada”, aponta Luis Antonio Torelli, presidente da CBL. Outros projetos já foram iniciados pela Câmara, mas sem grandes sucessos, lembra Torelli. “Há alguns anos, os espanhóis cederam uma plataforma que acabou não funcionando. Abandonamos o projeto. A obsolescência de projetos assim é muito grande. A atualização constante do serviço está no DNA da empresa alemã. A pergunta que devemos nos fazer é: vamos continuar tentando ou vamos partir para uma experiência já consagrada? Não podemos errar de novo”, define Torelli.

O Books in print será apresentado oficialmente no dia 2 de setembro, das 15h às 17h30, no Hotel Grand Mercure [Av. Salvador Allende, 6.555 – Rio de Janeiro/RJ]. Na ocasião, Ronald Schild, CEO da MVB, vai apresentar a ferramenta. Segundo disse Torelli ao PublishNews, o CEO fará também uma reunião com a Fundação Biblioteca Nacional para apresentação do projeto e das possibilidades de integrar a plataforma ao serviço de cadastro do ISBN. Para a apresentação do dia 2, é necessário confirmar presença pelo e-mail eventos@cbl.org.br até o próximo dia 28.

Por Leonardo Neto | Publicado originalmente em PublishNews | 24/08/2015

Por que amamos as distribuidoras digitais


Por Camila Cabete | Publicado originalmente em PublishNews | 15/07/2015

Estamos em um momento bem engraçado, no mercado de e-books brasileiro. Por um lado, o mercado inteiro sentindo o peso da crise, o peso dos cortes das compras governamentais [livros físicos]. Por outro lado, as vendas dos e-books estabilizaram e apresentam um leve crescimento. Claro que o valor da venda digital vem sem as agruras dos estoques e dinheiro empatado em consignação. Mas acho que este assunto é velho e nas colunas anteriores gastei muitos teclados ao tentar explicar o quanto o digital pode ser “salvador”. Vamos voltar ao hoje.

O quadro é bem interessante: mais de 40 mil e-books publicados e sendo comercializados, as plataformas de autopublicação bombando, as grandes editoras lançando simultaneamente em diversos formatos [até em áudio]. Dentro das editoras as coisas não mudaram muito… O “setor digital” continua contando com uma ou duas pessoas. Algumas editoras até eliminaram esta figura misteriosa da folha de pagamentos, com intuito de distribuir as funções entre os funcionários “normais” da organização.

Como as pessoas que me conhecem sabem, e as que me leem também, sou otimista. Estas mudanças já eram esperadas e seguem um curso natural de arrumação nas editoras. O e-book não deve ter um tratamento diferenciado e isolado. Mas com as saídas das pessoas responsáveis fica um grande vácuo operacional, sentido principalmente por nós, livreiros digitais.

O dia-a-dia digital não é mega ultra fácil: precisa de acompanhamento di-á-rio. Só para citar algumas das responsabilidades ao se administrar um acervo digital, temos a subida do conteúdo [epub, capa e metadados], atualização de preços, agendamento de promoções e ações, consertos de arquivos defeituosos, agendamento de pré-venda… Isso tudo multiplicado pelo número de lojas que você atende. É aí que entram as queridas figuras dos distribuidores digitais. As editoras que não possuem uma força tarefa, ou precisam de uma curva de aprendizado da equipe para este novo produto, por favor, pense com carinho nas distribuidoras. Hoje contamos com nomes nacionais e internacionais, que vieram para somar o negócio. A qualidade dos metadados e dos arquivos melhorou consideravelmente com a ajuda dos distribuidores. Ao contratar o serviço deles, você contrata uma consultoria e um setor responsável para gerir seu acervo digital… E o melhor de tudo, atendendo várias livrarias de uma vez. Eles ajudarão na parte mais chata, que é a operacional, sobrando tempo para pensar no que realmente interessa: vendas, ações de marketing e merchandising, análise de dados com BIG DATA, pensamento em inovação e pesquisa do cliente.

O mercado de digitais, repito pela trocentézima vez, é uma realidade. O setor no educacional continua se arrastando, o operacional das editoras deixa a desejar e o market share das livrarias e editoras tende a se concentrar, mostrando um mercado nada maduro e sustentável. Sem uma administração eficiente do operacional, como crescer? Não tenho a menor autoridade para falar aqui de gestão de negócios, mas tenho aprendido bastante. Mesmo estando no básico nesta disciplina [minha formação e experiência é puramente editorial], já me parece algo totalmente óbvio, porém não óbvio para o nosso mercado.

