Mercado de direitos


Inicialmente, Rights Data Integration durará 27 meses

A União Europeia lançou o projeto piloto de um “Copyright hub”, um centro online de compra e vendas de direitos de conteúdo. Segundo o próprio site, o Rights Data Integration é  “uma demonstração de como administrar e comercializar direitos de propriedade online de forma eficiente e para todos os tipos de conteúdo, utilização e mídias”. A ideia principal é permitir a comercialização, mas também fornecer informações sobre quem detém os direitos de algum conteúdo – facilitando, e muito, o trabalho do editor, no caso do mercado editorial. Além de livros de texto, o RDI contempla também obras musicais, notícias, fotografias e conteúdo audiovisual. Financiado em parte pela Comissão Europeia e em parte pelos parceiros da indústria, o RDI já possui nomes de peso como Pearson, Reed Elsevier, Getty Image UK, British Library e  a alemã Axel Springer.

Por Iona Teixeira Stevens | PublishNews | 16/12/2013

Grã-Bretanha: Biblioteca digitaliza jornais dos séculos 18 e 19


A Biblioteca Britânica disponibilizou parte de seu arquivo de jornais dos séculos 18 e 19 para consulta online no site british newspaper archive, informa o journalism.co.uk. Foram mais de quatro milhões de páginas digitalizadas, com auxílio da editora online Brightsolid, de mais de 200 títulos das regiões da Inglaterra e Irlanda. O arquivo traz desde a cobertura dos principais eventos históricos, como a Guerra da Criméia, até pequenas notícias familiares de jornais locais.

O arquivo digital pode ser acessado gratuitamente na Biblioteca, que fica em King’s Cross, em Londres. Para consultas à distância, por mais de 48 horas, serão cobradas 6,95 libras. Haverá assinaturas mensais e anuais para pesquisadores e acadêmicos.

Portal Imprensa | 29/11/2011

Especialistas falam sobre o futuro das bibliotecas


Seminário Biblioteca Nacional + 200 Anos

Nos dias 24 e 25 de outubro, a Biblioteca Nacional convidou especialistas de várias partes do mundo para discutir o futuro das bibliotecas, com foco especial nas instituições nacionais de cada país. O seminário Biblioteca Nacional + 200 Anos trouxe ao Rio de Janeiro experts e diretores de Bibliotecas Nacionais para apresentarem experiências atuais e discutir perspectivas para o futuro da informação e seu compartilhamento.

Perguntamos para alguns dos convidados qual seria o futuro da “biblioteca” como instituição de preservação de memória e de oferta de conhecimento ao público. Como a biblioteca do futuro vai administrar a informação digital? Ela vai deixar de ser um espaço físico para se transformar em virtual? Veja o que responderam:

Paulo Herkenhoff, crítico de arte
Acho que a era digital é uma era que vai ser determinada pelo leitor e pela leitura, mais que pelo objeto. Estar atento ao leitor me parece uma das chaves para o futuro da biblioteca. Se quisermos permanecer como sociedade, nós precisamos de instituições que sejam capazes de representar simbolicamente nossa diversidade, nossos conflitos, nossas diferenças. Quais são as contradições, quais são os conflitos? Tudo isso deve estar dentro dessa instituição. O futuro da biblioteca poderia ser esse lugar onde uma rede de subjetividades se construa como um processo coletivo. Esse lugar é virtual, mas é um lugar com vontade de ser esse lugar e, por isso, exigirá fineza política para que não seja partidário, mas um projeto de estado.

Maria Inês Cordeiro, subdiretora geral da Biblioteca Nacional de Portugal
Embora caminhemos rapidamente para uma parte do acervo estar disponível na internet, nós não diminuímos o número de leitores. Até temos aumentado o número de consultas localmente. E isso contradiz um pouco aquilo que normalmente as pessoas esperam que é “quanto maior for o acervo digital, menor será a procura física, local, na biblioteca”. Tem sido uma experiência importante para nós verificar que não. Uma coisa não invalida a outra. Penso que isso se deve também à grande variedade do acervo e à dimensão enorme do acervo [da Biblioteca Nacional de Portugal]. Não penso que daqui a 50 anos a biblioteca física vai deixar de existir enquanto tal, procurada pelas pessoas, porque nós continuamos a preservar o patrimônio físico e a sociedade quer que continuem a existir os livros fisicamente. Mesmo que estejam digitalizados, haverá sempre uma procura por razões de investigação.

Marco Streefkerk, diretor da DEN Foundation [Dutch Knowledge Center for Digital Heritage]
Houve uma discussão na Holanda sobre o futuro das bibliotecas e não se chegou a uma resposta. Há muitas opiniões sobre como será esse futuro e acho importante que a biblioteca discuta, mas que abra essa discussão para a sociedade. O que é esperado da Biblioteca? Que serviços especiais ela deve oferecer? Ainda acho que as pessoas gostam de estar juntas. Aprender é uma atividade social, não é algo que se pode fazer apenas em casa, na frente do computador.

