Depois de conquistar os leitores, eBooks agradam aos poetas


Editoras começam a se dedicar à formatação de poesia nos livros digitais e buscam manter “integridade física” dos textos

NOVA YORK – Quando John Ashbery, Prêmio Pulitzer de poesia, constatou que as edições digitais de seus poemas não se pareciam com a versão impressa, ficou chocado. Não havia quebra de linhas e os versos haviam sido espremidos num bloco como se se tratasse de um texto prosa. A cuidadosa arquitetura dos seus poemas desaparecera.

Queixou-se com a editora, a Ecco, e os quatro livros em formato eletrônico foram imediatamente retirados do mercado. Isto aconteceu há três anos. Desde então, a publicação digital evoluiu consideravelmente. As editoras agora criam e-books que preservam melhor a meticulosa formatação dada pelo autor. Portanto, quando a editora digital Open Road Mediaed contactou Ashbery a respeito da criação de versões eletrônicas dos seus livros, ele decidiu dar-lhe mais uma chance.

Na semana passada, a Open Road publicou 17 coleções digitais da obra de Ashbery, pela primeira vez a maior parte dos seus poemas estará disponível em formato de e-book. E ele não pediu nenhum recall.

É muito fiel à formatação original”, disse Ashbery, 87, reconhecidamente um dos maiores poetas vivos do país.

A revolução do e-book já tem mais de dez anos, mas as editoras de poesia lutam para encontrar um lugar no mercado digital. Em 2013, foram lançados 2.050 e-books deste gênero literário, em comparação a cerca de 200 em 2007, ano em que saiu o primeiro Kindle, segundo a Bowker, que acompanha os lançamentos do mercado. No ano passado, os e-books, representaram aproximadamente 20% dos quase 20 mil livros de poesia publicados, em comparação com cerca de 10% em 2012.

Poeta americano John Ashbery | Foto: Reprodução

Poeta americano John Ashbery | Foto: Reprodução

Entre todos os gêneros, a poesia revelou-se o mais resistente à tecnologia digital, não por razões culturais, mas por complexas razões mecânicas. A maioria dos e-books estraçalha as quebras de linhas e versos, tão fundamentais para a aparência e o ritmo do poema. Consequentemente, muitas editoras desistiram de digitalizar poesia, e as obras de alguns dos maiores poetas ainda não estão disponíveis em e-books, inclusive os Cantos de Ezra Pound e poemas de Jorie Graham, Tracy K. Smith, Elizabeth Bishop e Czeslaw Milosz.

O verso é a unidade na qual a poesia se expressa, mas a tecnologia da maioria dos e-books não favorece esta unidade”, disse Jeff Shotts, editor executivo da Graywolf Press.

Entretanto, à medida que a tecnologia foi evoluindo, as editoras começaram a se adaptar. Algumas contrataram programadores para codificar manualmente os livros de poesia de modo que as quebras de linha e os versos são mantidos; outras recorreram ao uso dos PDFs, ou arquivos estáticos, para reproduzir imagens digitais de poemas de formato elaborado, como os versos em forma de raios projetados para fora de Mary Szybist. Certas editoras acrescentaram avisos nos seus e-books, recomendando aos leitores que utilizem um tamanho específico de fonte para visualizar a representação mais acurada de um poema.

A editora independente New Directions, fundada em 1936, começou a publicar e-books de poesia no ano passado. Até o momento, lançou mais de 60 volumes digitais de poesia, inclusive obras de Pablo Neruda, Dylan Thomas e William Carlos Williams.

Farrar, Straus e Giroux começou uma grande arrancada para digitalizar seu catálogo de poesia em janeiro, depois de solucionar algumas espinhosas questões de design e de programação. Este ano, está lançando 111 coleções de poesia digital, em comparação com 17 no ano passado e apenas uma em 2012.

Antes de fazer esta transferência, quisemos ter a certeza de que o que os poetas faziam em termos visuais poderia ser encontrado nos e-readers”, disse Christopher Richards, editor assistente da Farrar. “O aspecto digital de um poema é realmente importante e pode comunicar um tipo de significado; se não for preservado no e-book, o leitor perderá de fato alguma coisa”. A produção de poesia digital ainda é inexpressiva diante da poesia impressa, e alguns escritores e editoras questionam se existe de fato muita demanda de e-books de poesia.

Uma grande porcentagem de leitores de poesia é fetichista: gosta de segurar o livro físico”, disse Michael Wiegers, editor executivo da Copper Canyon Press, especializada em poesia. Para as editoras, o custo é um fator importantíssimo. As vendas de poesia sempre foram muito limitadas em relação às de outros gêneros, e a criação de e-books especificamente programados é dispendiosa, principalmente considerando que o trabalho de poetas menos conhecidos talvez venda apenas poucas centenas de exemplares.

Mas as editoras de poesia dizem que não podem mais ignorar a migração para o digital que começa a dominar a indústria; algumas delas decidiram investir consideravelmente na produção de e-books. A Copper Canyon gastou cerca de US$ 150 mil no projeto de editar livros digitais, utilizando recursos da Fundação da Família Paul G. Allen e de outros doadores. Grande parte do dinheiro foi utilizada para pagar os programadores , disse Wiegers. Nos últimos anos, a Copper Canyon lançou cerca de 125 volumes de poesia digital.

Foram necessárias diversas experiências na base da tentativa e erro, e também no que se referia à programação”, explicou Wiegers.

Alguns poetas continuam inflexíveis quanto à superioridade do livro impresso. Albert Goldbarth, que escreveu mais de 30 livros de poesia, recusa-se a publicar e-books. “Me recuso a fazer isto; é uma questão de princípio”, afirmou, acrescentando que, com as edições impressas ele pode controlar os caracteres, o tamanho da fonte e o layout.

Outros poetas pediram insistentemente que as editoras incluíssem avisos em os seus e-books. O consagrado poeta americano Billy Collins fez a solicitação há alguns anos, ao constatar que a mudança do tamanho da fonte num e-reader “desequilibrou o poema”, como ele disse. Seus e-books agora trazem a advertência de que algumas funções de um e-reader podem mudar a “integridade física do poema”. “A primeira impressão que se tem de um poema é o formato da página”, disse Collins. “Um poema tem uma integridade escultural que nenhum e-reader pode registrar”. A poesia de Ashbery, que escreve frequentemente em versos longos, no estilo de Walt Whitman, e usa a complexa técnica de continuação do verso na linha seguinte alinhado à direita, foi difícil de digitalizar.