Quando eu era pequena lá em Barbacena eu achava que os diretores sabiam de tudo… Mas eles são humanos e a criptonita deles é a falta de informação. E os membros da direção que não possuem um canal aberto de informação, são suicidas. Portanto, se você é do setor digital, vê dificuldades e não luta para que esta informação chegue à direção de sua editora, você está cometendo um harakiri e deixando uma granada na empresa, pronta a explodir com baixos resultados, diminuição de market share e zero na nota de inovação. Editoras são empresas como outra qualquer e não é por se tratar de livros que somos especiais e mais inteligentes.

Por Camila Cabete | Publicado originalmente em PublishNews | 15/07/2015

Camila Cabete

Camila Cabete

Camila Cabete [@camilacabete] tem formação clássica em História e foi responsável pelo setor editorial de uma editora técnica, a Ciência Moderna, por alguns anos. Entrou de cabeça no mundo digital ao se tornar responsável pelos setores editorial e comercial da primeira livraria digital do Brasil, a Gato Sabido, além de ser a responsável pelo pós-venda e suporte às editoras e livrarias da Xeriph, a primeira distribuidora de conteúdo digital do Brasil. Foi uma das fundadoras da Caki Books [@CakiBooks], editora cross-mídia que publica livros em todos os formatos possíveis e imagináveis. Hoje é a Brazil Senior Publisher Relations Manager da Kobo Inc. e possui uma start-up: a Zo Editorial [@ZoEditorial], que se especializa em consultoria para autores e editoras, sempre com foco no digital. Camila vive em um paraíso chamado Camboinhas, com sua gata preta chamada Lilica.

A coluna Ensaios digitais é um diário de bordo de quem vive 100% do digital no mercado editorial brasileiro. Quinzenalmente, às quintas-feiras, serão publicadas novidades, explicações e informações sobre o dia-a-dia do digital, críticas, novos negócios e produtos.

E agora divulgadores?


Por Camila Cabete | Texto publicado originalmente em PublishNews | 11/04/2014

E agora divulgadores??

A grande pergunta que não quer calar é: Como divulgar o livro digital? Para mim, consumidora e já totalmente adaptada ao mundo digital desde 2009, não basta ser on line, tem que ser no mundo físico também.

Ninguém até hoje, investiu em divulgação de e-book, “tangibilizando”, ou seja, tornando ele um pouco palpável. Os motivos são inúmeros, a começar por problemas nas lojas por conta de sistemas de cobrança, até por falta de verba, pois a maior parte dela vai para divulgação do livro impresso.

Pensemos: o que você faria caso tivesse uma boa verba, ou mesmo que fosse meio a meio com o livro impresso? Por incrível que pareça a maioria dos setores de divulgação simplesmente não sabe, não conhece o produto e ainda é cheio de preconceitos e paradigmas.

Então por conta disso, aqui vão itens para inspirar nossos marketeiros, divulgadores, vendedores, merchandisers. Resolvi listar curiosidades dos bastidores das lojas digitais [entenda-se Kobo] e também de ideias loucas da minha cabeça, mas que acho possíveis:

– Você já parou para analisar os metadados? Ok ok, assunto velho, e já escrevi aqui muitas e muitas vezes, mas por incrível que pareça, muita gente não sabe como trabalhar com eles, ou melhor, como fazê-los trabalhar. Metadado nada mais é que as informações que você sobe nas lojas a respeito de uma obra. Você sobe sua obra no buraco negro da internet e cada dado que você vai alimentando nos sistemas, é como se fosse uma estrelinha, que aparecerá para a pessoa certa, justamente quando ela precisar [ó que lindo!]. Cada espaço/campo do metadado é valioso para você, ele te ajuda a indexar o seu e-book não só na loja, mas na internet. E qual não é o meu espanto, ao saber que a maior parte dos editores só preenchem os dados obrigatórios. Algumas empresas se superaram e passaram a usar o ONIX para subir os metadados via Excel. E qual não é minha surpresa também ao saber que elas não tem explorado nem um décimo da capacidade das tags de um ONIX. Acho que a parte operacional das editoras têm se desenvolvido bem, agora falta o trabalho de analista, analista de dados, de negócio. Alguém ali pensando em metadados, veja bem, não falo catalogação. São coisas bem diferentes. Você tem que subir o máximo de quantidades possíveis de informação!!! Por favor!!!!