John K. Tsebe, diretor da Biblioteca Nacional da África do Sul
Os livros estarão sempre aí, por isso devemos preservar o livro de papel. Ao mesmo tempo, devemos garantir a digitalização e o acesso a conteúdo virtual – talvez no sistema de computação em nuvens. É preciso que esse conteúdo seja acessado da forma mais universal possível. Minha visão é que a Biblioteca Nacional como um objeto físico, como uma construção, sempre existirá, porque se você olhar para qualquer país do mundo, a Biblioteca Nacional sempre será a maior biblioteca daquele país, em termos de espaço físico. É o lugar onde as pessoas podem ir, interagir, compartilhar ideias. O formato digital é importante, mas não vai substituir o livro físico. Acredito que devemos promover um equilíbrio entre as obras impressas e as virtuais – as que são digitalizadas ou as que já nascem digitais.

Roberto Aguirre Bello, chefe de coleções digitais da Biblioteca Nacional do Chile
As Bibliotecas Nacionais, como espaço físico, vão continuar existindo, sem dúvida. Muitas pessoas vão sempre preferir consultar os livros impressos, mas as bibliotecas virtuais oferecem algumas soluções, sobretudo para aqueles que desejam consultar obras de lugares remotos e a qualquer momento do dia. No Chile, a recepção aos objetos digitalizados tem sido muito boa e estamos fazendo todos os esforços para, cada vez mais, chegar a diferentes segmentos da comunidade com nossos serviços.

Aquiles Brayner, curador da coleção digital da British Library e consultor da Biblioteca Nacional do Brasil
A biblioteca física vai virar um espaço simbólico e o simbólico vai virar quase o real, que é o virtual. A biblioteca vai ter que oferecer serviços para acesso a conteúdos digitais, disso não se tem nenhuma dúvida, e os objetos que a biblioteca retém em seu acervo vão ficar quase como um instrumento de museu, não exatamente nesse sentido, porque ele ainda vai ser manipulado. Mas com a cópia digital, a biblioteca vai ter que trabalhar cada vez mais na prestação de serviços do que propriamente na formação de acervos.

Ascom FBN | 15/11/2011

Prateleira


A Biblioteca Nacional acaba de contratar Aquilles Brayer como consultor. Curador da versão on-line da British Library, o brasileiro vai ajudar a traçar plano estratégico da BN até 2020, reestruturara BNDigital e implantar a biblioteca de empréstimo de e-books. A BN também está negociando, com a Bill & Melinda Gates Foundation, investimentos em bibliotecas públicas brasileiras a partir de 2012. O primeiro encontro ocorreu há dois meses, no Rio. Na próxima semana, a rodada de conversas será em Houston. As informações são da coluna Direto da Fonte.

O Estado de S. Paulo | 23/09/2011

“É hora de o Brasil pensar nos seus acervos digitais”


Ao tentar fazer uma anotação, Aquiles Alencar-Brayner, de 40 anos, apalpa o paletó, instintivamente, procura algo nos bolsos, mas logo ri do próprio gesto. Há tempos não carrega caneta. Saca então o telefone e, em instantes, escreve o lembrete. Entusiasta das possibilidades da informação digital, o curador do acervo eletrônico da British Library esteve no Brasil para participar do seminário “Ebooks e a democratização do acesso”, na 15ª Bienal do Livro. Antes de voltar para Londres, onde vive há 13 anos, e dar uma passadinha em Fortaleza para matar as saudades da família, o cearense teve uma reunião com o presidente da Biblioteca Nacional, Galeno Amorim, a portas fechadas. Literalmente. Com a greve dos servidores do Ministério da Cultura, a biblioteca não abre desde 22 de agosto. Aquiles emprestará seu know how a projetos que vão ampliar o acesso ao conteúdo digital da instituição, o que inclui o empréstimo de leitores digitais (ereaders) e ebooks ao público. Entre um compromisso e outro no Rio, conversou com a Revista O GLOBO.

REVISTA O GLOBO: O que ficou acertado nesta reunião com Galeno Amorim?

AQUILES ALENCAR-BRAYNER: Estou ajudando a desenvolver o programa para ampliar o acesso ao acervo digital da Biblioteca Nacional, em comemoração aos 200 anos da instituição, agora em 2011. Galeno tem uma visão muito interessante sobre essa área digital. O que a gente quer fazer é ampliar o acesso ao material digitalizado que já existe na biblioteca e implementar o serviço de empréstimo de ebooks.

Qual será o primeiro passo?

A questão do armazenamento. É preciso ter um servidor potente que possa responder à demanda dos usuários. Se a gente pensar em liberar mais documentos, temos que pensar nessa estrutura antes.

O empréstimo de ebooks não tiraria leitores da biblioteca?

Fala-se muito da morte da biblioteca, que é possível buscar a informação que você quiser de qualquer lugar. Mas acho que hoje em dia a biblioteca deve ser, antes de tudo, uma prestadora de serviços. Ela tem de reunir a informação e oferecer um contexto onde esta informação possa circular. A biblioteca não é só um espaço físico, é um serviço. Que pode nem existir fisicamente.

Como é seu trabalho na British Library?