Muitos dos meus poemas têm versos muito longos, e para mim é importante que sejam cuidadosamente reproduzidos na página”, afirmou. “O impacto de um poema muitas vezes depende da quebra de linhas, que as editoras de poesia costumam não consideram tão importante quanto o autor do poema”. Depois da primeira experiência fracassada, Ashbery relutou em vender novamente seus direitos para e-books. Mas, há dois anos, seu agente literário contatou Jane Friedman, diretora executiva da Open Road, que estava interessada em publicar versões digitais da obra de Ashbery. Ela assegurou a Ashbery e ao agente que a formatação dos e-books preservaria os seus versos.

Depois de negociações que duraram cerca de um ano, Ashbery concordou em ceder os direitos de 17 coleções.

A produção dos e-books levou vários meses. Inicialmente os livros foram escaneados, digitalizados e cuidadosamente revisados. Então a Open Road enviou os arquivos para a eBook Architects, uma empresa de desenvolvimento de e-books de Austin, Texas. Lá, o texto foi programado à mão e recebeu marcações/ instruções semânticas, para que os elementos formais fossem assinalados respectivamente como versos, estrofes ou quebras de linhas intencionais. Quando um verso não cabe na tela porque ela é pequena demais ou a fonte é grande demais, ele é quebrado na linha de baixo – convenção observada na imprensa há séculos. A tecnologia ainda está longe de ser perfeita. Os poemas de Ashbery conservam melhor sua forma nas telas maiores do iPad, e ficam espremidos, e mais versos ultrapassam a margem num Kindle ou num iPhone.

Segundo os especialistas do gênero, estas pequenas discrepâncias são um preço ínfimo a pagar para garantir o legado de Ashbery na era digital.

John Ashbery é o nosso T.S. Eliot, a nossa Getrude Stein”, observou Roberto Polito, presidente da Poetry Foundation. “É vital que sua obra seja apresentada ao público da maneira mais perfeita no maior número possível de formatos”.

Por Alexandra Alter | Publicado originalmente em The New York Times | Tradução de Anna Capovilla publicada em Estadão | 18 Setembro 2014, às 11h37

O futuro das livrarias e o futuro do mercado editorial


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 05/02/2014

Um dos assuntos que estamos examinando já há muito tempo é o inevitável impacto que o aumento das compras online de livros terá nas prateleiras do comércio e o que isso vai significar para as editoras de livros gerais. [Você vai ver que este discurso que já tem mais de uma década também diz que as editoras terão que se centrar em sua audiência, ou atuar de forma vertical, também.]

Claro, já ocorreu um choque no sistema – um evento “Cisne Negro” – que foi o fechamento da Borders em 2011. Isso, de repente, tirou umas 400 livrarias bem grandes da cadeia. Desde então, a história sobre as independentes – que inclui informações financeiras encorajadoras, mas sem comprovação do Bureau de Análise Econômica [BEA/EUA] e muitos hurras de independentes bem-sucedidas [jogamos um pouco de gasolina nesse fogo com uma importante sessão na DBW que aconteceu na semana passada] – tem sido bastante otimista [apesar de que os dados da Bowker parecem sugerir que a Amazon ganhou mais com a morte da Borders do que qualquer outro player]. E apesar de a Barnes & Noble continuar a mostrar alguma queda de vendas, seus retrocessos mais sérios foram no negócio do Nook, não nas vendas em lojas.

Um fator que distrai a atenção dos analistas pensando nesta questão tem sido a aparente desaceleração no crescimento das vendas de e-books, sugerindo que há leitores de impressos persistentes que não querem mudar. O fato encorajador acaba distraindo porque é incompleto quando se trata de prever o futuro do espaço de prateleira no comércio, que é a questão existencial para as editoras, distribuidoras e livrarias [e, portanto, por extensão, para os autores]. Precisamos saber quais são as mudanças na divisão destas vendas entre online e offline para ter um quadro completo. Se a aceitação do e-book diminuir, mas a mudança para compras online continuar, as livrarias vão sofrer mesmo assim.

Este problema das vendas online versus offline, no lugar de vendas de livros impressos versus livros digitais é central e é a que estamos martelando há anos. Foi ótimo ver Joe Esposito enfatizar o problema em um recente post ao tratar algumas as minhas perguntas favoritas sobre a Amazon. Realizamos na DBW um painel de quatro livrarias independentes bem-sucedidas. Uma das participantes, Sarah McNally da McNally-Jackson, recentemente foi citada dizendo que está preocupada com o futuro de sua livraria no Soho quando seu aluguel terminar. [Os aluguéis aumentam rapidamente naquela parte da cidade.] Enquanto isso, ela está se movendo para não ficar só nos livros e vender bens com muito design e talvez mais duradouros como arte e móveis. [E, neste sentido, McNally-Jackson segue o exemplo da Amazon, não se limitando a ser uma marca de livraria.]

Um amigo meu que, há muito tempo, é representante de vendas independente diz que até mesmo as independentes bem-sucedidas estão sentindo a necessidade de vender livros e outras coisas [cartões, presentes, enfeites] para sobreviver. As mega-livrarias com 75 mil ou mais títulos foram um ímã para os clientes nas décadas de 1970 a 1990. Não é mais assim porque uma livraria com muitos milhões de títulos está disponível em computadores de todo mundo. Isto é um fato que faz com que o número de lojas bem-sucedidas seja um indicador fraco do potencial de distribuição disponível para as editoras. Se os sebos possuem metade do inventário que são publicados, podemos ter muitas histórias de sucesso entre as livrarias independentes, mas mesmo assim temos um ecossistema encolhendo, dentro do qual as editoras distribuem seus livros.

Em geral, os proprietários de livrarias independentes bem-sucedidas e sua associação, a American Booksellers Association, pintam o momento como favorável para livrarias independentes. Eles rejeitam o ceticismo de pessoas, que como eu, acreditam que a atual onda de aparente boa sorte é causada por uma janela de tempo [agora] em que o fechamento da Borders removeu espaço na prateleira mais rápido que a Amazon e os e-books removeram a demanda por livros nas lojas.

Tem sido uma profissão de fé silenciosa achar que as livrarias não passariam pelo que aconteceu com as lojas de discos ou de aluguel e venda de vídeos, dois segmentos que desapareceram quase completamente. O livro físico tem usos e virtudes que um CD, um disco de vinil, um DVD ou uma fita de vídeo não possuem, sem falar que um livro físico é seu próprio player. Mas também fornece uma experiência de leitura qualitativamente diferente, enquanto que outros formatos “físicos” não mudam o modo de consumo. Claro, isso só ajuda as livrarias se as vendas continuarem offline. As pessoas comprando livros online têm grandes chances de comprar da Amazon. Em outras palavras, é perigoso usar a capacidade do livro para resistir garantindo a capacidade das livrarias de se sustentar. As duas coisas não estão conectadas de forma indissociável.