– Você sabia que quantidade de download é poder? Se você tem um e-book de graça e ele tem números bons de download, você pode usar isso a seu favor, ao vender um espaço ou tentar um patrocínio?

– Sabia também que quando um leitor “ganha” um e-book de uma determinada editora, ele fica recebendo novas sugestões de leitura sempre ligadas de alguma forma a sua editora/autor/imprint? Sim meu povo, ao participar de alguma campanha, cedendo um de seus títulos, você está prendendo os leitores a vocês. Dar um livro a uma loja para participar de uma campanha de merchandising não é favor, é empreendedorismo. É como se passasse um laço no pescoço de seu leitor [eita, que grosseria] ou melhor, liga o editor/selo/autor/categoria ao leitor, ao histórico dele, forever!
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– Os espaços nas lojas de e-books não são pagos ainda =] É bem tranquilo conseguir alguma ação sem travar a infinita guerra do jabá.

– Já pensaram em acessórios? Capas de gadgets, com a arte das capas dos livros? Tiragens limitadas de e-book+capa para o Kobo+impresso+código promocional para capturar o e-book? Estamos na era dos acessórios minha gente. Quantas capinhas de celular você tem? Ou quantas tem vontade de comprar? Explore isso, a arte das capas são de vocês, editores [a maioria dos contratos de designer cedem os direitos totalmente]. Eu quero meu acessório com a minha capa de livro preferida!!!!! Capa de livro antropologicamente falando, faz com que você seja inserido no clube de determinada tribo. Você quer [na maioria da vezes] ser identificado pelo seu livro preferido do momento, não?

– Já pensaram em kits digitais de divulgação? Um wallpaper fofo, com um tema de celular, selos de divulgação e artes exclusivas, tudo isso acompanhando o e-book, para o seu blogueiro/jornalista/site preferido?

Poderia ficar páginas e páginas aqui criando coisas para se fazer com o livro digital. Algumas destas ideias já tenho tentado plantar na cabeças das minhas editoras parceiras. Mas tudo depende muito de verba, de importância que a editora dá ao produto digital. Produto este que já é uma realidade mercadológica [as e-bookstores principais, não vendem menos de 150/200 mil exemplares de e-books ao ano, só no Brasil!!!] Se isso não é um mercado aquecido… me digam o que é =]

Dicas, reclamações e sugestões de pauta camila.cabete@gmail.com

Por Camila Cabete | Texto publicado originalmente em PublishNews | 11/04/2014

Camila Cabete [@camilacabete] tem formação clássica em História e foi responsável pelo setor editorial de uma editora técnica, a Ciência Moderna, por alguns anos. Entrou de cabeça no mundo digital ao se tornar responsável pelos setores editorial e comercial da primeira livraria digital do Brasil, a Gato Sabido, além de ser a responsável pelo pós-venda e suporte às editoras e livrarias da Xeriph, a primeira distribuidora de conteúdo digital do Brasil. Foi uma das fundadoras da Caki Books [@CakiBooks], editora cross-mídia que publica livros em todos os formatos possíveis e imagináveis. Hoje é a Brazil Senior Publisher Relations Manager da Kobo Inc. e possui uma start-up: a Zo Editorial [@ZoEditorial], que se especializa em consultoria para autores e editoras, sempre com foco no digital. Camila vive em Copacabana e tem uma gata preta chamada Lilica.

A coluna Ensaios digitais é um diário de bordo de quem vive 100% do digital no mercado editorial brasileiro. Quinzenalmente, às quintas-feiras, serão publicadas novidades, explicações e informações sobre o dia-a-dia do digital, críticas, novos negócios e produtos.