Eu já desenvolvia projetos digitais dentro do acervo latino (Aquiles entrou na BL em 2006, como curador do acervo latino-americano da instituição), quando fiz minha tese de doutorado sobre arquivos de páginas web. Abriram esta vaga de curador digital no ano passado, que até então não existia. Fiz o concurso interno e passei. E o trabalho é basicamente gerenciamento de projetos digitais. É pensar no usuário que a gente vai servir no futuro. A biblioteca é muito visionária neste sentido. Como o pesquisador vai acessar este conteúdo daqui a 20 anos? Já se fala hoje em dia na morte da World Wide Web, então temos que pensar que o futuro serão os aplicativos. E já estamos montando estes aplicativos (no mês passado, a BL lançou 45 mil clássicos em formato de aplicativo para iPad).

Esta tecnologia é viável no Brasil?

É uma tecnologia cara, sim, mas a gente conta com a expertise de colegas. A minha vinda aqui tem a ver com isso, também. Venho contribuir com a minha experiência de fora.

Não é precipitado discutir empréstimo de e-books numa biblioteca que não tem ainda nem internet para o pesquisador?

Se a gente for pensar assim, ninguém tem estrutura para nada. Estrutura a gente cria. É preciso pensar agora, já. Os formatos mudam o tempo todo, os consumidores, no caso, os usuários, mudam as mentalidades. Se a gente não for atrás disso agora, vai ficar obsoleto, e aí, sim, vai ser o fim. Mas é claro que é preciso fornecer a estrutura básica que vai oferecer ao usuário esta conexão.

De que maneira a sua experiência à frente da curadoria do acervo latino-americano da BL pode ser aproveitada nesses projetos para o Brasil?

Basicamente, network. Quero convidar colegas de bibliotecas latino-americanas para colaborar. Um dos projetos que tenho com Galeno é fazer um catálogo integrado de acervos latino-americanos. Juntar as coleções e já disponibilizar tudo digitalizado. Difunde-se a ideia de um continente unido ao mesmo tempo em que possibilita a troca intercultural. Como faz a Europeana, por exemplo.

Você acredita que esse fôlego digital possa trazer mais usuários à BN?

Não necessariamente para o espaço físico da biblioteca, mas usuários do serviço, sim.

O acervo eletrônico pode ser uma solução para a falta de espaço das bibliotecas?

Ele gera outro problema de espaço, que é o espaço eletrônico. Para caber isso tudo são necessários servidores potentes. Você não põe um livro digital na estante, você mantém um sistema funcionando. Tem que fazer atualizações constantes, migrar formatos. Por isso, já é hora de o Brasil pensar nos seus acervos digitais.

Em que medida o acervo digital é mais democrático?

Ter acesso a um conteúdo onde quer que você esteja é democratização. Mas claro que esta democratização pode ser questionada na questão da conectividade. Quem tem acesso? A Inglaterra tem um plano de inclusão digital bem estruturado para os próximos anos. Aqui é preciso pensar, também, em como as pessoas vão acessar os documentos a longo prazo. A democratização se torna cada vez mais ampla, não só em acesso, mas em diálogo: cada vez mais pessoas publicam suas ideias na rede. A gente está dividindo mais conteúdo, a própria criação do Creative Commons responde ao nosso tempo.

Você é um entusiasta do Creative Commons (sistema de licenciamento mais livre e flexível dos direitos autorais)?

Completamente. Sobretudo em relação ao conteúdo de instituições públicas.

Por Mariana Filgueiras | mariana.filgueiras@oglobo.com.br | O Globo | 18/09/2011

Para gostar de eBook


A partir de 2012, 100 livros digitais serão oferecidos pela Biblioteca Nacional

Enquanto no Brasil o mercado de e-books é incipiente, em metrôs, ônibus e aeroportos das grandes cidades norte-americanas e europeias é relativamente comum ver gente lendo em seus smartphones, tablets e e-readers, como antes se fazia com as edições de bolso.

Nos EUA, que vive o “verão do Kindle”, a fatia do mercado está em 13,5% quando se fala em obras de ficção. Na Alemanha, segundo dados da Sociedade para Pesquisa de Mercado Consumidor, desde fevereiro foram vendidos 350 mil leitores digitais.

No Brasil, onde o acervo ainda é escasso e os aparelhos saem por no mínimo R$ 800, não há números a respeito. Nas capitais, não se vê nada parecido.

Mas a Fundação Biblioteca Nacional, à qual cabem as políticas de livro e leitura, quer olhar adiante, e realizou, durante a Bienal do Livro do Rio, o colóquio E-books e a Democratização do Acesso – Modelos e Experiências de Bibliotecas. A feira se encerra hoje à noite.

No início de 2012, o presidente da FBN, Galeno Amorim, já espera ter para empréstimo cerca de cem títulos digitalizados [literatura brasileira em domínio público]. A ideia agora é aprender com a experiência de quem já vive a era digital nas bibliotecas, e pensar o modelo mais adequado à nossa realidade, seja o download ou o sistema nuvem, em que o livro fica disponível só por um período.

Aqui, inexiste esse tipo de serviço. Nem os livros de papel chegam a todos. Ainda falta atingir a marca desejada há anos: ter uma biblioteca instalada em cada um dos 5.565 municípios.