Mas o destino de quase todas as editoras gerais está inextricavelmente conectada ao destino das livrarias. Só há duas exceções. A Penguin Random House é uma, porque é grande o suficiente para criar livrarias próprias apenas com seus livros. A outra são as editoras verticais com suas audiências o que abre a possibilidade de criarem pontos de vendas que não sejam exatamente livrarias. Livros infantis e de artesanato são possibilidades óbvias para isso; não há muitos outros.

O sentimento que eu tive na Digital Book World é que a maioria das pessoas na indústria ou rejeitou ou quer ignorar a possibilidade de que haverá uma erosão ainda mais séria da indústria nos próximos anos e que isso ameaçaria as práticas centrais da indústria. Com mais da metade das vendas de muitos tipos de livros – ficção na área geral, claro, mas também muitos tópicos especializados, profissionais e acadêmicos – já online, muitos parecem sentir que qualquer “ajuste” necessário já foi feito. Eles receberam apoio para seu otimismo na Digital Book World. O guru do mercado de ações Jim Cramer apresentou sua visão do futuro da Barnes & Noble [porque ela é a última rede de livrarias] e, do palco principal, foi apresentada a ideia de que o Walmart poderia comprar e operar a B&N como parte de uma estratégia anti-Amazon.

Tudo isso é possível e não tenho dados para refutar a noção de que chegamos a algum tipo de nova era de estabilidade da livraria, só uma sensação que não me abandona de que nos próximos anos não será assim. Não quero ignorar os sinais positivos que vimos no último ano mais ou menos. E o declínio geral nas compras em livrarias versus online afeta todo o comércio, não só livros, então é possível – alguns poderiam dizer que é provável – que o aperto dos aluguéis vá diminuir. Não é só o espaço em prateleiras que parece estar sobrando em comparação com a demanda; esta é uma verdade em todo o comércio. Então sua impressão pode diferenciar e teria alguma lógica para apoiar um ponto de vista contrário.

Mas meu palpite [e isso não é uma “previsão” como em “isso vai acontecer; corram para o banco”] é que o espaço de prateleira para impressos na Barnes & Noble e em outras livrarias poderia muito bem diminuir uns 50% nos próximos cinco anos. Qual CEO ou CFO de uma editora geral consideraria prudente não levar em conta esta possibilidade em seu próprio planejamento?

Obviamente, menos espaço em prateleira e mais compras online mudam as práticas de cada editora de muitas formas. Elas vão querer implementar mais recursos para o marketing digital e menos para a cobertura de vendas. Vão querer ter menos espaço de estoque e menos inventário, mudando a economia geral de seu negócio. Como estamos falando há anos, elas vão achar importante a consistência vertical: adquirir títulos com apelo consistente à mesma audiência. A própria base de dados de consumidores de cada editora vai se tornar um componente cada vez mais importante de seu lucro: ativos que fornecem valor operacional hoje e valor de balanço se forem compradas.

Mas, acima de tudo, as editoras terão que pensar em como elas manterão seu apelo frente aos autores se colocar livros nas livrarias se tornar o componente menos importante da equação geral. Ainda é verdade que colocar livros nas lojas é necessário para chegar perto da penetração total entre a audiência potencial de um livro. Ignorar o mercado de livrarias obviamente custa vendas, mas também tem um custo de percepção que reduz as vendas online. [Afinal, as lojas estão muito conscientes do efeito “showroom”: clientes que cruzam suas prateleiras com smartphones na mão, fazendo pedidos da Amazon no ato!]

Mas isso acontece hoje quando a divisão online-offline pode estar perto de 50-50 no geral e 75-25 para certos nichos. Se estes números chegarem a 75-25 e 90-10 nos próximos cinco anos, o mercado de livrarias realmente não vai importar muito para a maioria dos autores. Seja pela autopublicação ou por alguma editora nova que não tem as capacidades das grandes editoras de hoje, mas também não possui toda a estrutura de custo, os autores vão sentir que as grandes organizações são menos necessárias do que são agora para ajudá-los a realizar todo seu potencial.

Taxas de royalties mais altas para e-books, pagamentos mais frequentes e contratos mais curtos são todas formas pouco atrativas, da perspectiva da editora, para resolver esta questão. Até agora o mercado não forçou as editoras a oferecer isso. Se as livrarias conseguirem se manter, a necessidade de usá-las não será muito forte por algum tempo. Mas se não conseguirem, a maioria das editoras terá poucos elementos para continuar a atrair autores para suas fileiras.

Já estamos vendo grandes editoras afastando-se aos poucos dos livros que não demonstraram grande capacidade de vender bem no formato de e-book: livros ilustrados, livros de viagem, livros de referência. Isso implica uma expectativa que o componente online – especialmente o segmento de e-book – já mudou o mercado ou certamente vai mudar em pouco tempo. Ajustes aos termos padrão com autores é outra questão que ainda não foi resolvida, mas se o mercado continuar a mudar, poderia ficar muito difícil manter as coisas como estão.

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 05/02/2014 | Texto originalmente publicado no The Shatzkin File | Tradução: Marcelo Barbão

Mike Shatzkin

Mike Shatzkin

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].

Smashwords é o maior produtor de eBooks independentes dos EUA, segundo a Bowker


A Bowker classificou o site Smashwords como o maior produtor de e-books independentes em 2012, segundo o relatório anual sobre autopublicação. Smashword também ficou em segundo lugar como maior produtor de livros autopublicados, após o CreateSpace, contabilizando a produção conjunta de livros impressos e e-books [o Smashwords não imprime]. Segundo a análise da Bowker dos dados de ISBN, o número de títulos autopublicados em 2012 pulou para mais de 391 mil, um aumento de 59%, em relação a 2011, e 422% em relação a 2007.

PublishNews | 13/11/2013

Vendas online, territorialidade e pirataria


Russ Grandinetti, Vice-Presidente de Conteúdo do Kindle, falou na conferência Publishers Launch

Fotógrafo PublishNew

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Em 2012, a conferência Publishers Launch Frankfurt, que antecede a feira de livros todos os anos, teve um foco na ‘descobertabilidade’ e na velha briga do impresso versus digital. Apesar de ainda importantes, este ano os apresentadores da conferência mostraram ter superado um pouco esses temas. Em 2013, a Publishers Launch Frankfurt deu destaque para vendas online e restrições da indústria, seja de território ou de DRM.