Editores na era digital


Isa Pessoa fala sobre o novo profissional do mercado

Isa Pessoa

Isa Pessoa

O mundo digital continua afetando diretamente o mercado editorial, mas, ao contrário da confusão e euforia de alguns anos atrás, algumas tendências e mudanças já estão bem demarcadas. Profissionais que entraram de cabeça nessa ‘turbulência’ saíram do outro lado com muita experiência e prontos para mais mudanças. Isa Pessoa é uma delas. Depois de 17 anos como diretora editorial da Editora Objetiva, fundou em 2012 a Foz Editora, direcionada tanto para o mercado de livros impressos quanto de digitais. Isa participa hoje, 06/11, da mesa Desafios Editorias do projeto do Múltiplos e Contemporâneos: a literatura.com, junto com Camila Cabete, a ‘Kobo woman’ no Brasil e colunista do PublishNews, às 18h30 no Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro [Rua Primeiro de Março, 66, Centro]. Em entrevista ao PublishNews, Isa Pessoa fala sobre os novos papeis dos profissionais do mercado, os desafios da era digital e as expectativas em relação ao futuro.

PublishNews: Na sua opinião, qual é a principal mudança do papel do editor com o livro digital?

Isa Pessoa: A mudança no suporte material da leitura demanda uma nova lógica de edição. O editor vai preparar o conteúdo da publicação atento à palavra escrita, e à forma como o texto será apresentado na tela, ao conteúdo e sua forma, sempre, em quantas camadas e obedecendo a que hierarquia esse texto vai ser organizada,e qual relação esse conteúdo pode e deve ter com as imagens, estáticas ou em movimento, a serem incluídas nesse livro digital. As informações podem ser concebidas e relacionadas através de referências sucessivas, como os hiperlinks. A tecnologia potencializa o trabalho do editor, que se expande em diversas mídias: utilizá-las plenamente é um dos desafios.

PN: Hoje em dia, fala-se muito do fim do editor e do futuro dos livros ‘autopublicados’. Como você vê essa afirmação?

IP: A democratização da publicação também provoca a ruptura dos processos de curadoria editorial. O autor se auto-publica e cria também uma nova lógica de comercialização e distribuição dos seus textos. Esse autor tem mais poder, e referências recentes sobre o sucesso de alguns títulos só demonstram que autopublicação pode ser eficaz. Mas o trabalho do editor também pode ser decisivo, na qualidade final desse livro, impresso ou digital, no seu desempenho junto ao leitor e à crítica.

PN: Na sua opinião, o formato digital afetou o tipo, ou a qualidade, do conteúdo editorial?

IP: O formato digital está afetando e ainda afetará muito o conteúdo da publicação: não se pode separar forma de conteúdo. É preciso integrar o conteúdo às tecnologias disponíveis, sem subestimar, ou supervalorizar, o que essas tecnologias podem nos oferecer.

PN: Quais são os principais desafios de criar e administrar uma editora na era digital?

IP: Os profissionais que dominam essa tecnologia ainda são raros, pelo menos até onde consegui me informar a respeito – e esse é um dos obstáculos a vencer. Programadores, desenvolvedores, webdesigners: é necessário construir novos núcleos de trabalho, e também atualizar, ampliar nosso repertório de informação sobre a edição digital. Mas aí também que está a graça da coisa.

PN: No Brasil, por enquanto, o livro digital ainda não tem uma relevância no mercado. Quais são as suas expectativas em relação ao crescimento de vendas e títulos no formato e-book no futuro?

IP: O retorno no investimento em livros digitais, pelo menos nesses em que trabalhamos agora na editora Foz, não vai se dar em curto prazo. Sabemos disso. Estamos desenvolvendo modelos de negócio para comercializar os aplicativos em diversos segmentos, e também nos preparando para vendas futuras para escolas privadas e públicas.

Por Iona Teixeira Stevens | PublishNews | 06/11/2013

Qual será o futuro dos sebos?


Chegada da Amazon ao Brasil coloca em xeque as livrarias de segunda mão

Seu José Germano repete a mesma rotina há 60 anos. Chega às 6h30min em seu sebo e vai embora apenas às 19h. Depois de ter sido faxineiro, entregador e atendente, ele é o atual e único dono da tradicionalíssima Livraria São José, no Centro. Mas o alfarrábio não está mais na Rua São José, onde já teve até quatro pontos diferentes. O novo endereço, após passar pela Rua do Carmo e a Praça Tiradentes, é a Avenida Primeiro de Março 37. Teve que se mudar para sobreviver.