O colóquio marca os 200 anos da BN, criada numa então colônia de analfabetos para guardar a biblioteca real trazida de Portugal, e, com o tempo, transformada em centro de pesquisa. Hoje, o público tem acesso, pela internet, à parte do acervo digitalizada. “O e-book é um evento novo para todos. Não podemos ficar na rabeira. Queremos discutir qual é o melhor caminho, o que é viável”, diz Galeno, ao justificar a realização dos debates.

Na Inglaterra, contou Aquiles Alencar-Brayner, curador digital [cearense] da British Library, as editoras resistem a ceder e-books para empréstimo. Mas uma lei poderá enquadrá-las ano que vem. Frank Daniel, da Biblioteca Pública de Colônia, relatou que nos últimos quatro anos foram computados 120 mil downloads de 8.600 e-books. A biblioteca oferece aplicativos para iPhones e iPads.

Essa é a Bienal mais tecnológica de todas, a primeira em que foram oferecidos “para degustação” tablets e e-readers. O espaço da Bienal Digital ficou cheio de curiosos que nunca tiveram um desses nas mãos.

Por Roberta Pennafort | O Estado de S. Paulo | 11/09/2011

Falando de bibliotecas de forma animada e nada apocalíptica…


Por Camila Cabete | Texto publicado originalmente em PublishNews | 08/09/2011

Nesta última segunda e terça, tive o prazer de assistir a um colóquio sobre e-books com foco em bibliotecas, promovido pela Biblioteca Nacional, na Bienal do Livro do Rio de Janeiro. E foi com muita alegria que vi que mundialmente existe um movimento muito grande na direção dos e-books. Ouvi bibliotecários e curadores de diversas instituições da França, Reino Unido e de Colônia, na Alemanha. No final desta coluna, colocarei os links interessantes.

As bibliotecas convidadas já fazem o uso dos e-books em empréstimos. E com alegria posso anunciar que a empresa que trabalho [Xeriph] está implementando esta mesma tecnologia aqui no Brasil. Funciona bem parecido com o empréstimo de livro físico: a biblioteca compra exemplares do provedor de conteúdo, o exemplar fica na página da biblioteca com um botão de empréstimo e outro de fila de espera. Os livros são empacotados com o DRM do provedor e abertos no login e senha do leitor. O livro fica emprestado, sob licença, por mais ou menos sete dias e depois volta para a biblioteca e é disponibilizado para o próximo da fila. Fantástico! Desculpe, mas não consigo não demonstrar minha animação…

As maiores dificuldades enfrentadas pelas bibliotecas que já dispõem deste serviço tcharam… adivinhem… foi convencer os profissionais a usarem e incentivarem o público com o novo formato e também com a informação e divulgar o serviço aos leitores. Todos falaram da importância do marketing interno das bibliotecas. Senti um certo desconforto na plateia formada por bibliotecários e, pelas perguntas do debate, percebi que estão bem fora do assunto e-book. O profissional que começar a se aprofundar agora se destacará. Fica aqui também a questão a discutir da formação destes profissionais. Acredito que as cadeiras acadêmicas também tenham que passar por uma completa reformulação…. nossa…um trabalhão…

O curador da British Library, que por acaso é um brasileiro, cearense muito simpático, nos passou o sistema e também se queixou muito das editoras no que diz respeito à demora na disponibilização de títulos em formato digital e na cobrança dos “exemplares” para as bibliotecas. Perguntei ao curador da Biblioteca de Colônia quanto eles pagavam pelas obras ao agregador de conteúdo, e ele me disse que era o mesmo valor do um exemplar de papel, e que a biblioteca comprava somente um exemplar de cada título. Já o curador conterrâneo do British Library disse que algumas editoras cobravam um valor maior pelo exemplar, outras cobram a recompra do exemplar a cada 26 empréstimos, pois dizem que este é o tempo que um livro impresso dura na biblioteca [ninguém entendeu como chegaram a este número].

O balanço final do encontro foi positivo [lá vem a minha mania de ver as coisas sob um aspecto positivo]. Mas foi sim. A primeira coisa que me animou foi que temos tecnologia brasileira desenvolvendo isso. A segunda é que uma biblioteca agora pode ter um alcance muito maior que antes, pois eu posso ser assinante da British Library, da Biblioteca de Nova York e pegarei constantemente livros emprestados da Biblioteca Nacional [espero que implementem o sistema logo logo], sem precisar ir ao centro do Rio e perder um tempão no congestionamento. A renovação dos profissionais de bibliotecas também me anima, pois eles só têm a acrescentar se aproximando deste novo mercado eletrônico, afinal continuaremos necessitando de curadores e direcionadores de cultura. Não tem máquina que substitua esse papel.

Agora eu pergunto a você: isto é ou não é a democratização da leitura?

Temos ainda muito o que evoluir, mas cobrar do governo a banda larga em nosso território, com computadores e tablets, acreditem, é muito mais barato que este sistema inchado e atrasado de distribuição de livro de papel em nosso país com dimensão continental. Podemos posteriormente falar deste sistema, que soube faz pouco tempo e fiquei apavorada com a problemática da logística… É de dar pesadelos.