Comércio eletrônico

Quando o assunto é vendas online, a Amazon, hélas, mais uma vez desponta como grande mercado. Os insights de Russ Grandinetti, VP de Conteúdo do Kindle, na manhã desta terça-feira, foram portanto o grande destaque neste dia pré-FBF.

Para Grandinetti, a forma de vender livros está mudando fundamentalmente: “Uma editora que não pensa num plano de ação para seu autor que comece pelo digital está fazendo um desserviço a este autor”. Os dados confirmam a preocupação de Grandinetti. Com informações da Bowker, ele mostrou que, nos EUA, a porcentagem da venda de livros físicos e digitais pulou de 27% a 42% entre 2010 e 2012. No Reino Unido, ela passou de 26% para 37% no mesmo período.

Não existe mais a ideia de que o livro digital vai acabar com o impresso. Segundo o VP, os usuários do Kindle compram mais livros em geral, inclusive físicos. “Por muito tempo tivemos essa ideia de que esse mercado tinha um tamanho fixo”, disse Grandinetti, mostrando que as vendas de livros físicos na Amazon também subiram, mesmo depois da chegada do e-reader.

Porém, o crescimento das vendas de livros físico não é nem de perto tão acentuado quanto as dos e-books, que em alguns poucos anos superaram a dos impressos. Para Grandinetti, esse é o caminho que outros mercados seguirão também, a diferença é apenas temporal. Em um dos raros momentos em que profissionais da Amazon apresentam dados sobre tendência de vendas [ou qualquer outro tipo de informações], o VP mostrou que os dados iniciais das vendas do Kindle na Amazon, comparadas às vendas de livros físicos da loja na Alemanha e no Japão seguem o mesmo padrão que o dos EUA e Reino Unido. Ele alerta: “Não tem nada que indique que outros países não seguirão o mesmo padrão dos EUA e Reino Unido”.

Mercado global

Outra mudança fundamental é a territorialidade do mercado. As vendas da Amazon mostram que e-books em inglês vendem globalmente. Na Índia, por exemplo, elas mais que dobraram nos últimos anos.

Paralelamente, e-books estrangeiros também vendem globalmente: as vendas de livros estrangeiros na Amazon americana dobraram anualmente desde 2009. E nesse ponto Grandinetti mostrou uma sombra de autocrítica: “Nesse aspecto, acho que nosso catálogo tem muito a crescer ainda”. 77% dos e-books em espanhol estão disponíveis na loja americana, mas apenas 51% dos títulos em alemão, 25% dos italianos e apenas 5% dos títulos em francês estão lá também.

A questão da territorialidade foi enfatizada no painel seguinte, onde Rebecca Smart, CEO do grupo Osprey, enfatizou que, apesar de ser ainda pequena, todos os direitos da sua editora são globais, e comenta o atraso ainda das editoras nesse aspecto: “A indústria ainda é muito ligada na abordagem territorial”.

Concorrência

Assim como falou no Brasil, em sua visita à Bienal de São Paulo do ano passado, Grandinetti voltou a enfatizar que a concorrência do livro digital é outra. “Os consumidores não estão comparando livros. Eles estão comparando formas de entretenimento”. O livro entrou no hall dos games e aplicativos, filmes e televisão. E como ajudar o livro a se manter na jogada? “É sexta a noite, daqui a duas horas você vai dormir e está procurando um entretenimento. Você tem a opção entre Angry Birds e esse livro”, falou Grandinetti, mostrando um slide de um e-book da Amazon que custava US$16. “Eu acho que nesse caso a pessoa escolheria Angry Birds”.

Pirataria

Para Russ, ter o livro no formato digital a um preço que o consumidor queira pagar é, além de evitar perdas de vendas, uma maneira de lidar com a pirataria. Pode parecer contraintuitivo, mas seu argumento é reforçado pelos dados sobre e-books. Dos mil autores mais vendidos e em estoque, a porcentagem daqueles que possuem pelo menos um título no Kindle é de 98% nos EUA. Para o Reino Unido esse número é de 95%, seguido da Alemanha, com 89%. Seguem França [71%], Japão [64%], Itália [53%] e, por último, Espanha. Não é à toa, para Grandinetti, que na Espanha, onde apenas 46% dos mil autores mais vendidos tem pelo menos um livro no Kindle, o país esteja enfrentando problemas de pirataria.

Outro participante que concordou com Grandinetti é o novo CEO da HarperCollins, Charlie Redmayne. No ano passado ele participou da Publishers Launch como CEO da Pottermore e este ano voltou para falar sobre os novos desafios da HarperCollins. Redmayne contou que, da sua experiência com a Pottermore, “aprendemos que tirar o DRM dos livros não aumenta a pirataria; é não disponibilizar o livro a um preço que o consumidor queira pagar que aumenta a pirataria”.

Por Iona Teixeira Stevens | PublishNews | 08/10/2013

Menos de 40% dos leitores de eBooks nos EUA são homens


Pesquisa também revela que os livros eletrônicos são mais populares entre pessoas consideradas jovens, abaixo dos 45 anos

Um novo estudo feito pela equipe da Random House sobre leitura de e-books nos EUA acaba de ser divulgado. As informações são do blog The Digital Reader.

A partir de relatórios de empresas como Pew, Bowker e Forrester, o site tentou entender quem são os consumidores de e-books e quais são seus hábitos de leitura. O resultado está no infográfico abaixo:

Who Reads eBooks?

Publicado originalmente em IDG NOW | 29 de janeiro de 2013, às 12h00

Ligação direta com o leitor


Com a popularização de ferramentas para produção e venda de ebooks e o sucesso de obras lançadas sem mediação de grandes editoras, escritores investem na autopublicação, que dá nova cara ao mercado, inclusive no Brasil, onde a Amazon começou suas operações há duas semanas

Até o meio da semana, a segunda posição da lista de ebooks mais vendidos pela Amazon nos Estados Unidos era ocupada por “Stop the wedding!”, romance da americana Stephanie Bond. O livro, sobre como uma advogada e um investidor tentam impedir seus pais de se casarem mas acabam se apaixonando, foi lançado em novembro. Ele não existe em versão física e, até o momento, não está à venda em outro lugar que não seja o site da Amazon. Sua editora é uma tal NeedtoRead Books, casa que tem em seu catálogo 16 livros. Todos de Stephanie Bond. O que a autora tem feito é utilizar os recursos da Amazon para lançar seus próprios livros, sem a necessidade de uma grande editora como intermediária. Ela é um dos mais recentes exemplos da popularização de uma prática que está transformando o mercado editorial: a autopublicação.