— A livraria está acabando por conta do livro digital. Principalmente os sebos. Porque eu vendo livro velho e não existe livro digital velho, não é? — argumenta ele que, aos 74 anos, se rendeu, ao menos, à venda pela internet. — Não temos mais aquela clientela que tínhamos nas décadas de 1970, de 1980. Há 20 anos, se alguém me oferecesse uma biblioteca de 5 mil, eu não pensava duas vezes. Hoje, não sei.

Sob ameaça dos leitores digitais

O livreiro da São José é apenas uma das pontas desse intrincado negócio de compra e venda de livros usados. Ele representa o perfil mais tradicional, com a loja com corredores longos, clientes de longa data, iluminação menos potente, estantes empoeiradas e edições antigas. Mas Germano não é o único tipo de livreiro que está tendo que se adaptar a uma nova realidade em que o digital se torna cada vez mais comum, principalmente com a chegada iminente da gigante do comércio eletrônico Amazon ao Brasil. Essas lojas especializadas em obras de segunda mão vão sobreviver após a colisão desse asteroide?

— Sinceramente não sei como um sebo se reinventaria como loja física — diz Camila Cabete, gerente de Publisher Relations da Kobo, o leitor digital que lançará uma loja no Brasil até o fim do ano, em parceria com a Livraria Cultura. — Eu continuarei usando sebos. Porém, não sei como se comportarão os nativos digitais.

O caminho restrito ao comércio online é a opção de alguns livreiros de longa tradição física para tentar evitar a fossilização. É o “exército de um homem só”, argumenta Marcelo Latcher. Ele já participou direta e indiretamente da criação de dezenas de lojas. Hoje, mantém apenas a Gracilianos do Ramo, mas só virtualmente.

— Sebo tem os seus dias contados, mas ainda é possível ganhar muito dinheiro na decadência — disparou Latcher, que faz parte de uma geração de livreiros mais jovem que a de Germano. — No futuro, o livro será comprado em um antiquário. Vai ser algo chique. Mas isso não me incomoda em absoluto.

Uma vez que se optou pela internet, o principal caminho adotado no Brasil tem sido a Estante Virtual. Segundo o criador do site, André Garcia, 97% das transações de livros usados na internet brasileira acontece sob o domínio da sua empresa. Garcia, ainda mais jovem que Latcher, não tem qualquer receio das transformações, e diz não ter visto qualquer impacto do livro digital: “fez cócegas no mercado nacional”.

— O e-reader vai continuar seguindo como parcela minoritária do mercado aqui — aposta ele, que disse estar preparado para enfrentar a Amazon, caso ela também venda livros de segunda mão no mercado nacional, como faz nos Estados Unidos e em outros países como França e Reino Unido.

De toda forma, ele é outro que não quer ficar parado e já planeja explorar outras áreas, inclusive a obra eletrônica. — Mas em uma competição, o livro físico ganha dos e-books nesse nicho exatamente por sua materialidade.

Nem toda livraria de usados aposta unicamente na venda on-line, entretanto. Maurício Gouveia, um dos donos da Baratos da Ribeiro, de Copacabana, cadastra apenas um percentual pequeno do acervo, por conta do alto custo de implementação e a baixa vendagem pelo meio.

— Nosso cliente não é o cara que procura o livro X ou Y. Nosso cliente é o cara o que aparece para saber se pintou algo de novo, que gosta de bater papo, dar uma passadinha — explica ele, que acredita que o aluguel no Rio de Janeiro é um problema muito maior que a Amazon.

Livreira aposta em convivência pacífica

Tendo experiência de quase 30 anos nas livrarias “tradicionais”, Graça Neiva, do Luzes da Cidade, em Botafogo, sugere que nos sebos sempre se pode encontrar surpresas. Já as que vendem obras novas estão homogeneizadas.

— Dizem os mais velhos que a TV era uma ameaça ao cinema. E, apesar de ter diminuído de tamanho, a indústria do cinema não vai tão mal assim. No livro, vai ter que ter acomodação — conta ela que, há anos, quando o assunto livro digital começou a aparecer no Brasil, colocou uma placa, em tom de brincadeira, anunciando que eles estavam comprando Kindles, o leitor digital da Amazon. — Já tinha gente querendo passar o Kindle antigo!

Entre livreiros à moda antiga e outros conectados, fica o mais interessado no assunto, o leitor. Bibliófilo, além de poeta, professor e acadêmico, Antonio Carlos Secchin é autor do “Guia de sebos” que, apesar de estar na quinta edição, ele acredita que já nasce obsoleto. A razão? O crescimento dos sebos virtuais.