Abaixo disponibilizarei links interessantes de bibliotecas e continuo divulgando meu e-mail para feedbacks e trocas de informações. Até a próxima quinzena!

Biblioteca Digital Universitária da França – http://couperin.org
Provedor do governo alemão de livros digitais – http://www.divibib.com
British Library – http://www.bl.uk
Biblioteca de Hampshire – http://www3.hants.gov.uk/library.htm
Projeto Observatório Nacional e-book – http://observatory.jiscebooks.org/
Plano estratégico para 2020 – http://www.bl.uk/2020vision
Aplicativo British Library de assinaturas de obras digitais – http://bit.ly/II2BfQ
Agregadora brasileira de e-books – http://www.xeriph.com.br

Por Camila Cabete | Texto publicado originalmente em PublishNews | 08/09/2011

Camila Cabete [@camilacabete] tem formação clássica em História, mas foi responsável pelo setor editorial de uma tradicional editora técnica por alguns anos [Ciência Moderna]. Hoje, é responsável pelo setor editorial da primeira livraria digital do Brasil, a Gato Sabido [@gatosabido]. É ainda consultora comercial da Xeriph, a primeira distribuidora de conteúdo digital do Brasil e sócia fundadora da Caki Books [@cakibooks], uma editora cross-mídia que publica livros em todos os formatos possíveis e imagináveis. Vive em Copacabana e tem uma gata preta chamada Lilica.

A coluna Ensaios digitais é um diário de bordo de quem vive 100% do digital no mercado editorial brasileiro. Quinzenalmente, às quintas-feiras, serão publicadas novidades, explicações e informações sobre tecnologias ligadas a área literária.

BN debate o papel das bibliotecas no empréstimo de eBooks


A Biblioteca Nacional realiza, hoje e amanhã, na Bienal do Livro, o colóquio E-books e a democratização do acesso – Modelos e experiências de bibliotecas, onde especialistas da Alemanha, Espanha, França, Inglaterra e Brasil discutirão o papel das bibliotecas nacionais e o serviço de empréstimos de ebooks, o crescimento da demanda deste tipo de serviço, assim como os desafios impostos pelas novas tecnologias.

O evento, realizado em parceria com o Goethe-Institut Rio de Janeiro, Maison de France e Instituto Cervantes do Rio de Janeiro, faz parte de um grande ciclo de palestras que a Biblioteca Nacional realizará ao longo do segundo semestre deste ano em São Paulo e Recife, no qual diversos especialistas e pensadores se juntarão para debater o tema.

Para o presidente da Fundação Biblioteca Nacional [FBN/ MinC], Galeno Amorim, o papel da instituição é pensar o setor como um todo, levantando questões relevantes sobre livros, leitura e literatura para discuti-las com a sociedade, o que inclui o futuro dos livros e seus pares digitais, os e-books. “A BN, como principal órgão responsável pela criação de políticas públicas para o setor, deve sempre estar atenta a questões relevantes para a sociedade. No mundo de hoje, a estagnação significa a morte. Temos que estar atentos a todas as mudanças, em especial as que chegam por conta das novas tecnologias”, afirma.

Sobre os serviços de empréstimos de e-books pelas bibliotecas, Galeno acredita que, uma vez que tablets e leitores de digitais já são uma realidade, as bibliotecas devem se preparar para oferecer o serviço da melhor maneira. “E a melhor forma de nos prepararmos é aprender com quem já sabe, com aqueles que já têm o know-how. Assim, poderemos unir o conhecimento à experiência que temos na administração de bibliotecas em um país continental para chegarmos a um modelo que atenda às nossas necessidades”, avalia o presidente da FBN.

Nesta segunda-feira, serão discutidas questões de acesso, oferta e negociação de livros no formato digital nos mercados espanhol, francês e alemão, além de um perfil geral de como editores europeus têm se comportado em matéria de e-books.

Entre os participantes está o analista de mercado na divisão de entretenimento da GfK SE [Gesellschaft für Konsumforschung – Sociedade para Pesquisa de Mercado Consumidor], Christoph Freier, que falará sobre “E-books: um belo e novo mundo de livros; fatos e novidades sobre o mercado editorial digital“. Freier tem como linhas de pesquisa os desenvolvimentos nos campos de entretenimento [música, video, cinema, jogos e livro] e de comércio eletrônico e download.

Ainda hoje, o diretor do Departamento de Serviços Escolares e Serviços Eletrônicos da Stadtbibliothek Köln, Frank Daniel, apresentará o tema ‘‘Experiências com e-books na Biblioteca Pública de Colônia“. Para Daniel, cada vez menos, a nova geração compreende o sentido e a finalidade das bibliotecas. Na Internet pode-se obter informações atuais gerais e especializadas, em qualquer hora e lugar. Além disso, há um crescente aumento do uso de Smartphones, iPads, Tablet-PCs e e-Readers móveis. As ferramentas, somadas às lojas virtuais de e-books da Amazon, Apple e Google, se tornaram uma ameaça real para o conteúdo tradicional das bibliotecas.