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Casos como o de “Stop the wedding!” vêm se repetindo. Ao longo de 2012, foi comum a inclusão, na lista de mais vendidos do jornal “The New York Times”, de livros lançados pelos próprios autores. Foram obras como “Slammed”, de Collen Hoover, “Playing for keeps”, de R.L. Mathewson, ou “Training Tessa”, de Lyla Sinclair. Elas existem porque a Amazon tem um sistema que permite a qualquer pessoa colocar um ebook à venda no site. Em geral, são livros baratos [“Stop the wedding!”, por exemplo, custa US$ 0,99], com temas que “variam” da comédia romântica ao drama romântico, com especial destaque para o erotismo romântico — a sensação do ano, a trilogia erótica “Cinquenta tons de cinza”, de E.L. James, foi publicada pela primeira vez pela própria autora num fórum de fãs de “Crepúsculo”, antes de a editora Vintage Books lançá-la nos moldes tradicionais.

Mas há livros de turismo, acadêmicos, de fantasia ou reportagens sendo “autopublicados” com sucesso, inclusive no Brasil, onde a Amazon começou suas operações há duas semanas. Eles representam uma democratização no acesso a um mercado antes restrito [qualquer desconhecido que já tentou publicar um livro por uma editora sabe da dificuldade que é ter seus originais aceitos] e um desafio para as editoras.

— Com a autopublicação, qualquer um, empresa, universidade ou autor, pode se tornar sua própria editora. Se as grandes casas editoriais não se mexerem, elas certamente serão afetadas por esse panorama — afirma Harald Henzler, diretor-geral da empresa alemã de consultoria para negócios digitais Smart Digits.

A história da autopublicação remonta às origens do mercado editorial. No século XIX, era comum autores que depois teriam sucesso bancarem a publicação de seus próprios livros. No século XX, mimeógrafos foram constantemente utilizados para a reprodução de livros de escritores que não conseguiam contratos com editoras ou não tinham autorização para lançar suas obras por questões políticas. Com a popularização da internet, há pouco mais de uma década, jovens autores lançaram romances em sites ou blogs. Mas o que todos queriam mesmo era um contrato com uma editora, o que possibilitaria que um livro chegasse a uma grande livraria com destaque, tivesse uma divulgação organizada e, por consequência, ganhasse mais leitores.

A diferença, hoje, é que se pode ter tudo isso por conta própria, até mesmo de uma maneira profissional. Na esteira do serviço de autopublicação da Amazon, surgiram empresas que oferecem aos autores um pouco da expertise de uma editora. Antes de pensar em lançar seu livro, o autor pode contratar a revisão, a produção da capa, a conversão do texto para o formato digital e até mesmo a edição do texto. Um livro autopublicado pode, sim, ter um tratamento tão bom quanto o oferecido por uma editora tradicional. O que ele não vai ter é a marca. E isso, para muita gente, ainda faz diferença.

— A editora sempre vai ter um peso, ao menos o peso da credibilidade — diz Ana Paula Maia, que, antes de se tornar uma escritora reconhecida, já pagou parte da publicação de “O habitante das falhas subterrâneas” em 2003, pela 7Letras [o livro será relançado na semana que vem pela editora Oito e Meio] e também publicou um romance inteiro num blog [“Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos”, de 2006, posteriormente lançado pela editora Record]. — Existe um valor grande agregado a uma grande editora. Ela indica para os leitores um padrão de qualidade, mas o que também não quer dizer que você é um grande autor só por estar numa editora. Neste mundo novo, acho que a editora vai ter um papel mais opinativo. Não vai ditar mais as regras, mas vai ser um filtro.

‘A marca das editoras é muito forte’

A questão é que, neste mundo novo descrito por Ana Paula, as editoras tradicionais estão tentando seguir essa estrada da autopublicação. Em julho, a Penguin comprou por US$ 116 milhões a Author Solutions, uma das principais plataformas de autopublicação na web dos EUA. O trabalho da Author Solutions consiste exatamente em oferecer a autores os recursos necessários para lançar seus livros com uma roupagem de qualidade: em seu site, a empresa fundada em 2007 diz já ter “ajudado mais de 100 mil autores a publicar mais de 170 mil títulos e alcançar seus objetivos editoriais”.

Antes, a própria Penguin já havia lançado um braço próprio para oferecer a autores a possibilidade de autopublicação, ideia que foi seguida por outras editoras, como a Random House.

— As editoras enxergam a autopublicação como uma forma de descobrir novos autores e testar novos conceitos — diz o americano Greg Bateman. — Mas elas não vão perder terreno com a prática. Com os livros digitais, haverá um espaço grande para todos crescerem. O futuro é muito bom para todos.

Bateman participou da equipe que desenvolveu o Kindle, o leitor digital da Amazon lançado em 2007, e é o criador do Vook, uma plataforma de produção de ebooks. Desde o início deste ano, ele está morando em São Paulo, justamente por acreditar que há um terreno fértil no Brasil para o crescimento do livro digital. Na próxima terça-feira, às 19h30m, ele estará no Oi Futuro do Flamengo, para participar do evento Zona Digital, em que vai abordar o tema do “livro aplicativo”.

— No Brasil, a marca das editoras é muito forte. Mas o poder do automarketing, de redes sociais como Facebook e Twitter, também é muito forte. Então as marcas não são mais 100% necessárias para vender livros. É preciso buscar outras formas, e é isso que os profissionais que lidam com autopublicação estão fazendo — afirma Bateman.

Um dos pilares da autopublicação está em se libertar do que seriam as amarras do mercado. Um autor que paga por sua obra não precisa esperar na fila de uma editora, muito menos precisa ouvir opiniões de um editor [muitas vezes duras, mas também reais] sobre seu livro. Para ele, vale a divulgação pela internet, em redes sociais e sobretudo nas resenhas escritas pelos próprios leitores [e, claro, por que não?, por amigos e parentes] no site da Amazon.

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De acordo com um relatório da Bowker, a agência que cuida dos registros americanos do ISBN, cerca de 87 mil ebooks foram publicados por seus próprios autores nos EUA, um número 129% maior do que o de 2006, antes de o Kindle ser lançado. Só que lançamento ainda não é sinônimo de venda. Por enquanto, a maioria dos livros de autopublicação não é comprada por mais de cem leitores.