— Mas como todo mundo pode se autodenominar livreiro, há uma série de informações erradas circulando pela internet, que eu nem acho que seja de má-fé. Como quando se anuncia um título e é outro. O colecionador que está em busca de uma edição específica, acaba tendo que tomar bastante cuidado.

Contudo, Secchin não acredita que o principal movimento dos sebos seja da busca de uma obra rara. Para ele, o que faz o caixa das livrarias de segunda mão é o best-seller. E aí, o livro digital poderia se tornar um problema.

— Enquanto o livro no sebo for mais barato, vai ter público. Agora é esperar para saber quando o livro digital vai ficar mais barato.

Por Ronaldo Pelli | Publicado originalmente em O Globo | Caderno PROSA | 10/11/2012, àS 07h25m

O vai não vai dos eBooks no Brasil


A cada semana, rumores ou contratações sugerem que determinada empresa de tecnologia esteja mais avançada do que as concorrentes na corrida pela conquista do mercado brasileiro de livro digital. Nas últimas semanas, só se fala na canadense Kobo, que acaba de lançar novos e-readers e de contratar Camila Cabete, ex-Xeriph, para se aproximar das editoras – um longo e tortuoso caminho, já que os brasileiros ganharam fama de durões. O diretor da empresa, Pieter Swinkels, estará em São Paulo na próxima semana para o início dos trabalhos.

Enquanto isso, comenta-se no mercado que o Google estaria empenhado em colocar sua e-bookstore no ar a um mês do Natal, vendendo, inclusive, o novo tablet. Quem também pretende aproveitar o Natal aqui é a americana Copia, que opera a venda de e-books da Submarino e quer encorpar sua lista de clientes com livrarias independentes.

Ricardo Costa, ex-Publishnews e há um mês diretor de relação com editores, começa a se reunir com livreiros na semana que vem, quando a empresa lança um novo pacote de serviços para as pequenas e médias livrarias. Usando a plataforma da Copia, qualquer loja poderá vender e-books. Até aí, isso não difere muito das outras empresas que vendem soluções white label, ou seja, que têm um site padrão de e-commerce e colocam o logo do cliente. Quem fechar com a Copia vai poder vender também livro físico e o aparelho de leitura, que chegará aqui em tempo das festas de fim de ano. A empresa será responsável por toda a operação, e a livraria pagará uma taxa de manutenção e uma porcentagem das vendas. Na prática, coloca as lojas de bairro – incluindo as que nunca puderam pagar por um site de e-commerce- de novo no jogo.

Por Maria Fernanda Rodrigues | O Estado de S. Paulo | 07/09/2012

Kobo contrata primeira funcionária no Brasil


Camila Cabete, da Xeriph, será a “Kobowoman” no país

A Kobo fechou ontem contrato com Camila Cabete, da Xeriph, para ser sua gerente sênior de relações com editores no Brasil. É a primeira funcionária a ser contratada pela empresa no país, marcando de vez a chegada no Brasil e na América latina. Pieter Swinkels, diretor da Kobo, disse ao PublishNews que a empresa deve aterrissar em solo brasileiro ainda este ano, e que todos estão muito animados com a expansão da empresa. “O mercado brasileiro é enorme, o negócio de e-books está crescendo rapidamente, tem muita coisa acontecendo, então naturalmente tínhamos interesse no Brasil.” Sobre a contratação de Camila Cabete, ele se mostra muito entusiasmado: “Nós estamos muito felizes que ela se juntará a nossa equipe, eu e ela montaremos a relação da Kobo com o Brasil.

Camila também está feliz com o novo emprego, que começa já na próxima segunda-feira. “Sempre me identifiquei muito com a marca, acho a cara do Brasil. A Kobo tem coisas que vão se adequar perfeitamente ao nosso país.” Entre os destaques da nova empregadora, Camila enfatiza o meio social da Kobo, a plataforma de self-publishing, que vem atender uma demanda muito grande do mercado brasileiro, e os aparelhos e-readers. Apesar de não saberem ainda onde montarão escritório, a Kobo chega na América latina com todo seu aparato, inclusive os novos e-readers que planejam lançar em breve.

Por Iona Teixeira Stevens | PublishNews | 30/08/2012