Frank Daniel acredita que para continuar realizando sua tarefa clássica, uma biblioteca também deve disponibilizar na Internet fontes eletrônicas atrativas aos seus leitores, não acessíveis de forma gratuita.

O segundo dia abordará as experiências do Brasil e Inglaterra na área, com destaque para a participação de Aquiles Alencar-Brayner, brasileiro e primeiro estrangeiro a assumir o cargo de curador digital da British Library. Ele participa do colóquio “Digitalização e modelos de acesso a e-books na biblioteca pública da Inglaterra”.

Para Brayner, o rápido avanço das tecnologias digitais traz consigo inúmeros desafios para instituições que lidam com o gerenciamento de informação e serviços bibliográficos. “No caso dos livros eletrônicos, a questão torna-se ainda mais complexa devido a uma série de fatores que restringem o acesso ao conteúdo de um formato que vem ganhando cada vez mais adeptos. Minha apresentação, centrada na perspectiva da British Library, se propõe a analisar alguns dos obstáculos encontrados por bibliotecas públicas no manejo e empréstimo de ebooks para os seus usuários”, explica o curador.

Dentre os tópicos abordados por ele estão: a atual legislação britânica de depósito legal para publicações eletrônicas, os problemas de identificação, armazenameno e acesso a conteúdos digitais com que se deparam as bibliotecas públicas reinounidenses, e a miríade de formatos de suporte para a leitura de tais conteúdos que quase sempre impede a interoperabilidade entre sistemas. “Também apresentarei alguns dos serviços e plataformas eletrônicas criados pela British Library para acesso remoto ao acervo digitalizado da biblioteca”, completa.

A cerimônia de abertura, às 9h, contará com a participação do presidente da Fundação Biblioteca Nacional, Galeno Amorim, de Jean-Claude Moyret, Cônsul Geral da França no Rio de Janeiro; Alfonso Palazón Español, Cônsul Geral da Espanha no Rio de Janeiro; e Michael Worbs, Cônsul Geral da República Federal da Alemanha no Rio de Janeiro.

Publicado originalmente no Jornal do Brasil | 05/09/2011

Aplicativo para iPad tem 45 mil livros do século 19


O aplicativo para iPad British Library 19th Century Collection tem cerca de 45 mil livros do século 19 do acervo da British Library, uma das maiores bibliotecas do mundo, localizada em Londres.

British Library 19th Century Collection

O aplicativo tem reproduções das páginas originais dos livros, que foram todas escaneadas. Há títulos em inglês, português, italiano, espanhol, holandês e norueguês.

As páginas carregam rápido, e as reproduções são em resolução alta. O alcance do zoom é suficiente para ler a maioria dos livros de forma confortável, mas, em alguns, especialmente em livros com páginas grandes, as letras ficam pequenas até no zoom máximo.

British Library 19th Century Collection

Por Leonardo Luís | Publicado originalmente em Blog do TEC | Folha.com | 9/08/2011, às 18h24 

British Library oferece aplicativo de clássicos para iPad


Inglaterra: Frankenstein, Oliver Twist e Robinson Crusoé podem entrar em seu iPad se você baixar um novo aplicativo lançado pela British Library [Biblioteca Nacional da Grã-Bretanha] nesta semana que dá acesso a mais de 45 mil títulos históricos e antigos.

O ‘British Library 19th Century Historical App’, criado em colaboração com a empresa de softwares Bibiolabs, oferece a usuários do iPad, da Apple, um leque de obras clássicas de Mary Shelley, Charles Dickens, Daniel Defoe e muitos outros, assim como uma boa quantidade de obras esquecidas há tempos, incluindo escritos de viagem vitorianos, poesia e textos científicos.

As imagens digitais em alta resolução, diferentemente de livros eletrônicos tradicionais, simulam a experiência de se ler um volume antigo e recriam em cores a aparência e textura das páginas originais e da encadernação, assim como gravuras e ilustrações.

A coleção, que deve chegar a 60 mil títulos no fim do ano, também contém livros dos séculos 18, 17 e até mesmo 16 e possui livros em francês, espanhol, norueguês, português e alemão.

O aplicativo permite que os amantes de livros naveguem pela biblioteca digital ao buscarem por títulos de livros ou palavras chaves, criarem listas de suas leituras favoritas e trocarem títulos com amigos por e-mail por uma taxa de 1,99 libra ao mês [ou 2,99 dólares para os Estados Unidos e usuários globais].

Por Alice Baghdjian | Reuters | 03/08/2011

Impressão sob demanda


Representantes da Bibliolabs, empresa de digitalização de livros que fechou parceria com a Singular no passado, também desembarcam aqui este mês. A meta é conversar com bibliotecas como a Nacional e a da USP para digitalização de títulos, para então vendê-los em impressão sob demanda, com parte do lucro indo para as instituições. Os criadores da Bibliolabs, que no passado venderam para a Amazon o atual serviço de impressão sob demanda da loja, voltaram ao noticiário há pouco com o aplicativo mais baixado para iPad na categoria livros, com o acervo da British Library.