— Uma editora tradicional sabe como trabalhar um livro comercialmente, tem todo um conhecimento que não pode ser menosprezado — afirma Otávio Marques da Costa, publisher da Companhia das Letras. — Minha impressão é que a Amazon tinha a expectativa de que a autopublicação fosse estourar e dar certo muito rápido. Mas não aconteceu com a velocidade que esperavam, e a própria Amazon acabou lançando uma editora nos moldes tradicionais.

Marques da Costa argumenta, ainda, que o que vem ocorrendo hoje com o sucesso de algumas obras publicadas de forma independente é mais um fenômeno de nicho do que uma ameaça ao formato consagrado pelas editoras.

— Esses grandes fenômenos de autopublicação costumam ser romances femininos ou eróticos. Raramente algo diferente aparece. Mas, mesmo nesses casos, geralmente os autores acabam assinando depois com as grandes editoras, como foi o caso do “Cinquenta tons de cinza” — diz ele. — Para o leitor, o julgamento de uma grande editora, do que deve ou não vir a público, é muito importante.

Na última quarta-feira, a versão em ebook de “Cinquenta tons de cinza”, lançada no Brasil pela editora Intrínseca, estava em sexto lugar na lista dos mais vendidos no site brasileiro da Amazon. Já em sétimo, logo atrás do maior sucesso de 2012 no mercado editorial, aparecia um livro chamado “Paris para principiantes”, um guia de viagem com texto e fotos de Paulo de Faria Pinho.

‘A filosofia é outra’

Ao preço de R$ 1,99, “Paris para principiantes” foi lançado pela KBR, uma empresa com 91 títulos no catálogo, em que os próprios autores pagam pela publicação de seus livros. A sede da KBR fica em Petrópolis, região serrana do estado do Rio, na casa de sua fundadora, CEO, única funcionária e uma de suas principais autoras, Noga Sklar.

— O jogo ficou aberto para todo mundo. Antes da chegada da Amazon, a KBR não era nada. Agora, estou aqui pensando no que vai ser o futuro da empresa — explica Noga. — Até agora, o editor era aquele santo no altar, ninguém conseguia falar com ele. Eu como autora sempre fui maltratada, sofria rejeição. Mas há milhões de outras saídas, não precisa ficar na fila de uma editora por três anos, esperando alguma coisa acontecer.

Também no site brasileiro da Amazon, um dos livros mais vendidos dentro da categoria “erótico” é “Sem graus de separação”, um dos oito já lançados por Noga. A KBR foi criada justamente para levar à Amazon americana os livros de sua fundadora e cresceu quando ela passou a ser procurada por outros autores interessados em oportunidades semelhantes de levar sua obra para o público. Noga costuma chamar seus autores de “sócios” da empresa, já que eles financiam boa parte do trabalho de produção.

— Se as grandes editoras não perceberem que o negócio mudou, elas vão ter problemas. A filosofia é outra. Essa coisa de as editoras fazerem tiragem vai acabar. Elas também vão ter que começar a olhar mais para as redes sociais e outros canais de promoção. O que a Amazon faz melhor é tratar bem o consumidor. É tudo personalizado. Eles te chamam pelo nome, sabem seu gosto. E permitem que você compartilhe suas impressões sobre um livro em avaliações que têm tanto valor quanto a de qualquer profissional — diz Noga.

Porém, mesmo com o bom resultado de “Paris para principiantes” na lista de mais vendidos da Amazon, havia até o meio da semana uma única avaliação de consumidor sobre o livro. “O ‘Paris’ de Paulo Pinho é uma caixa de surpresas e uma joia de livro, com crônicas deliciosas, lindas fotos do próprio autor e dicas inusitadas”, diz a resenha, acompanhado da cotação máxima de cinco estrelas, escrita pela própria Noga Sklar.

Definitivamente, uma característica fundamental do universo da autopublicação é saber vender o próprio peixe.

Por André Miranda | Publicado originalmente em O Globo | 15/12/2012

Preços de eBook caem nos EUA em 2011


Categoria de não ficção foi a mais afetada

O site Publishers Weekly informou na última sexta que, apesar das preocupações da justiça americana com conluios no mercado de e-books e seu possível efeito no preço dos livros digitais, um relatório da Bowker mostra que os preços de e-books na verdade caíram entre 2010 e 2011. A categoria de não ficção foi a que mais sofreu queda: os preços passaram de uma média de US$ 9.04 para US$ 6.47. A queda de preços no mercado digital afetou também o preço geral dos livros, apesar da mudança ter sido da ordem de alguns centavos. O site destaca também um estudo que mostra que os baby boomers compram hoje em dia menos livros que a geração Y, nascidos após 1979.

Por Iona Teixeira Stevens | PublishNews | 13/08/2012

Brasil e Índia no caminho da rápida adoção dos livros eletrônicos


Por Felipe Lindoso | Publicado originalmente em PublishNews | 15/05/2012

O 3º Congresso do Livro Digital, organizado pela CBL, revelou-se melhor que os dois primeiros em um ponto fundamental: um número menor de vendedores de apps e programinhas, que compareciam menos para demonstrar tendências e mais para propor a venda de serviços para os tupiniquins embasbacados pelas novidades, o que geralmente não conseguiam, porque o pessoal daqui é desconfiado e muquirana.

Ainda assim, a mesa “Inovando suas publicações com aplicativos” foi um exemplo lamentável desse tipo de coisa. O único interessante, que apresentou a Nuvem de Livros, poderia ter servido de pano de fundo para um debate importante: o interesse por “conteúdo grátis”, que é turbinado pelas telefônicas e pelos provedores de serviços da internet, para os quais quanto mais tráfego O 3º Congresso do Livro Digital, organizado pela CBL, revelou-se melhor que os dois primeiros em um ponto fundamental: um número menor de vendedores de apps e programinhas, que compareciam menos para demonstrar tendências e mais para propor a venda de serviços para os tupiniquins embasbacados pelas novidades, o que geralmente não conseguiam, porque o pessoal daqui é desconfiado e muquirana.

Provocado pelo “grátis” ou pelo menos “baratinho” é importantíssimo. Eles cobram pelo tráfego de informação através de seus sistemas, e quanto mais nós contribuirmos com conteúdo grátis, melhor para eles. Isso merecia uma discussão. Mas os outros dois “palestrantes” dessa mesa, que foi o ponto mais baixo do evento, eram apenas patéticos vendedores que pareciam nem saber que tipo de pessoas compunha a plateia.