Por Raquel Cozer | O Estado de S. Paulo | 18/06/2011

As várias faces da [web] poesia


Questão inimaginável para gerações anteriores da poesia, o arquivamento da produção espalhada por sites, blogs e redes sociais hoje merece reflexão. Afinal, na década em que os diários virtuais se popularizaram no Brasil, boa parte dos versos disponibilizados online nunca chegou ao papel – um dos motivos pelos quais é tão pouco estudada a poesia feita na última década. “Torna-se difícil mapear a produção ciberpoética se não tivermos uma estratégia de preservação para arquivar o material que existe na internet“, diz o cearense Aquiles Alencar Brayner, curador do acervo latino-americano da British Library, no Reino Unido. Prestes a concluir mestrado sobre arquivos digitais, Brayner dará palestra a respeito na terceira edição do Simpoesia, encontro internacional que acontece do próximo dia 5 ao 7 na Casa das Rosas, em São Paulo.

O evento é apenas um dos sinais da atenção para este cenário num momento em que os e-readers começam a chegar a País, trazendo possibilidades de experimentação – assim como a literatura infantil, a poesia é um dos gêneros que mais têm a se beneficiar com as novas tecnologias. Nos dias 13 e 14, o festival literário Artimanhas Poéticas, no Rio – que incluirá apresentações de videopoesia e performances – levantará o debate A Poesia Escrita em Outras Esferas, com a estudiosa Heloísa Buarque de Holanda, organizadora da Enter Antologia Digital, e os poetas Gabriela Marcondes e André Vallias.

O encontro com a tecnologia é um fenômeno muito anterior à internet, embora tenha encontrado nela seu meio mais propício. O recém-lançado Poesia Digital – Teoria, História, Antologias [Fapesp/Navegar, R$ 30, 80 págs. + DVD], fruto de mapeamento realizado por Jorge Luiz Antonio, pós-doutorando no Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, volta mais de 50 anos no tempo para encontrar as origens da poesia eletrônica. A primeira experiência do gênero, segundo o autor, foi publicada em 1959 pelo alemão Theo Lutz. Chamada Stochastische Texte, pegava as cem primeiras palavras de O Castelo, de Kafka, e criava novos textos a partir delas, usando um programa de computador que produzia frases na estrutura do idioma alemão. “Estava ali a origem dessa produção que tem forte relação com a arte, com o design e com a tecnologia, e que é um desdobramento das poesias de vanguarda, visual, concreta, experimental“, diz Antonio.

A poesia que se encontra na internet hoje divide-se em pelo menos dois grandes grupos, embora eles não raro se confundam. “De um lado estão os herdeiros do concretismo, que ampliaram propostas idealizadas pelos irmãos Haroldo e Augusto de Campos e por Décio Pignatari“, diz Antônio Vicente Pietroforte, professor de letras, semiótica e linguística da USP [Augusto de Campos, por sinal, teve o primeiro contato com um Macintosh em 1984]. “Outra vertente, que usa a rede mais como ambiente de difusão, tende a uma abordagem mais coloquial, influenciada pela música pop, pelos beats, pelos poetas marginais e pela literatura periférica.

É nesse segundo grupo que está a maior parte da atual produção de poesia online no País – que, mesmo sendo tão ampla, permite o reconhecimento de alguns poetas, em especial ligados aos eventos literários. Caso da curadora do Simpoesia, Virna Teixeira, que estreou em 2004 o blog Papel de Rascunho [papelderascunho.net]. Embora já tivesse sido publicada, foi depois da investida virtual que ficou mais conhecida pelo empenho em difundir a poesia e a tradução – ela comanda hoje um selo artesanal, o Arqueria Editorial. No blog, que recebe média de 200 visitas por dia, publica poemas próprios, mas também trabalhos de outros autores, imagens, frases e áudios, “como se fossem recortes”. “Hoje é mais fácil ter um livro editado, mas as casas tradicionais ainda resistem a lançar poesia. Quem faz isso são as pequenas, que têm distribuição limitada. A internet revelou um número de leitores muito maior do que se podia supor.

A paulistana Adriana Zapparoli estreou o blog zênite [zeniteblog.zip.net], em 2004, três anos antes de publicar o primeiro livro, A Flor-da-Abissínia [Lumme]. “Coloco lá textos referenciais de intenções líricas. Muitas das minhas publicações em revistas literárias impressas ou online são sugestões vindas da leitura do conteúdo do blog“, diz. O uso da tecnologia como linguagem, afirma, não lhe interessa. “Já me aventurei em recursos do gênero, mas prefiro a sensação perene da impressão, a coisa do papel. Gosto da textura, das cores, quase que um quadro“, diz. Vantagem maior da internet, para ela, é conhecer de perto o trabalho de poetas de outros países, algo hoje muito mais fácil do que foi para gerações passadas – a paulistana Ana Rusche, por exemplo, que organiza em São Paulo o evento literário Flap! e edita o blog Contrabandistas de Peluche [www.anarusche.com], chegou a ter livro publicado no México por conta de contatos feitos online. Experiência similar, mas dentro mesmo do País, viveu o poeta e tradutor Cláudio Daniel, editor da revista Zunái [www.revistazunai.com], uma das principais referências de poesia na internet. “Tenho 48 anos, mas só fui conhecer poetas da minha geração, como Frederico Barbosa e Arnaldo Antunes, pela rede. Foi só então que nossa geração passou a conversar e organizar revistas.