As duas palestras mais interessantes do Congresso foram, na minha opinião, as de Jonathan Novell, da Nielsen, e a de Kelly Gallagher, da R.R. Bowker. Foi uma fantástica oportunidade de ver, na prática, como os metadados constituem, hoje, um elemento essencial para que a indústria editorial possa cumprir seu papel de entregar os livros a seus leitores.

Jonathan Lowell, da Nielsen, foi o primeiro. A Nielsen é uma empresa internacional de coleta e análise de dados de mercado. Há alguns meses, Roberto Feith, do SNEL, anunciou que havia tratativas para que a empresa instalasse no Brasil o seu sistema de rastreio de vendas on-line de livros, o BookScan [eles têm sistemas semelhantes para outros produtos de varejo], e nossa colega Roberta Campassi, depois da palestra, soube que ele confirmou que isso acontecerá até o fim do ano.

Alvíssaras. Poderemos ter dados confiáveis, pelo menos sobre as vendas de varejo, já que pesquisa de produção editorial da CBL/SNEL ficou comprometida com a apresentação de dados diferentes para o mesmo ano. Ao que tudo indica, pelo menos no que concerne às vendas no varejo, poderemos ter dados confiáveis.

O BookScan registra em tempo real as vendas nas empresas de varejo [e bibliotecas, para empréstimo], que aceitem instalar o sistema. Permite aos editores saber, em tempo real, onde foi vendido cada um dos livros, a que horas, qual o cartão de crédito usado, as condições de venda, se o comprador faz parte de programas de fidelização e coisas do estilo. Mas, como Lowell chamou atenção, esses dados por si só ainda fornecem “poucas” informações. A análise se enriquece geometricamente se os livros contiverem metadados enriquecidos, de modo que as tendências na compra de cada exemplar possam ser agrupadas de maneira efetiva por gêneros, e cruzadas com outras variáveis. Para informações mais abrangentes sobre o BookScan, veja http://migre.me/956Sm .

Os instrumentos proporcionados pelo BookScan só serão úteis se os editores aprenderem a “mastigá-los”, de modo a permitir uma tomada de decisão bem fundamentada. Os dados não decidem o que fazer, mas permitem que sua análise informe quais as opções que melhor se adequam a cada editora, a cada momento. As livrarias, por sua vez, passam a dispor não apenas dos dados provenientes de suas vendas, mas podem comparar desempenhos de títulos e gêneros em outras regiões, em outros tipos de varejo etc.

São todas informações que devem ser trabalhadas. O que, infelizmente, nem editores nem livreiros andam muito habituados a fazer, salvo as famosas e honradas exceções.

No âmbito da análise de dados a partir do comportamento dos consumidores, a palestra de Kelly Gallagher abriu outras perspectivas.

Gallagher trabalhou com um conjunto de dados proveniente da uma pesquisa recém terminada em abril passado, o Global eBook monitor all country comparison – Final report. Usou também, como exemplo, um relatório do PubTrack, o sistema que analisa casos específicos.

O primeiro relatório terá sua versão sintética, referida a dez países [Austrália, Brasil, França, Alemanha, Índia, Japão, Coreia do Sul, Espanha, Reino Unido e EUA] disponível gratuitamente para download em breve aqui. Mas avisou: o relatório específico sobre o Brasil, só vendido. Lição para os editores: informação aparentemente custa caro, mas vale muito quando se aprende a usá-la.

O relatório sobre tendências globais para o consumo de livros eletrônicos mostrou as razões do interesse da Amazon no mercado brasileiro, e que são as mesmas pelas quais eventualmente teremos mais editoras internacionais querendo pescar uma fatia desse mercado. A pesquisa mostra que 18% dos consumidores já haviam adquirido pelo menos um livro eletrônico nos seis meses anteriores à pesquisa, e que esse índice tenderia a triplicar em curto prazo. Outro ponto interessante mostra que, nos mercados mais “maduros” [Reino Unido e EUA, por exemplo], as mulheres, e mais velhas, compram mais e compram mais ficção. Nos mercados “emergentes”, como no Brasil e na Índia, são os homens, e de uma faixa etária mais baixa, e há grande interesse pelos livros da área técnico-científica e profissional. É mais fácil se atualizar na área técnica via livros eletrônicos.

Segundo o relatório, os Estados Unidos, Austrália e Reino Unido são os países com os maiores índices de adoção de e-books, mas a Índia e o Brasil são os que apresentam as melhores condições para um rápido crescimento. A combinação da análise das porcentagens com o tamanho da população [e o ambiente econômico geral] é que coloca o Brasil e a Índia na ponta de lança do crescimento numérico de e-books a curto prazo.

O outro componente dessa equação será a disponibilidade de e-readers mais baratos, se a Amazon e a Kobo conseguirem colocar seus aparelhos por volta de R$ 200.

Vale mencionar um aforismo do Ed Nawotka, o editor da Publishing Perpectives há alguns meses: livro pirateado é o que não foi lançado em condições adequadas. Eduardo Melo, da Simplíssimo, que participou em outra mesa no Congresso, também afirmou que, se os editores não ocuparem o espaço, os livros pirateados irão atender a essa demanda.

No segundo relatório Gallagher mostra um dos trabalhos feito sobre encomenda, no caso sobre livros de cozinha. A pesquisa parte do fato de que as vendas de livros de cozinhas [nos EUA] estavam em queda. Mas a análise dos dados desagregados por grupos geracionais mostrava que uma determinada faixa etária se comportava de maneira diferente, comprando cada vez mais livros de cozinha. Resultado: produção de material para aquela faixa etária pelo editorial; marketing voltado para o grupo; comercialização em pontos de venda frequentados pelo grupo etário. Essa análise foi possível combinando informações de diferentes fontes, desde as pesquisas da própria R. R. Bowker sobre comportamento de consumidores, até os dados do BookScan.

Editar é uma arte, mas é uma arte que pode e deve ser informada pelo conhecimento científico. Saber quem são e onde estão os consumidores é algo que se torna cada vez mais crucial para que os leitores achem os livros que querem, e o editor possa lhes oferecer esses produtos. Mas recuperar essas informações de modo inteligível, de modo a poder analisá-las e tomar decisões informadas exige um pré-requisito: que os livros que circulam na web – não apenas os livros eletrônicos, mas todos os livros, cujas operações de compra e venda acabam registradas na Internet – estejam acompanhados desse “recheio” fundamental: os metadados.