Recursos. Jorge Luiz Antonio lembra que mesmo a poesia focada no verbal sofre interferência dos meios tecnológicos. “Até a temática acaba influenciada pelas tecnologias, numa espécie de metalinguagem“, argumenta. Mas é entre os herdeiros dos concretistas que isso se destaca mais – em seu primeiro livro, Movimento Perpétuo, de 2002, o carioca Márcio André [www.marcioandre.com] chegou a usar códigos de HTML, com suas barras e tags, em meio aos versos, como conteúdo do texto.

André Vallias, editor da Errática [www.erratica.com], foi um dos pioneiros no Brasil no uso de computador em poesia – no início dos anos 90, quando os PCs ainda eram peça rara no Brasil, o jovem formado em direito teve contato, na Alemanha, com tecnologias que não existiam por aqui. “Nunca quis fazer poesia simplesmente escrita“, diz. Naquele momento, a divulgação era feita apenas por CD-ROM, limitação superada com a internet.

O interesse em explorar as possibilidades da web – em 1995, já produzia trabalhos em flash, com animação e áudio – o levou também a questionar o formato de revistas literárias online. “Muita gente fazia revista de poesia na internet, mas com o mesmo padrão da revista impressa. Ou seja, acumula uma série de trabalhos e faz por edição, a cada dois meses. Achava que essa limitação era inadequada“, conta. Fez da Errática uma espécie de blog com visual de site, tomando como base a revista Artéria – criada em 1975, com diferentes formatos a cada edição, chegou até a sair no formato de uma sacola, com os poemas de diferentes proporções dentro. “Aquela década foi muito fértil, com publicações impressas que superavam dificuldades. A Errática aplicou esse mesmo princípio na internet, sem obrigar cada trabalho a ter o mesmo padrão“, conta. Na última quarta-feira, entrou no ar a 101ª colaboração, um videopoema da carioca Gabriela Marcondes feito a partir de fragmentos de poesias de nomes como Cruz e Sousa, Florbela Espanca e Machado de Assis.

Performance. Assim como Vallias, o carioca Marcelo Sahea [www.sahea.net] dedica boa parte de seu trabalho à performance – uma espécie de caminho natural para o poeta que antecipa tendências e engloba gêneros. Autor de um e-book lançado em 2001, quando nem se falava no assunto, e que teve à época 15 mil downloads [no formato tradicional de PDF], hoje ele prefere apresentar sua poesia sonora ao vivo. Na avaliação de Vallias, essa tendência deriva das possibilidades virtuais – ler um poema ao mesmo tempo em que se ouve a voz do poeta, por exemplo. “A rede liberou a poesia da literatura. Há uma falsa impressão de que a poesia pertence à literatura, mas, na maior parte das culturas, a poesia oral é a fonte de perpetuação de mitos“, diz.

Uma entre os poucos estudiosos da poesia digital no Brasil, Heloisa Buarque de Holanda avalia que a crítica faz “pouco caso” das novas linguagens. “Como se vê mais quantidade que qualidade, imagina-se que não tem profundidade“, diz. Em 1998, o poeta e antropólogo Antônio Risério fez um estudo pioneiro desse trabalho, o Ensaio Sobre o Texto Poético em Tempo Digital. Doze anos depois, ele admite ter conhecido muito pouco “realmente digno de interesse”. “A maioria se senta diante do computador como se estivesse diante do papel e da velha máquina de escrever. Não se entrega ao novo meio. Os que fazem isso, como Arnaldo Antunes e André Vallias, vêm de antes da existência de blogs e revistas eletrônicas“, diz.

Intercâmbio e tradução para entender a poesia

Em sua terceira edição, o Simpoesia – que acontece de 5 a 7/11 na Casa das Rosas – terá como destaques a tradução, o intercâmbio entre poetas estrangeiros e de vários Estados do Brasil, a discussão sobre a poesia na universidade e a produção digital. O escritor Wilson Bueno, morto em maio deste ano, será homenageado com a presença da premiada poeta e tradutora canadense Erin Moure – o maior nome do evento -, responsável por verter para o inglês textos em portunhol [misto de português, espanhol e guarani] do paranaense. Outros convidados estrangeiros são Bruce Andrews, fundador e coeditor do jornal de vanguarda L=A=N=G=U=A=G=E, e o holandês Arjen Duinker – que, assim como Erin, tem ligação com a língua portuguesa. “Quisemos manter a proposta de encontro internacional, que já havíamos testado no ano passado, mas o foco varia de ano a ano, Neste, quis chamar mais mulheres. Haverá, por exemplo, um recital com cinco tradutoras, o que também aproxima a universidade”, diz Virna Teixeira, curadora do Simpoesia. De outros Estados, participarão nomes como o paraense Nilson Oliveira, da revista Polichinello, e a editora, jornalista e poeta Marize Castro, do Rio Grande do Norte.

Por Raquel Cozer | Publicado originalmente em O Estado de S. Paulo | 23/10/2010