Por Felipe Lindoso | Publicado originalmente em PublishNews | 15/05/2012

Felipe Lindoso

Felipe Lindoso é jornalista, tradutor, editor e consultor de políticas públicas para o livro e leitura. Foi sócio da Editora Marco Zero, diretor da Câmara Brasileira do Livro e consultor do CERLALC – Centro Regional para o Livro na América Latina e Caribe, órgão da UNESCO. Publicou, em 2004, O Brasil pode ser um país de leitores? Política para a cultura, política para o livro, pela Summus Editorial.

A coluna O X da questão traz reflexões sobre as peculiaridades e dificuldades da vida editorial nesse nosso país de dimensões continentais, sem bibliotecas e com uma rede de livrarias muito precária. Sob uma visão sociológica, este espaço analisa, entre outras coisas, as razões que impedem belos e substanciosos livros de chegarem às mãos dos leitores brasileiros na quantidade e preço que merecem.

Dez lições dos editores de livros infantis digitais


Assunto foi debatido na conferência PublishersLaunch Children’s Publishing Goes Digital

O debate sobre a criação de e-books, aplicativos e conteúdo multimídia para o público infantojuvenil levantou muitas perguntas e poucas respostas definitivas durante a conferência PublishersLaunch Children’s Publishing Goes Digital Children’s Publishing Goes Digital, que ocorreu na Feira de Frankfurt. Mas há pelo menos um consenso entre os editores e executivos que já mergulharam nesse universo: os produtos digitais para crianças são, ao mesmo tempo, os mais desafiadores e os que oferecem algumas das melhores oportunidades para inovar. Veja algumas das ideias e lições que diversos profissionais especializados no mercado infantojuvenil compartilharam no evento.

1] É hora de experimentar: Para Russell Hampton, presidente da Disney Publishing Worldwide, o braço editorial da Disney, ninguém encontrou ainda uma “estratégia vencedora” no mercado de livros infantojuvenis digitais, portanto este é o momento para as editoras fazerem experiências com relação aos conteúdos, preços, interatividade, distribuição e marketing de seus produtos.

2] Não-ficção também tem vez: ao invés de se concentrar exclusivamente em e-books de ficção, como boa parte das editoras, a Gallimard Jeunesse decidiu investir também em livros digitais de não-ficção, a partir de títulos que já fazem parte do catálogo impresso da editora francesa. A ideia é lançar separadamente vários títulos interativos que depois, juntos, podem funcionar como uma enciclopédia.

3] Menos é mais: e-books e aplicativos para crianças devem ser muito fáceis de navegar e intuitivos, com ícones óbvios e orientação visual, muito mais do que auditiva. Além disso, a boa história nunca pode faltar. Esses são os principais conselhos de Jennifer Perry, vice-presidente da Sesame Workshop, organização americana sem fins lucrativos que gerencia os produtos da Vila Sésamo e uma das empresas que vem emplacando e-books e aplicativos best-sellers no mercado infantil americano.

4] Produtos multimídia exigem novos contratos: muitos autores ainda têm receio de ver seu trabalho transformado em vídeo ou em aplicativos, segundo Paula Allen, vice-presidente da Nickelodeon Global Publishing. Por causa disso, alguns contratos estão incluindo uma cláusula que determina a revisão das condições envolvendo a venda de produtos eletrônicos a cada 18 meses, para que a negociação reflita as práticas de mercado e as tecnologias que estão sendo desenvolvidas.

5] Games como modelo: licenciar e-books e aplicativos para parceiros internacionais ou adaptar diretamente o conteúdo para outros idiomas? Essa é uma questão central para quem produz conteúdo digital. Para Michael Bower, da empresa espanhola Touchy Books, a segunda opção é mais interessante. “Das nossas vendas diretas, 70% são em inglês e 30% já são em outros idiomas“, afirma. Por que eu abriria mão desses 30% de receita?”. A indústria de games pode ser usada como modelo, já que os produtores criam seus conteúdos já em seis diferentes línguas e depois os distribuem para parceiros que cuidam principalmente das vendas em mercados locais.

6] Amostra grátis não faz mal a ninguém: oferecer trechos de livros ou alguns e-books gratuitamente faz parte da estratégia para ganhar consumidores no mundo digital. A Sesame Workshop se prepara para oferecer até o fim do mês os primeiros e-books gratuitos em seu site. Permitir que os livros digitais sejam visualizados nos sites das varejistas também é importante, especialmente porque os pais das crianças podem checar o conteúdo antes da compra.

7] Cuidado com a propaganda: a Touchy Books descobriu que lançando seus títulos individualmente na Apple Store eles ficavam perdidos, mas criando um aplicativo onde ela pode expor todos os seus produtos ela conseguia concentrar a atenção dos leitores e aparecia muito mais vezes entre os aplicativos mais baixados da Apple. Também descobriu que pode mandar informações sobre novos lançamentos a um milhão de pessoas que já baixaram a ferramenta. “Mas só enviamos uma vez a cada duas semanas, pois mais do que isso poderia irritar os leitores e aí…’game over’ para nós“.

8] Adolescentes são um mundo à parte: uma pesquisa extensa sobre o mercado de livros digitais infantojuvenis feita pela empresa americana Bowker revela que a maioria dos adolescentes gosta muito de livros digitais. Mas uma parte significativa dos jovens americanos prefere o exemplar físico. E por quê? Um: eles não podem emprestar livros digitais aos amigos. Dois: há coisas digitais demais e eles estão fatigados. Três: eles não querem carregar nada além do celular.

9] Nunca se esqueça dos pais: os pais ainda controlam a leitura dos filhos e fazem questão de olhar o livro todo antes de comprar. Segundo Gallagher, da Bowker, “eles têm medo de serem substituídos por máquinas e querem produtos que permitam interagir com os filhos”. Uma pesquisa feita pela companhia também mostra que pais, professores e amigos influenciam mais os filhos do que qualquer propaganda ou mídia.

10] E nunca se esqueça do público final: segundo Deborah Forte, presidente da Scholastic Media e vice-presidente executiva da Scholastic, uma pesquisa encomendada pela empresa mostra que as crianças lêem mais quando elas mesmas escolhem seus livros. Já segundo Gallagher, da Bowker, o público juvenil é mais influenciado pelas opiniões de pessoas da sua idade do que por anúncios no Facebook.

Por Roberta Campassi | Publicada originalmente em PublishNews | 13/10/2011